12 de setembro de 2017

Capítulo cinco

APÓS OS ACONTECIMENTOS DA NOITE anterior, o café da manhã foi um caso bem mais moderado. Todos os representantes, com exceção do americano, sentaram-se calmamente, envoltos em seus próprios pensamentos. Sir Shadrach Quintillan estava na cabeceira da mesa, é claro, e o Sr. Albano estava ausente novamente. O conde Shuvalov foi servido pelo seu próprio criado, enquanto o resto deles foi servido pela equipe castelo.
Quanto a ele, Sherlock tinha a intenção de descobrir como os aqueles efeitos da sessão tinham sido alcançados. Ele não podia acreditar que algum espírito tivesse vindo do outro lado para visitá-los – na verdade, ele estava praticamente convencido de que não havia Outro Lado, para começar. O que eles assistido fora um conjunto de truques de conjuração, ele tinha certeza.
Mycroft estava convencido de que eles estavam sendo enganados também. Ele e Sherlock tinham conversado até tarde da noite após a sessão ter sido concluída. Mycroft resumira dizendo:
— Eu sei que fomos enganados, mas não estou inteiramente certo de como. Existem várias possibilidades, mas para ter certeza é preciso estabelecer exatamente quais técnicas foram utilizadas. O que vimos foi, tanto quanto posso determinar, bastante normal para sessões. O Sr. Albano não implantou nenhum evento que eu já não estivesse esperando.
— E quanto aos outros representantes? — Sherlock perguntara. — Será que eles sabem que foram enganados?
Mycroft dera de ombros.
— O conde Shuvalov é um homem inteligente. Creio que ele, tanto quanto nós, sabe que truques secretos estão sendo amontoados um após o outro. Von Webenau, apesar de sua reputação formidável como pensador estatístico e lógico, parece ter sido fisgado pelo truque do anzol, da linha e do peso. Suspeito que ele tenha algum motivo para querer acreditar – uma mulher morta por quem ele chora, talvez, e gostaria de entrar em contato novamente. Herr Holtzbrinck teria ido de um jeito ou de outro. Achei interessante que ele foi o escolhido para receber uma mensagem do Outro Lado – o Sr. Albano, obviamente, tomou-o como o alvo mais fácil de ter suas crenças balançadas. Ele presumivelmente trabalhará sua magia sobre mim e o conde Shuvalov, nas próximas noites.
— Terá importância se um ou mais deles acreditarem que isso é verdade?
— O que você quer dizer? — perguntara Mycroft.
— Bem, o seu trabalho aqui é avaliar os poderes espirituais do Sr. Albano em nome do governo britânico. Se você decidir que ele pode entrar em contato com fantasmas, então seu trabalho será vencer qualquer outro governo em obter seus serviços. Mas se decidir que ele é uma farsa, então, presumivelmente, o governo britânico não se importará se qualquer outro governo comprar os serviços dele. Eles só estarão desperdiçando seu dinheiro.
— Isso é perfeitamente verdadeiro — dissera Mycroft, assentindo com sua grande cabeça — e mostra que você está desenvolvendo uma boa compreensão da forma como a diplomacia internacional funciona. Realmente, prefiro ter os governos estrangeiros desperdiçando seu dinheiro com médiuns falsos do que com, por exemplo, exércitos ou armas. Gostaria, no entanto, de adicionar dois aditamentos ao que você disse: em primeiro lugar, eu tenho uma antipatia pessoal por fraudadores de crenças sendo recompensados por seus esforços, mesmo que essas recompensas não venham da Grã-Bretanha, e em segundo, não é uma situação saudável ou estável para os governos com grandes exércitos serem guiados por mensagens falsas de fantasmas. Prefiro muito mais que os governos tomem suas decisões com base na lógica e nos fatos. Isso os torna mais previsíveis.
— Por outro lado — Sherlock apontou — saber que um governo está prestando atenção em falsa vidência lhe dá a oportunidade de alimentá-lo com o que você quiser que eles acreditem. Mensagens falsas, se quiser. Presumivelmente, se um falso vidente vai tirar dinheiro de um governo por seus truques, ele não tirará dinheiro de ninguém.
— Este pensamento — Mycroft retumbara — é imoral e antiético, e nunca me ocorreu.
— E quanto ao Sir Shadrach? — perguntara Sherlock, pensando em Niamh Quintillan. — Ele está envolvido?
— O Sr. Albano certamente requer ajuda a fim de alcançar alguns dos efeitos. — Mycroft franzira os lábios. — Se essa ajuda não vem de Quintillan e de pelo menos um criado, então deve estar vindo de outro lugar. — Ele olhara para Sherlock. — Presumo que, por sinal, você já tenha estabelecido em sua própria mente as várias maneiras como as mensagens de giz, a placa em movimento e a materialização de ectoplasma poderiam ter sido alcançados?
— Sim — Sherlock respondera de pronto, mas agora, sentado à mesa do café, ele encontrou-se perplexo. A placa de madeira poderia, ele supôs, ter sido empurrada ao redor muito facilmente pelos dedos de Ambrose Albano, mas as mensagens de giz e o ectoplasma foram intrigantes para ele. Como foram feitos? Ele tinha verificado debaixo da mesa, e não havia nada escondido lá com o que as mensagens pudessem ter sido escritas.
Niamh estava sentada a sua frente, e ele olhou para ela. Ela sorriu, e ele sorriu de volta. Esperava ter a chance de conversar com ela mais tarde. Ela tinha, até onde ele sabia, visto a coisa toda, mas a partir de uma perspectiva diferente. A sessão, ele assumiu, fora criada para convencer as pessoas sentadas ao redor da mesa. De pé na porta, ela poderia ter visto algo que nenhum dos outros percebera.
Ou, ele se perguntou enquanto olhava para ela, ela já sabe como tudo foi feito? Se Quintillan estava implicado nos truques, estaria sua filha envolvida nisso também? Ela era parte da conspiração? Ele esperava que não.
Ele estava prestes a perguntar se ela lhe mostraria mais do castelo e de seus jardins mais tarde, quando uma das lacaias inesperadamente derrubou uma terrina de ovos mexidos no chão. O acidente repentino assustou a todos. A lacaia correu para a porta chorando histericamente, enquanto os outros criados rapidamente moveram-se para limpar a bagunça.
Niamh Quintillan levantou de sua cadeira e correu atrás dela – a única pessoa, Sherlock notou, preocupada com como a garota estava se sentindo.
Sherlock mastigava uma fatia de pão enquanto esperava que ela voltasse. Depois de um tempo, ela voltou para a sala. O pai olhou para ela interrogativamente, e Niamh balançou a cabeça com segurança.
— O que foi aquilo? — Sherlock perguntou quando ela se sentou.
— Oh, ela está bem. Pobre Máire, está apenas angustiada com algo coisa que viu pela janela de seu quarto na noite passada.
Sherlock levantou uma sobrancelha.
— Não me diga que ela viu a Besta Negra!
— De fato, foi exatamente o que ela viu.
— Você está brincando.
— Não estou. Ela disse ter ido para a cama por volta das três horas da manhã depois de encerar todos os pisos de pedra. Deu uma olhada rápida para fora de sua janela antes de ir para a cama. Estava enevoado lá fora – muitas vezes há uma névoa que vem do mar – e ela disse que estava prestes a fechar as cortinas quando viu alguma coisa. Ela pensou a princípio que fosse um dos convidados, mas a coisa era muito grande, e muito volumosa. Então o vento soprou a névoa para longe por um momento, e ela viu claramente. — O rosto de Niamh estava sério. — Ela diz que era grande, uma forma preta maior do que um homem. Em seguida, a névoa foi soprada de volta, e a forma desapareceu.
— O que ela fez? — perguntou Sherlock.
— O que ela poderia fazer? Certificou-se de que sua janela estava trancada, e, em seguida, foi para a cama. Mas, disse-me ela, não conseguiu dormir. Só ficou ali olhando para o teto, tremendo de medo, pensando no que tinha visto. Levantou-se esta manhã exausta pela falta de sono, e desceu para servir o café da manhã, mas continuou se lembrando do que tinha visto.
— Você acredita nela?
— Eu acredito que ela acredita ter visto alguma coisa. — Niamh olhou em direção à porta. — Ela está obviamente apavorada. Mas se você está perguntando “Será que ela realmente viu a Besta Negra, ou viu algo como um cervo na névoa, ou apenas sonhou ter visto algo?”, eu não sei. Eu honestamente não sei. Falei para ela que fosse até a cozinha, pegasse um copo de água e se sentasse por alguns minutos até que se sentisse melhor.
— Para qual lado do castelo a janela dela tem vista? — perguntou Sherlock.
— Por quê? — ela sorriu. — Quer ir à procura de pistas?
— Se eu for, você vem comigo?
Ela riu.
— Tudo bem. A janela dela dá para o interior. Mais tarde eu lhe mostro onde fica pelo lado de fora.
— Isto é um... compromisso — disse Sherlock, detendo-se antes que pudesse dizer “encontro”. — Mas podemos esperar até mais perto do almoço? Seu pai disse que eu poderia dar uma olhada nos livros da biblioteca, e eu queria fazer isso antes.
Depois do café, Sherlock se dirigiu para a biblioteca enquanto seu irmão se aproximou do conde Shuvalov e envolveu-o em uma conversa privada, presumivelmente sobre grandes segredos de Estado.
A biblioteca estava vazia quando ele abriu a grande porta de carvalho. Em seu interior, estantes cobriam as paredes, correndo do chão ao teto.
As janelas altas eram cobertas por cortinas de feltro verde para impedir que a luz do sol batesse diretamente sobre os livros. Escadas com rodas nos corredores podiam ser empurradas ao longo das estantes. Cada centímetro estava coberto com volumes encadernados em couro preto, vermelho ou verde desbotados. No centro da sala havia algumas poltronas de couro de aparência macia com mesinhas laterais, além de uma enorme mesa onde grandes volumes poderiam ser abertos e mapas, desenrolados.
Sherlock passou alguns minutos familiarizando-se com o arranjo dos livros – história local, história mundial, geografia, ficção e – talvez não surpreendentemente – grandes seções dedicadas às Índias Ocidentais, e também ao espiritualismo e fenômenos psíquicos.
Lembrando o que Niamh tinha dito sobre a visão da empregada na noite anterior, Sherlock olhou para fora de uma das janelas. A biblioteca dava vista para o penhasco: havia cerca de quinze metros de grama antes do limite abrupto onde a borda do penhasco ficava. Em um dia claro Sherlock supôs que poderia ver o mar ao longe, mas ainda havia muita neblina ao redor, e tudo o que Sherlock via era um vazio cinza sem forma – da mesma forma como ele havia imaginado o Outro Lado durante a sessão da noite anterior.
Parecia bastante assustador, mesmo à luz do dia, e ele podia entender como alguém olhando para a névoa se movimentando poderia pensar ter visto formas surgindo. Mesmo uma árvore vista através da neblina poderia assumir a forma de um monstro.
Ele foi até as prateleiras dedicadas ao espiritualismo e fenômenos psíquicos. Havia duas seções inteiras do chão ao teto, com livros que iam desde aqueles recentemente publicados até os que remontavam a centenas de anos. Sherlock passou os olhos pelos títulos rapidamente, procurando não por um livro que falasse sobre os fenômenos psíquicos como se fossem verdade, mas um que listasse todos os truques e técnicas que poderiam ser usados para falsificar os seus efeitos. Ele logo ficou decepcionado. Os autores dos muitos e variados livros nas prateleiras eram todos, tanto quanto ele podia dizer, completa e totalmente crentes.
Fazia sentido, ele supôs. Se Sir Sadrach Quintillan estava participando de uma farsa quanto à crença, então dificilmente exporia livros que trouxessem toda a mentira à tona. Se ele tivesse tais livros, e Sherlock suspeitava que ele tivesse, então eles provavelmente estavam escondidos em algum lugar. Sherlock fez uma nota mental para continuar procurando no resto do castelo – mesmo nos aposentos particulares de Sir Shadrach, se fosse preciso. Ele estava, afinal, a serviço do governo britânico!
Tendo em conta que ele estava atualmente em um país estrangeiro, supôs que isso fazia dele algum tipo de espião. Ele achou o pensamento estranhamente excitante.
Talvez estivesse procurando pela coisa errada. Ao invés de buscar livros especificamente sobre fenômenos psíquicos falsos, talvez devesse procurar de forma mais ampla por livros sobre ilusões e truques mágicos. Ele caminhou ao redor da biblioteca usando as escadas para verificar as prateleiras superiores, mas não havia nenhum.
Ele se pôs a procurar livros sobre truques psíquicos ou magia – na biblioteca, pelo menos. Apenas por capricho, foi para a seção que cobria a história local e buscou livros que listassem lendas ou histórias locais. Havia vários nas prateleiras; ele puxou-os para fora e levou-os para a cadeira mais próxima. Sentado, ele folheou o volume para ver se havia algo sobre a Besta Negra. Meio que suspeitava que Niamh tivesse inventado a coisa toda para enganá-lo. Ela parecia ter esse tipo de senso de humor desafiador.
Surpreendentemente, ele encontrou um capítulo inteiro dedicado à criatura sobrenatural. A coisa, ele encontrou, fora vista dentro e ao redor da área local há centenas de anos. Ninguém nunca a vira claramente – ela aparentemente vinha principalmente à noite, ou quando o tempo estava particularmente enevoado.
Cansado de ficar sentado lendo, ele rondou pelos cantos da biblioteca. Já tinha ouvido falar sobre passagens secretas em antigos castelos, às vezes escondidas atrás de estantes que se abriam para fora com dobradiças ocultas, então puxou experimentalmente algumas prateleiras, mas só conseguiu derrubar alguns livros sobre o tapete. Sentiu-se tolo, então parou. Lembrando das coisas que seu tutor americano Amyus Crowe havia lhe ensinado, ele voltou sua atenção na busca de pequenos sinais, pistas e trilhas, coisas que estivessem fora do contexto. Se houvesse portas escondidas nas estantes que se abrissem para a biblioteca em vez de na direção oposta, elas poderiam deixar alguns sinais de desgaste no tapete. Ele se abaixou para ficar apoiado nas mãos e nos joelhos, à procura de qualquer evidência de que uma estante poderia ter sido arrastada para fora contra o tapete, mas não havia nada. Mais uma vez, ele apenas sentiu-se tolo.
— O que você está fazendo?
Ele olhou para cima, tentando parecer casual em vez de surpreso e envergonhado. Niamh estava de pé na porta aberta, olhando para ele com um sorriso confuso no rosto.
— Deixei cair uma moeda — ele falou.
— Por que precisaria de uma moeda em uma biblioteca? Os livros são gratuitos.
— Eu estava decidindo sobre que assunto pesquisar a seguir — ele respondeu em voz baixa — ao jogar uma moeda.
— Oh. Tudo bem. — Ela inclinou a cabeça para um lado e encarou-o em silêncio por um longo momento, obviamente sem estar convencida. —Estou entediada. Você quer sair e procurar pistas agora?
— Na verdade, eu preferiria dar uma olhada no interior do castelo primeiro. — Levantando-se, ele deu de ombros casualmente. — Você mora aqui, então está acostumada com isso, mas eu nunca estive dentro de um castelo antes. Estou curioso para conhecer.
Como suspeitava, apelar para o senso de curiosidade de Niamh funcionou.
— Tudo bem —, disse ela. — Vamos começar no topo e descendo aos poucos. Vou lhe dar uma visita guiada.
Ela o levou para o átrio e, em seguida, ignorando a sala ascendente, levou-o para a escada de pedra que corria em torno das paredes do átrio e levava até o piso superior. Juntos, eles se dirigiram para um dos dois corredores que levavam em direções opostas a partir do átrio.
O castelo, Sherlock lembrou, tinha a forma de um quadrado rígido, com a torre principal do castelo localizada no centro de um dos lados. As laterais do quadrado eram formadas pelos muros do castelo, que no interior tinham um corredor central e cômodos de ambos os lados. Os cantos do castelo eram formados por três pequenas torres e uma maior. Demoraram quase quinze minutos a pé para dar toda a volta nas paredes do castelo voltar ao centro novamente. A maioria dos cômodos eram salas ou locais de armazenamento, ou estavam vazias. Nada surpreendente ou intrigante.
— Podemos ir para o topo das muralhas do castelo? — perguntou Sherlock. — Nas ameias?
Niamh sorriu.
— Claro — ela disse, e levou-o a uma pequena porta de um lado da sala onde havia uma escada de pedra que subia em espiral.
A escada terminava em duas portas pesadas situadas uma de frente para a outra. Niamh empurrou uma delas, abrindo-a e entrando, e acenou de dentro para ele.
Sherlock encontrou-se em um telhado de pedra longo e plano, coberto com musgo úmido e cortado por ameias que foram desgastadas por séculos de vento e chuva, e agora eram como dentes podres.
Na outra extremidade do telhado havia outra torre, com sua própria porta pesada. O vento assobiava em todo o telhado, levando o calor de seu corpo e enviando gotas frias de chuva contra seu rosto. Ele podia ver, a partir deste ponto de vista elevado, o interior da Irlanda estendendo-se à grande distância: o verde e marrom ondulando suavemente para formar colinas baixas e largas. Pequenos arbustos cercavam o castelo, e mais além bosques de árvores se destacavam como aglomerados verde-escuros, demarcados por muros de pedra que separavam o campo. As nuvens estavam baixas, escovando o topo das colinas.
À distância, além de um grupo de árvores, ele podia ver um folly, uma torre de pedra construída no meio do nada e sem uso aparente. Além do castelo, era a única outra estrutura dominante da paisagem, e ele fez uma nota mental para visitá-la depois, se conseguisse encontrá-la a partir do nível do solo.
A porta se fechou atrás dele. Ele se virou e descobriu-se sozinho no telhado. Segundos depois, ouviu uma pancada no ferrolho de metal vindo de dentro, trancando a porta.
— Vou encontrá-lo na outra extremidade — Niamh falou do outro lado da porta. — Manterei aquela porta aberta para um período de dez segundos. Se você não passar por ela nesse tempo, ficará preso aí fora!
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa em resposta, ouviu os passos descendo pelas escadas de pedra.
Nesse momento ela estava se preparando para correr ao longo do corredor entre a torre principal e a próxima torre. Ele tinha que chegar ao mesmo tempo que ela, ou vencê-la, se quisesse sair do vento frio.
Uma pontada de aborrecimento fez o seu rosto ficar vemelho. Ela parecia gostar de desafiá-lo, e fazer jogos. Bem, se era isso que ela queria...
Ele começou a correr ao longo do telhado do castelo, mas quase que instantaneamente seu pé escorregou no musgo e ele caiu para o lado, batendo com o ombro em uma das ameias gastas. Dor aguda inundou seu corpo e espalhou-se, deixando-o fraco. Ele ficou de pé e partiu novamente, sabendo que Niamh estava a sua frente no andar de baixo.
Desta vez, ele sabia que tinha de evitar as manchas de musgo enquanto corria, mas como resultado o seu progresso foi marcado por passos de uma estranha dança conforme ele tinha que se mover rapidamente para a direita ou para a esquerda, ou tinha que pular para as áreas mais limpas. A pedra nua não era muito segura, ele descobriu que a chuva a deixara lisa e escorregadia, e as solas de seus sapatos novos eram lisas demais para obter alguma aderência. Algumas vezes ele se viu resvalando nas ameias, e teve que usar os braços para amortecer sua passagem e esquivar-se dela. Ele agradeceu aos céus que ninguém podia vê-lo – ele devia estar parecendo um louco.
Claro, ele percebeu, Niamh podia imaginar exatamente como ele pareceria. Foi por isso que ela o havia trancado lá fora e o feito correr. Para se divertir. Para sua própria diversão.
A porta à frente abriu-se. Na escuridão de dentro ele pôde ver o sorriso de Niamh, zombando dele.
Obrigou-se a uma explosão final de velocidade, ignorando as manchas irregulares de musgo, confiando que sua velocidade e seu peso o fariam passar por eles. Em sua cabeça, ele fez a contagem regressiva dos dez segundos que Niamh lhe havia prometido.
Quando chegou a oito, pode vê-la se preparando para fechar a porta, então Sherlock pulou e deixou seus pés derraparem sobre o musgo, catapultando-o para a porta.
Ele bateu contra a porta quando esta estava sendo fechando, empurrando-a de volta e caindo no pequeno espaço no topo das escadas.
— O que isso prova? — ele arquejou, inclinando-se contra as pedras e tentando recuperar o fôlego.
— Prova que você pode correr rápido — disse ela.
— Mais rápido do que você.
— Eu cheguei aqui primeiro, lembre-se.
Ele se endireitou.
— Mas você não teve que correr sobre musgo úmido e pedra molhada.
Ela torceu os lábios em uma careta de decepção.
— Bem, colocando dessa maneira... Tudo bem, você ganhou. Desta vez. — Ela sorriu para ele. — Você quer explorar mais o castelo?
Ela estava desafiando-o de novo, esperando que ele recuasse.
— Vamos lá. Mas já vi o suficiente do telhado por agora. Vamos tentar alguns andares mais abaixo.
Ela levou-o em torno do segundo andar, do primeiro e do térreo, mas eram todos a repetição do terceiro andar – cômodos de tamanhos semelhantes que eram usados como quartos ou salas de armazenamento. Apenas o salão de baile, que ocupava o andar térreo da outra torre, era diferente: um grande espaço vazio coberto por cortinas, tendo um tablado em uma das extremidades para uma pequena orquestra.
— Acho que jamais usamos o salão de festas para coisa alguma — Niamh falou enquanto estavam ali. — Como você pode imaginar, o meu pai não é muito de dançar.
Quando eles se viravam para sair, Sherlock teve a súbita impressão de que uma cortina agitou-se na outra extremidade da sala.
Por um momento, uma forma escura do tamanho de um homem muito grande revelou-se, e, em seguida, desapareceu novamente. Sherlock virou-se para olhar para a cortina, perguntando-se se haveria alguém ali com eles – um criado, talvez – mas ela não se mexeu novamente.
— Viu alguma coisa? — perguntou ela.
— Não tenho certeza.
— Era a Besta Negra?
Ele riu.
— Duvido. Se fosse, talvez tivesse ficado para o almoço.
Ele virou-se e seguiu Niamh.
— E quanto às masmorras? — ele perguntou quando estavam de volta ao átrio, onde tinham começado.
— Nós as temos — ela respondeu. — As mantemos lá embaixo.
— Muito engraçado.
— Elas são usadas principalmente pelos criados e pelo cozinheiro. Você gostaria de ver?
— Eu me preocupo que você possa me trancar em uma cela. Acho que vou passar essa.
Ela sorriu.
— Provavelmente seria uma boa ideia. Vamos sair daqui agora?
— Sim, por favor. — Ele verificou o relógio que pendia de uma corrente em seu colete. — A que horas será o almoço?
— À uma hora.
— Temos cerca de uma hora, então. A menos que fiquemos sujos ou molhados e precisemos trocar de roupa quando voltarmos.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Está com medo de ficar um pouco sujo ou molhado?
— Nem um pouco. Só estou com medo de perder o almoço. — Ele se conteve, e sorriu. — Estou começando a soar como o meu irmão. Deus me livre.
— Você se dá bem com ele?
— Isso é simples de perguntar, mas não tão simples de responder — falou ele, desconfortável com a pergunta, mas querendo responder honestamente. — Nós nos separamos por um tempo – bem, eu estive fora. No exterior. Obviamente, ambos mudamos desde então, e acho que nós dois estamos tentando descobrir como é o nosso relacionamento agora. Eu não dependo dele do jeito que dependia antes, ele precisa entender que estamos mais próximos de termos de nos tratar como iguais. — Ele fez uma pausa, querendo mudar o rumo da conversa, mas sem saber como. — E quanto a você? Você tem irmãos?
— Aparentemente eu tinha um irmão mais velho, mas ele morreu quando era um bebê, antes de eu nascer. — Sua expressão tornou-se séria. — Muitas crianças morrem enquanto bebês de onde eu venho.
— Um número considerável morre de onde eu venho também — disse Sherlock, pensando na cólera e em várias outras doenças que corriam abundantes através das áreas mais pobres das grandes cidades. — Não que eu esteja tentando tirar qualquer equivalência entre o seu ambiente e o meu. Sei que fui privilegiado.
— Ei, eu cresci em um lugar de belas praias e um lindo pôr do sol, onde você pode simplesmente pegar seu alimento nas árvores, e agora vivo em um castelo. Acredite em mim, eu sinto que sou privilegiada.
Touché.
Ela apertou seu braço.
— Vamos lá, vamos fazer um tour ao redor do exterior do castelo. Não iremos muito longe – podemos deixar isso para depois.
Ele a seguiu até a porta que levava para fora do grande átrio. As portas estavam semiabertas, e ela escorregou por entre elas. Sherlock a seguiu até a praça central que ficava entre os muros do castelo. À luz do dia, e olhando para o exterior, em vez de para as portas como tinha sido no dia anterior, ele podia ver que ela era essencialmente pavimentada, com áreas dispersas de grama. No centro estava uma estátua de um homem armado a cavalo. Seu braço estava erguido e segurando uma espada.
Niamh liderou o caminho para o exterior através da entrada em arco e atravessou o fosso rapidamente, mas Sherlock fez uma pausa para olhar para baixo, para as águas turvas do fosso. Ele não conseguia ver mais fundo do que trinta centímetros por causa da lama e da vegetação das profundezas, mas havia coisas nadando lá dentro – formas sinuosas que poderiam ser peixes ou enguias, ele não tinha certeza.
O volume do castelo os protegia do vento que tinha gelado Sherlock em cima do telhado. Ele olhou para a paisagem irlandesa. As nuvens baixas tinham desaparecido no interior, e ele pôde ver as mesmas colinas baixas que tinha observado por entre as ameias. Ele olhou ao redor, tentando descobrir onde a torre que tinha avistado estaria localizada, e determinou que deveria estar ao lado do castelo.
Niamh partiu na direção oposta.
— Vamos olhar o mar — disse ela. — Eu nunca me canso dele. Lá na minha ilha o mar é azul e verde, mas aqui é sempre cinza. Também é sempre zangado, sempre batendo na praia em vez de vir em ondas gentis.
Sherlock pensou sobre as diferentes maneiras que ele já tinha visto o oceano desde que partiu para a China e voltou.
— É como as pessoas — ele arriscou. — Apesar do fato de que todos nós somos basicamente semelhantes – dois braços, duas pernas e uma cabeça – há uma infinita gama de personalidades. O mar deveria ser tão simples – quimicamente, não é complicado – mas o mesmo trecho de mar pode parecer completamente diferente dependendo do tempo e da hora do dia.
Niamh desapareceu ao contornar uma das torres, e Sherlock a seguiu. Encontrou-a atravessando o trecho de grama que ele tinha visto a partir da biblioteca – aquele que separava o castelo do penhasco. Ela caminhou até a beira do penhasco e ficou ali, o cabelo esvoaçando em volta do rosto por causa do vento. Ele se juntou a ela, e os dois observaram silenciosamente a majestade do Oceano Atlântico.
As ondas pareciam formar cadeias de montanhas momentâneas, cinzas e sombrias e o topo coberto de branco. Era só o tamanho das gaivotas, que cavalgavam por entre as ondas, que davam o seu verdadeiro tamanho.
Niamh virou a cabeça e olhou para ele com ousadia. Ele devolveu-lhe o olhar, não tendo certeza qual era a mensagem que estava enviando, mas ciente de que mensagens estavam sendo trocadas.
Niamh abriu a boca para falar, mas a atenção de Sherlock foi roubada por algo que ele viu despontando de um arbusto logo atrás dela.
Era um pé. Um pé descalço.
— Espere um minuto — disse ele.
— O que foi?
Sherlock apontou para o pé.
— Eu acho — ele falou severamente — que precisamos trazer alguém do castelo.
Niamh deu uma olhada para o pé saindo do mato, acenou com a cabeça e correu de volta para o castelo o mais rápido que pôde.
Sherlock se aproximou dos arbustos e cuidadosamente empurrou as folhas para trás.
Um corpo estava deitado sob os galhos. Era uma das empregadas do castelo. Ela estava de costas, olhando para cima, para o céu, e seu rosto estava torcido em uma expressão de puro terror.
Sherlock checou sua pulsação no braço e também no pescoço, mas não havia nada. A pele dela estava fria, e seus olhos tinham uma fina camada de poeira e pólen sobre eles. Ela estava, sem dúvida, morta.
Esta não era a primeira vez que Sherlock via um cadáver, mas a visão sempre o deixava inquieto. Ele ficava impressionado com quão fina era linha entre a vida e a morte, e como era fácil atravessá-la.
Ele pensou ter reconhecido a garota também: era a lacaia que deixara cair as bandejas e correra para fora da sala durante o café da manhã. Tão rápida então, e tão quieta agora.
Sem tocar no corpo, Sherlock fez um exame visual. Não havia nenhum sinal de sangue, nenhum trauma óbvio. Parecia que ela caiu de repente e morreu naquele local.
Alguma coisa o incomodava no fundo de sua mente, e ele acalmou seus pensamentos para deixá-la vir à tona. Tinha algo a ver com o que vira de início. Ele deu um passo para trás e deixou que seus olhos se movessem sobre o corpo, a partir do topo da cabeça até a sola dos pés, tentando descobrir exatamente o que o incomodava.
Os pés! Era isso! Ela não estava usando sapatos!
Ele ouviu Niamh voltando do castelo, acompanhada por outros.
Ele se virou quando chegaram. Silman estava lá, assim como vários dos funcionários da casa. Eles viram a menina no chão e respiraram fundo, benzendo-se.
Silman inclinou-se para verificar o pulso da moça, como Sherlock havia feito. Ela endireitou-se, sacudindo a cabeça.
— A pobre menina. Ela deve ter tido algum tipo de ataque, que Deus a tenha. Eu podia jurar que havia algo de errado, esta manhã, no café da manhã. Talvez seu coração estivesse fraco.
— Talvez tenha sido a visão da Besta Negra que a levou à loucura e a matou — alguém sussurrou.
Silman virou-se para encará-los.
— Tragam lençóis. Vamos envolver seu corpo e levá-la de volta ao castelo. Alguém vá até o padre. O médico já está a caminho para outros assuntos. Ele precisará examiná-la e assinar um atestado de óbito. Se encontrar vestígios de alguma doença, então poderá muito bem colocar o castelo em quarentena, o que seria dificultoso para o mestre. — Ela virou-se para Sherlock e Niamh. — Senhora, jovem mestre, sinto muito que tiveram que ver isto. Agradeço por nos alertar. Contarei a Sir Shadrach, e tomaremos todas as providências necessárias. Não há mais nada que possam fazer por aqui, sugiro que continuem o que estavam fazendo quando a encontraram.
Niamh assentiu.
— Obrigada, Silman — ela disse sobriamente. — Por favor, deixe-me saber se houver algo que possamos fazer — ela fez uma pausa. — Será que ela tinha família?
— Não aqui perto. Creio que ela tinha uma mãe e um irmão no centro perto de Cork. Escreverei para eles. — Ela suspirou. — É uma tragédia terrível quando jovens morrem sem motivo.
Niamh estava, obviamente, ainda chocada.
— Ainda esta manhã eu estava conversando com ela. Como pode o Senhor apenas... levar as pessoas assim? Você entende isso?
— O que eu não entendo — Sherlock disse, pensativo — é por que ela estava do lado de fora com os pés descalços. Ela estava usando sapatos de manhã. Onde eles foram parar?
Silman de repente soltou uma exclamação sem palavras, e bateu a mão na testa.
— Perdoe-me, jovem mestre — ela falou — mas o choque de ver a pobre Máire aqui quase me fez esquecer que eu já estava prestes a procurá-lo quando a jovem senhora correu para me encontrar.
— O que deseja de mim?
— É o seu irmão, senhor.
Sherlock sentiu seu coração disparar de repente. Ele sentiu um mal-estar.
— O que aconteceu com Mycroft? — ele perguntou, dando um passo a frente.
Silman hesitou, aparentemente tentando colocar sua próxima frase corretamente.
— Ele foi ferido. Na cabeça...

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