12 de setembro de 2017

Capítulo dezesseis

SHERLOCK OLHOU MAIS AO FUNDO do túnel. À frente, bloqueando a luz de outra lanterna assim como uma pedra bloqueando uma corrente de água que derrama em torno dela, havia a figura de um homem grande. Um homem muito grande. Sherlock não podia ver seu rosto, mas reconheceu a voz. Ele havia visto o homem pela última vez brevemente em uma plataforma da estação ferroviária em seu caminho para Edimburgo há quase dois anos, e antes disso na condução de uma carruagem, em Moscou. Seu nome era Kyte, e ele era um agente da Câmara Paradol.
— Um pouco abaixo de seu posto, não é mesmo, carregar um homem como o Barão por aí? — Sherlock perguntou, endireitando-se. — É um pouco como transportar bagagem, o que faz de você apenas um porteiro.
— O Barão cometeu o erro de realmente prestar atenção em você — disse Kyte.
Ele deu um passo à frente, e a luz da lanterna ao lado do corpo do Barão iluminou seu rosto corado e sua enorme barba vermelha. Eles estavam escondidos sob o capuz que ele usava do lado de fora, mas ele tinha se livrado dele fora agora. Também havia jogado fora as roupas cinza que vestia e agora estava com calça e camisa pretas, as mangas arregaçadas. Um tipo de algema de couro estava preso em seus antebraços, estendendo-se a partir de pulsos para cotovelos. Seus braços eram enormes, e suas mãos eram do tamanho de espadas.
— Não temos que fazer isso — disse Sherlock.
— Ah, mas faremos. Você se pôs em nosso caminho várias vezes, jovem Holmes. Tem que haver um acerto de contas.
Kyte bateu seus pulsos e lâminas gêmeas saltaram das algemas amarradas em seus antebraços. Elas fizeram um som de clique-clique mortal quando travaram na posição. Elas se estendiam além de suas mãos, que ele fechou para mantê-las fora do caminho das lâminas. Sob a luz oscilante das lanternas, elas pareciam brilhar como ouro.
Sherlock se preparou: perna direita para trás, perna esquerda para frente, alabarda presa na posição em ambas as mãos.
Kyte correu para Sherlock, girando as lâminas em frente ao peito enquanto corria.
Sherlock deu um passo para trás e apontou a alabarda para o rosto de Kyte. Kyte se esquivou para sua direita, ainda movendo-se para frente, usando as lâminas para empurrar a lâmina de Sherlock para fora do caminho. Sherlock lançou-se no sentido oposto, pressionando contra a parede do túnel. Conforme Kyte passava trovejando, Sherlock girou a alabarda e colocou o cabo longo entre as pernas de Kyte. Quando as pernas se juntaram, ficaram presas no cabo, quase arrancando-o de Sherlock, mas lançou Kyte tropeçando para frente fora de equilíbrio. Sherlock puxou a alabarda de volta e virou-a para espetar a ponta de lança em Kyte, mas apesar de sua massa, o homem tinha rolado com flexibilidade para fora do caminho e saltava de pé.
Ele se virou, rosnando, e disparou diretamente para Sherlock novamente, desta vez com as lâminas mantidas retas à frente como os chifres de um touro. Segurando a alabarda com as duas mãos, Sherlock desesperadamente baixou a lâmina na diagonal, descendo de seu ombro direito para o joelho esquerdo. Kyte saltou para trás para evitar ser cortado.
Havia duas projeções curvas antes das lâminas da alabarda – provavelmente usadas para prender cavaleiros e derrubá-los de seus cavalos, Sherlock notou – e ele conseguiu dar uma estocada para frente e embaraçar uma delas na manga da camisa de Kyte. Ele puxou a alabarda de volta, trazendo Kyte fora de equilíbrio, mas Kyte girou, e a lâmina anexada ao seu braço direito deslizando sob o eixo da alabarda, rasgando diretamente através da camisa de Sherlock e desenhando uma linha de agonia de fogo ao longo de suas costelas.
Ele sentiu gotas de sangue caírem da ferida quando se afastou rapidamente, raspando as costas contra a parede do túnel.
Os lábios de Kyte estavam contorcidos em fúria, e seus olhos brilhavam da mesma maneira fanática que os de Maupertuis, mas ele parecia não ter interesse em falar. Ele só arrancar a cabeça de Sherlock de seu corpo. Voltou para trás e erguendo-se em toda sua estatura, ele atacou Sherlock com uma lâmina após a outra, como um boxeador fazendo chover socos em seu adversário, mas com espadas em vez de punhos. Sherlock recuava desesperadamente para longe, aparando os golpes com sua alabarda, desejando que o destino lhe tivesse dado algo menos desajeitado do que a arma longa e pesada.
Seu pé prendeu em uma pedra projetada do chão do túnel e ele cambaleou para trás. Kyte estava sobre ele em um estalar de dedos, braço direito estendido como uma lança. Sherlock rolou para o lado e a lâmina soltou faíscas ao acertar a rocha que estava, momentos antes, embaixo dele. Ele se arrastou para trás sobre as mãos e os pés, de alguma forma ainda segurando a alabarda, e ouviu o barulho contra o chão do túnel.
Kyte seguiu-o, vez após vez se atacando com suas lâminas, mas errava Sherlock como se o menino estivesse sendo puxado de um lado para o outro.
Olhando rapidamente por cima do ombro para se certificar de que não bateria em nada que pudesse deter seu progresso, Sherlock notou a lanterna que havia projetado a silhueta de Kyte antes. Como a anterior, essa estava equilibrada em um caixote velho. Sem pensar muito, Sherlock estendeu a mão por sobre a cabeça e com a alabarda pegou a alça usando um dos pontos curvados na parte de trás da lâmina do machado. Ele puxou com força, trazendo-a por cima de seu corpo e arremessando em Kyte.
O enorme homem saltou para trás, mas tarde demais. Em vez de acertar Kyte, a lanterna se estraçalhou contra a parede do túnel, lançando respingos de óleo sobre ele. O pavio, ainda aceso, pegou em sua camisa.
E a acendeu.
As chamas passaram para o peito e barba de Kyte. Sherlock ouviu os cabelos chamuscando conforme queimavam. Um cheiro horrível encheu o túnel. Kyte bateu nas chamas com as mãos, tentando apagá-las, mas as lâminas chegaram perigosamente perto de seus olhos e ele teve que parar. Ao invés disso, ele se jogou no chão do túnel e rolou, com a areia e a sujeira que se acumulara ao longo dos anos, para abafar o fogo.
Sherlock rolou, saltou de pé e correu pelo túnel na direção oposta à boca da caverna. A alabarda em suas mãos parecia mais pesada do que nunca, arrastando-o para baixo, mas ele não a abandonaria agora. Lanternas ligadas a ganchos nas paredes agora iluminavam seu caminho. Presumivelmente, os capangas de Maupertuis mantinham-nas ali para sua própria conveniência. Ou isso, ou contrabandistas ainda operavam ali, e Sherlock tinha a sensação de que a Câmara Paradol teria apagado todos eles. Ou pagado para que saíssem.
O túnel torcia e virava, mas ele continuou correndo pra longe. Ele pensou poder ouvir os passos pesados de Kyte atrás dele, mas poderia ser apenas o bater do seu coração. Ele não ia parar para descobrir. Não olharia por cima do ombro, caso contrário poderia tropeçar e cair novamente. Se fosse pego, estaria tudo acabado. Ele estaria morto.
Se Kyte ainda o estivesse perseguindo.
As trevas voltaram a aparecer nas paredes do túnel: cavernas que conduziam em outras direções, mais profundas nas falésias, ou em direção à praia. Ele estava tão cansado e tão desorientado que não saberia dizer. A brisa ainda estava em seu rosto no entanto, assim ele permaneceu seguindo no túnel principal.
Túnel que teve um fim abrupto, logo à frente, em uma parede curva de pedra escura, assim como a que ele tinha visto alguns dias antes. Manchas de musgo estavam espalhadas pelas paredes do túnel e no chão em frente a ela, como as marcas de alguma doença terrível.
Ele continuou correndo, mas não havia aberturas no túnel de um lado ou do outro entre ele e a parede. Ele poderia virar, supôs, e voltar, mas estava preocupado que Kyte estivesse apenas alguns metros atrás dele, as lâminas estendidas em direção a suas costas.
Ele sabia onde estava. O muro era a parede pedras-pome da torre, continuando no subsolo. Ele a tinha visto do outro lado quando investigava os porões abaixo do castelo.
Ele ouviu um ruído atrás dele. Era o som das lâminas de Kyte batendo contra a parede do túnel enquanto corria, os braços balançando descontroladamente. Realmente não havia caminho de volta, mas não havia nenhum caminho à frente também.
Seu olhar frenético pegou a visão de algo – uma mancha mais escura na parede da torre, meio desaparecida sob o piso do túnel – uma das aberturas de janelas. Ela ficava menor enquanto ele observava. A torre estava afundando no chão! De alguma maneira, alguém a estava operando!
Ele sabia o que tinha que fazer.
Ainda segurando a alabarda, ele correu em direção à parede tão rápido que se batesse nela, poderia se nocautear. Sua respiração era como se inalasse fogo. Em alguma estranha ilusão de ótica causada pelo cansaço e pela dor, a porta na distante extremidade parecia estar retrocedendo ao invés de ficando mais perto. Obrigou-se a uma explosão final de velocidade, os pés batendo nas manchas de musgo e esmagando-as antes que pudesse deslizar sobre elas.
Isto era apenas como a corrida até a porta da torre contra Niamh, em cima nas ameias do castelo. Em sua cabeça, ele começou a contagem regressiva de 10 segundos novamente.
Quando chegou a oito, e o vulto escuro da janela havia reduzido a um terço do seu tamanho normal e ele se lançou e, quando caiu, deixou seus pés deslizarem sobre o musgo, atirando-se para a lacuna, a alabarda apertada contra o peito com seu eixo descendo até seus joelhos e a lâmina perigosamente perto do rosto. Ele escorregou, levando o impacto em seu ombro e começando a correr em suas costas. Seus pés atravessaram a abertura e entraram na sala da torre, e por um terrível momento, ele pensou que seus quadris ou seu peito ficariam para trás e o folly que descia o cortaria ao meio, mas ele agarrou as bordas da janela da torre com as duas mãos e se puxou para dentro, caindo na pequena sala circular.
Suas costas bateram no chão duro, tirando-lhe o ar pela segunda vez em três segundos. Ele se virou para olhar para a lacuna, que agora estava do tamanho de uma prancha de madeira. Um cão teria problemas em se espremer através dela.
Enquanto ele observava, a diferença diminuiu para a altura de um punho cerrado, em seguida, uma régua de madeira, então...
A lâmina afiada deslizou pela abertura, indo direto para seu olho direito.
Parou a dois centímetros de distância, a mão por detrás dela – a mão de Kyte – tinha atingido o topo da janela do lado de fora. A torre continuou a descer, e com um ecoante chink a lâmina quebrou, e caiu na torre com ele.
Ele estava sozinho, em escuridão total.
Sabia que não podia se dar ao luxo de perder tempo recuperando-se. Tinha que se lembrar que o próximo conjunto de janelas ficava localizado em ângulos retos com esta, o que significava que não havia probabilidade de haver outro conjunto de corredores vindo pelos lados, mas eventualmente, outra janela se alinharia com o túnel em que Kyte estava esperando, e ele entraria na torre. Havia aberturas nos andares entre as salas da torre – ele tinha usado essas aberturas no dia anterior, a fim de subir até o topo. Ele não tinha certeza se Kyte seria capaz de se espremer através das aberturas, mas não esperaria para descobrir. Ele tinha que se mexer.
Descer.
Antes de o pensamento poder se completar ele estava tateando pelo chão invisível, procurando pelo buraco. Ele o achou ao quase cair nele, então se virou, jogou a alabarda através dele e a ouviu bater no chão de pedra abaixo, escorregou as pernas nele e deslizou para a próxima sala, e então para a próxima, e para a próxima. A quarta sala não tinha buraco no chão, e ele levou um momento para ver que havia uma luz fraca que entrava pelas duas janelas. Ele foi até a oposta pela qual entrara e olhou para fora...
Dando com uma caverna circular natural, iluminada por feixes de luzes diagonais que tinham filtrado seu caminho através de fissuras na rocha da superfície.
Ele emergiu da janela, e pisou em uma plataforma estreita e circular de pedras-pome onde a torre tinha sido construída. A plataforma flutuava em um calmo lago subterrâneo de água do mar. Os feixes de luz solar refletiam fracamente na superfície do lago e lançavam ondulações de sombras turquesa sobre a rocha. As bordas ao redor da boca da caverna tinham sido bloqueadas com grossas portas de madeira. As portas poderiam ser puxadas ou descidas usando cordas que iam até em cima e desapareciam dentro de buracos que haviam sido recortados no teto da caverna. Estas deviam ser as represas sobre as quais ele teorizou mais cedo. Ao descê-las ou levantá-las, a água do mar que entrava na caverna poderia ser contida ou liberada, aumentando ou diminuindo o nível do lago e, assim, aumentando ou diminuindo a altura da torre.
Várias dessas portas já haviam sido levantadas, e Sherlock pôde ver que a água vazava do lago e ia para dentro das cavernas, onde presumivelmente retornaria ao mar. Alguém muito acima tinha obviamente decidido baixar a torre. Ele se perguntou quem. Parecia um momento estranho para fazê-lo, uma vez que Quintillan e Maupertuis estavam mortos, os capangas do Barão estavam presumivelmente sob custódia, e Sr. Kyte estava aqui, com Sherlock. Quem mais estaria lá?
Ele olhou com espanto para o lugar de onde a torre ainda descia, um buraco perfeitamente circular no teto da caverna com apenas alguns centímetros de sobra em torno de sua circunferência. Como esse buraco fora criado ele provavelmente nunca saberia. Era um milagre da engenharia. A coisa toda era um milagre – uma maravilha invisível, desconhecida do mundo, escondida debaixo do solo e das rochas da Irlanda.
Antes que pudesse se maravilhar mais do trabalho que esteve envolvido na criação da torre, algo caiu de uma janela alta e atingiu a superfície do lago, entrando com um grandioso splash!
O Sr. Kyte, ao que parecia, tinha desistido de tentar passar através dos espaços nas lajes das salas da torre e mergulhara de uma das janelas.
Sherlock afastou-se da borda da plataforma. Ele ainda tinha a alabarda e agarrou-a com as duas mãos agora, segurando-a na frente como uma barreira protetora. Não que isso seria muito útil contra a força imparável que era o Sr. Kyte.
Ele estava cansado. Não, ele estava exausto. Havia usado todas as suas reservas de energia, e sabia que não podia lutar mais. Não havia sobrado nada para ele poder lutar.
Não, ele disse a si mesmo. Se desistir, você morre. Se quiser ver Virginia novamente, se quiser ver Matty, e Rufus Stone, e o Sr. Crowe, e Mycroft, então você lutará. De alguma forma, você encontrará a energia.
Ele endireitou os ombros, trouxe a alabarda para cima de modo que estivesse paralela ao chão, e esperou.
Ele podia ouvir os respingos no lago conforme o Sr. Kyte nadava de volta para a plataforma de pedras-pome.
Pedras-pome. Algo em seu cérebro havia se agarrado à palavra “pedras-pome” e não a soltava.
Pedras-pome. Eram menos densas do que a água, graças aos furos minúsculos cheios de ar que passavam através delas, e então elas flutuavam. Eram quebradiças e frágeis. Ele ainda tinha cacos delas no bolso.
Quebradiças. Frágeis. Era isso!
Ele tinha apenas alguns segundos para agir antes que o Sr. Kyte nadasse até a borda da plataforma.
Girando ao redor, ele agarrou a alabarda pelo machado e usou a ponta de lança no topo da haste de madeira para espetar em um bloco de pedras-pome na torre – uma que estava por volta da altura do peito. A ponta de lança começou a arrancar lascas de pedras-pome. Ele ali, picando tão rápido quanto podia.
Sherlock olhou por cima do ombro desesperadamente. Uma grande mão apareceu na borda da plataforma, e então outra. Elas descansaram ali por um momento, como se estivessem reunindo forças.
Sherlock redobrou seus esforços. Ele havia esculpido um buraco – um tubo – indo fundo no bloco de pedras-pome. Felizmente, não tinha ido a uma profundidade suficiente para passar para o outro lado. Isso teria arruinado as coisas.
Olhando por cima do ombro novamente, ele viu o topo da cabeça do Sr. Kyte aparecendo acima da borda da plataforma.
Sherlock tinha apenas alguns segundos.
Ele virou a alabarda ao contrário e empurrou a extremidade do bastão de madeira no buraco. Ela ficou pendurada na altura do peito, ponta de lança apontada para fora, tombando ligeiramente com o peso do machado.
Sherlock se moveu para a frente da alabarda. Ele ficou de frente para o lugar onde o Sr. Kyte subia para fora do lago subterrâneo, a ponta de lança pressionada em suas costas.
Isso exigiria uma fração de segundo, caso contrário, ele se empalaria em sua própria arma.
Tremendo, em parte de frio e, em parte de medo, ele esperou.
O Sr. Kyte puxou-se para a plataforma e se endireitou, sua total altura de urso. Seu cabelo vermelho estava colado sobre sua cabeça escaldada e sobre seus ombros. Seus olhos eram como pequenas faíscas vermelhas na máscara torcida de seu rosto.
Ele havia retraído a lâmina remanescente ligada ao seu braço, mas com um rápido bater de pulsos ele ativou o mecanismo de mola e a lâmina deslizou para fora em toda a sua extensão letal.
— Há países no mundo que têm nos causado menos problemas do que você — disse ele em um tom profundo e retumbante. — Mas agora, finalmente, não há outro lugar para correr. Basta aceitar a sua morte, Sherlock Holmes.
Com isso, ele começou a correr para Sherlock, lâmina estendida diante de si. Sua boca se abriu e ele uivou um profundo grito gutural de guerra, obviamente com a intenção de fixar Sherlock contra a torre, achatando-o e atropelando-o inteiramente, ao mesmo tempo.
Pouco antes de a ponta da lâmina tocar seu peito, Sherlock se jogou no chão e rolou horizontalmente para debaixo da alabarda.
Sr. Kyte, com seu impulso irrefreável, correu direto para a ponta de lança. Ela cravou profundamente em seu peito. Apenas o machado e os dois chifres curvados do outro lado o detiveram.
Sherlock se levantou, trêmulo. A cabeça do Sr. Kyte virou para ele, e seus olhos fixaram-se profundamente entrando até a alma de Sherlock. Havia raiva neles, mas havia também surpresa, e uma crescente tristeza.
— A única pessoa que decidirá quando morrerei serei eu — disse Sherlock calmamente.
Sr. Kyte abriu a boca para responder, mas tudo o que saiu dela foi um filete de sangue que se misturou ao vermelho de sua barba queimada. Em um momento ele estava vivo, uma força vital no mundo, e no momento seguinte ele estava morto – nada mais do que um pedaço de carne inanimado e insensível.
Levou quase meia hora antes de Sherlock se sentir capaz de se mover, e mais meia hora para subir laboriosamente através das salas escuras da torre, andar por andar. Eventualmente, uma das janelas das salas se abriu para o ar fresco e a luz do sol brilhante. Ele subiu para o campo irlandês vividamente verde, quase caindo, para encontrar Mycroft, Rufus Stone, Matty, Amyus Crowe e Virginia em pé esperando por ele. Virginia deu um passo para a frente, mão na boca, mas parou antes de chegar a ele.
— Você levou um bom tempo — disse Mycroft.
Seu tom era amargo, mas Sherlock podia ver a preocupação e alívio em seus olhos.
— Presumo a partir de sua chegada tranquila que lidou com o Sr. Kyte?
— Sabe a maneira como alguns homens coletam borboletas, e as fixam em papelão? — perguntou Sherlock, cansado.
— Sim. Por quê?
— Porque acho que acabo de começar minha própria coleção.
— Ah — Mycroft assentiu. — O criminoso pica-pau espetado, vejo. Há, obviamente, toda uma história por trás disso, uma que estou ansioso para ouvir – durante o jantar.
— Quem foi responsável por baixar a torre? — perguntou Sherlock.
— Niamh Quintillan. Quando ela soube que você tinha ido para as cavernas, e que a borda tinha se desintegrado atrás de você, percebeu que seu único caminho para fora seria se ela movesse a torre para que uma das janelas ficasse alinhada com o túnel ao longo do qual você estava correndo. — Ele fez uma pausa. — Ela sabia tudo sobre a torre, e como operá-la. Ela era muito mais parte dos planos de seu pai do que talvez tivéssemos pensado. Ela estava, por sinal, muito preocupada com a sua segurança.
— O que acontecerá com ela?
Mycroft encolheu os ombros.
— Ela foi parte de um grandioso ato de fraude. É inteiramente uma questão para as autoridades irlandesas tratarem, embora haja três imperadores, uma imperatriz e um presidente que podem querer influenciar o resultado. A ação para salvar a sua vida contará a favor dela.
— E agora? — perguntou Sherlock. Ele sabia que deveria se sentir eufórico por sua sobrevivência, mas se sentia cansado e triste.
— O que você quer que aconteça agora? — perguntou Mycroft.
Em vez de responder, Sherlock caminhou até onde Virginia olhava para ele. Ela abriu a boca para falar, mas ele colocou um dedo sobre seus lábios para impedi-la. Tirando o dedo, ele se moveu para frente, passou os braços em torno dela, e a beijou.
Depois do que poderia ter sido alguns segundos ou alguns minutos – ele não tinha certeza – ele interrompeu o beijo e recuou. Ele olhou para Matty, que o fitava com um olhar nitidamente impressionado no rosto.
— Vamos para casa — disse ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!