27 de setembro de 2017

Capítulo 4

ABE TINHA O TIPO DE APARÊNCIA capaz de deixar muita gente sem fala, mesmo que não soubessem nada a seu respeito.
Alheio ao calor que fazia lá fora, o Moroi estava vestido de terno e gravata. Pelo menos o terno era branco, mas ainda assim parecia quente. A camisa e a gravata eram roxas, mesma cor da rosa enfiada no bolso. Ouro brilhava em suas orelhas e pescoço. Era de origem turca e tinha mais cor do que a maior parte dos Moroi, mas, mesmo assim, era mais pálido do que humanos como eu e Keith. Na verdade, a pele de Abe me fazia pensar em uma pessoa bronzeada que estivesse doente havia bastante tempo.
— Olá — eu disse, rígida.
O sorriso dele se espalhou mais pelo rosto.
— Como é bom vê-la de novo.
— É sempre um prazer — minha mentira soou mecânica, mas eu esperava que fosse melhor do que demonstrar medo.
— Não, não — ele disse. — O prazer é todo meu.
— Se está dizendo... — eu falei. Isso o divertiu ainda mais.
Keith tinha ficado paralisado de novo, por isso me aproximei do velho Moroi e estendi a mão, para que pelo menos um de nós parecesse ter educação.
— Você é o sr. Donahue? Sou Sydney Sage.
Clarence sorriu e apertou a minha mão com sua mão enrugada. Eu não me encolhi, apesar de sentir vontade. Diferente da maior parte dos Moroi que eu conhecia, ele não escondia os caninos ao sorrir, e isso quase fez a minha fachada desmoronar. Era outro lembrete de que, por mais humanos que às vezes pudessem parecer, continuavam sendo vampiros.
— É um prazer conhecê-la — ele disse. — Ouvi coisas maravilhosas a seu respeito.
— É mesmo? — eu perguntei com a sobrancelha arqueada, imaginando quem tinha falado de mim.
Clarence assentiu com ênfase.
— Seja bem-vinda à minha casa. É ótimo receber tantas visitas.
As apresentações foram feitas para todos os outros. Eddie e Jill eram um pouco reservados, mas ambos simpáticos. Keith não trocou nenhum aperto de mão, mas pelo menos parou de agir como um idiota babão. Sentou-se quando lhe ofereceram uma cadeira e estampou uma expressão de arrogância no rosto, que supostamente devia demonstrar segurança. Fiquei torcendo para ele não nos envergonhar.
— Desculpe-me — Abe disse e se inclinou para a frente. Seus olhos escuros brilharam. — Você disse que seu nome era Keith Darnell?
— Disse, sim — Keith respondeu. Ele observou Abe com curiosidade, sem dúvida lembrando-se da conversa com os alquimistas em Salt Lake City. Apesar da fachada corajosa que Keith tentava mostrar, eu percebia que não estava à vontade. Abe surtia esse efeito nas pessoas. — Por quê?
— Por nada — Abe falou. Seus olhos se voltaram para mim e depois para Keith. — Só me pareceu familiar, nada mais.
— O meu pai foi um homem muito importante entre os alquimistas — Keith disse, cheio de si. Ele tinha relaxado um pouco, provavelmente pensando que as histórias sobre Abe eram exageradas. Tolo. — Sem dúvida já ouviu falar dele.
— Sem dúvida — Abe disse. — Tenho certeza de que deve ser isso.
Ele falava de um jeito tão descontraído que ninguém iria desconfiar de que não estava dizendo a verdade. Só eu sabia a verdadeira razão por que Abe sabia quem Keith era, mas certamente não queria que isso fosse revelado. Também não queria que Abe desse mais indiretas, e desconfiava que estava fazendo isso só para me irritar.
Tentei desviar o assunto — e obter algumas respostas por minha conta.
— Eu não sabia que se juntaria a nós, sr. Mazur — a doçura na minha voz se equiparava à dele.
— Por favor — ele disse. — Sabe que pode me chamar de Abe. E, infelizmente, não vou ficar. Só vim até aqui para garantir a chegada do grupo em segurança, e para conhecer Clarence pessoalmente.
— Foi muita gentileza da sua parte — eu disse em tom seco, sinceramente duvidando que as motivações de Abe fossem tão simples assim. Se eu tinha aprendido alguma coisa, era que nada era simples quando Abe Mazur estava envolvido. Ele era uma espécie de manipulador de marionetes. Não queria apenas observar as coisas, mas também controlá-las.
Ele deu um sorriso vitorioso.
— Bom, meu objetivo é sempre ajudar aqueles que precisam.
— Sei — uma voz nova de repente disse. — É exatamente o que me vem à cabeça quando penso em você, meu velho.
Não achei que ninguém fosse capaz de me chocar mais do que Abe, mas estava errada.
— Rose? — O nome saiu como uma interrogação dos meus lábios, apesar de não haver dúvidas sobre a identidade da recém-chegada. Afinal de contas, só existia uma Rose Hathaway.
— Oi, Sydney — ela disse, e me lançou um sorrisinho torto ao entrar na sala. Seus olhos escuros e brilhantes eram simpáticos, mas também avaliavam tudo por ali, como o olhar de Eddie. Era uma característica dos guardiões. Rose tinha mais ou menos a minha altura e estava vestida de maneira bem casual, com jeans e uma camiseta regata vermelha. Mas, como sempre, havia algo de exótico e perigoso na beleza dela que a destacava de todos os outros. Ela parecia uma flor tropical naquela sala escura e abafada. Uma flor capaz de matar. Eu nunca tinha visto sua mãe, mas era fácil perceber que parte de sua aparência vinha da ascendência turca de Abe, como o cabelo castanho-escuro comprido. Naquela luz fraca, seu cabelo parecia quase preto. Seus olhos pousaram em Keith e ela acenou com a cabeça, em um gesto educado. — Oi, outro alquimista.
Keith ficou olhando para ela com os olhos arregalados, mas se isso foi uma reação por estarmos cada vez mais em minoria ou simplesmente uma resposta à natureza extraordinária de Rose, eu não saberia dizer.
— E-eu sou Keith — ele finalmente gaguejou.
— Rose Hathaway — ela disse a ele. Os olhos dele saltaram ainda mais ao reconhecer o nome. Ela atravessou a sala, caminhando em direção a Clarence, e eu reparei que metade de seu encanto era simplesmente a maneira como dominava o lugar ao seu redor. A expressão dela se suavizou quando olhou para o senhor de idade. — Dei uma olhada no perímetro da casa, como pediu. É tão segura quanto poderia ser, mas acho que a fechadura da porta dos fundos provavelmente precisa ser trocada.
— Tem certeza? — Clarence perguntou, descrente. — É novinha em folha.
— Talvez fosse quando a casa foi construída — uma outra voz falou. Olhei para a porta e percebi que havia mais alguém com Rose quando ela chegara, mas eu tinha ficado surpresa demais para perceber. De novo, essa era uma característica de Rose. Ela sempre concentrava toda a atenção. — Está enferrujada desde que nos mudamos para cá.
O recém-chegado era um Moroi, o que me deixou sobressaltada mais uma vez. Isso elevava a conta para quatro Moroi e dois dampiros. Estava me esforçando muito para não adotar a atitude de Keith — principalmente porque eu já conhecia alguns dos presentes —, mas era difícil me livrar da sensação de que éramos “nós” e “eles”. Os Moroi envelheciam como os humanos, e calculei que aquele sujeito tinha mais ou menos a minha idade, no máximo a mesma de Keith. Ele tinha traços bonitos, acho, com cabelo preto encaracolado e olhos cinzentos. O sorriso que ele ofereceu parecia sincero, apesar de haver uma leve sensação de desconforto em sua postura. Seu olhar intrigado se fixou em Keith e em mim, e fiquei imaginando que talvez ele não passasse muito tempo na companhia de humanos. A maior parte dos Moroi não passava, apesar de não compartilharem dos mesmos medos que tínhamos deles. Mas até aí a nossa raça não os usava para se alimentar.
— Sou Lee Donahue — ele disse e estendeu a mão. Mais uma vez, Keith não retribuiu o gesto, mas eu retribuí e nos apresentei.
Lee ficou olhando de mim para Keith, com uma expressão maravilhada.
— Alquimistas, certo? Nunca conheci um de vocês. A tatuagem que vocês têm é linda — ele disse ao observar o lírio dourado na minha bochecha; a mesma tatuagem que todos os alquimistas tinham. — Já ouvi falar do que ela é capaz de fazer.
— Donahue? — Keith perguntou. Ele olhou de Lee para Clarence. — São parentes?
Lee lançou um olhar tolerante para Clarence.
— Pai e filho.
Keith franziu a testa.
— Mas você não mora aqui, mora? — Fiquei surpresa por ele se ater especificamente a isso. Talvez se incomodasse com a ideia de que suas informações não eram precisas. Afinal de contas, ele era o alquimista de Palm Springs, e acreditava que Clarence fosse o único Moroi da região.
— Regularmente, não — Lee respondeu. — Faço faculdade em Los Angeles, mas neste semestre só estou cumprindo meio período. Então quero tentar passar mais tempo com o meu pai.
Abe deu uma olhada em Rose.
— Está vendo? — disse. — Isso que é dedicação.
Ela revirou os olhos para ele.
Keith parecia ter mais perguntas a esse respeito, mas a mente de Clarence ainda estava na conversa anterior.
— Eu podia jurar que tinha mandado trocar aquela fechadura.
— Bom, eu posso trocar em breve para você, se quiser — Lee disse. — Não deve ser assim tão difícil.
— Acho que está boa. — Clarence se levantou desequilibrado. — Vou dar uma olhada.
Lee se apressou até o lado dele e lançou para nós um olhar de desculpa.
— Precisa ser agora? — Como parecia que sim, ele disse: — Vou com você.
Fiquei com a impressão de que Clarence costumava fazer o que lhe desse na telha, e que Lee já estava acostumado com isso.
Aproveitei a ausência dos Donahue para conseguir algumas respostas que estava louca para obter. Eu me virei para Jill.
— Vocês não tiveram problemas para chegar até aqui, certo? Não houve mais nenhum... incidente?
— Nós esbarramos com alguns dissidentes antes de deixar a corte — Rose disse com um tom perigoso na voz. — Nada que não pudéssemos controlar. De resto, não aconteceu mais nada.
— E vai continuar assim — Eddie disse como quem faz uma constatação. Ele cruzou os braços sobre o peito. — Pelo menos no que depender de mim.
Dei uma olhada nos dois, sem entender nada.
— Fui informada de que um dampiro iria acompanhá-la... resolveram mandar dois?
— Rose se convidou para vir junto — Abe respondeu. — Só para garantir que o restante de nós não deixaria passar nada. É Eddie que vai se juntar a vocês em Amberwood.
Rose desdenhou.
— Eu é que devia ficar. Devia ser a colega de quarto de Jill. Sem ofensa, Sydney. Precisamos de você por causa da documentação, mas sou eu que vou ter que dar um pau em qualquer um que causar problemas a ela.
Eu é que não ia argumentar contra isso.
— Não — Jill disse com uma intensidade surpreendente. Da última vez em que eu a tinha visto, ela ficara quieta e agira com hesitação, mas seus olhos se aguçaram com a ideia de ser um fardo para Rose. — Você precisa ficar com Lissa e mantê-la em segurança. Eu tenho Eddie e, além do mais, ninguém sabe que estou aqui. Não vai acontecer mais nada.
A expressão nos olhos de Rose era cética. Eu também desconfiava que ela não acreditava de verdade que alguém fosse capaz de proteger Vasilisa ou Jill tão bem quanto ela mesma. E isso era algo importante, levando em conta que a jovem rainha estava rodeada de guarda-costas. Mas nem Rose era capaz de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e ela deve ter precisado fazer uma escolha. Suas palavras fizeram com que eu voltasse a atenção mais uma vez para Jill.
— O que realmente aconteceu? — perguntei. — Você se feriu? Ouvimos falar de um ataque, mas não tivemos confirmação.
Um silêncio pesado se instalou na sala. Todos menos Keith e eu pareciam claramente sem jeito. Bom, nós também estávamos sem jeito — mas por outros motivos.
— Está tudo bem comigo — Jill finalmente disse, depois de um olhar afiado de Rose. — Houve um ataque, sim, mas nenhum de nós se feriu. Quer dizer, nada sério. Nós estávamos no meio de um jantar da realeza quando fomos atacados por uns Moroi, tipo, assassinos Moroi. Eles fizeram parecer que estavam lá para atacar Lis, a rainha, mas em vez disso foram para cima de mim — ela hesitou e baixou os olhos, deixando o cabelo comprido e encaracolado cair para a frente. — Mas fui salva e os guardiões os encurralaram.
Havia uma energia nervosa em Jill da qual eu lembrava. Era bonitinho, e fazia com que ela se parecesse muito com a adolescente tímida que era.
— Mas não achamos que todos tenham sido eliminados, e é por isso que precisamos ficar longe da corte — Eddie explicou. Enquanto dirigia suas palavras a mim e Keith, ele irradiava um senso de proteção em relação a Jill, desafiando qualquer um a atacar a menina que tinha a obrigação de manter em segurança. — E não sabemos onde estão os traidores nas nossas próprias fileiras. Então, até lá, vamos todos ficar aqui.
— Espero que não seja por muito tempo — Keith disse. Lancei a ele um olhar de advertência, e ele pareceu perceber que o comentário podia ser tomado como grosseria. — Quer dizer, este lugar não deve ser muito divertido para vocês, com o sol e tudo o mais.
— É seguro — Eddie disse. — É isso que importa.
Clarence e Lee voltaram e ninguém mais mencionou o histórico de Jill ou o ataque. Até onde pai e filho sabiam, Jill, Eddie e Adrian simplesmente tinham entrado em conflito com um Moroi importante da realeza e estavam exilados ali. Os dois Moroi não sabiam quem Jill era de verdade e acreditavam que os alquimistas a estavam ajudando devido à influência de Abe. Era uma teia de mentiras necessária. Mesmo que Clarence estivesse em exílio autoimposto, não podíamos arriscar que ele (ou agora Lee, também) deixasse escapar para algum desconhecido que a irmã da rainha estava escondida ali.
Eddie deu uma olhada no Moroi mais velho.
— Você disse que nunca ouviu falar de nenhum Strigoi que tivesse vindo até aqui, certo?
Os olhos de Clarence ficaram sem foco por um instante quando seus pensamentos se voltaram para dentro.
— Não... mas existem coisas piores do que os Strigoi...
Lee soltou um gemido.
— Pai, por favor. Não me venha com isso.
Rose e Eddie se levantaram em um instante, e foi uma surpresa não terem sacado as armas.
— Do que está falando? — Rose quis saber.
— Que outros perigos existem por aí? — Eddie perguntou com um tom de aço na voz.
Lee estava realmente corado.
— Não é nada... por favor. É um delírio dele, mais nada.
— Delírio? — Clarence questionou e apertou os olhos para o filho. — A morte da sua prima foi delírio? O fato de as pessoas no alto escalão na corte permitirem que Tamara não fosse vingada é um delírio?
Minha mente retrocedeu a uma conversa que tinha tido com Keith no carro. Lancei para Clarence um olhar com a intenção de ser reconfortante.
— Tamara era sua sobrinha, certo? O que aconteceu com ela?
— Ela foi assassinada — ele respondeu. Fez uma pausa dramática. — Por caçadores de vampiros.
— Desculpe, por quem? — perguntei, certa de que tinha escutado mal.
— Caçadores de vampiros — Clarence repetiu. Todos os presentes pareciam tão surpresos quanto eu, o que foi um pequeno alívio. Até um pouco da ferocidade de Rose e de Eddie se aplacou. — Ah, não vão encontrar isso em lugar nenhum; nem mesmo nos seus relatórios. Estávamos morando em Los Angeles quando ela foi pega. Eu informei os guardiões, exigi que os responsáveis fossem caçados. Sabe o que disseram? — Ele olhou em volta, um por um. — Sabem?
— Não — Jill respondeu acanhada. — O que disseram? — Lee suspirou; parecia arrasado.
Clarence soltou uma gargalhada de desdém.
— Disseram que isso não existia. Que não havia evidência para fundamentar a minha alegação. Determinaram que os Strigoi a tinham matado e que ninguém podia fazer nada, que eu devia ficar agradecido por ela não ter sido transformada.
Olhei para Keith, que mais uma vez pareceu surpreso com a história.
Aparentemente, ele não conhecia Clarence tão bem quanto alegava conhecer. Keith sabia que o senhor de idade havia tido um problema envolvendo a sobrinha, mas não conhecia a extensão da questão. Keith deu de ombros levemente na minha direção, parecendo dizer: Está vendo? O que eu disse? É louco.
— Os guardiões são muito detalhistas — Eddie disse. Seu tom e suas palavras claramente tinham sido escolhidos com cuidado, esforçando-se para não ofender. Ele se sentou ao lado de Jill. — Tenho certeza de que tiveram seus motivos para chegar a essa conclusão.
— Motivos? — Clarence indagou. — Se considerar “negação” e “viver uma mentira” como motivos, então acho que pode ser. Simplesmente não querem aceitar o fato de que existem caçadores de vampiros por aí. Mas me diga uma coisa. Se a minha Tamara foi morta pelos Strigoi, por que cortaram a garganta dela? Foi cortada com um único golpe de lâmina — ele fez um gesto para imitar o golpe embaixo do queixo.
Jill estremeceu e se encolheu na cadeira. Rose, Eddie e Abe também pareceram atordoados, coisa que me deixou surpresa, porque não achei que existia nada capaz de impressionar aquele grupo.
— Por que não usaram os caninos? Assim é mais fácil para beber.
— Eu fiz essa observação aos guardiões, e eles disseram que, como metade do sangue tinha sido bebido, obviamente tinha sido um Strigoi. Mas eu disse que tinha sido um caçador de vampiros e que ele tinha feito parecer que beberam o sangue dela. Os Strigoi não teriam motivo para usar uma faca.
Rose começou a falar, fez uma pausa e recomeçou.
— É estranho — ela disse com calma. Fiquei com a sensação de que provavelmente ela estava pronta para dizer como essa teoria da conspiração era ridícula, mas pensou melhor. — Mas tenho certeza de que há outra explicação, sr. Donahue.
Fiquei imaginando se mencionar que os alquimistas não tinham nenhum registro de caçadores de vampiros — pelo menos não em muitos séculos — iria ajudar ou não.
Keith de repente levou a conversa para uma direção inesperada. Ele olhou bem nos olhos de Clarence.
— Pode parecer estranho para um Strigoi, mas eles fazem várias coisas terríveis sem motivo. Sei disso por experiência própria.
Meu estômago se contraiu. Ai, não. Todos os olhos se voltaram para Keith.
— Hein? — Abe perguntou e passou os dedos pelo cavanhaque preto. — O que aconteceu?
Keith apontou para seu olho de vidro.
— Fui atacado por um Strigoi no começo do ano. Eles me espancaram e arrancaram meu olho. Então me largaram.
Eddie franziu a testa.
— Sem beber sangue nem matar? Isso é mesmo estranho. Não parece ser o comportamento normal de um Strigoi.
— Não sei se é possível esperar que um Strigoi faça algo “normal” — Abe observou. Eu cerrei os dentes, desejando que ele não envolvesse Keith naquilo. Por favor, não faça perguntas sobre o olho, eu pensei. Deixe para lá. Claro que era pedir demais, porque a pergunta seguinte de Abe foi: — Só arrancaram um olho? Não tentaram pegar os dois?
— Com licença — me levantei antes que Keith pudesse responder. Eu não podia ficar sentada no meio daquela conversa, escutando enquanto Abe tentava fisgar Keith, só pela diversão de me atormentar. Eu precisava fugir dali. — Eu... eu não estou me sentindo muito bem. Vou tomar um pouco de ar.
— Claro, claro — Clarence disse, com cara de quem também queria se levantar. — Devo pedir à criada que traga uma água para você? Posso tocar a campainha...
— Não, não — respondi e me desloquei em direção à porta. — Eu só... só preciso de um minuto.
Saí apressada e ouvi Abe dizer:
— Mas que sensibilidade tão delicada. Ela não devia ser assim tão frágil, levando em conta a profissão que tem. Mas você, rapaz, parece capaz de suportar uma conversa sobre sangue...
A massagem no ego aplicada por Abe funcionou, e Keith começou a contar exatamente a história que eu, com toda a certeza, não queria ouvir. Voltei pelo corredor escuro e saí da casa. O ar fresco foi bem-vindo, apesar de estar uns cinco graus mais quente de onde eu tinha saído. Respirei fundo para me recompor e fiz força para me acalmar. Tudo iria ficar bem. Abe iria embora logo. Keith voltaria para seu próprio apartamento. Eu iria a Amberwood com Jill e Eddie, que realmente não pareciam ser más companhias, levando em conta as outras opções que podiam ter sido mandadas para serem meus colegas.
Sem nenhum destino específico em mente, resolvi dar uma volta por ali e avaliar a casa de Clarence — que, na verdade, estava mais para uma ampla propriedade. Escolhi um dos lados da construção e fui dando a volta de um jeito meio aleatório, admirando o trabalho rebuscado no exterior da casa. Apesar de estar totalmente deslocada no meio da paisagem do sul da Califórnia, era impressionante. Eu sempre adorei estudar arquitetura — um assunto que meu pai considerava inútil — e estava impressionada com o entorno.
Dei uma olhada ao redor e percebi que o terreno não era igual às áreas por onde tínhamos passado até chegar ali. Uma boa parte das terras da região havia ganhado uma tonalidade marrom, por causa do verão e da falta de chuva; mas Clarence obviamente tinha gastado uma fortuna para manter toda aquela extensa área verdejante. Árvores que não eram nativas — lindas e cheias de flores — tinham sido arranjadas com esmero para formar caminhos e pátios.
Depois de vários minutos de passeio pela natureza, dei meia-volta e retornei para a parte da frente da casa. Parei quando ouvi alguém.
— Onde você está? — uma voz perguntou. Abe. Que ótimo. Ele estava à minha procura.
— Aqui — mal ouvi Adrian responder. A voz dele veio do outro lado da casa, oposto ao que eu estava. Ouvi alguém atravessar a entrada de cascalho e os passos pararem ao alcançar a porta de trás, onde Abe estava, segundo os meus cálculos.
Mordi o lábio e fiquei onde estava, escondida pela casa. Estava quase com medo de respirar. Com a audição que tinham, os Moroi eram capazes de captar o menor dos ruídos.
— Você não ia voltar lá para dentro nunca? — Abe perguntou em tom de surpresa.
— Não sei para quê — foi a resposta lacônica de Adrian.
— Por educação. Você podia ter feito o esforço de se apresentar aos alquimistas.
— Eles não querem ser apresentados a mim. Principalmente o rapaz — havia uma risada oculta na voz de Adrian. — Você tinha que ter visto a cara dele quando nos cruzamos à porta. Queria estar usando uma capa. A garota pelo menos tem um pouco de coragem.
— Ainda assim, eles têm papel fundamental na sua estadia aqui. E na de Jill. Você sabe como é importante que ela fique em segurança.
— É, eu entendo. E entendo por que ela está aqui. O que não entendo é por que eu estou aqui.
— Não entende? — Abe perguntou. — Achei que tinha ficado óbvio tanto para Jill quanto para você. Precisa ficar perto dela.
Eles fizeram uma pausa.
— É isso que todo mundo diz... mas eu ainda não sei bem se é necessário. Não acho que ela precise de mim por perto, independentemente do que Rose e Lissa digam.
— Você tem alguma coisa melhor para fazer?
— Essa não é a questão. — Adrian parecia aborrecido, e eu fiquei feliz por Abe não ter esse efeito só sobre mim.
— Essa é exatamente a questão — Abe disse. — Você estava se acabando na corte, afogando-se em pena de si mesmo, entre outras coisas. Aqui, tem a oportunidade de ser útil.
— A você.
— A si mesmo também. Esta é uma oportunidade para você fazer alguma coisa da vida.
— Mas você não me diz o que eu devo fazer! — Adrian respondeu, irritado. — Tirando Jill, qual é esta grande tarefa que você tem para mim?
— Ouça. Ouça e observe. — Eu era capaz de enxergar claramente Abe passando a mão no queixo enquanto falava, como se fosse o idealizador da missão. — Observe todos: Clarence, Lee, os alquimistas, Jill e Eddie. Preste atenção a cada palavra, a cada detalhe, e me informe depois. Tudo pode ser útil.
— Não sei se isso esclarece as coisas.
— Você tem potencial, Adrian. Potencial demais para ser desperdiçado. Sinto muito pelo que aconteceu com Rose, mas você precisa seguir em frente. Talvez as coisas não façam sentido agora, mas farão mais tarde. Confie em mim.
Eu quase me senti mal por Adrian. Abe também tinha me dito para confiar nele certa vez, e veja só como as coisas terminaram.
Esperei os dois Moroi voltarem para dentro da casa e depois de um minuto também entrei. Na sala, Keith ainda mantinha sua postura arrogante, mas pareceu aliviado ao me ver de volta. Discutimos mais detalhes e elaboramos uma programação para o fornecimento de sangue, que era minha responsabilidade, já que eu deveria levar Jill (e Eddie, porque ele não queria tirar os olhos dela) de carro para a casa de Clarence, e depois de volta para a escola.
— Como você vai se alimentar? — perguntei a Adrian. Depois de ouvir a conversa dele com Abe, estava mais curiosa do que nunca para saber qual seria o papel dele aqui.
Adrian estava encostado na parede, do outro lado da sala. Os braços dele estavam cruzados em uma posição defensiva e havia uma rigidez em sua postura que contrastava com o sorriso preguiçoso que ele tinha nos lábios. Eu não tinha certeza, mas ele parecia se distanciar o máximo possível de Rose de propósito.
— Vou apenas caminhar até o fim do corredor.
Ao ver minha expressão confusa, Clarence explicou:
— Adrian vai ficar aqui comigo. Vai ser bom ter mais alguém entre estas velhas paredes.
— Ah — eu disse. Para mim mesma, balbuciei: — Isso está parecendo O jardim secreto.
— Hã? — Adrian perguntou e inclinou a cabeça na minha direção.
Estremeci. A audição deles era boa mesmo.
— Nada. Só estava pensando em um livro que eu li.
— Ah — Adrian disse com desdém, e desviou o olhar. O tom em sua voz parecia condenar todos os livros existentes.
— Não se esqueça de mim — Lee disse e sorriu para o pai. — Eu disse que vou passar mais tempo por aqui.
— Talvez o jovem Adrian aqui o mantenha longe dos problemas, então — Clarence declarou.
Ninguém fez nenhum comentário, mas vi os amigos de Adrian trocarem olhares de surpresa.
Keith não parecia nem de longe tão apavorado quanto estava quando chegamos, mas havia um novo ar de impaciência e irritação nele que eu não estava entendendo muito bem.
— Bom — ele disse depois de limpar a garganta. — Preciso ir para casa e cuidar de alguns assuntos de trabalho. E como você vai me dar uma carona, Sydney...
Ele deixou as palavras pairando no ar e olhou para mim cheio de intenções. Pelo que eu tinha descoberto, estava mais convencida do que nunca de que Palm Springs era a área com menos atividade de vampiros da história. Sinceramente, não consegui entender quais “assuntos de trabalho” Keith teria para cuidar, mas nós teríamos que ir embora cedo ou tarde. Eddie e Jill foram pegar suas bagagens e Rose aproveitou a oportunidade para me puxar de lado.
— Como você está? — ela perguntou em voz baixa. Seu sorriso era sincero. — Andei preocupada com você desde... bom, você sabe. Ninguém quis me dizer o que tinha acontecido com você.
Na última vez em que a vira, eu estava sendo mantida como prisioneira por guardiões em um hotel, enquanto os Moroi tentavam descobrir a extensão da minha participação na fuga de Rose.
— No começo, enfrentei algumas dificuldades — respondi. — Mas já passou.
O que era uma pequena mentira entre amigas? Rose era tão forte que eu não suportava a ideia de parecer fraca na frente dela. Não queria que ela soubesse que ainda vivia com medo dos alquimistas, forçada a fazer o que fosse necessário para cair novamente nas graças deles.
— Que bom — ela disse. — Tinham me dito que era para a sua irmã estar aqui.
Essas palavras me lembraram mais uma vez que Zoe poderia me substituir a qualquer momento.
— Foi um mal-entendido.
Rose assentiu.
— Eu me sinto um pouco melhor com você aqui, mas, mesmo assim, é difícil... ainda sinto que deveria proteger Jill, mas também preciso proteger Lissa. Eles acham que Jill é o alvo mais fácil, mas, mesmo assim, vão tentar atacar Lissa. — Seu turbilhão interior transpareceu em seus olhos escuros e senti uma pontada de pena. Era exatamente isso que eu tinha dificuldade em explicar para os outros alquimistas: como os dampiros e vampiros às vezes eram capazes de parecer tão humanos. — Tem sido uma loucura, sabe? Desde que Lissa assumiu o trono. Achei que finalmente ia poder relaxar com Dimitri — o sorriso dela se ampliou. — Eu devia saber que nunca as coisas são simples conosco. Passamos o tempo todo cuidando de Lissa e Jill.
— Jill vai ficar bem. Enquanto os dissidentes não souberem que ela está aqui, tudo vai ser fácil. Até mesmo entediante.
Ela continuava sorrindo, mas um pouco menos.
— Espero que sim. Ah, se você soubesse o que aconteceu... — A expressão dela se modificou quando foi acometida por alguma lembrança. Ia pedir para que me contasse o que tinha ocorrido, mas ela mudou de assunto antes que eu pudesse fazer isso. — Estamos trabalhando para modificar a lei que diz que Lissa precisa ter um familiar para continuar sendo rainha. Quando isso estiver feito, tanto ela quanto Jill estarão fora de perigo. Mas isso também significa que aqueles querendo acabar com Jill estão mais enlouquecidos do que nunca, porque sabem que têm pouco tempo.
— Quanto tempo? — perguntei. — Quanto tempo vai demorar para modificar a lei?
— Não sei. Alguns meses, talvez? Assuntos legais... bom, não são a minha especialidade. Não os detalhes, pelo menos — ela fez uma leve careta e voltou à sua rigidez de batalha de sempre. Jogou o cabelo por cima de um ombro. — Mas gente louca querendo prejudicar meus amigos? Essa é a minha especialidade e, pode acreditar, sei dar conta disso.
— Eu me lembro — respondi. Foi estranho. Considerava Rose uma das pessoas mais fortes que eu conhecia, mas parecia precisar do meu apoio. — Olhe, vá fazer o que você faz melhor, e eu farei o meu trabalho. Vou me assegurar de que Jill passe despercebida. Vocês a tiraram de lá sem que ninguém soubesse. Agora ela está fora do radar.
— Espero que sim — Rose repetiu com a voz sombria. — Porque, caso contrário, este seu grupinho aqui não vai ter a menor chance contra aqueles rebeldes enlouquecidos.

3 comentários:

  1. E Rose sabe tranquilizar como ninguém 😃😆

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  2. Gente, perdi alguma coisa? Quando a Sydney se encontrou com o Abe? E como é a história do Keith? 😬 Ela não explicou ou eu só não lembro?

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    1. Ela não explicou a história dela com Abe. Um dia descobrimos, quem sabe

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Boa leitura :)