27 de setembro de 2017

Capítulo 24

É ESTRANHO COMO A GENTE REAGE em momentos de perigo iminente. Parte de mim era pânico puro, com o coração disparado e a respiração rápida. Aquela sensação de vazio, que fazia parecer que um buraco tinha se formado no meu peito, voltou. Outra parte de mim foi capaz de inexplicavelmente continuar pensando com raciocínios lógicos, algo como: Certo, este é o tipo de faca que poderia cortar uma garganta. O resto de mim? Bom, o resto de mim estava apenas confuso.
Fiquei onde estava e mantive minha voz baixa e inalterada.
— Lee, o que está acontecendo? O que é isso?
Ele sacudiu a cabeça.
— Não finja. Eu sei que você sabe. Você é inteligente demais. Sabia que ia descobrir tudo, mas não achei que seria tão rápido.
A minha mente girava. Mais uma vez, alguém me achava mais esperta do que eu realmente era. Acho que devia ficar lisonjeada com a crença que as pessoas tinham na minha inteligência, mas a verdade é que ainda não sabia o que estava acontecendo. Mas não sabia se deixar isso transparecer iria me ajudar ou me prejudicar. Resolvi agir com calma enquanto conseguisse.
— É você na foto — eu disse, com cuidado para não fazer soar como uma pergunta.
— Claro que sim — ele respondeu.
— Você não envelheceu — ousei dar uma olhada rápida na foto, só para confirmar por conta própria. Aquilo ainda estava me confundindo. Só os Strigoi não envelheciam e permaneciam imortais com a idade em que tinham sido transformados. — Isso... isso é impossível. Você é Moroi.
— Ah, eu envelheci — ele disse com amargor. — Não muito. Não o suficiente para você poder perceber, mas, pode acreditar, eu envelheço. Não é mais como era antes.
Ainda não fazia a menor ideia do que ele estava falando, ainda não tinha certeza de como tínhamos chegado ao ponto de Lee — cujos olhos sempre brilhavam e morriam de amores por Jill — estar me ameaçando com uma faca. Mas eu também não entendia como ele tinha exatamente a mesma aparência de uma foto de cinco anos antes. Só havia uma coisa terrível da qual estava começando a ter certeza.
— Você... matou Kelly Hayes — o medo no meu peito se intensificou. Ergui o olhar da lâmina para fitar os olhos dele. — Mas, com certeza... com certeza não matou Melody... nem Tamara...
Mas ele assentiu.
— E Dina. Mas você não deve ter ouvido falar dela, não é mesmo? Ela era apenas humana, e vocês não acompanham as mortes humanas. Só as dos vampiros.
Era difícil não voltar a olhar para a faca. Eu só conseguia pensar em como era afiada e estava perto de mim. Com apenas um golpe eu acabaria igualzinha àquelas outras garotas, com a vida se esvaindo em sangue à minha frente. Tentei enlouquecidamente encontrar algo para dizer, desejando mais uma vez ter aprendido as habilidades sociais que eram tão fáceis para outras pessoas.
— Tamara era sua prima — consegui dizer. — Por que matou sua própria prima?
Um momento de arrependimento passou pelo rosto dele.
— Não era o que eu queria... quer dizer, era sim... mas, bom, eu estava fora de mim quando voltei. Eu só sabia que precisava ser despertado mais uma vez. Tamara estava no lugar errado na hora errada. Eu ataquei a primeira Moroi que vi... mas não funcionou. Foi aí que tentei outros. Achei que com certeza um dos tipos ia funcionar. Humano, dampiro, Moroi... nada deu certo.
Havia um desespero terrível na voz dele e, apesar do meu medo, uma parte de mim queria ajudá-lo... mas estava perdida, sem esperança.
— Lee, sinto muito. Não estou entendendo. Por que você precisava “tentar outros”? Por favor, largue esta faca e vamos conversar. Talvez eu possa ajudar.
Ele me lançou um sorriso triste.
— E pode. Mas eu não queria que fosse você. Queria que fosse Keith. Ele certamente merece morrer mais do que você. E Jill... bom, Jill gosta de você. Eu queria respeitar isso e poupá-la.
— Ainda é possível fazer isso — eu disse. — Ela... ela não ia querer que você fizesse isso. Ela ficaria triste se soubesse...
De repente, Lee estava em cima de mim e me prendia à cadeira com a faca no meu pescoço.
— Você não sabe! — exclamou. — Ela não sabe. Mas vai saber, e vai ficar agradecida. Ela vai me agradecer, e nós dois seremos jovens e ficaremos juntos para sempre. Você é a minha chance. Os outros não deram certo, mas você... ele passou a lâmina da faca perto da minha tatuagem. — Você é especial. Seu sangue é mágico. Eu preciso de um alquimista, e agora você é a minha única chance.
— De que... chance... você está falando? — eu soltei, sem fôlego.
— Minha chance de ser imortal! — ele exclamou. — Meu Deus, Sydney. Você nem é capaz de imaginar. Como é ter isso nas mãos e depois perder. Ter força e poder infinitos... não envelhecer, saber que você vai viver para sempre. E então, acabou! Foi tirado de mim. Se algum dia eu encontrar o usuário de espírito filho da mãe que fez isso comigo, eu mato. Mato e bebo o sangue dele já que, depois desta noite, voltarei a ser completo. Vou me redespertar.
Um calafrio percorreu a minha espinha. À luz de tudo, seria de se pensar que eu já estava no nível máximo de terror. Que nada. Acontece que ainda havia mais por vir. Porque, com essas palavras, comecei a formar uma teoria frágil a respeito do que ele poderia estar falando. “Despertado” era um termo usado no mundo dos vampiros apenas sob circunstâncias muito especiais.
— Você era um Strigoi antes — sussurrei, sem nem mesmo ter certeza se eu mesma acreditava no que dizia.
Ele recuou um pouco com os olhos cinzentos arregalados e com um brilho febril.
— Antes eu era um deus! E vou voltar a ser. Isso eu juro. Sinto muito, de verdade. Sinto muito por ser você e não Keith. Sinto muito por você ter descoberto a respeito de Kelly. Se isso não tivesse acontecido, eu podia procurar outro alquimista em Los Angeles. Mas você não percebe? Agora eu não tenho outra alternativa... — a faca continuava na minha garganta. — Eu preciso do seu sangue. Não posso continuar assim... não como um Moroi mortal. Preciso voltar a ser o que era antes.
Alguém bateu na porta.
— Não dê nenhum pio — Lee sibilou. — A pessoa vai desistir.
Segundos depois, a batida se repetiu, seguida por:
— Sage, eu sei que você está aí. Eu vi o seu carro. Sei que você está irada, mas precisa me escutar. Ding-dong, a distração está chamando.
— Adrian! — eu berrei e levantei da cadeira em um salto. Não fiz nenhuma tentativa de desarmar Lee. O meu único objetivo era a segurança. Eu o empurrei antes que pudesse reagir e fui na direção da porta, mas ele estava mais preparado do que eu esperava. Ele pulou para cima de mim e me jogou no chão; a faca pegou no meu braço quando eu caí. Gritei de dor quando senti a ponta da lâmina entrar na minha pele. Eu me debati contra ele, mas isso só serviu para a faca se enterrar ainda mais.
A porta se abriu de repente e eu fiquei feliz por tê-la deixado destrancada após convidar Lee para entrar. Adrian avançou e se deteve ao absorver a cena.
— Não se aproxime — Lee avisou, e encostou a faca na minha garganta mais uma vez. Dava para sentir o sangue quente escorrendo do meu braço. — Feche a porta. E então... sente-se e coloque as mãos atrás da cabeça. Mato Sydney se não fizer isto.
— Ele vai me matar de qualquer jeito... ahh! — as minhas palavras foram interrompidas quando a faca perfurou a minha pele, não o suficiente para me matar, mas sim para causar dor.
— Certo, certo — Adrian disse e ergueu as mãos. Ele parecia mais sóbrio e mais sério do que eu jamais tinha visto. Quando se sentou no chão, com as mãos atrás da cabeça conforme tinha sido ordenado, ele disse em tom suave: — Lee, não sei o que você está fazendo, mas precisa parar com isso agora, antes que vá mais longe. Você não tem uma arma de fogo. Não vai ter como segurar nós dois aqui só com uma faca.
— Já deu certo antes — Lee disse. Ainda sem afastar a faca de mim, ele enfiou a outra mão no bolso do casaco e pegou um par de algemas. Aquilo foi inesperado. Jogou para Adrian. — Coloque isso nos pulsos. — Como Adrian não reagiu imediatamente, Lee forçou a faca até eu berrar. — Agora!
Adrian colocou as algemas.
— Eram para ela, mas você ter vindo pode ser uma coisa boa — Lee disse. — Provavelmente terei fome quando for redespertado.
Adrian arqueou uma sobrancelha.
— Redespertado?
— Ele era Strigoi — consegui dizer. — É ele que anda matando as garotas... cortando a garganta delas... para tentar voltar a ser um deles.
— Fique quieta — Lee disse, irritado.
— Por que você cortava a garganta delas? — Adrian perguntou. — Você tem caninos.
— Porque não funcionava! Eu usei, sim, os meus caninos. Bebi o sangue delas... mas não deu certo. Não voltei a me redespertar. Então, precisei cobrir os meus rastros. Os guardiões sabem distinguir as mordidas de Moroi e de Strigoi. De todo modo, eu precisava da faca para dominá-las. Por isso, cortei o pescoço delas para esconder o rastro... fazer com que eles pensassem que eu era um Strigoi maluco. Ou um caçador de vampiros.
Dava para ver Adrian processando aquilo tudo. Não sei se ele acreditou ou não, mas, de todo o modo, ele tinha facilidade para embarcar em ideias malucas.
— Se as outras não funcionaram, então Sydney também não vai funcionar.
— Ela tem que funcionar — Lee disse em tom fervoroso. Ele me virou, de modo que fiquei voltada com a barriga para cima, ainda presa pelo peso do corpo dele, maior do que o meu.
— O sangue dela é especial. Eu sei que é. E se não der certo... vou procurar ajuda. Vou procurar ajuda para me redespertar, e então vou despertar Jill para podermos ficar juntos para sempre.
Adrian se levantou em um salto, cheio de uma fúria surpreendente.
— Jill? Não faça nada contra ela! Nem toque nela!
— Sente-se — Lee vociferou. Adrian obedeceu. — Jamais faria nada de mal contra ela. Eu amo Jill. E é por isso que vou me assegurar de que ela permaneça exatamente como é. Para sempre. Vou despertá-la depois que me redespertar.
Tentei olhar nos olhos de Adrian, imaginando se seria capaz de transmitir alguma mensagem silenciosa. Se nós dois atacássemos Lee juntos — mesmo com Adrian algemado —, talvez tivéssemos uma chance de dominá-lo. Lee estava a ponto de rasgar a minha garganta, eu tinha certeza, na esperança de que... o quê? De que pudesse beber o meu sangue e se tornar Strigoi?
— Lee — eu disse com a voz baixinha. Movimento demais na minha garganta faria com que a faca me cortasse. — Não deu certo com as outras garotas. Não acho que o fato de eu ser alquimista faça diferença. Seja lá o que o vampiro usuário de espírito fez para salvar você... agora não dá mais para voltar atrás. Não importa de quem seja o sangue que você beber.
— Ele não me salvou! — Lee vociferou. — Ele acabou com a minha vida. Faz seis anos que eu tento recuperá-la. Eu estava quase pronto para o último recurso... até você e Keith chegarem. E eu ainda tenho essa última opção. Mas não quero que chegue a isso. Pelo bem de todos nós.
Eu não era o último recurso? Sinceramente, não conseguia ver como qualquer outro plano alternativo poderia ser pior para mim. Nesse ínterim, Adrian continuava sem olhar na minha direção, coisa que me deixou frustrada — até eu perceber o que ele estava tentando fazer.
— Isso é um erro — ele disse a Lee. — Olhe para mim e diga que você realmente quer fazer isso com ela.
Algemado ou não, Adrian não tinha a velocidade nem a força de um dampiro, alguém que poderia dar um pulo e desarmar Lee antes que a faca causasse danos. Adrian também não tinha o poder de usar um elemento físico, como o fogo, algo que poderia ser usado como arma concreta. No entanto, Adrian tinha a habilidade de compelir. A coação era uma habilidade inata a todos os vampiros, mas para os que controlavam o espírito a aptidão era especial. Infelizmente, funcionava melhor quando se olhava nos olhos, e Lee não estava cooperando. Sua atenção estava toda em mim, bloqueando as iniciativas de Adrian.
— Tomei minha decisão há muito tempo — disse Lee. Com a mão livre, ele molhou os dedos no ferimento do meu braço que sangrava. Levou os dedos aos lábios com uma expressão de resignação sombria no rosto. Ele lambeu o sangue da mão, coisa que não me pareceu nem de longe tão nojenta quanto teria parecido sob outras circunstâncias. Com tanta coisa acontecendo naquele momento, sinceramente não era mais terrível do que o resto e eu simplesmente deixei passar.
Uma expressão de choque e surpresa total passou pelo rosto de Lee, que logo se transformou em nojo.
— Não — ele disse sem fôlego. Repetiu o movimento, passando mais sangue nos dedos e lambendo. — Tem alguma coisa... tem alguma coisa errada...
Ele levou a boca até o meu pescoço e eu choraminguei, temendo o inevitável. Mas não foram os dentes dele que eu senti, e sim apenas um roçar bem de leve de seus lábios e da língua no ferimento que ele tinha causado, como alguma espécie de beijo perverso.
Ele recuou de supetão imediatamente e me encarou, horrorizado.
— O que há de errado com você? — sussurrou. — O que há de errado com o seu sangue? — Ele fez a terceira tentativa de experimentar o meu sangue, mas não conseguiu terminar. Ele fez uma careta. — Eu não consigo. Não consigo engolir nem um pouco. Por quê?
Nem Adrian nem eu sabíamos responder. Lee ficou murcho com a derrota durante um momento, e eu de repente ousei pensar que ele poderia simplesmente desistir e colocar fim àquela loucura. Ele respirou fundo e endireitou o corpo, com determinação renovada nos olhos. Fiquei tensa, esperando ele dizer que agora iria tentar beber o sangue de Adrian, apesar do fato de que uma Moroi — duas, contando Melody — parecia ter feito parte do cardápio de seus fracassos anteriores.
Em vez disso, Lee tirou o celular do bolso, sem afastar a faca da minha garganta e impedindo que eu tentasse qualquer tipo de fuga. Ele digitou um número e ficou esperando atenderem.
— Dawn? É Lee. É... é, eu sei. Bom, tenho dois para você, prontinhos, só esperando. Um Moroi e uma alquimista. Não... não é o velho. Sim. Sim, ainda estão vivos. Tem que ser hoje à noite. Eles sabem sobre mim. Pode ficar com eles... mas sabe qual é o acordo. Você sabe o que eu quero... isso. Ã-hã. Certo. — Lee disse o nosso endereço e desligou. Um sorriso de satisfação cruzou seu rosto. — Nós temos sorte. Elas estão no leste de Los Angeles, então não vão demorar muito para chegar até aqui... principalmente porque não estão muito preocupadas com os limites de velocidade.
— Quem são “elas”? — Adrian perguntou. — Eu me lembro de você ligar para uma tal de Dawn em Los Angeles, mas achei que fosse alguma das suas amigas gostosas da faculdade.
— São elas que fazem o nosso destino — Lee respondeu em tom sonhador.
— Que coisa deliciosamente enigmática e sem sentido — Adrian balbuciou.
Lee olhou feio e então examinou Adrian com atenção.
— Tire a gravata.
Percebi que eu tinha passado tanto tempo com Adrian que estava pronta para fazer algum comentário do tipo: “Ah, fico feliz em saber que as coisas já não estão mais tão formais”. Aparentemente, a situação era perigosa o suficiente — e a faca na minha garganta problemática o suficiente — para Adrian não retrucar. Ele tinha algemado os pulsos na frente do corpo e, depois de algumas manobras complexas com as mãos, finalmente conseguiu soltar a gravata que tinha vestido para o desfile de Jill. Ele a jogou para Lee.
— Cuidado — Adrian falou. — É de seda. — No final das contas, não estava completamente desprovido de sarcasmo.
Lee me rolou para que eu ficasse de barriga para baixo; ele me livrou da faca, mas não me deu tempo para reagir. Com habilidade notável, rapidamente amarrou as minhas mãos nas costas com a gravata de Adrian. Para isso, precisou segurar e puxar um pouco os meus braços, o que doía bastante depois da facada. Ele me largou quando terminou e permitiu que me sentasse cautelosamente, mas só de tentar forçar a gravata já percebi que não conseguiria desatar aqueles nós tão cedo. Inquieta, fiquei imaginando quantas garotas ele tinha amarrado antes naquela sua tentativa doentia de se tornar Strigoi.
Um silêncio estranho e constrangedor recaiu enquanto esperávamos pelas “pessoas que fazem o destino” chegarem. Os minutos iam passando e eu pensava, enlouquecida, no que fazer. Quanto tempo nós tínhamos até que as pessoas para quem ele tinha ligado chegassem? Pelo que ele tinha dito, imaginava que seria quase uma hora. Sentindo-me corajosa, finalmente tentei me comunicar com Adrian, mais uma vez esperando que nós pudéssemos combinar um ataque conjunto a Lee disfarçadamente — apesar de a nossa possibilidade de sucesso ter diminuído demais com nós dois de mãos amarradas.
— Como foi que você chegou até aqui? — perguntei.
O olhar de Adrian estava fixado em Lee, ainda esperançoso por contato direto dos olhos, mas ele deu uma olhadela rápida e seca para mim.
— Da mesma maneira que eu vou a todo lugar, Sage. De ônibus.
— Por quê?
— Porque eu não tenho carro.
Adrian! — Impressionante. Mesmo com a nossa vida em perigo, ele ainda conseguia me enfurecer.
Ele deu de ombros e voltou a se concentrar em Lee, apesar de as palavras obviamente serem para mim.
— Para pedir desculpas. Porque eu fui um grande imbecil com você no desfile da Belezinha. Pouco depois de você sair, percebi que tinha que ir atrás. — Ele fez uma pausa eloquente e olhou ao redor. — Acho que nenhuma boa ação passa sem castigo.
De repente me senti péssima. O fato de Lee ter se transformado em psicopata certamente não era minha culpa, mas fiquei incomodada por Adrian estar naquela situação por ter ido pedir desculpas para mim.
— Tudo bem. Você não foi, hum, assim tão mau — eu disse de um jeito meio ridículo, na esperança de fazê-lo se sentir melhor.
Um sorrisinho brincou nos lábios dele.
— Você é uma péssima mentirosa, Sage, mas, mesmo assim, estou comovido pela sua tentativa de me consolar. Dou nota dez para o seu esforço.
— É, bom... o que aconteceu lá parece meio pequeno à luz da situação atual — balbuciei. — É fácil perdoar.
A testa de Lee ia ficando mais franzida à medida que nos escutava.
— Os outros sabem que vocês estão aqui? — ele perguntou a Adrian.
— Não — Adrian respondeu. — Eu disse que ia voltar para a casa de Clarence.
Não sabia se ele estava mentindo ou não. Por um momento, não achei que fosse fazer diferença. Os outros tinham ouvido quando eu disse que ia para lá, mas nenhum deles teria razão para ir atrás de nós.
Nenhuma razão a não ser o laço.
Prendi a respiração e olhei nos olhos de Adrian. Ele virou o rosto, talvez com medo de entregar o que eu tinha acabado de perceber. Não importava se a turma toda sabia onde eu estava. Se Jill estivesse conectada a Adrian, ela saberia agora. E saberia que nós estávamos encrencados. Mas isso era partir do princípio de que aquele era um dos momentos em que ela era capaz de enxergar dentro da mente dele. Os dois tinham admitido que o laço era inconsistente e que emoções fortes podiam causar a conexão.
Bom, se isso não contasse como situação de emoção forte, não sei o que contaria. Mesmo que ela se desse conta do que estava acontecendo, havia muitas questões em jogo. Jill teria que chegar até ali, e não poderia fazer isso sozinha. Ligar para a polícia seria o método mais rápido, mas ela podia hesitar se soubesse que era caso de vampiro. Ela precisaria de Eddie. Quanto tempo eles demorariam se já tivessem voltado para o alojamento?
Eu não tinha ideia. A única coisa que eu sabia era que precisávamos continuar vivos porque, se conseguíssemos, Jill iria mandar ajuda para nós de um jeito ou de outro. Só que eu não sabia mais quais eram nossas chances de sobrevivência. Adrian e eu estávamos confinados, encurralados com um sujeito que não tinha medo de matar com uma faca e que estava desesperado para voltar a ser Strigoi. Essa era uma péssima combinação, e ameaçava piorar...
— Quem está vindo para cá, Lee? — perguntei. — Para quem você ligou? — Como ele não respondeu, tirei a próxima conclusão lógica. — São Strigoi. Você chamou Strigoi para vir aqui.
— É o único modo — ele disse, enquanto jogava a faca de uma mão para a outra. — A única maneira que restou. Sinto muito. Não posso mais ficar desse jeito. Não posso mais ser mortal. Já passou tempo demais.
Claro. Os Moroi podiam se tornar Strigoi de duas maneiras. Uma era beber o sangue de outra pessoa e matá-la no processo. Lee tinha tentado isso, usando toda combinação de vítimas que conseguiu, e fracassou. Isso o deixava com uma última opção desesperada: a conversão por meio de outro Strigoi. Normalmente, isso acontecia à força, quando um Strigoi matava alguém e depois dava seu próprio sangue para a vítima. Era o que Lee queria que fizessem com ele, e em troca daria nossas vidas aos Strigoi que iriam convertê-lo. E depois ele queria fazer o mesmo com Jill, motivado por algum tipo de amor equivocado...
— Mas não vale a pena — eu disse, com o desespero e o medo a me dar coragem. — Não vale a pena o preço de matar inocentes e colocar a sua alma em perigo.
O olhar de Lee recaiu sobre mim e sua expressão de indiferença era tão gélida que tive dificuldade para assimilar que a pessoa à minha frente era a mesma para quem eu sorria com indulgência enquanto paquerava Jill.
— Não vale, Sydney? Como é que você pode saber? Você se privou de prazer a maior parte da vida. Você é distante dos outros. Você nunca se permitiu ser egoísta, e olhe só onde isso a fez parar. A sua “moral” fez com que a sua vida fosse curta e austera. Pode me dizer agora, quando está prestes a morrer, que não gostaria de ter se permitido um pouco mais de diversão?
— Mas a alma imortal...
— Que diferença isso faz para você? — ele inquiriu. — Por que se incomodar em viver uma vida triste, toda regulada, neste mundo, na esperança de que talvez a nossa alma vá para algum domínio celestial, se eu posso assumir o controle agora... garantir que vou viver para sempre neste mundo, com todos os seus prazeres, forte e jovem para sempre? Isso é real. Isso é algo em que posso depositar a minha fé.
— É errado — eu disse. — Não vale a pena.
— Você não diria isso se tivesse passado pelo que eu passei. Se tivesse sido Strigoi, também não ia querer perder isso nunca.
— Como foi que você perdeu? — Adrian perguntou. — Qual vampiro usuário do espírito salvou você?
Lee deu uma gargalhada de desdém.
— Você quer dizer qual me roubou. Não sei. Tudo aconteceu tão rápido. Mas assim que eu encontrar esse vampiro... ahh!
Um anuário não é a melhor das armas, principalmente se for do tamanho do de Amberwood, mas em uma situação desesperadora — e de surpresa — serve.
Eu tinha percebido antes que não ia conseguir soltar os nós da gravata rápido. Era verdade. Demorei todo esse tempo, mas consegui. Por algum motivo, dar nós era uma habilidade útil no currículo dos alquimistas, que eu tinha treinado na infância com o meu pai. Assim que me livrei da gravata de Adrian, estendi o braço e peguei a primeira coisa que consegui: o anuário do penúltimo ano de Kelly. Eu me levantei em um pulo e bati com tudo na cabeça de Lee. Ele se encolheu com o impacto e largou a faca no processo, e eu aproveitei a oportunidade para disparar até o outro lado da sala e agarrar o braço de Adrian. Ele não precisou da minha ajuda e já estava tentando se levantar.
Não fomos muito longe antes de Lee nos alcançar. A faca tinha escorregado para algum lugar que ninguém viu, e ele confiava apenas na própria força. Ele me arrastou e me separou de Adrian, com uma mão no meu braço machucado e a outra no meu cabelo, me fazendo tropeçar. Adrian saiu atrás de nós e fez o que pôde para acertar Lee, apesar das mãos algemadas. Nós não éramos a força de luta mais eficiente, mas se pudéssemos segurar Lee ainda que por um momento, havia chance de conseguirmos sair dali.
Lee estava distraído com nós dois, tentando lutar conosco e nos afastar ao mesmo tempo. Sem que eu me desse conta, a aula de Eddie me voltou à cabeça, a parte sobre como um soco bem dado era capaz de causar danos sérios a alguém mais forte do que você. Avaliei a situação em segundos e cheguei à conclusão de que tinha uma abertura.
Fechei a mão do jeito que Eddie tinha me ensinado naquela aula rápida e posicionei meu corpo de maneira a dirigir o peso de maneira eficiente. Dei o golpe.
— Ai!
Berrei de dor quando meu punho fechado bateu nele. Se essa era a maneira “segura” de dar um soco, não era capaz de imaginar quanto um golpe desleixado devia doer. Felizmente, parece que causou o mesmo nível de dor — se não maior — a Lee. Ele caiu para trás e bateu na poltrona reclinável de um jeito que perdeu o equilíbrio e desabou no chão. Fiquei de queixo caído com o que tinha feito, mas Adrian continuava em movimento. Ele me empurrou para a porta, aproveitando a desorientação momentânea de Lee.
— Vamos lá, Sage. É agora.
Nós corremos até a porta, prontos para fugir enquanto Lee gritava palavrões para nós. Estendi a mão para a maçaneta, mas a porta se abriu antes que eu encostasse nela. E duas Strigoi entraram na sala.

Um comentário:

  1. Pqp,ops🙊🙈 e eu que achei que o Lee era super legal 😠😖

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Boa leitura :)