27 de setembro de 2017

Capítulo 2

ALGUMAS PESSOAS ENGOLIRAM EM SECO, sem dúvida por causa da expressão “adoradora de vampiros” que Keith usou. Nenhuma das palavras era tão terrível assim sozinha, mas juntas... bom, elas representavam uma ideia que era praticamente um anátema a tudo que os alquimistas defendiam. Nós lutávamos para proteger os humanos dos vampiros. Estar em conluio com essas criaturas era basicamente a pior coisa de que qualquer um de nós podia ser acusado. Mesmo quando me questionaram anteriormente, os outros alquimistas tinham sido muito cuidadosos na escolha das palavras.
O palavreado de Keith foi quase obsceno. Horowitz parecia irritado em meu nome e abriu a boca para falar, como se pudesse retrucar com tanta acidez quanto ele. Depois de dar uma olhada rápida em Zoe e em mim, ele pareceu reconsiderar e permaneceu em silêncio. Michaelson, no entanto, não conseguiu segurar um murmúrio:
— Proteja todos nós — e fez o sinal contra o mal.
No entanto, não foram as palavras de Keith que me deixaram louca da vida (apesar de aquilo certamente me fazer sentir um calafrio). Foi a observação que Stanton deixou escapar. Nós sabemos que você requisitou Zoe.
Keith tinha requisitado Zoe para aquela tarefa? A minha resolução de mantê-la fora daquilo aumentou ainda mais. Cerrei os punhos só de pensar em Zoe o acompanhando.
Todo mundo ali podia achar que Keith Darnell era algum tipo de garoto exemplar, mas ele não me enganava. Nenhuma menina — muito menos a minha irmã — devia ficar sozinha com ele.
— Keith — Stanton disse, com um leve ar de advertência na voz. — Posso respeitar a sua opinião, mas você não está em posição de fazer essa escolha.
Ele corou.
— Palm Springs é o meu posto! Tenho todo o direito de determinar quem entra no meu território.
— Consigo entender por que você se sente assim — meu pai disse.
Inacreditável. Se Zoe ou eu questionássemos a autoridade como Keith tinha feito, ele não teria hesitado em dizer quais eram os nossos “direitos” — ou melhor, diria que não tínhamos nenhum. Keith tinha passado um verão com a minha família — jovens alquimistas às vezes faziam isso durante o treinamento —, e o meu pai começou a tratá-lo como o filho que nunca teve. Já naquela época havia dois pesos e duas medidas entre Keith e nós. Parece que o tempo e a distância não tinham acabado com isso.
— Palm Springs pode ser o seu posto — Stanton disse —, mas esta missão se origina de lugares na organização que estão muito fora de seu alcance. Você é essencial para a coordenação, sim; mas não é, de maneira nenhuma, a autoridade máxima neste caso.
Ao contrário de mim, desconfio que Stanton devia ter batido em algumas pessoas quando era mais nova — e acho que era exatamente isso que queria fazer com Keith naquele momento. Era engraçado ela se tornar minha defensora, já que eu tinha certeza de que ela não havia engolido a história de eu ter usado Rose para fazer a minha carreira avançar.
Keith visivelmente se acalmou; ele teve a prudência de admitir que uma explosão infantil não levaria a lugar nenhum.
— Eu compreendo. Só estou preocupado com o sucesso desta missão. Conheço as duas garotas Sage. Mesmo antes do “incidente” de Sydney, já tinha sérias preocupações em relação a ela. Mas achei que ela tinha superado aquela fase, por isso não me dei ao trabalho de dizer nada na época. Agora vejo que estava errado. Na ocasião, realmente achava que Zoe teria sido uma escolha muito melhor para ocupar a posição da família. Sem ofensas, Jared — ele lançou para o meu pai um sorriso que supostamente deveria ser encantador.
Nesse ínterim, ia ficando cada vez mais difícil esconder a minha incredulidade.
— Zoe tinha onze anos quando você esteve aqui — eu disse. — Como poderia tirar essas conclusões? — Eu não acreditei, nem por um instante, que ele tinha “preocupações” em relação a mim naquela época. Não, apague isso. Ele provavelmente tinha preocupações no último dia que passou conosco, quando eu o confrontei a respeito de um segredo sujo que ele guardava. Eu tinha quase certeza de que era esse o motivo para tudo aquilo. Ele queria me silenciar. As minhas aventuras com Rose eram apenas uma desculpa para me tirar do caminho.
— Zoe sempre foi madura para a idade — Keith disse. — Às vezes, a gente vê logo.
— Zoe nunca viu um Strigoi, muito menos um Moroi! E provavelmente ficaria paralisada se visse. Isso também vale para a maior parte dos alquimistas — observei. — Qualquer pessoa que for enviada terá que aguentar ficar perto deles, e independentemente do que você pense sobre as minhas motivações, eu estou acostumada a isso. Não gosto deles, mas sei como tolerá-los. Zoe só recebeu a mais básica das instruções... e apenas dentro de casa. Todo mundo fica repetindo que esta é uma missão séria. Você quer mesmo arriscar o desfecho dela por inexperiência e receios sem fundamento? — terminei, orgulhosa de mim mesma por ter permanecido calma e apresentado um argumento tão razoável.
Barnes se mexeu, mudando de posição, pouco à vontade.
— Mas se Keith tinha dúvidas anos atrás...
— O treinamento de Zoe provavelmente basta para que ela se vire — meu pai disse.
Havia cinco minutos, ele tinha concordado que eu fosse no lugar dela! Será que alguém tinha escutado o que eu disse? Parecia que eu tinha ficado invisível depois da chegada de Keith. Horowitz estava ocupado limpando e arrumando seus instrumentos de tatuagem, mas ergueu os olhos para desdenhar da observação de Barnes.
— Você disse as palavras mágicas: “anos atrás”. Na época, Keith não devia ser muito mais velho do que estas meninas são agora. — Horowitz fechou seu estojo de instrumentos e se apoiou despreocupadamente na parede, com os braços cruzados. — Não duvido de você, Keith. Não exatamente. Mas não tenho muita certeza se você pode basear a sua opinião em lembranças de quando todos vocês eram crianças.
Pela lógica de Horowitz, ele estava dizendo que eu ainda era criança, mas não me incomodei. Ele havia feito seus comentários de uma maneira simples e sem esforço, e ainda assim deixou Keith parecendo um idiota. Keith também percebeu isso, e ficou todo vermelho.
— Concordo — disse Stanton, que estava claramente ficando impaciente. — Sydney quer muito fazer isso, e poucas pessoas pensariam assim, levando em conta que ela vai ter que morar com uma vampira.
Quero muito? Não exatamente. Mas eu realmente queria proteger Zoe a todo custo, e restaurar a minha credibilidade. Se isso significava frustrar Keith Darnell no caminho, melhor ainda...
— Espere — eu disse, repassando as palavras de Stanton. — Você disse morar com uma vampira?
— Disse — Stanton respondeu. — Mesmo que esteja escondida, a vida da menina Moroi precisa ter certa semelhança com uma vida normal. Decidimos matar dois coelhos com uma cajadada só e matriculá-la em um internato particular. Isso dá conta da educação e da hospedagem dela. Vamos tomar providências para que vocês dividam o mesmo quarto.
— Mas isso não significa... isso não significa que eu teria de frequentar a escola? — perguntei, sentindo-me um tanto confusa. — Eu já me formei.
No ensino médio, pelo menos. Tinha deixado claro para o meu pai, várias vezes, que adoraria fazer faculdade. Ele tinha deixado igualmente claro que não via necessidade disso.
— Está vendo? — Keith disse, agarrando-se à oportunidade. — Ela é velha demais. Zoe combina melhor em relação à idade.
— Sydney pode passar por aluna do último ano. Ela tem a idade certa. — Stanton me mediu com os olhos. — Além do mais, você recebeu educação em casa, certo? Esta será uma experiência nova para você. Vai poder ver o que perdeu.
— Provavelmente você vai achar fácil — meu pai disse, com má vontade. — A sua educação foi superior a qualquer coisa que eles possam oferecer.
Belo autoelogio disfarçado, pai.
Eu estava com medo de demonstrar como esse acordo estava me deixando desconfortável. A minha resolução de cuidar de Zoe e de mim mesma não tinha mudado, mas as complicações só aumentavam. Repetir o ensino médio. Morar com uma vampira. Mantê-la sob um programa de proteção à testemunha. E apesar de eu ter me gabado a respeito de ficar à vontade perto de vampiros, a ideia de dividir o quarto com uma — mesmo que fosse aparentemente benigna como Jill — era enervante. Um outro desgosto possível me ocorreu.
— Você também seria um aluno disfarçado? — perguntei a Keith. A ideia de emprestar anotações de aula para ele me deixou enjoada mais uma vez.
— Claro que não — ele respondeu, parecendo insultado. — Eu sou velho demais. Eu serei o Facilitador de Missão de Área Local — eu podia apostar que ele tinha acabado de inventar aquele título ali mesmo. — A minha função é ajudar a coordenar a missão e fazer relatórios aos nossos superiores. E não vou fazer isso se for ela quem estiver lá — ele olhou de rosto em rosto ao proferir a última frase, mas não havia dúvidas de quem era ela. Eu.
— Então, não faça — Stanton disse sem rodeios. — Sydney vai. Esta é a minha decisão, e vou defendê-la perante qualquer autoridade superior, se for preciso. Se é tão contrário à colocação dela, sr. Darnell, providenciarei pessoalmente para que seja transferido de Palm Springs e não precise lidar com ela.
Todos os olhos se voltaram para Keith, e ele hesitou. Percebi que ela o tinha pegado em uma armadilha. Eu imaginava que, com o clima que fazia lá, Palm Springs não devia ter muita ação de vampiros. O trabalho de Keith provavelmente era bem fácil; já eu, quando trabalhei em São Petersburgo, tive que remediar danos várias vezes. Aquele lugar era um porto seguro para os vampiros, assim como alguns outros lugares na Europa e na Ásia que o meu pai tinha me levado para visitar. Sem falar de Praga. Se Keith fosse transferido, ele correria o risco de ter muito mais trabalho, além de ser mandado para um local muito pior. Afinal, apesar de Palm Springs não ser agradável para os vampiros, parecia um lugar fantástico para os humanos.
O rosto de Keith confirmou tudo isso. Ele não queria sair de Palm Springs.
— E se ela for para lá e eu tiver motivos para suspeitar de traição mais uma vez?
— Então você a delata — Horowitz respondeu, segurando um bocejo. Ele obviamente não estava nada impressionado com Keith. — Da mesma maneira que faria com qualquer outra pessoa.
— Enquanto isso, posso aprimorar o treinamento de Zoe — meu pai disse, quase em tom de desculpa para Keith. Ficou claro de que lado ele estava. Não era do meu. Não era também do de Zoe, para falar a verdade. — Então, se encontrar falhas em Sydney, poderemos substituí-la.
Eu me arrepiei ao pensar que Keith iria decidir se eu tinha falhas ou não, mas nem de longe isso me incomodou tanto quanto o pensamento de que Zoe ainda estaria envolvida naquilo. Se o meu pai iria mantê-la na reserva, então ela ainda não estava fora de perigo.
Os alquimistas ainda poderiam ficar de olho nela — assim como Keith. Naquele momento eu jurei para mim mesma que faria tudo que fosse necessário, até dar uvas na boca de Keith, mas iria garantir que ele não teria razão nenhuma para duvidar da minha lealdade.
— Tudo bem — ele disse, e as palavras pareciam causar-lhe muita dor. — Sydney pode ir... por enquanto. Mas vou ficar de olho em você — ele fixou o olhar em mim. — E não vou cobrir as suas falhas. Vai ser responsável por manter aquela vampira na linha e levá-la para se alimentar.
— Levá-la para se alimentar? — perguntei com surpresa. Claro que sim. Jill precisaria de sangue. Por um momento, toda a minha confiança vacilou. Era fácil falar em andar com vampiros quando não havia nenhum deles por perto. Mais fácil ainda quando não se pensava naquilo que fazia dos vampiros o que eles eram. Sangue. Aquela necessidade terrível e antinatural que preenchia sua existência. Uma ideia horrível surgiu na minha cabeça e sumiu com a mesma rapidez que apareceu. Será que eu vou ter que dar o meu sangue para ela? Não. Isso era ridículo. Esse era um limite que os alquimistas jamais ultrapassariam. Engoli em seco e tentei esconder meu breve momento de pânico.
— Como planejam alimentá-la?
Stanton fez um sinal com a cabeça para Keith.
— Pode explicar a ela? — Acho que estava dando a ele uma chance de se sentir importante, uma maneira de compensar sua derrota anterior. Ele entrou na dela.
— Só há um Moroi morando em Palm Springs de que temos notícia — Keith disse. Enquanto falava, reparei que o cabelo loiro desgrenhado dele estava todo coberto de gel. Por causa disso, os fios tinham um brilho pegajoso que eu não achava nem um pouco atraente. Além do mais, eu não confiava em nenhum homem que usasse mais produtos de beleza do que eu. — E se quer saber a minha opinião, ele é louco. Mas é um louco inofensivo... na medida em que qualquer um deles pode ser inofensivo. É um velho recluso que mora nos arredores da cidade. Tem alguma birra contra o governo dos Moroi e não se associa a nenhum deles, de modo que não vai contar para ninguém que vocês estão lá. E o mais importante é que ele tem uma fornecedora e está disposto a compartilhá-la.
Franzi a testa.
— Nós queremos mesmo que Jill ande com um Moroi contrário ao governo? O motivo disso tudo é manter a estabilidade deles. Se a apresentarmos a algum rebelde, como poderemos saber que ele não vai tentar usá-la?
— Esta é uma observação excelente — Michaelson disse, aparentemente surpreso ao admitir isso.
A minha intenção não era acabar com Keith. Meu raciocínio apenas tinha avançado pelo caminho, localizando um problema em potencial e apontando-o. Mas, pelo olhar que ele lançou na minha direção, foi como se eu estivesse tentando desacreditar a informação dele de propósito e deixá-lo mal.
— Obviamente, não vamos contar para ele quem ela é — ele disse com um brilho de raiva no olho bom. — Isso seria estupidez. E ele não faz parte de nenhuma facção. Não faz parte de nada. Está convencido de que os Moroi e seus guardiões o decepcionaram, por isso não quer ter envolvimento com nenhum deles. Contei para ele uma história sobre como a família de Jill tem os mesmos sentimentos antissociais que ele tem, por isso ele se mostrou solidário.
— Você está certa de ter cautela, Sydney — Stanton disse. Havia uma expressão de aprovação em seus olhos, como se estivesse contente por ter me defendido. Essa aprovação significava muito para mim, levando em conta que ela sempre parecia ser muito rígida. — Não podemos nos deixar levar por nenhuma ideia preconcebida deles. Apesar de também termos pedido informações a respeito deste Moroi a Abe Mazur, que concorda que ele é bem inofensivo.
— Abe Mazur? — Michaelson desdenhou. Ele passou a mão na barba grisalha. — Sei. Tenho certeza de que ele é especialista em saber quem é inofensivo ou não.
O meu coração deu um salto ao ouvir aquele nome, mas tentei não demonstrar. Não demonstre reação , não demonstre reação , ordenei ao meu rosto. Depois de respirar fundo, perguntei com muito, muito cuidado:
— Abe Mazur é o Moroi que vai acompanhar Jill? Eu o conheço... mas achei que tinham dito que um Ivashkov seria seu acompanhante.
Se Abe Mazur fixasse residência em Palm Springs, isso alteraria as coisas, e muito.
Michaelson desdenhou.
— Não, nós jamais enviaríamos você para trabalhar com Abe Mazur. Ele só está ajudando com a organização da missão.
— O que há de tão ruim a respeito de Abe Mazur? — Keith perguntou. — Não sei quem ele é.
Eu observava Keith com muita atenção enquanto falava, em busca de algum vestígio de que ele queria nos enganar. Mas não. Seu rosto era só inocência, estava obviamente curioso. Seus olhos azuis, ou melhor, seu olho azul exibia uma rara expressão de confusão, em contraste com sua constante arrogância de quem sabe tudo. O nome de Abe não significava nada para ele. Soltei a respiração que eu nem percebi estar segurando.
— É um canalha — Stanton disse sem rodeios. — Ele tem informações demais sobre coisas que não devia saber. É útil, mas eu não confio nele.
Um canalha? Isso era elogio. Abe Mazur era um Moroi cujo apelido na Rússia — zmey, a serpente — resumia tudo. Abe tinha feito vários favores para mim, e precisei retribuir de maneiras que me colocaram em grande risco. Uma das coisas que precisei fazer foi ajudar Rose a fugir. Bom, ele chamou de retribuição; para mim foi chantagem.
Eu não tinha o menor desejo de voltar a cruzar com ele, principalmente porque tinha medo do que mais ele poderia pedir. A parte mais frustrante era que não havia ninguém a quem eu pudesse recorrer para pedir ajuda. Os meus superiores não iriam reagir bem se soubessem que, além de todas as minhas outras atividades com os vampiros, eu ainda fazia acordos paralelos com eles.
— Nenhum deles merece confiança — meu pai observou. Ele fez o sinal dos alquimistas contra o mal, uma cruz no ombro esquerdo traçada com a mão direita.
— É, mas Mazur é pior do que a maioria — Michaelson disse. Ele disfarçou um bocejo que serviu para lembrar a todos nós que estávamos no meio da madrugada. — Estamos combinados, então?
Murmúrios de concordância se fizeram ouvir. A expressão anuviada de Keith demonstrava como estava insatisfeito por as coisas não serem do jeito que queria, mas não esboçou mais nenhuma tentativa de impedir que eu fosse.
— Acho que agora nós já podemos ir embora — ele disse.
Demorei um segundo para perceber que “nós” éramos ele e eu.
— Agora? — perguntei, incrédula.
Ele deu de ombros.
— Os vampiros vão chegar logo. Precisamos nos assegurar de que tudo estará pronto para eles. Se nos revezarmos no volante, conseguiremos chegar lá amanhã à tarde.
— Ótimo — eu disse, emburrada. Uma viagem de carro com Keith. Eca. Mas o que mais eu podia dizer? Não tinha escolha em relação a isso e, mesmo que tivesse, não estava em posição de recusar nada que os alquimistas exigissem de mim no momento.
Naquela noite, eu tinha avaliado todas as minhas possibilidades, e precisava acreditar que estar com Keith era melhor do que ir para um centro de reeducação. Além do mais, eu tinha acabado de travar uma batalha árdua para provar o meu valor e poupar Zoe.
Precisava continuar demonstrando que eu encararia qualquer coisa.
O meu pai me dispensou para fazer as malas com a mesma rispidez com que tinha me ordenado a parecer apresentável antes. Deixei os outros no escritório e me apressei em silêncio até o quarto, sem deixar de pensar na minha mãe que dormia. Eu era especialista em fazer as malas com rapidez e eficiência, graças às viagens-surpresa em que o meu pai havia me levado durante a infância. Aliás, eu até mantinha uma nécessaire com produtos de toalete pronta para partir. O problema não estava tanto na velocidade, e sim em saber quanta coisa levar. A duração da missão não tinha sido especificada, e eu fiquei com a sensação desagradável de que, na verdade, ninguém sabia. Será que estávamos falando de algumas semanas? De um ano letivo inteiro? Eu tinha ouvido alguém mencionar que os Moroi queriam acabar com a lei que colocava Jill em perigo, mas esse parecia ser o tipo de processo legal que poderia demorar um pouco. Para piorar as coisas, eu nem sabia o que vestir para ir à escola. A única coisa de que eu tinha certeza era que o clima seria quente. Acabei colocando na mala dez das minhas roupas mais leves e torci para ter acesso a uma lavanderia.
— Sydney?
Eu estava colocando o laptop em uma bolsa a tiracolo quando Zoe apareceu à minha porta. Ela tinha refeito as tranças, que estavam mais bem presas, e fiquei imaginando se aquilo era uma tentativa de impressionar o nosso pai.
— Oi — eu disse, dando um sorriso. Ela entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Fiquei contente por ela ter vindo se despedir de mim. Eu sentiria a falta dela e queria que ela soubesse...
— Por que fez isso comigo? — ela perguntou antes que eu pudesse falar uma única palavra. — Você imagina como me sinto humilhada?
Fui pega de surpresa, e fiquei muda por alguns momentos.
— Eu... do que está falando? Eu estava tentando...
— Do jeito que você falou, parece que eu sou incompetente! — ela disse. Fiquei surpresa de ver lágrimas brilhando em seus olhos. — Ficou falando sem parar que eu não tinha experiência, e que não poderia dar conta de fazer o que você e o papai fazem! Fiquei parecendo uma idiota na frente de todos aqueles alquimistas. E do Keith.
— Keith Darnell não é alguém que você precisa se preocupar em impressionar — eu me apressei em dizer, tentando controlar a raiva. Ao ver seu rosto anuviado, suspirei e repassei na cabeça a conversa no escritório. A minha intenção não era fazer com que Zoe parecesse ruim, mas sim fazer todo o possível para garantir que eu fosse enviada, e não ela. Não fazia ideia de que ela iria se sentir assim. — Olhe, eu não estava tentando deixar você envergonhada. Estava tentando proteger você.
Ela soltou uma risada seca e a raiva pareceu estranha vinda de uma pessoa tão gentil quanto Zoe.
— É isso mesmo que você pensa? Até chegou a dizer que estava tentando conseguir uma promoção!
Fiz uma careta. Era verdade. Eu tinha dito aquilo. Mas eu não podia exatamente contar a verdade a ela. Nenhum humano sabia por que, de verdade, eu tinha ajudado Rose. Mentir para a minha própria espécie — e principalmente para a minha irmã — me fazia sofrer, mas eu não podia fazer nada. Como sempre, eu me senti em uma armadilha. Por isso, desviei do assunto.
— Nunca houve a intenção de que você se tornasse alquimista — eu disse. — Há coisas melhores para você fazer.
— Porque eu não sou tão inteligente quanto você? — ela perguntou. — Porque eu não falo cinco línguas?
— Não tem nada a ver com isso — eu soltei. — Zoe, você é incrível e provavelmente daria uma ótima alquimista! Mas, pode acreditar, a vida de alquimista... você não vai querer fazer parte disso.
A minha vontade era dizer que ela iria odiar. Queria dizer a ela que nunca mais seria responsável pelo próprio futuro, nem poderia tomar qualquer decisão sozinha. Mas minha noção de dever me impediu de fazer isso e eu permaneci em silêncio.
— Eu faria isso — ela disse. — Eu gostaria de nos proteger dos vampiros... se o papai quisesse.
A voz dela vacilou um pouco, e de repente imaginei o que realmente estava alimentando seu desejo de ser alquimista.
— Se você quer ficar mais próxima do papai, encontre outro jeito. A causa dos alquimistas pode ser boa, mas depois que você se junta a eles, eles se tornam seus donos — eu gostaria de poder explicar a ela qual era a sensação. — Você não vai querer levar esta vida.
— Porque você quer ela só para você? — ela questionou. Zoe era alguns centímetros mais baixa do que eu, mas estava tão cheia de fúria e determinação que parecia ocupar o quarto todo.
— Não! Eu não... você não entende — terminei por dizer. Eu queria jogar as mãos para o alto, exasperada, mas me segurei, como sempre.
O olhar que ela lançou para mim quase me transformou em gelo.
— Ah, acho que entendo perfeitamente — ela deu meia-volta de um jeito abrupto e disparou porta afora, mas conseguiu se mover sem fazer barulho. O medo que ela tinha do nosso pai superava a raiva que estava sentindo por mim.
Fiquei olhando para o lugar em que ela tinha estado e me senti péssima. Como podia pensar que eu na verdade estava tentando roubar toda a glória e a deixar mal? Porque foi isso exatamente que você disse, uma voz dentro de mim observou. Acho que era verdade, mas eu nunca pensei que ela ficaria ofendida. Eu não sabia que ela tinha interesse em ser alquimista. Mesmo agora, ficava me perguntando se o que ela desejava, na verdade, era fazer parte de algo e provar o seu valor para o nosso pai, e não realmente ser escolhida para a tarefa.
Quaisquer que fossem suas razões, não era possível fazer mais nada a respeito. Eu talvez não gostasse da maneira impositiva como os alquimistas tinham lidado comigo, mas ainda acreditava veementemente no que faziam para proteger os humanos dos vampiros. E eu com toda a certeza acreditava em manter Jill a salvo de seu próprio povo se isso significasse evitar uma extensa guerra civil. Era capaz de fazer esse trabalho, e faria bem. E Zoe... ela estaria livre para fazer o que quisesse da vida.
— Por que demorou tanto? — meu pai perguntou quando eu voltei ao escritório. A minha conversa com Zoe tinha me atrasado uns minutinhos, e isso significava tempo demais para ele. Nem tentei responder.
— Podemos ir quando você quiser — Keith me disse. O humor dele tinha mudado enquanto eu estava no andar de cima. Ele exalava uma simpatia tão forte que eu fiquei maravilhada de ver que ninguém tinha percebido que era falsidade pura. Parece que ele tinha resolvido adotar uma atitude mais agradável em relação a mim — ou para tentar impressionar os outros, ou para puxar o meu saco e eu não revelar o que sabia a respeito dele. No entanto, mesmo com aquele sorriso de plástico estampado no rosto, a postura dele continuava rígida e o jeito como ele cruzava os braços revelava para mim — apesar de não revelar a mais ninguém — que ele não estava mais feliz do que eu por nós dois termos sido colocados juntos. — Posso até dirigir a maior parte do caminho.
— Não me importo de fazer a minha parte — eu disse, tentando não olhar diretamente para seu olho de vidro. Também não me sentia confortável em viajar com um motorista que tinha a percepção de profundidade falha.
— Eu gostaria de conversar com Sydney em particular antes de sua partida, se não houver objeção — meu pai disse.
Ninguém apresentou objeção; ele me conduziu até a cozinha e fechou a porta atrás de nós. Ficamos lá em silêncio durante alguns minutos, apenas nos encarando de braços cruzados. De repente, ousei ter esperanças de que talvez ele fosse me dizer que sentia muito pela maneira como as coisas estavam entre nós no último mês, que me perdoava e que me amava. Sinceramente, eu ficaria feliz se o desejo dele fosse me dar apenas uma despedida de pai em particular.
Ele me olhou com muita atenção, com aqueles olhos castanhos tão idênticos aos meus. Fiquei torcendo para que os meus nunca viessem a ter uma expressão tão fria.
— Não preciso lhe dizer como isto é importante para você, para todos nós.
E eu que queria um pouco de afeição paterna.
— Não, senhor — respondi. — Não precisa.
— Não sei se você pode desfazer a desgraça que fez se abater sobre nós ao ficar do lado deles, mas este é um passo na direção certa. Não estrague a oportunidade. Este é um teste para você. Siga as ordens que receber. Mantenha a menina Moroi longe de problemas — ele suspirou e passou a mão no cabelo loiro escuro, que eu também tinha herdado. Estranho, pensei, nós termos tantas coisas em comum... e, no entanto, sermos completamente diferentes. — Graças a Deus Keith está com você. Siga as orientações dele. Ele sabe o que faz.
Meu corpo ficou tenso. Lá estava aquele tom de orgulho na voz dele mais uma vez, como se Keith fosse a melhor criatura a caminhar pela terra. Meu pai tinha se assegurado de me fornecer treinamento completo; mas quando Keith ficou conosco, ele o levou em viagens e lhe deu lições das quais eu nunca fiz parte. Minhas irmãs e eu ficamos furiosas. Sempre havíamos desconfiado de que o nosso pai se ressentia de ter apenas filhas, e aquilo tinha servido de prova. Mas não era o ciúme que fazia o meu sangue ferver e os meus dentes se cerrarem.
Por um instante, eu pensei: E se eu contar a ele tudo que sei? Aí, o que vai pensar de seu garoto de ouro? Mas respondi à minha própria pergunta ao ver os olhos endurecidos do meu pai. Ninguém iria acreditar em mim. Em seguida, imediatamente me lembrei de outra voz e do rosto amedrontado e suplicante de uma menina que olhava para mim com olhos castanhos arregalados. Não conte, Sydney. Faça o que fizer, não conte o que Keith fez. Não conte para ninguém. Eu jamais poderia traí-la dessa maneira.
Meu pai continuava esperando uma resposta. Eu engoli em seco e assenti.
— Sim, senhor.
Ele ergueu as sobrancelhas, claramente satisfeito, e me deu um tapinha brusco no ombro. Isso era o mais próximo de carinho verdadeiro que ele conseguia chegar, já havia algum tempo. Eu me encolhi de surpresa, e também por estar tensa com tanta frustração.
— Muito bem — ele se dirigiu à porta da cozinha e então fez uma pausa para voltar os olhos para mim. — Talvez ainda haja esperança para você.

3 comentários:

  1. Pior pai do ano.
    E esse Keith? Écaaa tb.

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  2. Com um pai desses quem precisa de inimigos?

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  3. E o que me dá mais raiva, é que eles sempre tem filhxs maravilhosos, e não dão valor!!! E sempre esse filhxs querem deixar eles orgulhosos, e acabam aceitando esse tipo de tratamento... Muito triste!!!

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