27 de setembro de 2017

Capítulo 26

DEMOROU DIAS ATÉ QUE EU CONSEGUISSE reunir a história toda, tanto em relação a Lee quanto sobre como Eddie e Jill tinham chegado para nos salvar naquela noite.
Depois de ter Lee como a peça que faltava, foi fácil conectar os assassinatos de Tamara, Kelly, Melody e Dina, a garota humana que ele tinha mencionado. Todas tinham sido mortas no decorrer dos últimos cinco anos, ou em Los Angeles ou em Palm Springs, e muita gente tinha provas documentadas de conhecê-lo. Elas não tinham sido vítimas aleatórias. O pouco que conseguimos descobrir a respeito da história de Lee partiu de Clarence, apesar de nem isso ter ficado muito claro. Pelo que pudemos concluir, Lee tinha sido transformado em Strigoi à força, cerca de quinze anos antes. Tinha passado dez anos assim, até que um vampiro usuário de espírito o restaurou, para o desgosto de Lee. Clarence já não tinha a cabeça muito no lugar naquela época e não havia questionado como o filho tinha voltado para casa depois de dez anos sem envelhecer. Ele evitou responder às nossas perguntas relativas a Lee ser Strigoi, e nós não sabíamos se Clarence simplesmente não sabia ou se estava em negação. Da mesma maneira, não ficou claro se Clarence sabia ou não que o próprio filho estava por trás da morte de Tamara. A teoria maluca dos caçadores de vampiros provavelmente era mais fácil para ele engolir do que a verdade sobre o caráter assassino do filho.
Investigações sobre a faculdade de Lee em Los Angeles mostraram que ele na verdade não estivera realmente matriculado desde antes de se tornar Strigoi. Quando voltou a ser Moroi, tinha usado a faculdade como desculpa para ficar em Los Angeles, onde era mais fácil encontrar suas vítimas — e nós desconfiávamos que havia mais delas do que nossos registros mostravam. Assim como Melody e Dina, parece que ele tinha tentado tomar o sangue de algumas vítimas de cada raça, na esperança de que alguma delas fosse “a certa”, que o faria voltar a ser Strigoi novamente.
A pesquisa mais aprofundada sobre Kelly Hayes revelou algo em que eu devia ter pensado logo de cara. Ela era dampira. Tinha aparência de humana, mas o histórico estrelar nos esportes foi o que me deu a dica. Lee tinha se deparado com ela quando visitava o pai cinco anos antes. Atacar uma dampira não era fácil, e por isso ele parecia ter aplicado o truque de namorá-la para atraí-la.
Nenhum de nós sabia nada sobre o “maldito usuário de espírito” que o tinha convertido, apesar de isso ser do interesse tanto dos alquimistas quanto dos Moroi. Havia poucos usuários de espírito nos registros, e com tantas informações ainda desconhecidas sobre seus poderes, todo mundo queria saber mais. Clarence afirmava com veemência que não sabia nada a respeito desse usuário de espírito misterioso, e eu acreditava nele.
Alquimistas passaram a semana toda indo e vindo de Palm Springs, dando jeito na bagunça e entrevistando todos os envolvidos. Tive reuniões com vários deles, contei a minha história vez após outra, e finalmente tive meu último interrogatório com Stanton, na hora do almoço em um sábado. Eu meio que tinha um interesse perverso em saber o que tinha acontecido com Keith, mas cheguei à conclusão de que não devia tocar no assunto à luz de tudo o mais que estava acontecendo. Ele não estava ali, e era o que importava para mim.
— A autópsia de Lee não revelou nada fora do comum para um Moroi normal, de acordo com os médicos deles — Stanton me disse entre garfadas de linguini à carbonara. Parece que comer e discutir cadáveres não eram coisas excludentes. — Mas, bom, é provável que uma coisa... mágica não fosse aparecer mesmo.
— Mas deve haver algo de especial a respeito dele — eu disse. Estava só remexendo a comida pelo prato. — O fato de seu envelhecimento ter sido retardado já era uma prova suficiente... mas e o resto? Quer dizer, ele bebeu de tantas vítimas. E aí eu vi o que Jacqueline fez com ele. Aquilo devia ter funcionado. Todos os procedimentos corretos foram seguidos.
Fiquei surpresa de ser capaz de falar de modo tão clínico a respeito daquilo, de poder parecer tão desapegada. Mas, na verdade, era apenas o meu lado de alquimista assumindo o controle. Dentro de mim, os acontecimentos daquela noite tinham deixado uma marca permanente. Quando fechava os olhos na hora de dormir, enxergava a morte de Lee e Jacqueline lhe dando sangue. Lee, que tinha dado flores para Jill e nos levado para jogar minigolfe.
Stanton assentiu, pensativa.
— E isso sugere que aqueles que são restaurados depois de se tornarem Strigoi ficam imunes a uma nova transformação.
Ficamos ali em silêncio por um momento, deixando o peso das palavras ser absorvido.
— Isso é algo importantíssimo — eu finalmente disse. Nossa, era muito mais do que isso. Lee apresentava diversos mistérios. Ele tinha começado a envelhecer quando voltou a ser Moroi, mas em ritmo bem mais lento. Por quê? Nós não sabíamos dizer com certeza, mas essa descoberta por si só era monumental, assim como a minha desconfiança de que ele não podia mais usar a magia dos Moroi. Eu tinha ficado apavorada quando Jill pediu a ele que criasse névoa enquanto estávamos jogando minigolfe, mas, pensando melhor, ocorreu-me que ele na verdade pareceu nervoso com os pedidos dela. Mas e o resto? O fato de que algo tinha mudado nele, que o protegia, ainda que contra sua própria vontade, de voltar a ser Strigoi? Pois é. “Importantíssimo” nem começava a descrever a gravidade daquilo.
— Muito — Stanton concordou. — Metade da nossa missão é impedir que os humanos escolham sacrificar sua alma pela imortalidade. Se houvesse uma maneira de captar essa magia, descobrir o que protegeu Lee... bom, os efeitos teriam longo alcance.
— Para os Moroi também — observei. Eu sabia que entre eles e os dampiros, ser forçado a se transformar em Strigoi era considerado com frequência um destino pior do que a morte. Se houvesse alguma maneira mágica de se proteger, isso significaria muito, já que eles se deparavam com Strigoi muito mais do que nós. Podíamos estar falando de algum tipo de vacina mágica.
— Claro que sim — disse Stanton, apesar de seu tom implicar que ela não estava muito preocupada com os benefícios para aquela raça. — Pode até ser possível impedir criações futuras de Strigoi. Mas também há o mistério do seu sangue. Você disse que os Strigoi não gostaram dele. Isso também pode ser um tipo de proteção.
Estremeci com a lembrança.
— Talvez. Aconteceu tão rápido... é difícil dizer. E certamente não serviu para me proteger contra os Strigoi quererem quebrar o meu pescoço.
Stanton assentiu.
— Certamente é algo que vamos ter de investigar mais para a frente. Mas, primeiro, precisamos entender o que aconteceu com Lee.
— Bom — eu disse. — O espírito deve ter um papel importante, certo? Lee foi restaurado por um usuário de espírito.
Um garçom se aproximou e Stanton fez um sinal para que levasse seu prato.
— Exatamente. Infelizmente, temos uma quantidade muito reduzida de usuários de espírito com quem trabalhar. Vasilisa Dragomir mal tem tempo de fazer experiências com seus poderes. Sonya Karp se ofereceu para ajudar, e esta é uma notícia excelente, já que ela própria é uma ex-Strigoi. No mínimo, poderemos observar a desaceleração do envelhecimento em primeira mão. Ela só tem disponibilidade por um período curto, e os Moroi ainda não responderam ao meu pedido por alguns outros indivíduos úteis. Mas, se tivéssemos outro usuário de espírito à mão, que não tivesse outras obrigações para distraí-lo de sua tarefa de nos ajudar em tempo integral...
Ela olhou para mim, esperando uma reação.
— Adrian? — perguntei.
— Você acha que ele ajudaria nessa pesquisa? Sobre alguma maneira mágica de se proteger contra a conversão em Strigoi? Como eu disse, entre Sonya e os outros, ele teria ajuda — ela se apressou em completar. — Falei com os Moroi, e eles estão montando um grupinho com bastante experiência com os Strigoi. O plano é que os mandem para cá em breve. Só precisamos que Adrian ajude.
— Uau. Vocês são rápidos — murmurei.
Com as palavras “Adrian” e “pesquisa”, a minha mente juntou imagens em que ele estava em um laboratório, com avental branco, debruçado por cima de tubos de ensaio e béqueres. Eu sabia que a pesquisa real não seria nem um pouco parecida com isso, mas era uma imagem difícil de desfazer. Também era difícil imaginar Adrian concentrado com seriedade em qualquer coisa. Só que eu ficava pensando e pensando que Adrian poderia se concentrar se tivesse algo com que se preocupar. Será que aquilo tinha importância suficiente?
Realmente não sabia dizer. Era difícil demais imaginar que motivo poderia ser nobre o suficiente para chamar a atenção dele. Mas eu tinha quase certeza de conhecer alguns benefícios bem menos nobres que poderiam fazer com que ele ficasse do nosso lado.
— Se vocês arrumarem um lugar para ele morar sozinho, ele ajuda — eu finalmente disse. — Ele está louco para sair da casa de Clarence Donahue.
As sobrancelhas de Stanton se ergueram. Ela não estava esperando por isso.
— Bom. Este não é um pedido enorme, suponho. E, na verdade, estamos pagando a conta do antigo apartamento de Keith, já que ele tirou um ano de licença. O sr. Ivashkov poderia simplesmente se mudar para lá, só que...
— Só que o quê?
Stanton deu de ombros de leve.
— Eu ia oferecer o lugar para você. Depois de muita discussão, resolvemos simplesmente deixar você como a alquimista responsável pela área aqui, tendo em vista a... partida desafortunada de Keith. Você pode sair de Amberwood, mudar-se para o apartamento dele e simplesmente supervisionar as atividades de lá.
Eu franzi a testa.
— Mas eu achei que vocês queriam alguém para ficar com Jill o tempo todo.
— Queremos, sim. Na verdade, encontramos uma opção melhor... sem querer ofender. Os Moroi conseguiram localizar uma garota dampira da idade de Jill que, além de servir como colega de quarto para ela, também poderá ser sua guarda-costas. Ela vai vir para cá junto com os pesquisadores. Você não precisa mais fazer o papel de aluna.
O mundo rodou. Tramoias e planos dos alquimistas estavam sempre em ação. Parecia que muita coisa tinha sido decidida naquela semana. Refleti a respeito do que aquilo significava. Nada mais de lição de casa, nada mais de política de ensino médio. Liberdade de ir e vir quando eu bem entendesse. Mas isso também significava me afastar dos amigos que eu tinha feito — Trey, Kristin, Julia. Eu continuaria me encontrando com Eddie e Jill, mas não tanto. E se eu estivesse sozinha, será que os alquimistas — ou o meu pai — iriam ajudar a pagar aulas na faculdade? Pouco provável.
— Tenho mesmo que sair da escola? — perguntei a Stanton. — Posso dar o apartamento a Adrian e ficar em Amberwood mais um pouco? Pelo menos até vermos se conseguimos outro lugar para eu morar?
Stanton não se deu ao trabalho de esconder sua surpresa.
— Não achei que você iria querer continuar lá. Achei que ficaria particularmente feliz por não precisar mais dividir o quarto com uma vampira.
E, assim, todos os medos e a pressão que eu tinha enfrentado antes de vir a Palm Springs desabaram em cima de mim. Adoradora de vampiros. Como eu era idiota. Eu devia ter agarrado a chance de me afastar de Jill. Qualquer outro alquimista teria agido assim. Ao me oferecer para ficar, era provável que eu estivesse levantando suspeitas a meu respeito mais uma vez. Como eu poderia explicar que havia muito mais coisa em jogo na minha escolha do que apenas uma troca de colega de quarto?
— Ah — eu disse, com expressão neutra. — Quando você disse que ia providenciar para Jill uma dampira da mesma idade dela, achei que elas ficariam no mesmo quarto e eu não precisaria mais ficar com ela. Achei que ia ter um quarto só para mim no alojamento.
— Isso provavelmente pode ser providenciado...
— E, sinceramente, depois de algumas das coisas que aconteceram, me sentiria melhor se pudesse ficar de olho em Jill. Vai ser mais fácil se eu estiver na escola. Além do mais, se é necessário um apartamento para deixar Adrian feliz e trabalhar no mistério dos Strigoi, então é o que precisamos fazer. Eu posso esperar.
Stanton me examinou durante vários longos segundos e só rompeu o silêncio quando o garçom deixou a conta na mesa.
— Isso é muito profissional da sua parte. Vou tomar as providências.
— Obrigada — eu disse. Uma sensação de alegria tomou conta de mim, e eu quase sorri, imaginando o rosto de Adrian quando ele ficasse sabendo de sua casa nova.
— Só tem mais uma coisa que eu não compreendo — Stanton observou. — Quando investigamos o apartamento, encontramos alguns danos causados por fogo. Mas nenhum de vocês mencionou nada a esse respeito.
Franzi a testa de maneira fingida.
— Sinceramente... uma parte grande do que aconteceu ficou confusa na minha cabeça pela perda de sangue e a mordida... não sei dizer com certeza. Keith tinha algumas velas. Não sei se alguma foi acesa... ou, não sei. Só fico pensando naqueles dentes e em como foi horrível ser mordida...
— Sei, sei — Stanton disse. A minha desculpa era fraca, mas nem ela estava totalmente imune à ideia de ter seu sangue sugado por um vampiro. Esse era basicamente o pior pesadelo de um alquimista, e eu tinha direito ao meu trauma. — Bom, não se preocupe com isso. Aquele fogo é a menor das nossas preocupações.
Não era a menor das minhas preocupações. E quando voltei ao campus naquele mesmo dia, finalmente fui dar conta do assunto e achei a sra. Terwilliger em um dos escritórios da biblioteca, onde ela estava trabalhando.
— Você sabia — eu disse, fechando a porta. Todos os protocolos entre aluna e professora sumiram da minha mente. Eu estava ignorando a minha raiva fazia uma semana, e agora finalmente podia colocá-la para fora. Tinha passado a vida toda sendo ensinada a respeitar a autoridade, mas agora uma delas tinha me traído, pura e simplesmente. — Tudo o que me fez fazer... copiar aqueles livros de feitiços, produzir aquele amuleto “só pare ver como era”! — sacudi a cabeça. — Era tudo mentira. Você sabia... sabia que era... real.
A sra. Terwilliger tirou os óculos e olhou para mim com cuidado.
— Ah, então presumo que tenha experimentado?
— Como pôde fazer isso comigo? — exclamei. — Não tem ideia de como eu me sinto em relação à magia e ao sobrenatural!
— Ah — ela disse, seca. — Na verdade, eu tenho, sim. Sei tudo sobre a sua organização — ela disse, batendo com o dedo na própria bochecha, espelhando a minha que continha a tatuagem. — Eu sei por que a sua “irmã” tem licença médica para não fazer atividades externas e por que o seu “irmão” é ótimo em esportes. Estou muito bem informada a respeito das diversas forças que trabalham no nosso mundo, as que se escondem da maior parte dos olhos humanos. Não se preocupe, minha cara. Com toda a certeza, não vou contar para ninguém. Não estou preocupada com vampiros.
— Por quê? — perguntei, decidida a não confirmar que ela tinha exposto tudo que me esforçava tanto para manter em segredo. — Por que eu? Por que me forçou a fazer aquilo... principalmente se alega saber como eu me sinto?
— Mmm... por algumas razões. Os vampiros, como sabe, têm uma espécie de magia interna. Eles se conectam com os elementos em nível muito básico, quase sem esforço. Os humanos, no entanto, não têm essa mesma conexão.
— Os humanos não devem usar magia — disse com frieza. — Você me obrigou a fazer algo contrário às minhas crenças.
— Para os humanos fazerem magia — ela prosseguiu, como se eu não tivesse dito nada — precisamos arrancá-la do mundo. Isso não nos vem com tanta facilidade. Claro que os vampiros usam feitiços e ingredientes de vez em quando, mas não é nada parecido com o que nós precisamos fazer. A magia deles sai de dentro para fora. A nossa vem de fora para dentro. É necessário muito esforço, muita concentração e cálculos exatos... bom, a maior parte dos humanos não tem paciência nem habilidade para isso. Mas uma pessoa como você? Essas técnicas detalhadas foram incutidas em você desde que aprendeu a falar.
— Então esse é o único requisito para usar magia? Capacidade de organizar e medir? — Não me dei ao trabalho de esconder meu sarcasmo.
— Claro que não — ela deu risada. — Certo talento natural também é necessário. Um instinto que se combina à disciplina. Eu senti isso em você. Sabe, eu mesma tenho uma certa proficiência nisso. Ela me dá um status de bruxa, mas é relativamente pequeno. Mas você? Sou capaz de sentir uma fonte de poder em você, e a minha pequena experiência só serviu para comprovar que eu tinha razão.
Eu me senti gelar.
— Isso é mentira — eu disse. — Vampiros usam magia. Não humanos. Não eu.
— Aquele amuleto não pegou fogo sozinho — ela disse. — Não negue o que você é. E agora que terminamos com isso, podemos seguir em frente. O seu poder inato pode ser maior do que o meu, mas eu posso iniciá-la no treinamento básico de magia.
Não dava para acreditar que eu estava ouvindo aquilo. Não era real. Era como se fosse algo saído de um filme, porque não tinha como aquela ser a minha vida.
— Não! — exclamei. — Você é... você é louca! A magia não é real, e eu não tenho nenhuma! Isso é antinatural e errado. Não vou colocar a minha alma em perigo.
— Tanta negação para uma cientista tão boa... — ela refletiu.
— Estou falando sério — eu disse, mal reconhecendo minha própria voz. — Eu não quero ter nenhuma relação com estudos do oculto. Fico contente em continuar fazendo anotações e comprando café para você, mas se continuar fazendo essas afirmações e exigências malucas... vou à secretaria exigir uma mudança de professora. Pode acreditar, quando é necessário dar conta de burocracia e convencer gente que trabalha na administração, aí sim eu tenho um poder inato.
Ela quase sorriu, mas então murchou.
— Você está falando sério? Realmente rejeita este potencial fantástico... essa descoberta... que você possui?
Não respondi.
— Então, que seja — ela suspirou. — É uma perda. E um desperdício. Mas tem a minha palavra de que eu não vou voltar a tocar neste assunto, a não ser que parta de você.
— Isso não vai acontecer mesmo — eu disse com veemência.
A sra. Terwilliger só deu de ombros como resposta.
— Muito bem, então. Já que está aqui, então é melhor ir buscar um café para mim.
Eu me dirigi para a porta e então pensei em uma coisa.
— Era você que ligava para a Nevermore perguntando sobre vampiros?
— Por que raios eu faria isso? — ela perguntou. — Já sei onde encontrá-los.
Mais tarde, cheguei ao refeitório bem quando Eddie, Jill e Micah estavam terminando de jantar. Compreensivelmente, Jill estava com dificuldade de aceitar a morte de Lee e todas as revelações que nós tínhamos feito — incluindo o desejo que ele tinha de transformá-la em sua rainha morta-viva. Tanto Eddie quanto eu conversávamos com ela o máximo possível, mas Micah parecia surtir um efeito mais reconfortante para ela. Acho que era porque ele nunca abordava o assunto de maneira explícita. Ele sabia que Lee tinha morrido, mas achava que tinha sido um acidente e naturalmente não sabia das conexões vampirescas do acontecimento. Enquanto Eddie e eu ficávamos tentando dar uma de psicólogos amadores, Micah simplesmente tentava distraí-la e fazê-la feliz.
— Precisamos ir — ele disse em tom de desculpa quando me sentei. — Rachel Walker vai nos dar uma aula em uma das máquinas de costura.
Eddie sacudiu a cabeça para ele.
— Ainda não acredito que você se inscreveu no clube de costura.
Isso, claro, não era verdade. Nós dois sabíamos exatamente por que Micah havia se inscrito.
O rosto de Jill estava com a expressão grave que não a abandonara desde a morte de Lee — uma expressão que ela ainda carregaria durante um tempo, desconfiava —, mas o fantasma de um sorriso se agitou em seus lábios.
— Acho que Micah tem tudo para ser um verdadeiro estilista. Quem sabe eu não desfilo para ele um dia?
Sacudi a cabeça, escondendo meu próprio sorriso.
— Nada de fazer trabalho de modelo durante um tempo.
Depois do desfile, Lia e outros estilistas tinham entrado em contato, todos querendo voltar a trabalhar com Jill. Tínhamos precisado recusar para proteger a identidade dela aqui, mas Jill tinha ficado triste por não poder participar.
Jill assentiu.
— Eu sei, eu sei — ela se levantou com Micah. — Vejo você mais tarde no quarto, Sydney. Quero conversar mais um pouco.
Eu assenti.
— Claro que sim.
Eddie e eu observamos enquanto eles se afastavam apressados. Suspirei.
— Isso vai ser um problema — disse a ele.
— Talvez — ele concordou. — Mas ela sabe o que pode e o que não pode fazer com ele. Ela é inteligente. Vai ser responsável.
— Mas ele não sabe — eu disse. — Acho que Micah já está apaixonado demais por ela. — Olhei para Eddie com cuidado. — Entre outras pessoas.
Eddie ainda observava Micah e Jill, de modo que demorou um momento para entender o que eu estava dizendo. Voltou o olhar para mim em um gesto brusco.
— Hein?
— Eddie, não vou dizer que sou especialista em romance, mas até eu sou capaz de ver que você é louco por Jill.
Ele prontamente desviou o olhar, apesar de seu rubor o trair.
— Não é verdade.
— Percebi desde o começo, mas foi só na noite na casa de Keith que realmente entendi o que eu estava vendo. Eu vi como você olhava para ela. Eu sei o que você sente por ela. Então, o que eu quero saber é o seguinte: por que nós temos que continuar nos preocupando com Micah? Por que você não a convida para sair e nos poupa muita confusão?
— Porque ela é minha irmã — ele disse, seco.
— Eddie! Estou falando sério.
Ele fez uma careta, respirou fundo e então se voltou para mim mais uma vez.
— Porque ela pode arrumar coisa melhor do que eu. Quer falar sobre regras sociais? Bom, no lugar de onde nós viemos, Moroi e dampiros não têm relacionamentos sérios.
— É, mas isso é tipo uma questão de classe — eu disse. — Não é a mesma coisa que humanos e vampiros.
— Talvez não, mas, com ela, pode muito bem ser. Ela não é uma Moroi qualquer. Ela é da realeza. Uma princesa. E você viu como ela é! Inteligente e forte e linda. Ela está destinada a coisas grandiosas, e uma delas não é se envolver com um guardião controverso como eu. A linhagem de sangue dela é real. Diabo, eu nem sei quem é o meu pai. Namorar Jill não é possível. A minha função é protegê-la. Mantê-la em segurança. É nisso que toda a minha atenção deve se concentrar.
— Então você acha que, em vez disso, ela merece ficar com um humano? — perguntei, incrédula. — Dançando no limite de um tabu que existe em nossas raças?
— Não é ideal — ele reconheceu. — Mas, ainda assim, ela pode ter uma vida social divertida e...
— Mas e se fosse outro cara? — interrompi. — E se outro humano a convidasse para sair e eles simplesmente tivessem um encontro casual? Você iria achar que tudo bem?
Ele não respondeu, e eu vi que a minha intuição estava correta.
— Isso aqui vai além de você não se sentir digno de Jill — eu disse. — Tem a ver com Micah também, não tem? É porque ele faz você se lembrar de Mason.
Eddie empalideceu.
— Como é que você sabe disso?
— Adrian me contou.
— Desgraçado — Eddie disse. — Por que ele não é tão desencanado quanto finge ser?
Isso me fez sorrir.
— Você não deve nada a Micah. Certamente não deve Jill a ele. Ele não é Mason, por mais que os dois se pareçam.
— É mais do que o visual — Eddie disse, pensativo. — É a maneira como ele age também. Micah é igual: simpático, otimista, animado. Mason era assim. Existem muito poucas pessoas desse jeito no mundo: pessoas boas de verdade. Mason foi levado do mundo cedo demais. Não vou permitir que isso aconteça a Micah.
— Micah não está em perigo — eu disse com suavidade.
— Mas ele merece coisas boas. E, mesmo que seja humano, continua sendo uma das melhores combinações que eu conheço para Jill. Eles merecem um ao outro. Os dois merecem coisas boas.
— E, por isso, vai permitir seu próprio sofrimento como consequência? Porque está tão apaixonado por Jill e convencido de que ela merece algum tipo de príncipe que você não é? E porque você sente que é sua obrigação dar apoio a todos os Mason do mundo? — Sacudi a cabeça. — Eddie, isso é loucura. Até você tem que perceber isso.
— Talvez — ele reconheceu. — Mas parece a coisa certa a fazer.
— A coisa certa? Isso é masoquismo! Você está incentivando a menina de quem gosta a ficar com um dos seus melhores amigos.
— Eu quero que ela seja feliz. Vale a pena me sacrificar.
— Não faz o menor sentido.
Eddie lançou um pequeno sorriso para mim e deu um tapinha de leve no meu braço antes de se dirigir a um ônibus que se aproximava.
— Lembra quando você disse que não era especialista em romance? Bom, estava certa.

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Boa leitura :)