27 de setembro de 2017

Capítulo 3

A VIAGEM ATÉ PALM SPRINGS foi uma agonia.
Eu estava exausta por ter sido arrancada da cama mas não consegui cair no sono nem quando Keith tomou a direção. Havia coisas demais na minha cabeça — Zoe, minha reputação, a missão que se aproximava... Os pensamentos rodavam na minha cabeça. Eu só queria consertar todos os problemas da minha vida. O fato de Keith estar dirigindo não diminuía em nada a minha ansiedade.
Também estava incomodada porque meu pai não tinha permitido que eu me despedisse da minha mãe. Ele ficou falando sem parar que nós deveríamos deixar que ela dormisse, mas eu sabia a verdade. Ele tinha medo de que ela tentasse nos deter se soubesse que eu estava de partida. Ela tinha ficado furiosa depois da minha última missão: eu tinha viajado até o outro lado do mundo sozinha, e fui trazida de volta sem fazer a menor ideia do que ia acontecer comigo no futuro. Minha mãe achou que os alquimistas tinham feito mau uso de mim, e disse ao meu pai que acharia ótimo se eles não quisessem mais nada comigo. Não sei se ela realmente poderia ter atrapalhado os planos daquela noite, mas eu não queria arriscar e fazer Zoe ser mandada no meu lugar.
Eu certamente não esperava uma despedida calorosa e carinhosa dele, mas foi estranho partir deixando as coisas tão mal resolvidas com a minha irmã e a minha mãe.
Quando amanheceu e a paisagem do deserto de Nevada se transformou por um instante em um mar ardente vermelho e cobre, desisti totalmente de dormir e resolvi apenas seguir em frente a todo vapor. Comprei um copão enorme de café em um posto de gasolina e garanti a Keith que dirigiria o resto do caminho. Ele abriu mão da direção de bom grado, mas, em vez de dormir, também comprou um café e ficou conversando comigo nas horas restantes. Ele ainda estava investindo pesado em sua nova atitude de amizade, quase me fazendo desejar nossa antipatia anterior. Estava determinada a não lhe dar motivo para duvidar de mim, por isso me esforcei para sorrir e concordar da maneira apropriada. Foi um tanto difícil fazer isso enquanto cerrava os dentes.
Parte da conversa não foi assim tão ruim. Eu conseguia lidar com assuntos de trabalho, e nós ainda tínhamos muitos detalhes a resolver. Ele me disse tudo que sabia sobre a escola, e absorvi com avidez a descrição que fez do meu futuro lar. A Escola Preparatória Amberwood parecia ser um lugar de prestígio, e fiquei imaginando, descompromissada, que talvez pudesse tratá-la como uma faculdade de mentirinha. De acordo com os padrões dos alquimistas, eu já sabia tudo de que precisava para o meu trabalho, mas algo em mim sempre clamava por mais e mais conhecimento. Tive que aprender a me contentar com as minhas próprias leituras e pesquisas, mas, ainda assim, a faculdade — ou simplesmente estar perto de quem sabia mais do que eu e tinha algo a ensinar — era uma fantasia minha havia muito tempo.
Como aluna do último ano, eu teria o privilégio de sair do campus, e uma das nossas primeiras providências — depois de obter identidades falsas — seria arrumar um carro para mim. Saber que eu não ficaria presa em um internato fez as coisas parecerem um pouco mais suportáveis. Mas era óbvio que grande parte do entusiasmo de Keith para providenciar meu próprio meio de transporte se devia à necessidade de garantir que eu poderia dar conta de qualquer tarefa que a missão exigisse.
Keith também esclareceu uma coisa de que eu não tinha me dado conta — mas que devia ter percebido.
— Você e essa tal de Jill vão ser matriculadas como irmãs — ele disse.
— O quê? — O fato de eu ter aguentado firme e não ter perdido o domínio sobre a direção serviu como medida do meu autocontrole. Morar com uma vampira era uma coisa... mas ser da família dela? — Por quê? — quis saber.
Com minha visão periférica, vi quando ele deu de ombros.
— Por que não? Explica por que você vai passar tanto tempo perto dela, e é uma boa desculpa para vocês duas ficarem no mesmo quarto. Normalmente, a escola não coloca alunos de idades diferentes no mesmo quarto, mas... bom... os “pais” de vocês prometeram uma doação generosa que os levou a abrir uma exceção.
Fiquei tão atordoada que nem reagi com o reflexo natural de dar um tapa nele quando concluiu a fala com uma risadinha cheia de satisfação. Eu sabia que nós íamos morar juntas... mas, irmãs? Era... estranho. Não, não apenas isso. Era bizarro.
— Isso é loucura — eu disse finalmente, ainda chocada demais para elaborar uma resposta mais eloquente.
— É só no papel — ele disse.
Era verdade. Mas havia algo em ser escalada para o papel de parente de vampiro que me tirava do eixo. Tinha orgulho da maneira como aprendi a me portar perto de vampiros, mas parte disso derivava da crença sólida de que eu era uma forasteira, uma parceira de negócios diferente e afastada. Representar a irmã de Jill destruía esse raciocínio. Trazia à tona uma familiaridade para a qual eu não estava bem certa de estar preparada.
— Morar com uma delas não deve ser assim tão ruim para você — Keith comentou, batucando com os dedos na janela de um jeito que deixou meus nervos à flor da pele. Algo em seu tom despreocupado demais me fez pensar que ele estava me levando para uma armadilha. — Você está acostumada a isso.
— Não diria que estou — respondi, escolhendo as palavras com cuidado. — Passei uma semana com eles, no máximo. E, na verdade, a maior parte do tempo estive com dampiros.
— É tudo igual — ele respondeu, vago. — Se é para diferenciar, acho que os dampiros são piores. São abominações. Não são humanos, mas também não são totalmente vampiros. São produtos de uniões antinaturais.
Não respondi imediatamente e, em vez disso, fingi estar profundamente interessada na estrada à minha frente. O que ele dissera era verdade, de acordo com os ensinamentos dos alquimistas. Eu tinha sido criada acreditando que ambas as raças de vampiros, Moroi e Strigoi, eram obscuras e erradas. Eles precisavam de sangue para sobreviver. Que tipo de pessoa bebia o sangue de outra? Era nojento, e só de pensar que em breve eu teria que levar uma Moroi para se alimentar me deixava enjoada.
Mas os dampiros... aquela era uma questão mais delicada. Ou, pelo menos, naquele momento era para mim. Os dampiros eram meio humanos e meio vampiros, criados em uma época em que as duas raças conviviam livremente. Com o passar dos séculos, os vampiros tinham se afastado dos humanos, e as duas raças passaram a concordar que aquelas uniões eram tabus. Mas a raça dos dampiros havia persistido, apesar de todas as probabilidades contrárias, e do fato de que os dampiros não podiam se reproduzir entre si. Podiam procriar com os Moroi ou com humanos, e muitos Moroi se apresentavam à tarefa.
— Certo? — Keith perguntou.
Percebi que ele olhava fixamente para mim, esperando que eu concordasse com ele na questão de que os dampiros eram abominações — ou talvez estivesse torcendo para eu discordar. De qualquer modo, tinha ficado em silêncio durante tempo demais.
— Certo — eu disse. Soltei a retórica padrão dos alquimistas. — Em certos aspectos, eles são piores do que os Moroi. A raça deles nunca devia ter surgido.
— Você me assustou por um segundo — Keith disse. Eu estava de olho na estrada, mas fiquei com a desconfiança chata de que ele tinha piscado para mim. — Achei que você fosse defendê-los. Eu não devia acreditar nas histórias a seu respeito. Entendo totalmente por que você quis jogar com a glória... mas, cara, deve ter sido difícil tentar trabalhar com um deles.
Não dava para explicar como era fácil esquecer que Rose Hathaway era dampira depois de passar certo tempo com ela. Até do ponto de vista físico, dampiros e humanos eram praticamente idênticos. Rose era tão cheia de vida e de paixão que às vezes parecia mais humana do que eu. Rose certamente não teria aceitado aquele trabalho de maneira tão dócil, com um “sim, senhor” cheio de afetação. Não como eu fiz.
Rose não tinha aceitado nem ser trancada na cadeia, com o peso do governo Moroi sobre ela. A chantagem de Abe Mazur tinha sido o catalisador que me levou a ajudá-la, mas eu nunca cheguei a acreditar que Rose tinha cometido o assassinato do qual fora acusada. Essa certeza, junto com a nossa amizade frágil, tinha me levado a desrespeitar as regras dos alquimistas e ajudar Rose e seu namorado dampiro, o formidável Dimitri Belikov, a enganar as autoridades. Enquanto tudo aquilo acontecia, eu observava Rose com uma espécie de encantamento pela sua batalha contra o mundo. Não tinha como ter inveja de alguém que não era humana, mas certamente podia invejar a força dela — e sua recusa em desistir, independente de qualquer coisa.
Mas, de novo, não dava para dizer isso a Keith. E, apesar de sua atitude bem-humorada, eu continuava sem acreditar que de repente ele começou a achar ótimo que eu participasse da missão.
Dei de ombros de leve.
— Achei que o risco valia a pena.
— Bom — ele disse ao perceber que eu não ia dizer mais nada. — Da próxima vez que você resolver se rebelar e ficar do lado de vampiros e dampiros, providencie um pouco de retaguarda para não se meter em tanta confusão.
Eu desdenhei.
— Não tenho intenção de voltar a me rebelar — pelo menos isso era verdade.
Chegamos a Palm Springs no fim da tarde e começamos a trabalhar imediatamente nas nossas tarefas. Àquela altura, eu já estava louca para dormir, e até Keith — apesar de sua tagarelice — parecia um pouco acabado. Mas nós recebemos a informação de que Jill e sua comitiva chegariam no dia seguinte, por isso tínhamos muito pouco tempo para dar conta dos últimos detalhes.
Uma visita à Escola Preparatória Amberwood revelou que a minha “família” estava crescendo. Parecia que o dampiro que acompanhava Jill também iria se matricular e fazer o papel de nosso irmão. Keith também seria nosso irmão. Quando questionei isso, ele explicou que precisávamos de alguém por perto para fazer o papel de guardião legal, para o caso de Jill ou algum de nós precisar ser tirado da escola ou receber algum privilégio. Como os nossos pais fictícios moravam em outro estado, conseguir autorizações com ele seria mais fácil. Eu não podia questionar a lógica, apesar de achar que ser parente dele era ainda mais repulsivo do que ter dampiros ou vampiros na família. E isso significava bastante.
Mais tarde, uma carteira de motorista feita por um falsificador de boa reputação declarava que eu agora era Sydney Katherine Melrose, da Dakota do Sul. Escolhemos Dakota do Sul porque achamos que o pessoal local não estava muito acostumado a ver carteiras de motorista de lá, e então não seria capaz de notar qualquer falha nas nossas.
Não que eu achasse que haveria alguma. Os alquimistas não se associavam a pessoas que faziam trabalho de segunda linha. Também gostei da imagem do monte Rushmore no documento. Era um dos poucos lugares dos Estados Unidos que eu nunca tinha visitado.
O dia terminou com a parte pela qual eu mais esperava: uma visita a uma concessionária de carros. Keith e eu negociamos tanto entre nós quanto com o vendedor.
Eu tinha sido criada para ser prática e manter minhas emoções sob controle, mas adorava carros. Essa era uma das poucas coisas que eu puxara da minha mãe. Ela trabalhava como mecânica, e algumas das minhas melhores lembranças de infância haviam acontecido enquanto a ajudava na oficina.
Eu tinha uma queda específica por carros esportivos e carros antigos, daqueles com motor potente que eu sabia que prejudicavam o meio ambiente — mas, mesmo com culpa, eu os adorava. Mas eles estavam fora de questão para este trabalho. Keith argumentou que eu precisava de algo em que coubessem todos nós e mais alguma carga — e que não chamasse muita atenção. Mais uma vez, eu concordei com o raciocínio dele, como uma alquimista boazinha.
— Mas não sei por que precisa ser uma perua — eu disse a ele.
Nossa negociação tinha nos levado a um Subaru Outback novo, que atendia à maior parte das exigências dele. Os meus instintos automobilísticos me diziam que o Subaru serviria para as minhas necessidades. Seria bom de dirigir e o motor era decente para sua categoria. No entanto...
— Estou me sentindo como se fosse uma mãe suburbana — eu disse. — Sou nova demais para isso.
— Mães suburbanas andam de minivans — Keith falou. — E não há nada de errado com o subúrbio.
Desdenhei.
— Mas precisa mesmo ser marrom?
Precisava, a não ser que nós quiséssemos um carro usado. Por mais que eu preferisse algo azul ou vermelho, o fato de ser novo se sobrepunha. A minha natureza rabugenta não gostava da ideia de dirigir o carro “de outra pessoa”. Eu queria que fosse meu — novo, limpo e reluzente. Por isso, fechamos negócio, e eu, Sydney Melrose, tornei-me a orgulhosa proprietária de uma perua marrom. Dei a ela o nome de Pingado, na esperança de que o meu amor por café logo se transferisse para o carro.
Quando terminamos nossos afazeres, Keith me deixou e foi para seu apartamento em Palm Springs. Ele ofereceu que eu passasse a noite lá, mas recusei com educação e preferi um quarto de hotel, agradecida pelo fato de os alquimistas terem bons recursos financeiros. Sinceramente, eu teria pagado do meu bolso para não ter que dormir sob o mesmo teto que Keith Darnell.
Pedi um jantar leve no quarto e aproveitei o tempo a sós depois de tantas horas no carro com Keith. Então vesti um pijama e resolvi ligar para a minha mãe. Apesar de estar contente de me livrar da reprovação do meu pai por um tempo, sentiria falta de estar perto dela.
— São bons carros — ela me disse depois que eu comecei a nossa conversa contando sobre a visita à concessionária. A minha mãe sempre teve espírito livre, coisa que não combinava em nada com alguém como o meu pai. Enquanto ele me ensinava equações químicas, ela me mostrava como trocar o óleo do carro. Os alquimistas não eram obrigados a se casar com outros alquimistas, mas não conseguia entender que forças teriam atraído os meus pais. Talvez meu pai fosse menos tenso quando era mais jovem.
— Acho que sim — eu disse, ciente de que parecia desanimada. A minha mãe era uma das poucas pessoas com quem podia ficar à vontade mesmo que não fosse perfeita ou contente o tempo inteiro. Ela era uma grande defensora de deixar os sentimentos livres.
— Acho que estou incomodada porque não tive muita escolha nessa missão.
— Incomodada? Eu estou furiosa por ele não ter sequer falado comigo sobre isso — ela bufou. — Não acredito que ele contrabandeou você para longe sem mais nem menos! Você é minha filha, não um objeto que ele pode simplesmente mandar para lá e para cá.
Por um instante, de um jeito estranho, minha mãe me lembrou Rose — as duas possuíam uma tendência inabalável de dizer tudo que lhes passava pela cabeça. Essa capacidade me parecia estranha e exótica, mas às vezes — quando eu pensava a respeito da minha própria natureza tão controlada e cuidadosamente reservada — ficava imaginando se a esquisita não era eu.
— Ele não sabia de todos os detalhes — eu disse, defendendo-o de maneira automática. Com o temperamento do meu pai, se os dois ficassem brigados, a vida em casa seria péssima para Zoe... isso sem falar na minha mãe. Era melhor garantir a paz. — Não tinham dito tudo para ele.
— Às vezes eu odeio essa gente — havia um rugido na voz da minha mãe. — Às vezes odeio ele também.
Eu não sabia muito bem o que dizer diante disso. Eu tinha ressentimentos do meu pai, claro, mas ele continuava sendo o meu pai. Muitas escolhas difíceis que ele fez foram por causa dos alquimistas, e eu sabia que, por mais que me sentisse sufocada de vez em quando, o trabalho dos alquimistas era importante. Os humanos tinham que ser protegidos da existência dos vampiros. Saber que os vampiros existiam criaria pânico. Pior ainda: poderia levar alguns dos humanos fracos de espírito a se tornarem escravos dos Strigoi em troca da imortalidade, culminando na corrupção das almas. Isso acontecia com mais frequência do que gostaríamos de reconhecer.
— Não faz mal, mãe — eu disse para acalmá-la. — Eu estou bem. Não estou mais metida em confusão, e até estou nos Estados Unidos.
Na verdade, eu não sabia se a parte da confusão era verdade, mas achei que a segunda informação iria acalmá-la. Stanton tinha me dito para manter a nossa localização em Palm Springs em segredo, mas informar que não tínhamos saído do país não faria assim tão mal, e minha mãe pensaria que eu tinha pela frente um trabalho mais fácil do que provavelmente era. Eu e ela conversamos mais um pouco antes de desligar, e ela me disse que tinha recebido notícias da minha irmã Carly. Tudo estava bem com ela na faculdade, e fiquei aliviada em saber. Estava desesperada para ter notícias de Zoe também, mas resisti e não pedi para falar com ela. Estava com medo de que, se ela pegasse o telefone, eu descobrisse que continuava irritada comigo. Ou, pior ainda, que nem queria falar comigo.
Fui para a cama me sentindo melancólica; queria ter sido capaz de colocar para fora todos os meus medos e inseguranças para a minha mãe. Não era isso que mães e filhas normais faziam? Eu sabia que ela teria gostado. Era eu que tinha dificuldades em me abrir. Estava envolvida demais nos segredos dos alquimistas para ser uma adolescente normal.
Depois de dormir bastante, e com o sol da manhã entrando pela janela, eu me senti um pouco melhor. Tinha um trabalho a fazer, e ter um objetivo me fez parar de sentir pena de mim mesma. Eu me lembrei de que estava fazendo aquilo por Zoe, pelos Moroi e pelos humanos ao mesmo tempo. Assim fui capaz de encontrar o meu eixo e colocar minhas inseguranças de lado — pelo menos por ora.
Busquei Keith por volta do meio-dia e fomos até os arredores da cidade para encontrar Jill e o Moroi recluso que nos ajudaria. Keith tinha muito a dizer a respeito do homem, que se chamava Clarence Donahue. Fazia três anos que ele morava em Palm Springs, desde que a sobrinha dele havia morrido em Los Angeles — acontecimento que aparentemente tinha surtido efeito traumático sobre o homem. Keith tinha se encontrado com ele um par de vezes em trabalhos anteriores e ficava fazendo piadas sobre o contato frágil que Clarence tinha com a sanidade mental.
— Ele tem alguns litros de sangue a menos, sabe como é? — Keith disse e deu risada para si mesmo. Aposto que estava havia dias querendo usar essa piada.
As brincadeiras dele eram de mau gosto — e idiotas até não poder mais — mas, na medida em que nos aproximávamos da casa de Clarence, Keith ia ficando muito quieto e nervoso. Algo me ocorreu.
— Quantos Moroi você já conheceu? — perguntei quando saímos da rua principal e entramos em uma alameda comprida e cheia de curvas. A casa parecia ter saído diretamente de um filme gótico, quadradona e feita de tijolos cinzentos que não combinavam em nada com a maior parte da arquitetura de Palm Springs que tínhamos visto. A única coisa que lembrava o sul da Califórnia eram as palmeiras onipresentes que rodeavam a casa. Era uma combinação estranha.
— O suficiente — Keith disse vagamente. — Sou capaz de suportar a presença deles.
O tom de confiança em sua voz parecia forçado. Percebi que, apesar de sua arrogância em relação àquele trabalho, seus comentários a respeito da raça dos Moroi e dos dampiros, e a avaliação que fez das minhas ações, Keith na verdade não se sentia nada, nadinha confortável com a ideia de ficar perto de não humanos. Era compreensível. A maior parte dos alquimistas se sentia assim. Uma grande parte do nosso trabalho nem incluía interagir com o mundo dos vampiros — era o mundo dos humanos que necessitava dos nossos cuidados. Registros tinham que ser acobertados; testemunhas, subornadas. A maior parte dos alquimistas tinha muito pouco contato com os seres centrais do nosso trabalho, e isso significava que o conhecimento da maior parte dos alquimistas sobre os vampiros vinha de histórias e ensinamentos passados de geração em geração nas famílias. Keith disse que conhecia Clarence, mas não mencionou ter convivido com mais nenhum outro Moroi ou dampiro — certamente nunca tinha encarado um grupo como o que estávamos prestes a conhecer.
Eu não estava mais animada do que ele para ficar perto de vampiros, mas percebi que a ideia já não me amedrontava tanto quanto no passado. Rose e seus companheiros tinham feito com que eu criasse uma couraça. Eu já tinha até visitado a corte real dos Moroi, um lugar aonde poucos alquimistas tinham ido. Se consegui sair do coração da civilização deles intacta, tinha certeza de que seria capaz de dar conta de qualquer coisa que se encontrasse no interior daquela casa. Reconheço que seria um pouco mais fácil se a casa de Clarence não se parecesse tanto com uma mansão assombrada de filme de terror.
Caminhamos até a porta em uma demonstração de equipe unida, vestindo trajes formais e elegantes. Por mais que Keith tivesse defeitos, sua aparência era boa. Ele usava calça de sarja com camisa branca e gravata de seda azul-marinho. A camisa tinha manga curta, mas duvido que aliviasse muito o calor. Estávamos no início de setembro e a temperatura passava dos trinta graus quando saí do hotel. Estava igualmente bem-vestida, com uma saia marrom, meia-calça e uma blusa bege com manguinha solta e estampa de flores.
Quando já era tarde demais, percebi que estávamos meio que combinando.
Keith ergueu a mão para bater na porta, mas ela se abriu antes que ele fizesse qualquer coisa. Eu me encolhi, um pouco nervosa apesar das garantias que tinha acabado de dar a mim mesma.
O sujeito que abriu a porta pareceu tão surpreso quanto nós. Ele segurava um maço de cigarros e devia estar saindo para fumar. Fez uma pausa e nos examinou de cima a baixo.
— Então. Vieram aqui para me converter ou para vender revestimento de parede?
O comentário para nos desarmar foi suficiente para espantar minha ansiedade. O homem que falava era um Moroi, um pouco mais velho do que eu, com cabelos castanho-escuros que sem dúvida haviam sido penteados com muito cuidado para parecerem desgrenhados. Diferente das tentativas de Keith com uma quantidade enorme e ridícula de gel, o sujeito tinha feito de um jeito que realmente ficava bom. Assim como todos os Moroi, ele era pálido e alto, com um tipo físico esguio. Olhos verde-esmeralda nos examinavam a partir de um rosto que podia ter sido esculpido por um dos artistas clássicos que eu tanto admirava. Chocada, recusei a comparação assim que surgiu na minha mente. Afinal de contas, ele era um vampiro. Era ridículo admirá-lo da mesma forma que eu faria com um humano.
— Sr. Ivashkov — eu disse com educação. — É bom encontrá-lo novamente.
Ele franziu a testa e me examinou do alto de sua estatura.
— Eu conheço você. De onde te conheço?
— Nós... — eu comecei a dizer “nos conhecemos”, mas percebi que não seria bem exato, já que não tínhamos sido formalmente apresentados na última vez que o vi. Ele apenas estava presente quando Stanton e eu fomos levadas à corte Moroi para interrogatório. — Nós nos cruzamos no mês passado. Na sua corte.
A lembrança acendeu seus olhos.
— Certo. A alquimista — ele pensou por um momento, e então me surpreendeu ao resgatar meu nome pela memória. Com tudo mais que estava acontecendo quando estive na corte Moroi, não achava que minha presença teria sido notada. — Sydney Sage.
Assenti, tentando não parecer aturdida por ele ter me reconhecido. Então percebi que Keith estava paralisado ao meu lado. Ele tinha afirmado que era capaz de “suportar” a proximidade com os Moroi, mas parece que isso significava ficar encarando, de queixo caído e sem proferir nenhuma palavra. Com um sorriso amável no rosto, eu disse:
— Keith, este é Adrian Ivashkov. Adrian, este é meu colega Keith Darnell.
Adrian estendeu a mão, mas Keith não o cumprimentou. Se era porque ainda estava chocado ou porque simplesmente não queria tocar em um vampiro, não soube dizer.
Adrian pareceu não se incomodar. Baixou a mão, pegou um isqueiro e saiu andando para longe da casa. Fez um sinal com a cabeça na direção da porta.
— Estão à espera de vocês. Podem entrar — Adrian se inclinou para perto do ouvido de Keith e falou com voz cavernosa. — Se. Tiver. Coragem. — Cutucou o ombro de Keith e soltou uma risada monstruosa, do tipo “muahahahaha”.
Keith quase deu um salto olímpico. Adrian deu risada e seguiu por um caminho no jardim, acendendo o cigarro enquanto caminhava. Olhei feio para ele — apesar de aquilo ter sido meio engraçado — e empurrei Keith em direção à porta.
— Vamos — eu disse. Senti o frio do ar-condicionado na minha pele.
Para não dizer outra coisa, Keith pareceu ter voltado à vida.
— O que foi aquilo? — ele questionou quando entramos na casa. — Ele quase me atacou!
Fechei a porta.
— Aquilo foi você fazendo papel de idiota. E ele não fez nada contra você. Não tinha como você parecer mais apavorado. Eles sabem que não gostamos deles, e pela sua cara você estava prestes a sair correndo.
Reconheço que até que gostei de ver Keith sendo pego de surpresa, mas a solidariedade humana não deixava dúvidas quanto ao lado de quem eu estava.
— Não estava nada — Keith retrucou, apesar de obviamente estar envergonhado. Caminhamos por um corredor comprido com piso de madeira e acabamento tão escuro que parecia absorver toda a luz. — Meu Deus, mas qual é o problema dessa gente? Ah, já sei. Eles não são gente.
— Quieto — eu disse, um pouco chocada com a veemência da voz dele. — Eles estão logo ali. Não está escutando?
Encontramos portas envidraçadas pesadas no fim do corredor. O vidro era fosco e manchado, escondendo o que havia do outro lado, mas mesmo assim dava para escutar um murmúrio baixo de vozes. Bati na porta e esperei até uma voz me dizer para entrar.
A raiva no rosto de Keith desapareceu quando nós dois trocamos um breve olhar de solidariedade. Era isto. O início.
Atravessamos a porta.
Quando vi quem estava presente, tive que segurar meu queixo para não cair, como o de Keith tinha caído antes.
Por um momento, não consegui respirar. Tinha caçoado Keith por ficar com medo perto de vampiros e dampiros; mas agora, cara a cara com um grupo deles, de repente me senti encurralada. As paredes ameaçavam se fechar à minha volta, e a única coisa em que conseguia pensar eram caninos e sangue. O meu mundo desmoronou — e não só por causa do tamanho do grupo.
Abe Mazur estava ali.
Respire, Sydney, respire, disse a mim mesma. Mas não era fácil. Abe representava mil medos para mim, mil problemas em que havia me metido.
Lentamente, tudo à minha volta se cristalizou e eu retomei o controle. Abe não era o único presente, afinal de contas, e me forcei a me concentrar nos outros e ignorá-lo.
Três outras pessoas o acompanhavam, sendo que duas delas eu reconhecia. O outro, um Moroi mais velho de cabelo ralo e grosso bigode branco, devia ser nosso anfitrião, Clarence.
— Sydney! — Foi Jill Mastrano que falou, com os olhos brilhantes de alegria. Eu gostava de Jill, mas não achava que tinha causado tamanha impressão na menina para provocar tal recepção. Jill dava a impressão de estar pronta para se levantar em um pulo e me dar um abraço, e rezei para que não fizesse isso. Eu não precisava que Keith visse uma cena dessas. E, mais importante, não precisava que Keith fizesse um relatório a respeito disso.
Ao lado de Jill havia um dampiro que eu conhecia da mesma maneira que conhecia Adrian — quer dizer, só de vista. Eddie Castile também estava presente quando fui interrogada na corte real e, se me lembro bem, ele mesmo tinha se metido em alguma confusão. Para todos os efeitos, ele parecia humano, com corpo atlético e rosto de quem passava muito tempo sob o sol. O cabelo dele era castanho cor de areia, e seus olhos de avelã olhavam para mim e Keith de maneira simpática — ainda que cautelosa. Era assim que funcionava com os guardiões. Estavam sempre alertas, sempre de olho na próxima ameaça. Em certos aspectos, eu considerava isso reconfortante.
Minha inspeção da sala logo me fez retornar a Abe, que me observava e parecia se divertir com a minha tentativa descarada de evitá-lo. Um sorriso sorrateiro se espalhou por seu rosto.
— Ora, srta. Sage — ele disse devagar. — Não vai me cumprimentar?

4 comentários:

  1. Se. Tiver. Coragem. — Cutucou o ombro de Keith e soltou uma risada monstruosa, do tipo “muahahahaha”.
    hhahahahah Adrian SENDO ADRIAN <3 aiaiaiai que saudadesssssssssssssssssssss Adriannnnnn

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  2. Que saudade do Adrian cara, a Rose ratiou feio com ele. Meu lindo <3

    To um pouco confusa nos detalhes, faz tempo que li Academia de Vampiros, então tem coisas que eu não lembro :/

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Boa leitura :)