20 de setembro de 2017

Capítulo doze

A HISTÓRIA ERA BASICAMENTE a mesma que Ferny contara a eles, com algumas mudanças de ênfases, mas na voz de Mortimer Maberley a história ganhou um toque de urgência. Ele viveu esses eventos, e era óbvio pelo seu tom e sua expressão que acreditava totalmente no que tinha acontecido. Quando começou a falar da visão das copas das macieiras logo ali, na janela do quarto, num lugar que não deveriam estar, sua voz foi preenchida com terror.
A ordem natural das coisas estava errada – a natureza não estava como deveria e ele estava assustado.
— O senhor diz que tentou ficar acordado para ver as coisas começarem. Como exatamente tentou? — Sherlock perguntou.
— Uma noite tentei fazer um bule de café bem forte — Maberley respondeu — e beber uma xícara a cada meia hora. Outra noite segurei um sino, então se eu dormisse, o sino faria barulho, ou até mesmo cairia no chão, e eu acordaria. Numa terceira vez, fiquei de pé a noite toda. — Ele começou a rir. — Na quarta noite eu tentei equilibrar uma jarra de água na cabeça, mas foi um desastre desde o começo. Mas não importava o que eu tentasse, nas noites em que a casa se movia para o pomar eu caía no sono e acordava por alguns instantes, então dormia de novo.
— Ou — Sherlock acrescentou, como havia feito antes com Fernon Weston — nas noites em que o senhor dormiu apesar de todos os esforços foram as noites em que a casa se moveu. Nós não sabemos, ainda, o que ocasionou o outro, se é que estão relacionados.
— Você acha que estão — Matty disse com excitação. — Eu conheço essa expressão. Você sabe o que está acontecendo.
— Eu sei algumas partes — Sherlock cedeu. — O resto estou começando a descobrir. Só preciso fazer duas perguntas, então meu amigo e eu precisaremos dar uma olhada ao redor.
— Tudo bem — Maberley concordou.
— Primeiramente, naquelas noites em que a casa aparentemente se moveu e o senhor dormiu profundamente, você se sentiu descansado quando acordou?
Maberley pensou um pouco antes de responder.
— Não. — disse lentamente. — Na verdade, acordei e senti como se minha cabeça pesasse uma tonelada e tive dificuldades para andar.
— Ah, muito interessante. E posso perguntar sobre as janelas da casa, o senhor as abre com facilidade?
— Elas costumavam abrir, mas acredito que as molduras de madeira tenham dilatado. Deve ter a ver com a umidade no ar. Eu não consigo abri-las agora, mesmo se tentar com toda a minha força. Se preciso de ar na casa, abro a porta da frente e deixo o vento fazer o seu trabalho.
— Exatamente como pensei — Sherlock falou. Ele olhou para Matty. — Certo, você pode checar toda a área externa enquanto eu checo a interna? Fazemos assim por uma hora e depois trocamos. Se um de nós deixar algum detalhe passar, o outro encontrará.
— O que estou procurando? — Matty perguntou.
— Qualquer coisa fora do comum.
— Você quer limitar as opções?
— É claro que não.
— E eu — Maberley anunciou — farei uns sanduíches. Patê de peixe?
Durante os próximos sessenta minutos, Sherlock visitou cada cômodo da casa. Alguns estavam repletos de coisas como a sala, outros estavam vazios. Todos tinham aquele cheiro de remédio.
Lembrando-se da história que Ferny Weston contou a eles sobre os refugiados Cavalier se escondendo dos Cabeças Redondas de Oliver Cromwell na casa durante a Guerra Civil inglesa, Sherlock vasculhou todas as paredes e pisos em busca de passagens secretas. Ele andou vagarosamente por todos os cômodos e checou as dimensões em comparação com os corredores externos, mas não havia discrepância. Até onde podia dizer, e ele tinha muita experiência, não havia nenhum cômodo secreto em lugar qualquer lugar da casa, nenhum lugar onde ao menos uma pessoa pudesse se esconder, quem dirá várias. Nenhum buraco de padre, nada. Ou ele estava deixando alguma coisa passar, ou a lenda familiar não era verdadeira.
Sherlock também vasculhou todas as janelas da casa conforme andava. Ele descobriu, como esperava, que as janelas tinham sido pregadas e por isso não abriam, os pregos indo da base das molduras até o peitoril. As cabeças dos pregos tinham sido pintadas de marrom para que não fossem vistas a não ser que se procurasse por elas. Assumindo que Maberley não fez isso por conta própria e se esquecera do fato, alguém esteve dentro da casa sem ele saber, e há algum tempo.
Sherlock também encontrou buracos nos rodapés de madeira de todos os cômodos. À primeira vista, pareciam buracos de ratos, mas eram estranhamente regulares, como se tivessem sido furados ao invés de roídos ou arranhados. Não havia nenhum sinal de ratos por ali.
Ele cruzou com Maberley na escada, ele descendo, Maberley subindo.
— Por um acaso o senhor já achou que algumas de suas posses tivessem sido mudadas de lugar ou bagunçadas?
— O inverso, na verdade — Maberley respondeu, passando a mão pelos seus cabeços brancos. — Antes de todos esses acontecimentos bizarros da casa andando no meio da noite havia alguns dias em que eu achava a casa mais organizada que o normal. Era bem estranho.
Mais tarde, quando Sherlock revistava a cozinha, Maberley entrou para fazer outra xícara de chá.
— O senhor já teve problemas com ratos, baratas ou outro tipo de praga? — Sherlock perguntou por cima do ombro.
— Eu costumava ter — Maberley deu de ombros. — Eles parecem ter desaparecido agora. Acho que o movimento da casa os assustou.
— Há uma explicação. — Sherlock murmurou.
— Perdão?
— Explicarei mais tarde.
No fim de uma hora ele encontrou Matty no corredor.
— Alguma coisa?
— Buracos nas paredes — Matty respondeu. — Eles não são naturais.
— Sim, encontrei alguns dentro da casa. Mais alguma coisa?
Matty fez que sim.
— Algumas. Venha ver isso.
Ele guiou Sherlock para o lado de fora, até um monte de grama e ervas daninhas que formavam o gramado. Ele gesticulou para um trecho que não parecia ser diferente do resto.
— O que faz isso? — Matty perguntou.
Sherlock olhou mais de perto, mas não viu nada.
— Faz o quê? — ele perguntou.
Matty olhou ao redor, frustrado.
— Venha cá — ele disse, puxando Sherlock pelo braço. — É mais fácil de ver se a luz do sol estiver atrás de você.
Sherlock olhou novamente, e então pôde ver do que Matty falava. Havia um trecho circular de grama que era minimamente diferente do resto. Sherlock não tinha certeza se era um pouco mais verde, ou um pouco mais alto, ou o quê.
— Um tipo de fungo? — ele chutou.
— Ou um anel de fadas — Matty apontou. — Eu não sei o que é, mas existem alguns deles.
Sherlock estimou o tamanho do círculo, era mais ou menos do tamanho de seus dois braços abertos. Ele olhou em volta. Matty estava certo, havia outros anéis, algum até sobrepostos.
— Temos um enigma — ele disse. — Talvez não tenha nada a ver com a casa se mover.
— Então sobre o que é? — Matty perguntou. Ele guiou Sherlock até um ponto onde a plantação começava, e parou. — Veja. — Apontou para o chão.
Sherlock curvou-se.
— O que estou vendo? — ele perguntou.
— Olhe para os dois lados. — Matty instruiu.
Sherlock virou a cabeça e moveu-a para baixo até que pudesse sentir a ponta da grama fazer cócegas em sua orelha. Ele olhou de volta para a casa. Por um minuto tudo o que ele via era grama, ervas daninhas e algumas formigas, mas então, como uma ilusão de ótica, tudo se resolveu, e ele finalmente viu o que Matty tinha percebido. A grama parecia se curvar. Perto do chão, crescia reta, mas depois de alguns centímetros ela se curvava apontando na direção do pomar. Era quase impossível ver de cima, com tantas lâminas gramíneas chacoalhando em direções distintas por causa do vento, mas ao nível do chão era possível ver que a grama estava crescendo de forma diferente.
— Parece que foi amassada por alguma coisa pesada — ele murmurou.
— Amassada por alguma coisa pesada indo em direção ao pomar — Matty apontou. Ele encarou Sherlock e levantou uma sobrancelha. — Como, sei lá, uma casa, talvez?
Sherlock atravessou o gramado apoiado nas mãos e nos joelhos, engatinhando, mantendo a cabeça perto do chão.
— Não! — ele exclamou. — Veja, a grama aqui é reta!
Matty se ajoelhou para acompanhá-lo. Juntos, eles observaram o gramado.
— Você tem razão — Matty falou. — Então tem um trecho de grama curvado, que vai da casa até o pomar, mas aí ele para, e não é grande o bastante para a casa tê-lo ocupado. Está bem longe de ser grande o bastante.
Sherlock virou a cabeça e olhou para o outro lado. A linha de grama curvada apontava diretamente para um dos corredores entre as macieiras, um espaço deixado de modo a facilitar a colheita das maçãs.
Ele andou um pouco. A mais ou menos dois metros ele encontrou outro trecho de grama curvada, também em direção às macieiras. Ele mostrou a Matty.
— Você sabe o que isso parece? — Matty perguntou.
— Marcas de rodas — Sherlock respondeu — De algum tipo de carroça.
— Sim, mas não são profundas o suficiente, e são muito largas.
Sherlock acenou com a cabeça.
— Mas imagine que as rodas foram amarradas a algo macio — ele pensou um pouco. — Travesseiros! Imagine que travesseiros foram amarrados às rodas de uma carroça. Não, imagine que as rodas foram feitas com tábuas de madeira bem largas e depois amarradas a travesseiros. Isso significaria que menos força seria aplicada por metro quadrado, distribuindo o peso uniformemente para que não formasse um rastro. Os travesseiros ajudariam, serviriam para curvar a grama. A grama voltaria ao lugar quando a carroça passasse, mas deixaria uma marca. Uma marca praticamente invisível.
— Por que amarrariam um travesseiro às rodas? — Matty coçou a cabeça. — Não faz sentido.
— Faz se você não quer fazer barulho — Sherlock respondeu ao se levantar. — E também faz sentido se a carroça está carregando alguma coisa pesada e você que distribuir a carga para que as rodas não deixem marcas.
— Então é silêncio ou o peso? — Matty também se levantou.
— Os dois — Sherlock disse.
Matty se virou para olhar para a casa, impressionado.
— Então é verdade. A casa está sendo movida! Mas está sendo movida num tipo de carroça!
— Essa — Sherlock respondeu — certamente é uma explicação. Agora vamos entrar e comer sanduíches de patê de peixe, depois você revista a casa enquanto eu revisto as plantações.
Apesar de Mortimer Maberley parecer louco e a casa estar totalmente bagunçada, ele fazia sanduíches muito bons, pequenos, apresentáveis e cortava a casca do pão. Enquanto os rapazes comiam, ele lhes contou histórias sobre seus tempos na polícia. Umas eram engraçadas, outras trágicas, todas muito interessantes.
Sherlock também perguntou sobre seu irmão, e Maberley, depois de um choque inicial ao saber que Sherlock e Mycroft eram parentes, contou a eles várias histórias de pegadinhas que armaram para Mycroft enquanto estavam em Oxford. Tomaram chá com os sanduíches, e biscoitos para finalizar.
Depois do almoço, Sherlock passou as próximas horas procurando por mais pistas do lado de fora. Ele achou as saídas dos buracos que tinha encontrado do lado de dentro. Matty já chamara sua atenção para a grama curvada, mas ele encontrou outras fileiras, dessa vez seguindo até a casa, e não para longe dela. Faria sentido se a casa estivesse sendo movida numa carroça, ou em várias – afinal de contas, ela teria que ser trazida de volta, mas não era isso que Sherlock pensava estar acontecendo. Não, algo bem diferente, porém igualmente estranho, acontecia.
Para checar sua teoria, ele adentrou a vegetação. As árvores eram mais altas que ele, com galhos que arranhavam os céus, mas Sherlock já tinha visto plantações antes e essa não parecia saudável, como se o solo tivesse perdido seus nutrientes.
Ele ajoelhou e cavou a terra ao redor de uma das árvores. Estava fofa como se já tivesse sido remexida antes e deixada ali. Certamente não era tão densa quanto ele esperava. Ele ficou revirando o solo em busca de algo em particular, mas não encontrou. Provavelmente precisaria de uma enxada para isso, e um pouco mais de tempo.
Antes de voltar para a casa, Sherlock vagou por entre as árvores à beira do pomar. Havia um muro de pedras ali, e depois dele o chão passava a ser como uma colcha de retalhos, ele podia ver cavalos pastando, e um rebanho bovino também. A estrada que passava pela residência de Mortimer Maberley descia a serra suavemente, serpenteando de cima abaixo para minimizar a inclinação de qualquer carruagem que a usasse. Era a vista inglesa tão bucólica e perfeita que as pessoas queriam ver. E ainda assim havia um grande crime sendo cometido, e esse crime estaria sendo cometido vagarosamente. Ele se arrepiou. Havia uma força invisível por aqui, um guia que ele podia detectar, mas não identificar. Talvez aquela noite trouxesse respostas.
Deveria haver ali por perto algum lugar para os criminosos se juntarem, Sherlock sabia disso. Eles precisariam de um celeiro, ou vários celeiros, para guardar seus equipamentos. Eles certamente não os trariam de uma cidade ou vila vizinha toda vez que decidissem invadir a propriedade de Maberley. Ele não podia ver nada abaixo do morro, o que fazia sentido. Os criminosos não trariam os equipamentos morro acima toda vez que fossem usar.
Não, estaria tudo estocado em algum lugar perto da estrada.
Ele virou e voltou para a casa, mas enquanto andava entre as árvores, algo chamou sua atenção. Algumas árvores eram mias finas ou mais grossas que outras, e seus troncos tinham tons diferentes. Agora que observava especificamente, Sherlock notou que eram de várias espécies diferentes. Essa plantação não era de um só tipo de maçã, várias árvores cresciam ali. Por que os cultivadores originais fizeram isso? Se iriam plantar vários tipos de macieiras, por que não mantê-las separadas para não se misturar?
Ele deu de ombros. Havia muitos mistérios por aqui, e ele tinha que se concentrar nos importantes ou se distrairia.
De volta à casa, ele e Matty compararam suas observações. Matty não descobriu nada além do que Sherlock já tinha visto durante sua busca, exceto pelo enorme número de baratas mortas debaixo dos pisos, junto com alguns ratos mortos.
— Sr Maberley, podemos passar a noite aqui para vermos o que acontece? — Sherlock perguntou.
— Claro.
— E nós poderíamos dormir um pouco agora para ficarmos acordados mais tarde?
— Eu não estou cansado — Matty protestou, mas Sherlock o calou.
— Eu tenho dois quartos sobressalentes — disse Maberley. — É só tirar as coisas de cima das camas e estarão prontos.
Sherlock perguntou a Matty:
— Você ainda carrega aquela faca?
— Claro que sim.
— Eu preciso dela emprestada — depois disse a Maberley: — E precisarei de um garfo, se puder me emprestar.
— Um garfo? — Maberley perguntou, confuso.
— Sim, por favor.
Antes de se deitar, Sherlock passou por todos os três quartos, o de Maberley e os outros dois, e cuidadosamente afrouxou os pregos que vira anteriormente nas janelas com a lâmina da faca de Matty, deixando-os parcialmente para fora e removendo-os completamente com o auxílio do garfo de Maberley. Então abriu uma fresta das janelas, permitindo que o ar circulasse. Ele não queria abri-las completamente para que ninguém do lado de fora pudesse ver, mas precisava de ar fresco para trabalhar. Sherlock fechou as cortinas, então quem estivesse do lado de fora não poderia ver o que havia do lado de dentro, mais especificamente, não veriam Matty e ele. Depois disso, Sherlock foi dormir.
Era quase meia-noite quando ele acordou. Não havia nenhuma luz vindo do lado de fora das cortinas em seu quarto. A casa estava quieta. Ele foi para o quarto ao lado e acordou Matty, e logo depois os dois foram ao quarto de Maberley, onde a chama de uma vela acesa podia ser vista através da porta entreaberta. Mortimer Maberley estava na poltrona, lendo um livro com a luz de uma única vela. Ele olhou para os dois garotos conforme entravam no quarto.
— Vocês estão prontos para uma aventura? — ele perguntou.
— Mais prontos que nunca — Sherlock respondeu.
— O que faremos agora? — Matty perguntou.
— Nós sentamos e esperamos.
— Esperamos o quê?
— A casa andar.
Sherlock e Matty se sentaram perto de Maberley. Eles encontraram uma posição confortável e esperaram. Sherlock não sabia o que Matty estava pensando, mas, em sua mente, repassava as evidências e deduções que construiu, checando cada conexão.
Matty fazia o mesmo.
— Tem algum tipo de gás nisso? — ele sussurrou depois de um tempo. — Alguma coisa que faz as pessoas dormirem? Ouvi dizer que usam isso em cirurgias para fazer as pessoas apagarem e não sentirem a dor de ter suas pernas amputadas, ou se tiver algum cirurgião fuçando seu peito.
— Eles são chamados de “anestésicos” — Sherlock sussurrou de volta. — Há vários tipos deles que são conhecidos há um tempo, mas clorofórmio é o mais recente e o mais seguro. — Ele pausou e sorriu amargamente, embora soubesse que ninguém podia ver. — A Câmara Paradol tem um que é baseado em morfina, mas acho que é difícil conseguir, e difícil de usar. Esses criminosos devem usar alguma coisa mais simples, e clorofórmio é muito fácil de ser feito.
— E você acha que esses sujeitos estão injetando por aqueles buracos das paredes, não acha?
— É a única coisa que faz sentido. É por isso que o Sr. Maberley continua dormindo enquanto eles trabalham.  Não é cansaço, eles o estão dopando para que não interfira.
— Por que eles não o matam e terminam com isso? — Matty perguntou.
— Porque Ferny Weston, meu irmão e vários outros perceberiam que ele parou de enviar cartas e viriam aqui para investigar. Isso arruinaria os planos. Eles precisam de Maberley aqui, mas inconsciente, então bombeiam o gás até que tenham terminado.
— E você abriu as janelas para que o gás possa sair e ar fresco entrar, e nós não caíamos no sono como ele. Muito esperto.
— Obrigado. — Sherlock pausou. — Você entendeu, Sr. Maberley? Continuar dormindo é parte do plano deles. Eles estão fazendo isso com o senhor!
A única resposta de Maberley foi um ronco profundo.
— Sherlock… — Matty chamou, mas sua voz era suave, lenta e distante.
Sherlock tentou levantar, mas suas mãos caíram dos braços da poltrona e ele caiu para trás. Ele pôde sentir o cheiro de alguma substância medicinal, como o cheiro de um hospital. Percebeu que o odor estava ali há um tempo, ficando mais forte sem que ele notasse. Sua cabeça estava pesada, seus olhos se fechavam mesmo com ele tentando mantê-los abertos. Ele colocou uma mão no braço da poltrona e se elevou, então usou a outra mão para puxar-se completamente para cima. Ele podia sentir seu corpo vacilar. Seu estômago estava embrulhado, como se ele tivesse bebido leite estragado.
Com uma batida suave, a cabeça de Matty caiu sobre o encosto.
Sherlock cambaleou até a janela e esticou-se para pegar a cortina, mas o tecido escorregou entre seus dedos e ele não conseguiu segurar. Ele se forçou a continuar, apesar da vista embaçada, e fechar os dedos no tecido. Finalmente conseguiu agarrar e abrir a cortina.
A janela tinha sido fechada.
Através da bagunça que estava o cérebro de Sherlock, um único pensamento brilhou.  Ele tinha sido despistado! Alguém percebeu que as janelas tinham sido abertas, apesar de todos os esforços de Sherlock para esconder, e eles simplesmente as fecharam, uma por uma, enquanto não havia ninguém nos quartos. Então continuaram seu trabalho normalmente, bombeando o gás anestésico para dentro da casa por entre os buracos que tinham aberto.
Ele cambaleou de volta para o quarto e apagou a vela com as pontas dos dedos, então voltou à janela. Agora que estava escuro dentro do cômodo, ninguém veria o que ele estava fazendo. Ele segurou a janela com dedos que sentia serem enormes e feitos de borracha e empurrou para cima com toda sua força.
Nada aconteceu. Certamente eles tinham pregado das janelas de novo.
Ele tentou mais uma vez e ouviu um guincho de madeira roçando em madeira. A janela abriu alguns centímetros e emperrou. Sherlock se abaixou e colocou a boca no vão. O ar fresco da noite atingiu seus pulmões como água limpa sacia homem que passou dias no deserto. Ele respirou fundo e pôde sentir seus pensamentos ficando mais claros e o peso deixando seus músculos.
Algo se moveu do lado de fora da janela.
Ele se abaixou mais, ainda mantendo a boca o mais próximo possível da fresta, e olhou pela janela.
Uma árvore estava passando pelo lado de fora.
Sherlock podia ver os galhos com clareza. Pareciam mãos esqueléticas arranhando as estrelas. Enquanto assistia, elas se moviam devagar pela janela. Com seus dedos no peitoril, Sherlock sentiu um estrondo sombrio vindo de fora.
Ele se jogou no chão e rastejou até onde Matty estava desmaiado. Ele puxou o garoto e o arrastou até a janela, então segurou seu rosto em direção ao ar fresco até que ele começasse a se mexer.
— O qu...
— Ssshh!
— Ok — Matty respirou fundo. — Está tudo bem, cara — ele balbuciou. — Eu estou bem.
Ele se livrou dos braços de Sherlock e ficou de pé, trêmulo.
— Olhe lá fora — Sherlock mandou.
Juntos, os dois rapazes olharam pela janela. Por um minuto tudo o que podiam ver era o céu estrelado e a massa escura de terra abaixo, mas então outros galhos começaram a passar pela janela.
Matty arfou:
— Então é verdade?
— Depende do que você quer dizer — Sherlock disse. — Vamos descer e dar uma olhada.
— E quanto a Maberley? Não deveríamos abrir outras janelas ou alguma coisa assim?
— Ele tem ficado bem até agora ­— Sherlock apontou. — Acho que essas pessoas sabem o que estão fazendo. Se o acordarmos, então ele vai atirar na casa inteira e tudo pode cair aos pedaços.
— Bom argumento.
Os dois desceram as escadas e foram até a porta da frente. Sherlock abriu uma fresta e olhou o lado de fora. A porta da frente dava para o pomar, e não havia nada entre ele e o muro baixo que separava as terras da estrada.
Sherlock cutucou Matty e indicou o muro e a estrada.
— A mesma distância que estava essa manhã — ele sussurrou. — A casa não andou.
— Mas se a casa não andou, então o que acabamos de ver pela janela? — Matty perguntou.
— Bom, se a casa não se moveu, então deve ser o pomar, não? A casa ser movida é fisicamente impossível. O pomar... improvável — disse Sherlock.
Eles saíram da casa noite afora. Sherlock guiando o caminho pela parede da casa, passando pela janela da sala de estar, que também havia sido selada pelo lado de fora. Alguém obviamente estava checando cuidadosamente antes de agir. As cabeças por trás desse crime eram muito inteligentes, e muito cautelosas.
Andando um pouco mais encontraram outra janela – da sala de jantar, Sherlock pensou. Aquela janela também tinha sido fechada, mas o mais importante é que havia um equipamento no chão ali perto. Era como um latão de leite com uma mangueira de borracha saindo do topo e seguindo até um dos buracos que Matty e Sherlock encontraram mais cedo, os buracos furados de fora para dentro. Deveria haver clorofórmio dentro daquele latão, Sherlock teorizou, e o vapor dele invadia a casa. Todos os outros buracos deveriam estar sendo usados também. Ele se xingou em pensamento por sua burrice em achar que abrir algumas janelas impediria algo diabolicamente esperto.
Quando chegaram a esquina da casa, Sherlock parou e espiou ao redor. Matty se ajoelhou e fez o mesmo.
A grama tinha sido transformada. Naquela tarde não passava da altura dos joelhos, mas agora estava repleto de árvores. Eram as árvores da plantação, mas pareciam mais altas. Levou um tempo para Sherlock entender o porquê, mas quando entendeu, sorriu. Claro, era a solução mais lógica.
As raízes das árvores não estavam enterradas no solo como deveriam estar. Isso tornaria impossível a locomoção delas a não ser que desenterrassem uma a uma, o que levaria tempo demais e deixaria rastros.
 Era evidente agora que, quando as árvores foram plantadas centenas de anos antes, tinham sido trazidas em grandes barris de madeira que haviam sido afundados na terra. Suas raízes cresceram dentro dos barris conforme os anos passavam. Se as raízes chegassem à borda dos barris, seriam forçadas a se curvar, o que poderia explicar porque todas as árvores pareciam atrofiadas. Agora, quem quer que estivesse movendo-as tinha puxado os barris para fora do chão, levando as árvores consigo.
Olhando para o topo dos barris, Sherlock conseguia ver as voltas das cordas grossas que tinham sido amarradas a eles. Não deviam ter sido enterrados adequadamente, devem ter ficado frouxos no solo. Aqueles movendo as árvores só teriam que cavar até encontrar as cordas, então teria sido relativamente fácil puxar os barris para cima.
Relativamente fácil. Ainda levaria um bom tempo, e um bom número de pessoas, e por isso Maberley tinha que ser drogado toda vez que o faziam.
As macieiras não estavam organizadas em fileiras, como ficavam na plantação. Elas estavam colocadas de qualquer jeito, quem as movia encontrava um espaço e as encaixava.
Sherlock estava ciente de um ruído, mas agora estava mais alto. Ele recuou um passo e puxou Matty junto.
Do outro canto da casa vinha uma carroça. Não o tipo normal que se via nas ruas todos os dias, mas uma grande e pesada com rodas tão grandes quanto a extensão dos braços abertos de Sherlock. Como ele suspeitava, as rodas estavam protegidas com enormes objetos similares a travesseiros que amorteciam o peso da carroça e do seu conteúdo conforme se movia. A carroça era movida por três grandes cavalos shire de tração, e os animais eram guiados por um grupo de homens vestidos de preto, com máscaras pretas sobre os rostos. Na carroça, claro, estavam duas macieiras em barris que deviam ter sido removidos do solo há pouco tempo.
De perto de sua cintura, Sherlock ouviu Matty sussurrando.
— É óbvio, não é? — ele sussurrou. — Se a casa não anda, então deve ser o pomar!
— Ah, sim, agora é obvio — Sherlock sussurrou de volta. — Não era tão óbvio assim mais cedo, não é mesmo?
Outro homem, alto, porém mais magro que os outros, andava atrás da carroça, checando onde estavam indo. Ele comunicava aos outros através de gestos com as mãos. Parecia que ele era o comandante.
Conforme Sherlock e Matty observavam, a carroça desacelerou até parar e o homem mascarado subiu nela. Cada um deles pegou uma parte da corda e, juntos, levantaram a primeira árvore, moveram-na para a beira do carro e a desceram até o chão.
— Os anéis de fada! — Matty cochichou.
— Nada de fadas. — Sherlock disse. — Apenas ladrões.
— Mas eu ainda não entendo, o que eles estão roubando? Não são as árvores, eles sempre as colocam de volta quando terminam. — Matty hesitou, e então bateu na testa com a palma da mão. — É claro! Eles acham que tem alguma coisa debaixo das árvores!

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