27 de setembro de 2017

Capítulo 8

— VOCÊ VAI COMER ISSO? — Eddie perguntou.
Apesar de não saber de toda a confusão que tinha acontecido com Jill no primeiro dia de aula, não vê-la durante o dia inteiro o havia deixado nervoso. Por isso, quando eu e ela descemos para o segundo dia de aula, ele estava esperando no saguão do nosso alojamento, pronto para tomar café da manhã com a gente.
Empurrei o meu prato com meio bagel para o outro lado da mesa. Ele já tinha acabado com o bagel dele, além de panquecas e bacon, mas aceitou minha oferta com rapidez. Ele até que podia ser uma criatura híbrida antinatural, mas, pelo que eu pude notar, seu apetite era igual ao de qualquer adolescente humano.
— Como você está se sentindo? — ele perguntou a Jill depois de engolir uma bocada de bagel. Como ele havia ouvido falar que ela não tinha ido às aulas, nós simplesmente informamos a Eddie que Jill tinha passado mal de tanta ansiedade ontem. As acusações de ressaca continuavam me irritando, mas Jill insistiu para deixarmos para lá.
— Estou bem — ela respondeu. — Muito melhor.
Não fiz nenhum comentário sobre isso mas, no fundo, tinha lá minhas dúvidas. Jill realmente parecia melhor naquela manhã, mas ela não tinha conseguido dormir muito bem à noite.
Aliás, tinha acordado no meio da madrugada, gritando.
Eu pulei da cama, esperando encontrar nada menos do que cem assassinos Strigoi ou Moroi irrompendo pela janela. Mas, quando olhei, só havia Jill ali, se debatendo e gritando durante o sono. Corri até ela e finalmente consegui acordá-la com certa dificuldade. Ela se sentou ereta, sem fôlego, agarrando o próprio peito. Quando se acalmou, disse que tinha sido apenas um pesadelo, mas havia algo em seus olhos... o resquício de algo real. Isso me lembrou das várias vezes em que eu havia acordado achando que os alquimistas tinham chegado para me levar para um centro de reeducação.
Ela insistiu que estava bem e, quando a manhã chegou, a única menção que fez ao pesadelo foi para reforçar que não contássemos a Eddie.
— Só vai servir para deixá-lo preocupado — ela disse. — E, além disso, não é nada de mais.
Eu até concordei, mas quando tentei perguntar o que tinha acontecido, ela mudou de assunto e se recusou a discutir a questão.
Depois, no café da manhã, ela sem dúvida demonstrava um certo nervosismo, mas, até onde eu sabia, isso estava mais relacionado a finalmente ter que enfrentar seu primeiro dia em uma escola dos humanos.
— Ainda não consegui superar o fato de que sou tão diferente de todo mundo — ela disse em tom baixo. — Quer dizer, para começo de conversa, eu sou mais alta do que quase todas as outras meninas aqui! — Era verdade. Não era incomum as Moroi chegarem a um metro e oitenta de altura. A altura de Jill não chegava a tanto, mas sua silhueta alongada e delgada fazia com que parecesse mais alta do que era de verdade. — E eu sou muito ossuda.
— Não é, não — eu disse.
— Sou magra demais... comparada a elas — Jill argumentou.
— Todo mundo tem alguma coisa — Eddie retrucou. — Aquela menina ali tem uma tonelada de sardas. Aquele cara raspou a cabeça. Não existe essa coisa de “normal”.
Jill ainda parecia em dúvida, mas foi para a aula obediente quando o primeiro sinal tocou e prometeu se encontrar com Eddie para almoçar e comigo na educação física.
Cheguei à aula de história alguns minutos adiantada. A sra. Terwilliger estava em pé ao lado da mesa, mexendo em alguns papéis, e me aproximei com hesitação.
— Professora?
Ela ergueu os olhos para mim e empurrou os óculos para cima do nariz.
— Humm? Ah, eu me lembro de você. Srta. Melbourne.
— Melrose — corrigi.
— Tem certeza? Eu podia jurar que o seu nome era o mesmo de algum lugar na Austrália.
— Bom, o meu primeiro nome é Sydney — eu disse, sem saber muito bem se devia incentivá-la.
— Ah. Então não estou louca. Não por enquanto, pelo menos. Em que posso ajudar, srta. Melrose?
— Eu queria perguntar... bom, veja bem, eu tenho uma lacuna no horário de aulas porque já atendi a todos os requisitos de línguas. Queria saber se a senhora não precisa de outro monitor... igual ao Trey — o supracitado Trey já estava presente, sentado em uma carteira alocada para ele e organizando papéis. Ele ergueu os olhos quando ouviu seu nome e me olhou com desconfiança. — É o último período, professora. Então, se houver algum trabalho extra de que precisa...
Os olhos dela me avaliaram durante vários momentos antes que respondesse. Eu tinha me assegurado de cobrir a minha tatuagem, mas parecia que ela estava olhando diretamente para ela.
— Não preciso de outro monitor — ela disse de modo direto. Trey deu um sorriso sacana. — O sr. Juarez, apesar de suas muitas limitações, é mais do que capaz de dar conta de todas as minhas pilhas de papel — o sorrisinho dele desapareceu com aquele elogio malsucedido.
Assenti e comecei a me afastar, decepcionada.
— Tudo bem. Eu compreendo.
— Não, não. Acho que não. Sabe, eu estou escrevendo um livro — ela fez uma pausa, e percebi que estava esperando que eu parecesse impressionada. — Sobre religião herege e magia no mundo greco-romano. Já dei aulas sobre isso na Faculdade Carlton. É um assunto fascinante.
Trey segurou uma tosse.
— Então, eu realmente estava precisando de um assistente de pesquisa para me ajudar a encontrar certas informações, executar pequenas tarefas, esse tipo de coisa. Estaria interessada?
Fiquei boquiaberta.
— Claro, professora. Muito.
— Para que você conseguisse crédito como estudo independente, teria que fazer algum projeto paralelo... pesquisa e trabalho próprios. Não precisa nem chegar perto do tamanho do meu livro, é claro. Há algo dessa época que a interessa?
— Hum, sim — eu mal conseguia acreditar. — Arte e arquitetura clássicas. Eu adoraria poder estudar mais sobre isso.
Agora ela parecia impressionada.
— É mesmo? Então parece que nós formamos uma combinação perfeita. Bom, quase. É uma pena você não saber latim.
— Bom... — desviei o olhar. — Eu, hum, na verdade... eu sei ler latim — arrisquei dar mais uma olhada nela. Em vez de impressionada, ela estava mais para estupefata.
— Nossa. Mas que coisa — ela sacudiu a cabeça, inconformada. — Tenho até medo de perguntar sobre grego. — O sinal tocou. — Vá para o seu lugar, depois venha falar comigo no fim do dia. O último período é o meu horário de planejamento, então vamos ter tempo de sobra para conversar e preencher a papelada necessária.
Voltei para a minha carteira e Eddie tocou seu punho fechado no meu, em aprovação.
— Belo trabalho. Agora você não vai precisar fazer uma aula de verdade. Claro que, se ela fizer você ler em latim, vai ser pior do que uma aula de verdade.
— Eu gosto de latim — respondi com absoluta seriedade. — É divertido.
Eddie sacudiu a cabeça e disse bem baixinho:
— Não acredito que você acha que nós somos os estranhos.
Os comentários de Trey na aula seguinte foram menos elogiosos.
— Uau, mas você realmente tem Terwilliger na palma da mão. — Ele apontou com a cabeça na direção da professora de química. — Vai dizer a ela que desmembra átomos nas horas livres? Tem um reator no quarto?
— Não há nada de errado em... — interrompi a mim mesma, sem ter certeza do que dizer. Quase falei “ser inteligente”, mas ia parecer muito arrogante. — Não há nada de errado em saber as coisas — eu finalmente disse.
— Claro — ele concordou. — Quando o conhecimento é legítimo.
Eu me lembrei da conversa maluca com Kristin e Julia no dia anterior. Como tive que levar Jill até Adrian, tinha perdido a sessão de estudos e não pude dar continuidade às perguntas sobre a minha tatuagem. Mesmo assim, pelo menos sabia de onde vinha o desdém de Trey — apesar de parecer absurdo. Ninguém mais na escola tinha mencionado especificamente o fato de a minha tatuagem ser especial, mas várias pessoas já tinham se aproximado para perguntar onde eu a tinha feito. Ficavam decepcionados quando eu respondia que tinha sido na Dakota do Sul.
— Olhe, não sei de onde veio esta ideia de que a minha tatuagem me deixa inteligente, mas se é o que você pensa, bom... não pense. É só uma tatuagem.
— Ela é dourada — ele argumentou.
— E daí? — perguntei. — É só uma tinta especial. Não entendo por que as pessoas acreditam que tenha alguma propriedade mística. Quem acredita nessas coisas?
Ele deu uma gargalhada de desdém.
— Metade desta escola acredita. Então, como é que você é tão inteligente?
Será que eu era uma aberração assim tão grande no quesito acadêmico que as pessoas tinham que recorrer a explicações sobrenaturais? Dei a minha resposta de sempre.
— Fui educada em casa.
— Ah — Trey disse, pensativo. — Isso explica tudo.
Suspirei.
— Mas aposto que a sua educação em casa não ajudou muito com a educação física — ele completou. — O que vai fazer a respeito da exigência de prática esportiva?
— Não sei, não tinha pensado sobre esse assunto — respondi, me sentindo um pouco desconfortável. Eu era capaz de dar conta do conteúdo acadêmico de Amberwood enquanto dormia. Mas a parte atlética? Não sabia dizer.
— Bom, é melhor decidir logo, o prazo final está chegando. Não fique com uma cara tão preocupada — ele completou. — Quem sabe deixam que você abra um clube de latim em vez disso.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei sem gostar nada do tom dele. — Eu já pratiquei esportes.
Ele deu de ombros.
— Você é que sabe. Não parece ser do tipo atlético. Você parece muito... arrumadinha.
Não sabia dizer se isso era um elogio ou não.
— Qual é o seu esporte?
Trey levantou o queixo, parecendo muito orgulhoso de si mesmo.
— Futebol americano. Um esporte para homens de verdade.
Um sujeito que estava sentado por perto ouviu o que ele disse e olhou para trás.
— Pena que você não vai ficar com a vaga de lançador, Juarez. Chegou tão perto no ano passado... Parece que vai se formar sem realizar mais esse sonho.
Eu achava que Trey não gostava de mim — mas quando ele voltou a atenção para o outro sujeito foi como se a temperatura caísse dez graus. Percebi naquele momento que Trey só gostava de pegar no meu pé. Mas, com esse outro cara... Trey o desprezava completamente.
— Não me lembro de você estar no páreo, Slade — Trey retrucou com olhos duros. — Por que você acha que vai ficar com a posição este ano?
Slade — não ficou claro se esse era seu nome ou sobrenome — trocou olhares significativos com dois amigos.
— É só uma sensação — eles se viraram para o outro lado, e Trey desdenhou.
— Maravilha — resmungou. — Slade finalmente conseguiu juntar dinheiro para fazer uma. Quer saber sobre tatuagens? Vá falar com ele.
Minha primeira impressão me dizia que Slade não era alguém com quem eu iria gostar de conversar, mas Trey não deu mais explicações. A aula logo começou, mas enquanto eu tentava me concentrar na lição, só conseguia pensar na obsessão que Amberwood parecia ter com tatuagens. O que aquilo significava?
Quando chegou a hora da educação física, fiquei aliviada ao ver Jill no vestiário. A menina Moroi me lançou um sorriso cansado enquanto saímos para a quadra.
— Como foi o seu dia? — perguntei.
— Tudo bem — Jill respondeu. — Não foi ótimo. Não foi péssimo. Na verdade, não conheci muita gente. — Ela não falou nada, mas seu tom implicava o seguinte: “Está vendo? Eu disse que ia parecer esquisita”.
Mas, quando a aula começou, notei que o problema era que Jill passava despercebida demais. Ela evitava olhar nos olhos das pessoas, deixando-se levar pelo nervosismo, e não fazia nenhum esforço para conversar. Ninguém a deixava de lado de maneira explícita, mas com as vibrações que ela passava, ninguém se dava ao trabalho de falar com ela. Eu com certeza não era a pessoa mais sociável do mundo, mas, mesmo assim, sorria e tentava conversar com os meus colegas enquanto treinávamos jogadas de vôlei. Era o suficiente para alimentar faíscas de amizade.
Também reparei logo em outro problema. A turma tinha sido dividida em quatro times, que disputavam dois jogos simultâneos. Jill estava no outro jogo, mas de vez em quando eu dava uma olhada nela. Ela parecia arrasada e esgotada depois de dez minutos, mesmo sem participar muito do jogo. Os reflexos dela também eram ruins. Várias bolas passaram por ela, e as que percebeu foram recebidas com manobras desajeitadas. Alguns de seus colegas de time trocavam olhares de frustração por trás das costas dela.
Voltei a atenção ao meu próprio jogo, ainda preocupada com ela, bem quando o outro time lançou uma bola para uma zona que não estava bem defendida pelo meu time. Eu não tinha os reflexos que, digamos, um dampiro tinha, mas, naquela fração de segundo, o meu cérebro percebeu que eu seria capaz de bloquear a bola se me movesse com rapidez suficiente. Fazer isso era contra os meus instintos naturais, aqueles que me diziam: Não faça nada que possa machucar ou te sujar. Eu sempre tinha raciocinado com cuidado antes de tomar qualquer atitude; nunca agi por impulso. Mas não dessa vez. Eu tinha que deter aquela bola. Mergulhei na direção dela e a passei para outro colega de time, que então pôde mandá-la para o outro lado da rede e fora de perigo. A jogada me fez cair de joelhos com tudo, não foi nada graciosa e fez os meus dentes se chocarem, mas eu tinha conseguido impedir que o time adversário marcasse ponto. Os meus colegas de time comemoraram e eu fiquei surpresa ao me pegar dando risada. Eu sempre havia sido treinada só para fazer coisas que tivessem algum motivo maior e concreto. Esportes eram uma coisa meio contrária ao modo de vida dos alquimistas, porque serviam apenas para diversão. Talvez um pouco de diversão não fosse assim tão ruim de vez em quando.
— Ótimo, Melrose — a srta. Carson disse ao se aproximar. — Se você quiser adiar o seu esporte até o inverno e ficar no time de vôlei, venha falar comigo mais tarde.
— Muito bem — Micah disse e me ofereceu a mão. Sacudi a cabeça e me levantei sozinha. Fiquei desanimada ao ver um arranhão na minha perna, mas continuava sorrindo de orelha a orelha. Se alguém tivesse me dito duas semanas antes que eu ficaria assim tão feliz de rolar no chão, eu não teria acreditado. — Ela não costuma fazer muitos elogios.
Era verdade. A srta. Carson já tinha pegado no pé de Jill várias vezes, e agora parava o nosso jogo para corrigir a postura relaxada de um dos nossos colegas de time. Eu aproveitei o intervalo para observar Jill, cujo jogo prosseguia. Micah seguiu o meu olhar.
— Não é coisa de família, certo? — ele perguntou, solidário.
— Não — murmurei. Meu sorriso desapareceu. Senti uma pontada de dor no peito por me exaltar tanto com meu próprio triunfo quando ela obviamente estava tendo tanta dificuldade. Não parecia justo.
Jill ainda parecia exausta, e seu cabelo encaracolado estava empapado de suor. Pontos cor-de-rosa tinham aparecido em sua bochecha, dando a ela um ar febril, e ela parecia se esforçar ao máximo para continuar de pé. Era estranho Jill ter tanta dificuldade. Eu tinha ouvido uma breve conversa em que ela e Eddie discutiam golpes de defesa e combate, o que me dera a impressão de que Jill era bem atlética. Ela e Eddie tinham até falado em treinar mais tarde naquela mesma noite e...
— O sol — resmunguei.
— Hã? — Micah perguntou.
Eu tinha mencionado as minhas preocupações a respeito do sol a Stanton, mas ela as tinha desprezado. Ela apenas aconselhou Jill a tomar cuidado e ficar em ambientes fechados — o que Jill fez. Exceto quando as exigências da escola a forçavam a fazer uma aula ao ar livre, claro. Obrigarem Jill a praticar esportes sob o sol escaldante de Palm Springs era uma crueldade. Era impressionante o fato de ela ainda estar em pé.
Suspirei e fiz uma anotação mental para falar com os alquimistas mais tarde.
— Vamos ter que pedir uma dispensa médica para ela.
— Do que você está falando? — Micah perguntou. O jogo havia recomeçado e ele se colocou na posição ao meu lado.
— Ah. Jill. Ela... ela é sensível ao sol. É mais ou menos uma alergia.
Como se estivesse aproveitando a deixa, ouvimos a srta. Carson exclamar da outra quadra:
— Melrose Júnior! Está cega? Não viu a bola vindo bem para cima de você?
Jill balançou o corpo, mas aceitou a crítica, cabisbaixa.
Micah ficou observando as duas com a testa franzida e, assim que a srta. Carson saiu para reclamar com outra pessoa, ele saiu correndo da formação do nosso time e foi até o jogo de Jill. Apressada, tentei cobrir a posição dele e a minha. Micah foi até um sujeito ao lado de Jill, cochichou alguma coisa e apontou para mim. Um momento depois, o sujeito correu para o meu time e Micah ficou com a posição ao lado de Jill.
Conforme a aula seguia, eu percebi o que estava acontecendo. Micah era bom no vôlei — muito bom. Tanto que foi capaz de defender a posição dele e também a de Jill. Sem ver mais nenhum erro crasso, a srta. Carson voltou a atenção para outro lugar e o time de Jill ficou um pouco menos hostil em relação a ela. Quando o jogo terminou, Micah pegou o braço de Jill e a levou com rapidez até a sombra. Pelo modo como ela cambaleava, parecia que ele era a única coisa que a mantinha de pé.
Eu estava para me juntar a eles quando ouvi vozes elevadas ao meu lado.
— Vou fazer hoje à noite. O cara com quem eu falei jura que vai ficar incrível — era Slade, o sujeito que tinha discutido com Trey antes. Eu não tinha percebido no sol no meio do jogo, mas ele era o garoto com quem Micah tinha trocado de lugar. — É melhor que fique mesmo — Slade prosseguiu — pelo valor que ele está me cobrando.
Dois amigos de Slade se juntaram a ele quando tomou o rumo do vestiário.
— Quando vão ser os testes, Slade? — um dos amigos perguntou. Na aula de química, eu havia descoberto que o nome de Slade era Greg, mas aparentemente todo mundo se referia a ele pelo sobrenome, até os professores.
— Sexta-feira — Slade disse. — Eu vou matar. Tipo, destruir todo mundo completamente. Vou arrancar o couro do Juarez e fazer ele comer.
Que amor, eu pensei enquanto observava o grupinho se afastar. Minha avaliação inicial de Slade tinha sido correta. Eu me virei para Jill e Micah e vi que ele tinha pegado uma garrafa de água para ela. Eles pareciam bem por ora, por isso chamei a atenção da srta. Carson quando ela passou.
— A minha irmã passa mal no sol — eu disse. — Fica muito difícil para ela.
— Muitos alunos têm problemas com o sol no começo — a srta. Carson disse com ar de quem sabe do que está falando. — Só precisam se fortalecer. Você se virou bem.
— É, bom, nós somos bem diferentes — eu disse, seca. Ah, se ela soubesse. — Não acho que ela vá se acostumar.
— Não posso fazer nada — a srta. Carson disse. — Se eu permitir que ela não jogue, você tem ideia de quantos outros alunos de repente vão se sentir “cansados” pelo sol? A menos que ela tenha uma dispensa médica, vai ter que aguentar.
Agradeci e fui me juntar a Jill e Micah. Ao me aproximar, ouvi Micah dizer:
— Vá tomar um banho. Eu acompanho você até a próxima aula. Não quero que você saia desmaiando pelos corredores — ele fez uma pausa e refletiu. — Claro que eu vou ficar muito feliz em segurar você caso realmente desmaie.
Jill estava compreensivelmente tonta, mas bem o suficiente para agradecê-lo. Ela lhe disse que se encontraria com ele em breve e foi para o vestiário feminino comigo. Vi o sorriso estampado no rosto de Micah e um pensamento preocupante me ocorreu. Jill parecia bem estressada, por isso resolvi não dizer nada, mas a minha preocupação cresceu quando saímos para o último período. Micah acompanhou Jill, como tinha prometido, e disse a ela mais tarde, quando anoiteceu, que podia ensiná-la a jogar vôlei se ela quisesse.
Enquanto estávamos paradas na frente da sala de aula, uma menina de cabelo ruivo comprido e atitude arrogante passou por nós, seguida por um grupinho de outras garotas. Ela fez uma pausa quando viu Micah e jogou o cabelo por cima do ombro, lançando um enorme sorriso para ele.
— Oi, Micah.
Micah estava tão concentrado em Jill que mal olhou na direção da outra garota.
— Ah, oi, Laurel.
Ele saiu andando e Laurel ficou observando com uma expressão sombria enquanto ele se afastava. Ela lançou um olhar perigoso para Jill, jogou o cabelo comprido por cima do outro ombro e saiu pisando firme.
Opa, eu pensei ao vê-la andando com passos pesados pelo corredor. Será que isso vai voltar para nos assombrar? Foi um daqueles momentos em que eu desejava ter tido uma aula sobre comportamento social.
Fui para a sala da sra. Terwilliger em seguida, e passei a maior parte desse encontro inicial estabelecendo os objetivos do semestre e esboçando o que eu faria para ela. Teria que ler e traduzir muito, o que para mim era ótimo. Também parecia que metade do meu trabalho consistiria em organizar tudo para ela — e eu era excelente nisso. O tempo voou e, assim que fui liberada, corri ao encontro de Eddie. Ele estava esperando com um grupo de garotos na parada de ônibus para voltar ao alojamento.
Quando me viu, sua reação foi a de sempre:
— Está tudo bem com Jill?
— Tudo certo... bom, mais ou menos. Podemos conversar em algum lugar?
O rosto de Eddie se fechou, sem dúvida imaginando que havia uma legião de Strigoi a caminho dali para caçá-la. Nós voltamos para dentro de um dos prédios acadêmicos e encontramos cadeiras em um canto isolado que recebia a potência total do ar-condicionado.
Fiz um relatório rápido sobre Jill e suas desventuras debaixo do sol na educação física.
— Não achei que fosse ser assim tão ruim — Eddie disse, sombrio, ecoando os meus pensamentos. — Graças a Deus Micah estava lá. Você pode fazer alguma coisa?
— Posso, acho que podemos conseguir algo com os nossos “pais” ou com um médico. — Por mais que odiasse a ideia, completei: — Keith pode nos ajudar a acelerar o processo.
— Que bom — Eddie disse, firme. — Não podemos permitir que ela seja judiada. Falarei com a professora pessoalmente, se for necessário.
Escondi um sorriso.
— Bom, espero que não chegue a tanto. Mas tem mais uma coisa... nada perigoso — completei com rapidez, ao ver aquela expressão combatente passar por seu rosto mais uma vez. — É só uma coisa... — tentei não dizer as palavras que estavam pipocando na minha cabeça. Terrível. Errada. — Preocupante. Acho... acho que Micah gosta de Jill.
O rosto de Eddie ficou paralisado.
— Claro que ele gosta dela. Ela é legal. Ele é legal. Ele gosta de todo mundo.
— Não é isso que eu estou dizendo, e você sabe muito bem o que quero dizer. Ele gosta dela. Do jeito que é mais do que amizade. O que nós vamos fazer a respeito disso?
Eddie fitou o outro lado do corredor por alguns momentos antes de se voltar mais uma vez para mim.
— Por que nós precisamos fazer alguma coisa?
— Como é que você pode perguntar uma coisa dessas? — exclamei, chocada com a resposta. — Você sabe por quê. Humanos e vampiros não podem ficar juntos! É repugnante e errado — as palavras saltaram da minha boca antes que eu pudesse segurá-las. — Até um dampiro como você devia saber disso.
Ele deu um sorriso desolado.
— “Até um dampiro como eu”?
Suponho que tenha sido um pouco insultante, mas não tinha como evitar. Os alquimistas — eu incluída — nunca acreditavam que os dampiros e os Moroi se preocupavam o suficiente com problemas que eram importantes para nós. Eles até podiam reconhecer um tabu como aquele, mas anos de treinamento diziam que só nós, os humanos, realmente levávamos isso a sério. Esse era o motivo pelo qual o trabalho dos alquimistas era tão importante. Se nós não cuidássemos daquelas questões, quem cuidaria?
— Estou falando sério — disse a ele. — Isso é algo com que todos nós concordamos.
O sorriso dele sumiu.
— É mesmo.
Até Rose e Dimitri, que tinham alta tolerância para loucura, tinham ficado chocados quando conheceram os conservadores, Moroi rebeldes que se relacionavam livremente com dampiros e humanos. Era um tabu que nós três compartilhávamos, e tínhamos nos esforçado muito para tolerar o costume durante o tempo que passamos com os conservadores. Eles viviam escondidos nas montanhas Apalache e haviam fornecido um refúgio excelente para Rose quando ela estava foragida. Ignorar seus modos selvagens tinha sido um preço aceitável pela segurança que eles nos ofereciam.
— Você pode falar com ele? — pedi. — Não acho que Jill tenha qualquer sentimento forte por ele. Ela tem muito mais coisas com que se preocupar. De todo modo, deve saber que é melhor não se aproximar... mas, mesmo assim, seria melhor se você pudesse desencorajá-lo. Podemos acabar com isso antes que ela se envolva.
— O que você quer que eu diga? — Eddie perguntou. Ele parecia perdido, e achei isso engraçado, levando em conta que estava pronto para fazer qualquer tipo de exigência à srta. Carson em nome de Jill.
— Sei lá. Dê uma de irmão mais velho. Aja como se quisesse protegê-la. Diga que ela é nova demais.
Eu achava que Eddie iria concordar, mas ele mais uma vez desviou o olhar.
— Não sei se devemos dizer alguma coisa.
— O quê? Está louco? Você acha que tudo bem se...
— Não, não — ele suspirou. — Não estou defendendo isso. Mas olhe para a situação da seguinte maneira. Jill está em uma escola cheia de humanos. Não é justo se ela for proibida de conversar com todos os caras.
— Acho que Micah quer mais do que conversar.
— Bom, e por que ela não pode sair com alguém de vez em quando? Ou ir a um baile? Ela devia fazer todas as coisas normais que as meninas da idade dela fazem. A vida dela já sofreu mudanças radicais. Não devemos torná-la ainda mais difícil.
Olhei descrente para ele, tentando entender por que estava tão tranquilo em relação a isso. Claro que ele não iria encarar as mesmas consequências que eu. Se os meus superiores descobrissem que eu estava “incentivando” um namoro entre um humano e uma vampira, seria mais uma prova contra mim e a minha suposta tendência a proteger vampiros. Lá no fundo, eu sempre soube que havia a possibilidade de haver um centro de reeducação à minha espera. Ainda assim, eu sabia que o pessoal de Eddie também não gostaria da ideia. Então, qual era o problema? Uma hipótese estranha de repente me ocorreu.
— Acho que você simplesmente não quer confrontar Micah.
Eddie olhou bem para mim.
— É complicado — disse. Algo em seu rosto me dizia que eu tinha acertado o alvo. — Por que você não fala com a Jill? Ela conhece as regras. Vai entender que pode ficar com ele, mas só se não for nada sério.
— Acho que é uma má ideia — eu disse, ainda incapaz de acreditar que ele estava tendo aquela atitude. — Nós estamos criando uma área cinzenta aqui que vai acabar nos trazendo confusão. Nós podemos manter tudo preto no branco e proibir que ela saia com alguém enquanto estiver aqui.
Aquele sorriso seco voltou.
— Tudo é tão preto no branco com vocês, alquimistas, não é mesmo? Vocês acham que realmente podem impedir que ela faça qualquer coisa? Devia saber que as coisas não funcionam assim. Até a sua infância não deve ter sido tão anormal.
Com esse tapa na cara, Eddie saiu pisando firme e me deixou em choque. O que tinha acabado de acontecer? Como Eddie podia achar que tudo bem Jill sair com Micah? Logo ele, que fazia tanta questão de fazer sempre o que era certo para Jill? Havia algo estranho acontecendo ali, algo ligado a Micah, apesar de eu não conseguir entender o quê. Bom, eu me recusei a deixar o assunto para lá. Era importante demais. Eu conversaria com Jill para ter certeza de que ela sabia distinguir o certo do errado. Se fosse necessário, também iria conversar com Micah — apesar de ainda achar melhor que a conversa partisse de Eddie.
E, ao lembrar que eu tinha que ir atrás de uma dispensa médica, pensei em mais uma fonte que tinha muita influência sobre Jill à qual eu poderia apelar.
Adrian.
Eu teria que fazer mais uma visita no futuro.

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