27 de setembro de 2017

Capítulo 7

— ADRIAN? — EU PERGUNTEI, SURPRESA. — O que ele tem a ver com tudo isso?
Jill simplesmente sacudiu a cabeça e olhou para mim com ar de súplica.
— Por favor. Só me leve até ele.
— Mas nós vamos voltar lá daqui a dois dias para o seu fornecimento.
— Eu sei — Jill respondeu. — Mas preciso falar com ele agora. Ele é o único que vai entender.
Achei difícil de acreditar naquilo.
— Está dizendo que eu não iria entender? Ou que Eddie também não?
Ela gemeu.
— Não. Você não pode contar para Eddie. Ele vai ficar louco da vida.
Tentei não franzir a testa enquanto digeria tudo aquilo. Por que Jill iria precisar falar com Adrian depois daquele percalço na escola? Adrian não poderia fazer nada para ajudar que eu não pudesse. Como alquimista, eu estava na melhor posição para prestar uma queixa. Será que Jill só queria apoio moral? Eu me lembrei de como Jill tinha abraçado Adrian ao se despedir, e de repente fiquei imaginando se ela estaria a fim dele. Afinal, se Jill precisava se sentir protegida por alguém, Eddie certamente seria uma fonte melhor a que recorrer. Seria mesmo? Eddie provavelmente começaria a jogar carteiras para todos os lados pelo ultraje sofrido por Jill. Não dizer isso para ele talvez não fosse má ideia.
— Certo — eu finalmente disse. — Vamos.
Eu peguei permissão para que saíssemos do campus, coisa que exigiu certa negociação. A sra. Weathers foi rápida ao afirmar que Jill tinha sido mandada para o dormitório pelo resto do dia. Eu prontamente observei que as aulas já tinham quase acabado, e isso significava que o dia estava quase terminando. A sra. Weathers não pôde negar a lógica, mas nos fez esperar os dez minutos até o sinal tocar. Jill ficou lá sentada, batendo o pé na cadeira, nervosa.
Fizemos o trajeto de meia hora de carro até a propriedade de Clarence nas montanhas sem conversar muito. Na verdade, eu não sabia que tipo de papo puxar. “Como foi o seu primeiro dia de aula?” não era exatamente um tema apropriado. E, de todo modo, cada vez que eu pensava no assunto só ficava mais irritada. Não dava para acreditar que qualquer professora teria a audácia de acusar Jill de beber e estar de ressaca. Realmente, não havia como comprovar aquilo e, além do mais, dava para perceber que era algo impossível depois de passar cinco minutos com ela.
Uma humana de meia-idade nos recebeu à porta. O nome dela era Dorothy, e ela era a empregada e fornecedora de Clarence. Dorothy era bem agradável, apesar de um pouco distraída, e usava um vestido cinza de tecido encorpado, com gola alta para esconder as marcas de mordida no pescoço. Eu retribuí o sorriso dela e mantive minha pose profissional, mas não pude deixar de estremecer ao pensar o que ela era. Como é que alguém podia fazer uma coisa dessas? Como é que alguém era capaz de oferecer o próprio sangue de bom grado desse jeito? Meu estômago se revirou e eu percebi que mantinha certa distância dela. Não queria nem roçar meu braço nela sem querer quando passasse.
Dorothy nos acompanhou até a sala onde todos tínhamos estado no dia anterior. Não havia sinal de Clarence, mas Adrian estava deitado em um sofá verde de tecido felpudo, assistindo tv em um aparelho que tinha ficado habilmente escondido dentro de um armário de madeira da última vez. Quando ele nos viu, desligou a tv com o controle remoto e se sentou ereto. Dorothy pediu licença e fechou as portas envidraçadas atrás de si.
— Ora, mas que bela surpresa — ele disse, e nos mediu de cima a baixo. Jill tinha vestido suas roupas normais durante o tempo que ficou isolada no quarto, mas eu ainda estava usando a blusa e a saia de Amberwood. — Sage, vocês não tinham que usar uniforme? Essa roupa parece o que você sempre usa.
— Que engraçado — eu disse, e me segurei para não revirar os olhos.
Adrian fez uma reverência irônica para mim.
— Cuidado. Você quase sorriu. — Ele estendeu a mão para pegar uma garrafa de conhaque em uma mesa próxima. Havia copinhos arranjados ao redor dela, e ele se serviu de uma quantidade generosa. — Querem um pouco?
— Estamos no meio da tarde — eu disse, incrédula. Não que a hora do dia fizesse alguma diferença.
— Estou com uma dor de cabeça terrível — ele declarou, e fez um gesto de brindar. — Isso aqui é perfeito para acabar com ela.
— Adrian, preciso conversar com você — Jill disse toda séria.
Ele olhou para ela e o sorrisinho de desdém desapareceu de seu rosto.
— O que foi, Belezinha?
Jill olhou para mim, pouco à vontade.
— Será que você se importa de...
Entendi a dica e tentei não demonstrar como estava irritada com tantos segredos.
— Claro, eu vou... só vou voltar lá para fora. — Não gostava da ideia de ser exilada, mas não tinha como ficar andando pelos corredores daquela casa velha. Eu tinha que encarar o calor.
Eu não tinha avançado muito pelo corredor quando alguém surgiu na minha frente. Soltei um gritinho e quase dei um salto olímpico. Um piscar de olhos depois, percebi que era Lee — não que isso fosse muito tranquilizador. Por mais que eu me esforçasse para parecer simpática com aquele grupo, antigas defesas dentro de mim se agitaram por estar sozinha com um vampiro novo. Deparar-me com ele de repente também não ajudou em nada, porque o meu cérebro processou aquilo como um ataque. Lee só ficou lá parado, olhando para mim. Pela expressão no rosto dele, estava tão surpreso de me ver na casa dele quanto eu — mas talvez não tenha se assustado tanto.
— Sydney? — Lee perguntou. — O que está fazendo aqui?
Em poucos momentos, meu medo se transformou em vergonha, como se tivesse sido pega bisbilhotando.
— Ah... vim aqui com Jill. Ela teve um dia meio difícil e precisava falar com Adrian. Quis deixar os dois à vontade e estava só indo... hum, lá para fora.
A confusão de Lee se transformou em um sorriso.
— Não precisa fazer isso. Não há necessidade de se isolar. Venha, eu ia fazer um lanche na cozinha. — Meu rosto deve ter mostrado um pavor abjeto, porque ele deu risada. — Não do tipo humano.
Corei e fui atrás dele.
— Desculpe — eu disse. — É instinto.
— Sem problema. Vocês alquimistas se assustam fácil, sabe?
— É — dei uma risada pouco à vontade. — Eu sei.
— Sempre quis conhecer um alquimista, mas vocês com toda a certeza não são o que eu esperava. — Ele abriu a porta para uma cozinha espaçosa. O resto da casa podia ser antiga e escura, mas ali dentro tudo era brilhante e moderno. — Se isso a ajuda a se sentir melhor, você não é tão ruim quanto Keith. Ele passou aqui hoje e estava tão nervoso que ficava literalmente olhando por cima do ombro — Lee fez uma pausa, pensativo. — Talvez tenha sido porque Adrian ficava dando risada feito um cientista louco enquanto assistia a uns filmes velhos em preto e branco.
Eu parei de maneira abrupta.
— Keith esteve aqui... hoje? Para quê?
— Você teria que perguntar ao meu pai. Foi com ele que Keith mais conversou.
Lee abriu a geladeira e pegou uma lata de Coca.
— Quer uma?
— Eu... hum, não. Açúcar demais.
Ele pegou outra lata.
— Zero?
Hesitei apenas por um momento antes de aceitar.
— Claro. Obrigada.
Eu não tinha intenção de comer nem beber nada naquela casa, mas a lata parecia bem segura. Estava selada e parecia ter saído diretamente de um supermercado humano, não de algum caldeirão vampiresco. Abri a lata e dei um gole enquanto a minha mente girava.
— Você não faz ideia do que eles conversaram?
— Hã? — Lee tinha adicionado uma maçã ao seu cardápio e sentado no balcão. — Ah, Keith? Não. Mas, se eu fosse adivinhar, diria que foi sobre mim. Como se ele estivesse tentando entender se eu ia ficar aqui ou não.
Ele deu uma mordida gigantesca na maçã e eu fiquei imaginando se ter caninos tornava aquilo mais fácil.
— Ele só gosta de esclarecer as coisas — eu disse em tom neutro. Por mais que não gostasse de Keith, continuava querendo ter uma equipe humana unida. Mas eu não fui totalmente inexata. Tinha quase certeza de que Keith se sentira prejudicado ao saber que havia um Moroi extra no “território dele”, e agora queria ter certeza de que estava a par de tudo. Em parte isso representava o bom trabalho dos alquimistas, claro, mas possivelmente era mais devido ao orgulho ferido de Keith.
Lee parecia não se incomodar muito com aquilo e continuou mastigando sua maçã, apesar de eu ser capaz de sentir seus olhos me examinando.
— Você disse que Jill teve um dia difícil? Está tudo bem?
— Está, acho que sim. Quer dizer, não sei. Nem sei bem como as coisas se complicaram. Ela queria falar com Adrian por algum motivo. Talvez ele possa ajudar.
— Ele é um Moroi — Lee disse com pragmatismo. — Talvez seja algo que só ele possa entender... algo que você e Eddie não podem. Sem querer ofender.
— Não me ofendi — eu disse. Era natural que Jill e eu tivéssemos diferenças marcantes: eu era humana, e ela era vampira, afinal de contas. Não conseguiríamos ser ainda mais diferentes nem se tentássemos e, de fato, eu meio que preferia que fosse assim. — Você frequenta a faculdade... em Los Angeles? Uma escola humana? — Esse não era um comportamento assim tão estranho para um Moroi. Às vezes eles se agrupavam em suas próprias comunidades; outras vezes tentavam se misturar à multidão em grandes cidades humanas.
Lee assentiu.
— Sim. E para mim também foi difícil no começo. Quer dizer, mesmo sem que os outros obviamente saibam que você é um vampiro... bom, há uma sensação de estranheza que sempre está presente. Eu acabei me acostumando... mas sei o que ela está passando.
— Coitada da Jill — eu disse, e de repente percebi que estava encarando a situação toda da maneira errada. A maior parte da minha energia tinha se fixado no fato de a escola achar que a doença de Jill era ressaca. Em vez disso, eu devia ter me concentrado em saber por que ela estava passando mal, em primeiro lugar. A ansiedade em relação àquela nova mudança de vida devia estar produzindo seus efeitos. Eu tinha lutado contra o meu próprio mal-estar, tentando entender as amizades e os indícios sociais, mas pelo menos eu lidava com minha própria raça. — Eu realmente não parei para pensar sobre o que ela estava passando.
— Quer que eu converse com ela? — Lee perguntou. Ele colocou o talo da maçã de lado. — Não que eu ache que tenho muita sabedoria para compartilhar.
— Qualquer coisa pode ajudar — eu disse com sinceridade.
Um silêncio caiu entre nós e eu comecei a me sentir desconfortável. Lee parecia muito simpático, mas os meus antigos medos estavam arraigados demais. Parte de mim sentia que ele não queria tanto me conhecer, mas sim me estudar. Os alquimistas obviamente eram novidade para ele.
— Será que você se incomoda se eu perguntar... a tatuagem. Ela lhe dá poderes especiais, certo?
Era quase uma repetição da conversa na escola, só que Lee realmente conhecia a verdade por trás dela.
— Não são exatamente poderes. Há uma coerção nela que nos impede de falar a respeito do que nós fazemos. E o meu sistema imunológico fica fortalecido. Mas, de resto, não tenho nada de especial.
— Fascinante — ele murmurou. Desviei o olhar, sem jeito, e tentei colocar o cabelo em cima do rosto como quem não quer nada.
Foi nesse momento que Adrian enfiou a cabeça pela fresta da porta da cozinha. Todo seu bom humor anterior tinha desaparecido.
— Ah, você está aqui. Podemos conversar em particular um segundo?
A pergunta era dirigida a mim, e Lee pulou de cima do balcão.
— Captei a deixa. Jill está no escritório? — Adrian assentiu e Lee deu uma olhada com ar questionador para mim. — Você quer que eu...?
Concordei.
— Seria ótimo. Obrigada.
Lee saiu e Adrian olhou para mim com curiosidade.
— O que foi isso?
— Ah, nós achamos que Lee talvez possa ajudar Jill com os problemas dela — eu expliquei. — Porque ele se identifica.
— Problemas?
— É, sabe como é. Se acostumar a conviver entre humanos.
— Ah — Adrian disse. Ele pegou um maço de cigarros e, para a minha surpresa completa, acendeu bem ali na minha frente. — Isso. É, acho que vai ser bom. Mas não era sobre isso que eu queria falar com você. Preciso que você me tire daqui.
Eu me sobressaltei. Ele não queria falar sobre Jill?
— De Palm Springs? — perguntei.
— Não! Deste lugar — ele fez um gesto apontando o lugar à sua volta. — Parece que estou morando em um asilo! Clarence está tirando uma soneca agora, e ele janta às cinco. É a maior chatice.
— Você só está aqui há dois dias.
— E isso já foi mais do que o suficiente. A única coisa que me mantém vivo é o belo estoque de álcool que tenho à mão. Mas, na velocidade em que eu estou indo, vai acabar tudo até o fim de semana. Jesus Cristo, estou subindo pelas paredes — os olhos dele caíram sobre a cruz no meu pescoço. — Ah. Desculpe. Sem ofensa a Jesus.
Eu ainda estava chocada demais com o assunto inesperado para me sentir ofendida.
— Mas e Lee? Ele também está aqui, não está?
— Está — Adrian concordou. — Às vezes. Mas ele fica ocupado com... saco, não sei com o quê. Coisas da faculdade. Ele vai voltar para Los Angeles amanhã, e vai ser mais uma noite de tédio para mim. Além do mais... — ele olhou ao redor em atitude conspiratória. — Lee é bem simpático, mas... bom, ele não gosta muito de se divertir. Não como eu me divirto.
— Isso deve ser algo positivo — observei.
— Não me venha com sermões morais, Sage. E, veja bem, como eu disse, até que gosto dele, mas ele não passa tempo suficiente por aqui. Quando está presente, fica na dele. Está sempre se olhando no espelho, até mais do que eu. Ouvi quando estava todo preocupado com cabelos brancos outro dia.
Eu não ligava para as excentricidades de Lee.
— Mas para onde você quer ir? Não vai querer... — uma ideia muito desagradável me ocorreu. — Você não vai querer se matricular em Amberwood, vai?
— O que você acha? Vou brincar de Anjos da lei com vocês? Não, obrigado.
— Anjos do quê?
— Esquece. Olhe — ele apagou o cigarro, no balcão, gesto que eu achei meio ridículo, porque ele mal tinha fumado. Por que se incomodar com um hábito tão imundo se você nem fosse aproveitar? — Preciso ter uma casa só minha, certo? Vocês fazem as coisas acontecerem. Será que você não consegue me arrumar um flat legal como o do Keith no centro para eu poder me divertir com todos os ricos que passam férias aqui? Beber sozinho é triste e patético. Eu preciso de pessoas. Mesmo que sejam pessoas humanas.
— Não — respondi. — Não tenho autorização para fazer isso. Você não é... bom, você não é responsabilidade minha, na verdade. Nós só estamos tomando conta de Jill... e de Eddie, já que ele é o guarda-costas dela.
Adrian desdenhou.
— E um carro? Você consegue isso?
Sacudi a cabeça.
— E o seu carro? E se eu deixar vocês na escola e pegar emprestado por um tempo?
— Não — eu disse logo. Essa foi provavelmente a sugestão mais maluca que ele podia ter feito. O Pingado era o meu bebê. Claro que eu não ia emprestar para um sujeito que bebia tanto, principalmente para alguém que por acaso também era vampiro. Se já existiu um vampiro que parecesse especialmente irresponsável, era Adrian Ivashkov.
— Você está acabando comigo, Sage!
— Não estou fazendo nada.
— Exatamente.
— Olhe — eu falei, cada vez mais irritada. — Eu já disse. Você não é minha responsabilidade. Fale com Abe se quiser mudar as coisas. Não é por causa dele que você está aqui?
O aborrecimento de Adrian e a pena de si mesmo se transformaram em cautela.
— O que você sabe sobre isso?
Certo. Ele não sabia que eu tinha ouvido a conversa deles.
— Quero dizer, foi ele que trouxe vocês para cá e fez o acordo com Clarence, não é? — fiquei torcendo para que fosse convincente o bastante, e que me rendesse um pouco de informação a respeito do grande plano de Abe.
— É — Adrian disse depois de vários segundos de exame intenso. — Mas Abe quer que eu fique nesta tumba. Se eu tivesse uma casa só minha, não poderíamos contar para ele.
Desdenhei.
— Então eu com toda a certeza não vou ajudar, mesmo que pudesse. Nem por todo dinheiro do mundo eu iria contrariar Abe.
Percebi que Adrian estava se preparando para outra discussão e resolvi me retirar. Dei as costas para ele e suas novas reclamações, saí da cozinha e voltei para a sala. Lá encontrei Jill e Lee conversando, e seu rosto estampava o primeiro sorriso sincero que eu tinha visto em um bom tempo. Ela deu risada de algum comentário que ele fez e então ergueu os olhos quando eu entrei.
— Oi, Sydney — ela disse.
— Oi — respondi. — Está pronta para ir embora?
— Já está na hora? — ela perguntou. Ela e Lee pareciam decepcionados, mas ela respondeu sua própria questão. — Acho que está. Você provavelmente tem lição de casa, e Eddie já deve estar preocupado.
Adrian entrou na sala atrás de mim, fazendo bico. Jill deu uma olhada nele e, por um momento, seu olhar se voltou para dentro, como se sua mente tivesse ido parar em outro lugar. Então ela se virou mais uma vez para mim.
— É — ela disse. — Nós precisamos ir andando. Espero que a gente possa conversar depois, Lee.
— Eu também — ele disse e se levantou. — Estarei aqui de vez em quando.
Jill deu um abraço de despedida em Adrian, claramente relutando por deixá-lo para trás também. Com Lee, parecia mais que ela estava triste por abandonar algo que tinha acabado de começar a ficar interessante. Com Adrian, era mais como se ela não soubesse como conseguiria suportar ficar longe dele. O próximo fornecimento dela estava marcado para dali a dois dias, e Adrian a incentivou, dizendo que ela tinha força suficiente para sobreviver ao próximo dia de aula. Apesar de ter ficado me irritando, fiquei comovida com a sua compaixão pela jovem garota. Qualquer pessoa que fosse legal com Jill não podia ser assim tão ruim. Ele estava começando a me surpreender.
— Você parece melhor — disse a ela enquanto seguíamos para Vista Azul.
— Conversar com Adrian... com os dois... ajudou.
— Você acha que vai estar bem amanhã?
— Vou, sim — Jill suspirou e se recostou no assento. — Foi só nervosismo. E não ter tomado muito café da manhã.
— Jill... — mordi o lábio, hesitante em seguir em frente. Confronto não era o meu forte, principalmente em relação a assuntos pessoais constrangedores. — Você e Adrian...
Jill me lançou um olhar de cautela.
— O que tem nós dois?
— Tem alguma coisa... quer dizer, vocês dois...?
— Não! — de canto de olho, vi quando Jill ficou em um tom de rosa forte. Era o máximo de cor que eu já tinha visto no rosto de um vampiro. — Por que está dizendo uma coisa dessas?
— Bom. Você estava passando mal hoje de manhã. E depois fez muita questão de falar com Adrian. Você também sempre fica triste quando se despede dele...
Jill ficou boquiaberta.
— Você acha que eu estou grávida?
— Não exatamente — eu disse ao perceber que aquela era uma resposta meio sem sentido. — Quer dizer, talvez. Não sei. Só estou pensando em todas as possibilidades...
— Bom, não leve essa em conta! Não existe nada entre nós. Nada. Nós somos amigos. Ele nunca se interessaria por mim — ela disse isso com certeza desoladora, e talvez até um pouco melancólica.
— Isso não é verdade — eu disse, esforçando-me para desfazer o dano. — Quer dizer, você é mais nova, é verdade, mas é tão fofa...
Nossa, mas que conversa horrível. Eu só estava falando bobagem.
— Não faça isso — Jill falou. — Não me diga que eu sou legal e bonita e tenho muito a oferecer. Ou sei lá o quê. Nada disso importa. Não se ele continua a fim dela.
— Ela? Ah. Rose.
Eu tinha quase esquecido. A primeira vez que vi Adrian pessoalmente foi na minha visita à corte, mas na verdade já o tinha visto antes uma vez, nas imagens de uma câmera de segurança em um cassino, com Rose. Os dois tinham namorado, mas eu não sabia bem se a relação tinha sido séria ou não. Quando eu ajudei Rose e Dimitri a fugir, a química entre os dois era incrível, apesar de ambos negarem o fato. Até eu teria sido capaz de perceber a um quilômetro de distância, e eu não sabia quase nada sobre relacionamentos. Tendo em vista que Rose e Dimitri formavam um casal oficial agora, eu supunha que as coisas com Adrian não tinham acabado bem.
— É. Rose — Jill suspirou e ficou fitando o nada à sua frente. — A única coisa que ele vê quando fecha os olhos é ela. Olhos escuros brilhantes e um corpo cheio de fogo e energia. Por mais que ele tente esquecer, por mais que ele beba... ela sempre está lá. Ele não consegue fugir dela.
Pingava um amargor surpreendente da voz de Jill. Eu poderia ter atribuído esse amargor ao ciúme, mas ela falava como se também tivesse sido pessoalmente prejudicada por Rose.
— Jill? Está tudo bem com você?
— Hã? Ah — Jill sacudiu a cabeça, como se tentasse se livrar das teias de aranha de um sonho. — Está tudo bem, desculpe. Foi um dia estranho. Estou meio fora de mim. Você não tinha dito que nós poderíamos comprar algumas coisas?
Uma placa para a próxima saída anunciava um shopping.
Entrei na onda da mudança de assunto, contente por me afastar de questões pessoais, mas continuava bem confusa.
— Hum, é. Precisamos de protetor solar. E quem sabe podemos comprar uma tv pequena para o quarto.
— Seria ótimo — Jill disse.
Deixei as coisas assim e segui pela próxima saída. Nenhuma de nós voltou a mencionar Adrian pelo resto da noite.

3 comentários:

  1. Desde o que aconteceu no final, eu não gosto mais tanto assim da Rose, ela acabou prejudicando muitas pessoas, eu sei que foi por uma boa razão, mas mesmo assim, não apaga o que ela acabou fazendo para as outras pessoas...

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  2. Gente estou pensando que no ataque q teve contra a Jill, ela morreu e o Adrian a trouxe de volta a vida. E por isso a Jill sabe o q o Adrian vê. Penso isso por causa dessa parte ''A única coisa que ele vê quando fecha os olhos é ela. Olhos escuros brilhantes e um corpo cheio de fogo e energia. Por mais que ele tente esquecer, por mais que ele beba... ela sempre está lá. é o q eu penso.

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Boa leitura :)