12 de setembro de 2017

Capítulo doze

O JANTAR FOI UMA discussão bizarra e excitável.
Do ponto de vista de Sherlock, era como se a sua revelação dos artifícios durante a segunda sessão, na noite anterior, jamais tivessem acontecido. Conde Shuvalov, von Webenau e Herr Holtzbrinck estavam agrupados em uma das extremidades da mesa. Eles conversavam animadamente sobre os fenômenos psíquicos e o “plano espiritual”, sugerindo maneiras como a comunicação com os mortos poderia beneficiar os vivos e debatendo o que isto poderia significar para a religião organizada. Sir Sadrach Quintillan e Ambrose Albano estavam ausentes, provavelmente para dar tempo aos “convidados” de conversarem entre si. Niamh Quintillan e Virginia Crowe estavam mais para o meio da mesa, conversando uma com a outra – provavelmente, Sherlock pensou, sobre cavalos. Elas formavam uma barreira como um oceano entre o continente da crença na extremidade superior da mesa e da ilha da descrença na outra – Sherlock, Mycroft e Amyus Crowe.
— Eu simplesmente não posso acreditar — Sherlock falou enquanto pegava uma garfada de cordeiro. — Será que a segunda sessão realmente aconteceu, ou eu apenas sonhei?
— É da natureza humana — Crowe apontou. — Se as pessoas estão predispostas a acreditar em uma coisa, então aceitarão toda e qualquer evidência de que seja verdadeira e farão o seu melhor para rejeitar qualquer evidência de que seja falsa. Os nossos colegas internacionais na outra extremidade da mesa realmente querem acreditar que os fenômenos espiritualistas e psíquicos existem. Nós três aqui deste lado somos muito mais propensos a ser guiados pela lógica do que por pensamentos desejosos.
— Mas por quê?
Foi Mycroft quem respondeu, em voz baixa.
— No caso de von Webenau e Herr Holtzbrinck, suspeito que ambos tenham perdido alguém querido para eles, e eles não querem acreditar que esta pessoa se foi para sempre. Eles não podem deixá-la ir, e assim se apegarão a qualquer fragmento de evidência que possa significar que seus entes queridos estão felizes e que podem se comunicar com os de sua família que ainda estão vivos.
— Você deve ter notado que nenhum deles ficou feliz quando você demonstrou a fraude na sessão — Crowe apontou. — Pensei no momento que fosse porque eles estavam com raiva por terem sido enganados, mas agora percebo que era porque eles tinham algo precioso que foi tirado do meio deles. Albano e Quintillan estão balançando essa coisa preciosa debaixo de seus narizes novamente, e eles estão seguindo.
— No caso do conde Shuvalov — Mycroft continuou, como se Crowe não tivesse interrompido — creio que a resposta tem mais a ver com sua nacionalidade do que com sua história pessoal. Em minha experiência, os russos são um povo altamente religiosos e fatalistas. Eles já são inclinados a acreditar em todos os tipos de coisas que parecem bizarras para aqueles que não são russos. — Ele sorriu. — Lembro-me que um conhecido militar meu uma vez disse que se você colocar um general britânico, um general russo, um general americano e um general alemão juntos em uma sala e lhes dar um problema para resolver, os generais britânicos, norte-americanos e alemães chegarão a uma solução e o general russo viria com uma completamente diferente. Os russos não pensam como nós, e o mundo terá um monte de problemas caso se esqueça disto algum dia.
— Todos eles caíram na explicação de Ambrose, de que ele estava doente e, portanto, seus poderes eram imprevisíveis. — Crowe balançou a cabeça, e sua voz assumiu uma qualidade oratória. — “Ouvi agora isto, ó povo insensato, e sem coração, que tendes olhos e não vedes, que tendes ouvidos e não ouvis”, como diz o bom livro.
— Podemos convencê-los de que isto ainda é fraude? — perguntou Sherlock. — Ou já é tarde demais?
Crowe suspirou profundamente e olhou para Mycroft.
— Isso — Mycroft disse judiciosamente — dependerá inteiramente se podemos descobrir como o truque com a pintura foi feito. Se não pudermos explicar logicamente, então, a explicação poderá, possivelmente, muito bem envolver os fenômenos psíquicos.
— O primeiro passo – escolher o quarto certo – é muito claro — Crowe apontou.
Mycroft assentiu.
— Sim, você está correto. Essa parte é infantilmente simples.
Sherlock olhou de seu irmão para o seu mentor e de volta para seu irmão.
— Algum de vocês gostaria de me explicar?
— Não é certamente óbvio? — Mycroft olhou para o prato tristemente. — Um dos infelizes efeitos colaterais de ser atingido na cabeça é que interfere com o apetite. Não estou certo de que poderei comer mais alguma coisa.
— Não — Sherlock disse pacientemente — não é óbvio. O papel com o número do cômodo foi escolhido aleatoriamente, e sabemos que todos os papéis na taça tinham números diferentes. Quintillan não poderia saber de antemão qual número seria escolhido.
— Correto — disse Mycroft — mas e se eu lembrá-lo da aparente numeração aleatória dos cômodos ao longo do corredor, será que isso ajuda?
— Não.
— Então o que acontece se eu lhe disser que acredito que nenhum dos números na taça realmente estava em uma das portas?
Sherlock pensou por um momento, e então a resposta o atingiu como um raio.
— Claro!
— Então, por favor, explique para nós, apenas para verificar se você tem a resposta certa.
— Todos os cômodos no andar de cima foram numerados com giz, com exceção da sala que Quintillan queria usar. Esta foi deixado em branco. A taça estava cheia de números escritos em pedaços de papel, mas nenhum dos números neles combinava com qualquer um dos números nas portas.
— Uma maneira simples de fazer isso seria se certificar de que os números na tigela fossem ímpares e os números nas portas fossem pares — disse Crowe — embora eu acredite que um esquema mais sofisticado foi utilizado neste caso.
— Quando von Webenau escolheu um número, um criado do lado de fora da sala de jantar correu até lá em cima com um pedaço de giz e escreveu o número na porta em branco que Quintillan já tinha escolhido.
— Exatamente. — Mycroft espetou um cogumelo com o garfo. — Bem, talvez mais algumas mordidas. Apenas para recuperar minha força.
— Mas por que os números nas portas eram aleatórios? — perguntou Crowe.
— Simples. Desde que Quintillan não sabia qual número seria escolhido, ele não poderia colocar os números em sequência, porque teria ficado óbvio que o que von Webenau escolheu – o que foi escrito rapidamente na porta em branco – estava fora da sequência.
— Bravo — cumprimentou Mycroft, mastigando. — Mas algum de nós sabe como o truque com a pintura foi feito? Sherlock, você passou mais tempo no cômodo do que nós. Você não sabe?
Sherlock deu de ombros.
— Não vi nada que possa ajudar. Alguém deve ter ido até o cômodo, ou o observado por fora, mas não sei como. Todos nós inspecionamos o giz no corredor e depois no telhado – Quintillan insistiu que o fizéssemos. Estava, obviamente, sem ter sido perturbado. Ninguém havia caminhado ao longo daquele corredor ou ao longo do telhado após o giz ter sido esparramado, e todos nós estávamos do lado de fora vigiando a janela. Era impossível. Eu pensei talvez em um balão, mas fiquei de olho e não vi nada.
— Penso que podemos eliminar as explicações impossíveis — disse Mycroft. — O que significa que temos de começar a trabalhar o nosso caminho ao longo das improváveis.
Essa declaração parou a conversa por um bom tempo, já que cada um deles tentou chegar a algumas explicações improváveis, e falhou.
Mais tarde deitado na cama, Sherlock sentiu fragmentos de fatos, observações e suposições voando ao redor de seu crânio. O ataque a seu irmão tinha sido explicado – pelo menos, tão explicável quanto seria – e ele estava tão certo quanto poderia estar que o desempenho com a pintura era apenas um truque elaborado, mas ele ainda não tinha descoberto como aquilo foi feito. Então, havia as visões da Besta Negra – seriam elas reais ou apenas rumores, boatos e ilusões? E a morte da criada Máire encaixaria nisto de alguma forma – teria o corpo sido movido, e se tivesse, por que motivo? Será que o deslocamento de seu corpo indicava que ela tinha sido assassinada – e se era assim, então, mais uma vez, por quê? Ele tinha muitas perguntas e não respostas o bastante.
Ele adormeceu sem perceber, e flutuou através de sonhos em que espelhos destroçados refletiam fragmentos de cenas em formas fraturadas, e em algum lugar por trás de tudo Niamh olhava para ele. Ou era Virginia?


Sir Sadrach não estava presente no café da manhã do dia seguinte. Ambrose Albano sim, embora parecesse pouco à vontade. Ele permanecia pegando seu talher depois levando-o para baixo novamente sem comer nada. Talvez não tivesse dormido muito bem. Ele ficava olhando para Silman, a mordomo, e ela o olhava de volta. Sherlock achava que havia algo estranho sobre a sua expressão – parecia que ela estava tentando avisá-lo sobre alguma coisa, ou adverti-lo contra algo. De qualquer forma, não era a expressão normal que ele teria esperado no rosto de um mordomo.
Ao final do café da manhã, Silman acenou para Albano, dando-lhe um sinal. Ele se levantou e bateu na mesa para chamar a atenção. Sherlock se lembrou das batidas na mesa nas sessões e abafou uma risada.
— Cavalheiros, estimados colegas internacionais, senhoras — Albano começou. — Lamento dizer-lhes que Sir Sadrach ficou doente durante a noite, e não estará disponível hoje.
Niamh olhou para cima, com preocupação em seus olhos. Obviamente, ela não sabia nada sobre isso.
— Papai está...?
Albano levantou a mão.
— Ele está perfeitamente bem — falou, embora houvesse algo em sua expressão que levou Sherlock a não acreditar nele. — Está apenas cansado e precisa descansar. — Ele olhou rapidamente para Silman, em seguida, desviou novamente. — O leilão continuará como planejado, depois do almoço. Os criados levarão um tempo para arrumar a sala. Em vez de Sir Sadrach conduzir o leilão, eu mesmo o conduzirei, com a ajuda de Silman. Creio que será aceitável.
Houve um murmúrio geral de assentimento ao redor da mesa.
Niamh levantou-se e correu para a porta, mas Albano seguiu-a.
— Senhorita Quintillan, seu pai está dormindo. Por favor, não o perturbe.
— Por favor, transmita os nossos cumprimentos ao senhor Sadrach — disse Mycroft — e desejamos-lhe uma rápida recuperação.
— Todos nós desejamos-lhe isto — Albano disse calmamente.


Depois do café, Sherlock foi dar uma volta. Ele se dirigiu para a biblioteca com uma vaga ideia de continuar a procurar passagens secretas, mas ficou surpreso ao descobrir que Ambrose Albano tinha chegado lá primeiro. Ele estava sentado em uma longa mesa lendo um livro. Seu casaco estava pendurado nas costas da cadeira.
Albano olhou para Sherlock.
— Veio até aqui para desacreditar-me um pouco mais? — ele perguntou, mas parecia estar divertindo-se, em vez de com raiva.
— Não — respondeu Sherlock. — Na verdade, eu nem sabia que o senhor estava aqui. Aliás, mas agora que sei que está, talvez eu possa fazer-lhe algumas perguntas sobre mágica? Você obviamente tem uma considerável quantidade de habilidade.
— Passei algum tempo nos palcos como mágico — ele admitiu — apesar de que eu estava sob outro nome, e foi antes que eu tivesse meu acidente e descobrisse que podia comunicar-me com os mortos. — Ele inclinou a cabeça para um lado e olhou para Sherlock. — Como exatamente você enxerga meus truques nas sessões? Todos os outros estão convencidos, ou no caminho para estar convencidos.
— Você até poderia ter me convencido, se eu não tivesse procurado em seu quarto e encontrado a evidência de como havia realizado seus truques debaixo da cama.
— Eu deveria até ficar com raiva — Albano murmurou — mas estou sem energia. Além do mais, seria mesquinho da minha parte. Afinal de contas, eu procurei no quarto de todo mundo à procura de coisas que pudesse usar no meu desempenho. Encontrei uma carta do irmão de Herr Holtzbrinck que ele mantém consigo. Mal posso reclamar se os meus próprios aposentos são vasculhados.
— Então o que pode me dizer sobre truques de mágica? — Sherlock perguntou, tentando não pensar no psíquico tateando ao redor de seu quarto.
Albano sorriu para si mesmo. Ele se levantou.
— Tem tudo a ver com desvio de atenção. Por exemplo... — ele puxou a manga direita de sua camisa com a mão esquerda, subindo-a para exibir seu pulso direito, enquanto mantinha sua mão direita para cima com os dedos separados — como pode ver, não há nada escondido na minha mão direita ou na manga direita, e — ele fez o mesmo com o outro braço, puxando a manga esquerda para expor seu pulso e abrindo os dedos de sua mão esquerda — não há nada escondido na minha mão esquerda ou na manga esquerda. Você concorda?
— Concordo — disse Sherlock, sabendo que um truque estava vindo, mas não certo de que direção.
Albano balançou a cabeça.
— Então você não estava observando cuidadosamente o bastante.
Ele juntou os dedos da mão direita com os da esquerda e depois separou-os novamente. De repente ele segurava uma nota entre as pontas dos dedos.
— Então, de onde veio isso?
— Eu não sei — disse Sherlock honestamente. — Não estava nas mangas, ou em suas mãos. Devia estar escondida em outro lugar.
— É claro que estava. — Albano sorriu. —Veja de novo.
Ele dobrou a nota em dois, enrolou-a cuidadosamente em um tubo fino, puxou suas mangas direita e esquerda de volta para baixo até cobrir os pulsos novamente, e então, cuidadosamente enfiou a nota enrolada em uma dobra da manga esquerda, que estava localizada na curva do cotovelo. Ele a impediu de cair ao manter o braço esquerdo dobrado, mas manteve as duas mãos à frente, uma sobre a outra, fazendo com que a posição parecesse natural.
— Agora, podemos concordar que não há nada escondido na minha mão direita? — disse ele, puxando a manga direita novamente, como antes.
— Concordo — disse Sherlock.
Albano usou a mão direita para puxar a manga esquerda novamente, mas desta vez Sherlock viu que, enquanto a mão esquerda estava erguida, estendida e aberta, a mão direita sacou a nota enrolada da dobra no tecido da manga e abriu-a.
— E não há nada na manga esquerda, como você pode ver claramente.
— Novamente, concordo, mas as mangas são o desvio de atenção, não são?
— Exatamente. — Albano juntou os dedos juntos novamente, com a mão direita escondendo a nota que ele havia sacado da manga. Ele pegou uma ponta com a mão esquerda e a abriu. — Agora você vê?
— É tão simples — disse Sherlock — que eu quase me sinto enganado.
— Esse é o vergonhoso segredo dos mágicos profissionais. O que chamamos de magia é na verdade um conjunto de maneiras óbvias de esconder as coisas. O truque está na forma como levamos a sua atenção para longe do lugar onde as coisas estão ocultas. A primeira lição sobre magia é: se nosso público soubesse quão óbvio são os esconderijos, e quanto esforço fazemos a fim de distrair a atenção deles, então a mágica de repente perderia toda a sua atração.
— Mas você já teria que ter a nota dobrada e enrolada em algum lugar, pronta para ser esconder em sua manga. Você não sabia que eu estava vindo.
— Você está certo. — Albano sorriu, e este foi um sorriso natural, não um falso, teatral. — Então, a segunda lição sobre mágica: sempre tenha vários truques preparados em seus bolsos, prontos para usar. Preparação leva tempo, e você nunca sabe quando terá a oportunidade de realizar um truque. — Ele franziu o cenho. — Agora, deixe-me ver o que mais tenho para lhe mostrar.
Ele pegou o casaco do encosto da cadeira e vestiu-o, batendo os bolsos e deslizando as mãos para dentro como se estivesse procurando algo.
Sherlock sorriu para si mesmo. Ele reconheceu nos gestos teatrais de Albano um típico esforço para desvio de atenção. De alguma forma, o homem já tinha começado outro truque.
— Oh, isto é uma vergonha. Eu pareço ter perdido. — Albano tirou as mãos de dentro de sua jaqueta, segurando-as abertas, com as palmas para Sherlock. — Não há nada, está vendo? — ele fechou a mão direita em um punho e abriu de novo, e de repente estava segurando uma carta de baralho. — Ah, aqui está! — ele entregou a Sherlock. Era o oito de paus. Com um repentino floreio, ele fez o mesmo movimento com a mão esquerda, e outra carta – o nove de ouro – apareceu do nada. — Oh, e outra! — Ele a entregou a Sherlock também.
Sherlock sorriu. Ele não podia se impedir. Havia algo tão cativante no simples prazer de Albano com os truques.
— Tudo bem. Você estava de alguma forma escondendo as cartas em suas mãos, mas como?
— Observe com cuidado. — Albano tomou uma das cartas de volta.
Ele a segurou por um dos lados com a mão direita, usando as pontas do polegar e dos dedos, em seguida, curvou a carta envolvendo os dois dedos do meio de modo que os nós dos dedos estivessem pressionados contra a parte de trás da carta. Ele então dobrou o indicador e o mindinho para segurar os cantos da carta contra os dedos, e endireitou a mão novamente. A carta estava nas costas de sua mão, ainda presa por uma ponta entre o anular e o mindinho, e por outra pelo indicador e o dedo do meio.
Ele virou a mão para Sherlock, mostrando como a carta estava arqueada atrás dos dedos. Do lado da palma era invisível.
— Lição três: isso é chamado de “back palm”, palma das costas, por razões óbvias. É um dos fundamentos dos truques de cartas. Uma vez que pegar o jeito, uma vez que puder executar de forma invisível, de novo e de novo, você poderá produzir cartas a partir do nada para o contentamento do seu coração.
— Você pode me mostrar algum outro truque?
O homem suspirou.
— Sempre é outro truque. — Ele pegou a outra carta de Sherlock, em seguida, enfiou a mão dentro do paletó e tirou um baralho completo. — Muito bem, deixe-me contar a história dos quatro assaltantes. Sente-se.
Sherlock puxou uma cadeira e ele e Albano sentaram-se em lados opostos da mesa. Albano embaralhou as cartas, abriu o baralho e tirou os quatro valetes. Deixando o resto do baralho com as faces viradas para a mesa, mostrou-as a Sherlock.
— Houve certa vez quatro assaltantes chamados Jack, que partiram para assaltar uma casa que havia sido deixada vazia aquela noite pelos proprietários.
— Eu não preciso da história — Sherlock apontou. — Apenas o truque.
— Lição quatro: a história é o truque. Ou, pelo menos, é parte do desvio de atenção. Lembre-se, cada truque é uma performance, e você deve entreter o público, bem como surpreendê-lo. Deve levá-lo em uma viagem que você planejou anteriormente para eles. Agora... — ele colocou os quatro valetes virados para baixo em cima do baralho. — Os quatro assaltantes saltaram para o telhado da casa e baixaram-se por meio de cordas. O primeiro assaltante invadiu o porão. — Enquanto falava, ele pegou a primeira carta do topo e a colocou mais para baixo, perto da base, empurrando-a até que ela ficasse nivelada com o restante. — O segundo assaltante conseguiu entrar por uma janela da cozinha. — Ele pegou uma segunda carta a partir do topo e a inseriu na metade no baralho. — O terceiro assaltante invadiu através de uma janela do segundo andar. — De acordo com as palavras, ele pegou uma terceira carta do topo e empurrou-a no baralho em um ponto acima das duas primeiras, apenas um pouco abaixo do topo. — O quarto assaltante ficou no topo da casa, vigiando por problemas. — Ele virou a carta do topo para mostrar que era o quarto Jack, e então virou-a de volta novamente. Abruptamente, ele bateu os nós dos dedos na parte superior do baralho. — Depois de alguns minutos, o ladrão no telhado viu os donos voltarem para a casa, então chamou seus amigos. Todos eles rapidamente correram para cima, subindo até o telhado e fazendo sua fuga por um cano de esgoto.
Ele deslizou as quatro primeiras cartas do baralho e virou-as para cima. Eram, naturalmente, os quatro Jacks novamente, mesmo que Sherlock tivesse pensado que três delas tivessem sido empurradas no baralho mais abaixo e estavam escondidas entre as outras cartas.
— Então, eu o desafio: como o truque foi feito?
Sherlock pensou por um momento.
— Se os Jacks estão no topo agora, então as três cartas que você empurrou no baralho não poderiam ter sido Jacks. Por isso, eram outra coisa. Então, quando você pegou os quatro Jacks do pacote e mostrou-as a mim, devia ter três cartas escondidas por trás delas. Quando colocou os Jacks virados para baixo em cima do baralho, estas três cartas estavam em cima deles, e elas foram as removidas e inseridas mais abaixo. — Ele terminou, e respirou fundo. — É óbvio.
— Exatamente. O truque está em quão bem você pode pegar sete cartas em vez de quatro, e quão bem você pode disfarçar as três por trás dos quatro valetes. Isso depende de nunca mostrar ao seu público as arestas das cartas, apenas as faces. O truque está de fato logo antes da história começar, e este é o desvio de atenção.
— Você pode me ensinar? — Sherlock perguntou em voz baixa.
— Você expôs meus... truques infelizes e mal concebidos — Albano apontou em uma voz calma — e tornou mais difícil para mim convencer aqueles que estão aqui atrás de meus serviços de que realmente tenho poderes psíquicos. Eu não lhe devo nada.
— Não — Sherlock assentiu. — Você está certo, não me deve nada, mas acho que quer mostrar os seus truques a alguém. Você quer que outras pessoas saibam quão inteligente é. Tomar dinheiro é uma coisa, mas se ninguém souber que era um truque, você não se sentirá satisfeito. Então me ensine. Mostre-me seus truques. Você já sabe que eu sou provavelmente a única pessoa neste castelo que os apreciará adequadamente. — Ele olhou fixamente para Albano. — Você já começou. Já me deu quatro aulas. Você quer passar o seu conhecimento.
Albano assentiu lentamente.
— Talvez eu passe. É o sonho de todo mágico, ter um aprendiz — ele suspirou. — Muito bem. Vamos começar com o básico dos truques com cartas, já que aconteceu de termos um baralho aqui...
Sherlock ficou com Ambrose Albano por várias horas. Durante esse tempo, Albano ensinou-lhe diferentes maneiras de segurar um baralho de cartas – o mechanic, straddle e o biddle – e as muitas maneiras de cortar as cartas – incluindo o corte de revolução e o corte Charlier. Depois disso eles passaram para as formas de obter um vislumbre em segredo da base ou do topo das cartas de um baralho. Albano, em seguida, mostrou a Sherlock as maneiras de controlar uma carta – mover uma carta do topo ou da base do baralho para onde você quisesse que ela estivesse.
— Isso — disse ele — é a essência da mágica com cartas – saber onde uma carta em particular está, e saber que você pode movê-la para onde quiser.
Finalmente ele mostrou a Sherlock a difícil arte de fazer um espectador pegar o que ele pensasse que fosse uma carta ao acaso, mas que na verdade era a carta que o mágico já havia identificado e movido. No momento em que ele tinha terminado, a cabeça de Sherlock girava.
— São todos apenas truques simples — Sherlock disse, espantado. — Mas depende muito de ser capaz de lidar perfeitamente com um baralho de cartas, sem que ninguém saiba o que se está fazendo.
— O único e real segredo é a prática — Albano apontou. — Você precisa continuar o manuseio deste baralho de cartas até que possa manipulá-lo com os olhos fechados. Nunca vá a lugar nenhum sem ele. Se estiver viajando para qualquer lugar, puxe esse baralho de cartas para fora e apenas o mova por entre os dedos. Abra em leque, espalhe-as, lide com elas, faça tudo e qualquer coisa com elas. Elas precisam se tornar suas melhores amigas. — Ele passou o baralho de cartas de lado a lado. — Mantenha a prática. Você nunca sabe quando poderá precisar dessas habilidades.
— Obrigado.
 Sherlock apertou as mãos de Albano e saiu, sentindo uma energia incomum em seus passos. Ele se sentia renovado, revigorado. Sentia como se lhe tivesse sido dado um vislumbre de seu próprio futuro. Ele até mesmo se sentia capaz de falar com Virginia novamente, mas quando perguntou a uma criada onde ela estava, foi-lhe dito que ela tinha ido caminhar com a “patroa”, que ele presumiu significar Niamh Quintillan. Era estranho, e bastante preocupante, quão bem as duas pareciam estar se dando. Ele se perguntou se elas estariam falando sobre ele.
Sherlock percebeu que precisava de uma lufada de ar fresco antes do almoço após a concentração das últimas horas, então se dirigiu para fora. Relembrando sua caminhada com Virginia, e a visão da misteriosa torre que ele não tinha sido capaz de investigar até então, partiu para encontrá-la novamente.
Levou cerca de vinte minutos até que emergisse do matagal para uma clareira na base da torre. Era mais estreita do que ele tinha pensado: talvez uns três metros de diâmetro e quinze de altura, construída a partir de uma pedra cinza escura que era áspera sob seus dedos quando ele a tocou.
Sherlock caminhou ao redor dela. As linhas onde as pedras se encontravam eram tão finas que eram quase invisíveis. O acabamento era impressionante. Sob a fraca luz do sol que era filtrada através das nuvens acima, ele também podia ver que as pedras eram crivadas com pequenos buracos. Havia algo sobre essa visão que lhe provocou uma memória, e levou alguns segundos para perceber que a torre era construída a partir do mesmo material que a parede lisa e recurva que bloqueava o túnel sob o castelo.
Ele olhou na direção do castelo. Quão longe ele estava? Tentou estimar a distância. Seria quase a mesma distância que ele tinha percorrido nos túneis subterrâneos? Teria ele ido tão longe daquela vez como tinha ido agora? A parede recurva que ele tinha encontrado debaixo da terra era a mesma parede recurva da torre que ele examinava agora? Parecia loucura, mas ele pensou que isto só poderia ser verdade. O problema era que isso adicionava novas questões para a lista. Por que a torre continuaria debaixo da terra, da mesma forma que por cima? Qual seria o motivo? Certamente uma torre como esta seria construída em uma fundação feita em terreno plano. Por que escavar o chão para que a torre se estendesse para baixo assim como para cima?
Um folly, ele se lembrou, era loucura. Esse tipo de torre não necessariamente seguiam qualquer regra sensata. Eram coisas construídas pelos ricos proprietários de terras e tinham pouco contexto ou razão para os outros além de mostrar quão ricos os proprietários eram. Por que mesmo ele estava procurando alguma lógica?
Sherlock podia ver espaços escuros na parede da torre, todas na mesma linha levando até o topo. Pareciam janelas. O problema era que ele não via nenhuma porta de entrada ao nível do solo. Qual era o motivo disso? O que o projetista pensava em fazer?
Se forçasse a vista, ele pensava poder ver espaços, ou ameias, ao redor do topo da torre. Vista de baixo, a construção realmente se parecia, ele pensou, como uma versão alongada da peça “torre” do jogo de xadrez.
Ele caminhou ao redor da torre de novo, desta vez na direção oposta. Definitivamente não havia nenhum caminho para entrar a partir do nível do solo, mas a presença de janelas sugeria que havia cômodos dentro da torre, e qual era o ponto de ter quartos se você não pudesse entrar neles?
Ele ficou lá por um longo tempo, apenas olhando para a torre, tentando descobrir alguma explicação para as esquisitices em sua construção. Passando para o pensamento de que a torre continuava abaixo do solo da mesma forma que acima, percorreu a parede recurva e ajoelhou-se para examinar o ponto onde a torre entrava no chão. A linha era coberta por grama e pequenos tojos, mas ele descobriu que podia deslizar os dedos por entre o lado da torre e o chão. Havia uma lacuna.
Um pouco adiante ele notou um bloco de pedra saindo da parede da torre. Era de uma cor mais clara do que o resto: feita de uma pedra diferente. Ele não o tinha visto antes porque um pequeno arbusto crescia na frente. Sherlock só pode vê-lo agora porque estava de lado.
Ele foi dar uma olhada. Tinha mais ou menos o seu tamanho, e ficava situado em um buraco na lateral da torre, encaixando de forma tão perfeita que não havia espaço ao redor. Um grande anel de ferro, gasto e encrostado pelo tempo, estava fixado nas extremidades por razões que ele não conseguia imaginar.
Ele se moveu ao redor da torre pela terceira vez e encontrou mais três blocos, exatamente iguais ao primeiro, e igualmente espaçados em torno da circunferência. Com base na posição do sol e da hora do dia, eles pareciam estar orientados seguindo os pontos cardeais.
Isso era importante? Ele não tinha certeza.
Ele se recostou, deixando os fatos deslizarem ao redor de sua mente como peças de um quebra-cabeças de madeira de uma criança, na esperança de que alguma imagem coerente emergisse, mas nada veio.
A única resposta, ele decidiu, seria subir na torre e ver o que havia nos quartos, e o que havia no topo.
A parede de pedra da torre parecia escarpada, e o fato de que a junta entre as pedras eram praticamente invisíveis significava que ele não seria capaz de calçar algo, como uma lâmina de faca, nas brechas para servir de degrau improvisado. Por alguns momentos, ele se perguntou se seria possível esculpir entalhes na pedra com um machado para que pudesse subir, mas isso parecia próximo a um ato de vandalismo. Além do que, é claro, ele também não tinha um machado. A alternativa seria voltar para o castelo e pegar uma corda na esperança de que pudesse fazer um laço e arremessá-lo alto o suficiente para fisgar uma das ameias proeminentes, mas daí ele teria que percorrer todo o caminho de volta para o castelo e torcer pra que eles tivessem uma corda em algum lugar que pudesse tomar emprestado, e ele realmente queria investigar a torre agora, e não mais tarde.
Ocorreu a Sherlock que a janela mais próxima estava a apenas três metros e meio do chão. Se ele pudesse encontrar uma maneira de erguer-se tão alto, então poderia investigar o que havia lá dentro. Poderia, pelo menos, dar-lhe algumas pistas sobre o que a torre era.
Ele olhou ao redor. Havia alguns freixos crescendo por entre os arbustos de tojo, mas nenhum deles tinha galhos perto o suficiente da torre para usar como um ponto de salto.
Ele vagou um pouco por entre a vegetação rasteira e subiu numa das árvores até que estava no mesmo nível que a janela mais baixa. Infelizmente o sol estava no ângulo errado e ele não conseguia ver o interior.
O galho rangeu sob seu peso, e ele se arrastou para trás rapidamente, a fim de que ele não se quebrasse. Olhando ao longo de seu comprimento, ele notou que o ramo se dividia em dois depois de alguns centímetros, e os dois seguimentos distintos de cada um deles também se dividiam em dois. De repente, um plano inteiro surgiu completamente formado em sua mente. Se ele pudesse quebrar o galho, poderia apoiá-lo contra a torre e usá-lo como uma escada!
Antes de seu cérebro lógico poder lhe dar dezesseis razões pelo qual o plano não funcionaria, ele começou a saltar para cima e para baixo sobre o ramo. Este rangeu e se curvou sob o seu peso, mas não quebrou. Sherlock foi um pouco mais para a ponta, usando um galho mais alto para se segurar, e forçou. O galho em que ele estava de pé cedeu abruptamente. Sherlock quase caiu, salvando-se apenas por agarrar o galho mais alto com as duas mãos.
Ele desceu da árvore e puxou o galho quebrado até a torre. O galho tinha cerca de três metros e meio de comprimento, e Sherlock descobriu que se colocasse a ponta mais grossa no chão para que ela não escorregasse, ele poderia erguer a ponta mais fina até ela descansar contra a borda da janela mais baixa. Sherlock escalou como um macaco até que sua cabeça estava no nível da abertura escura da parede.
Lançou-se para a peitoril, os dedos agarrando a pedra cinzenta áspera, e seu peito bateu contra a lateral da torre. Ele ficou ali pendurado por alguns instantes antes de puxar-se para cima e por sobre o peitoril.
Ele se lançou para dentro da janela, respirando pesadamente. O cômodo era circular, com apenas uma entrada, e estava totalmente vazio. Bem, vazio com exceção de algumas lascas de madeira no chão que pareciam ter vindo não de algum galho, mas de um caixote de algum tipo. Talvez um engradado.
A luz do sol mal penetrou no quarto, mas mesmo assim, Sherlock viu que uma das lajes era mais escura que as outras. Ele foi até ela para examinar, e descobriu que não era uma laje: na verdade era um buraco no chão. Ele estendeu a mão e a balançou ao redor. Parecia haver muito espaço lá em baixo. Talvez fosse um caminho para uma sala abaixo, uma que estava ao nível do solo, mas não tinha porta para o exterior? Ele supôs que poderia descer e verificar, mas estava relutante em fazer isso sem uma lâmpada. Ele poderia quebrar o tornozelo ou uma perna se caísse de mal jeito, e não seria capaz de sair novamente.
Um pensamento repentino o atingiu, e ele olhou para cima, para o teto da sala circular. Havia ali o mesmo buraco também, deslocado um pouco em relação ao do chão. Olhando para os buracos no chão e no teto da sala em que estava, ele decidiu que deviam estar posicionados assim para permitir a inserção de uma pequena escada e assim subir de uma sala para outra: era por isso que eles eram deslocados. A escada poderia presumivelmente ser puxada para cima a partir de cada sala para a próxima, e usada novamente. Com sorte, os buracos seriam um caminho conduzindo ao topo da torre. Se ao menos ele tivesse uma escada...
Ele tinha a segunda melhor coisa: um par de braços fortes e um par de pernas fortes. Agachado, ele saltou para o buraco acima. Seus dedos agarraram a borda do buraco e, tensionando os braços, ele se levantou.
A sala acima era exatamente igual a de baixo, com a ressalva de que a vista da janela era maior. E ele estava certo - havia outro buraco no teto.
Levou exaustivos cinco saltos e esforçados puxões para ir de sala em sala, até que finalmente estava no topo, na plataforma plana que cobria a torre.
Lá ele encontrou o corpo morto de Sir Sadrach Quintillan, ainda em sua cadeira de rodas, olhando para suas terras com olhos vidrados, a frente da sua camisa e casaco manchadas de sangue seco.

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