12 de setembro de 2017

Capítulo nove

FEZ-SE SILÊNCIO AO REDOR da mesa. Todos ficaram estupefatos – todos exceto Sherlock, que esperava por isso, e provavelmente Amyus Crowe também.
— Meu Deus! — Quintillan exclamou. — Ambrose, meu caro amigo! O que aconteceu? Onde você esteve?
Muito convincente, Sherlock pensou, considerando o fato de que você é quase certamente parte da conspiração.
Albano desabou teatralmente sobre uma cadeira vazia. Ele gesticulou para um criado.
— Vinho! — pediu com sua voz fina, esganiçada. — Eu preciso de vinho! Não tenho comido nem bebido desde que fui levado.
— Quem o levou? — perguntou Herr Holtzbrinck, mas Albano apenas acenou com um braço.
— Eu buscava descobrir quando fui levado dos meus sequestradores para o Outro Lado.
O criado serviu o vinho em uma taça grande e colocou-a na frente de Albano. Ele bebeu de uma só vez.
— Conte-nos tudo — Quintillan insistiu. — Não deixe nada de fora.
— Lembre-se que eu lhe disse que estava partindo, após o ataque ao representante britânico — disse Albano. — Eu estava, talvez, sendo excessivamente melodramático, mas eu tinha total intenção, no momento, de descer todo o caminho até Galway e encontrar um jeito de voltar para a cidade grande, onde eu poderia desaparecer por um tempo. Todos vocês viram a carruagem que adentrou os terrenos do castelo, e os dois homens mascarados que pularam e me agarraram. — Ele olhou de soslaio para Amyus Crowe. — Exceto você. Acredito que você não estava lá.
— Amyus Crowe, representando o governo dos EUA — Crowe esticou sua grande mão em direção Albano. — Prazer em conhecê-lo, senhor.
Albano olhou para a mão com palpável desconforto, como se Crowe estivesse segurando um peixe estendido.
Crowe retirou a mão depois de um tempo.
— Eles jogaram meu corpo dentro da carruagem — Albano continuou — que então chacoalhava afastando-se tão depressa que pensei que meus dentes cairiam! Havia outro homem na carruagem, aquele que não tinha saído com os outros dois. Que, junto com o condutor, totalizavam quatro homens.
Crowe olhou para Sherlock de maneira significativa. Sherlock sabia o que ele estava pensando. Por que Albano estaria fazendo tal alarde sobre o número de homens que o sequestraram, a menos que fosse importante de alguma forma?
— Esse outro homem na carruagem pôs o pé em meu peito, e disse: “Você, psíquico. Você nos fornecerá seus serviços agora, e gratuitamente. Não nos candidataremos como pessoas comuns. Você nos colocará em contato com os mortos, ou você mesmo morrerá!
— Ele tinha algum sotaque? — perguntou o conde Shuvalov, cuidadosamente inclinando-se para frente.
— Sim — respondeu Albano — mas não consegui identificá-lo.
Shuvalov recostou-se novamente, desapontado.
— Eu estava apavorado, é claro — Albano continuou. Ele olhou ao redor da mesa, fazendo contato visual com todos sentados ali. — Sabia que tinha caído nas garras de um grupo de bandidos sanguinários que exploraria minhas habilidades sem cessar. — Ele cerrou o punho da mão direita e bateu em cima da mesa. — E aí foi quando decidi entrar em contato com meus guias espirituais e pedir-lhes ajuda!
— Certamente — von Webenau murmurou.
— Enviei ondas de energia mental no plano astral através do meu cristal psíquico — ele estendeu a mão e tocou o olho falso. O olho fez um som de clique. — E eles responderam. Sentindo minha angústia e meu terror, vieram até mim e levaram-me para fora deste mundo e para dentro do deles. Meu corpo desapareceu da carruagem. Eu posso até imaginar os olhares nos rostos dos três homens ali dentro. Depois disso... — ele fez uma pausa dramática. — Não posso dizer sobre o que aconteceu aqui na Terra.
— A carruagem espatifou-se — disse Quintillan. — Talvez a mudança repentina de peso – quando o seu corpo físico desapareceu – de alguma forma a tenha desequilibrado. Todos nós a vimos se quebrar, e vimos quatro homens mascarados fugirem. Sendo eles o condutor, os dois homens que o raptaram, e o terceiro que estava dentro da carruagem.
Mais uma vez, Crowe olhou para Sherlock. A mensagem era clara: Albano e Quintillan faziam entre si um bocado de teatralidade quanto ao número de homens que foram vistos. Mas por quê?
— Vocês conseguiram capturar os homens? — perguntou Albano. — Quem eram eles?
Quintillan balançou a cabeça.
— Eles fugiram. Todas as tentativas de localizá-los falharam.
— Sem dúvida, mandados por alguma potência estrangeira inescrupulosa que não foi convidada para este leilão — disse Herr Holtzbrinck de maneira sombria.
— Mas para onde você foi? — von Webenau perguntou, impressionado. — Como se parecia?
Albano sorriu e balançou a cabeça.
— Não há palavras para explicar. O plano astral é... diferente de tudo o que já experimentei. O tempo flui de forma distinta lá. O espectro tem cinco cores a mais do que estamos acostumados na terra, e não há necessidade de conversação já que os pensamentos podem ser ouvidos diretamente. Alimentos e bebidas não existem - em vez disso, os espíritos dos falecidos alimentam-se de sua própria luz, que fornece todos os nutrientes de que necessitam. É um lugar bonito e extraordinário. Eu desejei poder ficar, mas meus salvadores explicaram-me que era necessário que eu voltasse à terra. Estou, segundo eles, destinado a ser a ponte que liga o mundo dos vivos e dos mortos. Assim, quando eles determinaram que meu retorno era seguro, puseram-me aqui de volta, com vocês — ele abriu os braços — meus amigos.
Essa foi, Sherlock teve que admitir, uma performance dramática bastante convincente. Se ele não tivesse visto a parafernália de truques de Albano escondidos no quarto do homem e descoberto que a carruagem tinha sido sabotada, poderia até ter se deixado levar.
— Mas, certamente, você pode nos contar alguma coisa do plano astral? — von Webenau pressionou. — Se... se alguém lhe deu uma mensagem para alguém daqui?
— Havia espíritos ansiosos para falar comigo — Albano admitiu. — Eu disse a eles para esperarem – que haveria uma chance esta noite para realizarmos outra sessão durante a qual eles poderiam falar com aqueles que estão aqui. — Ele olhou para Quintillan. — Está tudo certo, não está? A sessão ainda vai acontecer?
— Temo que você possa estar muito cansado — disse Quintillan. — Talvez devêssemos deixá-lo descansar.
Sherlock tinha quase certeza de que Quintillan protestava mais pelo efeito do que pela seriedade. Os protestos repentinos de Holtzbrinck e von Webenau fizeram Sir Sadrach levantar as mãos em sinal de rendição.
— Muito bem – iremos em frente. Se você tiver certeza de que está forte o suficiente.
— Terei que estar — disse Albano, levando a mão à cabeça. — Os espíritos no plano astral dependem de mim.
O jantar, quando chegou, foi tão variado e tão interessante quanto tinha sido na noite anterior. A sopa era de frutos do mar novamente, mas em vez de creme de tartaruga, era um bisque de lagosta. O prato principal foi coelho assado em um molho de mostarda com espargos e crambe-marinha como acompanhamento. A sobremesa foi uma torta.
Em todo o decorrer da refeição a conversa era sobre o que havia acontecido com Ambrose Albano. Os representantes austro-húngaro, alemão e russo importunaram-no com perguntas sobre como se parecia o plano astral, como ele se sentiu enquanto estava lá e se ele tinha encontrado algum espírito dos famosos já mortos. Albano respondeu às perguntas com respostas longas e complicadas, acompanhado por muitos gestos de braço e elegância, descrições floridas, mas Sherlock percebeu que suas respostas continham um monte de palavras e não muitos fatos concretos.
Sir Sadrach Quintillan atuava como uma espécie de orquestrador, Sherlock notara. Ele fazia algumas perguntas, mas elas eram bastante genéricas e fáceis de responder, e seu papel principal parecia ser o de interromper educadamente se o questionamento se tornasse muito intenso ou pontiagudo e direcionar a conversa para algo mais simples que Albano pudesse ilustrar com exemplos mais ambíguos. Sherlock não tinha certeza se os outros convidados tinham enxergado o papel de Quintillan como elemento de distração, mas o representante americano certamente notara. O rosto de Amyus Crowe estava fixado em um sorriso interessado, mas sua sobrancelha direita se levantou de uma forma que Sherlock sabia ser de ceticismo e irritação expressa. Ele não fez nenhuma pergunta, o que provavelmente fora o melhor. Sherlock suspeitava de que, se o fizesse, então tentaria enganar ou emboscar Albano, e com a mente afiada de Crowe, seria um massacre.
De vez em quando, durante a refeição, Sherlock tornou-se ciente de que tanto Virginia quanto Niamh olhavam para ele. Ele olhava de volta, mas elas desviavam o olhar rapidamente. Ele sentiu-se estranho; como se houvesse alguma coisa acontecendo de que ele não estava bem ciente, um significado implícito para os olhares que se perdiam nele.
Ele notou, de passagem, que o criado do conde Shuvalov tinha faltado. O corpulento russo com o rigoroso corte de cabelo não estava em seu lugar habitual, de pé atrás de seu mestre. Em vez disso, um dos criados do castelo o substituía.
Sherlock dirigiu à Ambrose algumas de suas próprias perguntas. Durante uma pausa na conversa, ele disse com aparente ingenuidade:
— O senhor ficou com medo quando foi ameaçado na carruagem?
Albano sorriu de uma forma gentil. Ele já havia respondido a essa pergunta durante o seu discurso, quando reaparecera, e ele, obviamente, pensou que Sherlock tivesse esquecido em seu nervosismo de substituir seu irmão à mesa. Esse não era o caso: Sherlock lembrava muito bem da resposta, mas esperava que Albano a repetisse para que ele pudesse usar a resposta como base para o seu verdadeiro questionamento. Era como entregar uma bola fácil para um rebatedor de críquete sabendo que ele escolheria o caminho fácil e a bateria para onde você queria – onde um defensor estaria esperando para pegá-la.
— Eu estava com medo — Albano respondeu como se falasse com uma criança. — Os sequestradores, quem quer que fossem, ameaçaram me matar se eu não cooperasse com eles.
— Mas se o plano astral é tão empolgante e pacífico, e tão cheio de espíritos interessantes — disse Sherlock inocentemente — então por que ter medo de morrer? Por que qualquer um deveria ter medo da morte?
Albano lutou com uma resposta. Sherlock não desviou o olhar do rosto de Albano, mas com o canto do olho, podia ver Amyus Crowe sorridente.
— A morte, de fato, é apenas um portal entre este lugar e um melhor — Albano disse lentamente afinal — mas, por vezes, a transição pode ser... dolorosa. Há muitas maneiras de morrer, e suspeito que meus sequestradores teriam escolhido uma particularmente desagradável para mim. Confesso com algum embaraço que, embora eu não tenha medo da morte, não estou interessado em ser ferido – especialmente por um longo tempo. — Ele sorriu. — Isso responde a sua pergunta, meu jovem?
— O senhor desejou ter continuado lá? — Sherlock perguntou inocentemente em resposta.
— Perdão?
— Se o plano astral é tão acolhedor e confortável, o senhor desejou ter continuado lá?
Albano franziu o cenho.
— Bem, até certo ponto, sim, suponho eu. A existência lá é muito mais pacífica que a daqui. — Sua voz assumiu um tom mais dramático, conforme ele começou a deslizar para o que Sherlock reconheceu como uma resposta padrão que ele tinha usado várias vezes, com alguma variação. — Não há dor, nem infelicidade. Lá há somente... paz e muita alegria.
— Então por que o senhor voltou? — Sherlock perguntou simplesmente.
— Eu... Eu ainda tinha um trabalho a fazer aqui. — Albano parecia querer estar em outro lugar. — E, claro, eu podia sentir os chamados mentais dos senhores aqui, que me desejavam de volta para que eu pudesse trazer-lhes as boas novas do Outro Lado. Será que isto... Será que isto responde a sua pergunta?
— Responde, obrigado — confirmou Sherlock. Antes que Albano pudesse dizer alguma coisa, ele acrescentou: — Será que as pessoas más vão para o plano astral?
— O quê? — o rosto de Albano ficou enrugado em confusão.
— Bem, o senhor disse que o plano astral é um lugar acolhedor e tranquilo cheio de espíritos amigáveis, mas tem havido muitas pessoas más na história. Se eles estão no plano astral também, porque o senhor não as mencionou? Se eles estão lá, ainda são maus? Se seus sequestradores houvessem morrido no acidente de carruagem, em vez de fugido, será que eles acabariam no plano astral com o senhor? O que teria dito a respeito?
O silêncio de Albano desta vez foi maior do que antes.
Quintillan tentou interromper, mas Amyus Crowe levantou a mão para detê-lo.
— É uma boa pergunta — Crowe disse — e eu gostaria de ouvir a resposta.
— Existem muitos... ah, graus, ou... ou níveis... da existência no plano astral — Albano  respondeu lentamente. — Em que nível você terminará, depende de suas ações durante a vida.
— Então, é como o céu e o inferno — Virginia interrompeu de onde estava, mais abaixo na mesa. — Assim como somos ensinados na igreja.
— Não são como o céu e o inferno de maneira alguma — Albano rebateu. — Essas são coisas absolutas e opostas. O plano astral é mais sutil do que isso. Os conceitos ensinados pela igreja cristã precisam ser atualizados para refletir a realidade.
Teria sido mais fácil, Sherlock pensou, se ele tivesse simplesmente dito que não sabia. Ele se meteu em um buraco agora.
— Portanto, não há conceito de castigo pelo pecado no plano astral? — perguntou Herr Holtzbrinck, confuso. — Isso parece irracional e injusto.
— Não — Albano falou, e acrescentou rapidamente: — Bem, sim, mas não é a punição como nós a entendemos aqui na terra...
Sherlock arriscou um olhar para Amyus Crowe. Ele acenou para Sherlock, e fez um pequeno movimento de bater palmas com as mãos.
— O senhor mencionou cores que existem no plano astral que não temos aqui — Quintillan interrompeu. — Existe alguma maneira de descrever estas novas cores para nós?
— Ah — exclamou Albano, obviamente aliviado por ter sido resgatado de uma conversa difícil. — Sim, existe, por exemplo, uma nova cor localizada entre o verde e o azul que não temos palavra para descrever e nenhuma concepção semelhante, mas que os espíritos do plano astral chamam-na elichori. Olhar para essa cor pode trazer sentimentos de intenso foco e concentração...
A conversa continuou assim por um tempo, e Sherlock não sentiu nenhum grande desejo de interromper novamente. Ele já tinha mostrado, para sua própria satisfação, que Albano estava inventando tudo isso conforme prosseguia, e não tinha uma real visão coerente do plano astral.
Após pratos de queijo e biscoitos terem sido servidos, seguidos de pequenas xícaras de café, Quintillan disse à Albano:
— Meu amigo, não tenho nenhum desejo de colocá-lo sob qualquer estresse, dado os terríveis acontecimentos que se abateram sobre você, mas o senhor se sente forte o suficiente para tomar parte em uma pequena sessão? Estes senhores viajaram uma longa distância para vê-lo em ação, e seria uma desonra negar isso a eles.
Von Webenau e Holtzbrinck balançavam a cabeça como filhotes ansiosos por isso. Conde Shuvalov era mais contido, sentado em sua cadeira casualmente, mas balançava a cabeça ligeiramente de acordo. Amyus Crowe olhou para Sherlock e deu de ombros, como se dissesse: Por que não? Vamos deixá-lo mostrar seus truques.
Albano respirou fundo.
— Este excelente jantar ajudou-me a relaxar. E o fato de que estive recentemente no plano astral significa que ainda sinto uma forte conexão com ele. Creio que eu poderia ser capaz de manifestar algumas aparições de espíritos, mas não posso prometer nada. Minha passagem de ida e volta agitou as correntes psíquicas, e os espíritos podem não ter a força necessária para fazer a jornada para este lado.
O que era, Sherlock pensou, uma ótima desculpa se a sessão fosse um fracasso: soava misterioso e convincente, mas não dizia absolutamente nada.
Quando levantou-se, Sherlock sorrateiramente removeu uma faca da mesa e colocou-a em sua manga. A faca era feita de prata, e pesada. Ele podia sentir o material pesando. Se a batesse contra a mesa no cômodo onde a sessão seria realizada, faria um ruído alto, e Sherlock tinha a suspeita de que possivelmente precisaria fazer isso nem que fosse apenas para lançar Albano para fora de seu jogo.
Os sete homens sentados ao redor da mesa – incluindo Sherlock – fizeram o seu caminho para a sala onde a sessão havia acontecido na noite anterior. Niamh Quintillan tentou apelar para o pai para deixá-la assistir, mas ele negou.
— Você e a Srta. Crowe irão para a sala de estar. Tenho certeza de que vocês tem muito sobre o que falar.
Olhando para a carranca no rosto de Virginia, Sherlock não tinha tanta certeza, mas ele não disse nada.
Os arranjos eram exatamente os mesmos que os da noite anterior. Todos se sentaram ao redor da mesa, que ainda estava marcada com letras, números e as palavras “sim” e “não”, e a lousa em branco que estava colocada em cima da mesa à frente de Albano. O psíquico fez um grande estardalhaço ao pedir a alguém – Amyus Crowe desta vez, já que ele não estivera presente na noite anterior – para examinar a lousa e a mesa para garantir que não houvesse truques, nem mensagens escondidas, nem chapas extras, mas Sherlock tinha certeza de que ele já teria escondido o dedal branco com a ponta de giz dentro de seu casaco, seguro pelo cordão elástico para que pudesse ser rapidamente puxado quando ele terminasse.
Do lado de fora das janelas relampejou novamente, delineando as cortinas com uma luz branca. Momentos depois, Sherlock ouviu um trovão mais uma vez. Era, pensou, um cenário perfeito para uma sessão. Albano e Quintillan não poderiam ter arranjado algo melhor se tivessem tentado.
Quintillan olhou ao redor da mesa.
— Senhores, estamos todos prontos?
Todos assentiram.
Albano colocou as mãos sobre a mesa, com as palmas para baixo, e jogou a cabeça para trás.
— Tem alguém aí? — ele chamou. — Espíritos do plano astral, eu pergunto mais uma vez: tem alguém aí? Qualquer um que tenha alguma mensagem para alguém em torno desta mesa? Se tiver, bata uma vez para “sim” e duas vezes para “não”.
Nada aconteceu. A tensão na sala era tão palpável, Sherlock pensou, quase como alguma forma de ectoplasma. Ele se perguntou brevemente se o espírito da criada morta – Máire – apareceria e responderia a perguntas sobre onde ela tinha morrido e por que seu corpo havia sido movido, mas isto era, talvez, demais de se esperar. Nada era tão conveniente.
— Eu pergunto novamente: há alguém aí? Será que algum espírito tem a força e a vontade de atravessar as correntes astrais para estar conosco aqui esta noite?
Mais uma vez, por um longo momento, não houve nada, e então um grande bang ecoou pela sala. Von Webenau pulou em seu assento.
— Você tem uma mensagem?
Outro estrondo.
— Gostaria de soletrar a mensagem utilizando as letras, números e palavras em torno desta mesa?
Bang! Bang!
Agora que estava ciente de que a sessão era inteiramente feita de truques, Sherlock se perguntou como as batidas estavam sendo feitas.
Tinha que ser algo simples, como Albano, ou possivelmente Quintillan, batendo seu sapato contra uma das pernas da mesa. Quem quer que fosse poderia até ter um reforço de madeira em sua sola para tornar o som mais alto.
— É o espírito conhecido como Invictus?
Bang!
— Você poderia escrever a mensagem para nós nesta lousa? — perguntou Albano, tocando a lousa na frente dele.
Bang!
Albano pegou a lousa com ambas as mãos e a ergueu de modo que ficou claro que não havia mensagem sobre ela. Ele a virou para que todos pudessem ver os dois lados, e depois apertou-a contra o peito com as duas mãos. Ele balançou para a frente e para trás algumas vezes, ainda segurando a lousa, mas Sherlock notou que, conforme balançava, ele movia a lousa mais e mais para baixo, até que esta ficou abaixo do nível da mesa, contando com o movimento de seu corpo para prender a atenção de todos. Sherlock vigiou seus braços cuidadosamente, e viu o momento em que Albano pôs a mão direita da lousa, colocou o dedal no dedo indicador por baixo da mesa e cegamente rabiscou uma rápida mensagem.
O psíquico jogou a cabeça para trás como se estivesse em algum de estado de transe ou de convulsão, mas Sherlock notou que ele usou o movimento para desviar a atenção do fato de que tinha trazido a lousa de sob a mesa novamente. Não que ele estivesse apenas tentando convencer os observadores de que a lousa esteve sempre acima do nível da mesa – ele já tinha empenhado alguns esforços para mostrar-lhes que não havia truques ou adereços sob a mesa –, Sherlock assumiu que ele não queria que eles pensassem demais sobre onde a lousa estava ou o que estava acontecendo com ela. Albano levantou a lousa para o alto, de frente para os observadores.
— Há uma mensagem? — perguntou ele.
Este era um toque especial, Sherlock decidiu. Claro que havia uma mensagem – ele mesmo a escrevera – mas a pergunta fazia soar aos observadores como se ele estivesse sendo pego de surpresa.
— Sim — von Webenau exclamou.
— Por favor, leia-a.
— Alguém nesta mesa — von Webenau leu devagar — não acredita!
A mensagem de giz na lousa era perfeitamente legível – pelo menos, para Sherlock – mas tê-la lida dava um toque mais dramático.
Albano olhou ao redor da mesa.
— Isto é verdade? — ele perguntou, chocado. — Há alguém aqui que não acredita? Não é coisa fácil para os espíritos dos mortos rasgarem o véu entre os mundos. Se eles acharem que seu tempo está sendo desperdiçado, eles podem decidir por suspender.
Von Webenau e Holtzbrinck protestaram sua crença em voz alta; Shuvalov, Crowe e Sherlock protestaram em termos ligeiramente menos volúveis. Albano assentiu.
— Muito bem — ele ergueu a voz. — Oh, espíritos, nós vos rogamos, por favor, continuem a comunicar-se conosco. Existe alguma outra mensagem – talvez para alguém em específico?
Bang!
A mesa vibrou, jogando a placa de madeira de lado de onde ela repousava no centro.
Albano passou pela mesma rotina de antes, balançando para frente e para trás e segurando a lousa por debaixo da mesa. Desta vez Sherlock sabia que ele estava apagando a primeira mensagem de giz com o lateral de suas luvas brancas antes de escrever uma nova.
Quando ele ergueu a lousa novamente, a escrita de giz dizia: Eu tenho uma mensagem da esposa de um presente.
Os olhos de Sherlock foram atraídos para Amyus Crowe. Ele sabia que a esposa de Crowe havia morrido a bordo do navio que trouxe sua família da América para a Inglaterra. Crowe raramente falava sobre ela, e Sherlock se perguntou se o homem reagiria agora.
A mandíbula de Crowe estava fortemente cerrada. Sherlock podia ver os músculos tensos sob suas bochechas. Ele não disse nada.
— Há alguém aqui que tenha perdido a sua amada esposa? — perguntou Albano. — Se assim for, tenha a certeza de que ela está feliz e bem.
Sherlock olhou ao redor da mesa. Shuvalov, ele sabia, era solteiro. Mycroft tinha mencionado isso em algum momento no passado. Sobre Von Webenau e Holtzbrinck ele não tinha certeza, mas a julgar pelo olhar de expectativa em seus rostos, ambos estavam à espera de alguém apresentar-se. Quintillan tinha perdido a esposa, é claro, mas ele fazia parte do enredo, não era uma vítima dele: nenhum dos representantes estrangeiros ficaria impressionado com uma mensagem do vidente para o homem que estava organizando a sessão. Não, isso tinha que ser destinado a Amyus Crowe, e Sherlock sentiu que uma centelha de raiva inflava em chamas dentro de seu peito. Este era um passo além dos truques e incorria em abuso. Quintillan e Albano devem ter pesquisado cada um dos representantes internacionais antes de eles terem chegado, buscando em particular sobre parentes ou amigos que houvessem morrido. Eles haviam jogado com o irmão morto de Holtzbrinck na noite anterior, e agora usavam a esposa falecida de Crowe. Haveria, se Crowe se apresentasse e aceitasse a comunicação, alguma mensagem sem sentido sobre ela estar feliz, e pedindo-lhe para não chorar por ela. Para alguns, isso poderia ser um conforto, mas Crowe saberia que estava sendo enganado, e a raiva que sentia poderia levá-lo a fazer algo pelo qual, como representante de seu governo, poderia arrepender-se mais tarde.
— Sir Sadrach — Sherlock sussurrou, olhando através da mesa para o homem na cadeira de rodas. — É possível que a mensagem seja para o senhor?
Ele sabia que não, mas queria dar a Crowe a chance de se acalmar.
O olhar de Quintillan pestanejou para Albano e então retornou para Sherlock. Ele, obviamente, não queria aceitar a mensagem para si – queria Crowe a aceitasse – mas, teoricamente, poderia ser para ele.
— É uma mensagem para Sir Sadrach? — Albano perguntou para o espaço acima da mesa, vindo em socorro de Quintillan.
Bang! Bang!
— Então deve haver outra pessoa aqui que perdeu sua amada companheira — Albano persistiu. Ele olhou ao redor da mesa, não deixando que seu olhar se fixasse sobre Crowe para não entregar o fato de que ele sabia muito bem quem era o alvo, mas certificando-se de, pelo menos, olhar para Crowe no caminho. Era uma batalha de vontades entre os dois homens que Sherlock sabia que tinha de interromper, caso contrário, poderia haver violência.
Crowe não se apresentaria e admitiria que sua esposa estava morta. Ele não deixaria a memória dela ser contaminada por truques e fraudes.
— É uma mensagem para von Webenau?— Albano continuou.
Bang! Bang!
Sherlock sabia o que estava para acontecer. Albano percorreria a mesa um por um. Tendo em conta que ele próprio estava fazendo o som de batida, ele seria capaz de escolher o homem que queria – Amyus Crowe – e Crowe teria que aceitar ser uma vítima de seus truques ou teria de protestar.
Sherlock deslizou a faca – a que ele tinha tirado da mesa de jantar – para fora de sua manga. O peso descansou na palma de sua mão por sob a mesa. Ele a virou de modo a segurar a lâmina, e o punho – a parte mais pesada – ficou apontada para cima.
— A mensagem é para o Sr. Crowe? — Albano perguntou, deliberadamente sem olhar para Crowe.
Antes que o pé de Albano pudesse golpear a perna da mesa, ou o que quer que ele fizesse para produzir o ruído, Sherlock bateu o cabo da faca com força contra a parte de baixo da mesa duas vezes.
Bang! Bang!
O ruído não era exatamente o mesmo que Albano vinha fazendo, mas era perto o suficiente. A maioria dos homens ao redor da mesa tomou isto como certo, mas Ambrose Albano e Sir Sadrach Quintillan contraíram-se. Eles sabiam que não era Albano fazendo esse barulho. Mais do que isso, sabiam que seu plano de levar Crowe a aceitar a mensagem falsa de sua esposa falecida estava agora acabado. O problema era que eles não podiam dizer que esta batida era uma farsa sem admitir que eles estavam produzindo as batidas até agora.
A boca de Albano torceu-se em irritação – uma expressão momentânea que só Sherlock, e provavelmente Crowe, notaram. Seu olhar cintilou em torno da mesa, tentando identificar quem havia feito o som inesperado. Um por um, ele questionou ao espírito em sucessão para saber se ele tinha uma mensagem para o restante dos homens – Herr Holtzbrinck, Shuvalov, von Webenau, o próprio Sherlock e até mesmo o ausente Mycroft – mas seu coração, obviamente, não estava mais nisso, e as repetições da dupla batida foram superficiais. Quando ele tinha esgotado todos os possíveis candidatos, anunciou:
— Temo que os espíritos tenham ficado confusos com a turbulência nas correntes psíquicas. A mensagem que detêm deve ser para outra pessoa, em outro lugar. Não importa. Vamos pressionar.
Sherlock olhou rapidamente para Amyus Crowe. O rosto de seu amigo e mentor estava branco e tenso, com os lábios apertados de raiva, mas ele acenou em gratidão para Sherlock.
— Sinto que por esta noite não haverá mais mensagens por vir — Albano continuou, irritado — mas se tivermos sorte, então talvez um dos espíritos sinta-se capaz de manifestar-se diretamente à nossa frente. Por favor, todos vocês, concentrem-se em fazer os espíritos sentirem-se bem-vindos aqui. Peçam a eles, em suas mentes e seus corações, para que apareçam para nós. Suprimam qualquer descrença em seus corações.
Ele inclinou-se para frente e ergueu as mãos até o rosto. Desta vez, sabendo o que estava por vir, Sherlock percebeu que ele estava usando este gesto teatral para esconder a transferência de algo da sua mão para a boca – quase certamente uma pílula do material fino de sua caixa escondida, extremamente compactado, a que ele, então, produziria como ectoplasma – mas ele não conseguiu identificar o real momento da transferência.
Albano agora acenava com as mãos no ar. Sherlock olhou atentamente para ele, e viu que sua bochecha direita estava um pouco inchada. Algo estava em sua boca que não tinha estado lá antes.
— Eu posso senti-los! — ele gritou, com a voz um pouco abafada pelo objeto na boca. — Estão chegando!
Suas mãos faziam movimentos agarrando o ar, e Sherlock percebeu que ele tateava em busca de fios muito finos com ganchos que deviam estar penduradas no teto e que seriam usados para puxar o material na forma de uma mortalha ou um espírito. Na escuridão da sala, eles seriam invisíveis. Na noite anterior, seus gestos pareciam razoáveis, apesar de exagerados, mas agora que Sherlock sabia o que o homem estava fazendo, ele não conseguia enxergar como podia ter sido enganado.
As mãos de Albano devem ter encontrado os ganchos nas extremidades dos fios, porque ele levou as mãos de volta para a boca e tossiu convulsivamente – uma vez, duas vezes – para expelir o material e sub-repticiamente anexar os fios a ele. Sacudindo a cabeça para trás, ele lentamente levou as mãos para longe de sua boca novamente. Entre elas, uma forma branca fantasmagórica começou a se expandir.
Suspiros encheram a escuridão conforme os representantes austro-húngaro, russos e alemães reagiram ao aparecimento da forma espiritual.
Os ganchos e fios erguiam o material em uma aproximação grosseira de uma forma humana envolta em mortalha. Dentro da mortalha, uma face nadava dentro da existência. Na noite anterior tinha sido uma jovem mulher; esta noite era uma mulher idosa, marcada e enrugada. Sherlock olhou ao redor, tentando localizar onde o projetor de luz deveria estar, mas não pôde vê-lo. A lente devia estar encoberta de alguma forma, de modo que apenas a pessoa diretamente à frente dela – Albano – seria capaz de vê-la, mas o material em expansão proporcionava uma tela perfeita para a ilusão.
Sherlock ainda podia sentir a raiva em seu peito que estivera lá desde que Albano tentara forçar Amyus Crowe a aceitar uma mensagem falsa de sua falecida esposa. Ele não podia apenas ficar sentado ali e deixar esta farsa continuar ainda mais. Seu irmão quase certamente a teria deixado continuar, mas Sherlock sentia-se banalizado por isto.
— Pare! — ele gritou, e se levantou.

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