27 de setembro de 2017

Capítulo 20

QUASE PERGUNTEI: “ESTÁ FALANDO SÉRIO?”. Mas, vamos encarar: ela provavelmente não brincaria com aquele tipo de coisa, principalmente levando em conta como seu rosto estava sério.
Outras perguntas surgiram na minha mente, mas as guardei para mim também. Elas não eram assim tão estranhas, mas não queria chamar a atenção por demonstrar um interesse fora do comum por um assassinato terrível. Em vez disso, apenas agradeci à sra. Dawson pela ajuda com a carta e voltei para o campus leste.
A sra. Weathers estava em sua mesa quando entrei no alojamento. Entreguei a carta e ela a leu duas vezes antes de guardar em seu arquivo.
— Certo — ela disse. — Apenas garanta que a sua irmã assine a lista quando sair e quando voltar, todas as vezes.
— Pode deixar, senhora. Obrigada. — Hesitei, sem saber se ia embora ou se fazia as perguntas que a informação dada pela sra. Dawson tinha suscitado. Resolvi ficar. — Sra. Weathers... desde o desaparecimento de Jill, fico pensando sobre aquela garota de quem a senhora me falou. A que morreu. Fico pensando que podia ter sido Jill.
O rosto da sra. Weathers se suavizou.
— Está tudo bem com Jill. Eu não devia ter lhe contado isso. Não era minha intenção assustá-la.
— É verdade que cortaram a garganta da garota?
— É, sim — ela sacudiu a cabeça, tristonha. — Terrível, simplesmente terrível. Não sei quem faz uma coisa dessas.
— Chegaram a descobrir o que aconteceu? Quer dizer, havia algo fora do comum a respeito dela?
— Fora do comum? Não, na verdade, não. Quer dizer, era uma garota adorável. Inteligente, bonita, popular. Era boa... não, ótima atleta. Tinha amigos, namorado. Mas nada que a fizesse se destacar especialmente como alvo. Claro que as pessoas que fazem coisas horríveis assim provavelmente não precisam de motivos.
— É verdade — murmurei.
Fui até o meu quarto desejando que a sra. Weathers tivesse descrito um pouco mais a beleza de Kelly. Na verdade, queria saber se Kelly era Moroi. Se fosse, tinha esperança de que a sra. Weathers talvez comentasse sobre como era alta ou pálida. De acordo com os relatos de Clarence e dos alquimistas, não havia nos registros nenhum Moroi que tivesse morado na área de Palm Springs. Mas isso não significava que alguém não pudesse ter passado despercebido. Teria que encontrar a resposta sozinha. Se Kelly fosse mesmo Moroi, então já teríamos três garotas Moroi mortas da mesma maneira no sul da Califórnia em um período relativamente curto. Clarence podia defender sua teoria de caçadores de vampiros, mas, para mim, aquele padrão indicava claramente os Strigoi.
Jill estava no quarto, cumprindo seu castigo. Quanto mais o tempo passava, menos me sentia irritada com ela. Ter acertado a questão do fornecimento ajudou. Ficaria muito mais aborrecida se não pudesse tirá-la do campus.
— Qual é o problema? — ela ergueu os olhos do laptop e perguntou.
— Por que você acha que há algum problema?
Ela sorriu.
— Você está com aquela cara. É uma ruguinha que aparece entre as suas sobrancelhas quando está tentando decifrar alguma coisa.
Sacudi a cabeça.
— Não é nada.
— Sabe — ela falou —, talvez todas essas responsabilidades que você tem não seriam tão ruins se você conversasse sobre elas e deixasse outras pessoas ajudarem.
— Não é bem assim. É só algo que estou tentando desvendar.
— Conte o que é — ela ofereceu. — Pode confiar em mim.
Não era uma questão de confiança. Era uma questão de deixá-la preocupada sem necessidade. A sra. Weathers tinha medo de me assustar, mas se havia mesmo alguém matando garotas Moroi, não era eu que estava em perigo. Olhei para Jill e para seu olhar determinado e cheguei à conclusão de que, se ela era capaz de viver com o fato de que seu próprio povo estava tentando matá-la, seria capaz de lidar com aquilo.
Apresentei a ela um resumo breve do que eu sabia.
— Mas você não sabe se Kelly era Moroi — ela disse, quando terminei.
— Não. Essa é a questão central — me sentei de pernas cruzadas na cama com o laptop. — Vou conferir os nossos registros e os jornais locais para ver se encontro alguma foto dela. A única informação que a sra. Weathers me deu é que ela era uma ótima atleta.
— O que pode significar que ela não era Moroi — Jill disse. — Quer dizer, veja como o meu desempenho no sol é horrível. E se ela não fosse? Suas teorias dependem do fato de ela ser Moroi. Mas e se ela fosse humana? E daí? Podemos ignorar? Ainda pode ser a mesma pessoa... mas o que significaria se o assassino tivesse matado duas Moroi e uma humana?
Jill tinha razão.
— Não sei — respondi.
A minha pesquisa não demorou muito. Os alquimistas não tinham registro do assassinato, mas, bom, não teriam mesmo se Kelly fosse humana. Muitos jornais traziam reportagens a respeito dela, mas não encontrei nenhuma foto.
— E que tal um anuário da escola? — Jill perguntou. — Alguém deve ter um por aí.
— Na verdade, essa é uma ideia excelente — eu disse.
— Está vendo? Eu disse para você que sou útil.
Sorri para ela e então me lembrei de algo.
— Ah, tenho boas notícias para você. Talvez.
Fiz um resumo rápido do “plano” de Kristin e Julia sobre ela entrar para o clube de costura.
Jill se alegrou, mas de maneira cautelosa.
— Você acha mesmo que pode dar certo?
— Só tem um jeito de descobrir.
— Nunca toquei em uma máquina de costura na vida — ela disse.
— Acho que é a sua oportunidade de aprender — disse a ela. — Ou talvez as outras garotas já fiquem felizes por ter você por perto como a modelo da turma.
Jill deu uma risadinha.
— Como você sabe que só meninas se inscrevem nisso?
— Não sei — reconheci. — Só estou me atendo aos estereótipos de gênero, acho.
Meu telefone tocou e o número da sra. Terwilliger piscou na tela. Atendi e já me preparei para buscar café.
— Srta. Melbourne? — ela disse. — Se você e o seu irmão puderem ir até a Carlton daqui a uma hora no máximo, poderão falar com alguém na secretaria de admissões antes que feche. Vocês conseguem?
Dei uma espiada no relógio e imaginei que Adrian não devia estar fazendo nada de importante.
— Hum, conseguimos. Conseguimos, sim, senhora, com certeza. Obrigada. Muito obrigada mesmo.
— O homem com quem vocês devem falar se chama Wes Regan. — Ela fez uma pausa. — E será que pode me trazer um cappuccino quando voltar?
Garanti a ela que sim e então liguei para Adrian e dei instruções para que se aprontasse e me esperasse. Com rapidez, tirei o uniforme e vesti uma blusa e saia até os joelhos. Dei uma olhada no meu reflexo e percebi que ele tinha razão. Realmente, não havia muita diferença entre as roupas de Amberwood e o meu guarda-roupa normal.
— Queria poder ir junto — Jill disse, esperançosa. — Gostaria de ver Adrian de novo.
— Mas você não o vê todos os dias, de certa forma?
— É verdade — respondeu. — Mas eu ainda não consigo entrar na cabeça dele quando quero. Só acontece de um jeito aleatório. E, de todo modo, não é a mesma coisa. Ele não pode me responder por meio do laço.
Quase respondi que aquilo parecia melhor do que estar perto dele pessoalmente, mas achei que não iria ajudar em nada.
Adrian estava pronto para sair quando cheguei à casa de Clarence, animado e ávido por ação.
— Você não encontrou com o seu amigo por pouco — ele disse ao entrar no Pingado.
— Quem?
— Keith.
Fiz uma careta
— Ele não é meu amigo, na verdade.
— Ah, jura? A maioria de nós percebeu isso no primeiro dia, Sage.
Eu me senti um pouco mal com isso. Uma parte de mim sabia que eu não devia permitir que os meus sentimentos pessoais em relação a Keith se misturassem com o trabalho. Nós éramos mais ou menos colegas, e devíamos nos manter como uma equipe unida e profissional. Ao mesmo tempo, estava meio feliz por essas pessoas — apesar de serem vampiros e dampiros — não acharem que eu era simpática com Keith. Eu não queria que eles achassem que nós tínhamos muita coisa em comum. Eu definitivamente não queria ter muito em comum com ele.
O significado completo das palavras de Adrian de repente me ocorreu.
— Espere. Ele estava aqui agora há pouco?
— Faz meia hora.
Devia ter ido para lá direto da escola. Tive sorte de não me encontrar com ele. Algo me dizia que ele não iria aprovar minha ajuda com a educação de Adrian.
— O que ele veio fazer aqui?
— Sei lá. Acho que veio ver como Clarence estava. O velho não anda se sentindo muito bem. — Adrian tirou um maço de cigarros do bolso. — Você se incomoda?
— Me incomodo, sim — respondi. — O que há de errado com Clarence?
— Não sei, mas ele anda descansando muito, e isso deixa as coisas ainda mais entediantes. Quer dizer, ele não é a melhor pessoa para se conversar, mas algumas das histórias malucas dele eram interessantes — Adrian ficou melancólico. — Principalmente com uísque.
— Mantenha-me informada sobre como ele está indo — murmurei. Fiquei imaginando se era por isso que Keith estava com tanta pressa antes. Se Clarence estivesse com alguma doença séria, nós teríamos que tomar providências junto a um médico Moroi. Isso complicaria o nosso arranjo em Palm Springs porque ou íamos ter que transferir Clarence para outro lugar, ou trazer alguém para cá. Se Keith estivesse trabalhando nisso, então não precisava me preocupar... mas eu simplesmente não confiava nele para fazer um bom trabalho em relação a nada.
— Não sei como você aguenta esse cara — Adrian disse. — Eu antes achava que você era fraca e simplesmente não revidava... mas, agora, sinceramente, acho que você é bem durona. É preciso ter uma força dos infernos para não reclamar e não explodir. Eu não tenho tanto autocontrole assim.
— Você tem mais do que imagina — eu disse, um pouco sem jeito com o elogio. Eu me culpava tanto pelo que considerava falta de reação que até já tinha me ocorrido que aquilo tivesse adquirido força própria. Fiquei ainda mais surpresa de ter sido necessário que Adrian fizesse aquela observação para mim. — Eu sempre ando na linha. O meu pai, e os alquimistas, são muito rígidos em relação a obediência e a seguir as ordens dos superiores. Estou no meio de uma saia justa dupla porque estou pisando em ovos com eles, então é superimportante que eu não crie agitação.
— Por causa da Rose? — O tom dele era controlado com muito cuidado.
Assenti.
— É. O que eu fiz foi como traição aos olhos deles.
— Do jeito que você fala, parece muito sério mesmo. — Dava para ver que ele estava me examinando de canto de olho. — Valeu a pena?
— Até agora, sim. — Era fácil dizer aquilo, já que Zoe ainda não tinha sido tatuada e eu não tinha pisado em nenhum centro de reeducação. Se essas coisas mudassem, as minhas respostas poderiam ser outras. — Foi a coisa certa a fazer. Acho que justificou uma ação radical.
— Eu também desrespeitei muitas regras para ajudar Rose — ele disse com um tom de preocupação na voz. — Fiz aquilo por amor. Amor mal direcionado, mas, ainda assim, amor. Não sei se foi algo tão nobre quanto a sua motivação. Principalmente porque ela estava apaixonada por outra pessoa. A maior parte das minhas “ações dramáticas” não foi em nome de causa nenhuma. A maior parte delas foi só para irritar os meus pais.
Percebi que, na verdade, fiquei com um pouco de inveja daquilo. Eu não conseguia nem imaginar provocar em meu pai algum tipo de reação — apesar de certamente desejar isso.
— Acho que o amor é sempre uma razão nobre — disse a ele. Eu estava falando de maneira objetiva, é claro. Nunca tinha me apaixonado, então não tinha referência para avaliar. Com base no que eu tinha observado em outras pessoas, achava que devia ser algo maravilhoso... mas, por enquanto, estava ocupada demais com o trabalho para reparar naquela ausência. Eu ficava imaginando se não devia me sentir decepcionada com aquilo. — E acho que você ainda tem tempo de sobra para fazer outras coisas nobres.
Ele deu risada.
— Nunca pensei que a minha maior torcedora seria alguém que me considerava do mal e antinatural.
Então éramos dois.
Hesitante, consegui fazer uma pergunta que queimava dentro de mim.
— Você ainda ama Rose?
Além de não saber o que era estar apaixonada, também não sabia quanto tempo demorava para se recuperar do amor.
O sorriso de Adrian desapareceu. Seu olhar se voltou para dentro.
— Sim. Não. É difícil superar alguém como ela. Ela surtiu um efeito enorme sobre mim, tanto bom quanto ruim. É difícil seguir em frente. Tento não pensar muito sobre ela em termos de amor e ódio. O principal é que estou tentando tocar a minha vida. Os resultados, infelizmente, não são regulares.
Logo chegamos à faculdade. Wes Regan era um homem gordo com cabelo grisalho, que trabalhava na secretaria de matrículas de Carlton. A sra. Terwilliger tinha dado aulas particulares de graça para a sobrinha de Wes durante um verão, e Wes achava que devia um favor a ela.
— O negócio é o seguinte — ele disse quando nos acomodamos em cadeiras na frente da mesa dele. Adrian usava calça de sarja e camisa social cor de sálvia, o que teria sido um modelo ótimo para as entrevistas de emprego. Era um pouco tarde demais para isso. — Eu não posso simplesmente matricular você. Os processos de inscrição na faculdade são longos e exigem históricos escolares, e não vai ter como você conseguir isso em dois dias. O que posso fazer é admiti-lo como auditor.
— Tipo do imposto de renda? — Adrian perguntou.
— Não. Auditor ou ouvinte significa que você frequenta as aulas e faz as lições, mas não recebe nota.
Adrian abriu a boca para falar, e só fiquei imaginando que tipo de comentário ele teria a respeito de estudar sem receber crédito. Eu me apressei em interrompê-lo.
— E depois, o que acontece?
— Depois, se você conseguir cumprir o processo de admissão, em, digamos, uma ou duas semanas, e se for aceito, posso mudar a sua situação para a de aluno.
— E o auxílio financeiro? — Adrian se inclinou para a frente e perguntou. — É possível obter algum dinheiro para isso?
— Se você se qualificar, sim — Wes respondeu. — Mas você só pode entrar com o pedido depois que for aceito.
Adrian largou o corpo na cadeira e eu fui capaz de adivinhar seus pensamentos. Se a matrícula ia demorar umas duas semanas, sem dúvida haveria atraso no pedido de auxílio também. Adrian iria ter que passar pelos menos mais um mês morando com Clarence, e esse provavelmente era um prazo otimista. Fiquei esperando que Adrian se levantasse e colocasse tudo a perder. Em vez disso, uma expressão de resolução tomou conta de seu rosto. Ele concordou.
— Certo. Vamos começar com esse negócio de ouvinte.
Fiquei impressionada.
Também fiquei com inveja quando Wes trouxe o catálogo de cursos. Tinha conseguido me convencer a ficar contente com as aulas de Amberwood, mas olhar para as oportunidades de uma faculdade de verdade me mostrou que as escolas eram dois mundos diferentes. As aulas de história eram mais concentradas e mais profundas do que eu poderia ter imaginado. Mas Adrian não tinha interesse por elas. Ele imediatamente ficou de olho no departamento de arte.
Acabou se inscrevendo em dois cursos introdutórios: um sobre pintura a óleo, e o outro, aquarela. As aulas eram três vezes por semana e uma em seguida da outra, o que era bem conveniente.
— Vai ser mais fácil assim, já que vou ter que vir de ônibus — ele explicou quando nós saímos.
Olhei espantada para ele.
— Você vai vir de ônibus?
Ele pareceu se divertir com a minha surpresa.
— E de que outro jeito eu viria? As aulas são durante o dia. Você não pode me trazer.
Pensei na casa afastada de Clarence.
— Mas onde diabos você vai pegar o ônibus?
— Tem uma parada a menos de um quilômetro de distância. Dali, posso fazer a baldeação para outro ônibus que vai para Carlton. O trajeto todo demora mais ou menos uma hora.
Confesso que aquilo me deixou sem palavras. Fiquei surpresa por Adrian ter pesquisado tanto assim, isso sem mencionar que estava disposto a ter tanto trabalho. Além disso, no caminho de volta, ele não soltou nenhum comentário para dizer como aquilo seria inconveniente ou quanto tempo teria que esperar até poder se mudar da casa de Clarence.
Quando voltei a Amberwood, fiquei contente de dar a Jill a notícia a respeito do sucesso universitário de Adrian — não que ela precisasse que eu dissesse algo, provavelmente. Com o laço, ela já devia saber mais do que eu. Ainda assim, ela sempre se preocupava com ele e sem dúvida iria ficar contente de ver algo dando certo para Adrian.
Jill não estava no quarto quando cheguei, mas um bilhete me dizia que ela estava estudando em outro lugar do alojamento. A única parte positiva do castigo era que limitava os lugares em que ela poderia estar. Resolvi aproveitar aquela oportunidade para fazer o amuleto maluco da sra. Terwilliger. Fazia dois dias que eu estava juntando os ingredientes e, junto com a cooperação da professora de biologia, a sra. Terwilliger também tinha garantido o meu acesso a um dos laboratórios de química. Não havia ninguém lá àquela hora da noite, por isso eu tinha espaço e tranquilidade de sobra para preparar a fórmula.
Como tínhamos observado, as instruções eram extremamente detalhadas e — na minha opinião — supérfluas. Não era suficiente apenas medir as folhas de urtiga. As instruções pediam que elas “descansassem durante uma hora” e, durante esse tempo, eu tinha que ficar dizendo para elas “em vós, chamas eu coloco” a cada dez minutos. Eu também tinha que ferver a pedra de ágata “para infundi-la de calor”. O resto das instruções era parecido e eu sabia que não teria como a sra. Terwilliger descobrir se eu tinha ou não seguido tudo ao pé da letra — principalmente os cânticos. Mesmo assim, o propósito daquela tarefa era relatar como agia um praticante antigo. Assim, eu segui tudo à risca, e me concentrei tanto em executar cada passo com perfeição que logo entrei em um transe em que nada existia além do feitiço.
Terminei duas horas depois e fiquei surpresa de ver como tinha ficado exausta. O resultado final certamente não parecia justificar toda a energia que eu tinha gastado. Finalizei com uma cordinha de couro que amarrava um saquinho de seda cheio de folhas e pedras. Levei aquilo e as minhas anotações de volta para o quarto no alojamento, com a intenção de escrever o relatório para a sra. Terwilliger e deixar a tarefa para trás.
Quando cheguei ao quarto, engoli em seco ao ver a porta. Alguém tinha pegado tinta vermelha e desenhado morcegos e rostos com caninos afiados na porta inteira. Rabiscadas na frente, em letras grandes, estavam as palavras: garota vampira.
Em pânico, irrompi quarto adentro. Jill estava lá — junto com a sra. Weathers e outra professora que eu não conhecia. Estavam revirando todas as nossas coisas. Fiquei encarando, descrente.
— O que está acontecendo? — perguntei.
Jill sacudiu a cabeça, com uma expressão totalmente envergonhada, e não conseguiu responder. Parece que eu tinha chegado ao final da busca, porque a sra. Weathers e sua companheira logo terminaram e caminharam até a porta. Fiquei contente por ter levado meus equipamentos de alquimista comigo para o laboratório naquela noite. O kit continha algumas ferramentas de medida que eu achei que talvez fosse precisar. Certamente não queria explicar por que mantinha uma coleção de substâncias químicas para as responsáveis pelo dormitório.
— Bom — a sra. Weathers disse, severa. — Parece não haver nada aqui, mas posso fazer outra busca mais tarde... por isso, não tenha nenhuma ideia. Já está bem encrencada sem adicionar mais uma acusação à lista. — Ela suspirou e sacudiu a cabeça para Jill. — Estou muito decepcionada com você, srta. Melrose.
Jill ficou pálida como papel.
— Estou dizendo. É tudo um erro!
— Vamos torcer para que seja mesmo — a sra. Weathers falou, de maneira agourenta. — Vamos torcer para que seja. Estou meio tentada a mandar que você limpe o vandalismo do lado de fora da porta, mas como não tenho nenhuma prova concreta... bom, vamos pedir para a faxineira dar conta disso amanhã.
Quando as nossas visitas se foram, imediatamente questionei:
— O que aconteceu?
Jill desabou na cama e gemeu.
— Laurel aconteceu.
Eu me sentei.
— Explique.
— Bom, eu liguei para a biblioteca para saber se eles tinham aqueles anuários... sabe, com Kelly Hayes? Acontece que eles costumam ter, mas todos tinham sido retirados pela equipe do jornal para uma edição de aniversário de Amberwood ou algo assim. E você não vai acreditar quem está à frente do projeto: Laurel.
— Tem razão — eu disse. — Jamais teria adivinhado. Ela não está no primeiro ano de inglês? — Laurel já era aluna do último ano.
— Está, sim.
— Acho que todo mundo precisa ter uma atividade — balbuciei.
Jill assentiu.
— Mas, bom, a srta. Yamani estava no prédio, então fui falar com ela para ver se eu podia entrar para o clube de costura e trabalhar para Lia. Ela ficou toda animada e disse que ia dar um jeito.
— Bom, já é alguma coisa — eu disse com cautela, ainda sem saber muito bem como aquilo tinha levado a vandalismo e a uma busca no nosso quarto.
— Quando eu estava voltando, cruzei com Laurel no corredor. Resolvi arriscar... cheguei pra ela e disse: “Olhe, eu sei que nós tivemos as nossas diferenças, mas eu realmente estou precisando de uma ajuda”. Daí eu expliquei que precisava dos anuários e perguntei se podia pegá-los emprestados só por esta noite e que devolveria imediatamente.
A isso, eu não disse nada. Com certeza foi uma atitude nobre e corajosa de Jill, principalmente depois de eu tê-la incentivado a ser superior a Laurel. Infelizmente, eu não achava que Laurel teria a mesma atitude madura em relação a ela. Eu estava certa.
— Ela me disse... bom, em termos bem explícitos, disse que eu nunca vou ver esses anuários. — Jill fez uma careta. — Ela me disse algumas outras coisas também. Então eu, hum, chamei Laurel de vadia delirante. Provavelmente não devia ter feito isso, mas, bom, ela mereceu! Bom, mas daí ela foi falar com a sra. Weathers com uma garrafa de... sei lá. Acho que era schnapps de framboesa. Ela disse que eu tinha vendido para ela e que tinha mais no meu quarto. A sra. Weathers não podia me castigar sem provas concretas, mas depois de a sra. Chang ter me acusado de estar de ressaca no primeiro dia, a sra. Weathers chegou à conclusão de que aquilo era suficiente para dar uma busca no quarto.
Sacudi a cabeça, descrente, com a irritação crescendo dentro do meu peito.
— Para um lugar tão prestigioso e de elite, esta escola realmente tira conclusões apressadas a respeito de qualquer acusação! Quer dizer, acreditam em qualquer coisa que qualquer pessoa diz sobre você. E de onde veio a tinta na porta?
Lágrimas de frustração brilharam nos olhos dela.
— Ah, foi Laurel, é claro. Ou, sei lá, alguma amiga dela. Aconteceu enquanto Laurel estava falando com a sra. Weathers, então é claro que ela tem um álibi. Você não acha... não acha que alguém está desconfiando de verdade, acha? Antes, você tinha dito que era só uma brincadeira de mau gosto... e que os humanos nem acreditam em nós... certo?
— Certo — respondi no automático.
Mas eu estava começando a me perguntar se era verdade. Desde o telefonema do meu pai, quando ele mencionou que havia humanos que desconfiavam e que não havia como silenciá-los, fiquei me perguntando se eu tinha me apressado demais em desprezar a piadinha de Laurel. Será que ela simplesmente tinha encontrado uma piada cruel para maltratar Jill? Ou será que ela era um desses humanos que suspeitavam da existência do mundo dos vampiros e podia causar muitos problemas por causa disso? Eu duvidava que alguém fosse acreditar nela, mas nós não podíamos arriscar atrair a atenção de alguém assim.
Será possível ela realmente pensar que Jill é vampira?
A expressão desconsolada de Jill se transformou em raiva.
— Talvez eu devesse fazer alguma coisa a respeito de Laurel. Há outras maneiras de me vingar dela além de fazer a água congelar.
— Não — me apressei em dizer. — Não se rebaixe a isso. Vingança é uma coisa mesquinha, e você é melhor do que isso. — Além do mais, pensei, se houver mais qualquer atividade sobrenatural, Laurel pode perceber que as provocações dela eram mais verdadeiras do que pensava no começo.
Jill me lançou um sorriso triste.
— Você fica me dizendo isso. Mas não acha que algo precisa ser feito em relação a Laurel?
Ah, sim. Achava que sim, com toda a certeza. Aquilo tinha ido longe demais, e eu estava errada por não dar muita importância ao fato. Jill tinha razão ao dizer que havia outras maneiras de se vingar. E eu estava certa ao dizer que vingança era uma coisa mesquinha e que Jill não devia usar isso para se consolar. Era por isso que eu iria me vingar.
— Eu cuido disso — disse a ela. — Vou... vou pedir aos alquimistas para fazerem uma reclamação formal em nome dos nossos pais.
Ela pareceu duvidar.
— E você acha que isso vai dar conta da situação?
— Positivo — respondi. Isso porque a reclamação traria algo a mais. Dei uma olhada no relógio e percebi que estava tarde demais para voltar ao laboratório. Não fazia mal. Eu apenas ajustei meu despertador para bem cedo, com a intenção de me levantar e ir até lá antes de as aulas começarem.
Eu tinha mais uma experiência para fazer no futuro, e Laurel seria a minha cobaia.

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