27 de setembro de 2017

Capítulo 18

— COMO ASSIM, “SUMIU”? — PERGUNTEI.
— Era para ela ter se encontrado com a gente há umas duas horas — Eddie falou e trocou olhares com Micah. — Achei que talvez ela estivesse com você.
— Não vejo Jill desde a educação física. — Estava me esforçando muito para não entrar no modo pânico por enquanto. Havia muitas variáveis em jogo, e não havia evidências suficientes para começar a pensar que dissidentes Moroi enlouquecidos a tinham sequestrado. — Este lugar é muito grande. Quer dizer, são três campi. Tem certeza de que ela não está só escondida em algum canto, estudando?
— Fizemos uma busca bem abrangente — o segurança disse. — E os professores e funcionários estão em alerta, à procura dela. Ninguém a avistou por enquanto.
— E ela não está atendendo o celular — Eddie completou.
Finalmente permiti que o medo tomasse conta de mim de verdade, e meu rosto deve ter demonstrado. A expressão do segurança se abrandou.
— Não se preocupe. Tenho certeza de que ela vai aparecer — esse era o tipo de reconforto que as pessoas da profissão dele tinham que dizer aos parentes. — Mas você tem alguma outra ideia de onde ela pode estar?
— E os seus outros irmãos? — Micah perguntou.
Estava com medo que chegasse a isso. Tinha quase certeza absoluta de que ela não estava com Keith, mas ele provavelmente já devia ter sido notificado do desaparecimento dela. Não era algo que eu estivesse ansiosa para que acontecesse, porque sabia que um sermão estaria à minha espera. Também seria um sinal do meu fracasso perante os olhos dos outros alquimistas. Eu devia ter ficado ao lado de Jill. Esse era o meu trabalho, certo? Em vez disso, eu — idiota como sou — fui ajudar alguém com tarefas do dia a dia. E não uma pessoa qualquer — um vampiro. Era assim que os alquimistas iam ver as coisas. Adoradora de vampiros.
— Eu estive com Adrian agorinha mesmo — disse devagar. — Acho que ela pode ter conseguido ir à casa de Clarence de algum modo para esperar por ele. Não cheguei a entrar.
— Também tentei falar com ele — Eddie disse. — Ele não atendeu.
— Desculpe — eu falei. — Nós estávamos nas entrevistas dele, por isso deve ter desligado o telefone. Quer tentar mais uma vez? — Eu, com toda a certeza, não queria ligar para ele.
Eddie se afastou para ligar para Adrian enquanto eu conversava com a sra. Weathers e o segurança. Micah andava de um lado para o outro, com ar preocupado, e me senti culpada por sempre querer que ele ficasse longe de Jill. A disputa era um problema, mas ele gostava mesmo dela. Eu disse ao segurança quais eram os lugares que Jill gostava de frequentar no campus. Eles confirmaram que já tinham verificado todos.
— Conseguiu falar com ele? — perguntei quando Eddie voltou.
Ele assentiu.
— Ela não está lá. Mas fiquei meio mal. Agora ele está bem preocupado. Talvez devêssemos ter esperado para contar para ele.
— Não... na verdade, pode ser bom.
Olhei Eddie nos olhos e vi uma fagulha de compreensão. As emoções de Adrian pareciam passar por cima das de Jill quando eram fortes. Se ele ficasse em pânico mesmo, havia a esperança de ela perceber que as pessoas estavam preocupadas e voltar.
Isso partindo do princípio de que ela só estava escondida ou que tinha ido a algum lugar onde nós não conseguíamos encontrá-la. Tentei não levar em conta a alternativa de algo ter acontecido e ela estar em algum lugar onde não podia entrar em contato conosco.
— Às vezes os alunos simplesmente saem escondidos da escola — o segurança disse. — É inevitável. Geralmente, tentam voltar sem que ninguém perceba antes do toque de recolher. Espero que este seja o caso. Se ela não aparecer até lá... bom, daí nós chamamos a polícia.
Ele se afastou para entrar em contato com os outros seguranças pelo rádio e saber se havia alguma novidade, e nós agradecemos sua ajuda. A sra. Weathers voltou para a mesa da recepção, mas ela estava claramente preocupada e agitada. Às vezes ela parecia enfezada, mas tinha a sensação de que ela se preocupava com as alunas de verdade. Micah nos deixou para falar com alguns amigos que trabalhavam no campus, para o caso de terem visto algo.
Assim, sobramos Eddie e eu. Sem dizer nada, nós nos dirigimos para algumas cadeiras que havia no saguão. Assim como eu, acho que ele queria ficar de olho na porta, para avistar Jill no instante em que ela aparecesse.
— Eu não devia ter deixado Jill sozinha — ele disse.
— Você precisou deixar — eu disse, racional. — Você não pode ficar com ela nas aulas nem no quarto.
— Este lugar foi má ideia. É grande demais. É difícil para manter a segurança — ele suspirou. — Não estou acreditando nisso.
— Não... foi boa ideia, sim. Jill precisa ter algo que se pareça com a vida normal. Vocês poderiam ter trancado Jill em algum quartinho e feito com que ela ficasse isolada de qualquer interação, mas de que adiantaria? Ela precisa ir à escola e estar rodeada de gente.
— Mas ela não tem feito muito isso.
— Não — reconheci. — Tem sido difícil para ela. Eu fiquei torcendo para melhorar.
— Eu só queria que ela estivesse feliz.
— Eu também. — Endireitei as costas quando algo alarmante me ocorreu. — Você não acha... não acha que ela fugiu e voltou para a mãe, acha? Ou para a corte, ou para algum outro lugar?
O rosto dele ficou ainda mais desolado.
— Espero que não. Você acha que as coisas estavam tão ruins assim?
Pensei na nossa briga depois do incidente do chuveiro.
— Não sei. Talvez.
Eddie enterrou o rosto nas mãos.
— Não estou acreditando nisso — repetiu. — Eu falhei.
Quando se tratava de Jill, Eddie costumava ser apenas violência e raiva. Eu nunca o tinha visto tão próximo da depressão. Vivia com medo da minha própria falha desde que tinha chegado a Palm Springs, mas só agora tinha percebido que Eddie dependia tanto daquilo quanto eu. E me lembrei das palavras de Adrian sobre Eddie e Mason, amigo dele, sobre como Eddie se sentia responsável. Se Jill não voltasse, não seria como se a história estivesse se repetindo? Será que ela seria mais uma pessoa que ele perdeu?
Tinha achado que aquela missão poderia ser a redenção para ele. Em vez disso, poderia fazê-lo reviver tudo o que acontecera a Mason.
— Você não falhou — eu disse. — A sua função é protegê-la, e você fez isso. Não pode controlar a felicidade dela. Se existe algum culpado, sou eu. Eu dei a maior bronca nela por causa do incidente do chuveiro.
— É, mas eu destruí as esperanças dela quando disse que a ideia de Lee de que ela fosse modelo não ia dar certo.
— Mas você estava certo sobre... Lee! — engoli em seco. — É isso. É lá que ela está. Ela está com ele, tenho certeza. Você tem o telefone dele?
Eddie soltou um grunhido.
— Como eu sou idiota — disse, pegou o celular e procurou o número. — Eu devia ter pensado nisso.
Toquei na cruz no meu pescoço e fiz uma oração em silêncio, pedindo para que aquilo tudo se resolvesse logo. Se significasse que Jill estava viva e bem, eu poderia dar conta do fato de que ela e Lee haviam fugido para ficar juntos.
— Oi, Lee? É Eddie. Jill está com você?
Houve uma pausa quando Lee respondeu. A linguagem corporal de Eddie respondeu à pergunta antes que eu escutasse qualquer outra palavra. A postura dele relaxou e o alívio preencheu sua expressão.
— Certo — Eddie disse alguns momentos depois. — Bom, traga Jill de volta até aqui. Agora. Todo mundo está procurando por ela. — Mais uma pausa. O rosto de Eddie ficou rígido. — Podemos conversar sobre isso mais tarde. — Ele desligou e se virou para mim. — Está tudo bem com ela.
— Graças a Deus — eu disse, com um suspiro. Eu me levantei, e foi só aí que percebi como tinha ficado tensa. — Já volto.
Encontrei a sra. Weathers e o segurança e dei a notícia. O segurança informou seus colegas imediatamente e logo foi embora. Para a minha surpresa, a sra. Weathers parecia estar à beira das lágrimas.
— Está tudo bem com a senhora? — perguntei.
— Está, está — ela se virou apressada, envergonhada por ter ficado tão emotiva. — Eu só estava preocupada. Eu... eu não queria dizer nada para não assustar vocês, mas cada vez que uma aluna desaparece... bom, há alguns anos, outra garota desapareceu. Nós achamos que ela só tinha saído escondida da escola... como Matt disse, acontece. Mas, no final... — A sra. Weathers fez uma careta e desviou o olhar. — Eu não devia contar isso para você.
Até parece que ela podia parar depois de uma introdução dessas.
— Não, por favor. Conte.
Ela suspirou.
— A polícia a encontrou dois dias depois... morta. Ela tinha sido sequestrada e assassinada. Foi terrível, e nunca pegaram o assassino. Agora, sempre que alguém desaparece, só penso nisso. Nunca mais aconteceu, claro. Mas uma coisa dessas assusta a gente.
Eu podia imaginar. E quando retornei a Eddie, voltei a pensar nele e em Mason. Parecia que todo mundo carregava um histórico pesado de acontecimentos. Eu, com toda a certeza, sim. Agora que a segurança de Jill não era mais preocupação, a única coisa em que eu pensava era a seguinte: O que os alquimistas vão dizer? O que o meu pai vai dizer? Eddie estava guardando o celular de novo quando me aproximei.
— Liguei para Micah para dizer a ele que está tudo bem — ele explicou. — Ele estava muito preocupado.
Todos os sinais do antigo trauma da sra. Weathers desapareceram no instante em que Jill e Lee passaram pela porta. Jill na verdade parecia animada, até ver nossas expressões. Ela parou no meio do caminho. Ao lado dela, Lee já demonstrava o pesar. Acho que ele sabia o que viria pela frente.
Eddie e eu avançamos apressados, mas não tive a oportunidade de falar imediatamente. A sra. Weathers logo exigiu saber aonde eles tinham ido. Em vez de encobrir o fato, Jill confessou a verdade: ela e Lee haviam saído do campus e foram para Palm Springs. Ela tomou cuidado para ter certeza de que Lee não fosse acusado de sequestro, jurando que ele não sabia que ela só podia sair com familiares autorizados. Eu confirmei aquilo — mas Lee ainda estava na minha lista negra.
— Você pode esperar lá fora? — pedi a ele, com educação. — Gostaria de falar com você em particular, mais tarde.
Lee começou a obedecer e lançou um olhar de desculpas para Jill. Ele roçou a mão dela de leve para se despedir e deu meia-volta. Foi a sra. Weathers que o deteve.
— Espere — ela disse, e ficou olhando para ele com curiosidade. — Por acaso eu conheço você?
Lee pareceu surpreso.
— Acho que não. Nunca estive aqui antes.
— Tem algo de familiar em você — ela insistiu. Sua testa se franziu por mais alguns momentos. Finalmente, ela deu de ombros. — Não pode ser. Devo estar enganada.
Lee assentiu, olhou nos olhos de Jill com compaixão mais uma vez, e saiu.
A sra. Weathers não tinha terminado com Jill. Ela começou a desfiar uma ladainha a respeito de como aquilo tinha sido perigoso e como eles tinham sido irresponsáveis.
— Se você queria sair em segredo e desrespeitar as regras, podia pelo menos ter contado para os seus irmãos. Eles estavam em pânico por sua causa.
Era quase engraçado ela dar um conselho sobre como desrespeitar as regras de maneira “responsável”. Mas, levando em conta como eu tinha ficado apavorada, era difícil achar qualquer coisa divertida naquele momento. Ela disse a Jill que aquilo iria para a ficha dela e que seria castigada.
— Por enquanto — a sra. Weathers disse —, você vai ficar no seu quarto sem sair pelo resto da noite. Venha falar comigo depois do café da manhã e vamos descobrir se o diretor acha que é um caso para suspensão.
— Com licença — Eddie disse. — Será que podemos conversar com ela alguns minutos em particular, antes de ela subir? Gostaria de falar com ela.
A sra. Weathers hesitou, e parecia querer que o castigo de Jill entrasse em vigor imediatamente. Ela então examinou Eddie de cima a baixo. A expressão no rosto dele era rígida e irritada, e acho que a sra. Weathers percebeu que o irmão mais velho de Jill aplicaria um outro tipo de castigo nela.
— Cinco minutos — a sra. Weathers disse e bateu com o dedo no relógio. — Depois disso, ela precisa subir.
— Não digam nada — Jill falou no instante em que ficamos sozinhos. O rosto dela era uma mistura de medo e desafio. — Eu sei que o que fiz foi errado. Não preciso levar sermão de vocês.
— Não precisa? — perguntei. — Se você soubesse que era errado, não teria feito isso!
Jill cruzou os braços por cima do peito.
— Eu precisava sair daqui. De acordo com os meus próprios termos. E sem vocês.
O comentário nem me atingiu. Parecia infantil e mesquinho. Mas, para a minha surpresa, Eddie realmente parecia magoado.
— O que você quer dizer com isso? — ele perguntou.
— Quero dizer que eu só queria sair deste lugar sem que vocês ficassem me dizendo o tempo todo o que estou fazendo errado — foi uma indireta para mim. — Ou que se sobressaltassem com cada sombra — essa, claro, era para Eddie.
— Só quero proteger você — ele disse com um tom de mágoa. — Não quero sufocá-la, mas não posso permitir que nada aconteça. Não de novo.
— Eu corro mais perigo com Laurel do que com qualquer assassino! — Jill exclamou. — Sabe o que ela fez hoje? Nós estávamos trabalhando no laboratório de computação e ela “sem querer” tropeçou no fio do meu computador. Eu perdi metade do trabalho e não pude terminar a tempo, e agora vou levar nota baixa.
Um sermão sobre fazer backup do trabalho provavelmente não seria útil naquele momento.
— Olhe, isso é horrível mesmo — eu disse. — Mas não está na mesma categoria de alguém querer matar você. Nem de longe. Aonde exatamente vocês foram?
Por um instante, pareceu que ela não ia entregar a informação. Finalmente, ela disse:
— Lee me levou a Salton Sea. — Ao ver nossa cara de quem não entendeu nada, ela completou: — É um lago fora da cidade. É maravilhoso. — Uma expressão quase sonhadora cruzou seu rosto. — Fazia tanto tempo que eu não ficava perto de tanta água assim... Daí nós fomos para o centro e só ficamos andando por lá, fazendo compras e tomando sorvete. Ele me levou àquela loja, com a estilista que está procurando modelos e...
— Jill — interrompi. — Não me importa como o seu dia foi maravilhoso. Você nos assustou. Não entende?
— Lee não devia ter feito isto — Eddie disse, irritado.
— A culpa não é dele — Jill disse. — Eu convenci Lee a fazer isso... fiz com que acreditasse que vocês não iriam se incomodar. E ele não sabe a verdadeira razão pela qual estou aqui nem o perigo que eu corro.
— Talvez namorar tenha sido uma má ideia — balbuciei.
— Lee é a melhor coisa que me aconteceu aqui! — ela disse, irritada. — Eu mereço ser capaz de sair e me divertir igual a vocês.
— “Diversão” é um exagero — eu disse, ao me lembrar da tarde com Adrian.
Jill precisava de um alvo para sua frustração, e eu recebi a honra.
— Não é o que me parece. Você nunca está aqui. E, quando está, só fica me dizendo o que eu faço de errado. Parece até que é minha mãe.
Eu estava lidando com tudo aquilo com muita calma; mas, de repente, algo naquele comentário me fez explodir. Meu controle tão bem afinado se despedaçou.
— Quer saber de uma coisa? Eu me sinto assim mesmo. Porque, até onde eu sei, sou a única desse grupo que age como adulta. Você acha que eu estou aqui me divertindo? Só estou como babá de vocês, consertando as suas confusões. Passei a tarde inteira... desperdicei a tarde inteira... levando Adrian de carro de um lado para o outro, só para ele ferrar com as entrevistas que consegui. E daí chego aqui e tenho que lidar com o problema do seu “ passeiozinho”. Entendo que Laurel seja um saco... mas, se Micah tivesse sido alertado desde o início, esses problemas jamais teriam acontecido — este último comentário foi dirigido a Eddie. — Eu não entendo por que sou a única que enxerga a seriedade das coisas. Vampiros e humanos namorando. A vida de vocês em jogo. Não são coisas com que se pode brincar! E, no entanto... de algum modo, é o que vocês todos fazem. Largam todas as coisas difíceis para mim, para que eu limpe a sujeira atrás de vocês... e, enquanto isso, tenho Keith e os outros alquimistas na minha cola, só esperando que eu ferre com tudo porque ninguém confia em mim desde que ajudei a sua amiga Rose. Você acha que isso é divertido? Quer viver a minha vida? Então, viva. Pode ficar no meu lugar e começar a assumir um pouco de responsabilidade para variar.
Eu não tinha gritado, mas o volume da minha voz certamente tinha aumentado. Eu basicamente tinha feito todo o discurso sem respirar e agora fazia uma pausa para tomar fôlego. Eddie e Jill ficaram olhando para mim, de olhos arregalados, como se não estivessem me reconhecendo.
Naquele momento a sra. Weathers voltou até onde nós estávamos.
— Já basta por hoje. Você precisa subir agora — ela disse a Jill.
Jill assentiu, ainda um pouco atordoada, e saiu apressada sem se despedir de nenhum de nós. A sra. Weathers a acompanhou até a escada e Eddie se voltou para mim. Seu rosto estava pálido e solene.
— Você está certa — ele disse. — Eu não tenho feito a minha parte.
Suspirei, de repente me sentindo exausta.
— Você não é tão mau quanto eles.
Ele sacudiu a cabeça.
— Mesmo assim... Talvez você tenha razão em relação a Micah. Talvez ele mantenha alguma distância se eu conversar com ele, e daí Laurel vai parar de pegar no pé de Jill. Vou falar com ele hoje à noite. Mas... — ele franziu a testa, escolhendo as palavras com muito cuidado. — Tente não ser muito dura com Adrian e Jill. Isso é estressante para ela, e às vezes eu acho que um pouco da personalidade dele esteja passando para ela através do laço. Tenho certeza de que foi por isso que ela fugiu hoje. É algo que ele faria no lugar dela.
— Ninguém a forçou a fazer o que fez — eu disse. — Adrian menos ainda. O fato de ela ter convencido Lee e não ter nos contado mostra que ela sabia que era errado. Isso se chama livre-arbítrio. E Adrian não tem essas desculpas.
— É... mas ele é o Adrian — Eddie disse, desanimado. — Às vezes não sei distinguir quais atitudes são dele e quais são do espírito.
— Aqueles que têm o domínio sobre o espírito podem tomar antidepressivos, não podem? Se ele está preocupado em se tornar um problema, então precisa tomar juízo e assumir o controle. Ele tem uma escolha. Não é impotente. Não há vítimas aqui.
Eddie me examinou durante vários segundos.
— E eu achei que a minha visão da vida era dura.
— Sua vida é dura — corrigi. — Mas ela é construída em torno da ideia de que você sempre precisa tomar conta de outras pessoas. Eu fui ensinada que isso às vezes é necessário, mas que, mesmo assim, todo mundo precisa cuidar de si mesmo.
— E, no entanto, aqui está você.
— Nem me diga. Quer vir comigo conversar com Lee?
Qualquer expressão de arrependimento desapareceu do rosto de Eddie.
— Quero — ele disse com determinação.
Encontramos Lee sentado em um banco do lado de fora, parecendo arrasado. Ele se levantou em um pulo quando nos aproximamos.
— Pessoal, sinto muito! Eu não devia ter feito isso. Mas é que ela parecia tão triste e tão perdida e eu só quis...
— Você sabe como nós protegemos Jill — eu disse. — Como pôde pensar que não iria nos deixar preocupados?
— E ela é menor de idade — Eddie falou. — Não pode simplesmente levar Jill embora e fazer o que bem entender com ela!
Reconheço que fiquei um pouco surpresa com sua opção por mencionar a ameaça à virtude de Jill. Não me entenda mal. Eu também estava preocupada com a idade dela. Mas, depois de ele tê-la visto literalmente morrer, achei que Eddie iria se preocupar com outras coisas além de os dois ficarem juntos.
Os olhos cinzentos de Lee se arregalaram.
— Não aconteceu nada! Eu jamais faria algo assim com ela. Eu juro! Eu nunca me aproveitaria de uma pessoa tão inocente. Não posso estragar isto. Ela é mais importante para mim do que qualquer garota com quem já namorei. Quero ficar com ela para sempre.
Achei que “para sempre” era um exagero considerando a idade deles, mas havia uma sinceridade comovente em seus olhos. Mesmo assim, não servia de desculpa para o que tinha feito. Ele levou nosso sermão a sério e prometeu que aquilo nunca mais iria se repetir.
— Mas, por favor... será que eu ainda posso me encontrar com ela quando vocês estiverem por perto? Nós podemos continuar a fazer programas em grupo?
Eddie e eu nos entreolhamos.
— Se ela tiver permissão para sair do campus depois disso, sim — respondi. — Realmente não sei o que vai acontecer.
Lee foi embora depois de mais alguns pedidos de desculpas e Eddie também voltou para o alojamento dele. Eu estava subindo as escadas quando meu celular tocou. Dei uma olhada e fiquei assustada ao ver o número do telefone da casa dos meus pais em Salt Lake City no identificador de chamadas.
— Alô? — atendi. Durante um momento inquieto, torci para que fosse Zoe.
— Sydney.
Meu pai. Meu estômago se encheu de pavor.
— Precisamos conversar sobre o que aconteceu.
O pânico se alastrou dentro de mim. Como é que ele já sabia do desaparecimento de Jill? Keith me veio à cabeça como o culpado óbvio. Mas como é que ele havia descoberto? Será que estava na casa de Clarence quando Eddie ligou para Adrian? Apesar de seus defeitos, não podia acreditar que Adrian teria contado a Keith o que tinha acontecido.
— Conversar sobre o quê? — perguntei, tentando ganhar tempo.
— Sobre o seu comportamento. Keith me ligou ontem à noite e, devo dizer, estou muito decepcionado.
— Ontem à noite — aquilo não era a respeito do desaparecimento de Jill. Então, sobre o que seria?
— O seu trabalho é coordenar os esforços para que a menina Moroi tenha uma boa adaptação. Não precisa ser simpática com eles! Mal pude acreditar quando Keith disse que você levou todos para jogar boliche.
— Era minigolfe, e Keith disse que não tinha problema! Eu perguntei a ele primeiro.
— E, depois, ouvi dizer que você está ajudando outros vampiros a cuidarem de suas tarefas rotineiras e não sei mais o quê. A sua obrigação é apenas com a menina, e isso só está relacionado à sobrevivência dela... coisa que também ouvi dizer que você não está fazendo. Keith me disse que houve um incidente em que você não cuidou das dificuldades dela no sol da maneira adequada?
— Eu informei o problema imediatamente! — exclamei. Eu deveria saber que Keith tinha planos de usar aquilo contra mim. — Keith... — fiz uma pausa, pensando na melhor maneira de lidar com aquilo. — Ele não entendeu bem o meu relatório inicial. — Keith tinha desprezado o meu relatório inicial, mas dizer ao meu pai que o protegido dele havia mentido só iria servir para fazer meu pai ficar na defensiva. Ele não acreditaria em mim. — E olha só quem fala! Ele está sempre com Clarence e se recusa a dizer por quê.
— Provavelmente é para se assegurar de que ele esteja estável. Compreendo que o velho não tem a cabeça muito no lugar.
— Ele é obcecado por caçadores de vampiros — expliquei. — Ele acha que tem humanos por aí que mataram a sobrinha dele.
— Bom — meu pai disse. — Há mesmo alguns humanos que ficam sabendo do mundo dos vampiros e nós não conseguimos dissuadi-los. Não são exatamente caçadores. Keith está cumprindo sua obrigação ao esclarecer com Clarence. Você, no entanto, está equivocada.
— Essa comparação não é justa!
— Honestamente, culpo a mim mesmo — ele disse. De algum modo, eu duvidava disso. — Eu não devia ter deixado que você fosse mandada para aí. Você não estava pronta... não depois daquilo pelo que passou. Passar tempo com esses vampiros está deixando você confusa. É por isso que vou pedir para que volte.
— O quê?
— Se as coisas fossem do meu jeito, seria imediatamente. Infelizmente, Zoe vai demorar mais duas semanas para se aprontar. Os alquimistas querem que ela passe por alguns testes antes de fazer a tatuagem. Quando isso estiver resolvido, vamos mandá-la no seu lugar e arrumar... ajuda para você.
— Pai! Isso é uma loucura. Estou indo bem aqui. Por favor, não mande Zoe...
— Sinto muito, Sydney — ele disse. — Você me deixou sem escolha. Por favor, não se meta em confusão durante o tempo que lhe resta.
Ele desligou e eu fiquei parada no corredor com o coração apertado. Duas semanas! Duas semanas e iam mandar Zoe. E eu...? Para onde iam me mandar? Eu não queria pensar sobre o assunto, mas sabia. Precisava impedir que aquilo acontecesse. As engrenagens já estavam em movimento. As tatuagens, pensei de repente. Se pudesse terminar meus testes com as substâncias roubadas e descobrir informações sobre o fornecedor de sangue, eu ganharia pontos com os alquimistas — espero que o suficiente para tirar a mácula que Keith tinha colocado sobre mim.
E por que ele tinha feito isso? Por que agora? Eu sabia que ele nunca quis que eu tivesse ido para lá. Talvez ele só estivesse ganhando tempo, juntando evidências contra mim até que pudesse fazer com que eu fosse deposta com um golpe certeiro. Mas não iria permitir que aquilo acontecesse. Eu desvendaria o caso das tatuagens e provaria quem era a estrela dos alquimistas. Eu tinha provas suficientes agora para chamar a atenção deles, e poderia simplesmente entregar o que tinha se nada de novo viesse à tona em uma semana.
A decisão me encheu de determinação, mas, mesmo assim, tive dificuldade para dormir quando fui para a cama, mais tarde. A ameaça do meu pai pairava sobre mim, assim como meu medo do centro de reeducação.
Depois de mais ou menos uma hora revirando na cama, finalmente caí no sono. Mas, mesmo assim, fiquei agitada e preocupada. Acordei depois de poucas horas e tive que me esforçar para conseguir dormir novamente.
Dessa vez, eu sonhei.
No sonho, eu estava na sala da casa de Clarence. Tudo estava arrumado e no lugar, a madeira escura e a mobília antiga davam ao ambiente uma sensação agourenta. Os detalhes eram surpreendentemente vívidos, e era como se eu pudesse sentir o cheiro dos livros empoeirados e do couro da mobília.
— Hum. Deu certo. Não tinha certeza se ia dar com um humano.
Eu me virei para trás e vi Adrian apoiado na parede.
Ele não estava lá no momento anterior, e tive um flash do medo de vampiros surgindo do nada que eu tinha na infância. Então me lembrei de que era só um sonho, e que aquele tipo de coisa acontecia.
— Sobre o que você não tinha certeza? — perguntei.
Ele fez um gesto ao redor de si.
— Se eu seria capaz de entrar em contato com você. Trazer você para dentro deste sonho. — Eu não entendi muito bem o que ele queria dizer e não falei nada. Ele arqueou uma sobrancelha. — Você não sabe, sabe? Onde você está?
— Na casa de Clarence — respondi, razoável. — Bom, na realidade, estou dormindo na minha cama. Isso é só um sonho.
— Você está meio certa — ele disse. — Este é um sonho de espírito. É real.
Franzi a testa. Um sonho de espírito. Como a maior parte das informações que nós tínhamos a respeito do espírito era incerta, não sabíamos quase nada sobre sonhos de espírito. A maior parte do que eu sabia tinha aprendido com Rose, que com frequência tinha recebido visitas de Adrian enquanto dormia. De acordo com ela, a pessoa que sonhava e o vampiro usuário de espírito na verdade estavam juntos, em um encontro de mentes, comunicando-se através de longas distâncias. Para mim, era difícil apreender aquilo totalmente, mas eu havia testemunhado Rose acordando com informações que não poderia ter obtido de outra maneira. Mesmo assim, não tinha evidências para sugerir que de fato estivesse em um sonho de espírito agora.
— Este é apenas um sonho como outro qualquer — retruquei.
— Tem certeza? — ele perguntou. — Olhe ao redor. Concentre-se. Não acha que a sensação é diferente? É como um sonho... mas não é um sonho. E também não é exatamente igual à vida real. Chame do que quiser, mas da próxima vez que nos virmos no mundo desperto, poderei dizer a você exatamente o que aconteceu aqui.
Olhei ao redor da sala, observando tudo como ele tinha sugerido. Mais uma vez, fiquei surpresa pela nitidez até dos mínimos detalhes. Certamente parecia real, mas os sonhos geralmente pareciam... certo? Você geralmente nunca sabia que estava sonhando até acordar. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando acalmar a mente. E, assim, eu senti. Entendi o que ele quis dizer. Não era exatamente igual a um sonho. Não era exatamente igual à vida real. Meus olhos se abriram.
— Pare com isso — exclamei e me afastei dele. — Faça acabar. Me tire daqui.
Porque, ao aceitar que aquele realmente era um sonho de espírito, eu teria que reconhecer outra coisa: eu estava rodeada por magia de vampiro. A minha mente estava entremeada nisso. Eu me senti claustrofóbica. A magia fazia pressão sobre mim, esmagava o ar.
— Por favor — a minha voz foi ficando cada vez mais frenética. — Por favor, me deixe ir embora.
Adrian se endireitou, demonstrando surpresa.
— Nossa, Sage. Acalme-se. Está tudo bem.
— Não. Não está. Eu não quero isto. Eu não quero que a magia me toque.
— Não vai prejudicar você — ele disse. — Não é nada.
— É errado — sussurrei. — Adrian, pare com isto.
Ele estendeu a mão como se fosse tentar me reconfortar, e então pensou melhor.
— Eu não vou prejudicar você — repetiu. — Só escute o que eu tenho a dizer e vou dissolver tudo. Prometo.
Mesmo no sonho, meu coração estava disparado. Abracei a mim mesma e recuei para a parede, tentando me fazer pequena.
— Certo — sussurrei. — Ande logo.
— Eu só queria dizer... — Ele enfiou as mãos nos bolsos e desviou o olhar, pouco à vontade, antes de voltar a olhar para mim mais uma vez. Será que seus olhos estavam mais verdes do que na realidade? Ou será que era apenas a minha imaginação? — Eu queria... queria pedir desculpas.
— Por quê? — perguntei. Não conseguia processar nada além do meu próprio terror.
— Pelo que eu fiz. Você tinha razão. Desperdicei seu tempo e seu trabalho hoje.
Forcei a minha mente para não ficar retornando às lembranças daquela tarde.
— Obrigada — eu disse simplesmente.
— Não sei por que faço essas coisas — ele completou. — É que eu não consigo evitar.
Eu continuava apavorada, continuava sufocada pela magia que me rodeava. De algum modo, consegui reproduzir a minha conversa anterior com Eddie.
— Você é capaz de se controlar — eu disse. — Você não é uma vítima.
Adrian estava olhando para o outro lado, incomodado com seus pensamentos. De repente, com um gesto brusco, voltou a olhar para mim.
— Igualzinha a Rose.
— O quê?
Adrian estendeu a mão e uma rosa vermelha cheia de espinhos de repente se materializou ali. Engoli em seco e tentei recuar mais. Ele brincou com o cabo entre os dedos, com cuidado para não se espetar.
— Ela disse isso. Que eu estava fazendo papel de vítima. Será que eu sou assim tão patético?
A rosa murchou e se desfez diante dos meus olhos; primeiro transformou-se em cinzas, e depois desapareceu completamente. Fiz o sinal contra o mal no ombro e tentei me lembrar do que nós estávamos falando.
— Patético não é a palavra que eu usaria — eu disse.
— Que palavra você usaria?
A minha mente tinha dado um branco.
— Não sei. Confuso?
Ele sorriu.
— Isso é amenizar a situação.
— Vou conferir em um dicionário quando acordar e dou um retorno para você. Pode por favor acabar com isto?
O sorriso se transformou em uma expressão de surpresa.
— Você está assustada mesmo, não está?
Deixei meu silêncio responder por mim.
— Certo, então, só mais uma coisa. Pensei em outro jeito para conseguir sair da casa de Clarence e arrumar algum dinheiro. Estava lendo sobre auxílio financeiro para a faculdade. Se eu estudasse em algum lugar, você acha que eu conseguiria o suficiente para viver?
Aquela era uma pergunta concreta que eu tinha como encarar.
— É possível. Mas acho que é tarde demais. As aulas já começaram em todos os lugares.
— Encontrei uma faculdade na internet. Carlton. Fica do outro lado da cidade e as aulas ainda não começaram. Mas eu vou ter que ser rápido, e... é isso que eu não sei fazer. A papelada. Os procedimentos. Mas essa é a sua especialidade, certo?
— É triste, mas é verdade — respondi. Uma parte de mim achava que Carlton parecia familiar, mas eu não conseguia localizar a informação.
Ele respirou fundo.
— Você me ajuda? Eu sei que é fazer você dar uma de babá outra vez, mas não sei por onde começar. Só prometo que vou fazer a minha parte. Diga o que tenho que fazer, e eu faço.
Dar uma de babá. Ele andou falando com Jill ou com Eddie ou com ambos. Mas isso era compreensível. Ele iria querer saber se estava tudo bem com ela. Eu só podia imaginar como o meu discurso tinha sido parafraseado.
— Você já esteve na faculdade — eu disse, ao me lembrar dos registros dele. Eu os tinha examinado quando montei seu famigerado currículo. — E largou os estudos.
Adrian concordou.
— Foi.
— Como é que vou saber que você não vai fazer a mesma coisa desta vez? Como vou saber que você não vai só desperdiçar o meu tempo de novo?
— Não tem como saber, Sage — ele reconheceu. — E eu não culpo você. Só posso pedir que me dê mais uma chance. Que tente acreditar em mim quando digo que vou fazer o que estou dizendo. Que acredite que eu estou falando sério. Que confie em mim.
Longos momentos se estenderam entre nós. Eu tinha relaxado um pouco, sem nem perceber, apesar de continuar contra a parede. Eu o examinei, desejando que fosse melhor em desvendar as pessoas. Os olhos dele eram verdes daquele jeito na realidade, concluí. Era só que eu não costumava olhar para eles com tanta atenção.
— Certo — eu disse. — Eu confio em você.
Uma expressão chocada tomou suas feições.
— É sério?
Eu não era melhor em desvendar as pessoas do que tinha sido dez segundos antes, mas, naquele momento, de repente tive um insight sobre o mistério que era Adrian Ivashkov. As pessoas não acreditavam nele com muita frequência. Todos tinham baixas expectativas em relação a ele, por isso ele agia da mesma forma. Até Eddie de certa forma o desprezava: “Ele é o Adrian”. Como se não houvesse nada a se fazer a respeito disso.
Também percebi de repente que, por mais improvável que fosse, Adrian e eu tínhamos muito em comum. Nós dois vivíamos tolhidos pelas expectativas dos outros. Não fazia diferença se as pessoas esperavam tudo de mim e nada dele. Nós continuávamos iguais, ambos sempre tentando fugir dos limites que os outros tinham definido para nós e sermos donos do próprio nariz. Adrian Ivashkov — vampiro baladeiro e irreverente — era mais parecido comigo do que qualquer outra pessoa que eu conhecia. A ideia era tão surpreendente que eu nem consegui responder na hora.
— Confio — eu disse finalmente. — Vou ajudar você. — Estremeci. O medo do sonho tinha voltado, e eu só queria que aquilo terminasse. Teria concordado com qualquer coisa para retornar à minha cama nada sobrenatural. — Mas não aqui. Por favor... pode me mandar de volta? Ou acabar com isso? Ou seja lá o que você tem de fazer?
Ele assentiu devagar, ainda com a expressão em choque. A sala começou a desaparecer, suas cores e linhas se derreteram como uma pintura deixada na sala. Logo tudo ficou preto, e eu me vi acordando na cama do dormitório. Quando isso aconteceu, mal escutei o som da voz dele na minha mente:
Obrigado, Sage.

Um comentário:

  1. Wont' shonnei com esses dois... Admito que não era muito fã de Adrian em V.A, e tinha mesma visão das outras personagens sobre ele, e com certeza não seria o tipo de cara com quem eu sairia ou daria bola (por mais bonito que fosse). Mas em Boodlines minha visão sobre ele está mudando bastante admito, e tô começando a gostar da personagem dele, e sim já Shippo muito ele é Sidney!!

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Boa leitura :)