27 de setembro de 2017

Capítulo 6

PARA SER JUSTA, O DIA COMEÇOU ÓTIMO.
O sol entrava pelas janelas quando acordamos, e eu já podia sentir o calor, apesar de ser bem cedo pela manhã. Escolhi a combinação mais leve entre as opções do uniforme: uma saia cinza e uma blusa branca de manga curta. Joias simples eram permitidas, por isso continuei com a cruz de ouro. O meu cabelo estava em um daqueles dias difíceis — que pareciam ser mais frequentes naquele novo clima. Minha vontade era prendê-lo em um rabo de cavalo, como Jill fez com o dela, mas ele tinha camadas demais para que eu conseguisse fazer direito. Fiquei olhando para o jeito como os fios batiam nos meus ombros em comprimentos diferentes e pensei se não estava na hora de deixar crescer.
Depois de um café da manhã que nenhuma de nós realmente comeu, pegamos o ônibus até o campus central, que de repente ficou todo lotado de gente. Apenas cerca de um terço dos alunos ficava na escola em regime de internato. O resto morava nas proximidades, e agora todos tinham chegado. Jill mal falou durante todo o trajeto e parecia passar mal mais uma vez. Era difícil dizer, mas a achei mais pálida do que o normal. Seus olhos estavam vermelhos de novo, pesados e com olheiras escuras. Eu tinha acordado uma vez no meio da noite e a vi dormindo profundamente, por isso não sabia muito bem qual era o problema. Aquelas olheiras escuras, aliás, eram a primeira falha que eu via na pele de um Moroi — a pele deles era sempre perfeita, de porcelana. Não era para menos que podia dormir até mais tarde. Não precisava se preocupar com o corretivo e o pó que eu usava.
À medida que a manhã foi avançando, Jill não parava de morder o lábio e olhar ao redor, preocupada. Talvez só estivesse nervosa por mergulhar em um mundo todo povoado por humanos. Ela não parecia nem um pouco preocupada com a logística de chegar às salas certas e fazer as lições. Isso era o que continuava me assustando um pouco. Apenas vá de uma aula para a outra, disse a mim mesma. É a única coisa que você precisa fazer.
A minha primeira aula era História Antiga. Eddie também estava nela, e ele praticamente me atacou quando me viu.
— Está tudo bem com ela? Esteve com ela?
— Bom, nós dividimos o mesmo quarto, então, estive — nos sentamos em carteiras vizinhas. Sorri para Eddie. — Relaxe. Está tudo bem com ela. Parecia nervosa, mas não dá para culpá-la por isso.
Ele assentiu, mas ainda parecia inseguro. Ele concentrou toda a atenção na frente da sala quando a professora entrou, mas estava inquieto, ali sentado, como se mal pudesse se segurar para não levantar em um salto e ir ver se Jill estava bem.
— Bem-vindos, bem-vindos — nossa professora era uma mulher de quarenta e poucos anos, com cabelo eriçado preto, rajado de fios brancos, e energia nervosa suficiente para rivalizar com Eddie. E se a xícara de café gigante dela servisse como pista, não era difícil descobrir por quê. Fiquei com um pouco de inveja e desejei que todos nós tivéssemos permissão para trazer bebidas à sala de aula, principalmente porque o refeitório do alojamento não servia café. Eu não sabia como iria sobreviver aos meses seguintes sem cafeína. O guarda-roupa dela dava preferência ao padrão xadrez de losangos. — Eu sou a sra. Terwilliger, sua ilustre guia à jornada fantástica que é a história antiga — ela falava em um tom dramático e grandioso que fez alguns dos alunos darem risadinhas. Ela fez um gesto indicando um rapaz que estava sentado atrás dela, perto da mesa grande. Ele estava olhando para a classe com expressão de tédio, mas quando ela se virou ele se animou todo. — E este é o meu assistente, Trey, que, acredito, alguns de vocês devem conhecer. Trey é o meu monitor estudantil para este período, então, o que ele vai fazer é ficar cabisbaixo pelos cantos preenchendo papelada. Mas vocês devem ser legais com ele, porque é bem provável que ele seja o responsável por passar as suas notas para o meu computador.
Trey deu um leve aceno e sorriu para alguns de seus amigos. Ele tinha a pele bem bronzeada e cabelo preto cujo comprimento flertava com as normas de aparência da escola. O uniforme bem passado de Amberwood dava a ele a impressão de ser muito competente, mas havia um brilho maroto em seus olhos escuros que me fez pensar que, na verdade, ele não levava muito a sério esse negócio de ser monitor.
— Bom — a sra. Terwilliger continuou. — A história é importante porque nos ensina a respeito do passado. E, ao aprender sobre o passado, nós entendemos o presente, para podermos tomar decisões embasadas a respeito do futuro.
Ela fez uma pausa dramática para permitir que as palavras fossem absorvidas.
Quando se convenceu de que todos estavam maravilhados, foi até o seu laptop, que estava conectado a um projetor. Ela apertou algumas teclas e a imagem de uma construção com pilastras brancas apareceu na tela na frente da sala.
— E então? Alguém sabe me dizer o que é isto?
— Um templo? — alguém arriscou.
— Muito bem, senhor...?
— Robinson — o garoto informou.
A sra. Terwilliger pegou uma prancheta e examinou uma lista.
— Ah, aqui está você. Robinson. Stephanie.
— Stephan — o garoto corrigiu e ficou todo vermelho enquanto alguns amigos dele davam risada.
A sra. Terwilliger ajeitou os óculos no nariz e apertou os olhos.
— É mesmo. Ainda bem. Estava aqui pensando como a sua vida devia ser difícil com um nome desses. Peço desculpas. Quebrei meus óculos em um acidente maluco jogando croquet no fim de semana passado, por isso fui obrigada a trazer os velhos hoje. Então, Stephan-não-Stephanie, é isso mesmo. É um templo. Pode ser mais específico?
Stephan sacudiu a cabeça.
— Alguém pode dar alguma ideia?
Como apenas o silêncio respondeu à sra. Terwilliger, respirei fundo e ergui a mão. Estava na hora de ver como era ser uma aluna de verdade. Ela fez um gesto com a cabeça na minha direção.
— É o Parthenon.
— É mesmo — ela falou. — E qual é o seu nome?
— Sydney.
— Sydney... — ela conferiu a prancheta e ergueu os olhos, surpresa. — Sydney Melbourne? Nossa. Você não fala como australiana.
— Hum, é Sydney Melrose, senhora — corrigi.
A sra. Terwilliger deu uma risadinha e entregou a prancheta para Trey, que parecia achar o meu nome a coisa mais engraçada do mundo.
— Assuma, sr. Juarez. Seus olhos juvenis são melhores do que os meus. Se eu continuar assim, vou ficar transformando os meninos em meninas e mocinhas perfeitamente adoráveis em descendentes de criminosos. Então — a sra. Terwilliger voltou a se concentrar em mim —, o Parthenon. Sabe alguma coisa a respeito dele?
Os outros me observavam, a maior parte com curiosidade simpática, mas mesmo assim senti a pressão de estar no centro das atenções. Concentrei-me apenas na sra. Terwilliger e disse:
— Faz parte da Acrópole, senhora. Em Atenas. Foi construído no século V a.C.
— Não precisa me chamar de “senhora” — a sra. Terwilliger disse. — Mas é agradável receber um pouco de respeito, para variar. E a resposta foi brilhante.
Ela deu uma olhada no resto da sala.
— Agora, digam-me o seguinte: por que diabos devemos nos preocupar com Atenas ou com qualquer coisa que aconteceu há mais de mil e quinhentos anos? Que relevância isso pode ter para nós hoje?
Mais silêncio e olhos agitados. Quando aquele silêncio insuportável se arrastou por um momento que pareceu durar horas, comecei a levantar a mão de novo. A sra. Terwilliger não viu e olhou de novo para Trey, que estava com os pés apoiados na mesa da professora. O garoto no mesmo instante baixou as pernas e aprumou as costas.
— Sr. Juarez — a sra. Terwilliger declarou. — Está na hora de ganhar os seus créditos. Você fez esta matéria no ano passado. Pode dizer a eles por que os eventos de Atenas antiga são relevantes para nós hoje? Se não for capaz, vou ter que voltar a chamar a srta. Melbourne. Parece que ela sabe a resposta, e imagine só como isso vai ser uma vergonha para você.
Os olhos de Trey passaram para mim e depois retornaram à professora.
— O sobrenome dela é Melrose, não Melbourne. E a democracia foi fundada em Atenas no século VI. Muitos dos procedimentos que foram estabelecidos lá ainda são seguidos pelo nosso governo hoje.
A sra. Terwilliger apertou o peito com a mão em um gesto dramático.
— Você estava prestando atenção no ano passado! Bom, quase. A data não está correta — o olhar dela recaiu em mim. — Aposto que você sabe a data em que a democracia foi criada em Atenas.
— Século V — eu respondi imediatamente.
Isso me valeu um sorriso da professora e uma olhada feia de Trey. O resto da classe fez mais ou menos a mesma coisa. A sra. Terwilliger prosseguiu com seu estilo espalhafatoso e destacou diversos períodos e locais que iríamos estudar com mais detalhes. Descobri que eu era capaz de responder a qualquer pergunta que ela fazia. Alguma parte em mim dizia para eu me conter, mas eu não fui capaz de me segurar. Se ninguém sabia a resposta, eu me sentia forçada a fornecê-la. E cada vez que eu fazia isso, a sra. Terwilliger dizia: “Trey, você sabia disso?”. Eu senti um calafrio. Realmente não queria fazer inimigos logo no primeiro dia. Os outros alunos me observavam com curiosidade enquanto eu falava, coisa que me deixou um pouco envergonhada. Também vi alguns deles se entreolharem cada vez que eu falava, como se soubessem de algum segredo que eu não sabia. Isso me preocupou mais do que o fato de irritar Trey. Será que parecia que eu estava me exibindo? Eu não entendia nada das políticas sociais dali para saber o que era normal e o que não era. Aquela era uma escola em que existia concorrência acadêmica. Certamente não devia ser algo ruim ter bons conhecimentos, não é?
A sra. Terwilliger nos deu como tarefa ler os dois primeiros capítulos do livro didático. Os outros reclamaram, mas eu fiquei animada. Eu adorava história, principalmente história da arte e arquitetura. Minha educação em casa tinha sido rígida e abrangente, mas essa matéria específica não era algo que o meu pai considerava muito importante para nós. Eu tive que estudar sozinha, então era ao mesmo tempo surpreendente e magnífico pensar que agora eu tinha uma aula cujo único propósito era aprender aquilo, e, além disso, saber que o meu conhecimento seria valorizado — ainda que só pela professora.
Eu me separei de Eddie quando a aula terminou e fui para a aula de química aplicada. Enquanto esperava a aula começar, Trey se acomodou em uma carteira ao meu lado.
— Então, srta. Melbourne — ele disse, imitando a voz da sra. Terwilliger. — Quando vai começar a dar suas próprias aulas de história?
Eu achei chato a sra. Terwilliger ter implicado com ele, mas não gostei nada daquele tom.
— Agora você veio mesmo para aprender? Ou vai ficar aí sem fazer nada, fingindo que está ajudando a professora de novo?
Isso fez um sorriso se abrir em seu rosto.
— Ah, eu, infelizmente, sou aluno nesta aula aqui. E fui o melhor da classe na aula da sra. T no ano passado. Se você for tão boa em química quanto é em história, quero te pegar para ser minha parceira de laboratório. Assim, vou poder tirar férias o semestre todo.
A química era uma parte fundamental das funções de um alquimista, e eu duvidava que houvesse algo naquela aula que eu ainda não soubesse. Os alquimistas tinham surgido na Idade Média como “cientistas mágicos”, que tentavam transformar chumbo em ouro. A partir dessas primeiras experiências, eles descobriram as propriedades especiais do sangue dos vampiros, e como ele reagia com outras substâncias — o que acabou levando à cruzada para manter vampiros e humanos separados. Essa bagagem científica inicial, assim como nosso trabalho atual com sangue de vampiro, tornou a química uma das matérias principais da minha educação na infância. Ganhei o meu primeiro conjunto de química aos seis anos. Enquanto outras crianças treinavam o alfabeto, meu pai me fazia perguntas sobre ácidos e bases.
Incapaz de confessar tudo isso a Trey, desviei os olhos e tirei uma mecha de cabelo do rosto em um gesto casual.
— Não sou ruim.
O olhar dele passou para a minha bochecha e uma expressão de compreensão tomou conta dele.
— Ah. Então é isso.
— O que é o quê? — perguntei.
Ele apontou para o meu rosto.
— A sua tatuagem. É isso que ela faz, hein?
Ao mexer no cabelo, havia revelado o meu lírio dourado.
— O que você quer dizer? — perguntei.
— Não precisa se fazer de desentendida comigo — ele disse, e revirou os olhos escuros. — Já entendi. Quer dizer, para mim parece trapaça, mas acho que nem todo mundo se importa com a honra. Mas é muita coragem ter uma no rosto. É contra o código de conduta da escola, sabe como é... não que isso impeça alguém.
Eu me mexi e deixei o cabelo cair de novo onde estava.
— Eu sei. Ia disfarçar com maquiagem, mas esqueci. Mas como assim, trapaça?
Ele só sacudiu a cabeça mostrando claramente que não queria mais conversar. Fiquei lá me sentindo impotente, imaginando o que tinha feito de errado. Logo a minha confusão foi substituída por desalento quando o nosso instrutor fez uma apresentação do curso e de sua organização. Eu tinha um conjunto de química no quarto mais vasto do que todo o material disponibilizado por Amberwood. Paciência. No final das contas, achei que uma revisão elementar não iria fazer mal.
As minhas outras aulas se passaram de maneira semelhante. Eu já estava mais adiantada que todas as minhas aulas e vi que era capaz de responder a todas as perguntas.
Isso me fez ficar bem com os professores, mas não sabia avaliar a reação dos meus colegas. Continuei vendo muitas cabeças balançando de maneira tristonha e expressões intrigadas — mas apenas Trey de fato me condenava. Não sabia se devia me conter ou não.
Cruzei com Kristin e Julia algumas vezes, e elas me lembraram de encontrá-las para o almoço. Foi o que fiz, e as encontrei em uma mesa de canto no refeitório do campus leste. Elas acenaram para que eu me aproximasse e, enquanto eu ziguezagueava entre as fileiras de mesas, dei uma olhada rápida no lugar, na esperança de encontrar Jill. Não tinha cruzado com ela o dia todo, mas isso não era nada surpreendente, levando em conta nossos horários de aulas. Ela devia estar comendo no outro refeitório, talvez com Eddie ou Micah.
Kristin e Julia foram simpáticas, ficaram perguntando como tinha sido o meu primeiro dia e me deram informações sobre alguns professores com quem elas já tinham caído. Eram alunas do último ano, como eu, e estávamos juntas em duas aulas. Passamos a maior parte do almoço trocando informações básicas, como, por exemplo, de onde tínhamos vindo. Só quando o almoço foi chegando ao fim é que eu comecei a obter respostas para algumas das perguntas que estavam me incomodando o dia todo. Mas isso exigiu que eu primeiro ultrapassasse ainda mais perguntas.
— Então — Kristin disse e se debruçou por cima da mesa. — Serve para dar a você uma supermemória? Ou, tipo, não sei, chega mesmo a mudar seu cérebro para deixar você mais inteligente?
Julia revirou os olhos.
— Não tem como deixar alguém mais inteligente. Tem que ser a memória. O que eu quero mesmo é saber o seguinte: quanto tempo dura?
Olhei de uma para a outra, mais confusa do que nunca.
— Não sei do que vocês estão falando, mas o que quer que seja, não pode estar me deixando mais inteligente, porque neste momento estou bem perdida.
Kristin deu risada.
— A sua tatuagem. Ouvi quando você respondeu a todas as questões mais difíceis de matemática. E uma amiga minha está na sua aula de história e disse que você dominou lá também. Estamos tentando descobrir como a tatuagem ajuda.
— Se me ajuda... a responder as perguntas? — perguntei. O rosto delas confirmou.
— Não. Aquilo tudo... bom, sou só eu. Simplesmente sei as respostas.
— Ninguém é tão inteligente — Julia argumentou.
— Não é tão estranho assim. Eu não sou gênio coisa nenhuma. Acho que só aprendi muita coisa. Eu fui educada em casa por um tempo, e o meu pai era muito... rígido — completei, achando que podia ajudar.
— Ah — Kristin disse enquanto brincava com sua trança comprida. Eu tinha reparado que ela prendia o cabelo escuro de maneira bem prática; já o de Julia, loiro, estava sempre jogado e bagunçado. — Acho que até pode ser... mas, então, o que a sua tatuagem faz?
— Não faz nada — respondi. Mas antes mesmo que eu terminasse de proferir essas palavras, senti um leve formigamento na pele. A tatuagem possuía um tipo de magia que me impedia de falar qualquer coisa relacionada aos alquimistas com pessoas que não faziam parte do nosso círculo restrito. Aquela sensação era a tatuagem me impedindo de falar demais, não que houvesse necessidade para isso. — Eu só achei que era bacana.
— Ah — Julia disse. As duas meninas pareciam inexplicavelmente decepcionadas.
— Por que diabos vocês iam achar que a tatuagem estava me deixando mais inteligente? — perguntei.
O sinal interrompeu a conversa ao nos lembrar de que estava na hora de ir para a próxima aula. Uma pausa se instalou enquanto Kristin e Julia refletiam sobre alguma coisa. Kristin parecia ser a líder entre as duas, porque foi ela que acenou com a cabeça em um gesto decisivo. Fiquei com a sensação inconfundível de que eu estava sendo avaliada.
— Certo — ela finalmente disse e me lançou um grande sorriso. — Mais tarde nós vamos dar mais informações a você.
Marcamos um horário para nos encontrar e estudar mais tarde, e então nos separamos. A minha impressão era de que o tempo seria mais gasto para socializar e menos para estudar, o que para mim não tinha problema, mas fiz uma anotação mental de fazer os deveres de casa antes do encontro. O resto do dia passou rápido, e eu recebi um recado de Molly, a conselheira, durante uma das aulas. Como eu esperava, fui aprovada em todas as provas de línguas e ela queria que eu fosse falar com ela para conversar sobre o assunto durante o último período, quando eu tecnicamente não tinha aula. Isso significava que o meu dia letivo iria terminar oficialmente com educação física.
Vesti meu uniforme de ginástica, short e camiseta de Amberwood, e saí para o sol escaldante junto com os outros. Tinha sentido um pouco do calor ao ir de uma aula para outra, mas foi só quando precisei ficar ao ar livre por um tempo que realmente me dei conta de que estávamos no meio do deserto. Dei uma olhada nos meus colegas, garotos e garotas de todos os anos, e vi que não era a única que suava. Era raro eu me queimar, mas fiz uma anotação mental para me lembrar de comprar protetor solar para garantir.
Jill também iria precisar.
Jill!
Dei uma olhada ao redor. Quase tinha esquecido que Jill devia estar na mesma aula. Mas onde ela estava? Não havia sinal dela. Quando a nossa instrutora, srta. Carson, fez a chamada, nem disse o nome de Jill. Fiquei imaginando se tinha havido alguma mudança de última hora.
A srta. Carson era do tipo que achava melhor entrar logo em ação. Fomos divididos em times de vôlei, e eu me vi parada ao lado de Micah. A pele clara e coberta de sardas dele estava ficando cor-de-rosa, e eu fiquei com vontade de sugerir que ele também usasse protetor solar. Ele me lançou um de seus sorrisos simpáticos.
— Oi — eu disse. — Por acaso você viu a minha irmã menor hoje? Jill?
— Não — ele respondeu. Sua testa se franziu de leve. — Eddie estava atrás dela no almoço. Ele achou que ela estava comendo com você no seu alojamento.
Sacudi a cabeça e uma sensação desagradável foi crescendo no meu estômago. O que estava acontecendo? Cenas de pesadelo passaram pela minha mente. Pensei que Eddie estava exagerando com tanta vigilância, mas e se tivesse acontecido alguma coisa com Jill? Será que era possível que, apesar de todo o nosso planejamento, um dos nossos inimigos havia se esgueirado para dentro da escola e levado Jill bem debaixo do nosso nariz? Será que eu ia ter que dizer aos alquimistas — e ao meu pai — que nós tínhamos perdido Jill no primeiro dia? O pânico cresceu dentro de mim. Se não iam me mandar para um centro de reeducação antes, era certeza que agora eu estaria a caminho de um deles.
— Está tudo bem com você? — Micah perguntou, olhando para mim com atenção. — Está tudo bem com Jill?
— Não sei — respondi. — Com licença.
Saí da minha formação de time e corri até onde a srta. Carson estava supervisionando os alunos.
— Pois não? — ela perguntou para mim.
— Sinto incomodar, senhora, mas estou preocupada com a minha irmã. Jill Melrose. Meu nome é Sydney. Ela devia estar aqui. Sabe se ela trocou de classe?
— Ah, sim. Melrose. Recebi um recado da secretaria, logo antes da aula, para informar que ela não estaria presente.
— Disseram por quê?
A srta. Carson sacudiu a cabeça em um pedido de desculpa e vociferou uma ordem para um sujeito que estava fazendo corpo mole. Voltei a me juntar ao meu time com a cabeça a mil. Bom, pelo menos alguém tinha visto Jill, mas por que diabos ela não compareceu à aula?
— Está tudo bem com ela? — Micah perguntou para mim.
— Acho... acho que sim. A srta. Carson sabia que ela não viria à aula hoje, mas não soube dizer por quê.
— Posso fazer alguma coisa? — ele perguntou. — Para ajudar Jill? Hum, vocês?
— Não, obrigada. É legal da sua parte oferecer. — Eu queria que houvesse um relógio por ali. — Vou ver se ela está bem assim que a aula terminar — então algo me ocorreu. — Mas posso pedir uma coisa, Micah? Não diga nada a Eddie.
Micah me lançou um olhar curioso.
— Por que não?
— Ele é protetor demais. Vai ficar preocupado, e provavelmente não é nada. Além do mais, ele vai colocar a escola abaixo à procura dela.
Quando a aula terminou, tomei uma chuveirada rápida e troquei de roupa antes de ir até o prédio da administração. Estava desesperada para correr até o dormitório antes e ver se Jill estava lá, mas não podia me atrasar para a reunião. Ao caminhar pelo corredor na direção da sala de Molly, passei pela secretaria — e tive uma ideia. Parei para falar com a recepcionista antes de ir para a minha reunião.
— Jill Melrose — a recepcionista disse, assentindo. — Ela foi mandada de volta para o alojamento.
— Mandada de volta? — exclamei. — O que isso significa?
— Não tenho permissão para dizer.
Mas que melodrama, hein?
Aborrecida e mais confusa do que nunca, fui para a sala de Molly, reconfortada com a ideia de que, mesmo que a ausência de Jill fosse misteriosa, pelo menos era sancionada pela escola. Molly me disse que eu podia fazer mais uma aula optativa ou algum tipo de estudo independente no lugar de uma língua, se um professor me supervisionasse. Uma ideia me veio à cabeça.
— Posso falar com você amanhã? — perguntei. — Preciso conversar com uma pessoa primeiro.
— Claro — Molly respondeu. — Só decida logo. Pode voltar para o seu dormitório agora, mas não pode ficar circulando por aí todos os dias neste horário.
Garanti a ela que lhe daria uma resposta logo e voltei para o alojamento. O ônibus não circulava com muita frequência durante as aulas, por isso fui caminhando até lá. Demorou apenas quinze minutos, mas parecia o dobro do tempo por causa do calor.
Quando finalmente cheguei ao nosso dormitório, o alívio me invadiu. Jill estava lá, despreocupada, como se nada estranho tivesse acontecido.
— Está tudo bem com você!
Jill estava deitada na cama, novamente lendo seu livro. Ela ergueu os olhos, desanimada.
— Está, sim. Mais ou menos.
Sentei na minha cama e chutei os sapatos para longe.
— O que aconteceu? Tive um ataque de pânico quando vi que você não estava na aula. Se Eddie soubesse...
Jill se sentou ereta de supetão.
— Não, não conte para Eddie. Ele vai ter um chilique.
— Certo, certo. Mas me conte o que aconteceu. Disseram na secretaria que você foi mandada para cá?
— Fui — Jill fez uma careta. — Porque fui suspensa da minha primeira aula.
Fiquei sem palavras. Não podia imaginar o que Jill, tão doce e tímida, podia ter feito para merecer isso. Ai meu Deus. Espero que ela não tenha mordido ninguém. Todo mundo achava que eu é que teria dificuldades para me encaixar nos esquemas da escola. Jill devia ser especialista nisso.
— Por que você foi suspensa?
Jill suspirou.
— Por estar de ressaca.
Fiquei mais sem palavras ainda.
— O quê?
— Eu estava passando mal. A sra. Chang... minha professora... deu uma olhada em mim e disse que era capaz de detectar uma ressaca a um quilômetro de distância. Ela me mandou para a secretaria por desrespeitar as regras da escola. Eu disse que só estava passando mal, mas ela ficava repetindo que sabia. O diretor acabou dizendo que não tinha como provar que era por isso que eu estava passando mal, então não fui punida, mas fui impedida de ir às outras aulas. Tive que ficar aqui o dia inteiro.
— Isso... isso é a maior idiotice! — saltei da cama e comecei a andar de um lado para o outro. Agora que tinha me recuperado da descrença inicial, estava simplesmente ultrajada. — Eu estava com você durante a noite passada. Você dormiu aqui. Eu iria saber. Acordei uma vez, e você estava apagada. Como é que a sra. Chang pode fazer uma acusação dessas? Ela não tinha provas! A escola também não. Não tinham o direito de tirar você das aulas. Eu devia ir à secretaria agora mesmo! Não, vou falar com Keith e com os alquimistas para que os nossos pais entrem com uma reclamação.
— Não, espere, Sydney — Jill se levantou de um pulo e me agarrou pelo braço, como se estivesse com medo que eu saísse para fazer aquilo naquele minuto mesmo. — Por favor. Não faça isso. Deixe para lá. Não quero causar mais confusão. Não recebi nenhuma nota ruim. Não recebi nenhum castigo.
— Você vai ficar para trás nas suas aulas — eu disse. — Isso já é castigo suficiente.
Jill sacudiu a cabeça, com olhos arregalados. Percebi que ela estava com medo, mas não fazia ideia de por que não queria que eu dissesse nada. Ela que era a vítima.
— Não, tudo bem. Eu recupero. Não vai haver nenhuma consequência a longo prazo. Por favor, não faça caso disso. Os outros professores só devem ter achado que eu estava passando mal. Nem devem estar sabendo da acusação.
— Mas não está certo — resmunguei. — Eu posso fazer algo a respeito. É por isso que estou aqui, para ajudar você.
— Não — Jill disse, inabalável. — Por favor. Deixe para lá. Se você quiser mesmo me ajudar... — ela desviou o olhar.
— O quê? — perguntei, ainda cheia de fúria por causa da injustiça. — Do que você precisa? Pode dizer.
Jill voltou a erguer os olhos.
— Preciso... preciso que você me leve até Adrian.

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