27 de setembro de 2017

Capítulo 19

SE EU ESTAVA COM DIFICULDADES PARA DORMIR antes, o sonho de Adrian só serviu para piorar as coisas. Apesar de estar de volta à minha própria cama, em segurança, eu não conseguia me livrar da sensação de que tinha sido invadida. Imaginei que a minha pele estivesse toda arrepiada com a mácula da magia. Fiquei tão ansiosa para sair do sonho que não me dei conta direito do que eu tinha concordado em fazer. Eu respeitava o desejo de Adrian de ir para a faculdade, mas agora ficava imaginando se realmente devia ajudar, depois de receber a bronca do meu pai por ser “simpática” com vampiros.
Eu não estava no melhor dos humores quando finalmente me levantei, algumas horas mais tarde. A tensão no nosso quarto era pesada enquanto Jill e eu nos preparávamos para as aulas. A atitude de desafio de Jill da noite anterior não estava mais lá, e ela ficava me observando, nervosa, quando achava que eu não estava prestando atenção. No começo, achei que a minha explosão da noite anterior a tivesse deixado sem jeito. Mas, quando saímos do quarto para tomar café da manhã, percebi que não era só isso.
— O que foi? — perguntei sem rodeios, finalmente rompendo o silêncio. — O que você quer me perguntar?
Jill me olhou de soslaio mais uma vez quando nos juntamos ao fluxo das meninas que desciam a escada.
— Hum, aconteceu uma coisa ontem.
Muitas coisas aconteceram ontem, pensei. Esse era o meu eu exausto e amargo falando, e sabia que não era isso que ela queria dizer.
— O quê? — perguntei.
— Bom... eu estava começando a contar para você que Lee me levou àquela loja. A loja de roupas cuja dona ele conhece, sabe? O nome dela é Lia DiStefano. Nós conversamos, e ela, hum, me ofereceu um trabalho. Mais ou menos.
— O trabalho de modelo? — Nós chegamos à fila da comida no refeitório, apesar de eu estar sem apetite. Escolhi um iogurte, que parecia triste e sozinho no meio da minha bandeja vazia. — Nós já conversamos sobre isso. Não é seguro.
Ainda assim, era irônico o fato de uma visita aleatória ter rendido um emprego para Jill, ao mesmo tempo que três entrevistas formais não adiantaram nada para Adrian.
— Mas não é para fotos posadas que seriam publicadas em uma revista ou algo assim. É um desfile de estilistas locais. Nós contamos a ela uma história de que fazemos parte de uma religião que tem restrições a respeito de fotos e identidade. Lia disse que, na verdade, estava pensando em fazer as modelos usarem meia-máscara. Sabe, aquele tipo que se usa em bailes mascarados? Considerando isso, a iluminação e o movimento... bom, vai ser difícil me identificar se alguma foto for divulgada. É um evento único, mas eu teria que ir lá antes para as provas de roupas... e para ensaiar. Ela também iria me pagar, mas preciso de carona e permissão dos pais.
Nós nos sentamos e eu passei uma quantidade de tempo desnecessária mexendo o meu iogurte enquanto refletia sobre as palavras dela. Dava para sentir seu olhar em cima de mim enquanto eu pensava.
Como eu não respondi nada, ela prosseguiu:
— Acho que é meio bobo. Quer dizer, eu não tenho nenhuma experiência. E eu nem sei por que ela quer que eu participe. Talvez esteja procurando alguma coisa específica. Modelos bizarras ou algo assim.
Finalmente comi uma colherada de iogurte e então ergui os olhos para ela.
— Você não é bizarra, Jill. Você tem o tipo físico ideal para ser modelo. Isso é difícil de encontrar. Entre os humanos, pelo menos. — Tentei não pensar em como era difícil para nós, humanos, atingir a perfeição dos Moroi. Tentei não pensar sobre como, anos antes, meu pai tinha criticado a minha silhueta e dito: “Se aqueles monstros conseguem, como é que você não consegue?”.
— Mas você acha que é uma péssima ideia — ela disse.
Não respondi. Eu sabia o que Jill queria, mas ela não conseguia me pedir diretamente. E eu ainda não podia entregar isso a ela com facilidade. Ainda estava perturbada demais com o que tinha acontecido no dia anterior, e não estava inclinada a fazer nenhum favor. Por outro lado, eu também não podia dizer “não” a ela. Não por enquanto. Apesar da maneira irresponsável como ela tinha agido, suas palavras a respeito de como a vida dela era triste tinham me atingido profundamente. Aquilo era algo positivo e bom que preencheria seu tempo. Também era uma inflada no ego de que ela estava precisando muito. Laurel tinha deitado e rolado usando os traços incomuns de Jill contra ela; seria bom se ela visse que outras pessoas os viam de maneira positiva. Ela precisava se dar conta de que era especial e maravilhosa. Não sabia se devia xingar ou agradecer Lee por aquela oportunidade.
— Acho que não podemos decidir nada até conversarmos com a sra. Weathers — finalmente disse a ela. Dei uma olhada em um relógio próximo. — Aliás, precisamos falar com ela agora.
Dei mais algumas colheradas no iogurte antes de jogar fora. Jill pegou uma rosquinha para viagem. Quando voltamos ao saguão do alojamento, descobrimos que havia chegado uma encomenda para Jill: um buquê de rosas vermelhas perfeitas e um bilhete de desculpa de Lee. Jill se derreteu toda, seu rosto se enchendo de adoração com o gesto.
Até eu admirei aquele gesto romântico, apesar de uma parte sarcástica de mim dizer que Lee devia ter mandado flores para mim e Eddie, e não para ela. Ele precisava pedir desculpas para nós. De todo modo, as flores logo foram esquecidas quando nos acomodamos na sala da sra. Weathers e descobrimos qual seria o veredicto para Jill.
— Conversei com o diretor. Você não vai ser suspensa — ela disse a Jill. — Mas, durante o próximo mês, ficará restrita ao seu dormitório quando não estiver em aula. Deve se apresentar imediatamente a mim depois do fim das aulas, para eu saber que está aqui. Pode ir ao refeitório durante as refeições... mas só ao do seu alojamento. Não pode ir ao do campus oeste. As únicas exceções a esta regra são no caso de uma tarefa ou um professor exigir que você vá a algum outro lugar fora do horário de aulas, como a biblioteca.
Nós duas assentimos e, por um instante, fiquei simplesmente aliviada por Jill não ter sido expulsa ou algo do tipo. Então o problema real me ocorreu como um tapa na cara. Eu tinha dito a Jill que aquela reunião iria surtir efeito sobre qualquer decisão relativa ao trabalho de modelo, mas havia algo muito pior em jogo.
— Se ela estiver de castigo no dormitório, então não pode sair da escola — eu disse.
A sra. Weathers me lançou um sorriso seco.
— Sim, srta. Melrose. Geralmente é isso que “estar de castigo” significa.
— Ela precisa sair, senhora — argumentei. — Nós temos reuniões de família duas vezes por semana. — O ideal era que fosse mais vezes do que isso, mas eu tinha esperanças de que um número baixo pudesse comprar a nossa liberdade. Era absolutamente essencial que Jill obtivesse sangue, e dois dias por semana era mais ou menos o mínimo com o qual um vampiro era capaz de sobreviver.
— Sinto muito. Regras são regras e, ao desrespeitá-las, sua irmã perdeu o privilégio de participar de atividades assim.
— Os encontros são religiosos — eu disse. Detestava jogar com a carta da religião, mas aquilo era algo que a escola teria dificuldade em recusar. E, bom, parecia ter funcionado com a estilista. — Nós vamos à igreja em família nesses dias... nós e nossos irmãos.
O rosto da sra. Weathers revelava que eu tinha ganhado terreno.
— Vamos precisar de uma carta assinada pelos pais de vocês — ela finalmente disse.
Maravilha. Afinal, isso tinha funcionado tão bem na educação física...
— Mas e o nosso irmão? Ele é o nosso guardião legal aqui. — Era certeza que, naquele caso, nem Keith poderia enrolar, não quando a questão era sangue.
Ela refletiu sobre o assunto.
— Sim. Isso pode ser aceitável.
— Sinto muito — disse a Jill quando saímos para tomar o ônibus. — Sobre o trabalho de modelo. Já vai ser bem difícil conseguir fazer você sair para os fornecimentos.
Jill assentiu, esforçando-se para esconder a decepção.
— Quando é o desfile? — perguntei, achando que talvez ela pudesse participar depois que o castigo tivesse terminado.
— Daqui a duas semanas.
Que ideia mais furada.
— Sinto muito.
Para a minha surpresa, Jill chegou a dar risada.
— Você não tem motivo para sentir muito. Não depois do que eu fiz. Eu é que tenho de sentir muito. E também sinto muito por Adrian... pelas entrevistas.
— Isso é algo pelo qual você não tem que se desculpar.
Mais uma vez, fiquei impressionada de ver como todo mundo ficava se desculpando em nome dele com tanta facilidade. Ela comprovou essa teoria com seu próximo comentário.
— Ele não pode fazer nada. Ele é assim.
Mas ele pode fazer alguma coisa, sim, pensei. Em vez disso, disse:
— Aguente firme, certo? Vou pedir a Keith para assinar a sua liberação religiosa.
Ela sorriu.
— Obrigada, Sydney.
Nós costumávamos nos separar quando o ônibus chegava ao campus central, mas ela hesitou quando descemos. Mais uma vez, pude ver que ela queria me contar alguma coisa, mas estava com dificuldade de juntar coragem para isso.
— O que foi? — eu perguntei.
— Eu... só queria dizer a você que sinto muito, de verdade, por dar tanto trabalho. Você faz muito por nós. De verdade. E se está aborrecida, é porque... bom, eu sei que se importa conosco. E isso é mais do que posso dizer de algumas pessoas da corte.
— Isso não é verdade — eu disse. — As pessoas lá se importam. Elas tiveram muita dificuldade para mandar você para cá, para que pudesse ficar a salvo.
— Eu continuo achando que foi mais por Lissa do que por mim — ela disse, tristonha. — E a minha mãe não demonstrou muita oposição quando disseram que iam me mandar para longe.
— Querem que você fique em segurança — disse a ela. — Isso significa fazer escolhas difíceis... que são difíceis para eles também.
Jill assentiu, mas não sei se acreditou em mim. Fiz o relatório da manhã a Eddie quando cheguei à aula de história. O rosto dele exibiu toda uma gama de emoções a cada novo avanço da história.
— Você acha que Keith vai assinar a autorização? — ele perguntou em voz baixa.
— Ele tem que assinar. A questão toda de estarmos aqui é para mantê-la viva. Se ela morrer de fome, meio que vai contra o propósito principal.
Nem me dei ao trabalho de dizer a Eddie que estava encrencada com meu pai e com os alquimistas, e que havia uma grande chance de eu nem estar mais ali em duas semanas. Eddie já estava bem aborrecido com a situação de Jill, e eu não queria que ele tivesse mais uma coisa com que se preocupar.
Quando me encontrei com a sra. Terwilliger no final do dia, entreguei as últimas anotações dos livros antigos que tinha feito para ela. Quando estava me acomodando em uma carteira, reparei em uma pasta de artigos em cima de uma mesa. As palavras Faculdade Carlton estavam gravadas na pasta em letras douradas. Então me lembrei por que achei o nome familiar quando Adrian o tinha mencionado no sonho.
— Sra. Terwilliger... Por acaso disse que conhecia alguém na Faculdade Carlton?
Ela ergueu os olhos do computador.
— Humm? Ah, conheço, sim. Jogo pôquer com metade do corpo docente de história. Até dou aula lá no verão. De história, quer dizer, não de pôquer.
— Será que conhece alguém responsável pelas admissões de novos alunos? — perguntei.
— Não exatamente. Suponho que eu conheça pessoas que conhecem as pessoas que trabalham com isso lá. — Ela retornou a atenção para a tela. Não disse nada e, depois de vários minutos, ela voltou a olhar para mim. — Por que está perguntando?
— Por nada.
— Claro que há uma razão. Está interessada em estudar lá? Deus sabe que ia aproveitar mais lá do que aqui. Claro que a minha aula é exceção.
— Não, senhora — respondi. — Mas o meu irmão queria estudar lá. Ele ouviu dizer que as aulas ainda não começaram, mas não tem certeza se pode ser aceito assim de última hora.
— É muito de última hora — a sra. Terwilliger concordou. Ela me avaliou com muita atenção. — Quer que eu dê uma perguntada?
— Ah. Ah não, senhora. Só queria ver se conseguia uns nomes para entrar em contato. Jamais pediria para a senhora fazer algo assim.
As sobrancelhas dela se ergueram.
— Por que não?
Não sabia o que responder. Às vezes era tão difícil entendê-la...
— Porque... a senhora não tem por que fazer isso.
— Eu faria como favor a você.
Não consegui dizer nada diante daquilo e só fiquei olhando para ela. Ela sorriu e ajeitou os óculos em cima do nariz.
— Você não consegue acreditar nisso, certo? Que alguém possa fazer um favor para você.
— Eu... bom, quer dizer... — minha voz foi sumindo, não sabia bem o que dizer. — A senhora é minha professora. O seu trabalho é, bom, me ensinar. Só isso.
— E o seu trabalho — ela disse — é vir até esta sala durante o último período para cumprir qualquer tarefa rotineira que eu tenha para você, e depois entregar um trabalho no fim do semestre. Você não é obrigada, de maneira nenhuma, a buscar café para mim, vir me atender tarde da noite, organizar a minha vida, ou ter que reordenar a sua completamente para cumprir os meus pedidos ridículos.
— Eu... não me incomodo — respondi. — E tudo isso precisa ser feito.
Ela deu risada.
— É verdade. E você insiste em fazer muito mais e além das suas tarefas, não é mesmo? Por mais inconveniente que seja para você.
Dei de ombros.
— Eu gosto de fazer um bom trabalho, senhora.
— Você faz um trabalho excelente. Muito melhor do que precisa fazer. E ainda faz sem reclamar. Portanto, o mínimo que eu posso fazer é dar alguns telefonemas para ajudá-la. — Ela deu risada mais uma vez. — Isso é o que mais assusta você, não é? Receber elogios.
— Ah, não — respondi, sem jeito. — Quer dizer, acontece.
Ela tirou os óculos para me observar com mais atenção. A risada tinha desaparecido.
— Não, estou achando que não acontece. Não conheço a sua situação específica, mas já conheci muitos alunos como você... alunos que os pais despacharam desta maneira. Ao mesmo tempo que aprecio a preocupação pela educação superior, cada vez mais vejo que uma parcela muito grande de alunos estuda aqui porque seus pais simplesmente não têm tempo nem inclinação para se envolver... ou simplesmente para prestar atenção à vida dos filhos.
Estávamos lidando com uma daquelas áreas interpessoais que me deixavam constrangida, especialmente por haver um elemento de verdade inesperado ali.
— É mais complicado do que isso, senhora.
— Tenho certeza que sim — ela respondeu. Sua expressão ganhou sagacidade e ela ficou bem diferente da professora estabanada que eu conhecia. — Mas escute o que eu digo. Você é uma garota excepcional, talentosa e brilhante. Nunca deixe que ninguém a faça sentir inferior. Nunca deixe que ninguém faça com que você se sinta invisível. Não permita que ninguém... nem mesmo uma professora que a manda buscar café o tempo todo... mande em você. — Ela voltou a colocar os óculos e começou a erguer pedaços de papel aleatórios. Finalmente, encontrou uma caneta e deu um sorriso de triunfo. — Então, pronto. Qual é o nome do seu irmão?
— Adrian, senhora.
— Certo. — Ela pegou um pedaço de papel e escreveu o nome com cuidado. — Adrian Melbourne.
— Melrose, senhora.
— Correto. Claro. — Ela rabiscou o erro e balbuciou para si mesma: — Ainda bem que o primeiro nome dele não é Hobart. — Quando terminou, se recostou na cadeira com um gesto casual. — Agora que você falou nisso, tem uma coisa que quero que faça.
— É só dizer — respondi.
— Quero que você faça um dos feitiços daquele primeiro livro.
— Desculpe. Disse para eu fazer um feitiço?
A sra. Terwilliger acenou com a mão.
— Ah, não se preocupe. Não estou pedindo para você abanar uma varinha nem fazer um sacrifício com animal. Mas estou enormemente intrigada pela complexidade de algumas das fórmulas e dos passos dos feitiços. Preciso me perguntar se as pessoas de fato seguiam essas instruções assim tão detalhadas. Algumas delas são bem complicadas.
— Eu sei — respondi, seca. — Digitei todas elas.
— Exatamente. Então, quero que faça um. Siga os passos. Veja quanto tempo demora. Veja se as medidas pedidas chegam a ser possíveis. Depois escreva os dados em um relatório. Nessa parte, sei que você é excelente.
Não sabia o que dizer. A sra. Terwilliger não estava pedindo que eu realmente usasse magia, certamente não da mesma maneira que os vampiros usavam. Algo daquele jeito nem seria possível. Magia não era o campo dos humanos. Era antinatural e ia contra as leis do universo. Aquilo que os alquimistas faziam tinha base na ciência e na química. As tatuagens tinham magia, mas era a magia dos vampiros moldada de acordo com a nossa vontade — não a usávamos por nossa conta. O mais perto que chegávamos de qualquer coisa sobrenatural eram as bênçãos que invocávamos para nossas poções. Ela só estava me pedindo para recriar um feitiço. Não era real. Não havia mal nenhum. E, no entanto... por que eu me sentia tão sem jeito? Eu me sentia como se ela estivesse me pedindo para mentir ou roubar.
— Qual é o problema? — ela perguntou.
Por um momento, pensei em usar a religião mais uma vez, mas então desisti. Aquela desculpa já tinha sido usada vezes demais naquele dia, apesar de dessa vez ser parcialmente legítima.
— Nada, senhora. É só que parece estranho.
Ela pegou o primeiro livro de couro e abriu na metade.
— Pronto. Faça este aqui... um amuleto de incineração. É complicado, mas pelo menos você terá um projeto de artesanato quando terminar. Também deve ser fácil encontrar a maior parte desses ingredientes.
Peguei o livro dela e o examinei.
— Onde vou arrumar urtiga?
— Pergunte ao sr. Carnes. Ele tem um jardim do lado de fora da classe dele. Tenho certeza de que vai poder comprar o resto. E, sabe como é, você pode me trazer as notas fiscais. Eu pago sempre que peço para você comprar algo. Já deve ter gastado uma fortuna em café.
Eu me senti um pouco melhor quando vi como os ingredientes eram aleatórios. Urtiga. Ágata. Um pedaço de seda. Não tinha nada inflamável. Aquilo era bobagem.
Assenti com a cabeça e disse a ela que iria começar no dia seguinte.
Nesse ínterim, digitei uma carta para Amberwood em nome de Keith. Explicava que as nossas crenças religiosas exigiam a presença da família na igreja duas vezes por semana e que Jill precisava receber licença de seu castigo nessas ocasiões. Também prometia que Jill iria se apresentar à sra. Weathers antes e depois das saídas familiares. Quando terminei, fiquei bem satisfeita com o meu trabalho e senti que tinha feito Keith parecer bem mais eloquente do que merecia.
Liguei para ele quando as aulas terminaram e fiz um resumo breve do que tinha acontecido com Jill. Naturalmente, ele jogou a culpa em mim.
— Você tem que ficar de olho nela, Sydney! — Keith exclamou.
— Também devo ficar aqui disfarçada de aluna, e não posso ficar com ela todos os segundos do dia.
Não valia a pena mencionar que eu, na verdade, tinha saído com Adrian quando Jill fugiu — não que Keith pudesse fazer algo contra mim. Ele já tinha causado seu dano.
— E, assim, eu é que tenho que sofrer as consequências — ele disse em um tom de voz exausto. — Eu é que fico malvisto por causa da sua incompetência.
— Malvisto? Você não tem que fazer nada além de assinar a carta que eu escrevi para você. Está em casa agora? Ou vai chegar logo? Vou até aí levar para você.
Como ele tinha se aborrecido com a questão, achei que ficaria todo contente com a oferta. Por isso, foi uma surpresa quando ele respondeu:
— Não, não precisa fazer isso. Vou me encontrar com você.
— Não tem problema. Posso chegar à sua casa em menos de dez minutos. — Eu não queria que ele tivesse mais um motivo para continuar com a ladainha de que eu estava dando trabalho, ou para reclamar com os alquimistas.
— Não — Keith disse, com uma intensidade surpreendente. — Vou me encontrar com você. Estou saindo agora mesmo. Nos encontramos na secretaria?
— Certo — eu disse, totalmente confusa com a mudança de atitude dele. Será que ele queria vir conferir as coisas ou algo do tipo? Exigir uma inspeção? — A gente se vê daqui a pouco.
Eu já estava no campus central, então cheguei à secretaria bem rápido. Fiquei sentada do lado de fora, em um banco de pedra esculpido que me dava uma boa visão do estacionamento de visitantes, e esperei. Fazia calor ao ar livre, como sempre, mas a sombra era bem agradável. O banco ficava em um espaço bem gostoso, cheio de plantas floridas e uma placa que dizia Memorial Kelly Hayes. Parecia nova.
— Oi, Sydney!
Kristin e Julia estavam saindo do prédio e acenaram para mim. Elas se aproximaram e se sentaram ao meu lado para perguntar o que eu estava fazendo.
— Estou esperando o meu irmão.
— Ele é bonito? — Kristin perguntou, cheia de esperança.
— Não — respondi. — De jeito nenhum.
— É, sim — Julia retrucou. — Eu o vi no alojamento no fim de semana passado. Quando vocês todos saíram para almoçar.
Demorei um segundo para perceber que ela estava falando de Adrian.
— Ah. É outro irmão. Eles não são muito parecidos.
— É verdade que a sua irmã se meteu na maior confusão? — Julia perguntou.
Dei de ombros.
— Só um pouco. Ela não pode sair do campus, a não ser para coisas de família. Podia ser pior. Mas... custou a ela um trabalho de modelo, então ela está triste por isso.
— Ela ia trabalhar de modelo para quem? — Kristin perguntou.
Eu me esforcei para lembrar.
— Lia DiStefano. Haverá um desfile daqui a duas semanas, e ela queria que Jill participasse. Mas ela não pode ensaiar porque tem que ficar aqui.
Os olhos delas se arregalaram.
— As roupas da Lia são fantásticas! — Julia disse. — Jill tem que participar. Ela pode ganhar coisas grátis.
— Eu já disse. Ela não vai poder desfilar.
Kristin deixou a cabeça pender para o lado, pensativa.
— Mas e se fosse para a escola? Tipo uma coisa de carreira, vocacional? — Ela se virou para Julia. — O clube de costura ainda existe?
— Acho que sim — Julia respondeu, assentindo toda animada. — Que boa ideia. Jill tem alguma atividade? — Além de um esporte, Amberwood também exigia que seus alunos participassem de atividades extracurriculares para que sua educação fosse completa. — Tem um clube de costura para o qual ela poderia entrar... e aposto que ela consegue fazer com que o trabalho com Lia conte como algum tipo de pesquisa especial.
Ao tentar consertar um fio solto em seu cardigã outro dia, Jill quase desfiou a peça toda.
— Não acho que Jill leve jeito para isso.
— Não faz mal — Kristin disse. — A maior parte das pessoas que está lá nem sabe costurar. Mas, todos os anos, o clube faz trabalho voluntário com os estilistas locais. A srta. Yamani sem dúvida iria permitir que a participação em um desfile contasse como trabalho voluntário. Ela adora Lia DiStefano.
— E deixariam ela participar de qualquer jeito — Julia disse com expressão triunfante. — Porque seria para a escola.
— Interessante — eu disse, imaginando se havia alguma chance de dar certo. — Vou dizer a Jill. — Um carro azul conhecido encostou na entrada e me levantei. — Ele chegou.
Keith estacionou, saiu do carro e ficou olhando ao redor, à minha procura. Kristin soltou um som baixinho de aprovação.
— Ele não é nada mal.
— Pode acreditar — eu disse, e fui em direção ao carro. — Você não vai querer se meter com ele.
Keith lançou para as meninas algo que supostamente devia ser um sorriso encantador e até piscou para elas. No instante em que elas se foram, o sorriso dele desapareceu. A impaciência irradiava dele, e era surpreendente o fato de ele não estar batendo o pé no chão.
— Vamos andar logo com isto — ele disse.
— Se está com tanta pressa, devia ter me deixado ir até o seu apartamento quando tivesse mais tempo.
Peguei a pasta que continha a carta e entreguei para ele com uma caneta. Keith assinou sem nem olhar e devolveu.
— Precisa de mais alguma coisa? — ele perguntou.
— Não.
— Não arrume mais nenhuma confusão — ele disse e abriu a porta do carro. — Não tenho tempo para ficar consertando os seus erros.
— E faz diferença? — eu o desafiei. — Você já fez tudo que pôde para se livrar de mim.
Ele me lançou um sorriso frio.
— Você não devia ter tentado me sacanear. Nem agora, nem daquela vez.
Com uma piscadela, ele deu meia-volta para ir embora. Fiquei só encarando, sem conseguir acreditar em sua audácia. Era a primeira vez que ele fazia referência ao que tinha acontecido tantos anos antes.
— Bom, essa é a questão — gritei para a silhueta que se afastava. — Eu não consegui sacanear com você daquela vez. Você se safou com facilidade. Não vai acontecer de novo. Acha que estou preocupada com você? Você é que devia ficar com medo de mim.
Keith parou e se virou devagar para mim, com o rosto inundado de descrença. Eu não o culpava. Eu mesma fiquei um pouco surpresa. Não me lembrava de nenhuma vez em que tivesse desafiado de maneira tão escancarada alguém que ocupava uma posição hierárquica mais elevada; e certamente não alguém que tinha tanto poder de afetar a minha situação.
— Tome cuidado — ele disse finalmente. — Posso tornar a sua vida bem difícil.
Lancei um sorriso gélido para ele.
— Isso você já fez, e é por isso que a vantagem é minha. Você já fez a pior coisa possível... mas ainda não viu tudo que eu sou capaz de fazer.
Foi um blefe enorme da minha parte, principalmente porque eu tinha quase certeza de que ele ainda podia fazer coisa pior. Até onde eu sabia, ele podia fazer com que Zoe fosse para lá amanhã. Ele podia fazer com que me mandassem para um centro de reeducação em um piscar de olhos.
Mas, se eu caísse... ele cairia comigo.
Ele ficou me encarando por alguns instantes, sem saber o que fazer. Não sei se realmente o assustei ou se ele resolveu não se dignar a me dar uma resposta, mas finalmente ele se virou e foi embora de vez. Furiosa, entrei para entregar a carta na secretaria. A secretária da recepção, a sra. Dawson, carimbou e fez uma cópia para eu entregar à sra. Weathers. Quando ela me entregou o papel, perguntei:
— Quem é Kelly Hayes?
O rosto da sra. Dawson, normalmente cheio de covinhas, murchou.
— Coitadinha. Ela foi aluna aqui há alguns anos.
Minha memória deu um estalo.
— Foi ela que a sra. Weathers mencionou? A garota que desapareceu?
A sra. Dawson assentiu.
— Foi terrível. Ela também era tão doce... Tão jovem... Ela não merecia morrer daquele jeito. Não merecia morrer, de jeito nenhum.
Detestava ter que perguntar, mas era necessário.
— Como ela morreu? Quer dizer, eu sei que foi assassinada, mas nunca soube dos detalhes.
— Provavelmente é melhor assim. Foi tudo bem horrível. — A sra. Dawson deu uma olhada ao redor, como se estivesse com medo de se meter em confusão por fazer fofoca com uma aluna. Ela se debruçou por cima do balcão, na minha direção, com o rosto sério. — A coitadinha sangrou até morrer. Cortaram a garganta dela.

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