20 de setembro de 2017

Capítulo dez

WESTON RIU.
 — Eu não testo os venenos nos seres humanos — disse ele — embora tenha me deparado com algumas pessoas da minha época que poderiam merecer isso. Não, eu pego ratos e os uso. As pessoas envenenam ratos o tempo todo – eu apenas vaio o veneno e eu anoto seus efeitos. — Ele parou por um momento. — Mas e quanto às partes do corpo em cera? O que estou fazendo com elas?
Lembrando dos rótulos manuscritos que estavam sob as partes dos corpos nos armários de vidro, Sherlock respondeu:
— Você está buscando os efeitos da vida das pessoas em seus corpos. Quer poder olhar para uma pessoa e dizer o que elas fazem para viver, de onde vieram e como vivem. Está coletando partes de corpos de um conjunto de pessoas diferentes que fizeram trabalhos diferentes, e está analisando seus traços característicos.
— Você soa como se já soubesse sobre esse tipo de coisa.
Uma imagem súbita do rosto de Amyus Crowe passou pela mente de Sherlock. Ele respirou fundo. Ele sentia falta do grande americano.
— Eu tinha um amigo que fazia algo parecido — falou baixo — embora não fosse o tão... organizado... Como você obviamente é.
— Muito bom. — O homem grande e assustado assentiu com a cabeça. — Sim, tenho desenvolvido uma teoria já faz um tempo agora que as ocupações das pessoas deixam vestígios em seus corpos. Tipógrafos possuem as pontas dos dedos achatados por pressionarem as teclas repetidamente, por exemplo. Violinistas também têm a ponta dos dedos achatada, mas apenas de um lado, por segurar as cordas. Os tatuadores têm dedos inchados de onde eles se picaram inadvertidamente enquanto faziam tatuagens, e pegaram infecções. Balconistas e guarda-livros têm uma área achatada de cabelo ao redor de suas cabeças, acima das orelhas, onde o elástico que mantém suas viseiras no lugar comprimiu o cabelo ao longo de muitos anos. O que quer que façamos, seja lá o que for, deixa vestígios em nós.
— Como a fotografia — interrompeu Sherlock de repente. — Os produtos químicos fazem sua pele fica preta!
— Correto.
— O que você pode contar sobre mim? — Matty desafiou.
— Você vive em uma barcaça, tem um cavalo e rouba comida para viver. Também passou por períodos de fome extrema e períodos, como agora, quando está comendo muito bem.
— Como pode saber disso?
— Suas mãos possuem arranhões característicos da madeira áspera, o que significa você pode ser um aprendiz de carpinteiro, mas eles também são ásperos por dentro dos dedos por puxar cordas grossas. Ambos os sinais juntos são uma característica de marinheiros, mas você não tem o bronzeado de marinheiro e seus olhos não possuem rugas por semicerrá-los os olhos no sol. Isso sugere fortemente um barco pequeno. Um barco assim sugere um cavalo, e você tem palha preso em seus cadarços. Suas calças e camisa estão apertados, mas os vincos e as dobras neles sugerem que às vezes ficam mais frouxos. Há também indícios de que as calças estão apertadas na cintura em algumas ocasiões, e largas em outras. Isso me diz que seu peso varia, o que significa que você às vezes come bem e às vezes não tão bem.
— E o roubo de comida? — Matty desafiou. — Isso é pessoal, sim.
— Você tem cicatrizes na mão direita, onde alguém ou vários alguéns, bateram em sua mão com algo. Algumas das feridas indicam que um objeto afiado foi usado, enquanto outras sugerem um objeto grosso e pesado, o que implica que uma série de armas foi utilizada, quase certamente por diferentes pessoas em momentos diferentes. Então você costuma pegar as coisas com a mão direita, que é então atacada pelos proprietários das coisas que você está tentando pegar. O salto para a comida foi um palpite da minha parte, mas então o que seria mais provável?
— Oh. — Matty levantou a mão direita e inspecionou-a. — Isso é óbvio então.
— Há também a evidência dos biscoitos.
— Biscoitos?
— Sim. Havia dez biscoitos naquela bandeja quando eu trouxe. Sete agora, mas não vi você ou seu amigo comerem nenhum. Há também um volume dentro de sua blusa que não estava aí quando você entrou. Obviamente você está se abastecendo de comida para o futuro.
Parecendo tímido, Matty colocou a mão para dentro da blusa. Weston acenou com uma mão para ele.
— Não se preocupe com isso, são apenas biscoitos.
Sherlock queria voltar para a questão de por que Weston estava fazendo tudo isto.
— Você me parece como alguém que está investigando crimes — observou — mas, o senhor é, obviamente, relutante demais em sair de sua casa e fazer qualquer investigação. Quando sai, é grande o suficiente para que as pessoas o percebam por si só, mesmo sem a forma como se veste. Então o que está acontecendo?
Weston tomou um gole de cerveja da garrafa.
 — Eu costumava ser da polícia — ele suspirou. — Isso foi alguns anos atrás, veja. Eu era um detetive inspetor no sul de Londres antes de me mudar para Oxford. Muitos crimes lá, muitos deles envolvendo marinheiros que haviam desembarcado em terra, ficavam bêbados, perdiam seu dinheiro e decidiam recuperá-lo novamente com ameaças. Fiquei muito interessado nos vestígios que os criminosos deixavam para trás, as evidências. Não é muito da posição popular, tenho que admitir. Os outros inspetores com os quais trabalhei são mais óbvios em sua abordagem, prenda a pessoa mais próxima na cena do crime e depois tire uma confissão deles. Perseverei em minha abordagem, no entanto, e tornei-me realmente bom em encontrar pequenos fragmentos de coisas que haviam sido deixados para trás e depois usá-los para rastrear os criminosos de verdade. — Ele deu de ombros. — Vamos tomar um caso real com o qual eu estava envolvido. A testemunha viu um homem afastando-se de uma casa onde uma mulher foi encontrada. A pessoa fugindo tinha o rosto embrulhado em um lenço para não ser reconhecida, mas a testemunha percebeu que o homem tinha mãos muito pálidas. A abordagem usual seria olhar para todas as pessoas que conheciam a vítima e verificar se alguma delas tinha mãos muito pálidas. Eu, por outro lado, fui procurar um padeiro local. Suas mãos são pálidas por causa da farinha, e ela fica arraigada em sua pele. Descobriu-se que a vítima devia o dinheiro a ele, então eu o prendi. Ele confessou enquanto estava sob custódia, sem precisar ser forçado. Tenho que dizer que fui encorajado em minha abordagem bastante radical por um jovem estudante aqui em Oxford. Seus pensamentos corriam similarmente aos meu, e costumávamos falar muito sobre o futuro do policiamento, onde a evidência seria tudo em um caso.
— Mycroft Holmes — Sherlock respirou.
Matty olhou para ele, espantado.
Weston assentiu. Embora Sherlock não visse seu rosto, ele irradiava uma aura de satisfação.
— Quando você falou que seu nome era Sherlock Holmes, pensei que não fosse coincidência. Você é o irmão de Mycroft, não é?
 Sherlock só pôde assentir com a cabeça. Ele ficou paralisado por dois pensamentos antes de se lembrar de seu irmão falando de um policial que conheceu aqui em Oxford, e o segundo que Mycroft o enviara deliberadamente para cá, esperando que os dois se encontrassem. Ele não tinha certeza se estava se sentindo querido, intrigado ou furioso. Houve momentos em que a interferência flagrante de Mycroft em sua vida era muito preocupante. Era como se seu irmão não confiasse em Sherlock para agir por conta própria e sempre procurasse orientá-lo através de vários meios.
— Sim, eu sou o irmão de Mycroft. Você o conheceu aqui, não foi?
— Sim. Nós costumávamos beber na mesma taberna, e conversamos uma noite. Eu tinha me casado e naquela época me transferido aqui para Oxford.
— E então você teve seu acidente — disse Sherlock.
Houve um silêncio durante algum tempo enquanto Weston olhava para as sombras, lembrando-se das coisas que haviam acontecido no passado, coisas que o marcaram mental e fisicamente.
 — Sim — ele sussurrou afinal. — Exceto que não foi um acidente. Foi uma tentativa deliberada contra a minha vida, por criminosos aqui de Oxford que estavam preocupados com o fato de eu estar me aproximando demais para pegá-los e quase ter conseguido. Isso me causou ferimentos que quase custaram a minha vida e me deixaram desfigurado, com dores permanentes e também incapaz de trabalhar. A polícia me expulsou como um lenço usado. Também, mais importante, custou à minha esposa o uso de suas pernas, já que ela estava comigo no momento. — Seu rosto encapuzado voltou-se para Sherlock e Matty. — Você gostaria de ver o resultado?
Sem esperar uma resposta, ele estendeu a mão e puxou a máscara de couro do rosto. Matty ofegou, e Sherlock teve que prender o fôlego para não fazer o mesmo. O rosto de Weston era um quebra-cabeça de carne e tecido cicatricial vivo. As marcas atravessavam o nariz, as bochechas, o queixo e a testa. Também se espalharam pelo pescoço para dentro de sua camisa. As próprias cicatrizes eram escuras e torcidas, muitas delas cruzadas por sinais de suturas. A carne entre as cicatrizes era de cores diferentes – branca, rosa pálido e marrom. As cores presumivelmente dependiam de quão mal a pele fora danificada e de quão bem o suprimento de sangue se reconectou, Sherlock assumiu. O couro cabeludo de Weston estava parcialmente calvo e parcialmente coberto de cabelo. Não havia uma razão para a qual os pedaços fossem o que eram. Uma orelha estava intacta enquanto a outra, não.
Ele tirou lentamente suas luvas. Suas mãos estavam no mesmo estado – com marcas e cicatrizes. A maioria das unhas faltava.
 Havia fortes cicatrizes no pulso esquerdo, quase fazendo parecer que toda a mão tinha sido substituída, embora Sherlock soubesse que era impossível. Do modo como as cicatrizes desapareciam nas mangas e no pescoço da camisa, parecia que elas continuavam pela maior parte de seu corpo.
— Assim eu fui deixado — ele falou uniformemente.
— O que aconteceu? — Sherlock perguntou.
— Você pode ver a evidência, diga-me você.
Ele deixou seu olhar viajar pelas mãos de Weston e de volta ao rosto, mas desta vez olhando analiticamente ao invés de emocionalmente.
— O dano é extenso — falou depois de um tempo — mas curiosamente aleatório. Se você tivesse sido atacado por uma faca ou uma espada, as linhas das cicatrizes seriam mais retas. Há cicatrizes nas palmas das suas mãos, percebo, embora novamente, se tivesse sido atacado por um homem ou vários homens com armas, eu esperaria que você erguesse os braços para se defender, e aí haveria cortes significantes. No entanto, pela maneira como os cortes estão arranjados, parece que várias coisas afiadas o atingiram ao mesmo tempo de várias direções. — Ele pensou por um momento. — Estou pensando que você pode ter estado em uma carruagem que tombou, de modo que a madeira e o metal de sua construção deixaram cicatrizes em todo o seu corpo — ele hesitou. — Não, eu o vi alguns dias atrás em uma carruagem entrando nos terrenos desta casa, e você não pareceu perturbado ou ansioso por estar dentro dela, o que aconteceria se já tivesse sofrido um acidente envolvendo uma carruagem.
Sherlock de repente lembrou-se de mergulhar através da claraboia no necrotério de Oxford – a forma como o vidro e a estrutura de madeira se quebraram e o arranharam quando ele caiu. Ele estremeceu.
— Não, acho que é mais provável que você estivesse dentro de um prédio quando ele desabou. Isso explicaria tudo o que eu posso ver.
 Will assentiu lentamente.
— Você está certo. Recebi uma mensagem anônima informando-me que as pessoas que eu estava atrás estavam dentro de uma casa na área de Aslum. Fui para lá e entrei. — Ele hesitou, lembrando. — Eles haviam enchido o lugar com bastões de explosivos. Acenderam os pavios quando me viram entrar. Um minuto depois os explosivos dispararam, derrubando a casa em cima de mim. As últimas coisas de que me lembro são poeira, fragmentos de tijolos e madeira e estilhaços de vidro que pareciam flutuar ao meu redor como se eu estivesse debaixo d’água, mas, ao mesmo tempo, observando como eles me cortaram, arranharam e ficaram presos em mim. O próprio tempo pareceu diminuir a velocidade e parar. — Ele tomou outro gole da cerveja. — Eu fui arrastado para fora dos destroços coberto de sangue, com objetos afiados saindo de mim como se eu fosse um ouriço. Eu estava no hospital há meses, com pontos por todo o meu corpo. A dor era... inacreditável. Inesquecível. Sempre fui um homem grande, com uma constituição saudável, mas os médicos dizem que a única razão pela qual sobrevivi foi uma enorme força de vontade. Eu estava determinado a viver. Nada, nem mesmo a intensidade de meus ferimentos, impediria.
— O que os criminosos estavam fazendo? — Sherlock perguntou. Em parte, era curiosidade, mas em parte ele queria desviar a atenção de Weston de sua obsessão com o choque e seus efeitos.
 Weston franziu a testa.
 — Eu estava começando a suspeitar — disse ele — que havia um grupo de ladrões aqui em Oxford especializado em roubar de famílias ricas os bens que elas juntaram ao longo do tempo – pinturas, joias, estátuas e assim por diante. Eram homens inteligentes e letrados que estudariam livros e manuscritos antigos com a esperança de descobrir quais famílias possuíam tais coisas e, em seguida, invadiriam as casas secretamente e roubariam tudo. Naturalmente, levaria um bom tempo até eles disporem de sua carga – ouro, é claro, pode ser derretido, mas metade do valor de um anel antigo está na história associada a ele, e as pinturas roubadas devem ser compradas por alguém que conhece seu valor e está preparado para escondê-los, mas esses ladrões de obras estavam atrás de lucro a longo prazo, e não de dinheiro rápido.
— O senhor os pegou? — Matty perguntou.
— Oh, não. A polícia me deixou ir. Eu não era bom para eles assim. Não posso caminhar propriamente, e em dias chuvosos a dor me faz retorcer em agonia. As pessoas têm medo de mim, então não posso interrogá-las ou interagir com o público de qualquer forma, mas tampouco posso ficar sentado atrás de uma mesa por mais de meia hora sem que as dores me encontrem, então como veem, um trabalho de escritório está fora de questão. Eles me chutaram. Acabei aqui, nesta casa, um recluso potencial. Então não, eu nunca os peguei. Mas quero muito.
 — E isso explica a coleção de criaturas venenosas — observou Sherlock, as palavras emergindo de sua boca no momento em que as pensou. — Você ainda está investigando, não é?
— Estou juntando as ferramentas — admitiu Weston — embora eu não esteja em condições de usá-las. Outros terão que fazer isso. E meu conhecimento também é útil em outros casos.
— Você está morando aqui com sua esposa — observou Sherlock. — Disse que ela foi atingida pelo mesmo... acidente... que você, mas ela não estava com o senhor, estava?
Weston balançou a cabeça.
 — Não, mas um dos meus colegas enviou um garoto correndo para contar o que aconteceu. Ela veio direto para os destroços da casa. A polícia os estava retirando, ainda procurando por mim, mas havia áreas instáveis em que temiam pisar porque alguns dos andares superiores ainda estavam de pé, prontos para cair a qualquer momento. Ela estava convencida de que eu estava numa dessas áreas, então entrou para me buscar. Sem um pensamento quanto a sua própria segurança. — Ele sorriu, os lábios cheios de cicatrizes se torcendo quando ele se lembrou. Uma longa pausa. — Uma parte do piso do primeiro andar caiu enquanto ela estava lá. Logo depois que ela me encontrou e gritou para os socorristas que eu estava lá, meia tonelada de tijolos caiu em cima dela. Ela nunca mais andou.
 — E então as histórias começaram — Sherlock falou em voz baixa.
— Sim, as histórias começaram. Não imediatamente, mas à medida que as pessoas esqueceram-se do acidente, e quando se afastaram ou se mudaram para a área, gradualmente esqueci quem eu era e o que aconteceu. Eu não ajudei, é claro, ao ficar fora da vista, nas sombras. Há algo sobre ter um gigante coberto de cicatrizes que deixa as pessoas nervosas. Começaram a circular histórias de que eu não era real, que tinha sido construído a partir de partes de corpo sobressalentes, como naquele livro Frankenstein.
— Você não impediu em nada os rumores ao roubar partes de corpos do necrotério. Apenas piorou as coisas.
 Weston suspirou.
 — Eu sei, mas eu precisava das peças para construir minha coleção, para continuar a aprender sozinho como identificar a ocupação de uma pessoa a partir dos pequenos sinais deixados em seus corpos. Eu não tinha outra alternativa.
 — E você teve que roubá-las.
 — Sim. Ah, eu poderia ter me dirigido ao doutor Lukather, é claro, e pedido que me deixasse pegar as partes, mas ele teria dito que não. Ele é um homem bastante honrado, e eu sabia disso.
— Mas o senhor não precisava das partes do corpo — apontou Sherlock. — É a cópia de cera de que necessita. As partes verdadeiras poderiam ser devolvidas ao necrotério e enterradas junto com o resto dos corpos.
Weston sacudiu a cabeça.
— São necessárias algumas semanas para fazer as cópias. Eu uso um homem chamado Oscar Meunier. Ele vem de Grenoble, mas está vivendo em Londres no momento, fazendo uma boa vida com a produção de esculturas de cera da nobreza. Ele também faz um trabalho para mim, com essas cópias. Achou o trabalho fascinante, e ele é um verdadeiro artista. Eu preciso das cópias, é claro, porque os verdadeiros se deterioram. Mesmo que eu os conservasse, eles sofreriam. O tecido desapareceria, e eles seriam inúteis para os meus propósitos. Não, as cópias devem ser feitas, mas leva tanto tempo que as famílias há muito já enterraram o resto dos corpos. Retornar as partes é um trabalho quase impossível e difícil de fazer. Tenho certeza de que meus agentes em Londres lhes dão enterros cristãos em túmulos não marcados. É o melhor que posso fazer e, pelo menos, os corpos foram usados ​​para algo importante, algo que beneficiará o mundo.
— Não se você ficar em sua casa e manter todas as informações para si — apontou Sherlock. — Você não pode resolver casos sentados aqui, isolado. Como verá um antebraço de verdade, uma orelha de verdade e saberá a ocupação de seu dono se quase nunca sair e não vir ninguém?
Houve um longo silêncio quando Weston digeriu as palavras de Sherlock.
— Eu esperava... — ele começou com calma, e depois parou. Ele levou a garrafa de cerveja até os lábios, depois baixou-a novamente. — O que mais eu posso fazer? A detecção é a minha vida. É o que faço melhor. É a única coisa que sei fazer. Será que devo ficar ao redor da casa todos os dias, ter George cozinhando e limpando para mim e não fazer nada? Algumas pessoas ouviram sobre mim e me escrevem sobre seus problemas, problemas que a polícia não pode ou não vai resolver, e eu lhes dou o benefício da minha experiência. É o melhor que posso fazer.
— Você poderia repassar as coisas que conhece — Matty sugeriu calmamente. — Pegue um aluno. O Sherlock aqui é brilhante em detectar coisas, tem um modo de aprender na prática. O senhor poderia ensinar-lhe tudo, sabe.
— Suponho que eu poderia — Weston disse lentamente. — Isso, pelo menos, significaria que as informações e as habilidades que acumulei seriam úteis. — Ele recostou-se na cadeira, pensando.
Parecia que se mudar para Oxford seria muito mais interessante do que ele havia pensado. Com Charles Dodgson ensinando-lhe sobre a lógica e Ferny West falando sobre análise de evidências, seus dias seriam repletos de boa diversão.
— Eu o pagaria? — ele perguntou. — Existe um preço para essas lições?
— Apenas uma — disse Ferny. — Preciso que você investigue algo para mim. Um caso envolvendo um homem que me escreveu recentemente com um problema interessante.
Sherlock e Matty se entreolharam.
— O quê? — ambos disseram ao mesmo tempo.
 — Explicarei depois. Primeiro, quero verificar George, e quero que conheça a minha esposa. — Ele levou os dois para fora da sala de estar e subiu as escadas até o primeiro andar. As portas estavam todas fechadas, ele bateu na segundo. — Marie, querida? Temos convidados. Podemos entrar?
Uma voz do interior da sala disse:
— Sim, por favor. Quero conhecê-los.
Ferny abriu a porta.
 — Sherlock Holmes e Matty Arnatt, esta é minha esposa, Marie Weston.
Sherlock entrou, seguido por Matty. Ferny, na entrada, disse:
— Preciso subir e verificar George. Não levarei mais de cinco minutos. Vocês podem conversar enquanto eu estiver fora.
 O quarto estava escuro, com uma única vela sobre uma mesa ao lado da cama. Na cama, sentada com um travesseiro em suas costas, estava uma mulher com longos cabelos escuros e um rosto angelical, mas pálido. Ela sorriu para os dois meninos.
— Entrem, por favor. Há muito tempo que não vejo alguém além de Ferny e George.
Ele se moveu para o lado da cama, enquanto Matty ficou na ponta, arrastando os pés.
— É um prazer conhecê-la — falou Sherlock.
Ele fitou o rosto dela, consciente que já o vira em algum lugar, mas sem ter certeza de onde isso poderia ter acontecido. Ela o observou enquanto ele pensava, um sorriso leve em seus lábios.
— Você age como se me reconhecesse — ela disse finalmente — mas tenho certeza de que nunca nos encontramos. Eu me lembraria de um rapaz bonito como você.
E então a resposta veio até ele.
— Você tirou uma fotografia — ele falou. — Foi em um jardim, há cerca de cinco anos. Seu marido estava lá, e meu irmão Mycroft também.
Ela bateu as palmas uma vez.
— Eu me lembro! — exclamou. — Era um lindo dia de verão, e um amigo de seu irmão nos perguntou se nós posaríamos para ele. Mortimer Maberley também estava lá – ele era o sargento de Ferny na Força de Polícia de Oxford.
— Ainda havia mais alguém lá — apontou Sherlock. — Um menino. Ele teria a minha idade agora, suponho.
O rosto de Marie Weston se nublou. Ela fitou a colcha. Quando voltou a olhar para cima, disse:
 — Isso foi há muito tempo. — Ela fez uma pausa, suprimindo alguma emoção profunda, e continuou: — Ferny me disse que vocês dois invadiram aqui. Presumo, pelo fato de que ele não os atirou para fora, que vocês se explicaram adequadamente a ele.
— Foi... um mal-entendido — disse Sherlock.
— Nós estávamos procurando o cara que estava pegando todos aqueles pedaços de corpos — Matty falou.
— Ah sim, o hobby de Ferny. É a única coisa que o mantém de pé no dia a dia.
— Ele ainda parece acreditar que pode ser útil — disse Sherlock — que o conhecimento pode ajudar outros investigadores em outros casos.
— Ele está se enganando — Marie falou. — Não posso dizer a ele, e imploro que também não digam, mas sua coleção de venenos e partes do corpo em cera é apenas... uma obsessão. Ele é incapaz de fazer qualquer coisa com eles. Apenas se senta lá e olha para eles, analisa-os e escreve muitas observações, mas não há aplicação de seu conhecimento. Ele não pode mais investigar os casos. Sim, as pessoas podem escrever para ele com problemas, ou ele pode ler algo no jornal, mas ele não sai da casa exceto sob cobertura, então como pode realmente investigar?
— Seu marido é muito experiente — Sherlock falou diplomaticamente. — Ele deve ter sido um policial muito bom.
— Ele era um excelente policial, e por isso que estamos no estado em que estamos agora. Eu preferiria que ele fosse um jardineiro ou um padeiro, acho. — Ela balançou a cabeça violentamente. — Mas então ele não teria sido o homem por quem me apaixonei e com quem me casei. A vida pode ser tão cruel às vezes. Você nunca pode planejar o que vai acontecer ou, em vez disso, pode planejar sua vida, mas nunca será como você planejou. Deveríamos ter filhos, e Ferny deveria ser um superintendente de polícia. Em vez de... — ela gesticulou para a cama. — Em vez disso.
— O homem faz planos e Deus ri — citou Sherlock. — Meu tio Sherrinford costumava dizer isso. É um antigo ditado, aparentemente.
— E muito verdadeiro — acrescentou Marie Weston. — Seu tio era um homem sábio.
— Oh, não sei — Matty interveio. — Eu sempre quis estar em um barco nos canais, e aqui estou eu.
Sherlock olhou para ele com ceticismo.
— Esse não é realmente um plano — ele apontou.
Enquanto Matty o encarava, o olhar de Sherlock foi atraído por algo na mesa larga perto do braço esquerdo de Marie Weston. Levou um momento para se perceber o que era.
— Esse é o papel e a corda com que o pacote foi embrulhado, não é? — ele perguntou. — O que continha o... — ele hesitou, não querendo dizer as palavras “pedaço do corpo” em voz alta para não ofender a Sra. Weston. Ela estava obviamente em uma disposição delicada.
— Faz parte do trabalho de Ferny — disse ela. — De sua coleção. De vez em quando chega um pacote pelo correio para ele. Ele me permite desembrulhá-lo, porque tenho tão pouco para ocupar meu tempo nesta casa, mas ele não me permite abrir a caixa porque o conteúdo pode me incomodar. Sei que é apenas cera, cópias em certa, mas mesmo assim, ele se preocupa com o choque.
— Ela insiste em desembrulhar as encomendas — concordou Weston, entrando novamente no quarto. — Acho que a lembra do Natal.
Sherlock sorriu automaticamente enquanto Weston atravessava o quarto para ficar ao lado da esposa, mas seu olhar ainda estava fixo no papel marrom e na corda. Havia algo estranho sobre eles, algo que atraiu sua atenção, mas ele não tinha certeza do que era.
— George está descansando — Weston falou enquanto beijava sua esposa na testa. — O veneno não entrou em seu sistema, graças ao Senhor. Depois de uma boa noite de descanso, ele deve ficar bem.
— Pobre George — murmurou a Sra. Weston. — O que faríamos sem ele?
Weston se sentou na beirada da cama.
— Agora — disse ele, olhando de Sherlock para Matty e de volta — temos uma discussão, vocês e eu. Vamos descer as escadas e conversar como cavalheiros.
— Não, Ferny — pediu a esposa, colocando a mão sobre a dele — por favor, fiquem aqui e conversem. É tão raro eu ouvir uma voz diferente da sua ou de George, e esses garotos são uma companhia agradável.
Ele assentiu.
— Muito bem.
— O senhor mencionou um caso — lembrou Sherlock. — Disse que queria que investigássemos para você.
— De fato. Está ligado ao trabalho que eu fazia como policial, mas não posso completar a investigação agora. A polícia não está interessada, já decidiram que o homem em questão está alucinando e que não há nada a investigar. Eu, no entanto, penso diferente. Acho que algo muito estranho está acontecendo, e também acho que a sanidade de um homem, se não a sua vida, está em jogo. Se eu contasse a outra pessoa, pensariam que estou inventando ou culpariam elementos sobrenaturais, fantasmas ou algo do tipo, mas pelo o que posso ver dos dois, garotos, vocês são nivelados e inteligentes, e não pularão para a conclusão. — Ele olhou de um para o outro. — Quer que eu prossiga?
Sherlock olhou para Matty, depois de volta para Weston. Ele se sentiu estranhamente excitado.
— Conte-nos tudo — pediu ele.

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