27 de setembro de 2017

Capítulo 22

CLARENCE NÃO QUIS FALAR CONOSCO a respeito do que tinha acontecido. Aliás, ele negou categoricamente que houvesse algo de errado, alegando que tinha cortado o pescoço enquanto se barbeava.
— Sr. Donahue — eu disse com a maior gentileza possível —, esta ferida foi feita por uma ferramenta cirúrgica. E só aconteceu depois da visita de Keith.
— Não, não — Clarence conseguiu dizer com a voz fraca. — Não tem nada a ver com ele.
Naquele momento, Dorothy enfiou a cabeça no quarto, trazendo um copo de suco. Nós a tínhamos chamado pouco depois de eu chegar. Para perda de sangue, o remédio era o mesmo tanto para Moroi quanto para humanos: açúcar e líquidos. Ela ofereceu o copo para ele com um canudinho, com o rosto enrugado cheio de preocupação. Eu fazia meu inquérito enquanto ele bebia.
— Diga o que está acontecendo — implorei. — Qual é o acordo? O que ele dá para você em troca do seu sangue? — Como Clarence continuou quieto, tentei outra tática. — Tem gente que está sendo prejudicada. Ele está distribuindo o seu sangue de maneira indiscriminada.
Isso causou uma reação.
— Não — Clarence disse. — Ele está usando o meu sangue e a minha saliva para curar as pessoas. Para curar humanos doentes.
Saliva? Eu quase soltei um gemido. Era isso. O líquido transparente misterioso. Agora eu sabia o que dava às tatuagens celestiais seu barato viciante. Que nojo.
Adrian e eu trocamos olhares. Cura certamente era um dos usos do sangue de vampiro. A tatuagem que eu tinha era prova disso, e os alquimistas tinham trabalhado muito para tentar reproduzir algumas das propriedades do sangue para uso medicinal mais amplo. Até agora, não havia maneira de criar essas propriedades de modo sintético, e usar sangue real simplesmente não era prático.
— Ele mentiu — respondi. — Ele está vendendo para adolescentes ricos para ajudar nos esportes. O que ele prometeu para você? Uma parte do dinheiro?
Adrian deu uma olhada no quarto opulento.
— Ele não precisa de dinheiro. Só precisa da única coisa que os guardiões se negaram a lhe dar. Justiça por Tamara, não é?
Surpresa, me virei para Clarence e vi as palavras de Adrian confirmadas no rosto do velho Moroi.
— Ele... ele está investigando os caçadores de vampiros para mim — ele disse devagar. — Diz que está perto. Perto de descobrir quem eles são.
Sacudi a cabeça, com vontade de dar um soco em mim mesma por não ter percebido antes que Clarence era a fonte do sangue. Isso explicava por que Keith sempre estava aqui sem que eu esperasse — e por que ele ficou tão aborrecido quando apareci sem avisar. A minha “confraternização com os vampiros” não tinha nada a ver com isso.
— Senhor, garanto que a única coisa que ele está investigando é como gastar o dinheiro que anda ganhando.
— Não... não... ele vai me ajudar a encontrar os caçadores que mataram Tamara...
Eu me levantei. Não suportava ouvir mais nada.
— Traga um pouco de comida de verdade para ele, e vamos ver o que ele consegue comer — disse a Dorothy. — Se estiver fraco só por causa da perda de sangue, só precisa de tempo.
Fiz um sinal para Adrian me seguir para fora. Enquanto caminhávamos em direção à sala, observei:
— Bom, há lados bons e ruins nisto. Pelo menos podemos ter certeza de que Keith tem uma quantidade de sangue fresco para podermos pegá-lo no flagra. Sinto muito por Clarence ter sido tão afetado...
Fiquei paralisada quando entrei na sala. Eu só quis ir para lá porque seria um lugar familiar para discutirmos nossos planos, um lugar menos assustador do que o quarto de Clarence. Levando em conta a maneira como a minha imaginação costumava correr solta quando eu estava naquela casa velha, poucas coisas me surpreendiam. Mas, nunca, nem nos meus sonhos mais loucos, eu imaginei que a sala teria se transformado em uma galeria de arte.
Cavaletes e telas estavam montados por toda a sala. Até a mesa de sinuca estava coberta com um rolo grande de papel. As imagens variavam muito em conteúdo. Algumas eram só manchas de cor jogadas. Outras traziam retratos tão realistas de objetos e de pessoas que surpreendiam. Uma ampla variedade de tintas a óleo e aquarela se espalhava pelo meio dos quadros.
Por um momento, todos os pensamentos a respeito de Clarence e Keith desapareceram da minha cabeça.
— O que é isso?
— Lição de casa — Adrian respondeu.
— Você... você não acabou de começar as aulas? Como é possível já ter recebido tanta tarefa?
Ele caminhou até uma tela que mostrava uma linha vermelha em espiral traçada por cima de uma nuvem negra e experimentou de leve com o dedo para ver se a tinta estava seca. Eu a examinei e tentei decidir se de fato estava vendo uma nuvem. Havia algo de quase antropomórfico naquilo.
— Claro que não nos deram tanta coisa para fazer, Sage. Mas eu tinha que ir bem na primeira tarefa, de qualquer jeito. É necessário tentar muitas vezes para atingir a perfeição. — Ele fez uma pausa para reconsiderar. — Bom, exceto para os meus pais. Eles acertaram de primeira.
Não pude deixar de sorrir. Depois de ver o humor de Adrian oscilar de maneira tão descontrolada nas duas últimas semanas, era legal vê-lo alegre.
— Bom, isto é bastante fantástico — reconheci. — O que eles representam? Quer dizer, eu entendi aquele ali — apontei para um quadro que era o olho de uma mulher, castanho e com cílios compridos, e depois para outro de rosas. — Mas os outros estão abertos a, hum, um pouco mais de interpretação criativa.
— Estão, é? — Adrian perguntou e se voltou para a pintura com a espiral vermelha.
— Achei que era óbvio. Este é Amor. Você não percebe?
Dei de ombros.
— Talvez eu não tenha uma mente suficientemente artística.
— Talvez — ele concordou. — Depois que pegarmos o seu amiguinho Keith, vamos discutir a minha genialidade artística o tanto quanto você quiser.
— Certo — eu disse, e voltei a ficar séria. — Precisamos fazer uma busca na casa dele para encontrar evidências. Achei que a melhor maneira de fazer isso seria eu o atrair para longe e você invadir enquanto ele não está lá. Para abrir a fechadura...
Adrian me dispensou.
— Eu sei arrombar fechaduras. Como você acha que eu abria o armário de bebidas dos meus pais quando estava no ensino fundamental?
— Eu devia ter adivinhado — eu disse, seca. — Tenha certeza de procurar em todos os lugares, não só nos mais óbvios. Ele pode ter compartimentos escondidos nas paredes ou nos móveis. Você deve ficar atento para ampolas de sangue ou de líquido metálico, e também para o instrumento que perfurou Clarence.
— Entendi. — Nós acertamos mais alguns detalhes, incluindo para quem ele devia ligar se encontrasse algo, e estávamos para sair quando ele perguntou: — Sage, por que você me escolheu para ser o seu cúmplice nisso?
Pensei a respeito.
— Por eliminação, acho. Jill não deve se meter em encrenca. Eddie seria um bom parceiro, mas precisava voltar com ela e Lee. Além do mais, eu sabia que você não teria nenhuma questão moral em relação a invadir a casa de alguém.
— Essa foi a coisa mais bacana que você já me disse — ele declarou com um sorriso.
Depois disso, fomos para a casa de Keith. As luzes estavam acesas no primeiro andar do prédio dele, o que acabou com a minha última esperança de que talvez não precisasse atraí-lo para fora. Na verdade, eu ia gostar de ajudar na busca. Deixei Adrian lá perto e fui para um restaurante vinte e quatro horas que ficava do outro lado da cidade, nos arredores. Achei que seria perfeito para manter Keith fora de casa. Só o tempo de pegar o carro e ir até lá já daria tempo extra para a busca de Adrian, apesar de significar que Adrian teria que esperar um bom tempo do lado de fora até Keith sair. Quando finalmente cheguei, sentei a uma mesa, pedi um café e digitei o número do Keith.
— Alô?
— Keith, sou eu. Preciso falar com você.
— Então fale — ele disse. Parecia arrogante e cheio de confiança, sem dúvida contente por ter conseguido realizar aquelas vendas de tatuagem de última hora.
— Não pelo telefone. Preciso que você venha se encontrar comigo.
— Em Amberwood? — perguntou, surpreso. — Já não passou da hora do toque de recolher?
Já tinha passado mesmo, mas esse era um problema para depois.
— Não estou na escola. Estou no Margaret’s Diner, aquele lugar que fica perto da estrada.
Longo silêncio. E então:
— Bom, se o seu horário já passou, simplesmente venha aqui.
— Não — eu disse com firmeza. — Você é que vem até onde eu estou.
— Por quê?
Hesitei só um pouco antes de dar a cartada que eu sabia que iria convencê-lo, a única coisa que o faria pegar o carro e ir até ali sem levantar suspeitas sobre as tatuagens.
— É sobre Carly.
— O que tem ela? — ele perguntou depois de um momento de pausa.
— Você sabe exatamente o que é.
Depois de uma pausa de um segundo, Keith cedeu e desligou. Reparei que eu tinha uma mensagem de voz daquele mesmo dia, mais cedo, que eu não havia escutado. Liguei e escutei.
— Sydney, aqui é Wes Regan da Faculdade Carlton. Eu só queria repassar algumas coisas com você. Em primeiro lugar, acho que tenho más notícias. Parece que não vou poder passar o seu irmão da situação de ouvinte para a de aluno regular. Posso matriculá-lo com certeza no próximo semestre se ele tiver um bom desempenho agora, mas a única maneira de continuar frequentando as aulas agora é se permanecer como ouvinte. Por causa disso, ele não poderá obter auxílio financeiro e, inclusive, vocês precisarão pagar uma taxa para ele poder frequentar as aulas. Se ele quiser largar tudo, também é possível. Só me ligue para dizer o que vocês querem fazer.
Fiquei olhando desolada para o telefone quando a mensagem terminou. Lá se iam os nossos sonhos de colocar Adrian na situação de aluno regular, sem falar nos sonhos dele de obter auxílio financeiro e sair da casa de Clarence. O semestre seguinte devia começar em janeiro, então Adrian teria que ficar mais quatro meses na casa de Clarence. Adrian também teria de enfrentar mais quatro meses de trajetos de ônibus e aulas da faculdade sem receber crédito por elas.
Mas será que os créditos e o auxílio financeiro realmente eram as coisas mais importantes ali? Lembrei como Adrian tinha ficado animado depois de só umas poucas aulas, como ele tinha se lançado à arte. O rosto dele estava radiante no meio de sua “galeria”. As palavras de Jill também ecoaram pela minha mente, sobre como a arte tinha dado a Adrian uma maneira de canalizar seus sentimentos, e tinha feito com que se tornasse mais fácil para ela lidar com o laço. As aulas eram boas para os dois.
Quanto seria a taxa de ouvinte? Eu não sabia com certeza, mas imaginava que seria menos do que o curso com crédito. Também era um custo único que eu provavelmente poderia incluir nos meus gastos sem chamar a atenção dos alquimistas. Adrian precisava daquelas aulas, disso eu tinha certeza. Se ele soubesse que o auxílio financeiro não era uma opção para esse semestre, havia uma boa chance de que ele decidisse simplesmente largar tudo. Eu não podia permitir que aquilo acontecesse. Ele seria informado de que talvez houvesse um “atraso” até o auxílio financeiro acontecer. Se eu conseguisse fazer com que ele ficasse na Carlton mais um pouco, então talvez ele pudesse se envolver o suficiente com a arte para continuar, mesmo depois que descobrisse a verdade. Era uma coisa dissimulada de se fazer, mas faria bem para ele — e para Jill — no final.
Telefonei para o escritório de Wes Regan, mas já sabia que iria cair na caixa postal. Deixei um recado para ele dizendo que eu deixaria um cheque para a taxa de ouvinte e que Adrian continuaria o curso até poder se matricular no semestre seguinte. Desliguei e fiz uma prece silenciosa para que demorasse um pouco até Adrian descobrir o que estava acontecendo.
A garçonete ficava me olhando feio porque eu só tinha pedido café, até que eu finalmente pedi uma fatia de torta para viagem. Ela tinha acabado de colocar a caixa na mesa quando Keith entrou no restaurante, todo irritado. Ele ficou parado à porta, olhando ao redor com impaciência, até me localizar.
— Certo, o que está acontecendo? — ele questionou e se sentou cheio de pompa. — O que é tão importante que você sentiu a necessidade de desrespeitar as regras da escola e de me arrastar até o outro lado da cidade?
Por um instante, fiquei paralisada. Olhar nos olhos de Keith — tanto o verdadeiro quanto o artificial — trouxe à tona todos os sentimentos conflituosos que eu havia tido em relação a ele ao longo do último ano. Medo e ansiedade em relação ao que eu estava tentando fazer brigavam com o ódio profundo que eu carregava fazia tanto tempo.
Instintos mais básicos desejavam que eu o fizesse sofrer, que jogasse alguma coisa em cima dele. Como a torta. Ou uma cadeira. Ou um taco de beisebol.
— Eu...
Antes que pudesse dizer qualquer outra palavra, meu telefone tocou. Olhei para baixo e vi uma mensagem de texto de Adrian: consegui. ligação feita. uma hora.
Enfiei o celular na bolsa e soltei a respiração. Keith tinha demorado vinte minutos para chegar e, durante esse tempo, Adrian tinha feito a busca detalhada no apartamento. Parece que tinha sido bem-sucedido. Agora minha função era segurá-lo até os reforços aparecerem. Uma hora na verdade era bem menos tempo do que eu esperava. Tinha dado a Adrian o telefone de Stanton, e ela devia ter despachado os alquimistas que estivessem mais próximos. Achei que isso significaria Los Angeles, mas era difícil dizer, devido ao alcance do nosso trabalho. Se houvesse alquimistas do lado leste da cidade, eles chegariam bem rápido. Também era possível que ganhassem tempo se viessem em um jatinho particular.
— O que foi? — Keith perguntou, irritado. — Uma mensagem de texto de um dos seus amigos vampiros?
— Pode parar com a encenação — eu disse. — Eu sei que na verdade você não se importa com o fato de eu estar me “aproximando muito” deles.
Eu não tinha a intenção de que aquele fosse o tema para distraí-lo, mas aquilo era bom o suficiente.
— Claro que eu me importo. Eu me preocupo com a sua alma.
— Foi por isso que ligou para o meu pai? — perguntei. — É por isso que quer me ver longe de Palm Springs?
— É para o seu próprio bem — ele disse, e estampou no rosto um ar todo angelical. — Você tem ideia de como foi errado você querer este trabalho, para começo de conversa? Nenhum alquimista teria esse desejo. Mas você praticamente implorou.
— É — respondi, e senti a minha irritação crescer. — Para que Zoe não tivesse que passar por isso.
— Diga a si mesma o que você quiser. Eu sei a verdade. Você gosta dessas criaturas.
— Por que as coisas têm que ser tão preto no branco? Na sua visão, ou eu tenho que odiá-los ou me aliar a eles. Há um meio-termo, sabia? Eu posso continuar sendo leal aos alquimistas e ser simpática com vampiros e dampiros.
Keith olhou para mim como se eu tivesse dez anos de idade.
— Sydney, você é tão inocente. Não entende como o mundo funciona do mesmo jeito que eu entendo. — Eu sabia tudo a respeito de como ele achava que “o mundo funcionava”, e teria dito isso se a garçonete não tivesse chegado para pegar o pedido de bebida dele bem naquele momento. Quando ela se afastou, Keith continuou sua ladainha. — Quer dizer, como é que você pode saber que realmente está se sentindo do jeito que se sente? Os vampiros podem forçar, sabe como é. Eles usam o controle da mente. Os que controlam o espírito, como Adrian, são bons de verdade nisso. Até onde sabemos, ele tem usado seus poderes para conquistar você.
Pensei em todas as vezes que tive vontade de chacoalhar Adrian para ver se adquiria um pouco de noção das coisas.
— Então ele não está fazendo um trabalho muito bom, não.
Nós ficamos discutindo o assunto durante um tempo e, pelo menos dessa vez, fiquei feliz com a obstinação de Keith e com sua recusa em enxergar a razão. Quanto mais ele debatia comigo, mais tempo os alquimistas tinham para chegar ao apartamento dele. Se Stanton tinha dito a Adrian que iria demorar uma hora, devia ter sido exata. Mesmo assim, era melhor garantir.
A gota d’água foi quando Keith disse:
— Você devia se sentir agradecida por eu cuidar de você desta maneira. Isso aqui é mais abrangente do que os vampiros, sabe como é. Estou dando lições de vida para você. Você pode memorizar os livros, mas não entende as pessoas. Você não sabe como se conectar a elas. Vai carregar essa mesma atitude ingênua com você para o mundo real, achando que todo mundo tem boas intenções, e alguém... algum garoto, provavelmente... vai simplesmente tirar vantagem de você.
— Bom — explodi. — E você sabe tudo a respeito disso, não é mesmo?
Keith deu uma gargalhada de desdém.
— Eu não estou interessado em você, pode ficar tranquila.
— Não estou falando de mim! Estou falando de Carly.
Pronto. Era isso. O motivo original do nosso encontro ali.
— O que ela tem a ver com tudo isso? — Keith manteve o tom firme, mas eu pude perceber. A menor das centelhas de ansiedade apareceu em seu olho.
— Eu sei o que aconteceu entre vocês. Eu sei o que você fez com ela.
Ele ficou muito interessado em mexer o gelo do copo com o canudinho.
— Eu não fiz nada com ela. Não sei do que você está falando.
— Você sabe exatamente do que estou falando! Ela me contou. Veio falar comigo depois do que aconteceu — me inclinei para a frente, sentindo muita segurança. — O que você acha que o meu pai faria se descobrisse? O que o seu faria?
Keith ergueu os olhos em um gesto brusco.
— Se tem tanta certeza de que uma coisa horrível aconteceu, então como é que o seu pai ainda não soube? Hein? Talvez seja porque Carly tem consciência de que não tem nada para contar. Qualquer coisa que nós tenhamos feito, ela quis fazer, pode acreditar.
— Como você é mentiroso — sibilei. — Eu sei o que você fez. Você a estuprou. E nunca vai sofrer o bastante por isso. Devia ter perdido os dois olhos.
Ele ficou tenso com a referência aos olhos.
— Essa foi forte. E não tem nada a ver com isso aqui. Que diabos aconteceu com você, Sydney? Como foi que você virou uma vaca assim? Talvez levar você a se associar com vampiros e dampiros tenha causado mais danos do que nos demos conta. A primeira coisa que vou fazer amanhã é ligar para Stanton e pedir para tirarem você daqui imediatamente. Nada de esperar até o final da semana. Você precisa se afastar dessa influência sombria. — Ele sacudiu a cabeça e me olhou de um jeito que era ao mesmo tempo condescendente e cheio de pena. — Não, você precisa ser reeducada, ponto final. Devia ter acontecido há muito tempo, assim que pegaram você ajudando aquela assassina.
— Não mude de assunto — falei em tom insolente, apesar de ele mais uma vez ter despertado uma fagulha de medo em mim. E se Adrian e eu tivéssemos falhado? E se os alquimistas dessem ouvidos a Keith e me mandassem para um centro de reeducação? Ele nunca mais teria que se preocupar comigo. — Não estávamos falando de mim. Estávamos tratando de Carly.
Keith revirou os olhos, irritado.
— Para mim, já chega de falar da sua irmã galinha.
Naquele instante, meu impulso inicial de jogar alguma coisa em cima dele me venceu. Para a sorte dele, foi só o meu café e não uma cadeira. Também para a sorte dele, o café já tinha esfriado. Ainda tinha sobrado bastante, e ele se espalhou por todos os lados, ensopando a escolha infeliz dele por uma camisa branca. Ele ficou me encarando, atordoado, cuspindo ao proferir suas palavras:
— Sua vaca! — ele disse e se levantou.
Quando ele começou a se dirigir para a porta, percebi que a minha irritação podia ter estragado o plano todo. Corri até ele e o puxei pelo braço.
— Espere, Keith. Eu... eu sinto muito. Não vá embora.
Ele desvencilhou o braço e ficou me olhando com ódio.
— Já é tarde demais para você. Teve sua chance e não aproveitou.
Eu o agarrei mais uma vez.
— Não, não. Espere. Ainda tem muita coisa sobre o que precisamos conversar.
Ele abriu a boca para fazer alguma observação espertinha e então prontamente a fechou. Ele me examinou durante vários segundos e sua expressão foi ficando mais séria.
— Você está tentando me segurar aqui? O que está acontecendo?
Como eu não consegui dar nenhuma resposta, ele se desvencilhou e irrompeu porta afora. Voltei correndo para a mesa e joguei uma nota de vinte em cima dela. Peguei a torta e disse para a garçonete em choque que ficasse com o troco.
O relógio do meu carro informou que nós tínhamos vinte minutos até o horário em que os alquimistas deviam chegar à casa de Keith. Também era o tempo que ele iria demorar para voltar até lá. Fui seguindo na sua cola, sem fazer nenhum esforço para esconder a minha presença. Agora não era segredo que algo estava acontecendo, algo para longe do qual eu o havia atraído. Abençoei cada sinal vermelho que nos fez parar, rezando para que ele não chegasse cedo demais. Se isso acontecesse, Adrian e eu teríamos que atrasá-lo. Não seria impossível, mas também não era algo que eu quisesse fazer.
Finalmente chegamos. Keith parou no estacionamento minúsculo do prédio e eu estacionei sem me incomodar em uma área reservada para os bombeiros, à frente. Eu estava apenas alguns passos atrás dele quando ele correu até a porta, mas pareceu nem notar. Sua atenção estava nas janelas iluminadas do prédio e nas silhuetas escuras que mal dava para distinguir por trás das cortinas pesadas. Ele irrompeu pela porta; entrei atrás um segundo depois e quase dei um encontrão nele, que tinha ficado completamente paralisado ali.
Eu não conhecia os três homens de terno que estavam com Adrian, mas sabia que eram alquimistas. Passavam aquela impressão fria e polida que todos nós almejávamos, e suas bochechas traziam a marca do lírio dourado. Um deles examinava os armários da cozinha de Keith. Outro segurava um bloco de notas e conversava com Adrian, que estava apoiado em uma parede e fumava. Ele sorriu quando me viu.
O terceiro alquimista estava ajoelhado no chão da sala, perto de um pequeno armário embutido. Uma pintura cafona de uma mulher com as costas nuas, que aparentemente tinha servido para esconder o compartimento, estava jogada ali perto. A porta de madeira tinha sido visivelmente aberta à força e seu conteúdo diverso estava espalhado por todos os lados — com algumas exceções. O alquimista estava se dedicando muito para separar a pilha de objetos: tubos de metal e agulhas usadas para drenar sangue, junto com ampolas de sangue e pacotinhos de pó prateado. Ele ergueu os olhos com a nossa entrada repentina e se fixou em Keith com um sorriso frio.
— Ah, que bom que está aqui, sr. Darnell. Queríamos mesmo lhe fazer algumas perguntas.
Keith ficou de cara no chão.

Um comentário:

  1. Amei,Amei! Agora o senhorzinho do Keith vai se ferrar... kkkk

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Boa leitura :)