12 de setembro de 2017

Capítulo dois

GALWAY É UMA PEQUENA CIDADE COM personalidade em abundância. Conforme a carruagem rodava ruidosamente ao longo das ruas de paralelepípedos sinuosas, passando por lojas e tabernas, por mulheres de xale e homens de ásperos casacos de veludo cotelê e chapéus retos, Sherlock continuava precisando se lembrar que estava em casa – bem, quase em casa – e não em algum longínquo porto estrangeiro.
Mycroft ficou em silêncio por um tempo depois de sua entrada. Parecia evitar o olhar de Sherlock, e em vez disso olhava para fora da janela da carruagem com uma expressão pensativa no rosto.
— Devo confessar — ele falou finalmente — que não te contei toda a história.
— Não estou surpreso — Sherlock murmurou. Ele já chegara à conclusão de que havia mais sobre a presença de Mycroft em Galway do que seu irmão revelara.
Mycroft olhou para ele com uma sobrancelha levantada.
— O que exatamente você quer dizer?
— Você me disse certa vez que raramente faz qualquer coisa por apenas um motivo. Considera isso preguiça e um desperdício de tempo e de recursos. — Sherlock olhou para seu irmão, que tentava manter uma expressão fixa de sobrancelha erguida e falhava. — Sei que você odeia viajar, e que odeia ter sua rotina perturbada. Eu teria esperado que você enviasse alguém para me receber... talvez Rufus Stone. — Ele fez uma pausa, considerando. — Na verdade, agora que venho a pensar sobre isso, Galway não é um porto que eu normalmente teria esperado que o Gloria Scott visitasse. Lembro-me que estávamos programados originalmente para fazer uma parada em Liverpool, mas os planos do capitão mudaram. Na verdade, lembro que ele teve um visitante, um inglês, quando aportou em Cadiz. Eles tiveram uma reunião na cabine do capitão. Pouco depois ele nos avisou que mudaria nosso itinerário. — Sherlock sentiu uma pequena pontada de irritação começar a desabrochar em seu peito. — Mycroft, foi você quem pediu ao capitão para mudar seu curso e vir para Galway só porque você tinha outro negócio na Irlanda, nesta cidade, e lhe era conveniente combinar a sua viagem para cá com o seu reencontro comigo?
Mycroft encarou Sherlock por alguns momentos sem falar.
— Bom trabalho. Vejo que suas faculdades mentais não secaram para compensar o óbvio excesso de desenvolvimento do seu corpo. Sim, eu já sabia há algum tempo que haveria... digamos, um evento... nesta área, em que eu seria obrigado a comparecer neste momento. Eu estava acompanhando o curso de volta do Gloria Scott por meio de vários agentes que tenho em portos ao redor do mundo, e previ que chegaria à Inglaterra aproximadamente no mesmo tempo em que eu estaria na Irlanda. Telegrafei para um dos meus agentes e disse-lhe que se encontrasse o Gloria Scott quando este passasse por Cadiz e falasse com o capitão Tollaway. Ele ofereceu ao capitão... bem, vamos dizer uma pequena, mas não insignificante quantia de dinheiro para mudar um pouco seus planos e atracar aqui em Galway, e que tentasse organizar as coisas de modo a chegar aqui nesse dia em particular. — Ele levantou uma sobrancelha para a expressão de Sherlock . — Você está com raiva, percebo.
— Sim, estou com raiva. — Sherlock desviou o olhar de seu irmão e se voltou para a janela. — Pensei por um tempo que você tivesse feito um esforço para chegar até aqui, em meu nome, porque tinha me perdido, não porque eu poderia ser movido como um peão em um tabuleiro de xadrez porque isso convinha a você.
— Confesso — disse Mycroft pesadamente — que não levei em conta os seus sentimentos quando fiz meus planos. Isso foi um erro. Sinto muito. Por favor, aceite o fato de que eu estou mais do que feliz em vê-lo, e que, se tivesse sido sempre parte do plano do capitão parar em Galway antes de seguir para Southampton, eu teria feito o meu melhor para estar aqui para recebê-lo independentemente de quaisquer outros planos que eu tivesse. Isso simplesmente tornou as coisas mais... convenientes... para mim, combinar eventos separados em um só.
— Fico contente em poder ajudar — Sherlock murmurou amargamente.
A carruagem parou em frente a um ornamentado hotel. Um porteiro moveu-se para ajudar Mycroft e Sherlock descer.
— Tive que ficar aqui por alguns dias — Mycroft falou quando alavancou-se fora de seu assento. A carruagem inclinou-se alarmantemente quando ele se moveu. — Felizmente nos mudaremos para o Castelo Cloon Ard, que fica na estrada para a costa em uma área conhecida como Salthill, esta tarde.
— Para o seu trabalho.
— Sim, para o meu trabalho.
— E eu tenho direito de saber o que é este trabalho, ou devo apenas esperar pacientemente até que o tenha concluído e possamos voltar para a Inglaterra?
— Vou contar-lhe tudo a respeito no almoço — Mycroft pisou na calçada e a carruagem balançou para trás em suas molas. — Eu prometo. — Ele olhou para o condutor. — Não precisarei de você por algumas horas, mas por favor nos pegue às quatro horas da tarde, em ponto. Terei bagagem. Um monte delas. — Ele olhou para Sherlock. — Precisaremos arrumar-lhe vários conjuntos de roupas, um par de sapatos decentes, uma mala e alguns produtos de higiene pessoal esta tarde. Não podemos deixá-lo parecendo um marinheiro itinerante pelo resto de sua vida. Tomei a liberdade de entrar em contato com um alfaiate local. Ele nos assistirá esta tarde com uma série de ternos de vários tamanhos. Considerei trazer algumas das roupas que deixou para trás na Mansão Holmes, em Farnham, mas eu temia que você tivesse crescido demais para caber elas. — Ele olhou para Sherlock conforme o irmão descia da carruagem. — E vejo que eu estava certo.
Um mesa tinha sido reservada para Mycroft no restaurante do hotel, e o maître os acompanhou pela extensão do salão quase vazio. Quando estavam sentados Mycroft pediu:
— Lagosta para mim, eu acho. Sherlock, posso recomendar o linguado. — Quando Sherlock assentiu, acrescentou: — E uma garrafa de Montrachet.
maître do hotel fez um movimento de desculpas com as mãos.
— Sancerre? — Outro encolher de ombros. — Bordeaux?
— Vou querer uma cerveja de qualquer fabricação que você tiver no estoque — Sherlock pediu, surpreendendo a si mesmo.
— E suponho que beberei o mesmo — Mycroft murmurou tristemente. Quando o maître se afastou, ele acrescentou: — Eu gostaria que o clima da Irlanda fosse mais propício para o cultivo de uvas. Tal como está, a umidade constante favorece apenas o cultivo de lúpulo, batatas e cogumelos. Ouvi dizer que os empreendedores locais encontraram uma maneira de fazer um preparado de batatas. É chamado de “poteen”, e fui informado de que ele é muito usado tanto como combustível para lamparinas quanto como um meio de remover verniz de mobílias, assim como uma bebida. Até agora eles não conseguiram produzir uma bebida alcoólica a partir de cogumelos, mas eles são um povo inventivo. Dê-lhes tempo suficiente e eles terão sucesso. — Ele suspirou profundamente. — Muitas vezes penso que o mérito de uma boa bebida é o quão bem ela se presta ao ser utilizada na culinária. Basta pensar em carne temperada com vinho tinto, refogado de frango em conhaque ou champagne trifle. Temo que, se você tentar marinar um peito de frango em poteen, ele dissolveria em instantes. — Ele olhou para Sherlock. — Cerveja, hein? Você está crescendo, e não no sentido que necessariamente aprovo. Suponho que podemos culpar a companhia a que foi submetido durante o ano anterior.
Sherlock levou um momento para olhar ao redor do restaurante.
— Marinheiros são pessoas rudes — ele falou finalmente — mas pelo menos são honestos em suas relações. Eles dizem o que querem e eles querem dizer o que dizem.
— Ao contrário de mim? — Mycroft perguntou. — Acho que mereço essa repreensão. Então, enquanto esperamos que as maravilhas da cozinha apareçam, conte-me tudo sobre a sua viagem. Estou curioso para ouvir os detalhes.
— Seus agentes não lhe deram um relato completo? Não creio que haja algo que eu possa adicionar aos seus relatórios.
— Não fique arrogante, Sherlock. Você passou por uma experiência de mudança de vida. Quero saber tudo sobre ela. — Ele fez uma pausa momentânea. — Na verdade, os meus agentes mencionaram algo sobre uma criança assassina feral e um plano para explodir um navio da Marinha Americana, mas prefiro ouvir os detalhes de você. Pareceu tudo fantástico demais.
Sherlock passou o almoço inteiro contando a Mycroft tudo o que acontecera com ele no Gloria Scott, em Xangai e nos outros portos em que o navio atracou. Mycroft ouviu, interrompendo de vez em quando com uma pergunta pertinente e focada. Quando Sherlock contou a história de sua luta de vida ou morte com o Sr. Arrhenius, ele pôde ver que seu irmão estava ficando cada vez mais tenso.
— As tempestades eu já esperava — ele murmurou enquanto Sherlock terminava sua história. — Escorbuto, talvez. Mas isso... isso eu não fazia ideia. Você foi afortunado por ter sobrevivido.
— Agora é a sua vez — Sherlock solicitou. — O que está fazendo aqui, e quem esperamos ver quando chegarmos ao castelo? É algum tipo de reunião diplomática?
Mycroft balançou sua enorme cabeça.
— O que você sabe sobre o espiritualismo? — perguntou ele.
Sherlock ordenou seus pensamentos.
— É a crença de que quando as pessoas morrem, seus espíritos – suas almas, como quiser – vivem em uma forma imaterial e podem ser contatados por alguém devidamente sensitivo aqui na terra. Acredito que essas pessoas sensíveis são chamados de “médiuns”. Os espíritos dos mortos supostamente vivem em um lugar que não é exatamente o céu, mas é mais parecido com algum outro plano de existência que não podemos ver e que não pode ser descrito. Sei que tem havido médiuns que alegam entrar em contato com pessoas famosas que morreram como Shakespeare ou Mozart e feito novas peças ou composições musicais da autoria deles em reuniões chamadas “sessões”. Há uma infinidade de mesas de comunicação e o uso de tábuas de madeira com letras em torno com a qual os espíritos, supostamente, podem usar para soletrar mensagens.
— Você parece cético — disse Mycroft. — E eu aprovo.
— É difícil não ser. Tanto quanto sei, não há nenhuma prova absoluta de que estes meios podem realmente contatar os mortos, e as mensagens que vêm do outro lado são bastante genéricas – os mortos são, aparentemente, bastante felizes na maior parte do tempo, e são vagos sobre o que fazem quando não estão em contato com os médiuns. E, claro, os médiuns tiraram dinheiro das pessoas que frequentam as sessões, o que significa que todo o processo é vulnerável à fraude. Essa é uma forma particularmente desagradável de fraude – negociar com a tristeza do luto recente, a fim de fazer dinheiro.
— Você acredita que os espíritos vivem depois da morte? — Mycroft perguntou conforme comiam o prato principal.
— Eu sei que não acredito em fantasmas — ele falou finalmente. — Tive que pensar muito a sério sobre isso em Edimburgo, mais de um ano atrás, quando Gahan Macfarlane usava maquiagem teatral para levar as pessoas a pensar que cadáveres reanimados estavam cometendo crimes em seu nome. Ele queria assustar os moradores para que fugissem e o deixassem com seus negócios. Lembro-me de conversar com Matty sobre isso.
— Penso que o jovem Matty acredita em fantasmas. Percebo que entre pobres e ricos, o primeiro tem maior probabilidade de acreditar no inexplicável. Aqueles de nós que têm a sorte de ter uma quantidade adequada, mas não excessiva, de dinheiro tendem a ser mais céticos. Ou talvez seja a excessiva má sorte ou excesso de boa sorte na vida o significado que as pessoas buscam para explicações que se encontram fora do comum.
— Matty me contou que já viu algumas coisas em sua vida que não foi capaz de explicar de outra forma sem recorrer à ideia de fantasmas. Quanto a mim, eu me ocupo com os pontos simples, como o fato de eles serem capazes de atravessar paredes, mas não caírem através de pisos e escadas, bem como a forma como todos os fantasmas parecem perder a cabeça após a morte. Eles podem ser grandes conversadores na vida, mas assim que morrem, todos parecem recorrer a gemidos, murmúrios e ao arrastar de correntes para provarem seu ponto. Por que só saem à noite? Por que não caminham à luz do dia? Não há um sentido racional. E — ele acrescentou — a partir de um ponto de vista pessoal, quando morrer, a última coisa que quero que aconteça é ser forçado a ficar ancorado próximo do lugar onde morri sem nenhum outro objetivo além assustar as pessoas. Se alguma coisa do meu caráter ou personalidade durar após a morte, então quero ser capaz de me mover, viajar um pouco e visitar alguns lugares que não pude ver antes.
— Como o centro da Terra?
Sherlock olhou com curiosidade para o irmão.
— Se, como você aponta logicamente, um fantasma que pode atravessar paredes como se não existissem deveria atravessar o chão também, então parece lógico concluir que todos os fantasmas acabariam no centro da Terra. Se, é claro, eles forem limitados pela gravidade. Talvez seja por isso que a Igreja ensina que o inferno é abaixo de nós e o céu, acima.
Sherlock assentiu decisivamente.
— A coisa toda é baseada em uma série de premissas que não fazem sentido.
— Então concordamos quanto a fantasmas. Muito bem. E sobre o conceito de que algo de uma pessoa – chame espírito ou alma – sobrevive após a morte do corpo? Ou seja, você admitiria uma perspectiva um pouco diferente.
— Não houve alguém certa vez que disse que a energia não pode ser criada nem destruída, embora possa mudar de forma e fluir de um lugar para outro? Acho que li isso em algum lugar.
— Um físico e médico alemão: Hermann von Helmholtz. Bastante precisos e metódicos, os alemães. É por isso que eles fazem esses engenhos soberbos. O Senhor nos ajude se eles decidirem dominar o mundo – sua obstinação e determinação praticamente garantiriam seu sucesso.
— Então se a consciência de uma pessoa é definida como uma forma de energia dentro do cérebro, faz sentido que a energia não seja destruída quando o cérebro é destruído. Ela ou flui para outro lugar, ou é transformada num outro tipo de energia.
— Um excelente argumento — Mycroft admitiu.
— Por que tanto interesse em almas e a persistência do caráter e da memória após a morte? — perguntou Sherlock, intrigado. — E o que diabos isso tem a ver com o motivo pelo qual você está aqui em Galway?
— Você ficará ciente de que o meu trabalho para o governo britânico envolve a coleta de informações a partir de certo número de agentes localizados em todo o mundo. Eu coleto estas informações, como um pescador arrasta cavalas em sua rede, e então classifico tudo, buscando peixes escondidos na captura que são consideravelmente mais raros do que as cavalas, ou talvez à procura de duas ou três cavalas cuja captura por si só parece aleatória, mas que podem ser colocadas juntas para formar uma imagem maior. — Ele franziu o cenho. — Creio ser melhor que eu abandone a metáfora da pesca. Não está me ajudando com o meu argumento. De qualquer forma, o meu trabalho é frustrado por três coisas – comunicação, percepção e morte.
— Você precisa explicar isso um pouco melhor, se não se importa. Sem recorrer à pesca.
— É claro. A comunicação é um problema porque leva semanas ou até meses para os meus agentes conseguirem informações para mim, e no momento em que ela chega à minha mesa, muitas vezes está desatualizada, substituída pelos eventos subsequentes. O homem que inventar um meio de comunicação que permita a alguém falar com outra pessoa do outro lado do mundo como se estivesse na sala ao lado irá, eu garanto, se tornar um milionário. A percepção é outro problema porque espero que os meus agentes olhem para cada informação que esteja em sua posse como se fossem eu, mas eles não são. Tenho a sensação de que muitas vezes eles descartam informações que acreditam ser sem importância, mas que, se eu as visse, me levaria a chegar a conclusões importantes. A morte é um problema porque um número significativo de meus agentes têm o hábito de deixar de existir antes que eles possam me dar seus relatórios. — Sherlock olhou para Mycroft, chocado, e seu irmão continuou: — Não quero parecer insensível. Sei que têm entes queridos, e seus familiares sentirão sua falta. O problema é que a natureza deste negócio significa que muitos deles trabalham sob perigo, em locais fora de mão onde acidentes geralmente acontecem, ou podem contrair doenças estrangeiras estranhas. Outros têm o hábito de ser pegos enquanto infiltrados em prédios governamentais de várias capitais de todo o mundo e são mortos enquanto tentavam escapar ou, pouco tempo depois, por enforcamento ou por fuzilamento. É, infelizmente, o risco que esse trabalho envolve. Todos eles sabem que isso pode vir a acontecer.
Sherlock encontrou-se tendo uma visão de seu amigo Rufus Stone em sua mente. Ele sabia que Rufus tinha sido, na verdade, ainda era, um agente de seu irmão. Teria o Rufus sido enviado em algumas dessas situações perigosas de que seu irmão falava? Havia alguma chance de que ele pudesse ter sido, ou ainda pudesse ser, morto? Ele decidiu não perguntar.
— Suponho que o problema é que quando eles morrem, as informações em suas mentes morrem com eles?
— De fato. Isso acontece com muita frequência.
Sherlock teve uma súbita sensação de onde Mycroft queria chegar.
— E se houvesse algum meio de entrar em contato com eles após suas mortes, você poderia ser capaz de recuperar as informações que apreenderam e fazer uso delas? — perguntou ele. Ele foi pego de surpresa pela escala da visão de Mycroft. Era provável que algo como isso pudesse ser feito? Seria até mesmo concebível?
— Entendo seu ceticismo. Ninguém nunca conseguiu demonstrar a comunicação com os mortos de outras maneiras além de um quarto mal iluminado, quando todos estão de mãos dadas e voltados para o centro. O problema é que o governo britânico foi abordado por um homem, um médium, que atualmente reside na Irlanda. Seu nome é Ambrose Albano, e ele afirma que pode encontrar qualquer espírito falecido recentemente e estabelecer uma comunicação bidirecional com ele. Se suas alegações forem verdadeiras, e aprecio a enormidade do que está por detrás da palavra “se”, então o governo que controlar esse meio de comunicação. Ser o primeiro a explorá-lo daria uma vantagem sobre o resto do mundo que seria difícil de erradicar.
— E é por isso que você está aqui, para confirmar suas pretensões?
— Sim. Sou cético, e meus superiores e mestres sabem disso, mas quando protestei de todas as maneiras quanto a ser enviado para cá, eles salientaram que, se um cético como eu pudesse ser persuadido, então a pretensão deve ser verdadeira. Infelizmente eu não pude argumentar contra essa lógica.
— Não poderia este médium ter viajado para Londres? Ele poderia demonstrar suas habilidades na frente de um público muito maior.
Mycroft assentiu.
— Eu ressaltei este ponto, e ainda associei com o fato de que ele insiste em ser testado na Irlanda, sugerindo fortemente que ele quer controlar o ambiente no qual será testado, mas meus argumentos caíram em ouvidos surdos. Ele não viaja, fomos informados – algo a ver com um ferimento que certa vez recebeu na cabeça e que está estranhamente conectado de alguma forma com suas habilidades espirituais. Não, apesar da minha conhecida aversão de viajar, eu me vi forçado a planejar um pequeno passeio através do mar da Irlanda.
— Como ele foi acabar no Castelo Cloon Ard?
— Entendo que Sir Sadrach Quintillan, a quem pertence o castelo, tornou-se seu protetor e patrono.
— Nunca ouvi falar dele.
— Não há nenhuma razão para ter ouvido – o título não é hereditário, foi concedido por serviços prestados à Família Real. Ele é, no entanto, um homem interessante, como descobrirá quando nos encontramos com ele. O que ocorrerá esta tarde, quando formos até o castelo.
— E qual será o meu provável papel nisso tudo?
— Você é um rapaz inteligente, e um observador atento a detalhes. Eu apreciaria ter suas opiniões como um acréscimo às minhas. Além disso, pode haver ocasiões em que você enxergará coisas que não estarei em posição de ver.
— Ficaremos hospedados no castelo?
— Sim. Estou certo de que a hospitalidade de Sir Sadrach é inigualável – pelo menos, no oeste da Irlanda.
Sherlock olhou por um momento para o irmão.
— O que espera conseguir com isso, Mycroft? Você quer que seja verdade ou não, que este médium possa se comunicar com pessoas específicas e nomeadas que já morreram?
— Eu querer que seja verdade ou não é irrelevante. Estou aqui para estabelecer se é ou não verdade. Preferências pessoais devem ser impiedosamente filtradas de tal consideração; caso contrário, podem afetar a conclusão. — Ele suspirou. — Mas por mim, espero que não seja verdade. Estou ciente de que alguns dos meus agentes sofreram muito substancialmente antes de suas mortes. Há, infelizmente, muitos regimes em todo o mundo que tem menos consideração do que a Grã-Bretanha. Prefiro pensar que a morte foi uma fuga do sofrimento em vez de apenas um tropeço em uma longa jornada.
— E — Sherlock se aventurou suavemente — você não gostaria de falar com eles se pensa que poderiam culpá-lo por tudo o que aconteceu a eles.
— De fato. E eles poderiam. Estou certo de que poderiam.
Esse pensamento os calou por um tempo. A sobremesa – algum tipo de creme aromatizado com álcool – chegou, mas Sherlock apenas a experimentou. Ele ainda pensava nas implicações do que Mycroft lhe dissera. Se fosse verdade que os espíritos dos mortos podiam se comunicar, o mundo seria revolucionado. As implicações eram imensas!
Depois de terminar com suas sobremesas, Mycroft levou Sherlock até seu quarto. Sua bagagem já estava acomodada. Alguns momentos depois que eles entraram, houve uma batida na porta. Um homem entrou, muito bem vestido mas com deferência, trazendo várias camisas e ternos. Ele entregou tudo a Sherlock, que pareceu espantado.
Ele não tinha usado nada tão formal desde Xangai, e já fazia bastante tempo.
— Experimente-os no banheiro — Mycroft sugeriu. — Já encomendei vários conjuntos de roupas de baixo para você. Deixei-os em uma prateleira lá. Por favor, experimente-as também.
Quando Sherlock finalmente saiu do banheiro, sentindo-se estranhamente constrangido pelas roupas estranhas, outro homem havia chegado. Ele trazia uma grande caixa em suas mãos.
Mycroft olhou Sherlock de cima a baixo.
— Sim — ele disse criticamente. — Isso servirá. — Indicando o recém-chegado, ele acrescentou: — Este senhor trouxe vários pares de sapatos de tamanhos diferentes. Por favor selecione aqueles que se sirvam melhor para que eu possa acertar com ele.
Poucos minutos depois, Sherlock estava totalmente vestido. Ou pelo menos ele achava que estava. Mycroft olhou para ele e disse:
— A gravata, suponho, dará toda a harmonia. Tomei a liberdade de selecionar uma para você.
De volta ao banheiro, Sherlock se olhou no espelho. Era como olhar para uma pintura – ele quase não se reconhecia mais. A imagem no espelho não tinha qualquer relação com a imagem de si que ele guardava em sua mente.


Faltando cinco minutos para as quatro da tarde, Mycroft solicitou um carregador para levar as malas até a carruagem. Ele havia comprado uma mala para Sherlock poder transportar seus escassos bens. Quando estavam prestes a deixar o quarto, de repente, ele levantou a mão e deu um tapa na própria testa.
— Que tolo! Quase me esqueci. — Inclinando-se do outro lado da cama, não sem alguma dificuldade, ele pegou uma maleta estranha e curva e estendeu-a para Sherlock. — Penso que você poderá encontrar um uso para isso.
Sherlock pegou-a maravilhado. Era uma maleta de violino! Com os dedos vacilantes, ele a abriu. Dentro estava, como ele sabia que estaria, seu velho violino – o que ele tinha comprado de um comerciante em Tottenham Court Road.
— Algo para conectá-lo à sua vida anterior — disse Mycroft. — Peguei-o da Mansão Holmes em minha última visita.
— Você foi... muito atencioso — disse Sherlock em voz baixa. — Obrigado.
Eles fizeram o seu caminho até onde a carruagem os esperava. Em poucos minutos estavam fazendo barulho pelas ruas de paralelepípedos de Galway em direção ao norte, paralelamente à costa. A estrada começou gradualmente a inclinar para cima, e Sherlock logo olhava para o oceano cinza brilhante.
Sherlock não tinha como ter certeza, mas com base no tamanho e no número de mastros ele tinha uma forte suspeita de que o navio que podia ver no cais era o Gloria Scott. Ele sentiu uma pontada repentina e inusitada de arrependimento. Lá tinha sido duro, mas lá ele estava em casa. Sentiria falta dele.
Ele esperava ter a oportunidade de viajar para o exterior de novo em algum momento de sua vida.
Levou meia hora para a carruagem fazer o caminho da cidade de Galway para Castelo Cloon Ard. O céu estava cinza, com nuvens baixas, e uma garoa fina lavava a paisagem. Tudo o que Sherlock podia ver da janela parecia ser colorido em vários tons de verde e cinza.
A carruagem virou bruscamente à esquerda, atravessando um portão postado em um muro de pedra de dois metros e meio de altura que parecia cercar uma propriedade de algum tipo.
— Fale o mínimo que puder quando chegarmos — Mycroft advertiu. — Mas mantenha seus olhos e seus ouvidos abertos. Estarei bastante interessado em saber que impressão que você formará das pessoas e das situações as quais estará se envolvendo.
O Castelo Cloon Ard, quando finalmente chegaram lá, era menor do que Sherlock tinha imaginado. Era essencialmente baixo, uma torre de quatro andares de pedra cinza no meio de um ameaçador muro de três andares. Havia janelas no muro – fendas estreitas que davam vista para baixo sobre a paisagem – o que indicava que eram grossas o suficiente para conter salas e corredores, e não apenas construções estreitas para proteção. A parte do muro a que eles se aproximaram tinha uma torre semelhante incorporada, porém menor. Sherlock não conseguia ver se havia uma torre correspondente do outro lado. A coisa toda era cercada por um grande fosso. A ponte levadiça atravessava o fosso dando em um amplo arco no muro.
À medida que a carruagem rodava em torno do lado do castelo para chegar à ponte levadiça, Sherlock olhou para fora pela outra janela, a do lado oposto ao castelo. Ele percebeu que depois do fosso, apenas a poucos passos, havia um penhasco. Ao longo da borda do penhasco, vários metros abaixo, estavam as águas cinzentas do Atlântico.
O som feito pelas rodas da carruagem mudou de madeira sobre terra para madeira sobre madeira enquanto atravessavam a ponte levadiça e entravam no castelo através da arcada. A carruagem parou e, segundos depois, o condutor desceu e abriu a porta para eles.
Sherlock emergiu primeiro, e ajudou seu irmão a descer. O ar estava fresco e frio, e com o cheiro do mar. A área dentro das muralhas era pavimentada com grandes lajes de pedra manchadas de musgo. Gaivotas voavam acima.
Sherlock olhou para o interior do castelo. Era muito melhor do que ele havia imaginado visto de fora; era um quadrado delimitado pelas paredes, com um grande bloco no meio do lado voltado para o Atlântico – presumivelmente, o alojamento principal – e uma torre menor em um dos dois cantos mais próximos.
Uma porta postada no bloco principal se abriu. Sherlock e Mycroft viraram-se para enfrentá-la. Em vez do conjunto de degraus que normalmente levava até a porta, Sherlock notou que ali havia uma rampa de pedra. Estranho, pensou.
Da escuridão da entrada, uma figura surgiu – um homem em uma cadeira de três rodas sendo empurrado por uma mulher de face severa, vestindo um casaco preto, colete cinza e, estranhamente, calças listradas. Seu cabelo estava preso em um coque apertado. Por um momento horrível Sherlock pensou que fosse a Sra. Eglantine, a venenosa ex-governanta de seus tios, mas, embora esta mulher fosse semelhante em sua construção e características, elas não eram a mesma. O homem que ela empurrava estava na casa dos cinquenta, tinha boa aparência, com cabelos grisalhos encaracolados, mas o que impressionou Sherlock particularmente era que ele era negro.
Ele sorriu para Mycroft e Sherlock, e abriu os braços.
— Mas que prazer recebê-los no Castelo Cloon Ard. Por favor, venham, venham!
Um movimento nas sombras da entrada atraiu a atenção de Sherlock. Foi só quando uma terceira pessoa se adiantou que ele pôde ver que era um homem com mais ou menos o seu tamanho e constituição. Ele vestia um terno preto e um chapéu da mesma cor, e seu cabelo preto caía em cascata sobre os ombros. Seu olho direito era azul brilhante, e olhava para Sherlock com curiosidade penetrante. O esquerdo era uma esfera de vidro enevoado que parecia brilhar com sua própria luz interna.

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