20 de setembro de 2017

Capítulo cinco

SHERLOCK DEIXOU O PRÉDIO do jornal e dirigiu-se ao necrotério.
O Hospital de Oxford era um impressionante edifício de tijolos vermelhos no meio de um gramado pequeno. O necrotério ficava em seu próprio prédio de um andar, ficando discretamente ao lado do outro. Atravessando os terrenos do hospital, Sherlock respirou fundo e repassou rapidamente em sua cabeça a história que iria contar. Claro, tudo dependia de quão bem conhecido o repórter Ainsley Dunbard era. Se o médico que realizava os exames nos corpos conhecesse Dunbard de vista, então o plano inteiro de Sherlock estava condenado do início, porém Sherlock perguntara especificamente a Dunbard se ele entrevistara o patologista, e a resposta foi negativa. Certamente o repórter mencionaria se tivesse encontrado o patologista antes, não?
A porta do necrotério era pintada de branco, com janelas de vidro fosco no alto. Sherlock bateu rapidamente no vidro. Uma voz do interior chamou:
— Entre!
Sherlock entrou e fechou a porta atrás dele. Não tinha certeza do que esperar – cadáveres empilhados em prateleiras, talvez? – e ele estava um pouco nervoso como resultado, mas na verdade ele se viu de pé em um longo corredor que terminava na porta nos fundos do necrotério – porta esta que parecia ser aparafusada por dentro. A única indicação de que ele estava em algum lugar médico era o cheiro forte de desinfetante que atacava suas narinas.
— Sim, quem é você? — perguntou um homem, saindo de uma das portas laterais. Ele usava jaleco e luvas brancas, ambos manchados de maneira que Sherlock não queria pensar sobre. O próprio homem era idoso, com um grosso bigode branco e cabelos da mesma cor escovados na direção do rosto. Seu rosto com marcas de expressão era bronzeado. Em uma parte de sua mente, Sherlock se perguntou se ele esteve no exterior no passado recente.
— Meu nome é Ainsley Dunbard — falou Sherlock, erguendo o cartão que tirou do Ainsley Dunbard real e segurando a respiração. Este era o ponto em que seu blefe poderia ser descoberto. — Sou repórter do Oxford Post.
— Você é um pouco jovem para um repórter, certamente? — observou o homem, levantando as sobrancelhas em surpresa. Ele tirou as luvas, pegou o cartão de visitas e examinou-o com desconfiança.
Sherlock respirou aliviado. O homem claramente não sabia quem era Dunbard.
 — Eu na verdade sou um aprendiz — disse ele, desculpando-se. — O papel tem me ajudado a conseguir alguma experiência no trabalho. Quero ser repórter um dia.
— Bom para você— disse o homem. — Eu admiro alguém com um toque de ambição. Meu nome é Lukather, doutor Wilberforce Lukather. O que posso fazer por você?
— Eu estava esperando que o jornal pudesse fazer um perfil seu — Sherlock falou. Ele queria, é claro, perguntar sobre o roubo de partes de corpos, mas isso levaria as suspeitas de Lukather imediatamente, e ele provavelmente recusaria uma entrevista. Por outro lado, se ele começasse por perguntar sobre o trabalho de um patologista, e depois gradualmente se aproximasse dos roubos – ou até melhor, o próprio Lukather oferecesse ele mesmo a informação – então ele conseguiria o que queria e o patologista não seria o mais esperto.
— Um perfil? — Lukather repetiu, suspeito, mas intrigado ao mesmo tempo. — Por que diabos alguém iria querer saber sobre mim?
— Bem, é o último mistério, não é? — Sherlock perguntou, lembrando o seu pensamentos após a palestra. — O que acontece quando morremos? Como algo que é vital, a pessoa viva, de repente se torna um pedaço de carne, ossos e tecido? O que acontece com a alma? O que acontece com a personalidade? Essas perguntas são o tipo de coisa que fascinaria nossos leitores, e o senhor está bem na ponta da linha, lidando com os momentos finais de uma pessoa todos os dias da sua vida! As pessoas ficarão fascinadas!
— Nunca pensei nisso assim — disse Lukather, escovando seu bigode. — O trabalho de autópsia sempre foi o primo eclipsado do médico.
— Não mais — prometeu Sherlock. — Eu quero abrir tudo, obter suas opiniões sobre toda a coisa da vida e da morte. Estaria tudo bem?
— Suponho que sim. — Ele pegou um relógio do bolso do colete. — Posso poupar meia hora, suponho. Eu estava prestes a fazer um bule de chá. Estaria interessado em uma xícara?
Lukather abriu o caminho para uma pequena sala com várias cadeiras – um lugar em que parentes de luto pudessem ser confortados, Sherlock assumiu. Luz entrava por uma grande claraboia no telhado.
Eles passaram a próxima hora – muito mais tempo do que os trinta minutos que Lukather prometera – com Sherlock fazendo perguntas sobre o processo de morte e autópsia, e Lukather respondendo com cuidado e devida gravidade. Apesar do fato de querer desesperadamente entrar no assunto do roubo de partes do corpo, Sherlock ficou fascinado.
Este homem era, em sua própria maneira silenciosa, um gênio! Seu trabalho – na verdade, como descobriu, sua paixão – trazia evidências que estavam esticadas nas mesas de metal em seu laboratório – os corpos de pessoas que morreram de forma incomum ou suspeita – e procurava minuciosamente dentro deles por pistas sobre como e por que eles morreram. Era muito do que Sherlock começara a pensar que poderia fazer com sua própria vida, com a exceção de que era confinado a um laboratório em vez de ter lugar no mundo real. De um jeito diferente, era o tipo de coisa que Mycroft poderia ter acabado por fazer, se pudesse realizar autópsias no conforto de uma poltrona.
Sherlock estava particularmente interessado em saber como Lukather poderia dizer a diferença entre uma morte acidental e um assassinato. Lisonjeado pela atenção, Lukather foi bastante informativo sobre o assunto.
— Vamos assumir — ele falou, tomando um gole de chá — que você é chamado para um lugar onde o corpo de um homem foi descoberto. Digamos que é o quarto dele. Ele está deitado ao lado de sua cama, barriga para baixo. Não há marcas óbvias de violência – sem golpes no rosto, sem sangue, nem feridas de faca ou semelhantes. O corpo está simplesmente deitado pacificamente no chão. Agora, a polícia comum poderia pensar que o homem morreu por um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral, e talvez pergunte à família do homem se ele já sentira algo semelhante antes, mas você, como médico, não está tão convencido. Ao invés de tomar uma decisão e procurar evidências para apoiá-la, você procura primeiro as evidências e depois vê para onde elas o conduzem. Então, você traz o corpo aqui ao necrotério, o examina da cabeça aos pés. Talvez você perceba que o rosto do cadáver está estranhamente rosado, o que pode indicar que ele sufocou depois de um gás venenoso, como monóxido de carbono. Agora, tendo achado isso, você pede ao agente para investigar cuidadosamente o quarto do homem. Existe um fogão lá que possa ter produzido monóxido de carbono e enchido o ambiente de modo que ele respirou? As janelas estão fechadas, apesar do fato de que é verão, o que significa que talvez alguém as tenha fechado deliberadamente, de modo que o monóxido de carbono não tivesse como se dissipar? Talvez não haja fogão, mas talvez existam provas de que um tubo tenha sido introduzido na sala por uma parede ou pelo chão e através do qual o monóxido de carbono poderia ter sido bombeado de um fogão lá fora? Percebe os tipos de perguntas que pode começar a fazer apenas com base no fato de que o cadáver tem o rosto estranhamente rosa?
— Percebo — Sherlock respondeu, fascinado.
— Em alternativa, o cadáver pode não ter o rosto rosa, mas você pode notar um pequeno ponto vermelho em um ombro ou no pescoço. Talvez o homem tenha sido picado acidentalmente por uma vespa e morreu de uma alergia severa, mas se assim for, você esperaria encontrar algum inchaço ao redor da ferida. Ou se não houver inchaço, então talvez tenham deliberadamente injetado no homem uma substância venenosa com uma seringa hipodérmica enquanto ele dormia, caso em que você volta a deliberar novamente.
Sherlock assentiu.
— Você pode não encontrar evidência de picada, mas dentro da boca do homem há bolhas, sugerindo que ele bebeu ou comeu alguma coisa tóxica. Você pede ao policial novamente para olhar no quarto do homem para obter evidências de comida ou bebida envenenada, e se for encontrada, então você a prova em um rato, talvez. Se não houver nada lá, ou se as coisas que estão lá são inócuas quando alimentadas com um rato, então você pode suspeitar que o homem recebeu algo venenoso, o que o matou, mas a evidência foi removida por seu assassino. Entende?
 — Absolutamente.
— Mas digamos que não há bolhas dentro da boca também. Você então deve investigar dentro do corpo, cortando-o. Pode encontrar um coágulo de sangue no coração, caso em que pode anunciar um ataque cardíaco como causa da morte. Pode achar que o fígado está inchado e marcado, na qual pode diagnosticar insuficiência hepática devido ao alcoolismo excessivo como causa da morte. Pode encontrar algum aneurisma no cérebro que resultou de um defeito nos vasos sanguíneos. Pode achar que há alguma coisa oculta que causou a morte do homem. Tudo isso induz a morte por causas naturais. No entanto, se o homem foi sufocado, talvez por ter um travesseiro segurado sobre o rosto, então, na minha experiência, provavelmente haveria os vasos sanguíneos estourados nos olhos, causados ​​pela luta por fôlego e, talvez, evidências de contusões na boca. Se, alternativamente, o homem foi estrangulado, então pode haver marcas na superfície do pescoço ou sob a pele, e há pequenos ossos que podem se quebrar pela pressão. Todas essas indicações, em conjunto, podem apontar para a morte deliberada ou acidental. — Ele pausou por um momento. — Talvez, quando se examina o corpo, você encontre, apesar da aparência inicial de qualquer ferida, uma depressão no crânio escondida pela linha do cabelo. O homem caiu acidentalmente quando saía da cama, prendendo as pernas nos lençóis, talvez, e bateu a cabeça contra a parede ou na cabeceira da cama? Se assim for, você pode encontrar cabelos como os dele, ou traços de seu óleo de cabelo, no gesso da parede ou na cama. Se esses cabelos ou marcas não estiverem lá, então pode concluir que você está de volta a uma ação deliberada, e você sugeriria que vasculhem a casa em busca de um bastão ou objeto que contenham esses traços.
— Isso é fascinante! — Sherlock exclamou.
— O problema — Lukather suspirou — é que na maioria das vezes acabo com alguém na minha mesa onde a causa da morte é, infelizmente, muito óbvia. O pobre indivíduo foi atingido na cabeça por uma garrafa durante uma briga em uma taberna ou se furou com uma foice ao cortar milho, ou tropeçou na rua e teve o pescoço atropelado por uma carroça. É muito raro que eu obtenha algo interessante para exercitar meu cérebro.
Sherlock pensou rapidamente. Ele queria fazer com que Lukather falasse sobre o roubo de partes do corpo do necrotério sobre o qual ele tinha ouvido falar, mas que provavelmente seria um assunto sensível, e Lukather poderia ficar com raiva ao ser questionado diretamente. Sherlock já tinha a impressão de que estava com alguém espinhoso. Ele teria que liderar gradualmente para o assunto. Lembrou novamente da palestra de anatomia que havia participado na Christ Church College. Isso poderia dar-lhe uma inspiração.
— Eu presumo — ele falou com cuidado — que para detectar todos esses vários sinais de morte natural ou não-natural, o senhor deve ter treinado em muitos corpos que morreram de maneiras diferentes?
— Ah, claro — disse Lukather. — Não se pode detectar os sinais de monóxido de carbono a menos que você tenha visto vários corpos que você sabe que morreram da mesma coisa. Não se pode reconhecer os sinais de um ataque cardíaco, a menos que se tenha aberto muitos, muitos corações e visto como se pareciam em todas as condições.
 — Não há problemas com os cursos de anatomia? — Sherlock perguntou. — Quero dizer, presumo que muitas pessoas sejam religiosas e se oponham a que os corpos de seus parentes sejam abertos e examinados por um grupo de estudantes. Logo, elas devem querer seus familiares enterrados intactos, em parte provavelmente porque não querer ser vistos como alvo de choque e talvez risos. E você ouve sobre alunos brincando e fazendo peças com os corpos – deixando-os nos quartos das pessoas e coisas assim.
 — É verdade — Lukather suspirou — que o fornecimento de corpos para aulas de anatomia é... problemático. Felizmente, há pessoas esclarecidas que deixam seu corpo para a ciência para investigação médica. Há também aqueles pobres infelizes que morrem sem família ou amigos e, portanto, não há ninguém para ter qualquer opinião sobre o que acontece.
 — Presumo — Sherlock disse com cuidado — que pode haver uma tendência, talvez em outras instituições menos morais, para aceitar corpos de... Fontes duvidosas?
— Você quer dizer um ladrão de cadáveres? — A boca de Lukather se torceu em uma linha irritada. — Sim, houve momentos no passado, quando alguns pesquisadores sem princípios aceitaram, como você diz, “corpos de fontes duvidosas”. — Ele olhou fixamente Sherlock sob suas sobrancelhas ofegantes. — Espero que não esteja sugerindo que eu tenha aproveitado uma oportunidade tão grotesca. Trato os cadáveres neste depósito com o máximo cuidado, e nunca aceitei um corpo sobre o qual não tivesse completamente certeza de onde veio!
— É claro — Sherlock concordou levantando as mãos. — Não queria dizer nada. Só me perguntei se o senhor já ouviu falar de algo como isso acontecendo? — ele prendeu a respiração por um longo momento.
Lukather franziu a testa e desviou o olhar.
 — Presumo — disse ele rigidamente — que se refere aos roubos que ocorreram aqui recentemente.
Sherlock tentou parecer o mais reconfortante possível.
— Percebo que é um ponto sensível, e também o quanto o senhor deve estar profissionalmente ofendido por isso, mas eu estava pensando se você não tem alguma teoria sobre por que os roubos aconteceram?
— Eu estou perdido — Lukather franziu a testa. — Se corpos inteiros houvessem sido roubados, então pensaria que teriam sido levados como uma brincadeira por estudantes, ou que um hospital ou uma universidade médica que tivesse necessidade de corpos para a formação conseguiu alguns de forma sutil, mas partes de corpos? Isso não faz sentido!
— O senhor pode me contar o que aconteceu exatamente? — perguntou Sherlock.
— É, em face disso, muito simples e, mesmo assim, muito intrigante. Em talvez dez ou doze ocasiões eu deixei um corpo aqui em um estado, e quando voltei na manhã seguinte, encontrei... — ele pausou, aparentemente angustiado — menos.
— E quais partes foram tiradas?
— Várias. Em várias ocasiões, uma mão foi removida do pulso. Uma vez, um braço inteiro foi levado. Várias orelhas foram cortadas da cabeça. Dois pés, um esquerdo e um direito, foram levados em diferentes momentos.
— E... perdoe-me por perguntar... não foi trabalho de animais carniceiros como cães ou raposas?
— Absolutamente não. As partes faltantes foram removidas com uma faca ou uma serra, não foram mastigadas ou mordidas. Não foram criaturas selvagens em busca de alimentos. E, além disso, mãos, pés e orelhas não são os alvos óbvios para animais. Eles têm pouca carne aproveitável.
— O que levanta outra questão interessante — apontou Sherlock. — Nada... de órgãos internos.
Lukather franziu a testa.
 — O que está conseguindo?
— Essa parece uma seleção estranha — Sherlock continuou. — Mãos, braços, orelhas, pés... são todos, digamos assim, partes óbvias do corpo, as partes que você pode ver das pessoas quando estão caminhando. Pelo o que o senhor disse, não foram coletados partes ocultas. Não há pedaços embaixo da roupa, nem sob a pele.
— Essa é uma boa observação — reconheceu Lukather. — O que sugere que não tem nada a ver com uma brincadeira de estudante, já que provavelmente prefeririam levar o corpo inteiro e deixá-lo em algum lugar. Também sugere que não tem nada a ver com o ensino médico, pois eles estariam mais interessados ​​nos órgãos internos como coração, pulmões e assim por diante.
— Também uma boa observação. O que ainda nos deixa com um quebra-cabeça — Sherlock considerou. — Por que alguém pegaria apenas essas coisas?
— Eu não sei.
— Há alguma segurança aqui?
Lukather parecia envergonhado.
— Nunca me ocorreu que era necessário. Não havia nada valioso aqui, nada que pensávamos que valesse a pena roubar. A porta da frente estava trancada e a porta dos fundos estava aparafusada quando saí, claro. Há uma claraboia, mas está fechada. A única maneira possível é uma pequena janela que deixamos aberta para a ventilação, mas é pequena demais para um homem passar por ela. Os portões do hospital também estão trancados à noite, claro — acrescentou Lukather — mas isso é pouco útil. Há muitas árvores próximas da parede que um ladrão poderia usar para entrar no terreno, e sei que há pelo menos um lugar onde o muro está se quebrando e alguém poderia passar, se for pequeno o suficiente. Uma vez que eu sabia que os roubos estavam ocorrendo, passei a ter certeza de que a porta estava duplamente trancada e a claraboia, fechada, mas de qualquer forma, o ladrão ainda conseguiu encontrar um caminho. Pedi que a polícia fizesse guarda, mas me disseram que estavam ocupados demais trabalhando.
 — Quem tem a chave da porta?
— Há apenas uma cópia, que está comigo. — Lukather mergulhou a mão em um dos bolsos e ergueu um molho de chaves presas em uma corrente. Ele selecionou a maior. — É esta. Permanece comigo o tempo todo. Nunca deixa minha pessoa.
Sherlock pensou por um momento. Talvez os roubos das partes dos corpos estivessem acobertando algo mais?
— Objetos de valor são mantidos aqui, dos corpos, quero dizer? Coisas como relógios, joias, ou mesmo carteiras?
Lukather balançou a cabeça com firmeza.
— Esse tipo de coisa é removido pelos policiais antes de os corpos serem trazidos para mim. Eles mantêm na delegacia de polícia como evidência.
— Os corpos foram trazidos diretamente para cá dos lugares em que foram descobertos?
— Sim.
— E eles vão daqui para...?
— Para as funerárias, para serem preparados para o enterro.
 Slocklock sacudiu a cabeça, confuso.
 — Não consigo ver por que alguém roubaria partes de corpos. Parece... Bizarro.
— Eu sei. Também fico perplexo.
— A polícia tem algum suspeito? — Sherlock perguntou inocentemente, mas já sabia qual provavelmente seria a resposta.
— Há uma pessoa que continua me perguntando se pode tirar uma daquelas coisas novas, fotografias, dos corpos. Acho que ele é professor na Christ Church College. Ele diz que quer gravá-los para a posteridade. Posso entender o ponto de vista, é claro, seria valioso para fins de ensino, mas há algo a respeito de suas maneiras que eu acho um pouco estranho, então continuo dizendo não. Ele é muito insistente. Eu contei à polícia sobre ele e acho que o levaram para interrogar, mas não há provas diretas de que ele possa estar envolvido. Oh, e também há um aluno – o Sr. Chippenham. Ele também é um estranho. Estudando ciências naturais, mas tentou entrar aqui algumas vezes. Disse que queria fazer algumas pesquisas extracurriculares, se quer acreditar! Contei à polícia, é claro, e acho que eles também o interrogaram.
— Sim, interrogaram — murmurou Sherlock. Ele ergueu a cabeça e viu Lukather olhando-o penetrantemente. — Ouvi um dos outros repórteres falar sobre isso — ele acrescentou rapidamente.
— Entendo.
Sherlock olhou para sua xícara de chá. Estava, felizmente, vazia.
— Posso ter mais uma xícara? Estou fascinado por tudo o que o senhor vem falando e gostaria de ficar um pouco mais, se me permitir.
 Lukather assentiu.
 — É bom ter alguém aqui que não está assustado com a ideia de cadáveres nas instalações — ele falou. Ele se levantou e começou a sair para a pequena área da cozinha, depois parou e olhou para uma foto na parede. — Eu nunca me casei. Houve uma garota uma vez, mas quando ela descobriu o que faço todos os dias, terminou tudo. Disse que não podia suportar a ideia de me ver tocar corpos mortos durante todo o dia e depois voltar para casa e beijá-la. Nunca conheci ninguém depois disso. Nunca vi por que.
Ele se sacudiu, depois foi até a cozinha.
 Sherlock olhou para a foto na parede. Era um desenho de uma mulher de vinte e poucos anos, atraente mais que bonita, mas com grandes olhos emotivos. Ele então olhou para a porta pela qual Lukather passara e suspirou. Era triste, pensou ele, que um homem pudesse escolher uma carreira que o impedisse de ter uma vida doméstica feliz.
Ele balançou a cabeça. Tinha trabalho a fazer, e rapidamente. Ele se levantou e estendeu a mão para o molho de chaves que Lukather deixara na mesa junto com sua própria xícara. Ele as pegou. Elas eram surpreendentemente pesadas. Rapidamente passou por elas até encontrar a maior, a chave para a porta do necrotério.
Ele ergueu os olhos, desejando momentaneamente ter algo que lhe permitisse ver os detalhes da chave mais claramente como uma lupa ou algo assim. Ele procurava vestígios de material em um ou dois dos recortes metálicos entre os dentes da chave, pequenas manchas de algo como argila ou massa. Isso poderia indicar que alguém pegara a chave do molho de Lukather enquanto ele não prestava atenção – enquanto dormia, talvez – e pressionou-a em um bloco de argila, deixando uma impressão. Depois de terem tomado a impressão, poderiam ter devolvido a chave original imediatamente. Eles poderiam ter usado a impressão em algum metal com baixo ponto de fusão e forjado uma nova chave. Já haviam criado uma cópia de madeira dura. A única coisa era que era demorada, demandava habilidade. A cópia - fosse de metal ou madeira – não duraria muito tempo: apenas o suficiente para entrar e sair do necrotério durante a noite algumas vezes.
O problema era que não havia vestígios de nada. A chave estava intocada. Isso não significava que não havia sido copiada, é claro, só que a evidência fora removida. Ele colocou a chave de volta na mesa logo antes de Lukather retornar.
— Esses roubos de partes do corpo têm ocorrido regularmente? Digo, todas as semanas ou todos os meses?
 Pensou Lukather por um momento. Sua testa vincou-se em uma careta.
 — Não me lembro das datas exatas. Deixe-me verificar o meu diário. — Ele ergueu a mão para uma mesa e pegou um volume encadernado de couro. Ele ergueu os óculos, que pendiam de uma corrente ao redor de seu pescoço e os colocou sobre o nariz. Ele folheou o diário, às vezes voltando ou avançando algumas páginas para verificar algo e depois retornando para onde ele estava. — Eu tenho as datas aqui — falou depois de um tempo. — Certifiquei-me de marcar todas elas. O problema é que não existe uma correlação óbvia. Não aconteceram no mesmo dia da semana, ou no mesmo dia do mês — ele balançou a cabeça com irritação. — Não há um padrão óbvio. Se houvesse, eu teria detectado. Eu até me perguntei se poderiam ter ocorrido toda lua cheia, talvez, mas não era o caso.
— Porque a lua cheia teria fornecido maior quantidade de luz para o ladrão? — Sherlock adivinhou.
— Sim, mas em parte também porque há uma correlação conhecida entre insanidade e noite de lua cheia. — Lukather tirou os óculos e poliu-os com um pequeno pano do bolso. — Ninguém tem certeza do porquê, mas os lunáticos parecem ser influenciados pela luz da lua. O fato é conhecido há anos. Na verdade, a própria palavra “lunático” deriva de “luna”, o latim para “lua”.
— Posso ver o diário? — perguntou Sherlock. — Percebo que é sua própria informação privada, mas penso que pode haver algum padrão, se apenas puder detectar.
— Não é como se eu tivesse uma vida social ativa — disse Lukather com força. — Não há nada que me vergonharia se minha mãe visse, se ela ainda estivesse viva, e se ela se importasse com o que faço para ganhar a vida.
— E não há informações policiais confidenciais, relatórios das autópsias em si, ou algo assim?
Ele balançou a cabeça.
— Isso tudo é colocado em relatórios especiais, formulários impressos e coletados à mão pela polícia — ele entregou o diário. — As datas em que os roubos ocorreram estão marcadas por um grande ponto de exclamação no canto direito. Enquanto você dá uma olhada, irei verificar a chaleira.
Sherlock voltou nas datas, começando no dia do primeiro roubo. As entradas tinham caligrafia pura e precisa. Abrangiam principalmente encontros com a polícia ou com as autoridades médicas do hospital, dados com indícios ou aparições de corte, dados delineados para autópsias, com o nome do falecido cuidadosamente registrado e notas ocasionais como “recebimento” ou “jantar”. Sempre que Sherlock encontrava um sinal de exclamação no canto superior direito de um dia, ele fazia uma anotação em seu próprio caderno com o dia, o dia da semana, a fase da lua (que vinha convenientemente impresso no diário por meio de uma pequena ilustração mostrando como a lua teria parecido em cada dia) e o que Lukather presumira naquele dia e no anterior, apenas caso fosse relevante.
Não havia, como Lukather dissera, nenhuma relação óbvia entre as datas. Sherlock analisou em particular os números de dias entre os incidentes, mas eles variaram – às vezes trinta, às vezes quarenta, às vezes apenas oito.
Exceto...
Exceto que algo incomodava Sherlock. Havia um padrão lá, em algum lugar – ele simplesmente não conseguia vê-lo. Ele precisava de tempo para se concentrar.
Lukather voltou com outra bandeja de chá e biscoitos. Sherlock abriu a boca para dizer: “Realmente sinto muito, mas preciso ir...”, mas depois viu pela expressão ansiosa do patologista o quanto estava gostando da companhia inesperada. Se Sherlock o deixasse agora, suspeitava que Lukather ficaria sentado por um longo tempo sozinho, bebendo o chá e comendo os biscoitos, talvez olhando para o retrato da mulher pendurado na parede.
— O senhor tem certeza de que não estou tomando demais o seu tempo? — perguntou.
— Não muito — o patologista respondeu. — Tenho um estudante estrangeiro da universidade, o Sr. Daniel Hussein, na minha mesa no momento. Ele chegou recentemente do Oriente Médio e depois caiu morto em um mercado no Rokeby, nas proximidades. Suspeito de uma doença pré-existente e por isso tomei precauções para isolar o corpo e lavá-lo com ácido carbólico. Esterilizarei as ferramentas depois, duas vezes, apenas para ter certeza. Mas sim, o Sr. Hussein pode esperar enquanto terminamos nosso chá e biscoitos. Ele não vai a lugar algum.
 Um pensamento que realmente deveria ter ocorrido antes veio à mente de Sherlock. Ele franziu a testa, considerando-o.
— Se os furtos aconteceram à noite — ele disse — então isso significa que os corpos estão armazenados aqui. Quero dizer, eles não foram removidos logo após o exame pós-morte ocorrer.
— Correto — confirmou Lukather. — Às vezes, se houve muitas mortes, tenho uma fila esperando por minha atenção, então eles vão para uma sala separada. A sala é resfriada com gelo, para evitar... — ele hesitou — ... para evitar os processos naturais de decomposição. Além disso, às vezes termino um exame no final do dia, depois que as empresas de funeral fecham, e o corpo deve aguardar para ser coletado no próximo dia. Em raras ocasiões, se não posso determinar uma causa de morte, então outro patologista deve ser chamado para examiná-lo, o que também leva tempo. Então, por todas estas razões, sempre há corpos no necrotério. Não é difícil para o ladrão saber disso.
 Eles ficaram lá durante os próximos quarenta e cinco minutos, com Sherlock fazendo perguntas tão importantes quanto pudesse sobre a morte, as várias maneiras que poderia acontecer e a evidência que seria deixada para trás em cada caso. Em particular, achou que o patologista tinha muito experiência em venenos que imitavam sintomas de doença, como a mulher que morreu ao beber chá feito com folhas de beladona e teria sido diagnosticada como tendo morrido de ataque cardíaco se o patologista não tivesse prestado atenção especial em seu trabalho.
Novamente Sherlock encontrou-se pensando em algo em que esteve envolvido, neste caso a morte do filantropo Sir Benedict Ventham em Edimburgo, que fora assassinado de maneira muito parecida com a que Lukather descrevera. Eles voltaram a falar sobre os roubos, brevemente. Sherlock perguntou algo que talvez devesse ter perguntado antes.
— Alguma culpa recaiu sobre o senhor? Os seus superiores não pensam que deveria fazer mais para proteger os corpos do necrotério ou que você mesmo pode estar envolvido?
 — Fui chamado várias vezes pelo Conselho de Administração do hospital — confessou Lukather. — Contei a eles tudo o que sei, e a polícia também os tranquilizou de forma que não sou e nunca fui suspeito. — Ele riu, mas havia pouco humor no som. — E eles devem estar se perguntando onde mais conseguiriam que alguém fizesse esse trabalho? Eu não vejo filas se formando.
 No entanto, apesar da conversa, a tentação de analisar os dados tornou-se demais.
 — Eu realmente terei que ir — disse Sherlock — mas eu gostaria de agradecer por essa conversa bastante interessante.
— Eu mesmo gostei bastante também — respondeu o patologista, levantando-se e apertando a mão de Sherlock. — Avise-me se a matéria do jornal sair, mas também sinta-se livre para voltar e tomar chá com biscoitos sempre que quiser. — Ele parou por um momento, pensando. — Eu sempre poderia dobrar as regras e permitir que você assista uma autópsia sendo realizada — ele disse tentadoramente. — É uma experiência muito instrutiva.
— Isso realmente seria incrível — devolveu Sherlock, tocado pela sugestão do patologista. — Certamente voltarei para vê-lo, e talvez eu possa aproveitar essa oferta.
 Lukather sorriu.
— Isso seria ótimo. Não tenho a oportunidade de falar com uma mente semelhante. Havia um homem um tempo atrás, Ferny Weston era seu nome. Grande companheiro. Muito grande. Era policial. Ele parou de vir — seu rosto caiu, e ele desviou o olhar. — Acho que devo tê-lo aborrecido.
— Você não vai me aborrecer — prometeu Sherlock.

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