27 de setembro de 2017

Capítulo 23

— O QUE VOCÊ FEZ?
Eu estava sentada na ponta de uma fileira de cadeiras no desfile de Jill, quase uma semana depois, no centro de Palm Springs, esperando as coisas começarem. Eu nem sabia que Trey estava no desfile e fiquei surpresa ao vê-lo de repente, ajoelhado ao meu lado.
— Do que exatamente você está falando? — perguntei a ele. — Há mais ou menos um milhão de coisas pelas quais eu posso assumir a responsabilidade.
Ele desdenhou e manteve a voz baixa, o que não era muito necessário devido ao barulho de conversas ao nosso redor. Várias centenas de pessoas haviam comparecido ao desfile.
— Estou falando de Slade e dos amigos dele, e você sabe muito bem disso — Trey disse. — Eles andam muito aborrecidos por causa de alguma coisa esta semana. Ficam só reclamando dessas tatuagens idiotas — ele olhou para mim cheio de segundas intenções.
— O quê? — perguntei com expressão de inocência no rosto. — Por que você acha que isso tem alguma coisa a ver comigo?
— Está dizendo que não tem? — ele indagou, sem se deixar enganar nem um pouco.
Senti um sorrisinho traidor brincando nos meus lábios. Depois da inspeção ao apartamento de Keith, os alquimistas haviam garantido que os colegas tatuadores dele não teriam mais meios de continuar com as tatuagens ilícitas. Além disso, ninguém mais falou sobre Zoe me substituir. Demorou vários dias até que Slade e seus amigos percebessem que a conexão que tinham com aquelas tatuagens que melhoravam o desempenho não estava mais lá. Eu tinha passado a semana toda observando suas conversas furtivas com interesse, mas não tinha percebido que Trey também notara.
— Vamos dizer apenas que é possível que Slade em breve já não seja mais o superastro que tem sido — respondi. — Espero que você esteja pronto para se apresentar e ocupar o lugar dele.
Trey me examinou durante mais alguns momentos; parecia que estava esperando que eu dissesse algo mais. Como eu não falei nada, ele só sacudiu a cabeça e deu risada.
— Sempre que quiser café, Melbourne, é só falar comigo.
— Anotado — respondi. Fiz um gesto para o público que continuava crescendo. — Mas, aliás, o que você está fazendo aqui? Não sabia que você se interessava pela moda mais quente da atualidade.
— E não me interesso mesmo — ele concordou. — Mas algumas pessoas que eu conheço estão trabalhando no desfile.
— Garotas? — perguntei em tom de sacanagem.
Ele revirou os olhos.
— Amigas minhas. Não tenho tempo para essa bobagem de distração feminina.
— É mesmo? Achei que tinha sido por isso que você fez a sua tatuagem. As mulheres gostam dessas coisas.
Trey se retesou.
— Do que você está falando?
Eu me lembrei de que Kristin e Julia tinham mencionado como era estranho o fato de Trey ter tatuagem, e depois Eddie tinha mencionado que tinha visto o desenho na parte baixa das costas de Trey no vestiário. Eddie tinha dito que parecia um sol com diversos raios, feita com tinta muito comum. Eu estava esperando a chance para tirar sarro de Trey por causa dela.
— Não se faça de desentendido. Estou sabendo do seu sol brilhante. Como é que você sempre me critica tanto, hein?
— Eu...
Ele realmente não sabia o que dizer. Mais do que isso. Ele parecia pouco à vontade, preocupado — como se aquilo fosse algo que ele não queria que eu soubesse. Foi estranho. Não era nada tão sério assim. Eu estava prestes a questioná-lo mais quando Adrian de repente abriu caminho até nós pelo meio da multidão. Trey deu uma olhada no rosto perturbado de Adrian e se levantou imediatamente. Dava para entender a reação dele. A expressão de Adrian também teria me intimidado.
— Bom — Trey disse, sem jeito. — Obrigado mais uma vez. A gente se fala depois.
Murmurei uma despedida e observei quando Adrian passou por mim. Micah estava sentado ao meu lado, depois vinha Eddie e em seguida duas cadeiras vazias que tínhamos guardado. Adrian se sentou em uma delas e ignorou o cumprimento de Eddie.
Momentos depois, Lee chegou apressado e ocupou a outra cadeira. Ele parecia incomodado com algo, mas, mesmo assim, conseguiu ser simpático com Adrian. Ele fitava o nada, e o meu bom humor se esvaiu. De algum modo, sem saber por quê, eu tinha a sensação de que eu era o motivo daquele mau humor todo.
Mas não tivemos tempo de discutir a questão. As luzes diminuíram e o desfile começou. A apresentação era feita pelo âncora de um telejornal local, que falou sobre os cinco estilistas que iriam se apresentar aquela noite. A de Jill era a terceira, e assistir aos que vieram antes nos deixou ainda mais ansiosos. Aquilo estava muito longe das sessões de ensaio que eu tinha presenciado antes. As luzes e a música faziam com que tudo assumisse um nível mais profissional, e as outras modelos pareciam bem mais velhas e experientes. Comecei a compartilhar do receio que Jill havia tido, de que talvez ela estivesse tentando fazer algo fora de seu alcance.
Então chegou a vez de Lia DiStefano. Jill foi uma de suas primeiras modelos a entrar, e apareceu com um vestido de noite prateado fluido, feito um tecido que parecia desafiar a gravidade. Uma meia-máscara de pérolas e prata cobria parte de seu rosto, escondendo sua identidade daqueles que não soubessem quem ela era. Eu achava que eles fossem amenizar um pouco suas características de vampira, possivelmente lhe dando uma cor mais parecida com a de uma humana. Em vez disso, tinham acentuado seu visual fora do comum, com um pó para iluminar a pele que a deixava ainda mais pálida, de um jeito que a fazia parecer sobrenatural. Cada cacho tinha sido ajeitado no lugar e caía ao redor do rosto de maneira artística; os fios estavam enfeitados com pedrinhas brilhantes. A maneira de andar dela tinha melhorado imensamente desde o primeiro ensaio. Ela praticamente dormia com aqueles saltos e tinha ido além de simplesmente tentar não cair. Havia uma nova confiança e motivação nela que não existiam antes. De vez em quando, eu captava um vislumbre de nervosismo em seus olhos, ou um ajuste em seus passos enquanto ela controlava os saltos prateados altíssimos. Mas eu duvidava que alguém mais estivesse reparando nessas coisas. Qualquer pessoa que não conhecesse Jill nem suas características só iria ver uma mulher forte e etérea desfilando pela passarela.
Era uma coisa fantástica. Se ela era capaz de se transformar tanto assim só com um pouco de incentivo, o que mais estaria por vir?
Dei uma olhada nos rapazes ao meu lado e vi sentimentos parecidos espelhados em seus rostos. O de Adrian estava cheio daquele orgulho de irmão que ele sempre demonstrava por ela, com todos os vestígios de seu mau humor anterior desaparecidos.
Micah e Lee demonstravam adoração pura e sem filtro. Para a minha surpresa, a expressão de Eddie também era de adoração, junto com mais alguma coisa. Era quase como se ele... a idolatrasse. Era isso, percebi. Ao se mostrar como essa criatura com jeito de deusa, maior do que a vida, Jill concretizava todas as fantasias de proteção idealizadas de Eddie. Ela era a princesa perfeita agora, com seu cavaleiro prestativo pronto para servi-la.
Ela desfilou mais duas vezes para a linha de Lia, estonteante todas as vezes, apesar de não se equiparar exatamente à estreia com o vestido prateado. Assisti ao resto do desfile só com meia atenção. Meu orgulho e meu afeto por Jill me distraíram demais e, sinceramente, a maior parte das roupas que eu vi naquela noite era chamativa demais para o meu gosto.
Havia uma recepção depois do desfile, em que convidados, estilistas e modelos podiam interagir e beber alguma coisa. Nosso grupo encontrou um canto perto dos salgadinhos para esperar Jill, que ainda não tinha chegado. Lee tinha nas mãos um buquê enorme de lírios brancos. Adrian observou uma garçonete passar com uma bandeja cheia de taças de champanhe. Seus olhos se encheram de desejo, mas ele não fez nada para que ela parasse. Fiquei tão orgulhosa e aliviada! Jill, equilíbrio e álcool não eram coisas que nós íamos querer misturar.
Quando a garçonete se afastou, Adrian se virou para mim e eu finalmente vi a irritação de antes retornar. E, como eu desconfiava, o alvo era eu.
— Quando é que você pretendia me contar? — ele perguntou.
Aquilo era tão enigmático quanto a fala de abertura de Trey.
— Contar o quê?
— Que o auxílio financeiro não vai rolar! Conversei com a secretaria de matrícula e disseram que você já sabia.
Suspirei.
— Eu não estava exatamente escondendo de você. Só não tinha tido oportunidade de contar ainda. Havia mais um monte de coisas acontecendo.
Certo, eu na verdade estava adiando, exatamente por este motivo. Bom, não exatamente. Eu não sabia que ele iria ficar tão aborrecido por causa daquilo.
— Mas parece que você teve tempo suficiente para pagar a taxa de ouvinte. E teve dinheiro bastante para isso. Mas não para financiar a minha moradia.
Acho que o que mais me incomodava naquilo, além do tema, era a insinuação de que de algum modo eu havia optado por agir de uma maneira inconveniente para ele. Como se eu tivesse me submetido de propósito àquilo, apesar de haver uma maneira de evitar.
— É fácil incluir um pagamento único nas despesas — disse a ele. — Mas pagar um aluguel todo mês? Nem tanto.
— Então para que se dar ao trabalho? — ele exclamou. — O objetivo todo disso era conseguir dinheiro para sair da casa do Clarence! Se não fosse por isso, eu não faria esses cursos idiotas. Você acha que eu gosto de passar horas no ônibus todos os dias?
— As aulas estão te fazendo bem — retruquei, sentindo que eu mesma estava ficando irritada. A minha intenção não era perder a paciência, não ali e certamente não com todos os nossos amigos assistindo a tudo. No entanto, fiquei estarrecida com a reação de Adrian. Será que ele não era capaz de enxergar como era bom para ele fazer algo útil? Eu tinha visto o seu rosto quando me mostrara os quadros. Eles tinham lhe dado um canal saudável para lidar com Rose, isso sem falar em uma motivação para ele. Além disso, fiquei arrasada de ver como ele foi capaz de desprezar com tanto desdém as aulas “idiotas”. Era mais um lembrete de como o mundo era injusto, como eu não podia ter as coisas às quais os outros não davam valor.
Ele desdenhou.
— “Me fazendo bem”? Fala sério, pare de bancar a minha mãe mais uma vez! Não é o seu trabalho me dizer como viver a vida. Se eu quiser os seus conselhos, eu peço.
— Certo — eu disse, e coloquei as mãos na cintura. — Não é minha função dizer a você como viver a vida... só é minha função facilitar ao máximo para você. Porque só Deus sabe como você não pode sofrer com nada que seja levemente inconveniente. O que aconteceu com todas aquelas coisas que você disse? Sobre como estava determinado a melhorar sua vida? Quando me pediu para acreditar em você?
— Parem com isso, pessoal — Eddie disse, sem jeito. — Não é a hora nem o lugar.
Adrian o ignorou.
— Você não tem nenhum problema em facilitar a vida de Jill o máximo possível.
— Esta é a minha função — resmunguei em resposta. — E ela ainda é uma menina. Eu não achava que um adulto como você precisasse dos mesmos cuidados que ela!
Os olhos de Adrian se encheram de fogo cor de esmeralda quando ele olhou feio para mim, e então seu olhar se fixou em algo atrás de mim. Eu me virei e vi Jill se aproximar. Ela usava o vestido prateado mais uma vez e sua expressão estava cheia de alegria radiante — uma alegria que desabou quando ela se aproximou e percebeu que uma briga se desenrolava. Quando ela parou ao meu lado, toda a animação de um momento antes tinha sido substituída por preocupação e inquietação.
— O que está acontecendo? — ela perguntou e olhou de Adrian para mim. Claro que ela já sabia, por causa do laço. Era uma surpresa que os sentimentos sombrios dele não tivessem atrapalhado o desempenho dela antes.
— Nada — disse com a voz inalterada.
— Bom — disse Adrian. — Isso depende da sua definição de “nada”. Quer dizer, se você considera que mentir e...
— Pare com isso! — exclamei, erguendo a voz apesar de todos os meus esforços. Havia barulho demais no salão para alguém escutar, mas algumas pessoas que estavam por perto olharam para nós com curiosidade. — Apenas pare com isso, Adrian. Será que você pode não estragar esse momento para ela? Será que não pode fingir, apenas por uma noite, que existem outras pessoas no mundo além de você?
— Estragar as coisas para ela? — ele exclamou. — Como você ousa dizer uma coisa dessas? Você sabe o que eu fiz por ela! Eu fiz tudo por ela! Abri mão de tudo por ela!
— É mesmo? — perguntei. — Porque pelo que eu sei, não parece que...
Dei uma olhada no rosto de Jill e prontamente me interrompi. Atrás da máscara, os olhos dela estavam arregalados de desalento com as acusações que Adrian e eu estávamos trocando. Eu tinha acabado de dizer a ele que era egoísta e não pensava em Jill e, no entanto, lá estava eu, brigando sem parar com ele na grande noite dela, na frente dos seus amigos. Não importava se eu estava certa — e eu tinha certeza de que estava. Aquele não era o momento de ter aquela discussão. Eu não devia ter permitido que Adrian me fizesse cair nessa, e se ele não tinha sensatez de parar antes que tudo piorasse, então eu faria isso.
— Estou indo — eu disse. Forcei o sorriso mais sincero possível para Jill, que parecia estar à beira de lágrimas. — Você foi maravilhosa. De verdade.
— Sydney...
— Está tudo bem — disse a ela. — Tenho algumas coisas a fazer — me esforcei para pensar em algo. — Eu preciso, hum, limpar as coisas que Keith deixou para trás. Algum de vocês pode levar Eddie e ela de volta a Amberwood? — esta pergunta eu fiz para Micah e Lee. Eu sabia que um deles iria se oferecer. Não achei que precisasse tomar a mesma providência para Adrian. Sinceramente não me importava com o que fosse acontecer com ele aquela noite.
— Claro que sim — Lee e Micah responderam em uníssono. Mas, depois de um momento, Lee franziu a testa. — Por que você precisa arrumar as coisas de Keith?
— É uma longa história — balbuciei. — Vamos dizer que ele saiu da cidade e não vai voltar por um bom tempo. Talvez não volte nunca mais.
De maneira inexplicável, Lee pareceu incomodado com aquilo. Talvez durante todo o tempo que Keith tinha passado na casa de Clarence, os dois tivessem ficado amigos. Se fosse isso, Lee me devia uma.
Jill continuava aborrecida.
— Achei que nós todos iríamos sair para comemorar, não?
— Vocês podem ir se quiserem — eu disse. — Desde que Eddie esteja com você, para mim não faz diferença — estendi a mão sem jeito para Jill. Quase fiquei com vontade de abraçá-la, mas ela estava tão rebuscada e magnífica com sua roupa e sua maquiagem que eu fiquei com medo de estragar. Eu me contentei com um tapinha não muito convincente no ombro. — Falei sério. Você estava de tirar o fôlego.
Eu me afastei apressada, com um pouco de medo de que ou Adrian ou eu não nos aguentássemos e disséssemos algo idiota um para o outro. Eu precisava sair dali. A minha esperança era que Adrian tivesse noção suficiente para deixar a questão de lado e não fizesse a noite ficar ainda pior para Jill. Eu não sabia por que a briga com ele tinha me incomodado tanto. Nós vivíamos brigando desde que nos conhecemos. Que diferença fazia mais uma discussão? Era porque nós andávamos nos dando bem, percebi. Eu ainda não pensava nele em termos humanos, mas, em algum ponto do caminho, tinha passado a considerá-lo menos como monstro.
— Sydney?
Fui detida por uma voz inesperada: Laurel. Ela tinha tocado no meu braço enquanto eu passava por um grupo de garotas de Amberwood. Eu devia estar parecendo bem irritada mesmo porque, quando olhei nos olhos dela, ela chegou de fato a estremecer.
Devia ser algo inédito.
— O que foi? — perguntei.
Ela engoliu em seco e se afastou das amigas com os olhos arregalados e desesperados. Um chapéu cobria a maior parte do cabelo que — pelo que tinha ouvido dizer — ela ainda não tinha conseguido recuperar e fazer voltar ao normal.
— Eu ouvi... ouvi dizer que talvez você poderia me ajudar. Com o meu cabelo — ela disse.
Esse era mais um favor que Kristin tinha feito para mim. Depois de deixar Laurel sofrer durante alguns dias, pedi a Kristin que fizesse correr a notícia de que Sydney Melrose — com sua farmácia no dormitório — talvez fosse capaz de consertar o que estava errado. Mas eu também tinha me assegurado de deixar bem claro que Laurel não era a minha pessoa preferida no mundo e que ela teria muito trabalho para me convencer.
— Talvez — respondi, tentando manter uma expressão severa, o que não foi difícil porque eu ainda estava muito brava com Adrian.
— Por favor — ela disse. — Faço qualquer coisa que você quiser se puder me
 ajudar! Já tentei tudo no meu cabelo, e nada funciona. — Para a minha surpresa, ela empurrou alguns anuários para cima de mim. — Pronto. Você queria ver isso, não queria? Fique com eles. Fique com qualquer coisa que quiser.
Mais cinco dias de lavagem com detergente forte iriam na verdade resolver o problema, mas eu é que não ia lhe dizer aquilo. Peguei os anuários.
— Se eu ajudar você — falei —, vai ter que deixar a minha irmã em paz. Está entendendo?
— Estou — ela se apressou em responder.
— Não sei se está. Chega de pegadinhas, de bullying ou de falar mal dela pelas costas. Você não precisa ser a melhor amiga dela, mas não quero que continue interferindo. Fique fora da vida dela. — Fiz uma pausa. — Bom, menos para pedir desculpas.
Laurel concordava com tudo que eu dizia.
— Tudo bem, tudo bem! Vou me desculpar agora mesmo!
Ergui os olhos para o lugar em que Jill estava com seus admiradores e as flores de Lee nos braços.
— Não. Não faça com que esta noite seja ainda mais estranha para ela. Amanhã está bom.
— Vou pedir desculpas — Laurel disse. — Prometo. Só me diga o que fazer. Como eu conserto isto.
Eu não achava que Laurel fosse falar comigo naquela noite específica, mas estava à espera dela mais dia, menos dia. Por isso, estava com o vidrinho de antídoto pronto na bolsa. Eu o peguei e os olhos dela quase saltaram para fora das órbitas quando o estendi na sua frente.
— Você só precisa de uma dose. Use como se fosse xampu. Depois, vai ter que tingir de novo. — Ela estendeu a mão para pegar o frasco e eu o tirei do alcance dela. — Estou falando sério. Você vai parar de incomodar Jill agora mesmo. Se eu der isto para você, não quero mais ouvir dizer que você está causando problemas para ela. Chega de ficar ofendida se ela falar com Micah. Chega de piadas dizendo que ela é uma vampira. Chega de ligar para a Nevermore e ficar perguntando sobre pessoas altas e pálidas.
Ela ficou boquiaberta.
— Chega do quê? Eu nunca liguei para ninguém!
Hesitei. Quando o tatuador tinha mencionado que alguém ficava ligando para perguntar sobre pessoas que pareciam vampiros, achei que era Laurel dando continuidade a sua piada. Pela expressão estarrecida no rosto dela, já não achava que fosse verdade.
— Bom, se eu ficar sabendo que qualquer uma das outras coisas continua, então o que aconteceu com o seu cabelo não vai ser nada em comparação com o que vai acontecer a seguir. Nada. Está entendendo?
Ela assentiu, trêmula.
— P-perfeitamente.
Entreguei o frasco para ela.
— Não se esqueça.
Laurel começou a se virar e então lançou mais um olhar sem jeito para mim.
— Sabe, às vezes você pode ser assustadora como o diabo.
Fiquei imaginando se os alquimistas tinham alguma ideia do que eu andava fazendo em relação àquela missão. Pelo menos a conversa servira para confirmar uma coisa. O desespero de Laurel me convenceu de que as piadas de vampira só tinham sido uma tática. Na verdade, ela não acreditava que nada daquilo fosse verdade. Mas, por outro lado, aquilo deixava no ar a pergunta preocupante de quem era a pessoa que estava ligando para a Nevermore e perguntando sobre vampiros.
Quando finalmente saí do prédio e seguia na direção do carro, resolvi que realmente iria à casa de Keith. Alguém precisava separar os pertences dele, e parecia uma maneira segura de evitar os outros. Ainda tinha umas duas horas antes do toque de recolher em Amberwood.
Ninguém tinha mexido no apartamento de Keith desde que os alquimistas haviam feito a inspeção. Os indícios incriminadores de antes estavam lá, onde tínhamos descoberto suas reservas de sangue de Clarence e de prata. Os alquimistas praticamente só tinham tirado o essencial e deixado o resto dos pertences dele para trás. A minha esperança de ir até lá naquela noite era pegar os outros ingredientes dele, os que não eram usados na produção de tatuagens ilícitas. Sempre era útil ter quantidades extras dessas substâncias químicas à mão, seja para destruir corpos de Strigoi ou para fazer experiências no dormitório.
Não tive tanta sorte. Apesar de os outros suprimentos dele não serem ilegais, parecia que os alquimistas acharam melhor confiscar tudo. Mas, como eu estava ali, resolvi conferir se alguns dos outros bens dele seriam úteis para mim. Keith com certeza não tinha se segurado para gastar seus fundos ilícitos incrementando o apartamento temporário com todos os confortos que ele devia ter em casa. Apague isso. Duvidava que ele tivesse em casa qualquer coisa daquele tipo: uma cama bem maior do que uma king size, uma tv de tela plana gigantesca, um sistema de som digno de um teatro e comida suficiente para dar festa todas as noites durante um mês. Examinei armário após armário, chocada por ver quanta comida era só porcaria. Ainda assim, talvez valesse a pena levar um pouco para Jill e Eddie, por isso coloquei os doces mais transportáveis em sacolas apropriadas, organizando por cor e tamanho.
Também fiquei pensando sobre o lado prático de levar a tv para Amberwood. Parecia um desperdício deixar ali para a turma de desmanche dos alquimistas, mas eu já podia imaginar a expressão da sra. Weathers se nos visse arrastando aquilo escada acima para o quarto. Nem tinha certeza de que Jill e eu tínhamos uma parede grande o bastante para comportá-la. Sentei na cadeira reclinável de Keith para refletir sobre a questão da tv.
Até a poltrona era da mais alta qualidade. O couro luxuoso parecia manteiga, e eu praticamente afundei nas almofadas. Pena não haver espaço para ela na sala da sra. Terwilliger. Eu era capaz de enxergá-la relaxando ali enquanto tomava um cappuccino e lia documentos antigos.
Bom, seja lá o que acontecesse com o resto das coisas de Keith, seria necessário contratar um caminhão de mudança, porque o Pingado com certeza não ia ter lugar para a tv, a poltrona e a maior parte das outras coisas. Quando isso ficou decidido, eu não tinha mais motivo para ficar ali naquela noite, mas detestaria ter que voltar. Estava com medo de ver Jill. Eu não iria receber bem nenhuma reação dela. Se ela ainda estivesse triste por causa da briga, iria me sentir culpada. Se ela tentasse defender Adrian, eu também ficaria aborrecida.
Suspirei. A cadeira era tão ridiculamente confortável que eu bem que podia aproveitar mais um pouco. Remexi na minha bolsa a tiracolo para achar a minha lição de casa e me lembrei dos anuários. Kelly Hayes. Quase não tinha tido tempo de pensar nela ou nos assassinatos, não com todo o drama sobre Keith e as tatuagens. Kelly estava no penúltimo ano quando morreu, e eu tinha um anuário de cada um dos anos que ela tinha passado em Amberwood.
Mesmo quando era caloura, Kelly ocupava muito espaço no anuário. Eu me lembrei de como a sra. Weathers tinha dito que Kelly era boa atleta. Não estava brincando. Kelly tinha participado de praticamente todos os esportes oferecidos por Amberwood e tinha sido excepcional em todos eles. Ela entrou para os times competitivos já no primeiro ano e ganhou todo tipo de prêmios. Outra coisa que eu também descobri imediatamente era que Kelly, com toda a certeza, não era Moroi. Isso era óbvio, mesmo em branco e preto, e foi confirmado na página dupla em cores do segundo ano. Seu tipo físico era bem humano e sua pele bronzeada obviamente adorava sol.
Eu estava examinando o índice do anuário do penúltimo ano quando ouvi alguém bater à porta. Por um momento, não quis atender. Até onde eu sabia, devia ser algum amigo fracassado que Keith tinha feito em seu período de estadia, querendo comer a comida dele e assistir à televisão. Mas então fiquei preocupada que pudesse ser alguma coisa relacionada aos alquimistas. Encontrei a seção de homenagem a Kelly que estava procurando e pus o anuário no chão, antes de me aproximar da porta. Espiei pelo olho mágico e avistei um rosto conhecido.
— Lee? — perguntei ao abrir a porta.
Ele me lançou um sorriso tímido.
— Oi. Desculpe vir incomodar você.
— O que está fazendo aqui? — exclamei e fiz sinal para que ele entrasse. — Por que não está com os outros?
Ele me seguiu até a sala.
— Eu... precisava conversar com você. Quando disse que vinha para cá, fiquei imaginando se o que o meu pai disse era verdade. Que Keith não está mais aqui.
Voltei a me sentar na poltrona reclinável. Lee se acomodou no sofazinho próximo.
— É. Keith se foi. Ele, hum, recebeu outra missão.
Keith tinha sido afastado e estava recebendo seu castigo em algum lugar, e por mim estava mais do que bom.
Lee deu uma olhada ao redor e absorveu a mobília cara.
— Este lugar é bacana — os olhos dele pousaram no armário onde o material de alquimia ficava guardado. A porta ainda estava pendurada de maneira precária pelas dobradiças, e eu não me dei ao trabalho de arrumar, já que os alquimistas tinham levado embora todo o conteúdo.
— Este lugar... — Lee franziu a testa. — Este lugar foi invadido?
— Não exatamente — respondi. — Keith, hum, só precisou pegar umas coisas apressado antes de ir embora.
Lee torceu as mãos e olhou ao redor mais um pouco antes de se virar para mim outra vez.
— Ele vai voltar?
— Provavelmente não.
Lee ficou desolado, e isso me deixou surpresa. Sempre tinha tido a impressão de que ele não gostava de Keith.
— Algum outro alquimista vai substituí-lo?
— Não sei — respondi. A questão ainda estava sendo debatida. O fato de eu ter entregado Keith tinha impedido que eu fosse substituída por Zoe, e Stanton agora estava pensando em simplesmente me colocar como a alquimista local, já que as funções eram leves. — Se alguém for mandado para cá, ainda vai demorar um pouco.
— Então você é a única alquimista na área — ele repetiu, parecendo ainda mais triste.
Dei de ombros.
— Tem alguns em Los Angeles.
Isso inexplicavelmente fez com que ele se alegrasse um pouco.
— É mesmo? Será que você pode me dizer qual é o...
Lee se interrompeu quando sua atenção se voltou ao anuário aberto que estava aos meus pés.
— Ah — eu disse e o recolhi. — É só um projeto de pesquisa que eu estou fazendo sobre...
— Kelly Hayes — a expressão animada desapareceu.
— É. Você ouviu falar dela? — Estendi o braço para pegar um pedaço de papel, para usar como marcador na seção de homenagem.
— Pode-se dizer que sim — ele respondeu.
Eu comecei a perguntar o que ele queria dizer, e foi aí que eu vi. Na página dupla que tinha sido feita em honra a Kelly, havia fotos de todas as suas atividades no ensino médio. Como não era de surpreender, na maior parte das fotos ela praticava algum esporte. Havia algumas de outras áreas de seu mundo social e acadêmico, incluindo uma dela no baile de formatura. Ela usava um vestido de cetim azul estonteante que ressaltava sua silhueta atlética e dava um enorme sorriso para a câmera enquanto abraçava seu lindo par, vestido com um smoking.
Lee.
Ergui a cabeça de supetão e olhei para ele, que agora me observava com uma expressão impassível. Eu me voltei de novo para a foto e a analisei com cuidado. O mais notável não era o fato de Lee estar na foto — apesar de, pode acreditar, eu ainda não ter entendido o que havia se passado ali. O que me pegou foi o momento. Aquele anuário tinha cinco anos. Lee teria catorze anos na época, mas o sujeito que olhava para mim ao lado de Kelly com toda a certeza não era tão novo assim. O Lee da foto era igualzinho ao rapaz de dezenove anos que estava sentado à minha frente, e aquilo era impossível. Os Moroi não tinham imortalidade especial. Eles envelheciam como os humanos. Voltei a erguer os olhos, imaginando se eu devia perguntar se ele tinha um irmão.
Mas Lee me poupou a pergunta. Ele simplesmente me olhou com uma expressão de tristeza e sacudiu a cabeça.
— Merda. Eu não queria que as coisas acontecessem assim.
E então, ele pegou uma faca.

2 comentários:

  1. Sabia que algo de errado, não estava certo com esse Lee!!!

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  2. Sabia que algo de errado, não estava certo com esse Lee!!!

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