27 de setembro de 2017

Capítulo 9

LEVANDO EM CONTA QUE EU só deveria visitar a casa de Clarence duas vezes por semana para os fornecimentos, fiquei surpresa ao perceber que eu estava indo lá quase todos os dias. Além disso, essa era a primeira vez que eu ia à propriedade sozinha. Antes, eu tinha estado lá com Keith ou com Jill, sempre com um objetivo bem definido. Agora, eu estava sozinha. Não tinha me dado conta de como isso me apavorava até me aproximar da casa, que pareceu ainda mais imponente e sombria que o normal.
Não há nada a temer, disse a mim mesma. Você passou a semana toda com uma vampira e um dampiro. Já devia estar acostumada. Além do mais, na realidade, a coisa mais assustadora do lugar era a casa em si. Clarence e Lee não eram de intimidar tanto assim, e Adrian... bom, Adrian era basicamente o vampiro menos assustador que eu já tinha conhecido. Ele agia demais como um pirralho para suscitar qualquer medo real e, na verdade... por mais que eu detestasse reconhecer, eu meio que estava ansiosa para vê-lo.
Não fazia sentido, mas algo em sua natureza enfurecedora fazia com que eu me esquecesse das minhas outras preocupações. Estranhamente, eu sentia que podia relaxar perto dele.
Dorothy me acompanhou pelo corredor e achei que seria levada para a sala de estar mais uma vez. Em vez disso, a empregada me conduziu por curvas e corredores escuros da casa e finalmente chegamos a um salão de bilhar que poderia ter saído diretamente de um tabuleiro de Detetive. Mais madeira escura forrava o aposento e janelas de vitrais coloridos filtravam a luz do sol que entrava. A maior parte da iluminação vinha de uma luminária que pendia sobre uma mesa de sinuca verde, toda rebuscada. Adrian estava se preparando para uma tacada quando fechei a porta atrás de mim.
— Ah — ele disse, ao jogar a bola vermelha dentro de uma caçapa. — É você.
— Estava esperando outra pessoa? — perguntei. — Estou interrompendo sua agenda social? — Fiz uma encenação olhando ao redor da sala vazia. — Não quero fazer você se afastar da multidão de fãs batendo à sua porta.
— Ei, a gente pode ter esperança. Quer dizer, não é impossível que um carro cheio de garotas da faculdade com roupas ínfimas quebre ali na rua e elas precisem da minha ajuda.
— É verdade — eu disse. — Talvez eu possa colocar uma placa na frente da casa que diga: “Atenção, garotas: ajuda grátis aqui”.
— “Atenção, garotas gostosas” — ele corrigiu e aprumou o corpo.
— Certo — eu disse, tentando não revirar os olhos. — Essa é uma distinção importante.
Ele apontou para mim com o taco de sinuca.
— Falando em gostosa, gostei do uniforme.
Dessa vez, realmente revirei os olhos. Depois da última vez, quando Adrian tinha brincado que o meu uniforme se parecia com as minhas roupas normais, tratei de tirá-lo antes de ir para lá naquele dia. Eu estava usando jeans escuro e uma blusa estampada de preto e branco com gola de babados. Devia ter previsto que a troca de roupa não me pouparia dos seus comentários engraçadinhos.
— Só você está aqui? — perguntei ao notar seu jogo solitário.
— Que nada. Clarence está por aí fazendo... não sei o quê. Alguma coisa de velho. E acho que Lee está consertando aquela fechadura antes de voltar para Los Angeles. É meio engraçado. Parece que ele está aborrecido por precisar usar ferramentas. Ele fica achando que a força das próprias mãos devia ser suficiente.
Não pude deixar de sorrir.
— Acredito que você não tenha se oferecido para ajudar, certo?
— Sage — Adrian declarou. — Estas mãos não executam trabalho pesado. — Ele jogou outra bola em uma caçapa. — Quer jogar?
— O quê? Com você?
— Não, Sage, com Clarence — ele suspirou ao ver a minha cara de quem não estava entendendo nada. — É claro que é comigo.
— Não. Preciso conversar com você sobre a Jill.
Ele ficou em silêncio por alguns momentos e então retomou o jogo como se nada tivesse acontecido.
— Ela não passou mal hoje — ele disse com segurança, apesar de haver um tom amargo estranho em suas palavras.
— Não. Bom, não da mesma maneira. Ela passou mal no sol durante a educação física. Vou falar com Keith depois que sair daqui para ver se conseguimos uma dispensa médica. — Na verdade, eu tinha tentado ligar para ele antes, sem sorte. — Mas não foi por isso que eu vim aqui. Tem um cara que gosta de Jill... um humano.
— Peça a Castile para dar uma dura nele.
Eu me recostei e suspirei.
— Essa é a questão. Eu pedi. Bom, não exatamente para dar uma dura. É o colega de quarto dele. Eu pedi a Eddie para dizer a ele que se afastasse, e para inventar alguma desculpa... tipo dizer que ela é muito nova. — Com medo de que Adrian fosse tão relapso a esse respeito quanto Eddie, eu perguntei: — Você compreende por que é importante, não é? Moroi e humanos não podem namorar, certo?
Ele observava a mesa, e não a mim.
— É, concordo com você, Sage. Mas, mesmo assim, não entendi qual é o problema.
— Eddie se nega a falar com ele. Diz que não acha que Jill deva ser impedida de aproveitar a chance de namorar e ir a bailes. Que tudo bem se ela e Micah saírem, desde que não fique sério.
Adrian era bom em esconder seus sentimentos, mas aparentemente eu o tinha pegado de surpresa. Ele endireitou o corpo e começou a girar a base do taco no chão enquanto pensava.
— Isso é estranho. Quer dizer, eu entendo a lógica, e ele tem certa razão. Ela não deve ser forçada a se isolar enquanto estiver aqui. Só estou surpreso por Castile ter dito isso.
— Pois é, mas é um conceito difícil de seguir. Qual é o limite entre o que é “sério” e o que não é? Sinceramente, tenho a sensação de que Eddie simplesmente não quis confrontar Micah... o colega de quarto dele. E isso é loucura, porque Eddie não parece ser do tipo que tem medo de nada. O que Micah tem para deixar Eddie tão desconfortável?
— Esse Micah é algum tipo de sujeito grandalhão?
— Não — respondi. — Ele tem um bom físico, acho. É bom nos esportes. Muito simpático e bom de conversa... não é do tipo que iria se voltar contra você se dissesse a ele que não é para sair com a sua irmã.
— Então você pode conversar com ele. Ou pode só conversar com a Belezinha e explicar as coisas para ela — Adrian parecia satisfeito por ter solucionado o problema e encaçapado a última bola.
— Esse era o meu plano. Só queria ter certeza de que você me apoiaria. Jill escuta o que você diz, e achei que seria mais fácil se ela soubesse que você concorda comigo. Não que eu saiba como ela se sente. Até onde eu sei, isso tudo é exagero.
— Não faz mal nenhum sermos cuidadosos em relação a ela — Adrian disse. Ele ficou fitando o nada, perdido em seus próprios pensamentos. — E vou dizer a ela o que eu acho disso.
— Obrigada — eu disse, um pouco surpresa com a facilidade daquilo.
Os olhos deles dançavam, marotos.
— Agora, será que você jogaria uma partida comigo?
— Eu, na verdade, não...
A porta se abriu e Lee entrou vestido casualmente, com jeans e camiseta. Ele trazia na mão uma chave de fenda.
— Oi, Sydney. Achei mesmo que tinha visto o seu carro lá fora — ele deu uma olhada ao redor. — Hum, Jill veio com você?
— Hoje, não — respondi. Tive uma ideia quando me lembrei de que Lee estudava em Los Angeles. — Lee, você já namorou alguma garota humana na sua faculdade?
Adrian arqueou a sobrancelha.
— Está convidando Lee para sair, Sage?
Eu me irritei.
— Não!
Lee ficou pensativo.
— Não, na verdade, não. Tenho alguns amigos humanos, e nós saímos em grupo e passamos um tempo juntos... mas nunca fiz mais do que isso. Só que Los Angeles é uma cidade grande. Há garotas Moroi por lá, se você souber onde procurar.
Adrian se animou.
— É mesmo?
A minha esperança de que Lee pudesse dizer a Jill que ele também tinha evitado namorar.
— Então a sua facilidade em arranjar encontros deve ser bem maior do que a de Jill.
— Como assim? — Lee perguntou.
Contei a ele tudo sobre Micah e Eddie. Lee foi assentindo enquanto escutava, pensativo.
— Isso é complicado — ele reconheceu.
— Será que podemos voltar à parte das garotas Moroi que circulam por Los Angeles? — Adrian perguntou, todo esperançoso. — Será que você poderia me apresentar a algumas das... ah, digamos, das que têm a mente mais aberta?
Mas a atenção de Lee estava em mim. O sorriso fácil dele se transformou em ar de preocupação e ele olhou para os pés.
— Isto pode parecer meio estranho... mas, quer dizer, eu não acharia ruim convidar a Jill para sair.
Adrian já estava dando a sua opinião antes mesmo de eu conseguir pensar em uma resposta.
— Como assim? Tipo, em um encontro? Seu filho da mãe! Ela só tem quinze anos. — Nem dava para imaginar que, um momento antes, ele estava falando de garotas Moroi fáceis.
— Adrian — eu disse. — Estou achando que a definição de Lee para encontro é um pouco diferente da sua.
— Desculpe, Sage, mas você tem que confiar em mim quando a questão é definir um encontro. Pelo que eu saiba, você não é especialista em questões sociais. Quer dizer, qual foi a última vez em que você esteve em um encontro? — esse era só mais um dos comentários espertinhos que ele lançava para todos os lados com tanta facilidade, mas doeu um pouco. Será que a minha falta de experiência social era assim tão óbvia?
— Mas — completei, ignorando a pergunta de Adrian — há uma grande diferença de idade.
Eu sinceramente não fazia a menor ideia de quantos anos Lee tinha. Como ele estava na faculdade, era uma pista, mas Clarence parecia ser incrivelmente velho. Mas ter filhos no fim da vida não parecia assim tão estranho, tanto para humanos quanto para os Moroi.
— Pronto — Lee disse. — Eu tenho dezenove anos. Não é uma diferença assim tão grande... mas é o suficiente. Eu não devia ter dito nada — ele parecia constrangido e eu fiquei com pena dele e confusa comigo mesma. Formar casais era algo que não estava no manual dos alquimistas.
— Por que você iria querer convidar Jill para sair? — perguntei. — Quer dizer, ela é ótima. Mas você quer fazer isso só para que ela se distraia de Micah e tenha uma alternativa de encontro segura? Ou você, hum, gosta dela?
— Claro que ele gosta dela — Adrian disse, apressando-se em defender a honra de Jill.
Fiquei com a sensação de que realmente não havia uma resposta boa que Lee pudesse dar àquela altura. Se ele expressasse interesse nela, os instintos cavalheirescos bizarros de Adrian entrariam em ação. Se Lee não estivesse interessado, Adrian sem dúvida iria exigir saber por que Lee não queria se casar com ela ali mesmo, naquele momento. Era uma das excentricidades fascinantes — e esquisitíssimas — de Adrian.
— Eu gosto dela — Lee disse sem rodeios. — Só conversei com ela umas duas vezes, mas... bom, eu realmente gostaria de que a gente pudesse se conhecer melhor.
Adrian desdenhou, e eu olhei feio para ele.
— Mais uma vez — eu disse. — Acho que vocês dois têm definições diferentes para as mesmas palavras.
— Não é verdade — Adrian falou. — Todos os homens querem dizer a mesma coisa quando falam que querem “conhecer uma garota melhor”. Você é uma mocinha muito bem-educada, por isso compreendo por que é inocente demais para entender. Ainda bem que eu estou aqui para interpretar.
Eu me virei de novo para Lee, sem nem me incomodar em responder a Adrian.
— Acho que tudo bem se você sair com ela.
— Isso se ela estiver interessada — Lee disse com ar de incerteza.
Eu me lembrei do sorriso dela quando eles haviam conversado no dia anterior. Aquilo tinha parecido bem promissor. Mas, bem, o mesmo podia ser dito a respeito do entusiasmo dela por Micah.
— Aposto que deve estar.
— Então você simplesmente vai permitir que ela saia sozinha? — Adrian perguntou e me lançou um olhar que dizia para não questioná-lo. Dessa vez, a preocupação dele era legítima. Eu compartilhava dela. Jill estava em Palm Springs para ter segurança. Estava matriculada em Amberwood porque era segura também. Começar de repente a sair com um cara que nós mal conhecíamos não atendia aos protocolos de segurança nem dos alquimistas, nem dos guardiões.
— Bom, ela nem pode sair do terreno da escola — eu disse, pensando em voz alta. — Não se eu não for junto.
— Opa — Adrian disse. — Se você for de vela, eu vou também.
— Se nós dois formos, Eddie também vai querer ir — observei.
— E daí? — O breve momento de seriedade e preocupação de Adrian tinha desaparecido diante daquilo que ele considerava diversão social. Como é que o humor de alguém podia mudar com tanta rapidez? — Pense como se fosse menos um encontro e mais um passeio da falsa família. Que vai me divertir e ao mesmo tempo vai proteger a virtude dela.
Coloquei as mãos na cintura e me virei para ele. Isso pareceu diverti-lo ainda mais.
— Adrian, a nossa preocupação aqui é a Jill. Não a sua própria diversão.
— Não é verdade — ele disse com os olhos verdes brilhando. — Tudo condiz com a minha própria diversão. O mundo é o meu palco. Continue assim... você está se transformando em uma das estrelas do show.
Lee olhou para nós com uma expressão cômica de quem não sabia o que fazer.
— Vocês querem ficar a sós?
Eu fiquei vermelha.
— Desculpe.
Adrian não se desculpou, claro.
— Olhe — Lee disse. Ele parecia estar começando a se arrepender de ter tocado no assunto. — Eu gosto dela. Se isso significa andar com o grupo inteiro de vocês para poder ficar com ela, tudo bem.
— Talvez seja melhor assim — eu refleti. — Talvez, se nós fizermos mais coisas em grupo... tirando os fornecimentos dela... não vai haver o risco de ela querer namorar um humano. — E nós nem sabíamos com certeza se ela estava interessada nele. Nós também não sabíamos se ela estava interessada em Lee. Percebi que estávamos realmente pegando pesado com a vida amorosa dela.
— Isso é mais ou menos o que eu queria antes — Adrian me disse. — Só um pouco mais de vida social.
Fiquei pensando na conversa do dia anterior, em que ele exigiu que eu achasse um lugar para ele morar.
— Não foi bem isso que você pediu.
— Se você quiser sair mais — Lee disse —, pode ir comigo a Los Angeles hoje à noite. Eu ia voltar para cá depois da aula amanhã de qualquer forma, então vai ser só uma viagem rápida.
Adrian se alegrou tanto que fiquei imaginando se Lee não tinha feito essa sugestão para tentar aplacar qualquer resquício de tensão por causa de seu interesse por Jill.
— Você me apresenta para aquelas garotas? — Adrian perguntou.
— Inacreditável — eu disse. Os dois pesos e as duas medidas de Adrian eram ridículos.
Eu só reparei que a porta tinha sido aberta quando Keith já havia entrado na sala. Eu nunca ficava exatamente contente em vê-lo, mas foi sorte ele de repente estar ali, bem quando eu precisava falar com ele sobre Jill e seus problemas na educação física. O meu melhor plano era passar no apartamento dele e torcer para que ele estivesse lá. Ele me poupou o trabalho.
Keith olhou para nós três — mas não compartilhou dos nossos sorrisos. Nada de piscadelas ou charme vindo dele hoje.
— Vi o seu carro lá fora, Sydney — ele disse, ríspido, e se voltou para mim. — O que você está fazendo aqui?
— Eu precisava conversar com Adrian — eu disse. — Você recebeu a minha mensagem? Eu tentei ligar antes.
— Andei ocupado — ele disse com frieza. Sua expressão era dura, seu tom gelou a sala. Adrian e Lee tinham perdido o sorriso e os dois agora pareciam confusos, tentando entender por que Keith estava tão incomodado. Eu compartilhava da curiosidade deles. — Vamos conversar. Em particular.
De repente, me senti como uma criança levada, sem saber por quê.
— Claro — eu disse. — Eu... já estava mesmo indo embora.
Avancei para me juntar a Keith à porta.
— Espere — Lee disse. — E aquela... — Adrian deu uma cotovelada nele, sacudiu a cabeça e murmurou algo que eu não consegui entender. Lee ficou quieto.
— A gente se vê por aí — Adrian disse, todo animado. — Não se preocupe... vou me lembrar da nossa conversa.
— Obrigada — eu disse. — A gente se vê depois.
Keith saiu sem dizer uma palavra e eu o segui para fora da casa e para o calor do fim da tarde. A temperatura tinha baixado desde a malfadada aula de educação física, mas não muito. Keith saiu pisando firme pela entrada de cascalho e parou ao lado do Pingado. O carro dele estava estacionado ali perto.
— Você foi muito grosseiro — eu disse a ele. — Nem se despediu deles.
— Desculpe se eu não exibo a minha melhor educação com vampiros — Keith soltou. — Eu não sou tão próximo deles quanto você.
— O que quer dizer com isso? — exigi saber e cruzei os braços. Examinei-o de cima a baixo e senti minha velha antipatia borbulhar. Era difícil acreditar que apenas um minuto antes eu estava dando risada.
Keith desdenhou.
— É só que você parecia tremendamente à vontade com eles lá dentro... batendo papo, se divertindo. Eu não sabia que era aqui que você passava seu tempo livre depois da escola.
— Como você pode dizer uma coisa dessas? Eu vim aqui tratar de trabalho — urrei.
— É, deu para ver.
— E foi mesmo. Eu precisava conversar com Adrian sobre a Jill.
— Eu não me recordo de ele ser o guardião dela.
— Ele só se preocupa com ela — argumentei. — Do mesmo jeito que a gente iria se preocupar com qualquer amigo.
— Amigo? Eles não são nem um pouco parecidos conosco — Keith disse. — Eles são profanos e antinaturais, e você não tem nada que ficar amiga de nenhum deles.
A minha vontade era berrar que, pelo que eu tinha observado, Lee era uma pessoa cem vezes mais decente do que Keith jamais seria. Até Adrian era. Foi só no último segundo que me lembrei do meu treinamento. Não crie confusão. Não contradiga seus superiores. Por mais que eu detestasse a ideia, Keith era o responsável ali. Respirei fundo.
— Não foi exatamente uma confraternização. Eu só vim aqui para conversar com Adrian, e Lee por acaso estava em casa. Até parece que nós todos tínhamos planejado alguma grande festa.
Era melhor não mencionar o plano do encontro em grupo.
— Por que você simplesmente não ligou para Adrian se tinha uma pergunta? Você ligou para mim.
Porque ficar cara a cara com ele é menos enjoativo do que ficar perto de você.
— Era importante. E como eu não consegui falar com você, achei que teria que passar na sua casa de qualquer jeito.
Na esperança de desviar a atenção do meu “mau comportamento”, me apressei em recapitular tudo que tinha acontecido naquele dia, incluindo a insolação de Jill e as atenções de Micah.
— Claro que ela não pode namorar um humano — ele exclamou depois que expliquei sobre Micah. — Você precisa acabar com isso.
— Estou tentando. E Adrian e Lee disseram que vão ajudar.
— Ah, que bom, agora eu me sinto muito melhor — Keith sacudiu a cabeça. — Não seja ingênua, Sydney. Eu disse para você. Eles não se importam tanto com essas coisas quanto nós.
— Acho que se importam, sim — argumentei. — Adrian pareceu entender, e ele tem muita influência sobre Jill.
— Bom, não é ele que os alquimistas irão mandar a um centro de reeducação por ficar brincando com vampiros em vez de discipliná-los.
Eu só fiquei olhando. Não sabia bem qual parte do que ele tinha acabado de dizer era mais ofensiva: a insinuação batida de que eu era uma “adoradora de vampiros” ou que seria capaz de “disciplinar” qualquer um deles. Eu devia saber que a simpatia falsa dele não ia durar.
— Estou fazendo o meu trabalho aqui — eu disse, ainda com a voz firme. — E, pelo que posso ver, estou trabalhando mais do que você, já que fui eu quem passou a semana toda apagando incêndios.
Eu sabia que era ilusão, já que o olho de vidro não podia realmente olhar fixo para mim, mas eu senti que ele me fitava com ambos os olhos.
— Estou fazendo muita coisa. Nem pense em me criticar.
— O que veio fazer aqui? — perguntei, ao me dar conta de como aquilo era estranho. Ele tinha me acusado de “socializar”, mas nunca tinha explicado seus motivos.
— Precisava falar com Clarence, não que seja da sua conta.
Eu queria mais detalhes, mas me recusei a demonstrar como estava curiosa. De acordo com Lee, ele também tinha estado ali no dia anterior.
— Você pode ligar para a escola amanhã e fazer Jill ser dispensada da educação física?
Keith me lançou um olhar longo e pesado.
— Não.
— O quê? Por que não?
— Porque ficar no sol não vai matá-la.
Mais uma vez, engoli a raiva e tentei aplicar a diplomacia que tinham me ensinado.
— Keith, você não viu como ela estava. Talvez não mate, mas foi terrível para ela. Estava em agonia.
— Eu realmente não me importo se eles passam por coisas terríveis ou não — Keith disse. — E você também não devia se importar. O nosso trabalho é mantê-la viva. Não havia nenhuma menção sobre garantir que ela ficasse feliz e confortável.
— Achei que ninguém precisasse nos dizer isso — eu falei, estarrecida. Por que ele estava tão incomodado? — Eu achei que, por sermos seres humanos sensíveis, nós poderíamos simplesmente ajudar.
— Bom, agora você pode ajudar. Ou pode pedir para alguém acima de nós mandar um bilhete para a escola, ou pode dar banhos gelados nela depois da aula de ginástica. Por mim, realmente não importa o que você faça, mas talvez assim você vá ficar tão ocupada a ponto de parar de vir aqui sem avisar e ficar se jogando em cima das criaturas da escuridão. Não quero mais ficar sabendo que isso aconteceu.
— Você é inacreditável — eu disse. Estava aborrecida demais e totalmente sem palavras para conseguir elaborar algo mais eloquente.
— Estou cuidando da sua alma — ele disse, cheio de soberba. — É o mínimo que eu posso fazer pelo seu pai. Pena que você não é mais parecida com as suas irmãs.
Keith deu as costas para mim e abriu a porta do carro sem dizer mais uma palavra. Ele entrou e deu a partida; eu fiquei lá parada. Lágrimas ameaçaram os meus olhos, e eu as engoli. Eu me sentia uma idiota — mas não por causa das acusações dele. Eu não acreditei nem por um instante que tinha feito algo de errado ao ir até lá. Não, eu estava louca da vida — louca comigo mesma — porque tinha deixado que ele partisse com a última palavra e porque eu não tinha tido coragem de retrucar. Eu tinha ficado em silêncio, como todo mundo sempre me dizia para fazer.
Chutei o cascalho de tanta raiva, espalhando-o por todo lado. Algumas pedrinhas bateram no meu carro e eu fiz uma careta.
— Desculpe.
— Será que ele iria acusar você de ser do mal por falar com um objeto inanimado?
Eu me virei para trás, com o coração acelerado. Adrian estava apoiado na casa, fumando.
— De onde você surgiu? — perguntei. Apesar de saber tudo que havia para saber a respeito dos vampiros, era difícil me livrar dos medos supersticiosos de que eles apareciam do nada.
— Vim pela outra porta — ele explicou. — Eu saí para fumar e escutei a agitação.
— É falta de educação escutar a conversa dos outros — eu disse, ciente de que eu parecia insuportavelmente pudica, mas fui incapaz de evitar.
— É falta de educação ser um imbecil igual a ele — Adrian apontou com a cabeça para o lugar onde o carro de Keith tinha estado. — Você vai conseguir tirar Jill daquela aula?
Eu suspirei, de repente sentindo um enorme cansaço.
— É, eu acho que consigo. Só vai demorar um pouco mais, até eu conseguir outros alquimistas para serem nossos pais falsos. Teria sido bem mais rápido se Keith tivesse ajudado.
— Obrigado por cuidar dela, Sage. Você até que é legal para uma humana.
Quase dei risada.
— Obrigada.
— Você também pode dizer a mesma coisa de mim, sabe?
Caminhei até o Pingado e fiz uma pausa.
— Dizer o quê?
— Que eu até que sou legal... para um vampiro — ele explicou.
Eu sacudi a cabeça, sem parar de sorrir.
— Vai ser difícil fazer com que um alquimista confesse isso. Mas posso dizer que você até que é legal para um baladeiro irreverente com momentos ocasionais de brilhantismo.
— Brilhantismo? Você acha que eu sou brilhante? — ele lançou as mãos para o alto. — Você ouviu isso, universo? Sage disse que eu sou brilhante.
— Ei! Não foi isso que eu disse!
Ele largou o cigarro, apagou com o pé e me lançou um sorriso desinteressado.
— Valeu pela massagem no ego. Vou contar a Clarence e a Lee a opinião elevada que você tem de mim.
— Ei, eu não...
Mas ele já tinha desaparecido. Ao me afastar da casa, cheguei à conclusão de que os alquimistas precisavam de um departamento inteiro dedicado a cuidar de Adrian Ivashkov.
Quando voltei ao meu dormitório, encontrei Jill sentada, rodeada de livros didáticos e papéis, sem dúvida tentando recuperar as aulas perdidas do dia anterior.
— Uau — eu disse, pensando na lição de casa que também estava à minha espera. — Você organizou todo um centro de comando.
Em vez de sorrir com a minha piada, Jill ergueu olhos gélidos.
— Será que, da próxima vez que você resolver estragar a minha vida afetiva, pode falar primeiro comigo? — ela indagou.
Eu fiquei sem palavras. Adrian tinha dito que ia falar com Jill. Só não achei que fosse ser tão rápido.
— Não precisa agir pelas minhas costas para me manter afastada de Micah — ela completou. — Eu não sou idiota. Sei que não posso namorar um humano.
Então, aparentemente Adrian tinha contado isso para ela.
— Além disso — Jill prosseguiu, sempre com aquele tom frio —, você não precisa me arranjar o único Moroi solteiro em um raio de cem quilômetros para me manter longe de confusão.
Certo... parecia que Adrian tinha contado tudo para ela. Eu achava que ele seria mais discreto, principalmente na parte sobre Lee.
— Nós... nós não estávamos arranjando nada para você — eu disse de um jeito meio ridículo. — Lee queria mesmo convidar você para sair.
— Mas, em vez de falar comigo, ele foi pedir permissão para vocês! Vocês não mandam na minha vida.
— Eu sei — respondi. — Não estávamos tentando fazer isso! — Como é que tudo tinha estourado bem na minha cara? — Lee tomou a iniciativa sozinho.
— Igual a você quando foi falar com Adrian pelas minhas costas — os olhos dela brilhavam com lágrimas de raiva, me desafiando a negar. Eu não consegui, e só agora estava percebendo como era errado o que eu tinha feito. Desde que ela descobriu que era da realeza, Jill passou a ver outras pessoas mandarem em sua vida. Talvez as minhas intenções de fazer Adrian conversar com ela sobre Micah fossem boas, mas eu tinha usado a abordagem errada.
— Você tem razão — eu disse. — Sinto muito por...
— Esqueça — ela disse, e colocou um par de fones nos ouvidos. — Não quero saber de mais nada. Você me fez parecer uma idiota na frente de Adrian e de Lee. Não que eles vão chegar a pensar duas vezes em mim em Los Angeles hoje à noite — ela fez um gesto para eu me afastar e olhou para o livro que tinha à frente. — Não quero mais saber de você.
Se ela não podia me ouvir por causa da música ou simplesmente porque preferia me ignorar, eu não sabia dizer. A única coisa que eu sabia era que mais uma vez me peguei comparando-a a Zoe. Assim como aconteceu com Zoe, eu tinha tentado fazer uma coisa boa para Jill e o tiro saiu pela culatra. Assim como acontecera com Zoe, eu acabei magoando e humilhando a pessoa que tentava proteger.
Desculpe, Sage. Pelo que eu saiba, você não é especialista em questões sociais.
Pensei com amargor que essa era a parte mais triste de todas — o fato de Adrian Ivashkov ter razão.

3 comentários:

  1. Cara, eu amo cada vez mais o Adrian 😍😍😍😍 já gostava VA ,nesse livro ele está mais legal ainda... e Karina,linda obg por postar esse livro

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    1. Realmente, o Adrian faz a gente se apaixonar cada vez mais por ele. Sobre Micah, pelo fato do Eddie ficar tão afastado dele, acho que é pq o Micah é o Mason.

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    2. Né! Adrian amorzinho hauehauea

      Mas... Mason morreu! Como ele pode ser Micah?

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Boa leitura :)