27 de setembro de 2017

Capítulo 27

ACHO QUE ADRIAN TERIA CONCORDADO com qualquer coisa para ter um apartamento só dele. Ele não perdeu tempo em transferir seus poucos pertences para o antigo apartamento de Keith, para o desalento de Clarence. Precisei reconhecer que fiquei meio mal pelo senhor de idade. Ele tinha passado a gostar de Adrian, e perdê-lo logo depois de Lee foi especialmente difícil. Clarence continuou disponibilizando sua casa e sua fornecedora para o nosso grupo, mas se recusou a acreditar em qualquer coisa que lhe dissemos a respeito de Lee e os Strigoi. Mesmo depois de aceitar que Lee estava morto, Clarence continuou culpando os caçadores de vampiros.
Pouco depois de Adrian se mudar, fui ver como ele estava. Tinham nos informado que o “grupo de pesquisa” dos Moroi ia chegar naquele dia, e resolvemos nos encontrar com os enviados primeiro, antes de apresentar Jill e Eddie a eles. Como tinha acontecido antes, Abe aparentemente iria acompanhar os recém-chegados, que incluíam Sonya e a nova colega de quarto de Jill. Eu tinha a impressão de que talvez houvesse outros com eles, mas ainda não tinha sido informada sobre os detalhes.
— Opa! — eu disse quando Adrian abriu a porta do apartamento para mim.
Ele só estava lá havia poucos dias, mas a transformação era impressionante. Tirando a tv, não havia sobrado nenhum móvel original. Estava tudo diferente, e até a disposição do apartamento tinha mudado. As cores da decoração também eram todas novas e havia um cheiro pesado de tinta fresca no ar.
— Amarelo, é? — perguntei ao olhar para as paredes da sala.
— O tom se chama “junco dourado” — corrigiu. — E, supostamente, é alegre e calmante.
Comecei a comentar que as duas características não andavam juntas, mas então achei que era melhor não falar nada. A cor, apesar de ser levemente detestável, tinha transformado a sala completamente. Com isso e as persianas que tinham substituído as cortinas pesadas de Keith, a sala agora estava cheia de cor e luz, o que ajudava em muito a obscurecer a lembrança da batalha. Estremeci ao me lembrar dela. Mesmo que o apartamento não tivesse sido necessário para conseguir a ajuda de Adrian, não sei dizer se eu o teria aceitado e me mudado para lá. A lembrança da morte de Lee — e das duas mulheres Strigoi — era forte demais.
— Como foi que você teve dinheiro para comprar móveis novos? — perguntei. Os alquimistas tinham lhe dado o lugar, mas não havia mais nenhuma verba incluída.
— Eu vendi as coisas antigas — Adrian disse, aparentemente muito contente. — Aquela poltrona reclinável... — a voz dele sumiu e uma expressão de perturbação cruzou seu rosto por um instante. Fiquei imaginando se ele também ficava se lembrando da vida de Lee se esvaindo junto com seu sangue, sugado naquela poltrona. — Aquela poltrona valia muito dinheiro. O preço dela é um exagero de caro, até para os meus padrões. Mas consegui o suficiente por ela para poder substituir o resto. É tudo usado, mas que opção eu tinha?
— Ficou legal — eu disse, passando a mão em um sofá xadrez estofado demais. Ficava horroroso com aquelas paredes, mas parecia estar em bom estado. Além do mais, assim como o tom amarelo berrante das paredes, a mobília nada convidativa ajudava a amenizar as lembranças do que tinha acontecido. — Você deve ter feito compras bem econômicas. Deixe-me adivinhar: você não está acostumado a comprar muitas coisas usadas.
— Fique sabendo que eu nunca tinha feito isso — ele disse. — Você não faz ideia das coisas a que eu tive que me rebaixar. — O sorriso contente dele diminuiu quando me observou com cuidado. — Como você está indo?
Dei de ombros.
— Tudo bem. Por que seria diferente? O que aconteceu comigo não é nem de longe tão ruim quanto as coisas por que Jill passou.
Ele cruzou os braços.
— Não sei. Jill não viu um sujeito ser morto na frente dela. E não vamos esquecer que era o mesmo sujeito que quis matar você apenas momentos antes, para poder voltar a se erguer dos mortos.
Essas eram coisas que definitivamente tinham ocupado demais a minha mente na semana anterior, coisas que eu iria demorar um pouco para superar. Às vezes eu não sentia absolutamente nada. Outras vezes, a realidade do que tinha acontecido desabava sobre mim com tanta força e peso que eu não conseguia respirar. Pesadelos com Strigoi tinham substituído os dos centros de reeducação.
— Na verdade, estou melhor do que você pode imaginar — eu disse devagar, olhando para nada em específico. — Tipo, o que aconteceu com Lee e o que ele fez é terrível, mas sinto que vou superar com o tempo. Mas sabe qual é a coisa em que eu mais fico pensando?
— O quê? — Adrian perguntou com gentileza.
As palavras pareceram sair sem o meu controle. Eu não esperava dizê-las a ninguém, e certamente não a ele.
— Lee ter me dito que eu estava desperdiçando a minha vida e me mantendo distante das pessoas. E daí, no meu último encontro com Keith, ele me disse que eu era ingênua, que não entendia o mundo. E é verdade de certo modo. Quer dizer, não o que ele disse sobre vocês serem do mal... mas, bom, eu fui ingênua. Eu devia ter tomado mais cuidado com Jill. Acreditei no melhor de Lee, mas devia ter sido mais precavida. Eu não sou uma lutadora como Eddie, mas sou uma observadora do mundo... ou pelo menos é o que gosto de pensar. Mas fracassei. Não sou boa no trato com as pessoas.
— Sage, o seu primeiro erro em tudo isto é dar ouvidos a qualquer coisa que Keith Darnell diz. O sujeito é um idiota, um imbecil e mais uma dúzia de palavras que não são adequadas para uma dama como você.
— Está vendo? — eu disse. — Você acabou de admitir que eu sou algum tipo de alma intocável e pura.
— Nunca disse nada parecido — ele retrucou. — Quero dizer que você está léguas acima de Keith, e que o que aconteceu com Lee foi um azar idiota e ridículo. E lembre-se de que nenhum de nós percebeu o que ia acontecer, não foi só você. Isso não tem nenhuma repercussão sobre você. Ou... — as sobrancelhas dele se ergueram. — Talvez tenha. Você não disse que Lee pensou em matar Keith para conseguir o sangue de alquimista?
— Disse... mas Keith foi embora cedo demais.
— Bom, então pronto. Até um psicopata reconheceu o seu valor o suficiente para querer matar outra pessoa primeiro.
Eu não sabia se ria ou se chorava.
— Isso não faz com que eu me sinta melhor.
Adrian deu de ombros.
— O que eu tinha dito continua valendo. Você é uma pessoa sólida, Sage. Você faz bem para os olhos, apesar de ser um pouco magra, e a sua capacidade de memorizar informação inútil vai sem dúvida fazer algum cara se amarrar. Tire Keith e Lee da cabeça, porque eles não estão nem um pouco envolvidos no seu futuro.
— Magra? — perguntei, torcendo para não estar vermelha.
Também torcia para parecer ultrajada o suficiente para que ele não notasse como o outro comentário tinha me desarmado. Faz bem para os olhos. Não é exatamente a mesma coisa que dizer que eu era a gostosura em pessoa ou linda de morrer. Mas depois de passar a vida toda vendo a minha aparência ser julgada como “aceitável”, era um elogio e tanto — principalmente vindo dele.
— Só estou dizendo as coisas como elas são.
Quase dei risada.
— É, é isso mesmo. Agora, por favor, fale de outro assunto. Estou cansada desse.
— Claro que sim — Adrian às vezes me enfurecia, mas eu tinha que admitir que adorava sua curta capacidade de atenção. Isso tornava bem mais fácil evitar os assuntos desconfortáveis. Ou pelo menos era o que eu pensava. — Está sentindo esse cheiro?
Uma imagem dos corpos passou pela minha cabeça e, por um momento, só consegui pensar que ele estava falando do cheiro de podridão. Então respirei mais fundo.
— Estou sentindo o cheiro da tinta, e... espere... isso é pinho?
Ele pareceu impressionado.
— Nossa, está certa. Produto de limpeza com cheiro de pinho. Ou seja, eu limpei — ele fez um gesto dramático para a cozinha. — Com estas mãos, estas mãos que não fazem trabalho pesado.
Olhei para a cozinha.
— No que você usou o produto? Nos armários?
— Os armários estão ótimos. Eu limpei o chão e a pia. — Devo ter parecido mais confusa do que surpresa, porque ele acrescentou: — Até me ajoelhei.
— Você usou pinho no piso e na pia? — perguntei. O piso era de lajota de cerâmica; a pia era de granito.
Adrian franziu a testa.
— Passei, e daí?
Ele parecia tão orgulhoso por realmente ter limpado algo uma vez na vida que eu não tive coragem de dizer a ele que produto de limpeza com cheiro de pinho geralmente era usado em madeira. Lancei um sorriso de incentivo para ele.
— Bom, está ótimo. Agora preciso que você vá até o meu alojamento para limpar o meu quarto. Está coberto de poeira.
— De jeito nenhum, Sage. Limpar a minha própria casa já é ruim o bastante.
— Mas será que vale a pena? Se ficasse na casa de Clarence, teria uma cozinheira e faxineira residente.
— Com certeza absoluta, vale a pena. Eu nunca tive uma casa minha de verdade. Meio que tinha na corte... mas estava mais para um dormitório chique. Mas, isto? Isto aqui é maravilhoso. Mesmo que precise limpar. Obrigado.
A expressão cômica de horror que ele tinha no rosto enquanto falava da limpeza da casa tinha sido substituída por seriedade, enquanto aqueles olhos verdes me avaliavam. De repente me senti pouco à vontade sob seu exame e me lembrei do sonho de espírito, em que eu tinha questionado se os olhos dele eram mesmo tão verdes na realidade.
— Por quê? — perguntei.
— Por isto... eu sei que você deve ter torcido alguns braços de alquimista. — Eu não tinha dito a ele que na verdade tinha recusado o apartamento. — E por tudo o mais. Por não ter desistido de mim, mesmo quando eu fui o maior imbecil. E, sabe, pela parte de ter salvado a minha vida.
Desviei o olhar.
— Eu não fiz nada. Foi Eddie... e Jill que fizeram isso. Foram eles que salvaram você.
— Não sei muito bem se estaria vivo para o salvamento deles se você não tivesse posto fogo naquela vaca. Como fez aquilo?
— Não foi nada — retruquei. — Foi só, hum, uma reação química do arsenal de truques dos alquimistas.
Aqueles olhos me examinaram mais uma vez, pesando a verdade das minhas palavras. Não tenho certeza se ele acreditou em mim, mas deixou passar.
— Bom, pela cara com que ela ficou, a sua pontaria foi certeira. E depois você levou o troco por causa disso. Qualquer pessoa que apanha por Adrian Ivashkov merece certo crédito.
Eu me virei de costas para ele, ainda tímida com o elogio — e nervosa com a referência ao fogo — e fui até a janela.
— Mas você pode ficar tranquilo, porque foi um ato egoísta. Você não faz ideia do saco que é preencher a papelada quando um Moroi morre.
Ele deu risada, e foi uma das poucas vezes que eu o ouvi rir com humor e calor verdadeiros — e não por causa de alguma coisa distorcida ou sarcástica.
— Certo, Sage. Se está dizendo... Sabe, você hoje é muito mais espirituosa do que quando a gente se conheceu.
— É mesmo? Com todos os adjetivos do mundo à sua disposição, você escolhe “espirituosa”? — Suas brincadeiras eu era capaz de encarar. Desde que ele se concentrasse naquilo, eu não ia precisar pensar no significado por trás das palavras nem em como meu coração começou a bater só um pouquinho mais rápido. — Só para você saber, você hoje é um pouco mais estável do que quando a gente se conheceu.
Ele se aproximou e parou ao meu lado.
— Bom, não conte para ninguém, mas acho que sair da corte me fez bem. Este clima é um saco, mas Palm Springs pode fazer bem para mim... isso e todas as maravilhas que tem aqui. Vocês. Aulas de arte. Produto de limpeza com cheiro de pinho.
Não consegui segurar um sorriso e olhei para ele. Eu estava fazendo piada, mas era verdade: ele tinha mudado de maneira notável desde que tínhamos nos conhecido. Ainda havia um homem que sofria lá dentro, que carregava as cicatrizes daquilo que Rose e Dimitri tinham feito com ele, mas dava para ver os sinais de melhora. Agora ele estava mais firme e mais forte, e se conseguisse continuar nos trilhos, sem crises por um tempo, uma transformação notável poderia acontecer de verdade.
Demorou vários segundos de silêncio para que eu percebesse que estava olhando fixamente para ele, enquanto a minha mente tecia esses pensamentos. E, na verdade, ele olhava fixo para mim também, com um ar de encantamento.
— Meu Deus, Sage. Os seus olhos. Como foi que eu nunca reparei neles?
Aquela sensação desconfortável se espalhava por mim mais uma vez.
— O que têm eles?
— A cor — ele disse sem fôlego. — Quando você fica na luz. Eles são fantásticos... como ouro derretido. Eu poderia pintá-los... — ele estendeu a mão na minha direção, mas então recuou. — São lindos. Você é linda.
Algo na maneira como ele olhava para mim me paralisou e fez o meu estômago dar cambalhotas, mas não sabia deduzir exatamente por quê. Só sabia que ele parecia estar me enxergando pela primeira vez... e aquilo me assustou. Conseguia deixar para lá os elogios fáceis e engraçadinhos dele, mas aquela intensidade era algo completamente diferente, algo a que eu não sabia como reagir. Quando ele olhou para mim daquele jeito, eu acreditei que ele achava os meus olhos bonitos — que eu era bonita. Aquilo era mais do que eu estava pronta para ouvir. Sem jeito, dei um passo para trás, para longe do sol, com a necessidade de me afastar da energia do olhar dele. Eu tinha ouvido dizer que o espírito poderia enviá-lo a tangentes estranhas, mas não fazia ideia se era isso. Fui salva da minha tentativa parca de dar forma a algum comentário espertinho quando uma batida na porta nos causou um sobressalto.
Adrian piscou, e um pouco daquela conexão se desfez. Os lábios dele se torceram em um de seus sorrisinhos maliciosos e foi como se nada de estranho tivesse acontecido.
— Está na hora do show, hein?
Assenti, agitada com uma mistura confusa de alívio, nervosismo e... animação. Só não sabia se os sentimentos tinham sido causados por Adrian ou pelos visitantes que chegavam. A única coisa que eu sabia era que de repente consegui respirar com mais facilidade do que alguns momentos antes.
Ele atravessou a sala e abriu a porta com um floreio. Abe entrou esvoaçante, resplandecente com um terno cinza e amarelo que combinava de maneira desconcertante com a pintura de parede de Adrian. Um sorriso enorme se abriu no rosto do Moroi mais velho.
— Adrian, Sydney... como é adorável vê-los de novo. Acredito que um de vocês já conheça esta mocinha, não? — Ele passou por nós e revelou uma garota dampira magra, com cabelo castanho avermelhado e olhos azuis grandes cheios de desconfiança.
— Olá, Angeline — eu disse.
Quando me disseram que Angeline Dawes iria ser a nova colega de quarto de Jill, achei que era a coisa mais ridícula que eu já tinha escutado. Angeline fazia parte dos conservadores, um grupo separatista de dampiros, humanos e Moroi que viviam juntos nas florestas da Virgínia Ocidental. Eles não queriam saber da “civilização” de nenhuma das nossas raças e tinham diversos costumes bizarros, não sendo o pior deles sua abominável tolerância a relacionamentos inter-raciais.
Depois, quando pensei melhor, cheguei à conclusão de que Angeline talvez não fosse uma escolha tão ruim. Ela tinha a mesma idade que Jill, provavelmente iria lhe oferecer uma conexão mais próxima do que eu era capaz de dar. Angeline, apesar de não ter sido treinada da mesma maneira que um guardião como Eddie era, de todo modo seria capaz de se dar bem em uma briga. Se alguém atacasse Jill, teriam muito trabalho para passar por Angeline. E com a aversão que o povo de Angeline tinha em relação aos Moroi “maculados”, ela não teria motivo para dar apoio à política de qualquer facção rival. Mas, enquanto eu a observava com suas roupas gastas, fiquei pensando em como ela iria se adaptar a ficar longe dos conservadores. Ela tinha uma expressão arrogante no rosto que eu tinha visto quando visitara sua comunidade, mas aqui ela ficava menos acentuada, por causa do nervosismo, enquanto ela ia absorvendo a casa de Adrian.
Depois de passar a vida toda morando na floresta, aquele apartamentinho com sua tv e seu sofá xadrez provavelmente era o auge do luxo moderno.
— Angeline — Abe disse. — Este aqui é Adrian Ivashkov.
Adrian estendeu a mão e ligou seu charme natural.
— Prazer.
Ela apertou a mão dele depois de hesitar por um momento.
— Prazer em conhecer — ela disse com seu estranho sotaque do sul. Ela o examinou durante mais alguns segundos. — Você parece bonito demais para ser útil.
Eu não consegui me segurar e engoli em seco. Adrian deu risada e apertou a mão dela.
— Palavras mais verdadeiras jamais foram ditas — ele falou.
Abe deu uma olhada em mim. Eu devia estar com uma expressão de terror no rosto, porque já estava imaginando o controle de danos que precisaria efetuar se Angeline dissesse ou fizesse algo completamente errado em Amberwood.
— Sydney sem dúvida vai querer... orientar você a respeito do que esperar antes que comece na escola — Abe disse, diplomático.
— Sem dúvida — repeti.
Adrian tinha se afastado de Angeline, mas continuava sorrindo.
— Deixem que a Belezinha faça isto. Melhor ainda, deixem para Castile. Vai ser bom para ele.
Abe fechou a porta, mas não antes que eu desse uma olhada atrás dele, para o corredor vazio.
— Não são só vocês dois, não é mesmo? — perguntei. — Ouvi dizer que haveria outros. Sonya é um deles, certo?
Abe assentiu.
— Eles já vêm. Estão estacionando o carro. É muito difícil estacionar na rua por aqui.
Adrian olhou para mim, atingido por uma revelação.
— Ei, eu também vou herdar o carro de Keith?
— Acredito que não — eu disse. — Era do pai dele, que pegou de volta.
Adrian ficou com a cara no chão.
Abe enfiou as mãos nos bolsos e caminhou pela sala como quem não quer nada.
Angeline permaneceu onde estava. Acho que ainda estava avaliando a situação.
— Ah, sim — Abe refletiu. — O finado e grande sr. Darnell. Aquele garoto realmente foi acometido por tragédias, não é mesmo? Que vida dura. — Ele fez uma pausa e se voltou para Adrian. — Mas você, pelo menos, parece ter se beneficiado da ruína dele.
— Opa — Adrian disse. — Eu mereci isso, portanto não venha fazer com que eu me sinta mal por ter saído da casa de Clarence. Sei que você queria que eu ficasse lá por algum motivo esquisito, mas...
— Deu certo — Abe disse com simplicidade.
Adrian franziu a testa.
— Hã?
— Você fez exatamente o que eu queria. Eu desconfiava que havia algo de estranho acontecendo com Clarence Donahue, que ele podia estar vendendo o próprio sangue. Eu achava que ter você por perto iria desvendar o caso. — Abe massageou o queixo daquele jeito de quem tem a mente cheia de tramoias. — Claro que eu não fazia ideia de que o sr. Darnell estivesse envolvido. Nem achava que você e a jovem Sydney iriam se unir para desvendar tudo.
— Eu não iria assim tão longe — disse, seca. Um pensamento estranho me ocorreu. — Por que você iria se incomodar se Keith e Clarence estivessem vendendo sangue de vampiro? Quer dizer, nós, os alquimistas, temos motivos para não desejar isso... mas por que você se sentiria assim?
Um brilho de surpresa passou pelos olhos de Adrian, seguido pela iluminação. Ele examinou Abe com cuidado.
— Talvez porque ele não queira concorrência.
Meu queixo quase caiu. Não era segredo para ninguém, nem para alquimistas nem para Moroi, que Abe Mazur fazia tráfico de bens ilegais. O fato de ele vender grandes quantidades de sangue de vampiro para humanos que desejassem a mercadoria nunca tinha me ocorrido. Mas, ao examiná-lo de maneira mais profunda, percebi que devia ter pensado nisso.
— Ora, ora — Abe disse, sem suar nem um pouquinho. — Não precisamos tocar em assuntos desagradáveis.
— Desagradáveis? — exclamei. — Se você está envolvido em algo que...
Abe ergueu a mão para me deter.
— Basta, por favor. Porque se esta frase terminar com você dizendo que vai falar com os alquimistas, então, por favor, traga-os aqui para que possamos discutir todo tipo de mistério. Digamos, por exemplo, como o sr. Darnell perdeu o olho.
Fiquei paralisada.
— Foram Strigoi que arrancaram — Adrian disse, impaciente.
— Ah, por favor — Abe disse com um sorriso torcendo seus lábios. — Minha fé em você acabou de ser restaurada. Desde quando Strigoi aleijam alguém de maneira tão precisa? E foi um aleijamento muito artístico, devo acrescentar. Não que alguém jamais tenha notado. Um talento desperdiçado, vou lhes dizer.
— Do que está falando? — Adrian perguntou, estarrecido. — Não foram Strigoi? Está dizendo que alguém arrancou o olho dele de propósito? Está dizendo que você... — ele não encontrou as palavras, e simplesmente ficou olhando de mim para Abe e vice-versa. — É isso, não é? Seus malditos acordos. Mas por quê?
Eu me encolhi toda quando três pares de olhos se fixaram em mim, mas não havia como reconhecer as peças que Adrian estava começando a encaixar. Talvez eu pudesse contar para ele se estivéssemos sozinhos. Talvez. Mas eu não podia contar para ele com Abe com aquele ar de tanta arrogância, e certamente não com uma forasteira como Angeline ali parada.
Não podia contar a Adrian como tinha encontrado a minha irmã Carly alguns anos atrás, depois de um encontro com Keith. Foi quando ele ainda estava morando conosco e logo antes de ela ir para a faculdade. Ela não queria sair com ele, mas o nosso pai adorava Keith e tinha insistido. Keith era o garoto dos olhos dele e jamais poderia fazer algo errado. Keith também acreditava nisso, e foi por isso que não conseguiu aceitar um “não” como resposta quando ele e Carly ficaram sozinhos. Ela me procurou depois: esgueirou-se para o meu quarto tarde da noite e ficou chorando enquanto eu a abraçava.
A minha reação instantânea era contar para os nossos pais, mas Carly ficou com muito medo — principalmente por causa do nosso pai. Eu era nova e fiquei quase tão assustada quanto ela, pronta para concordar com qualquer coisa que ela quisesse. Carly tinha me feito prometer que não ia contar para os nossos pais, por isso dediquei todo o meu esforço para garantir a ela que não tinha culpa. Durante todo o tempo, ela me disse, Keith ficou lhe dizendo como ela era linda e como não deixava escolha para ele, que era impossível tirar os olhos dela. Eu finalmente a convenci de que ela não tinha feito nada de errado, que não o tinha encorajado — mas ainda assim ela me fez manter a promessa de que ficaria em silêncio.
Foi um dos maiores arrependimentos da minha vida. Eu detestava o meu silêncio, mas não tanto quanto detestei Keith por achar que poderia estuprar uma pessoa tão doce e gentil quanto Carly e sair impune. Foi só bem mais tarde, quando recebi a minha primeira missão e conheci Abe Mazur, que percebi que havia outras maneiras para Keith pagar pelo que havia feito e ainda assim eu poder manter a minha promessa a ela. Por isso, fiz o meu acordo com o diabo, sem me importar que aquilo me deixaria comprometida — nem que significaria me rebaixar a níveis bárbaros de vingança. Abe tinha encenado um ataque falso de Strigoi e arrancado um olho de Keith no começo do ano. Em troca, eu tinha me transformado em uma espécie de “alquimista contratada” de Abe. Em parte, era por isso que eu tinha ajudado Rose a fugir da cadeia. Eu tinha uma dívida com ele.
Em certos aspectos, refleti com amargor, talvez eu tivesse feito um favor a Keith. Com um olho apenas, talvez ele não achasse tão “impossível” ficar afastado de moças interessantes no futuro.
Não, eu certamente não podia contar a Adrian nada disso, mas ele ainda olhava para mim com um milhão de perguntas no rosto enquanto tentava entender o que raios poderia ter me levado a contratar Abe como mercenário.
As palavras de Laurel de repente me voltaram: Sabe, às vezes você pode ser assustadora como o diabo.
Engoli em seco.
— Lembra quando você me pediu para confiar em você?
— Lembro... — Adrian respondeu.
— Preciso que faça a mesma coisa por mim.
Longos momentos se seguiram. Não conseguia olhar para Abe porque eu sabia que ele teria um sorriso malicioso nos lábios.
— “Espirituosa” foi meio que uma palavra leve — Adrian disse. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, ele assentiu devagar. — Certo. Eu confio em você, sim, Sage. Confio que você tem bons motivos para as coisas que faz.
Ele não falava com zombaria nem sarcasmo. Estava sendo absolutamente sincero e, por um momento, fiquei me perguntando como eu tinha conseguido ganhar a confiança dele de maneira tão intensa. Tive um flashback estranho dos momentos logo antes de Abe chegar, quando Adrian tinha falado sobre me pintar e os meus sentimentos ficaram todos confusos.
— Obrigada — eu disse.
— Do que é que vocês estão falando? — Angeline questionou.
— Nada de interessante, garanto — Abe respondeu. Ele realmente estava apreciando demais tudo aquilo. — Lições de vida, desenvolvimento de caráter, dívidas que não foram pagas. Esse tipo de coisa.
— Que não foram pagas? — Surpreendi a mim mesma ao dar um passo à frente e olhar muito feio para ele. — Eu paguei aquela dívida cem vezes. Não devo mais nada a você. Agora a minha lealdade é apenas aos alquimistas. Não a você. O nosso caso está terminado.
Abe ainda sorria, mas vacilou de leve. Acho que o fato de eu me defender o tinha pegado de surpresa.
— Bom, isso é o que ainda... ah. — Mais batidas na porta. — Eis aqui o resto do nosso grupo.
Ele se apressou até a porta.
Adrian deu alguns passos na minha direção.
— Nada mal, Sage. Acho que você acabou de assustar o velho Mazur.
Senti um sorriso começar a se formar em meus lábios.
— Não sei se isso é verdade, mas até que fez eu me sentir bem.
— Você devia confrontar as pessoas com mais frequência — ele disse.
Nós trocamos sorrisos e ele me olhou com carinho; senti a mesma sensação enjoativa de antes. Ele provavelmente não estava com a mesma sensação, mas havia algo fácil e alegre nele. Raro — e muito atraente. Ele apontou com a cabeça para onde Abe abria a porta. — É Sonya.
Os usuários de espírito eram capazes de pressentir uns aos outros quando estavam em proximidade suficiente, mesmo atrás de portas fechadas. E, claro, quando a porta se abriu, Sonya Karp entrou pisando firme feito uma rainha, alta e elegante. Com o cabelo ruivo preso em um coque, a Moroi poderia ser a irmã mais velha de Angeline. Sonya sorriu para todos nós, apesar de eu não poder deixar de estremecer ao me lembrar da primeira vez em que a tinha visto. Na época, ela não pareceu tão bonita e encantadora quanto agora. Estava com os olhos vermelhos e tentou nos matar.
Sonya era uma Strigoi que tinha sido restaurada a Moroi, e por isso realmente era a escolha ideal para trabalhar com Adrian e descobrir como usar o espírito para impedir que as pessoas fossem transformadas.
Sonya abraçou Adrian e estava caminhando na minha direção quando alguém mais apareceu à porta. Pensando bem, eu não devia ter me surpreendido com quem era. Afinal de contas, se queríamos descobrir qual era a magia de espírito especial em Lee que tinha impedido que ele fosse transformado mais uma vez, então iríamos precisar de todos os dados possíveis. E se ter uma Strigoi restaurada era bom, ter dois era ainda melhor.
Adrian empalideceu e ficou totalmente imóvel enquanto olhava fixo para o recém-chegado e, naquele momento, todas as grandes esperanças que eu tinha para ele vieram abaixo. Antes, eu havia tido certeza de que Adrian simplesmente seria capaz de ficar longe de seu passado e dos acontecimentos traumáticos dele, que seria capaz de encontrar motivação e se firmar. Bom, parecia que seu passado o tinha encontrado, e se isso não se qualificava como acontecimento traumático, não sabia o que poderia se encaixar nessa categoria.
O novo parceiro de pesquisa de Adrian entrou porta adentro e eu vi que a paz desajeitada que tínhamos acabado de estabelecer em Palm Springs estava prestes a se desfazer.
Dimitri Belikov havia chegado.

Um comentário:

  1. "Dimitri Belikov havia chegado" eu nunca pensei que fosse capaz de surta por causa de uma frase... PQP SIMPLESMENTE O RUSSO MAIS GOSTOSO DA HISTÓRIA DO UNIVERSO APARECEUUUUUUU!! Se ter um lindo, charmoso, engraçado do Adrian e bom ter um Dimitri Russo, gostoso, e gostoso e gostoso e gostoso.... e excepcional������������❤❤❤

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Boa leitura :)