20 de setembro de 2017

Capítulo dois

ELES PARTIRAM CINCO DIAS mais tarde, depois que Mycroft escreveu para seu amigo Charles Lutwidge Dodgson e recebeu uma resposta. Ele mostrou a resposta a Sherlock durante o almoço um dia. Dizia:

Caro Mycroft,
Obrigado pela sua carta, que me encontrou em um estado de extraordinária saúde e boa fortuna. Acredito que posso dizer o mesmo de você. Embora nunca veja seu nome nos jornais, estou certo de que você se tornou um sucesso em qualquer campo que tenha escolhido entrar. Eu não tenha nada além de boas memórias do nosso tempo aqui em Oxford, embora você tenha, pelo menos, forjado outras memórias em um mundo mais amplo. Eu, como você deve ter ouvido, viajei para outros mundos, mas só na minha imaginação. Alguns desses mundos são matemáticos, e alguns fantásticos, mas de todos esses mundos preferi a solidez da maçante e suposta vida “real”.
Eu gostaria, e obviamente, ficaria muito feliz em ser o tutor do seu irmão Sherlock nas artes lógicas. Recordo-me de como eu costumava invejá-lo por ter apenas um irmão, enquanto eu tenho dez, dos quais tenho que me lembrar de todos os aniversários. Também me lembro de como você costumava falar do Sherlock quando estava aqui. Geralmente com uma mistura de orgulho e irritação, mais notável quando ele escondeu um sapo vivo na sua mala logo antes de vocês sair de casa para viajar para o verão daqui, e quando ele escreveu uma dissertação com a cópia perfeita da sua caligrafia, mas com conclusões que só poderiam fazer sentido para um lunático. Eu me recordo muito bem de você lendo essa redação em voz alta em uma das minhas tutorias, e ficando em pânico enquanto percebia que estava diferente do que você se lembrava ter escrito! Como eu ri!
Não posso, é claro, garantir a aceitação de Sherlock na Christ Church, ou em qualquer outra universidade aqui – isso dependerá das habilidades e atitudes de seu irmão – mas com o nome da família Holmes e uma recomendação vinda de mim, ele pode ter uma boa chance.
Tomei a liberdade de reservar-lhe um alojamento com uma senhora de bom caráter – a Sra. McCrery da Edmonton Crescent, número 36, logo após a esquina da universidade. Ele ficará em uma pensão com acomodações completas – quarto, café da manhã e jantar – pela quantia de um xelim por semana. Acredito que isso seja aceitável. Eu mesmo já me alojei na pensão da Sra. McCrery no passado, e acho que seus padrões de limpeza são impecáveis, sua torta de pêssego com certeza poderia ser campeã em uma competição de culinária e pode-se dizer que seu pudim de carne é a perfeição.
Estou ansioso para que o jovem Sherlock se apresente a mim em minha sala na faculdade num futuro próximo. Também estou ansioso para que você venha visitá-lo regularmente para que possamos renovar nossos conhecimentos.
Sempre seu,
Charles.

A única resposta de Mycroft quando ele passou a carta para Sherlock foi:
— Eu tinha me esquecido do sapo.
— O que aconteceu com o sapo? — Sherlock perguntou inocentemente.
— Ele se transformou na mascote da faculdade — seu irmão respondeu. — Até acontecer um infeliz acidente com o cachorro de um mestre sênior.
— Ele foi comido? — Sherlock ficou horrorizado. Ele não tinha a intenção de que qualquer mal viesse a acontecer àquela criatura.
— Não, o cachorro tentou comê-lo, mas o sapo ficou preso na garganta dele e o fez sufocar. O mestre tirou o bicho da garganta do cachorro e cheio de raiva o atirou no rio. Perda de tempo, claro, o sapo ficou perfeitamente feliz na água, acredito que mais feliz do que jamais esteve na faculdade. Certamente mais feliz do que o cachorro, que depois do ocorrido, nunca mais comeu sem antes inspecionar cuidadosamente e virar várias vezes primeiro.
Mycroft oferecera pagar a passagem do trem para Sherlock até Oxford, mas, lembrando-se da sua conversa com Matty, Sherlock recusou. Ele preferia ter uma longa viagem em uma barco, apreciando a paisagem pelo caminho, os dois amigos juntos. Quando explicou isso, Mycroft resmungou:
— Quão incivilizado. Quão desconfortável.
 Sherlock passou os últimos dias antes de sair de Londres revisitando seus lugares favoritos, a ponte sobre o Tâmisa, as livrarias da Charing Cross Road, o Zoológico de Londres e a agitação da estação de Paddington. Ele sentiria falta de Londres. Sentiria muita falta dali, e prometeu, enquanto caminhava pela Baker Street, longe da estação, que um dia voltaria a morar ali.
No dia marcado, Sherlock pegou as poucas coisas que tinha – roupas, seu violino e alguns livros, e juntou-se a Matty no barco em Camden Lock. Eles partiram em silêncio, Matty bastante consciente dos sentimentos mistos de seu amigo sobre ir embora. Enquanto que ele, pelo contrário, estava mais feliz do que Sherlock tinha visto em um bom tempo.
Matty era, de muitas maneiras, exatamente o oposto de Mycroft Holmes. Ele era magro enquanto Mycroft era gordo, intuitivo enquanto Mycroft era lógico, criticamente inquieto e ativo, enquanto Mycroft era resolvido e preguiçoso. A única coisa similar entre eles era o seu gosto por comida.
 Harold, o cavalo de Matty, trotou solidamente ao longo do caminho à beira rio, puxando o barco lenta e calmamente ao longo do canal Grand Junction. Matty ficou na parte de trás, dirigindo com o leme para garantir que a embarcação não fosse para o meio do rio, puxando Harold para dentro da água rasa. Sherlock sentou-se na frente com as pernas cruzadas, observando os obstáculos e os túneis, e deixando sua mente à deriva. Eles passaram por campos, florestas, estradas e rios. Sempre que passavam por outras barcaças viajando na direção oposta, geralmente carregadas de carvão, madeira ou de tubos de metal, Sherlock erguia um dedo até a testa, e o homem na outra barcaça fazia o mesmo. Sempre que chegavam a um bloqueio (as barragens que permitiam que o nível da água baixasse ou subisse de acordo com o panorama) Sherlock precisava saltar para fora e guiar Harold a uma parada, e usando seu peso para fechar o primeiro conjunto de maciços portões de madeira atrás do barco enquanto Matty o conduzia cuidadosamente, então ele abria as eclusas no mesmo conjunto maciço de portões para permitir que a água do outro lado entrasse no compartimento, aumentando o nível da água ali dentro até o que o segundo conjunto de portas pudesse ser aberto. Mesmo Sherlock tendo que correr por aí, abrindo e fechando as pesadas esclusas, ficou maravilhado com a inventividade daquele mecanismo. Como era incrível que a ingenuidade humana tivesse inventado algo tão complicado, tão útil e tão inteligente!
Os dois comiam quando ficavam com fome (comprando comida em fazendas e tavernas pelo caminho) e dormiam quando ficava escuro e não era mais seguro continuar. Ao invés de medir sua jornada pelas cidades e aldeias que encontravam, como teriam feito se tivessem viajando em rodovias ou ferrovias, Sherlock media seu progresso pelos nomes das várias eclusas que atravessaram e dos rios que passaram por eles. Os que ficaram em sua memória foram a eclusa Black Jack, a Iron Bridge e a Lady Chapel, o rio Musbourne, o Bulbourne e Chess. O único centro populacional de que ele se lembrava era do mercado de Aylesbury, onde os dois pararam por um dia inteiro para olhar ao redor e comprar queijos e tortas.
Eles chegaram ao canal Grand Junction eventualmente, que dava para o canal de Oxford.
— Esse canal fica entre Oxford e Cambridge — Matty falou de trás do barco enquanto tinham o trabalho de atravessar de um canal para outro. — Provavelmente para ser mais fácil de os estudantes que não forem bem em uma tentar alguma chance na outra universidade. Talvez você possa precisar disso um dia!
— Guardarei a informação na memória — Sherlock disse laconicamente.
Quando se aproximaram de Oxford, Sherlock começou a ver sinais de riqueza crescente – casas maiores, instaladas em seus próprios terrenos, edifícios feitos de pedras trazidas de pedreiras distantes ao invés de pedras ásperas cortadas no local. As roupas que as pessoas vestiam eram de melhor qualidade também, com os chapéus de palha cada vez mais sendo substituídos por chapéus achatados.
Eles passaram em frente a uma casa que chamou particularmente a atenção de Sherlock. Estava iluminada pelo pôr-do-sol, fazendo-a brilhar com uma macabra luz carmesim. As várias decorações afiadas ao longo da borda do telhado se pareciam com dentes raspando o céu escuro. Havia algo sobre a estrutura do edifício, a forma como as alas se juntavam ao corpo principal, e a forma como as linhas das pedras de cor diferente marcavam as divisões entre os andares e atravessavam a fachada, que o fazia se sentir desconfortável, até mesmo um pouco enjoado. Nenhuma das linhas parecia ser paralelas, e nenhum ângulo dava noventa graus, dando à casa uma sensação estranha e desequilibrada.
No entanto, não parecia estar caindo. Parecia que tinha sido propositalmente construída dessa maneira, construída usando uma geometria que não se baseava nas regras que Sherlock aprendera na escola. Havia alguma coisa sobre a forma como as janelas ficavam entreabertas, negras e vazias, que o fazia pensar em muitos olhos, todos olhando para ele impiedosamente, medindo-o e encontrando-o à espera.
 Ele se sacudiu. Estava viajando por muito tempo sem distrações, e com fome. Sua imaginação, geralmente a parte mais silenciosa de sua mente, corria solta.
— Você tá vendo aquele lugar? — Matty perguntou.
— Sim — Sherlock respondeu, mais baixo do que pretendia. Era como se ele não quisesse que a casa os ouvisse.
— Estranha, né?
— Sim. — ele sentia que precisava manter suas respostas o mais curtas e diretas possível para evitar chamar a atenção. — É só uma casa com um arquiteto ruim. — disse Sherlock bruscamente — Nada para entrar em pânico.
— Harold não gostou — Matty falou, e de fato o cavalo parecia estar se afastando da construção o máximo que a corda o permitia. Matty estava tendo que dirigir o barco mais para dentro do canal apenas para impedir que eles fossem puxados para o banco.
Sherlock olhou de novo para a casa enquanto o progresso inexorável do barco os levava para além do olhar furioso da casa. O prédio quase parecia se mover com eles enquanto navegavam, mantendo sua fachada enfrentando-os e suas janelas negras fixadas sobre eles. Assim que eles estavam prestes a desviar o olhar, a luz do pôr-do-sol atingiu o telhado iluminando uma forma que era diferente das chaminés e das decorações esculpidas. Aquela forma se parecia com uma gárgula, um demônio de pedra colocado ali, virado para o terreno da casa, mas quem decoraria sua casa com apenas uma gárgula, e de qualquer forma porque colocar? Gárgulas eram geralmente encontradas em igrejas ou catedrais, e geralmente estavam em grupos, não sozinha. E elas não deveriam ser como calhas que recolhem água da chuva? Quem colocaria apenas uma calha de água em um telhado?
Enquanto esses pensamentos cruzavam a mente de Sherlock, a figura maciça se moveu. Moveu-se para um lado, e o seu braço direito se esticou para segurar a extremidade de uma chaminé, estabilizando-se quando uma rajada de vento soprou, agitando as águas do canal e chegando brevemente no barco. A figura olhou para Sherlock e parecia ter cerca de dois metros de altura, com um peito que parecia um barril e uma cabeça calva e estranhamente irregular, em vez de lisa como o couro cabeludo de um homem deveria ser. Os braços também pareciam longos demais. Ele estremeceu, sentindo um medo inexplicável. Então Sherlock piscou, e de repente a figura desapareceu. A linha do telhado era mais uma vez apenas chaminés e decorações afiadas.
Um truque de luz e sombra – deve ter sido. Ele respirou profundamente, percebendo que havia parado de respirar por alguns instantes.
— Você viu...? — ele começou a falar, em seguida, impediu as palavras que ia dizer.
— Vi o quê? — perguntou Matty.
— Nada.
— Você quer parar durante a noite? Já está escurecendo. Ainda temos um pouco de salsicha e queijo sobrando.
— Vamos continuar por mais meia hora — Sherlock olhou para a casa de novo. — Quero estar mais próximo do nosso destino final antes de parar.
— Você é o chefe. — disse Matty alegremente, depois acrescentou, mais baixo: — mesmo que seja o meu barco e o meu cavalo.
Eles continuaram seguindo até que a casa estava fora de vista e Harold se acalmou, então eles pararam e amarraram o barco para passar a noite. O céu estava sem nuvens, salpicado de estrelas, e os dois se deitaram no convés e comeram suas provisões enquanto Harold mastigava ruidosamente o gramado da margem.
Eles conversaram sobre tudo e sobre nada, coisas importantes e coisas triviais, tudo ao mesmo tempo. Sherlock apresentou hesitantemente seus planos de voltar para Londres assim que terminasse Oxford e trabalhar para ou com a policia, e Matty pela primeira vez falou sobre seus sonhos de encontrar uma garota, se casar e ter uma família grande. Eles dormiram ali, no convés do barco, e se Sherlock sonhou, não se lembrou dos sonhos.
Eles chegaram no dia seguinte em Oxford.
Eles amarraram o barco nos arredores da cidade e entraram. Quando chegaram ao centro, Sherlock se apaixonou pelo lugar. As várias faculdades – Christ Church, é claro, mas também Balliol, Jesus, Merton e muitos outras – espalhavam-se pela cidade como ameixas em uma ameixeira.
A cidade em si era uma mistura de lojas, tavernas, casas, prédios oficiais e armazéns, mas os edifícios das universidades eram magníficos e antigos feitos de pedra, como minicidades medievais muradas por direito próprio. Estudantes vestidos com chapéus e roupas pretas estavam por toda parte: caminhando, andando de bicicleta ou à pé em grupos e conversando. Sherlock notou que os estudantes conversavam em seus grupos, enquanto as pessoas da cidade conversavam entre si.  Havia pouca mistura entre os dois grupos. Ele guardou a informação em sua memória para consideração posterior.
Recordando o endereço que estava na carta de Charles Dodgson, Sherlock encontrou a casa onde viveria ao virar da esquina da Christ Church College. A casa de número 36 era uma casa de pedra de três andares, situada num terraço de casas similares. Não havia nada de especial, mas os degraus de pedra eram limpos e as janelas brilhavam. A Sra. McCrery obviamente tinha muito orgulho de sua casa.
— O que você quer fazer? — perguntou Matty.
Sherlock pensou por um minuto.
— Eu quero almoçar. E depois voltar para o barco e pegar minhas coisas. Preciso de uma carruagem, acho, para carregá-las. Eu não aguento tudo, mesmo se você me ajudar, mas deve sair caro.
— Não se preocupe com a carruagem — Matty falou misteriosamente. — Eu resolvo isso. Você vê algo para almoçarmos.
Eles comeram sentados às margens do rio Isis – um afluente do Tâmisa, lembrou Sherlock. Em vez de roubar algo de uma barraca ou do balcão de uma loja, ele gastou parte do dinheiro que seu irmão lhe dera em alguns pãezinhos recheados com porco assado e garrafas de limonada.
Os dois assistiram barcos, barcaças e chatas passarem por eles enquanto nuvens passavam por cima.
Quando voltaram para o barco, Sherlock carregou suas coisas para a margem enquanto Matty desapareceu em uma tarefa misteriosa. Quando voltou, ele estava com Harold, seu cavalo, que agora estava preso a um carrinho. Havia palha no carrinho. Obviamente, ele conseguiu emprestado de algum fazendeiro ou trabalhador próximo. Sherlock só esperava que o dono soubesse que havia emprestado.
— Carregue — disse Matty animado.
— Duvido que essa seja a maneira como a maioria dos estudantes daqui chegam em Oxford — Sherlock comentou duvidosamente. — Mesmo os que estão aqui apenas para se prepararem para a Universidade, em vez de estudar nela.
— Bem, isso não é problema. — Matty apontou. — Você não é como os outros estudantes.
— Bem colocado, você tem razão — Sherlock admitiu.
Então eles passaram a próxima hora andando tranquilamente pela cidade, ambos empoleirados no banco do condutor na frente do carrinho enquanto os bens de Sherlock se espalhavam precariamente atrás deles. Várias vezes ele teve que mergulhar na traseira para evitar que uma bolsa ou baú deslizasse pela estrada.
Quando voltaram para a Edmonton Crescent, Matty ajudou Sherlock a descarregar suas coisas.
— Bem — ele disse com intensidade — então é isso. Eu te vejo por aí.
— Talvez você pudesse entrar — disse Sherlock. — Conhecer o lugar.
 Matty olhou para as suas roupas esfarrapadas e as suas mãos sujas.
— Não sei. As pessoas daqui parecem escolher bem quem recebem em suas casas. Não tenho certeza de que faço parte do grupo que eles convidariam.
Sherlock estava prestes a argumentar sobre o que ele disse quando uma voz o interrompeu.
— O senhor deve ser o jovem mestre Holmes, certo?
Ele se virou e viu uma grande senhora vestida de crinolina preto. Ela estava de pé nos degraus do número 36, olhando para eles. O cabelo dela era cinza, seus olhos eram de um azul desbotado, mas seu comportamento feroz era compensado pela forma como seus olhos se enrugaram mostravam um sorriso de boas-vindas.
— Sou eu — concordou Sherlock. — Meu amigo aqui só estava...
— Entrem para a sala de estar, os dois. Farei um pouco de chá. Tenho biscoitos, geleia e creme se estiverem com fome.
— Na verdade... — Sherlock começou e foi interrompido por Matty.
— Nós estamos famintos.
— Bem, então, venham e relaxem. Não posso deixar crianças famintas na rua. O que os vizinhos pensariam?
Sherlock indicou as malas e os baús.
— E quanto...
— Pedirei para um dos meus garotos trazerem pra dentro — ela disse. — Esses “meus garotos” são os que trazem carvão e deixam os sapatos brilhando. Também tem os “meus garotos” que ficam aqui, como você. E tem os “meus garotos”, que meu falecido marido me deixou, mas estão espalhados pelo sul da Inglaterra agora.
— Sinto muito pelo seu marido — Sherlock falou. Isso explicaria as roupas pretas. Ela parecia estar de luto. — Quando ele morreu?
— Faz trinta e cinco anos no mês que vem — ela respondeu. — Agora, entrem. Vocês estão fazendo a rua parecer desarrumada, e se tem uma coisa que não suporto é desordem. — Ela pensou por um momento. — E ciganos. E cães.
Sherlock olhou para Matty e levantou uma sobrancelha. Matty olhou para ele com uma expressão ilegível no rosto.
— Acho que você vai se encaixar aqui muito bem — ele falou baixinho.
Eles subiram os degraus da entrada e passaram pela porta. Era provavelmente o lugar mais limpo que Sherlock já vira em toda a terra. Ele estava acostumado à vida em navios, onde tudo tinha que ser guardado onde não tivesse perigo de cair e quebrar caso o mar ficasse agitado, mas essa era a primeira vez que via aquele mesmo princípio sendo aplicado à terra firme.
— Seu marido era marinheiro — ele arriscou.
— Seja abençoado, você está certo — a Sra. McCrery estava logo atrás deles quando entraram na sala de estar. — Como adivinhou? É por causa do desenho?  — Ela apontou um esboço emoldurado na parede com a imagem de um homem barbudo de uniforme, os braços cruzados e olhando para o observador sob sobrancelhas pesadas.
— Er, sim — ele respondeu.
— Vocês dois sintam-se em casa. Eu vou trazer chá.
— E biscoitos — acrescentou Matty, sentando-se em uma poltrona confortável à medida que a Sra. McCrery saía. — Gostei desse lugar — ele recostou-se na poltrona, o pano rendado que estava no encosto caiu em seu rosto. Ele se assustou. — O que é isso? — perguntou, segurando o pano e o examinando.
— É um antimacassar — Sherlock explicou pacientemente.
— O que é isso, e pra que ter em casa?
— Serve para impedir que o óleo de macassar da cabeça dos homens que sentarem aí descolora o material da poltrona.
— Ah... — uma pausa. — O que é óleo de macassar? É como óleo para lâmpadas à óleo?
— Não, é para o cabelo. Ele condiciona, torna mais fácil de pentear. É feito de óleo de coco e óleo de ylang-ylang.
Matty passou a mão por seus próprios cabelos indisciplinados.
— Ah... eu deveria usar isso?
— Não, eu realmente acho que não precisa. A gordura das tortas quentes que você continua comendo parece fazer um trabalho suficientemente bom.
Matty fungou.
— Acho que você está certo.
Sherlock olhou ao redor. Não tinha muito para se ver – além dos porta-retratos nas paredes e um gato amarelo dormindo na lareira, a sala estava praticamente vazia. Havia algumas bugigangas um pouco estranhas que poderiam ajudar Sherlock a descobrir sobre a personalidade da Sra. McCrery, embora ele já tivesse um parecer sobre ela.
Ele caminhou até a lareira e se curvou para acariciar o gato. Era melhor começar a fazer amigos, pensou ele. Ele passou a mão pelas costas do gato, escovando-o da cabeça para a cauda. O gato não pareceu se importar. Na verdade, nem pareceu notar. Possivelmente estava profundamente adormecido, mas não parecia respirar: a lateral de seu corpo estava parada. Ouvindo de perto, ele ainda não conseguia ouvir nenhum som, e então percebeu que ele estava frio. Talvez o gato estivesse morto. Essa seria uma maneira terrível de começar ali, tendo que contar à Sra. McCrery que o seu gato estava morto.
Ele descansou a mão cautelosamente nas costas do gato novamente. Nenhuma reação. Então pressionou mais forte. O gato estava curiosamente rígido. Talvez o rigor mortis tivesse se estabelecido, o endurecimento dos músculos que aparentemente acontecia em algumas horas.
Ele apertou ainda mais, mas não havia nenhum vestígio de órgãos no corpo do gato. Estava tão duro e tão frio como uma pedra.
— Está empalhado — ele disse com surpresa, recostando-se em seus calcanhares.
— O que? — perguntou Matty.
— O gato, eu acho que está empalhado.
— Bem... — Matty começou a falar, mas antes que ele pudesse pensar nas palavras, a Sra. McCrery reapareceu na porta com uma bandeja. Ela colocou a bandeja em uma mesa baixa perto de Matty, se virou para olhar Sherlock e disse: — Ah, vejo que já conheceu Macallistair.
— Macallistair? — Ele olhou para o gato. — Ah, sim. Já nos apresentamos.
— Ah, o pobrezinho morreu no inverno passado. Estava terrivelmente frio, e eu o encontrei na frente de casa uma manhã, sólido e congelado.
Sherlock olhou novamente para o gato. Certamente ainda não estava congelado? Não na frente a lareira.
— Então a senhora o empalhou — ele falou casualmente.
— Para que ele pudesse estar sempre aqui comigo, em seu lugar favorito. — Ela se endireitou e apontou para o conteúdo da bandeja. Chá, biscoitos, geleia e creme. — Fiquem à vontade, não façam cerimônia. Volto mais tarde para mostrar o seu quarto, Sr. Holmes.
Ela se virou e saiu da sala. Houve um silêncio por alguns instantes.
— Eu me pergunto o que ela fez com o marido — Matty observou. — Se eu fosse você, não iria até o porão, especialmente à noite.
— Talvez todos os inquilinos anteriores estejam ainda em algum lugar na casa — Sherlock falou sombriamente. — Todos enrolados confortavelmente em seus lugares favoritos.
Matty olhou duvidosamente para a bandeja de chá, depois para Sherlock.
— Você quer experimentar o chá e os biscoitos primeiro?
Sherlock riu de repente. Era tudo muito estúpido.
— Ela não é uma assassina em série. Ela é apenas uma senhora que amava seu marido e seu gato. Não há lei contra isso. O chá não está envenenado, e nem os biscoitos. Vamos, vamos comer.
Eles comeram os biscoitos, que eram deliciosos, quentes e macios. Depois de dois biscoitos, tomou um pouco do chá, e Matty decidiu que era hora de ir embora. Ele saiu e Sherlock sentou-se por um tempo na sala de estar, deixando seus pensamentos vagarem.
— Eu vou lhe mostrar seu quarto agora. — A Sra. McCrery disse aparecendo repentinamente na porta. — Oh, posso ver que você e seu amigo gostaram dos biscoitos.
— Estavam perfeitos. — disse Sherlock, seguindo ela para as escadas.
— Eu mesma fiz a geleia. — ela falou. — Você nunca vai adivinhar que fruta usei.
— Azevinhos? — ele perguntou inocentemente.
— Ah, não — ela disse, chocada. — Azevinhos são venenosos! Eu usei groselha.
O quarto de Sherlock era no terceiro andar. Era pequeno, mas bem arrumado, com uma cama que parecia bastante confortável e uma mesa onde poderia trabalhar. Havia também uma poltrona fofa onde ele poderia relaxar e talvez ler, e um guarda-roupa. Uma bacia de porcelana em um suporte completava os móveis do quarto. Suas malas e baús foram colocados encostados na parede embaixo da janela.
— O banheiro fica um lance de escadas para baixo — a Sra. McCrery disse. — Você precisa saber que pela manhã pode haver uma fila no banheiro, já que os alunos têm aulas para frequentar no mesmo horário. Ouvi do Sr. Dodgson que você irá aos seus aposentos para as lições, ao invés da faculdade, então poderá querer esperar até que todos tenham ido.
— Farei isso. — Ele concordou. — A menos que eu acorde mais cedo e chegue ao banheiro antes de todos.
— Não deixe sujeira na banheira, se usá-la — continuou ela — e não deixe barba na pia se você se barbear. Além disso, não tenho nenhuma regra, exceto as gerais sobre tolerância, silêncio, sobriedade e nenhuma mulher na casa sob nenhuma circunstância.
Uma súbita lembrança de Virginia Crowe atravessou a mente de Sherlock.
— Eu não acho... não acho que será um problema.
— Jantar, hoje e toda noite às dezenove horas em ponto. Café da manhã às sete da manhã. Fora isso, sinta-se à vontade para fazer seus horários. — Ela fez uma pausa. — Também não permito comida nos quartos.
— É claro.
— Também não aceito comida no banheiro. Só estou dizendo isso porque um aluno, alguns anos atrás, costumava contrabandear tortas e comê-las no banho, sabendo que elas não eram permitidas em seu quarto. Isso é ser estudante, sempre procurando um jeito de contornar as regras, dobrando-as sem realmente quebrá-las.
Sherlock pensou em todas as vezes que havia obedecido as regras sem realmente obedecê-las. Essa era a maldição de uma mente lógica, você sempre pode achar uma saída.
— Sem comida no banheiro. — ele prometeu.
A Sra. McCrery assentiu.
— Hadoque esta noite — ela disse com muita atenção — e eu também fiz um molho especial!
— Perfeito!
Quando ela saiu do quarto, Sherlock foi até a janela e olhou para fora. Seu quarto ficava na parte de trás, e ele podia ver os jardins abaixo, e também os dos vizinhos. Mais adiante estavam os jardins das casas da próxima rua, e depois ele olhou para as casas, cujos fundos eram bem menos conservados do que as fachadas, e ele se lembrou de quando passou na frente daquela casa mais cedo. Essa é a natureza humana, ele pensou, limpar as coisas que as pessoas podem ver e ignorar aquelas que geralmente não são observadas.
Além dos telhados das casas na próxima rua, ele conseguia ver as torres pontudas de uma das capelas da faculdade apontando para o céu azul. Pelo menos ele pensou que fosse a capela da Christ Church College, pela posição que estava com relação à casa. No dia seguinte ele iria para a faculdade e se apresentaria a Charles Dodgson. Ele se perguntou como seria o homem. Com base no fato de ter escrito livros para crianças, e baseado também no modo como escreveu a carta para Mycroft, Sherlock imaginou-o com um espírito livre, o tipo de homem que sempre quis ser, ou talvez sempre achou que deveria ser, divertido e incomum, independentemente das circunstâncias, mas como isso podia ser possível se ele era professor de lógica em uma das maiores universidades do mundo?
Amanhã, ele pensou, vai ser interessante.
Os pensamentos o lembraram que ele deveria escrever para Mycroft, assegurando ao irmão que ele havia chegado com segurança em Oxford. Ele fez isso, então selou a carta e a deixou de lado com a intenção de enviá-la no dia seguinte.
Ao verificar o relógio, descobriu que ainda tinha várias horas até o jantar. Não sentiu vontade de sair novamente, então se deitou na cama e fechou os olhos com a intenção de descansar. Ele ficou disperso em seus pensamentos antes de pegar no sono, e cada vez mais disperso por causa dos barulhos do lado de fora, mas eventualmente ele dormiu e se viu sonhando com uma mesa de jantar onde todos os outros convidados, meninos de sua idade, estavam empalhados e envernizados. Ele acordou assustado e ao olhar para fora, viu que já estava escuro.
Sacudindo os últimos vestígios do sonho, levantou-se, tirou suas coisas das malas, lavou-se na água fria da bacia e trocou de roupa antes de descer as escadas para o jantar.

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