27 de setembro de 2017

Capítulo 25

EU TINHA TIRADO SARRO DE KEITH quando chegamos a Palm Springs, por ficar paralisado perto de um Moroi. Mas, ali parada, cara a cara com um pesadelo, eu soube exatamente como ele se sentiu. Eu não tinha o menor direito de julgar alguém por perder todo o raciocínio lógico ao se confrontar com seus maiores medos.
Dito isso, se Keith estivesse ali, acho que ele iria entender por que os Moroi já não eram lá grande coisa para mim. Porque em comparação com os Strigoi... Bom, de repente as pequenas diferenças entre humanos e Moroi se tornavam insignificantes. Apenas uma diferença importava: a diferença entre os vivos e os mortos. Era essa a linha que nos dividia, e eu e Adrian nos encontrávamos juntos e firmes de um lado dessa linha — de frente para as que se encontravam do outro.
Já tinha visto Strigoi antes. Na época, não me senti imediatamente ameaçada por eles. Além do mais, estava com Rose e Dimitri à mão, prontos para me proteger. E agora? Não havia ninguém aqui para nos salvar. Só nós mesmos.
Elas eram apenas duas, mas poderiam ser duzentas. Os Strigoi operavam em um nível tão diferente do restante de nós que não era necessário muitos deles para fazer a balança pender. As duas mulheres deveriam estar na casa dos vinte anos quando se tornaram Strigoi. Há quanto tempo isso tinha sido, não sabia dizer. Lee tinha se preocupado muito em falar repetidamente a respeito de como ser Strigoi significava ser “jovem para sempre”. Mas, ao olhar para aqueles dois monstros, eu realmente não pensava assim. Claro que elas tinham a aparência superficial da juventude, mas era manchada por maldade e podridão. A pele delas podia não ter rugas, mas era de um branco doentio, muito mais branco do que a de qualquer Moroi. Os olhos avermelhados que nos fitavam não faiscavam com vida ou energia, mas sim com uma espécie de reanimação profana. Não eram exatamente pessoas. Elas não eram naturais.
— Que amor — disse uma, loira de cabelo curtinho. Os traços dela me faziam achar que tinha sido dampira ou humana antes de ser transformada. Ela nos olhava da mesma maneira como eu costumava ver o gato da minha família olhando passarinhos. — E exatamente de acordo com a descrição.
— Eles são tãããão lindos — entoou a outra, com um sorriso lascivo no rosto. Sua altura dizia que antes tinha sido Moroi. — Não sei qual dos dois eu quero primeiro.
A loira olhou feio para ela.
— Nós vamos dividir.
— Igual da última vez — a outra concordou e jogou uma juba de cabelos pretos encaracolados por cima do ombro.
— Não — a primeira disse. — Da última vez, você matou os dois. Aquilo não foi dividir.
— Mas eu deixei você se alimentar deles depois.
Antes que a outra pudesse retrucar, Lee se recompôs de repente e cambaleou até onde a Strigoi loira estava.
— Esperem, esperem. Dawn. Você prometeu. Prometeu que iria me despertar primeiro, antes de fazer qualquer coisa.
As duas Strigoi voltaram a atenção para Lee. Eu ainda estava paralisada, incapaz de me mexer ou de realmente reagir enquanto estava tão próxima daquelas criaturas do inferno. Mas, de algum modo, através do terror denso e esmagador que me rodeava, eu ainda assim consegui sentir uma pena inesperada de Lee. Havia um pouco de ódio ali também, é claro, levando em conta a situação. Mas, na maior parte, eu sentia uma pena enorme de alguém que realmente acreditava que sua vida não tinha sentido a menos que sacrificasse sua alma pela imortalidade vazia. Não só isso, eu tinha pena dele por realmente pensar que poderia confiar nessas criaturas para lhe darem o que queria.
Porque, ao examiná-las, ficou perfeitamente claro para mim que elas estavam decidindo se iam ou não tornar aquilo uma refeição de três pratos. Lee, eu desconfiava, era o único que não se dava conta.
— Por favor — ele disse. — Você prometeu. Me salve. Me faça voltar a ser o que eu era.
Também não pude deixar de notar a pequena mancha avermelhada no lugar em que eu o tinha acertado. Eu me permiti sentir um pouquinho de orgulho por isso, mas não era convencida o suficiente para achar que tivesse qualquer habilidade de luta digna de nota para conseguir escapar daquela situação só com a força física. As Strigoi estavam perto demais, e nós tínhamos muito poucas saídas.
— Eu sei onde tem mais — ele completou, começando a parecer pouco à vontade por suas “salvadoras” não estarem agindo imediatamente para realizar seus sonhos. — Um é jovem... um dampiro.
— Faz um bom tempo que eu não tenho um dampiro — disse a Strigoi de cabelo cacheado, quase desejosa.
Dawn suspirou.
— Na verdade eu não me importo, Jacqueline. Se quiser despertá-lo, vá em frente. Eu só quero estes dois. Ele não importa para mim.
— Então eu fico com o dampiro só para mim — Jacqueline avisou.
— Tudo bem, tudo bem — Dawn falou. — Só ande logo.
Lee ficou tão radiante, tão contente... era uma coisa repugnante de se ver.
— Obrigado — ele disse. — Muito obrigado mesmo! Faz tanto tempo que eu quero isso que não acredito que vai... ahh!
Jacqueline foi tão rápida que mal vi quando aconteceu. Em um momento ela estava à porta e, no seguinte, tinha prendido Lee contra a cadeira reclinável. Lee soltou um grito semiabafado quando ela mordeu o pescoço dele, um grito que logo se aquietou. Dawn fechou a porta e nos fez avançar. Eu me encolhi toda quando ela tocou em mim.
— Bom — ela disse, divertida. — Vamos nos aproximar para ver melhor.
Nem Adrian nem eu respondemos. Nós simplesmente avançamos mais pela sala. Eu dei uma olhada nele, mas não pude perceber muita coisa. Ele era tão bom em esconder seus verdadeiros sentimentos de maneira geral que eu acho que não devia me surpreender com sua capacidade de mascarar terror abjeto com a mesma facilidade. Ele não me deu incentivo nem com a expressão nem com palavras, coisa que na verdade considerei bem adequada. Porque, realmente, eu não estava vendo nenhum final feliz para aquela situação.
De perto, forçada a assistir ao ataque de Jacqueline, eu agora via a expressão de enlevo que se instalara no rosto de Lee. Era a coisa mais horrível que eu já tinha presenciado. Minha vontade era de fechar os olhos bem apertados ou de virar para o outro lado, mas alguma força maior do que eu me fazia olhar fixamente para aquele espetáculo horripilante. Eu nunca tinha visto nenhum vampiro se alimentar, nem Moroi nem Strigoi, mas agora eu entendia por que fornecedores como Dorothy eram capazes de se entregar de tão bom grado a seu estilo de vida. Endorfinas estavam sendo injetadas na corrente sanguínea de Lee, tão fortes que o cegavam para o fato de que sua vida estava sendo sugada. Em vez disso, ele existia em um estado de êxtase, perdido em um torpor químico. Ou talvez estivesse apenas pensando em como seria feliz quando voltasse a ser Strigoi, se fosse possível manter qualquer tipo de pensamento consciente sob aquelas circunstâncias.
Perdi a noção de quanto tempo demorou para todo o sangue de Lee ser sugado. Cada momento era agonizante para mim, como se eu estivesse sentindo a dor pela qual Lee devia estar passando. O processo pareceu demorar uma eternidade e, ainda assim, havia uma sensação esquisita de velocidade nele. Parecia errado o corpo de alguém ser drenado de sangue em tão pouco tempo. Jacqueline bebia sem parar, só fez uma pausa para observar:
— O sangue dele não é tão bom quanto eu achava que seria.
— Então pare — Dawn sugeriu. Ela estava começando a parecer entediada. — Deixe que ele morra e divida estes dois aqui comigo.
Jacqueline realmente parecia estar considerando a ideia, mais uma vez me fazendo pensar em como Lee tinha sido bobo em depositar sua confiança naquelas duas. Depois de alguns minutos, ela deu de ombros.
— Estou quase acabando. E realmente quero que ele me traga aquele dampiro.
Jacqueline voltou a beber, mas, como tinha dito, não demorou muito. A esta altura, Lee estava quase tão pálido quanto os Strigoi, e sua pele tinha adquirido uma textura esticada e estranha.
Agora ele estava perfeitamente imóvel. Seu rosto parecia paralisado em um sorriso que era tanto choque quanto êxtase. Jacqueline ergueu o rosto e limpou a boca, examinando sua vítima com prazer. Ela então ergueu a manga da camisa e pousou as unhas no pulso. Mas antes que rasgasse a própria pele, avistou alguma coisa.
— Ah, assim vai fazer bem menos bagunça — ela se afastou e se abaixou para pegar a faca de Lee. Tinha escorregado para baixo do sofazinho durante nosso embate. Jacqueline a pegou e, sem esforço nenhum, cortou o próprio pulso; o sangue bem vermelho começou a escorrer. Parte do meu cérebro não achava que o sangue deles devia ser tão parecido com o meu. Devia ser preto. Ou ácido.
Ela colocou o pulso sanguinolento na boca de Lee e inclinou a cabeça dele para trás, para que a gravidade pudesse ajudar o fluxo. Cada horror que eu testemunhava naquela noite era pior do que o anterior. A morte era terrível — mas também fazia parte da natureza. Aquilo? Aquilo não fazia parte do plano da natureza. Eu estava prestes a testemunhar o maior pecado do mundo, a corrupção da alma por meio da magia negra para reanimar os mortos. Aquilo fazia eu me sentir imunda, e desejei poder fugir. Eu não queria ver. Eu não queria ver um sujeito que eu cheguei a considerar quase um amigo de repente se erguer como uma espécie de perversão da natureza.
Um toque na minha mão me sobressaltou. Era Adrian. Seus olhos estavam sobre Lee e Jacqueline, mas ele tinha pegado na minha mão e apertado, apesar de ainda estar algemado. Fiquei surpresa com o calor de sua pele. Apesar de eu saber que os Moroi eram tão vivos quanto eu e portanto tinham o sangue tão quente quanto o meu, medos irracionais sempre me faziam pensar que eles seriam frios. Igualmente surpreendente foi o conforto e a conexão repentina que senti com aquele toque. Não era o tipo de toque que dizia: Olhe, eu tenho um plano, por isso, aguente firme, porque nós vamos escapar dessa. Era mais o tipo de toque que simplesmente dizia: Você não está sozinha. Essa era realmente a única coisa que ele podia oferecer. E, naquele momento, foi suficiente.
Então, uma coisa estranha aconteceu. Ou melhor, não aconteceu.
O sangue de Jacqueline se derramava em um fluxo contínuo na boca de Lee, e apesar de não termos muitos casos documentados de conversões de Strigoi, eu sabia basicamente como funcionavam. O sangue da vítima era drenado e depois o Strigoi que tinha matado a pessoa dava seu sangue para o morto. Eu não sabia exatamente quanto tempo demorava para funcionar — certamente não exigia todo o sangue do Strigoi —, mas, a certa altura, Lee devia começar a se agitar e a levantar como um morto-vivo. A expressão fria e arrogante de Jacqueline começou a se transformar em curiosidade e, então, confusão. Ela olhou para Dawn com ar de quem não estava entendendo nada.
— Por que está demorando tanto? — Dawn perguntou.
— Não sei — Jacqueline respondeu, e se virou para Lee mais uma vez. Com a mão livre, ela cutucou o ombro de Lee, como se isso pudesse acordá-lo. Não aconteceu nada.
— Você nunca fez isto antes? — Dawn perguntou.
— Claro que fiz — Jacqueline respondeu, irritada.
Não demorou tanto assim, nem de longe. Ele já devia estar acordado, andando por aí. Há algo errado.
Eu me lembrei das palavras de Lee, quando ele contou que todas as suas tentativas desesperadas ao tirar vidas inocentes não tinham feito com que ele voltasse a ser Strigoi. Eu não sabia muito a respeito do espírito — e menos ainda a respeito de restaurar um Strigoi —, mas algo me dizia que não existia força na terra capaz de fazer Lee voltar a ser Strigoi.
Mais um longo minuto se passou enquanto observávamos e esperávamos. Finalmente, desgostosa, Jacqueline se afastou da poltrona reclinável e ajeitou a manga da camisa. Ficou olhando com raiva para o corpo imóvel de Lee.
— Algo está errado — ela repetiu. — E eu não quero desperdiçar mais sangue para descobrir o que é. Além do mais, meu corte já está sarando.
Não havia nada que eu quisesse mais do que Dawn e Jacqueline esquecerem a minha existência, mas as palavras seguintes escaparam da minha boca antes que eu pudesse segurá-las. A cientista em mim estava envolvida demais em uma revelação.
— Ele foi restaurado... e isso o afetou de maneira permanente. A magia do espírito deixou alguma espécie de marca, e agora ele não pode voltar a ser transformado.
As duas Strigoi olharam para mim. Eu me encolhi toda sob aqueles olhos vermelhos.
— Eu nunca acreditei em nenhuma dessas histórias de espírito — Dawn disse.
Jacqueline, no entanto, continuava claramente confusa com seu fracasso.
— Mas havia algo de errado com ele. Não sei explicar... mas foi o tempo todo. Ele não parecia certo. Ele não tinha o gosto certo.
— Esqueça — Dawn disse. — Ele teve a chance dele. Recebeu o que queria, e agora vou seguir em frente.
Vi a minha morte nos olhos dela e tentei tocar a minha cruz.
— Deus me proteja — disse, bem quando ela se projetou para a frente.
Contra todas as probabilidades, Adrian estava pronto para detê-la — ou, pelo menos, para tentar. Na verdade, ele só se colocou na frente dela. Não teve a velocidade nem o reflexo necessários para bloqueá-la com eficiência, e estava ainda mais atrapalhado por causa das mãos algemadas. Acho que ele só percebeu o que aconteceria em seguida, que ela ia me atacar, e se colocou na minha frente para evitar o bote, em alguma tentativa nobre, porém malsucedida, de me proteger.
E como foi malsucedida. Com um movimento ágil e aparentemente sem esforço, ela o empurrou de lado e o mandou para o meio da sala. Fiquei sem fôlego. Ele caiu no chão e eu comecei a berrar. De repente, senti uma dor aguda na garganta. Sem parar, Dawn havia prontamente me agarrado e me erguido no ar para ganhar acesso ao meu pescoço.
Eu balbuciei mais uma oração frenética quando a dor se espalhou, mas, em segundos, tanto a reza quanto a dor desapareceram do meu cérebro. Tinham sido substituídas por uma sensação doce, tão doce, de felicidade e enlevo e encantamento. Eu não tinha pensamentos, a não ser de que eu de repente existia no estado mais feliz e mais esplêndido que se podia imaginar. Eu queria mais. Mais, mais, mais. Eu queria me afogar naquilo, me esquecer de mim mesma, esquecer tudo ao meu redor...
— Ugh — exclamei quando bati no chão de maneira súbita e inesperada. Ainda naquela névoa de êxtase, eu não sentia dor. Por enquanto.
Com a mesma rapidez que tinha me agarrado, Dawn tinha me soltado e me empurrado para longe. Por instinto, estendi o braço para não cair, mas não consegui me segurar. Eu estava fraca e desorientada demais e me estatelei de maneira nada graciosa no carpete. Os dedos de Dawn tocavam seus lábios com uma expressão de ultraje que contorcia ainda mais seus traços já pavorosos.
— O que foi isso? — ela inquiriu.
Meu cérebro ainda não estava funcionando direito. Eu só tinha sentido um gostinho da endorfina, mas foi suficiente para me deixar podre. Eu não tinha resposta para ela.
— Qual é o problema? — Jacqueline exclamou, avançando em nossa direção. Ela olhou de mim para Dawn, confusa.
Dawn fez uma careta e então cuspiu no chão. O líquido era vermelho por causa do meu sangue. Que nojo.
— O sangue dela... tinha um gosto horrível. Não dava para engolir. Imundo. — Ela cuspiu de novo.
Os olhos de Jacqueline se arregalaram.
— Igual ao outro. Está vendo? Eu disse para você.
— Não — Dawn sacudiu a cabeça. — Não pode ser a mesma coisa. Você nunca teria conseguido beber tanto dela. — Cuspiu mais uma vez. — Não é só que tivesse gosto estranho ou ruim... era como se estivesse adulterado. — Ao ver o olhar descrente de Jacqueline, Dawn deu um soco no braço dela. — Não acredita em mim? Experimente para ver.
Jacqueline deu um passo na minha direção, hesitante. Então Dawn cuspiu mais uma vez e acho que, de algum modo, convenceu a outra Strigoi de que ela não ia querer saber de mim.
— Não quero outra refeição medíocre. Caramba. Isso aqui está ficando absurdo. — Jacqueline deu uma olhada em Adrian, que estava perfeitamente imóvel. — Pelo menos, ainda temos este.
— Se não estiver estragado também — Dawn balbuciou.
Meus sentidos estavam voltando e, durante meio segundo, fiquei imaginando se havia alguma maneira insana de nós sobrevivermos àquilo. Talvez as Strigoi nos dispensassem como refeições ruins. Mas não. Mesmo nutrindo essa esperança, eu sabia que, ainda que elas não se alimentassem de nós, não nos deixariam vivos. Não tinham motivo para simplesmente ir embora. Iriam nos matar por diversão antes de sair.
Com a mesma velocidade notável, Jacqueline saltou na direção de Adrian.
— Está na hora de descobrir.
Eu gritei quando Jacqueline prendeu Adrian contra a parede e mordeu o pescoço dele. Só demorou alguns segundos para experimentar. Ela ergueu a cabeça e fez uma pausa para saborear o sangue. Um sorriso vagaroso se espalhou por seu rosto, mostrando seus caninos ensanguentados.
— Este aqui é bom. Muito bom. Compensa o outro. — Ela passou os dedos pela bochecha dele. — É uma pena. Ele é tão bonito.
Dawn foi pisando firme até onde eles estavam.
— Quero experimentar antes que você acabe com tudo!
Jacqueline a ignorou e já estava se inclinando por cima de Adrian mais uma vez; ele estava com os olhos vidrados. Nesse ínterim, eu já estava livre o bastante da endorfina para clarear os pensamentos mais uma vez. Ninguém estava prestando atenção em mim.
Tentei me levantar e senti o mundo girar. Fiquei agachada e fui engatinhando na direção da minha bolsa, que estava jogada e esquecida no canto da sala. Jacqueline tinha bebido de Adrian mais uma vez, mas só um pouquinho, antes de Dawn a puxar para longe e exigir sua vez, para poder tirar o gosto do meu sangue da boca.
Assustada com a velocidade com que me movia, remexi na minha bolsa funda, procurando desesperada por algo que pudesse ajudar. Alguma parte fria e lógica em mim dizia que não havia como escaparmos, mas também não havia como ficar lá parada olhando enquanto as duas secavam o sangue de Adrian. Eu tinha que lutar. Tinha que tentar salvá-lo, do mesmo jeito que ele tinha feito comigo. Não importava se a tentativa não desse certo ou se eu morresse. De algum modo, eu precisava tentar.
Alguns alquimistas carregavam armas, mas eu não. A minha bolsa era enorme, cheia com mais coisas do que eu realmente precisava, mas nada em seu conteúdo se assemelhava a uma arma. E mesmo que se assemelhasse, a maior parte das armas era inútil contra os Strigoi. Uma arma iria detê-las por um tempo, mas não matá-las.
Apenas estacas de prata, decapitações e fogo podiam matar um Strigoi.
Fogo...
Minha mão se fechou em volta do amuleto que eu tinha feito para a sra. Terwilliger. Eu tinha enfiado na bolsa quando ela me entregou, sem saber muito bem o que fazer com aquilo. Só podia supor que a perda de sangue e os pensamentos dispersos tinham me levado a pegá-lo e considerar a possibilidade de usá-lo. Até esse pensamento era ridículo.
Não dava para usar algo que não funcionava! Era uma bugiganga, um saquinho inútil de pedras e folhas. Não havia magia ali e eu era idiota só de considerar a possibilidade.
E, no entanto, era um saco de pedras.
Não era pesado, mas certamente bastava para chamar a atenção de alguém se lhe batesse na cabeça. Era a melhor coisa que eu tinha. O único objeto que eu tinha para adiar a morte de Adrian. Coloquei o braço para trás, mirei em Dawn e joguei, recitando o encanto tolo:
— Em chamas, em chamas!
Foi um belo lançamento. A srta. Carson teria ficado orgulhosa. Mas eu não tive chance de admirar minhas habilidades atléticas porque fiquei distraída demais com o fato de que Dawn tinha pegado fogo.
Meu queixo caiu enquanto eu olhava fixo para o impossível. Não era um fogo enorme. Não era como se o corpo todo dela estivesse sendo engolido por chamas. Mas no lugar em que o amuleto a atingiu, um fogo pequeno se acendeu e se espalhou com rapidez por seu cabelo. Ela berrou e começou a bater na cabeça em gestos frenéticos. Os Strigoi tinham medo de fogo e, por um instante, Jacqueline recuou. Então, com determinação firme, ela soltou Adrian e pegou uma manta. Ela a enrolou na cabeça de Dawn e abafou o fogo.
— Mas que diabo? — Dawn quis saber quando saiu de baixo da manta. Ela imediatamente começou a avançar na minha direção em sua ira. Eu sabia que só tinha conseguido acelerar minha própria morte.
Dawn me agarrou e bateu a minha cabeça contra a parede. O mundo girou e eu me senti enjoada. Ela estendeu a mão para mim mais uma vez, mas ficou paralisada quando a porta se abriu de supetão e Eddie apareceu com uma estaca de prata na mão.
O mais impressionante sobre o que aconteceu a seguir foi a velocidade. Não houve pausa, nenhum longo momento para avaliar a situação e nenhuma troca de provocações entre os combatentes. Eddie simplesmente atacou; foi para cima de Jacqueline primeiro.
Ela reagiu com igual rapidez, avançando rápido para enfrentar sua única ameaça presente.
Depois que ela soltou Adrian, ele desabou no chão, ainda sob os efeitos das endorfinas da Strigoi. Sem me levantar do chão, corri até ele e ajudei-o a se arrastar até a “segurança” do outro lado da sala, enquanto Eddie lutava com a Strigoi. Só dei uma olhada neles, o suficiente para perceber a natureza mortal de seus golpes, que pareciam uma dança. Ambas Strigoi estavam tentando agarrar Eddie, provavelmente com esperança de quebrar seu pescoço, mas tomando cuidado para escapar dos golpes de sua estaca de prata.
Olhei para Adrian, que estava perigosamente pálido e cujas pupilas tinham se reduzido ao tamanho de pontas de alfinete. Eu só tinha uma impressão grosseira do quanto Jacqueline tinha bebido dele e não sabia se o estado de Adrian era mais devido à perda de sangue ou às endorfinas.
— Estou bem, Sage — ele balbuciou e piscou como se a luz o machucasse. — Mas estou bem chapado. Isso faz as coisas que eu uso parecerem bem fracas — ele piscou, como se estivesse se esforçando para acordar. Suas pupilas se dilataram para um tamanho mais normal e então pareceram se focar em mim. — Meu Deus. Você está bem?
— Vou ficar — eu disse e comecei a me levantar. Mas, antes mesmo que eu pudesse terminar de falar, uma onda de tontura me atingiu e eu cambaleei. Adrian fez o que pôde para me segurar, mas estava bem desajeitado por causa das mãos presas. Nós nos apoiamos um contra o outro e eu quase dei risada do ridículo da situação, um tentando ajudar o outro, sendo que nenhum dos dois estava em condições de fazer isso. Então algo chamou a minha atenção e todos os outros pensamentos se desfizeram.
— Jill — sussurrei.
Adrian imediatamente seguiu o meu olhar até o lugar em que Jill tinha acabado de aparecer na porta da sala. Não fiquei surpresa em vê-la. Eddie só podia estar ali porque Jill devia ter dito a ele o que estava acontecendo com Adrian por meio do laço de espírito.
Ali parada, com os olhos faiscando, ela parecia algum tipo de deusa feroz, pronta para a batalha enquanto assistia ao embate de Eddie com a Strigoi. Aquilo foi ao mesmo tempo inspirador e assustador. Adrian compartilhou dos meus pensamentos.
— Não, não, Belezinha — ele murmurou. — Não faça nenhuma idiotice. Castile vai ter que dar conta disso sozinho.
— Ela sabe lutar — eu disse.
Adrian franziu a testa.
— Mas ela não tem nenhuma arma. Assim, ela é um peso-pena nesta luta.
Ele tinha razão, é claro. E ao mesmo tempo que eu não queria que Jill arriscasse a própria vida, não podia evitar pensar que, se ela estivesse equipada adequadamente, poderia ser capaz de ajudar. No mínimo, uma distração poderia ser um benefício. Eddie estava tomando conta de seu terreno contra as duas Strigoi, mas também não estava fazendo nenhum progresso contra elas. Uma ajuda seria boa. E nós precisávamos garantir que Jill não entrasse apressada naquilo, só com os próprios punhos para se defender.
Uma inspiração se abateu sobre mim e eu consegui ficar em pé. O mundo girava ainda mais do que antes, mas — apesar das reclamações de Adrian — consegui cambalear até a cozinha. Mal consegui chegar até a pia e abrir a torneira e as minhas pernas cederam embaixo de mim. Eu me agarrei à beirada da pia e consegui continuar em pé.
— Jill! — berrei.
Ela se virou na direção do meu grito, viu a água correndo e no mesmo instante soube o que fazer. Ela ergueu a mão. O jato de água que saía da torneira de repente mudou de direção e disparou para fora da pia, para o outro lado da sala. Ele foi até Jill, que pegou uma grande quantidade com as mãos e, usando magia, forçou a água a assumir um formato cilíndrico longo. Ele se sustentou no ar assim, um taco de água aparentemente sólido, ainda que ondulante. Ela o agarrou e entrou na luta, dando um golpe nas costas de Jacqueline com sua arma. Gotas saíram voando do “taco”, mas ele manteve sua rigidez o suficiente para que ela desferisse um segundo golpe antes de ele explodir completamente em um borrifo de água.
Jacqueline se virou para trás com a mão estendida para acertar Jill. Mas ela já estava esperando por isso e se jogou no chão, desviando-se exatamente da maneira como eu tinha visto Eddie ensiná-la. Ela recuou para longe do alcance de Jacqueline e a Strigoi foi atrás — dando assim uma chance a Eddie de acertar suas costas. Eddie aproveitou a oportunidade, esquivando-se de Dawn, e enterrou sua estaca nas costas de Jacqueline. Eu nunca tinha pensado nisso, mas se fosse enfiada com força suficiente, uma estaca era capaz de perfurar o coração de alguém pelas costas com a mesma facilidade que teria se fosse enfiada pelo peito. Jacqueline ficou rígida, e Eddie arrancou a estaca, por muito pouco se esquivando de um golpe desferido com toda a força de Dawn. Mesmo assim, ela o acertou um pouco e ele cambaleou de leve antes de retomar o equilíbrio com rapidez e voltar a atenção para ela. Jill foi esquecida e logo correu até nós, na cozinha.
— Está tudo bem com vocês? — ela exclamou ao olhar para nós dois. A expressão feroz tinha desaparecido. Agora ela era só uma garota comum preocupada com os amigos. — Ai, meu Deus. Eu estava tão preocupada com vocês dois... As emoções eram tão fortes! Eu não conseguia me fixar no que estava acontecendo, só sabia que algo estava muito errado.
Arrastei meu olhar para Eddie, que dançava de um lado para o outro com Dawn.
— Precisamos ajudar Eddie...
Dei dois passos para longe da pia e comecei a cair. Tanto Jill quanto Adrian estenderam os braços para me segurar.
— Por Cristo, Sage — ele exclamou. — Você está péssima.
— Não tanto quanto você — reclamei, ainda preocupada em ajudar Eddie. — Elas beberam mais de você...
— É, mas eu não tenho uma ferida no braço que está sangrando — ele apontou. — Nem uma possível concussão.
Era verdade. Com toda aquela agitação, eu estava tão cheia de adrenalina que quase tinha me esquecido da facada que Lee tinha me dado. Não era para menos que eu estava tão tonta. Ou talvez fosse por ter batido a cabeça com toda a força na parede. Àquela altura, qualquer uma das alternativas podia estar correta.
— Pronto — Adrian disse com gentileza. Ele pegou os meus braços com as mãos algemadas. — Eu cuido disto.
Um calor lento e formigante tomou conta da minha pele. No começo, o toque de Adrian foi reconfortante, como um abraço. Senti a tensão e a dor começarem a relaxar. Tudo estava certo no mundo. Ele tinha tudo sob controle. Ele estava cuidando de mim.
Ele estava usando sua magia em mim.
— Não! — soltei um berro estridente e me afastei dele com uma força que eu não sabia ter. O pavor e a percepção total do que estava acontecendo comigo foram muito fortes. — Não toque em mim! Não toque em mim com a sua magia!
— Sage, você vai se sentir melhor, pode acreditar — ele disse e estendeu a mão para mim mais uma vez.
Eu recuei, agarrada à beirada da pia para me apoiar. A lembrança fugidia daquele calor e conforto era diminuída pelo pavor que eu tinha carregado a vida toda em relação à magia dos vampiros.
— Não, não, não. Nada de magia! Não comigo. A tatuagem vai me curar! Eu sou forte!
— Sage...
— Pare, Adrian. — Jill disse. Ela se aproximou de mim, incerta. — Tudo bem, Sydney. Ele não vai curar você. Juro que não vai.
— Nada de magia — sussurrei.
— Pelo amor de Deus — Adrian resmungou. — Isso é besteira supersticiosa.
— Nada de magia — Jill disse com firmeza. Ela tirou a camisa de abotoar que usava por cima de uma camiseta. — Venha aqui e eu vou usar isto para amarrar, para você não perder mais san...
Um berro de perfurar o tímpano fez com que todos nós voltássemos a atenção para a sala. Eddie tinha acertado sua vítima, enfiando a estaca bem no meio do peito de Dawn.
Durante minha breve disputa com Adrian e Jill, Dawn devia ter acertado alguns golpes em Eddie, porque havia uma marca vermelha grande em um dos lados do rosto dele e seu lábio sangrava. Mas a expressão em seus olhos era dura e triunfante quando ele puxou a estaca e observou Dawn cair.
No meio de toda aquela confusão e horror, os instintos básicos de alquimista tomaram conta de mim. O perigo tinha acabado. Havia procedimentos que precisavam ser seguidos.
— Os corpos — eu disse. — Precisamos destruí-los. Tem uma ampola na minha bolsa.
— Opa, opa — Adrian disse, enquanto ele e Jill amarravam a camisa em mim. — Fique onde está. Castile pode pegar. O único lugar aonde você vai é até um médico.
Não me mexi, mas imediatamente discordei da última afirmação.
— Não! Nada de médicos. Pelo menos, vocês têm que... vocês têm que arrumar um médico que seja alquimista. Os números estão na minha bolsa...
— Vá pegar a bolsa dela — Adrian disse a Jill —, antes que ela tenha um chilique. Eu amarro o braço. — Olhei feio para ele. — Sem magia. Que, por sinal, poderia fazer com que isso fosse dez vezes mais fácil.
— Vou sarar sozinha — eu disse enquanto observava Jill pegar a minha bolsa.
— Você se dá conta — Adrian completou — de que vai precisar superar a sua fixação por dieta e consumir umas boas calorias para lutar contra a perda de sangue? Açúcar e líquidos, igualzinho a Clarence. Ainda bem que alguém embalou todos esses doces que estão no balcão.
Eddie caminhou até onde Jill estava, e ela fez uma pausa quando ele perguntou se estava tudo bem com ela. Jill garantiu que sim e, apesar de Eddie estar com o jeito de quem seria capaz de matar mais uns cinquenta Strigoi, também havia uma expressão nos olhos dele... algo que eu acreditei nunca ter notado. Algo sobre o que eu teria que refletir.
— Droga — disse Adrian, lutando com o pano. — Eddie, veja no corpo de Lee se tem uma chave para estas algemas desgraçadas.
Jill tinha se envolvido na conversa com Eddie, mas ficou paralisada ao escutar as palavras “o corpo de Lee”. O rosto dela ficou tão pálido que ela poderia ser um dos mortos. No meio de toda aquela confusão, ela não tinha reparado no corpo de Lee na poltrona. Tinha havido agitação demais com as Strigoi, distração demais com a ameaça que elas representavam. Ela deu alguns passos na direção da sala e foi quando o viu. Sua boca se abriu, mas nenhum som saiu imediatamente. Então ela deu um passo adiante e agarrou as mãos dele, berrando.
— Não! — ela exclamou. — Não, não, não! — ela o sacudiu, como se isso pudesse acordá-lo. Em um piscar de olhos, Eddie estava ao seu lado, abraçando-a, enquanto murmurava coisas sem sentido para reconfortá-la. Ela não escutou. Seu mundo inteiro era Lee.
Senti lágrimas brotando nos meus olhos e detestei o fato de estarem ali. Lee tinha tentado me matar e depois tinha chamado mais duas para terminar o serviço. Tinha deixado um rastro de inocentes atrás de si. Eu devia estar contente por ele não estar mais ali; no entanto, eu me sentia triste. Ele amava Jill, à sua maneira insana, e pela dor no rosto dela, era óbvio que ela também o amava. O laço de espírito não tinha lhe mostrado a morte dele nem o papel que ele tinha desempenhado para nossa captura. Naquele momento, ela simplesmente achava que ele tinha sido vítima das Strigoi. Ela logo ficaria a par da verdade sobre os intuitos dele. Eu não sabia se isso iria aliviar a dor dela ou não. Estava achando que não.
De uma maneira estranha, uma imagem do quadro Amor de Adrian me veio na cabeça. Pensei no traço vermelho torto, rasgando o meio da escuridão, dilacerando-a.
Ao olhar para Jill e sua dor inconsolável, de repente entendi a arte dele um pouco melhor.

Um comentário:

  1. Omg!! Quanta Adrenalina!! Karina não consigo parar de ler kkkkk

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Boa leitura :)