27 de setembro de 2017

Capítulo 21

MISTURAR O QUE ERA PRECISO FOI FÁCIL. Colocar onde eu queria demorou uns dois dias. Primeiro tive que prestar atenção no tipo de xampu que Laurel usava nos chuveiros da educação física. A escola fornecia xampu e condicionador, claro, mas ela não confiava em algo assim tão banal para usar em seu cabelo precioso. Quando descobri a marca que ela usava, fui a uma loja de produtos de beleza local para comprar um igual, e joguei aquele conteúdo caro pelo ralo. Enchi o frasco com a minha fórmula caseira.
O passo seguinte era trocar o frasco com o de Laurel. Recrutei Kristin para isso. O armário dela ficava ao lado do de Laurel na educação física, e ela estava mais do que disposta a me ajudar. Em parte porque ela não gostava de Laurel, assim como nós. Mas também porque, desde que eu a tinha salvado de sua reação à tatuagem, Kristin tinha deixado claro que tinha uma dívida comigo e iria me ajudar em qualquer coisa que eu precisasse. Eu não gostava da ideia de ela me dever algo, mas a ajuda veio a calhar. Ela encontrou uma oportunidade quando Laurel desviou o olhar do armário aberto e, disfarçadamente, fez a troca. Nós então só tivemos que esperar até a próxima vez que Laurel usasse o xampu para ver os resultados do meu trabalho manual.
Nesse meio-tempo, a minha outra experiência de laboratório não obteve exatamente o reconhecimento que eu esperava. A sra. Terwilliger aceitou o meu relatório, mas não o amuleto.
— Ele não me serve de nada — ela observou, ao erguer os olhos dos papéis que eu tinha entregado a ela.
— Bom... para mim também não, com certeza, senhora.
Ela pousou os papéis na mesa.
— Isto aqui é tudo verdade? Você seguiu cada passo com precisão? Certamente não tenho como saber se você, sabe, passou por cima de alguns detalhes.
Sacudi a cabeça.
— Não. Eu segui todos os passos.
— Muito bem, então. Parece que você arrumou um amuleto de fazer fogo.
— Senhora! — eu disse, em tom de reclamação.
Ela sorriu.
— O que dizem as instruções? Para jogar e recitar o último encanto? Você sabe qual é?
— “Em chamas, em chamas” — respondi prontamente.
Por ter digitado o feitiço para as anotações, e depois ainda recriá-lo, era difícil não ter decorado tudo. De acordo com o livro — que era uma tradução para o inglês de um texto em latim —, a linguagem não importava muito, desde que o significado fosse claro.
— Bom, então pronto. Experimente um dia desses e veja o que acontece. Só não bote fogo em nada que pertença à escola. Porque isso não vai ser nada seguro.
Ergui o amuleto pela cordinha.
— Mas isso aqui não é real. É uma bobagem. É um monte de lixo junto em um saquinho.
Ela deu de ombros.
— Quem somos nós para questionar os antigos?
Fiquei encarando-a, tentando descobrir se estava fazendo uma piada. Soube que ela era excêntrica desde o primeiro dia, mas, ainda assim, passava a impressão de ser uma pesquisadora séria.
— A senhora não pode acreditar nisso. Magia desse tipo... não é real. — Sem pensar, completei: — E mesmo que fosse, senhora, seres humanos não devem ficar brincando com poderes assim.
A sra. Terwilliger ficou vários momentos em silêncio.
— Você acredita mesmo nisso?
Toquei na cruz pendurada no meu pescoço.
— Fui criada assim.
— Entendi. Bom, então, pode fazer o que quiser com o amuleto. Jogue fora, doe para alguém, faça experiências com ele. Independente de qualquer coisa, eu preciso desse relato para o meu livro. Obrigada por dedicar seu tempo a isso. Como sempre, você fez mais do que era exigido.
Coloquei o amuleto na bolsa ao sair, sem ter muita certeza a respeito do que fazer com ele. Era inútil... e, no entanto, também tinha me custado muito tempo. Eu estava decepcionada por ele não ser mais importante para a pesquisa dela. Tanto esforço desperdiçado.
Mas o último dos meus projetos mostrou seu resultado no dia seguinte. Em química aplicada, Greg Slade e alguns dos amigos dele entraram na classe correndo bem quando o sinal tocou. A professora olhou feio para eles, que nem ligaram. Slade estava se exibindo com a tatuagem de águia, mostrando a pele para todo mundo ver. A tinta brilhava prateada mais uma vez. Ao lado dele, um de seus amigos também mostrava, todo orgulhoso, outra tatuagem prateada. Era um par de adagas cruzadas estilizadas, só um pouquinho menos cafona do que a águia. Era o mesmo amigo que mais cedo, naquela mesma semana, estava preocupado de não conseguir fazer a tatuagem dele. Parece que as coisas tinham se resolvido com o fornecedor. Interessante. Parte do motivo para eu ainda não ter feito meu relatório aos alquimistas era esperar para ver se a Nevermore iria repor o estoque que eu roubei.
— É impressionante — o amigo de Slade disse. — O vigor que dá.
— Sei como é — Slade o cumprimentou batendo seu punho fechado no dele. — Bem a tempo de amanhã.
Trey observava os dois com expressão sombria.
— O que tem amanhã? — sussurrei para ele.
Ele olhou para os dois com desprezo durante alguns momentos antes de se virar para mim.
— Você mora embaixo de uma pedra? É o nosso primeiro jogo em casa.
— Claro que sim — eu disse. A minha experiência no ensino médio não seria completa sem o furor causado pelos jogos de futebol americano.
— E isso vai ser muito bom para mim — ele resmungou.
— Você não está mais usando curativo — observei.
— É, mas o treinador está me fazendo pegar leve. Além do mais, agora sou quase um peso morto — ele apontou com a cabeça para Slade e o amigo dele. — Como é que eles não se metem em confusão por causa das tatuagens? Eles não se esforçam nem um pouco para esconder. Esta escola não tem mais disciplina. Estamos praticamente na anarquia.
Eu sorri.
— Praticamente.
— O seu irmão devia estar no time, sabia? Eu o vi na educação física. Ele podia ser um astro do esporte se tivesse o trabalho de concorrer no teste para alguma modalidade.
— Ele não gosta de chamar a atenção — expliquei. — Mas ele provavelmente vai assistir ao jogo.
— Você vai ao jogo?
— Provavelmente não.
Trey arqueou uma sobrancelha.
— Tem algum encontro com um gostosão?
— Não! É só que... bom, eu não gosto de assistir a esportes. E acho que devo ficar com Jill.
— Você não vai nem para torcer por mim?
— Você não precisa da minha torcida.
Trey me lançou um olhar de decepção como resposta.
— Talvez seja melhor assim — ele disse. — Porque você não me veria jogando com meu nível de excelência total.
— É uma pena — concordei.
— Ah, pare logo com esse sarcasmo — ele suspirou. — Meu pai é que vai ficar mais decepcionado. Há expectativa na família.
Bom, isso era algo com que eu era capaz de me identificar.
— Ele também joga futebol?
— Que nada, tem menos a ver com o futebol em si e mais com estar sempre com a melhor forma física. Ser o melhor. Estar pronto para ser chamado de última hora. Ser o melhor do time estava sendo uma maneira de deixá-lo orgulhoso... até as tatuagens começarem.
— Você é bom sem a ajuda de nenhuma tatuagem. Ele devia se sentir orgulhoso de todo jeito — eu disse.
— Você não conhece o meu pai.
— Não, mas acho que conheço alguém igualzinho a ele — sorri. — Sabe, acho que, no final das contas, estou precisando ir a um jogo de futebol.
Trey simplesmente sorriu e a aula começou.
O dia passou calmo, mas Jill veio correndo até mim assim que entrei no vestiário para a educação física.
— Lia me procurou! Ela pediu para eu ir lá hoje à noite. Ela já fez os ensaios regulares com as outras modelos, mas achou que eu podia aproveitar uma sessão especial, já que não tenho nenhuma experiência. Claro que o negócio é que... eu... sabe como é, preciso de carona. Você acha que... Quer dizer, será que você pode...
— Claro — respondi. — É para isso que estou aqui.
— Obrigada, Sydney! — ela me abraçou, e me deixou espantada com o gesto. — Eu sei que você não tem motivo nenhum para me ajudar depois de tudo que fiz, mas...
— Tudo bem, tudo bem — eu disse meio sem jeito e dei tapinhas no ombro dela. Respirei fundo para me recompor. Pense nisso como Jill dando um abraço em você. Não como uma vampira dando um abraço em você. — Fico contente em ajudar.
— Vocês duas querem privacidade? — Laurel caçoou ao entrar com seu séquito. — Sempre achei que tinha algo de estranho na família de vocês.
Jill e eu nos separamos e ela ficou toda vermelha, coisa que só serviu para elas darem ainda mais risada.
— Meu Deus, como eu detesto essas meninas — Jill disse quando elas abriram uma distância suficiente para não escutar. — Eu realmente quero me vingar delas.
— Paciência — murmurei. — Elas vão receber o troco delas um dia desses. — Dei uma olhada no armário de Laurel e fiquei pensando que “um dia desses” podia acontecer bem em breve.
Jill sacudiu a cabeça, maravilhada.
— Não sei como você consegue perdoar tanto assim, Sydney. Nada te atinge.
Eu sorri, imaginando o que Jill iria pensar se soubesse a verdade — que eu não era assim tão de “perdoar” quanto parecia. E não só no que dizia respeito a Laurel. Se Jill queria pensar isso de mim, então que fosse. Claro que a minha fachada de boazinha que dá a outra face se despedaçou quando o berro estridente de Laurel encheu o vestiário no fim da aula, uma hora mais tarde.
Foi quase uma repetição do incidente do gelo. Laurel saiu do chuveiro às lágrimas, enrolada em uma toalha. Ela correu horrorizada até o espelho, segurando o cabelo bem perto dele.
— Qual é o problema? — uma das amigas dela perguntou.
— Você não está vendo? — Laurel exclamou. — Tem algo de errado... não parece certo. É óleo, ou... não sei o que é!
Ela pegou um secador e secou uma mecha enquanto todas nós observávamos com interesse. Depois de alguns minutos, os fios compridos estavam secos, mas mal dava para ver. Realmente parecia que o cabelo dela estava coberto de óleo ou de gordura, como se não tivesse sido lavado havia semanas. O cabelo que normalmente brilhava e esvoaçava agora escorria em molas soltas e feias. A cor também estava um pouco desbotada. O vermelho brilhante e fogoso tinha assumido um tom de amarelo doentio.
— O cheiro também está esquisito — ela exclamou.
— Lave de novo — outra amiga sugeriu.
Foi o que Laurel fez, mas não ia ajudar. Mesmo depois de ela perceber que era o xampu que estava causando o problema, não seria fácil tirar aquela coisa que eu fiz do cabelo dela. A água iria continuar alimentando a reação, e ela precisaria esfregar muitas, muitas vezes, até consertar o problema.
Jill me lançou um olhar de surpresa.
— Sydney? — ela sussurrou, com um milhão de perguntas.
— Paciência — garanti a ela. — Este foi só o primeiro ato.
Naquela noite, levei Jill até a loja de Lia DiStefano. Eddie nos acompanhou, é claro. Lia só era alguns anos mais velha do que eu e quase trinta centímetros mais baixa. Apesar do tamanho diminuto, havia algo grande e cheio de força na personalidade dela quando nos confrontou. A loja era cheia de vestidos formais e casuais lindos, apesar de ela própria estar vestida com um jeans rasgado e uma bata bem larga. Ela colocou a plaquinha de “fechado” na porta, e então falou conosco com as mãos na cintura.
— Então, Jillian Melrose — ela começou. — Temos menos de duas semanas para transformá-la em modelo. — Os olhos dela recaíram em mim. — E você vai ajudar.
— Eu? — exclamei. — Eu só dou carona.
— Não se quiser que a sua irmã participe do meu desfile. — Ela voltou a olhar para Jill; a diferença de altura entre as duas era quase cômica. — Você tem que comer, beber e respirar como modelo se quiser fazer isso direito. E precisa fazer todas essas coisas... usando isto aqui.
Com um floreio, Lia pegou uma caixa de sapatos próxima de onde retirou um par roxo cintilante com saltos que deviam ter pelo menos treze centímetros de altura. Jill e eu ficamos encarando.
— Mas ela já não tem altura suficiente? — finalmente perguntei.
Lia soltou uma gargalhada de desdém e jogou os sapatos em cima de Jill.
— Estes aqui não são para o desfile. Mas, depois de dominar este par, vai estar pronta para qualquer coisa.
Jill pegou os sapatos cheia de animação e os ergueu para examiná-los. Os saltos me lembravam das estacas de prata que Eddie e Rose usavam para matar Strigoi. Se Jill realmente quisesse estar preparada para qualquer situação, era só estar com aqueles sapatos sempre por perto. Acanhada com o fato de todo mundo estar olhando para ela, finalmente descalçou os sapatos baixos marrons que usava e prendeu as diversas correias trabalhadas do par roxo. Quando estava calçada, levantou-se devagar — e quase caiu.
Levantei-me apressada para segurá-la.
Lia assentiu em sinal de aprovação.
— Está vendo? Era disto que eu estava falando. Trabalho em equipe de irmãs. Você é que tem que garantir que ela não vai cair e quebrar o pescoço antes do meu desfile.
Jill me lançou um olhar de pânico que, eu desconfiava, estava refletido no meu próprio rosto. Comecei a sugerir que Eddie ficasse responsável por ajudar Jill, mas ele já tinha se deslocado com discrição para a lateral da loja para observar e parecia ter passado despercebido a Lia. Acho que os serviços de proteção dele tinham limites.
Enquanto Jill tentava simplesmente não cair, ajudei Lia a abrir espaço no meio da loja. Lia então passou mais ou menos a hora seguinte demonstrando como caminhar da maneira adequada para a moda, com ênfase na postura e no passo para poder exibir as roupas com o melhor efeito possível. Mas a maior parte dos detalhes mais sutis passou batida para Jill, que se esforçava para simplesmente conseguir atravessar a sala sem cair. Graça e beleza não eram preocupações tão grandes quanto permanecer em pé.
Ainda assim, quando olhei para Eddie, ele observava Jill com uma expressão encantada no rosto, como se cada passo que ela desse fosse magia pura. Ao perceber que eu estava olhando, ele imediatamente retomou sua expressão protetora de guardião. Eu fiz o que pude para oferecer palavras de incentivo a Jill — e, sim, para impedir que ela caísse e quebrasse o pescoço. No meio da sessão, ouvimos alguém batendo na porta de vidro. Lia começou a fazer uma careta e então reconheceu o rosto do outro lado da porta. Ela se alegrou e foi abrir.
— Sr. Donahue — ela disse, deixando Lee entrar. — Veio ver como a sua pequena estrela está indo?
Lee sorriu e seus olhos cinzentos dispararam na direção de Jill imediatamente. Ela olhou nos olhos dele e sorriu tanto quanto ele. Lee não tinha estado presente no último fornecimento dela, e apesar de os dois se falarem o tempo todo ao telefone e por mensagem de texto, eu sabia que ela estava louca para se encontrar com ele. Só de dar uma olhada no rosto de Eddie percebi que ele não estava, nem de longe, tão feliz quanto ela com a presença de Lee.
— Já sei como ela está indo — Lee disse. — Ela é perfeita.
Lia deu uma gargalhada de desdém.
— Eu não iria assim tão longe.
— Ei — eu disse quando uma ideia me ocorreu. — Lee, você não quer ficar responsável por impedir que Jill quebre o pescoço? Eu preciso fazer uma coisa.
Evidentemente, Lee estava mais do que disposto a fazer aquilo, e eu sabia que não precisava temer pela segurança dela com Eddie de sentinela.
Eu os deixei e percorri apressadamente dois quarteirões, até a Nevermore. Desde que eu tinha ouvido Slade e os amigos dele confirmarem que os tatuadores estavam trabalhando mais uma vez, estava com vontade de ir até lá pessoalmente. Mas eu não queria ir escondida. O que eu tinha roubado já tinha rendido provas. Tirando o líquido transparente, eu tinha identificado todas as outras substâncias das ampolas. Todos os compostos metálicos eram combinações exatas das fórmulas dos alquimistas, e isso significava ou que essas pessoas tinham um contato entre os alquimistas, ou que estavam roubando. De qualquer modo, o meu caso só estava ficando cada vez mais importante.
Eu só esperava que fosse suficiente para me redimir e manter Zoe longe dali, principalmente porque o momento da chegada dela se aproximava. Já tinha se passado quase uma semana desde que o meu pai havia dito que ela iria me substituir.
Meu plano era ver qual a disposição da Nevermore para fazer uma tatuagem em mim. Eu queria saber quais eram os avisos que eles davam (se é que davam algum) e se era ou não fácil conseguir uma tatuagem, em primeiro lugar. A conversa de Adrian não tinha rendido muita informação, e provavelmente seu pedido por uma tatuagem de uma moto em chamas com um esqueleto e um papagaio não tinha servido muito para aumentar sua credibilidade. Hoje eu estava armada com dinheiro vivo, e esperava que aquilo me levasse a algum lugar.
Do jeito que as coisas aconteceram, nem precisei mostrar dinheiro nenhum. Assim que eu entrei, o sujeito atrás do balcão — o mesmo com que Adrian tinha conversado — pareceu aliviado.
— Graças a Deus — ele disse. — Por favor, diga que tem mais. Essa garotada está me deixando maluco. Quando nós entramos nessa... eu não fazia ideia de que iria ficar tão grande assim. O dinheiro é bom, mas, por Deus. É uma loucura acompanhar a demanda.
Mantive meu rosto isento da confusão que estava sentindo, imaginando de que diabos ele estaria falando. Ele agia como se eu fizesse parte do esquema dele, e aquilo não fazia o menor sentido. Mas então seus olhos dispararam para a minha bochecha e eu de repente entendi.
A minha tatuagem de lírio.
Não estava escondida, já que as aulas do dia tinham terminado. E foi então que eu soube, com certeza absoluta, que a pessoa com quem ele trabalhava para obter seu material era um alquimista. Ele achou que a tatuagem fazia de mim uma aliada.
— Não tenho nada comigo — respondi.
Ele ficou de cara no chão.
— Mas a demanda...
— Você perdeu a outra remessa — eu disse, enfezada. — Deixou que roubassem bem debaixo do seu nariz. Sabe quanto trabalho deu para arrumar aquilo?
— Já expliquei para o seu amigo! — ele exclamou. — Ele disse que entendia. Disse que tinha dado conta do problema e que nós não precisávamos mais nos preocupar.
Senti um aperto na boca do estômago.
— É, bom, ele não fala em nome de todos nós, e não temos tanta certeza se queremos continuar. Vocês ficaram comprometidos.
— Nós somos cuidadosos — ele argumentou. — Aquele roubo não foi nossa culpa! Agora, fala sério. Ele não contou para você? Há uma demanda enorme para amanhã porque os garotos da escola particular têm jogo. Se pudermos fazer o serviço, vamos ganhar o dobro do dinheiro.
Lancei a ele o meu melhor sorriso gélido.
— Vamos discutir a questão entre nós e daremos um retorno.
Com isso, dei meia-volta para ir embora.
— Espere — ele chamou. Olhei brava para ele. — Será que você pode fazer com que aquela pessoa pare de ligar?
— Que pessoa? — perguntei, imaginando se ele estava falando de algum aluno insistente de Amberwood.
— Aquela que tem uma voz bizarra e fica perguntando se apareceu alguma pessoa alta e pálida por aqui. Gente que parece vampiro. Achei que fosse alguém que você conhecesse.
Gente alta e pálida? Não gostei nada de ouvir aquilo, mas fiquei com o rosto impassível.
— Desculpe. Não sei do que você está falando. Deve ter sido um trote.
Saí e fiz uma anotação mental para investigar melhor a questão. Se alguém estava fazendo perguntas a respeito de pessoas que pareciam vampiros, era um problema. No entanto, não era o problema imediato. A minha mente corria em disparada enquanto processava as outras coisas que o tatuador tinha me dito. Havia um alquimista que era o fornecedor do material da Nevermore. Em certos aspectos, isso não devia ser surpresa. De que outra maneira eles conseguiriam sangue de vampiro e todos os outros materiais necessários para as tatuagens? E parece que esse alquimista rebelde tinha “dado conta do problema” que levou ao roubo do material. Quando foi que o meu pai ligou dizendo que eu seria tirada da missão por causa dos relatórios de Keith?
Logo depois de eu invadir a Nevermore.
Eu sabia quem era o alquimista rebelde.
E eu sabia que “o problema” era eu. Keith tinha dado um jeito em mim, tomando providências para que eu fosse afastada de Palm Springs e que mandassem no meu lugar uma pessoa nova e sem experiência, que não iria interferir em sua operação ilícita de tatuagens. Era por isso que ele queria Zoe desde o começo.
Eu estava chocada. Já não tinha Keith Darnell em alta conta, de jeito nenhum. Mas eu nunca, jamais tinha imaginado que ele se rebaixaria a esse nível... Ele era uma pessoa imoral, mas, ainda assim, tinha sido criado com os mesmos princípios que eu a respeito de humanos e vampiros. Abandonar essas crenças e expor inocentes aos efeitos colaterais terríveis do sangue de vampiro em nome de seu próprio ganho material... bom, isso era mais do que traição aos alquimistas. Era traição a toda a raça humana.
Minha mão estava no celular, pronta para ligar para Stanton. Só seria necessário aquilo, mais nada. Bastava uma ligação com o tipo de notícia que eu tinha, e os alquimistas iriam dar uma batida em Palm Springs — e em Keith. Mas e se não houvesse evidências concretas para ligar Keith ao crime? Era possível que outro alquimista fizesse a mesma coisa que eu, levando o tatuador a pensar que ele fazia parte da equipe de Keith. Mas era ele que eu queria pegar. Eu precisava garantir que não teria como ele escapar daquilo.
Tomei a minha decisão e, em vez de ligar para os alquimistas, liguei para Adrian.
Quando voltei à loja de Lia, vi que o ensaio havia terminando. Lia estava dando a Jill alguma instrução de último minuto enquanto Eddie e Lee esperavam por perto. Eddie deu só uma olhada no meu rosto e logo percebeu que havia algo de errado.
— Qual é o problema?
— Nada — respondi, sem convicção. — É só um problema com que eu vou ter de lidar em breve. Lee, será que você se incomoda de levar Jill e Eddie de volta à escola? Preciso dar conta de algumas coisinhas.
Eddie franziu a testa.
— Está tudo bem? Precisa de alguém para proteger você?
— Já tenho alguém. — Reconsiderei, tendo em vista que logo me encontraria com Adrian. — Bom, mais ou menos. De todo modo, não me meti em nenhuma confusão. O seu trabalho é ficar de olho em Jill, está lembrado? E obrigada, Lee. — Uma ideia de repente me ocorreu. — Espere... eu achei que hoje era um dos dias em que você tinha aula à noite. Será que nós estamos prendendo você... ou... bom, quais são os dias em que você tem aula?
Eu não tinha pensado muito naquilo, só tinha reparado que alguns dias Lee estava por lá e, outros, em Los Angeles. Mas, pensando bem, na verdade não havia muito padrão. Percebi pelo rosto de Eddie que ele tinha se dado conta da mesma coisa.
— É verdade — ele disse e olhou desconfiado para Lee. — Que tipo de horário é esse que você tem na faculdade?
Lee abriu a boca e eu senti que uma história pronta estava para sair. Então ele parou e lançou um olhar ansioso para Jill, que ainda estava conversando com Lia. Seu rosto desabou.
— Por favor, não contem para ela — ele sussurrou.
— Contar o quê? — perguntei, mantendo a voz baixa também.
— Não estou na faculdade. Quer dizer... eu estava. Mas não estou neste semestre. Eu queria dar um tempo, mas... não queria decepcionar o meu pai. Então, disse a ele que estava estudando só meio período, e era por isso que podia ficar mais aqui.
— Então, o que você tem feito em Los Angeles durante todo esse tempo? — Eddie perguntou.
— Eu ainda tenho amigos lá, e preciso manter o meu disfarce. — Lee suspirou. — É idiotice, eu sei. Por favor... deixem que eu mesmo conte para ela. Eu queria tanto impressionar Jill e mostrar para ela o meu valor. Ela é maravilhosa. Só me pegou em um momento ruim.
Eddie e eu trocamos olhares.
— Eu não vou contar — eu disse. — Mas você realmente precisa dizer a ela. Quer dizer, acho que não há mal nenhum... mas você não deve manter esse tipo de mentira entre vocês dois.
Lee parecia arrasado.
— Eu sei que não. Obrigado.
Quando ele se afastou um pouco, Eddie sacudiu a cabeça para mim.
— Eu não gosto que ele minta. Nem um pouco.
— Lee tentando manter uma boa fachada é a coisa menos estranha que está acontecendo aqui — eu disse.
Foi então que eu percebi que Jill já conseguia andar de um lado para o outro da loja sem cair. Não era nada gracioso, mas era um começo. Ela ainda estava bem longe de se parecer com as modelos da tv, mas levando em conta que ela nem conseguia ficar em pé sobre aqueles sapatos no começo, achei que tinha feito um progresso considerável. Ela começou a tirar o sapato de salto, mas Lia a deteve.
— Não. Eu já disse. Você tem que usar esses sapatos o tempo todo. Treine, treine, treine. Use-os em casa. Use-os em todo lugar. — Ela se voltou para mim. — E você...
— Já sei. Preciso garantir que ela não vá quebrar o pescoço — eu disse. — Mas ela não vai poder usar isso o tempo todo. A nossa escola tem um código de vestimenta.
— E se for de outra cor? — Lia perguntou.
— Não acho que seja apenas a cor — Jill disse, em tom de desculpa. — Acho que é a parte do salto agulha. Mas eu prometo usar fora das aulas e treinar no quarto.
Assim estava bom para Lia e, depois de mais alguns conselhos, ela nos deixou ir. Nós prometemos treinar e voltar dali a dois dias. Disse a Jill que me encontraria com ela mais tarde, mas não sei se ela ouviu. Ela estava tão envolvida na ideia de que Lee iria levá-la para casa que tudo o mais se tornou insignificante.
Fui à casa de Clarence e Adrian me encontrou à porta.
— Uau — eu disse, impressionada com a iniciativa dele. — Não achava que você ficaria pronto com tanta rapidez.
— Não estou — ele respondeu. — Preciso que você veja uma coisa imediatamente.
Franzi a testa.
— Certo. — Adrian me levou para dentro da casa, para um lugar depois da sala que eu normalmente frequentava, e isso me deixou nervosa. — Tem certeza de que isso não pode esperar? Essa coisa que precisamos fazer é meio urgente...
— Isso aqui também é. O que você achou de Clarence na última vez que o viu?
— Esquisito.
— Mas o que achou da saúde dele?
Pensei a respeito.
— Bom, eu sei que ele anda cansado. Mas, de maneira geral, parecia bem.
— É, bom, ele não está “bem” agora. Está muito mais do que cansado. Está fraco, tonto e acamado.
Chegamos a uma porta de madeira fechada e Adrian parou.
— Você sabe qual a causa? — perguntei, assustada. Tinha me preocupado com as complicações de ter um Moroi doente, mas não achava que ia ter de lidar com isso tão cedo.
— Tenho uma boa ideia do que aconteceu — Adrian respondeu com firmeza surpreendente. — Foi o seu amigo Keith.
— Pare de dizer isso. Ele não é “meu amigo”! — exclamei. — Ele está acabando com a minha vida!
Adrian abriu a porta e revelou uma cama toda entalhada, com dossel. Entrar no quarto de um Moroi não era algo que me deixasse à vontade, mas o olhar firme de Adrian era forte demais. Eu o segui e fiquei boquiaberta quando vi Clarence deitado na cama.
— Não é só com a sua — Adrian disse e apontou para o senhor de idade.
Os olhos de Clarence se abriram um pouco com o som da nossa voz e então voltaram a se fechar quando ele caiu no sono. Mas não foram os olhos dele que chamaram a minha atenção. Foi a palidez doentia em sua pele — assim como a ferida sangrenta em seu pescoço. Era pequena, feita com uma picada só, como se tivesse sido causada por um instrumento cirúrgico. Adrian olhou para mim, cheio de expectativa.
— Bom, e então, Sage? Tem alguma ideia por que Keith está tirando o sangue de Clarence?
Engoli em seco, quase sem conseguir acreditar no que estava vendo. Aquela era a última peça. Eu sabia que Keith fornecia o material para os tatuadores, e agora sabia também onde ele conseguia seus “estoques”.
— Tenho, sim — respondi finalmente, com a voz bem baixinha. — Tenho uma ideia muito boa do motivo dele.

Um comentário:

  1. Tadinho do Clarence... Ele é tão fofo!!!
    ODEIO O DARNELL!!!

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