12 de setembro de 2017

Capítulo dez

ANTES QUE ALGUÉM PUDESSE impedi-lo, e antes que Albano pudesse desfazer o falso ectoplasma, Sherlock se inclinou para frente e agarrou-o no espaço acima da mesa. O material leve quase não tinha peso em suas mãos, mas ele podia senti-lo contra sua pele. Os fios invisíveis estalaram, um por um, e o material flutuando foi parar em cima da mesa.
— Acendam as lâmpadas de gás — ordenou ele, mas conforme as palavras deixavam sua boca, a luz da sala de repente resplandeceu em brilho.
Levantando o olhar, Sherlock viu que Amyus Crowe passava de lâmpada à lâmpada, acendendo-as em sua capacidade total.
— Qual é o significado disto? — Quintillan gritou. Seu rosto estava lívido. — Vocês são convidados em minha casa. Isto é um abuso intolerável da minha hospitalidade!
— A coisa intolerável aqui — Sherlock disse em voz alta — é a maneira como o senhor e este homem — ele indicou Ambrose Albano — estão usando artifícios para tentar nos convencer de que podem comunicar-se com os mortos, e o senhor está fazendo isso simplesmente para conseguir dinheiro de governos que deveriam ser mais esclarecidos! — ele recolheu o material branco em cima da mesa e ergueu-o. — Isto não é ectoplasma. Não foi produzido por espíritos, e nem aparecem do nada. É apenas um truque de mágica.
Holtzbrinck e von Webenau estavam olhando para ele, de boca aberta. Conde Shuvalov era menos emocional, mas permaneceu prestando muita atenção às palavras de Sherlock.
— Mas... e o rosto? — ele perguntou.
— Uma projeção. — Sherlock apontou para o outro lado da sala, onde ele sabia que o projetor de luz deveria estar, com base na forma como a luz refletia sobre o tecido. — Ele pode ser encontrado ali em cima, escondido atrás da parede. Haverá um buraco por onde a luz passa.
— Mas... de onde ele fez o ectoplasma... o material... surgir? — von Webenau gaguejou.
Sherlock não disse nada, em vez disso amassou o material cada vez mais até que este era uma pequena bola do tamanho de uma noz.
— Facilmente ocultável — disse ele. Ele passou a mão sobre a mesa até que encontrou os fios pretos. Deixou o material expandir-se outra vez em uma nuvem macia, estendendo os fios pelo seu comprimento. Era gritante: preto contra o branco. — Manipulado de fora desta sala para tomar alguma forma particular.
— A forma de uma mulher — disse Holtzbrinck.
— A forma que acreditávamos ser de uma mulher. — Sherlock deu de ombros. — Alguma vez já olhou para uma nuvem no céu e pensou que parecia um dragão? A mente pode pregar peças.
— O senhor me acusa de artifícios? — Albano protestou em sua voz aguda. — O ectoplasma, quando tocado por mãos comuns, torna-se uma substância comum. Todo psíquico sabe disso! Você não provou nada! — ele olhou desafiadoramente ao redor da mesa, seu olho branco falso parecendo olhar para todos de uma só vez. — Não escutarei mais essas acusações!
Ele se virou para sair, mas encontrou Amyus Crowe de pé diretamente atrás dele.
— Oh, você ficará — disse Crowe alegremente. — No momento em que usou a memória da minha querida esposa como apoio nesse seu jogo obsceno, perdeu qualquer pretensão de ser tratado com respeito. Sente-se.
Albano sentou-se abruptamente, com o rosto branco.
— E você — Crowe acrescentou, apontando para Quintillan, que ordenava em voz baixa a uma lacaia o levasse embora — você ficará onde está. Temos coisas a dizer que queremos que ouça. — Ele virou-se para Sherlock. — Vá em frente, filho. Você está indo bem.
— A coisa toda é uma série de truques, um após o outro — explicou Sherlock — projetada para convencê-los de que Ambrose Albano pode comunicar-se com os mortos, para que os senhores queiram dar lances com todos e quaisquer recursos que seus países lhes tenham concedido.
— Truques? — von Webenau parecia hipnotizado. — Mas e quanto à escrita na lousa? Como isto foi feito? Sou um cientista, não consigo enxergar como ele possa ter realizado isso.
— Elementar — disse Sherlock.
Ele caminhou ao redor da mesa até onde Albano estava sentado e enfiou a mão no lado direito de sua jaqueta, onde ele sabia que o dedal branco teria de estar pendurado em seu elástico. Ele teve um mau momento quando este não estava no lugar em que esperava, mas depois de alguns segundos movendo os dedos para cima e para baixo, sentiu um objeto duro. Ele puxou-o para fora. Como o elástico era curto, a jaqueta de Albano foi puxada juntamente, saindo de sua forma natural.
— Este dedal tem giz na ponta. Albano usa isto para escrever na lousa. O elástico traciona e esconde o dedal novamente de vista quando ele termina de escrever.
— Mas as mensagens desapareceram — Holtzbrinck apontou.
— Apagada por suas luvas brancas. Giz branco contra luvas brancas – invisibilidade.
Holtzbrinck e von Webenau trocaram olhares. Eles pareciam genuinamente chocados. Sherlock teve a impressão de que, por alguma razão, eles tiveram realmente o desejo de acreditar nos poderes de Albano.
O conde Shuvalov inclinou-se para frente.
— Você foi muito convincente sobre a escrita na lousa e a materialização do ectoplasma. E as informações sobre o irmão de Herr Holtzbrinck, Fritz — ele olhou Amyus Crowe desculpando-se — e a esposa de meu colega americano, poderiam ter sido obtidas de antemão por meio de uma investigação padrão. Eu trabalho com inteligência – sei bem como essas coisas são feitas. — Ele fez uma pausa, olhando fixamente para Sherlock. — Mas o desaparecimento do Sr. Albano da carruagem antes do acidente... certamente você deve admitir que tal coisa seria impossível de se forjar. Isso não foi um truque. O homem realmente desapareceu.
— Houve um desaparecimento — disse Sherlock quietamente — mas não foi do Sr. Albano. — Ele olhou para os quatro dignitários estrangeiros. — O acidente da carruagem foi forjado para dar ao Sr. Albano a oportunidade de fazê-lo parecer ainda mais poderoso – fazer parecer que ele é tão valioso para os espíritos no plano astral que estes o teriam transportado para lá e o trazido de volta caso ele fosse ameaçado. Mas não houve nenhum sequestro.
— Todos nós vimos quatro sequestradores — Holtzbrinck apontou.
— Não, nós vimos três sequestradores – o condutor e os dois homens que saíram e agarraram o Sr. Albano. A quarta figura que vimos era apenas uma forma – uma silhueta dentro da carruagem. Foi facilmente fabricada ao se suspender um casaco com um lenço preto enrolado para formar uma cabeça.
— Quatro homens fugiram — lembrou von Webenau.
— Sim — Sherlock concordou. — E um deles era o Sr. Albano.
Ele olhou para os homens, um após o outro. Shuvalov já estava do seu lado, bem como Crowe, mas ele tinha que convencer von Webenau e Holtzbrinck.
— Quando Albano foi jogado para dentro da carruagem, ele rapidamente vestiu o casaco que estava suspenso lá, e amarrou o lenço em volta do rosto. Quando a carruagem arrebentou, o que já era suposto que ela faria, ele fugiu com os outros três homens. — Ele virou-se para Quintillan. — Eram criados seus, ou o senhor os contratou da aldeia?
Quintillan apenas o encarou de forma sombria.
— Isto não importa realmente — Sherlock continuou — eu estava apenas curioso. — Ele virou-se para Amyus Crowe. — Deixei alguma coisa passar? Acho que cobri tudo o que tinha importância.
— O ataque a seu irmão? — Crowe estimulou.
— Ah sim. — Ele olhou de von Webenau a Holtzbrinck e depois para Shuvalov. — Isso não teve nada a ver com a sessão, ou com a tentativa de obter o dinheiro de seus governos. Foi uma tentativa de reduzir o campo de jogo. Presumo que alguém tenha imaginado que o governo britânico, sendo o mais próximo e, talvez, aquele com mais recursos, seria o favorito para ganhar o leilão e obter os serviços do Sr. Albano, então ele decidiu tirar o meu irmão da corrida.
— E você sabe quem foi? — perguntou Crowe.
— Originalmente, suspeitei que o atacante obteve acesso à biblioteca por uma passagem secreta — disse Sherlock, ignorando a pergunta. — No entanto, agora suspeito que haja uma explicação muito mais prosaica. Acredito que o atacante estava escondido atrás das cortinas da biblioteca. — Ele olhou em volta para o grupo. — Vocês são todos homens inteligentes, e o ataque foi desajeitado – mal pensado e mal gerido. — Ele virou de repente e apontou para o Conde Shuvalov. — Conde, por que o senhor dispensou o seu criado mais cedo?
Shuvalov encarou Sherlock por um longo momento.
— Ele era incompetente. Não atendeu às minhas necessidades. Mandei-o de volta para casa em desgraça.
— O senhor está dizendo que ele atacou meu irmão sem ser ordenado, incorrendo no risco de um incidente internacional? Ele atuou de forma independente do senhor, pensando que estava ajudando-o, e por isso ele teve que partir.
Shuvalov deu de ombros.
— Você pode pensar o que quiser, mas acredite nisso: eu nunca ordenaria um ataque tão desajeitado, especialmente contra um homem por quem tenho muita amizade. Havia maneiras melhores de se garantir que o Império Russo obtivesse sucesso neste leilão pelos serviços do psíquico — ele olhou para Quintillan — se os poderes fossem reais. Acho que o nosso amigo aqui demonstrou de forma convincente que eles não são, e agradeço-lhe por isso.
Quintillan encarou Crowe e Sherlock moveu seu olhar para os outros dois representantes.
— Eu sei como isso deve parecer — ele falou lentamente. — Entendo que os senhores acham que foram enganados – que acreditam que o Sr. Albano e eu estamos conspirando para levá-los a gastar seu dinheiro em algo que não existe. Mas isso existe. Eu lhes asseguro, os poderes do Sr. Albano são reais.
— Então, por que os truques? — perguntou Sherlock.
Quintillan levou sua mão à testa.
— Isto é... embaraçoso de explicar — ele fez um gesto para Ambrose Albano. — Você se importaria?
Albano se adiantou.
— Eu confesso que houve truques, porém não foram com a intenção de enganá-los, mas sim de me proteger. Meus poderes são... — ele deu de ombros — frágeis. Eles vêm e vão. Quando Sir Sadrach arranjou esta demonstração eu estava fisicamente em boa saúde. Era capaz de demonstrar os meus poderes à vontade sempre que era chamado a fazê-lo. — Ele suspirou. — Mas então sofri uma febre. Fiquei confinado à cama por várias semanas. Os médicos temiam por minha saúde. Eu estava à beira da morte. Eu me recuperei, graças aos cuidados do meu bom amigo Sir Sadrach, contudo ao mesmo tempo em que minha força voltou, minha habilidade de invocar espíritos e atravessar para o outro lado, não. Não perfeitamente, de qualquer maneira. Às vezes posso receber mensagens do outro lado, mas não de forma confiável. Implorei a Sir Sadrach para cancelar a demonstração e o leilão, mas ele disse que tinha levado tanto tempo para organizar que não poderíamos cancelar agora. Ele também apontou que, se eu viesse a falhar em alguma ou todas as demonstrações, então os senhores retornariam e diriam a seus respectivos governos que eu não tinha poderes, que eu era uma fraude e uma farsa, não sendo um ou outro bom o bastante. Então, sim, nós trapaceamos. Inventamos uma série de ilusões mágicas que davam a impressão de uma sessão bem sucedida. Eu realmente sinto muito por isso. — Ele estendeu as mãos em busca de perdão. — Nosso pânico nos persuadiu a um tolo curso de ação.
— Então o caso — von Webenau falou — é que o senhor tem poderes psíquicos, mas não pode controlá-los ativamente. O senhor não sabe quando e nem se vai funcionar.
— Este é exatamente o caso. O que posso acrescentar é que os meus poderes estão gradualmente voltando para mim, e que espero, dentro de um mês, que minha força psíquica esteja completa novamente.
— E nós devemos aceitar a sua palavra quanto a isso? — Crowe perguntou incisivamente.
— Absolutamente não — Quintillan respondeu rapidamente. — Nós entendemos que essa explicação, ao passo que cada palavra é verdade, pode não ser muito convincente, e por isso eu gostaria de sugerir duas coisas. Em primeiro lugar, dado que os poderes do Sr. Albano estão voltando aos poucos, vamos marcar uma demonstração final que não poderá ser falsificada. Tudo poderá ser inspecionado com antecedência em busca de evidências de fraude, e esta inspeção os deixará convencidos de que a única resposta é que os poderes psíquicos estão envolvidos. Em segundo lugar, os senhores serão convencidos pelo fato de que o leilão será realizado com base no que estamos propondo, o Sr. Albano como um psíquico parcial, e não um psíquico completo, e que o dinheiro do lance dado pelos senhores em nome de seus governos refletirá isso. — Ele olhou de pessoa para pessoa. — Será isto aceitável, senhores?
Crowe balançou sua grande cabeça.
— Não é aceitável. Temos um nome para pessoas como vocês nos Estados Unidos. Chamamos-lhe “flim-flam men”. Os senhores são fraudadores de crenças, e nada mais, e esta é apenas uma tentativa patética de nos impedir de partir.
— O governo britânico concorda com o governo americano — disse Sherlock, sentindo uma emoção correr por ele conforme dizia as palavras. Ele gostou da ideia de que falava diretamente em nome do governo britânico, e tinha certeza de que seu irmão teria dito a mesma coisa, embora provavelmente com muito mais palavras.
— Entendo — disse Quintillan tristemente. — E lhes agradeço, cavalheiros, por sua honestidade. — Ele virou-se para von Webenau, Holtzbrinck e Shuvalov. — E quanto a vocês, cavalheiros? Qual é a sua resposta?
Von Webenau e Holtzbrinck olharam para o conde Shuvalov, como se ele fosse o líder do seu pequeno grupo. Ele acenou com a cabeça uma vez, gravemente. Von Webenau voltou-se para Quintillan.
— Assistiremos sua manifestação final — disse ele.
— Mas estamos céticos — Holtzbrinck acrescentou — e estaremos olhando para vocês com olhos críticos. Os senhores precisarão fornecer uma demonstração que seja completamente convincente para nós. Se puderem fazer isso, então o leilão poderá prosseguir.
— Com um número reduzido de candidatos — disse von Webenau. Ele olhou para Sherlock e Amyus Crowe e deu de ombros, desculpando-se. — Sinto muito, mas se vocês estão fora, então estão fora. Não poderão voltar se a demonstração for convincente.
— É satisfatório para mim — Crowe retumbou.
Sherlock assentiu.
— De acordo.
— Com uma ressalva — disse Conde Shuvalov. Ele falava em voz baixa, mas falava tão raramente que todos escutavam. — Este jovem tem uma mente boa, e expôs os artifícios que poderiam ter enganado alguns dos mais crédulos entre nós. — Ele sorriu. — E eu me incluo nesse número. Insisto que ele seja autorizado a assistir a demonstração final e a procurar por qualquer evidência de artifícios. Insisto também que o Sr. Crowe esteja presente, com base em que, quanto mais olhos observando esta demonstração, melhor. Eles não participarão do leilão, se houver um, mas assistirão a tudo.
Quintillan olhou para Albano, que assentiu.
— Sim — disse Quintillan — suas condições são aceitáveis.
— E eu — Sherlock falou corajosamente — insisto que a demonstração seja realizada amanhã, à luz do dia, não à noite. A luz do dia é um grande expositor de fraudes e truques.
— Mais uma vez — disse Quintillan  —sua condição é aceitável.
Pareceu a Sherlock, no entanto, que ele não estava particularmente feliz com isto.
— Agora eu preciso descansar — Albano falou — a fim de conservar a minha energia para a demonstração. Proponho que ocorra depois do almoço.
— Nos reuniremos amanhã depois do almoço, então — Quintillan falou. — Até lá, senhores, vocês devem entreter-se.
Ele gesticulou para Silman, que estava de pé atrás dele o tempo todo, tão imóvel que todos tinham se esquecido que ela estava lá, e ela o virou. Ambrose Albano os seguiu.
— Muito inteligente — disse Crowe, aproximando-se de Sherlock. — Eles conseguiram transformar a derrota em vitória qualificada. Esses tolos — ele apontou para onde von Webenau, Holtzbrinck e Shuvalov estavam agrupados, conversando em voz baixa — querem que esta coisa toda seja verdade, e por isso estão desejosos de deixar esta dupla de trapaceiros ter outra mordida da cereja.
— Pelo menos não estaremos desperdiçando dinheiro britânico ou americano — Sherlock apontou. — E assistiremos, então veremos exatamente como o truque é feito.
— Suspeito que este será o avô de todos os truques — Crowe avisou. — Precisaremos observar cuidadosamente. — Ele pareceu notar alguma expressão no rosto de Sherlock. — Qual o problema?
— Eu estava pensando que a filha de Sir Sadrach não ficará lá muito feliz comigo.
Crowe assentiu.
— Esse é o problema com a verdade, filho. Ela não agrada muita gente, porque vira o mundo de alguém de ponta cabeça. Isto não significa que você deva evitar a verdade, no entanto. Nunca se deve fazer isso. Você só precisa estar ciente de que terá menos amigos por causa disso, mas também que os que ficarem serão amigos melhores. — Ele se virou para Shuvalov, von Webenau e Holtzbrinck. — Sugiro que tenham uma boa noite de sono. Vamos pensar sobre o que aconteceu esta noite, e conversaremos sobre isso amanhã de manhã. Todos de acordo?
Os outros três homens assentiram.
— E quanto ao Sr. Holmes? — o conde Shuvalov perguntou. — Será que ele estará de acordo com este plano?
— Eu o informarei agora. — Crowe olhou para Sherlock. — Estou certo de que ele ficará interessado em saber o que o irmão realizou esta noite. E estou certo de que ele também ficará aliviado ao saber quem o acertou por trás. — Ele olhou calmamente para Shuvalov. — Foi o seu homem, não foi?
Shuvalov fez um gesto ambíguo.
— Digamos apenas que certamente não tornará a acontecer. O Sr. Holmes não está em mais perigo.
Crowe olhou para Sherlock.
— Você vem, Sherlock, ou farei isto sozinho?
Sherlock pensou por um momento. Ele sabia que seu irmão quereria discorrer exaustivamente sobre tudo o que tinha acontecido, mas ele não estava certo se teria energia para isso. Não naquele momento, de qualquer forma.
— Você informa — ele falou. — Você foi uma testemunha independente, de qualquer maneira, então ele irá colocar mais fé no que disser. Eu posso responder a quaisquer perguntas que ele tiver amanhã de manhã.
— É justo — disse Crowe, assentindo. — Neste caso, boa-noite cavalheiros, e durmam bem.
— Eu, ao menos, sinto a necessidade de um brandy bem forte — von falou Webenau. — Alguém se juntará a mim?
Holtzbrinck e Shuvalov assentiram em acordo. Crowe e Sherlock deixaram os três homens ali e compartilharam a sala ascendente até o andar onde os seus aposentos ficavam localizados.
— Eu queria dizer-lhe — Crowe falou enquanto deixavam a sala ascendente. — Você fez um bom trabalho lá, e salvou-me de fazer algo do qual eu poderia me arrepender mais tarde. Sou muito grato por isso.
Sherlock sorriu e não disse nada.


Pareceu a Sherlock que ele adormecera em algum momento entre tirar os sapatos e remover a camisa. Ele acordou na manhã seguinte ainda meio vestido e deitado em diagonal na cama. Os acontecimentos da noite anterior pareciam um sonho bizarro.
Quando desceu para o café da manhã, os outros representantes estrangeiros já estavam lá. Mycroft também estava, a cabeça ainda envolta em uma bandagem. Ele tinha um aspecto melhor: havia alguma cor em suas bochechas. Ele levantou o olhar conforme Sherlock entrou na sala e acenou rigidamente com a cabeça, então voltou para sua conversa.
Sherlock pegou um prato e selecionou alguns itens do aparador, sentou-se e encarou a comida. Olhou a xícara de café, mas não sentia disposição para nada. Os acontecimentos da noite anterior tinham-no deixado exaltado e exausto, e agora ele se sentia como uma vela que tinha queimado muito brilhantemente e por um longo tempo, e que agora fora apagada, deixando apenas um rastro de fumaça.
Um movimento na porta atraiu sua atenção. Niamh Quintillan entrou, viu-o, e parou. Ela olhou para ele com veneno em seus olhos.
— Ah — ele disse. — Você conversou com o seu pai.
Ela apenas o encarou por um longo e doloroso momento, e então se virou e saiu da sala de jantar de novamente.
— Acho que não estou com fome — Sherlock murmurou para si mesmo.
Ele tinha acabado de se forçar a comer algumas torradas com marmelada quando Virginia entrou na sala. Ela viu seu pai e sorriu, então viu Sherlock. O sorriso desapareceu, substituído por uma expressão que ele não sabia ler. Não era a raiva que tinha visto no rosto de Niamh. Era mais como... constrangimento? Medo? Ele não tinha certeza.
Virginia, como Niamh antes dela, virou-se e saiu sem se sentar.
— Você leva jeito com as mulheres, filho — Amyus Crowe falou do outro lado da mesa.
— Sim, mas parece que da maneira errada — Sherlock devolveu.
Quando terminou seu café e torradas, a conversa na outra extremidade da mesa ainda estava em andamento. Ele se perguntou se deveria ou não participar, mas Mycroft olhou para cima, encontrou seu olhar e balançou a cabeça. Em vez de se aproximar, Sherlock saiu para o átrio.
Ele ficou ali por um momento, indeciso, se perguntando se deveria voltar para seu quarto e apenas deitar-se por um tempo, esperando que os adultos decidissem o que fazer a seguir. Eventualmente, ele vagou pelo átrio do castelo, e então saiu para o espaço aberto fora da torre central.
Virginia estava ali, ao ar livre, olhando para o céu. Ela conversava com Niamh Quintillan. As duas pareciam estar se dando surpreendentemente bem. O tempo estava nublado, mas seco, e as nuvens não tinham aquele cinza que ele associava com à chegada da chuva.
Sherlock observava da porta, não querendo interrompê-las.
Depois Niamh sorriu, acenou com a cabeça e se afastou.
Sherlock esperou por alguns instantes, em seguida, se aproximou de Virginia.
— Oi — cumprimentou ele.
— Oi — ela disse suavemente.
— Você estava conversando com Niamh — disse ele, sem jeito. — Eu não imaginava que vocês duas teriam muito em comum.
— Ela tem cavalos. Bem, pôneis de Connemara, como são chamados. Falou que me levará para montar depois, se eu quiser.
Sherlock não conseguia pensar em nada para dizer em resposta.
O silêncio entre eles cresceu a proporções quase insuportáveis. Para quebrá-lo, Sherlock disse:
— Você quer dar uma volta lá fora?
— Existe alguma coisa para ver?
— Há uma praia.
Virginia assentiu.
— Está certo. Vamos caminhar.
Sherlock liderou o caminho para fora do castelo, atravessando o fosso e dirigindo-se para onde ele se lembrava que as falésias ficavam. Lembrou-se que Niamh lhe contara sobre um caminho até a praia, e levou apenas alguns minutos de busca para encontrar o caminho íngreme pela lateral dos penhascos. Os dois desceram aos poucos usando os degraus que haviam sido grosseiramente esculpidos na face do penhasco e, por vezes, simplesmente lutando contra o declive de terra e rocha. Um corrimão de madeira contornava a maior parte do caminho, dando-lhes apoio caso escorregassem, mas às vezes ele simplesmente não estava lá – levado por deslizamentos de terra ou desgastado e partido pelas tempestades, Sherlock adivinhou. Não haveria qualquer chance de conversa enquanto estivessem descendo – o esforço tomava toda a sua energia e toda a sua concentração.
Abaixo deles, mas cada vez mais próximas, Sherlock podia ver as ondas verde acinzentadas encimadas por espuma branca chocando-se contra a areia e os seixos de uma praia coberta de pedregulhos.
Gaivotas voavam em torno deles, olhando-os com seus pequenos olhos cheios de ameaça e proferindo gritos estridentes. Sherlock esperava que eles não passassem perto de nenhum ninho. Suspeitava que aqueles cruéis bicos curvados pudessem causar grandes prejuízos caso as gaivotas decidissem defender seus ovos.
Eventualmente a descida nivelou, e meio correndo, meio caindo, eles desceram os últimos metros até a praia. Ambos estavam cobertos de arranhões e de terra. Olhando para trás, Sherlock perguntou-se como eles fariam para voltar. Se não conseguissem escalar, teriam que andar ao longo da praia até encontrar uma rota menos íngreme para cima. Ou morreriam de fome.
Ele examinou o penhasco em busca de sinais de que a maré pudesse vir até lá e afogá-los, se não teriam de encontrar uma maneira de saírem logo da praia. Não havia algas na face do penhasco marcando o nível da maré alta.
Voltando-se e olhando para a praia, ele notou que a água havia recuado visivelmente, e havia uma linha de algas a uns três metros do pé do penhasco. As rochas para lá da linha estavam úmidas, enquanto as mais próximas de Sherlock e Virginia estavam na sua maioria bem secas.
Aquele era o limite da maré alta, ele decidiu.
A face do penhasco era toda marcada por buracos escuros – alguns com apenas alguns centímetros de diâmetro, outros grandes o suficiente para caber um cavalo e uma carruagem. Estas devem ser as cavernas de que ele tinha ouvido falar – aquelas usadas no passado pelos contrabandistas. Ele percebeu com certa excitação que algumas delas deveriam conectar-se com as cavernas e os túneis sob o castelo, o que significa que eles teriam outra saída da praia se necessitassem. O problema era que ele não tinha ideia de quais cavernas levavam aos túneis e quais terminavam em um beco sem saída. Ele teria que tentar descobrir uma maneira de dizer qual era qual.
Sherlock encarou o penhasco por um tempo, tentando imaginá-lo não como aparentava – uma massa sólida de rocha – mas como uma colmeia, com túneis que se contorciam e levavam até o topo.
Ele se virou e encontrou Virginia olhando para o mar.
— Você está bem? — perguntou ele.
— Em Albuquerque, a única areia que tínhamos era a areia do deserto. Eu ainda não consigo me acostumar com a ideia de areia e água juntos.
— Oh. — Ele não tinha certeza do que mais falar.
— Vamos lá, então — ela falou, virando-se e dirigindo-se para a praia. — Se vamos caminhar, então comecemos isso já.
— Seu pai disse que vocês voltarão para a América — ele falou depois de alguns minutos, mais para quebrar o silêncio do que por qualquer outro motivo.
— Ele diz que temos de partir para Washington D.C. — ela concordou por sobre o ombro. — Lá congela no inverno e ferve no verão, mas é onde a Pinkerton lhe ofereceu um cargo, em contato com o governo federal. Esse é o tipo de coisa que ele faz agora – seu novo trabalho. Eles realmente o querem de volta.
— Oh. — Ele fez uma pausa, formulando as próximas palavras com cuidado. — Você é crescida o suficiente para que possa ficar aqui, na Inglaterra, sabe. Tenho certeza de que seu pai permitiria. Ele pode até não gostar, mas o Sr. Crowe sabe que você conhece suas próprias preferências.
— Travis quer voltar para a América também.
— Ah. Travis.
Virginia parou e olhou para o mar. Sherlock parou atrás dela.
Sem saber o que fazer, ele estendeu a mão e tocou-lhe o ombro, virando-a para encará-lo.
As bochechas dela estavam molhadas de lágrimas. Seus olhos violetas, repletos delas. Enquanto a observava, mais se derramou e correu pelo rosto.
Ele deu um passo para frente e abraçou-a. Ela colocou os braços ao redor dele e enterrou o rosto em seu peito.
— Isso não é bom — ela falou, com a voz abafada. — É totalmente errado. Tudo está errado.
— Isso pode ser corrigido — disse ele, na esperança de que pudesse.
— Não, não pode. Você não entende. — Ela fechou uma de suas mãos em um punho e bateu-lhe no ombro. — Eu não sabia se você voltaria um dia. Tive que tomar uma decisão – eu esperaria por você para sempre ou seguiria em frente com a minha vida? Então eu decidi.
— Estou aqui agora. Eu voltei.
— Mas é tarde demais. Eu fiz uma promessa. Eu tenho que mantê-la.
Ela o empurrou, a distância de um braço, e olhou para ele.
— Travis me ama; pelo menos ele diz que sim. E eu o amo, suponho. Talvez não do jeito como te amo, mas isto poderá crescer com o tempo. Travis cuidará de mim. Me sustentará. Nós teremos uma vida boa. O pai dele é um poderoso empresário – será um contato proveitoso para o meu pai.
— Isto é o suficiente? — Sherlock perguntou friamente.
— O que mais haveria? — Ela olhou para ele à espera de uma resposta, mas ele não tinha certeza de que havia entendido a questão. — Talvez um ano atrás, poderia ter havido uma chance, mas não agora. Nós crescemos em direções diferentes. Estamos em caminhos diferentes.
— Eu nem mesmo tenho certeza em que caminho estou — ele admitiu.
— E isso é parte do problema, Sherlock. Travis sabe quem ele é e o que quer ser. Ele tem um plano para o seu futuro, e quer que eu seja parte desse plano. Ele pretende entrar na política. Quer ser um senador, e talvez um governador. O que você quer ser? Quais são os seus planos?
Ele deu de ombros, inquieto.
— Ainda estou tentando resolver.
— Espero que resolva.
— Existe algo que eu possa dizer para mudar sua opinião? — ele perguntou.
Virginia apenas ficou olhando para ele, as lágrimas ainda transbordando em seus olhos. Ele tinha a sensação de que ela queria dizer “sim”, mas depois ela esperaria que Sherlock lhe desse uma resposta sobre a sua pergunta, porém ele não teria uma. Nem tinha ideia. Podia deduzir quase qualquer coisa mediante evidências, mas não isso.
— Vamos voltar — disse ela afinal, desviando o olhar.
Eles caminharam ao longo da praia, indo para longe do castelo e mais longe, tão distante quanto Sherlock poderia perceber da própria Galway. Sherlock manteve um olho nas falésias acima deles e ficou aliviado ao ver a linha onde o calcário se tornava o azul e branco do céu se movendo para perto deles. O mar tinha que estar no mesmo nível, portanto, a solução lógica era que as falésias estavam ficando menores. Talvez ali houvesse uma chance para subir em breve.
— Como está Matty? — Sherlock perguntou depois de um longo período de silêncio.
— Eu não o tenho visto muito — Virginia admitiu. — Ele fica principalmente na cidade, e eu gasto meu tempo no campo. E acho que ele tem medo do meu pai — ela hesitou. — Ele nunca diz nada, mas sei que sente sua falta.
— Pensei que ele poderia ter deixado Farnham depois... depois que saí. Ele parece preferir viajar a ficar em apenas um lugar.
— Penso que ele esperava que você voltasse, um dia.
— E aqui estou eu, de volta — Sherlock murmurou, mas se Virginia ouviu sua resposta, não deu nenhum sinal disso.
Após um tempo, Sherlock notou que a borda do penhasco estava baixa o suficiente para que houvesse alguma perspectiva realista de conseguir retornar. As pedras eram menores aqui e salpicadas com algas alaranjadas. Ele procurou por um local adequado, mas foi Virginia quem avistou um primeiro. Tal como ocorreu no local por onde desceram, escadas rudimentares haviam sido cortadas na rocha e na terra para fornecerem pontos de apoio.
— Você quer voltar para o castelo? — Sherlock perguntou.
Virginia olhou para ele por um momento.
— O que você quer fazer?
Ele deu de ombros.
— Estou ficando com fome. Vamos voltar?
— Se é o que você quer.
Um caminho deixado por sabe-se lá quantas gerações de pés os conduziu de volta para o castelo por entre os arbustos de tojo e a cobertura de freixos que cresciam por ali. Este era um caminho mais duro, porém não tão íngreme. Os dois caminharam em silêncio, com Sherlock assumindo a liderança e empurrando a vegetação rasteira de lado para que Virginia pudesse passar sem se machucar. De vez em quando havia uma lacuna entre a vegetação, por meio do qual o mar ou o distante castelo era visível.
Após cerca de uma hora, Sherlock notou que ele podia ver algo acima da vegetação rasteira – algo que não fazia parte da natureza. Era a torre solitária que ele tinha visto anteriormente, a que ele sabia que ficava próxima ao castelo, mas que às vezes não conseguia avistá-la a partir de locais onde ela deveria ser facilmente visível.
Agora que estava perto, ele sabia que tinha de aproveitar a oportunidade para investigá-la. As chances eram de que ele poderia nunca mais ser capaz de encontrá-la novamente se a deixasse agora.
— Eu preciso ir lá ver aquilo — disse ele, apontando. — Tudo bem se desviarmos um pouco para que eu possa dar uma olhada?
Virginia balançou a cabeça.
— Estou cansada — ela anunciou — e com fome, e preciso de um banho e uma troca de roupas antes de ir cavalgar com Niamh. Vou retornar.
— Tudo bem — disse Sherlock, olhando para a torre novamente — vou com você.
— Eu não preciso de escolta — ela respondeu com raiva. — Posso encontrar meu próprio caminho de maneira segura.
— Olha — Sherlock estourou repentinamente — eu não escolhi ir embora. Eu fui sequestrado. Fui drogado, e quando acordei, encontrei-me em um navio indo para a China. Não foi escolha minha!
— Eu sei. — Ela assentiu com a cabeça e disse novamente: — Eu sei. Mas você nunca me escreveu. Nunca se preocupou em entrar em contato.
— Eu estava em um navio indo para a China — ele repetiu, mais suavemente. — Não era como se houvesse um serviço postal programado.
— Você escreveu para o seu irmão — ela ressaltou. — Mas não escreveu para mim.
— Eu não sabia o que dizer.
— Esse é o problema.
Ela se virou e foi embora. Sherlock a assistiu ir, sentindo-se dividido. Por um lado, ele queria ir com ela; por outro, queria dar uma olhada na torre.
Em sua mente passaram-se memórias de mais de um ano atrás: Virginia dormindo em uma cabana grosseira de pedras nas charnecas da Escócia, enquanto ele, acordado, a observava. Lembrou-se da luz da fogueira fazendo seu rosto e seu cabelo brilharem. Ele sabia que nunca esqueceria aquela visão e os sentimentos que lhe tinham inundado no momento, mas também que nunca estaria nesta situação novamente.
Suspirando, ele se virou e seguiu Virginia. As mulheres, ele decidiu, não eram lógicas e não eram previsíveis, e pareciam prontas para encorajar este comportamento nos homens. Ele não estava certo de que queria jogar esse jogo.

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Boa leitura :)