27 de setembro de 2017

Capítulo 17

A MINHA DESCOBERTA ELEVOU O PROBLEMA da tatuagem a um nível completamente diferente. Antes, eu acreditava que só estivesse lidando com pessoas que usavam técnicas semelhantes aos métodos dos alquimistas para expor Amberwood às drogas. Tinha sido uma questão moral. Agora, com sangue de vampiro na equação, passava a ser uma questão dos alquimistas. Toda nossa razão de ser era proteger os humanos da existência dos vampiros. Se alguém estava colocando sangue de vampiro em humanos de maneira ilícita, tinha extrapolado os limites que nos esforçávamos muito, todos os dias, para manter.
Eu sabia que devia fazer um relatório sobre aquilo imediatamente. Se alguém tinha colocado as mãos em sangue de vampiro, os alquimistas precisavam enviar uma força para cá para investigar. Se eu seguisse a hierarquia normal, acho que deveria contar a Keith e permitir que ele contasse aos nossos superiores. Mas se ele contasse, não tenho dúvidas de que tomaria para si o crédito da descoberta. Eu não podia permitir que isso acontecesse — e não porque quisesse a glória para mim. Havia alquimistas demais que acreditam erroneamente que Keith era uma pessoa de caráter. Eu não queria alimentar essa crença.
Mas, antes de fazer qualquer coisa, precisava descobrir o resto do conteúdo das ampolas. Eu podia fazer suposições a respeito dos resíduos metálicos, mas não tinha certeza se, assim como o sangue, eles tinham vindo diretamente do catálogo dos alquimistas ou eram apenas imitações. E se fossem mesmo as nossas fórmulas, não ficaria óbvio à primeira vista qual era qual. O pó prateado em uma ampola, por exemplo, poderia ser um entre vários compostos dos alquimistas. Eu tinha meios de fazer algumas experiências para descobrir, mas uma substância estava me deixando confusa. Era um líquido transparente e um pouco grosso, sem cheiro específico. Eu achava que era o narcótico usado nas tatuagens celestiais. Sangue de vampiro não causaria aquele barato, apesar de ser capaz de explicar a disposição atlética maluca das chamadas tatuagens de aço. Por isso, comecei a fazer os testes possíveis enquanto seguia com as rotinas normais da escola.
Estávamos jogando basquete em uma quadra fechada naquela semana na educação física, por isso Jill estava participando — e sendo submetida aos comentários mordazes de Laurel. Eu ficava ouvindo quando ela dizia coisas como: “Achava que ela iria ser muito melhor, já que é tão alta. Ela praticamente toca na cesta sem pular. Talvez ela devesse se transformar em morcego e voar até lá”.
Fiz uma careta. Tinha que ficar repetindo a mim mesma para não dar muita bola para as piadas, mas cada vez que eu ouvia uma, o pânico tomava conta de mim. Mas eu tinha que esconder. Se eu quisesse ajudar Jill, precisava que as gozações parassem completamente — e não apenas a parte sobre ser vampira. Dar mais atenção a esses comentários não iria ajudar.
Micah tentava reconfortar Jill depois de cada insulto, o que obviamente enfurecia Laurel ainda mais. Só que os comentários dela não eram os únicos que chegavam aos meus ouvidos. Desde a minha incursão ao estúdio de tatuagem, eu andava ouvindo muita informação interessante vinda de Slade e seus amigos.
— Bom, e ele disse quando? — A srta. Carson fazia a chamada e Slade estava interrogando um sujeito chamado Tim a respeito de uma visita recente ao estúdio.
Tim sacudiu a cabeça.
— Não. Estão com problemas na entrega. Parece que o fornecedor tem, mas não quer vender pelo mesmo preço.
— Que droga — Slade grunhiu. — Preciso de um retoque.
— Opa — Tim disse. — Mas e eu? Ainda nem fiz a primeira.
Não era o único comentário que eu tinha ouvido de alguém que já tinha uma celestial e precisava retocar. Era o vício em ação.
O rosto de Jill estava rígido quando a educação física terminou, e eu fiquei com a sensação de que ela estava tentando não chorar. Tentei conversar com ela no vestiário, mas ela só sacudiu a cabeça e foi para o chuveiro. Eu mesma estava pronta para tomar banho quando ouvi um grito estridente. Aquelas entre nós que ainda estavam perto dos armários correram para os chuveiros para ver o que estava acontecendo.
Laurel jogou a cortina de sua cabine para o lado e saiu correndo, ignorando o fato de estar pelada. Fiquei olhando boquiaberta. A pele dela estava coberta por uma fina camada de gelo. Gotas da água do chuveiro tinham se congelado sólidas sobre sua pele e cabelo, apesar de já estarem começando a derreter com o vapor do resto do vestiário.
Dei uma olhada no chuveiro em si e reparei que a água que saía da torneira também estava congelada.
Os berros de Laurel fizeram com que a srta. Carson chegasse correndo — chocada, assim como o resto de nós, com o acontecimento aparentemente impossível que acabávamos de presenciar. Ela finalmente declarou que era algum tipo de problema maluco com os canos e o aquecedor de água. Isso era típico dos meus colegas humanos. Sempre buscavam explicações científicas mirabolantes antes de aceitar as fantásticas.
Mas eu não tinha nenhum problema com isso. Tornava o meu trabalho mais fácil.
A srta. Carson tentou fazer Laurel entrar em outro chuveiro para tirar o gelo, mas ela recusou. Ficou esperando até tudo derreter e então se enxugou com a toalha. O cabelo dela estava horroroso quando finalmente saiu para a aula seguinte, e eu dei um sorriso sacana. Fiquei imaginando que ela não poderia jogar o cabelo de um lado para o outro.
— Jill — chamei ao vê-la tentando se misturar a um grupo de garotas que ia saindo do vestiário. Ela deu uma olhada cheia de culpa por cima do ombro, mas não fez mais nada para mostrar que tinha me escutado. Fui atrás dela. — Jill! — chamei mais uma vez. Ela com toda a certeza estava me evitando.
No corredor, Jill avistou Micah e correu até ele. Esperta. Ela sabia que eu não faria nenhuma pergunta perigosa com ele por perto.
Ela conseguiu me evitar durante o resto do dia, mas eu fiquei de tocaia no nosso quarto até ela finalmente voltar para lá, logo antes do toque de recolher.
— Jill — exclamei assim que ela entrou pela porta. — Onde você estava com a cabeça?
Ela largou os livros e se virou para mim. Fiquei com a sensação de que eu não era a única que tinha preparado um discurso naquele dia.
— Estou cheia de ficar escutando Laurel e as amigas dela falarem mal de mim.
— E por isso você congelou o chuveiro dela? — perguntei. — Como é que isso vai fazer ela parar? Não é como se você pudesse tomar o crédito para si.
Jill deu de ombros.
— Fez eu me sentir melhor.
— Essa é a sua desculpa? — Mal podia acreditar. Jill sempre tinha parecido tão razoável. Ela tinha sobrevivido com a consciência tranquila ao fato de se tornar princesa e de ter morrido. Mas aquilo a tinha feito perder a cabeça. — Você sabe o quanto se arriscou? A nossa intenção aqui é não atrair atenção!
— A srta. Carson não achou estranho.
— A srta. Carson inventou uma desculpa fraca para se consolar! É isso que as pessoas fazem. Basta um encanador para examinar os canos e dizer que eles não congelam assim desse jeito aleatório, principalmente em Palm Springs!
— E daí? — Jill inquiriu. — E depois? Por acaso já vão suspeitar que foi magia de vampiro?
— Claro que não — eu disse. — Mas as pessoas vão comentar. Você despertou a desconfiança de todo mundo.
Ela me olhou com muito cuidado.
— Foi realmente isso que deixou você aborrecida? Ou foi o simples fato de eu ter usado magia?
— E não é a mesma coisa?
— Não. Quer dizer, você está incomodada por eu ter usado magia porque você não gosta de magia. Você não gosta de nada que tenha a ver com vampiros. Acho que é uma questão pessoal. Eu sei o que você pensa de nós.
Eu soltei um gemido.
— Jill, eu gosto de você. Mas tem razão em dizer que a magia me deixa um pouco incomodada. — Certo, muito incomodada. — Mas não são os meus sentimentos pessoais que vão fazer as pessoas ficarem imaginando qual foi a causa de a água ter congelado daquele jeito.
— Não é correto ela continuar fazendo isso!
— Eu sei, mas você tem que ser superior a ela.
Jill se sentou na cama e suspirou. Daquela maneira, sua raiva pareceu se transformar em desespero.
— Odeio ficar aqui. Quero voltar para São Vladimir. Ou para a corte. Ou para o Michigan. Qualquer lugar que não seja aqui. — Ela me lançou um olhar de súplica. — Não tem nenhuma notícia a respeito de quando eu vou poder voltar?
— Não — eu disse, sem querer revelar que poderia demorar um pouco.
— Todo mundo está se divertindo aqui — ela disse. — Você adora. Tem um monte de amigos.
— Eu não...
— Eddie também gosta. Ele tem Micah e outros caras do alojamento deles para conversar. Além do mais, ele tem que cuidar de mim, e por isso tem um propósito. — Eu nunca tinha pensado na questão dessa maneira, mas percebi que ela tinha razão. — Mas, e eu? O que eu tenho? Nada além desse laço idiota que me deixa ainda mais deprimida porque tenho que escutar Adrian com pena de si mesmo.
— Vou levar Adrian para procurar emprego amanhã — eu disse, sem saber com certeza se isso realmente ajudava.
Jill assentiu, desalentada.
— Eu sei. A vida dele provavelmente também vai ficar ótima agora.
Ela estava se afundando em melodrama e autocomiseração, mas, à luz de tudo, eu até que sentia que naquele momento ela tinha o direito.
— Você tem Lee — eu disse.
Isso fez um sorriso surgir em seu rosto.
— Eu sei. Ele é ótimo. Gosto muito dele, e nem consigo acreditar... quer dizer, parece uma loucura ele gostar de mim também.
— Não é tanta loucura assim.
O brilho dela arrefeceu.
— Sabia que Lee acha que eu podia ser modelo? Ele diz que eu tenho a silhueta mais desejável pelos estilistas humanos, e que conhece uma estilista na cidade que está procurando novas modelos. Mas quando eu contei a Eddie, ele falou que era uma péssima ideia, porque eu não posso arriscar que tirem fotos minhas. Ele disse que, se vazasse, outros poderiam me encontrar.
— É verdade — falei. — Em todos os sentidos. Você tem mesmo silhueta de modelo... mas seria perigoso demais.
Ela suspirou, parecendo derrotada.
— Está vendo? Nada dá certo para mim.
— Sinto muito, Jill, de verdade. Eu sei que é difícil. A única coisa que posso pedir é que você tente continuar forte. Você tem sido ótima até agora. Só aguente mais um pouco, certo? Apenas continue pensando em Lee.
As minhas palavras pareceram vazias até para mim mesma. Quase fiquei imaginando se devia levá-la comigo e Adrian, mas acabei chegando à conclusão de que era melhor não. Adrian não precisava de nenhuma distração. Também não tinha certeza se aquilo seria interessante para ela. Se ela realmente estivesse assim tão ansiosa para ver Adrian passar pelas entrevistas de emprego, poderia “escutar” pelo laço.
Eu me encontrei com Adrian depois da escola no dia seguinte e, pela primeira vez em um tempão, nem Lee nem Keith estavam na casa velha. Mas Clarence estava, e praticamente passou por cima de mim quando eu entrei.
— Você soube? — ele indagou. — Soube da coitada da moça?
— Que moça? — perguntei.
— A que foi morta em Los Angeles há umas duas semanas.
— Ah, sim — respondi, aliviada por não haver nenhuma morte nova. — Foi trágico. Temos sorte por não haver nenhum Strigoi aqui.
Ele me olhou de um jeito surpreso e cheio de certeza.
— Não foi um Strigoi! Você não presta atenção? Foram eles. Os caçadores de vampiros.
— Mas beberam o sangue dela. O senhor não disse que os caçadores de vampiros são humanos? Nenhum humano teria motivos para beber sangue de Moroi.
Ele me deu as costas e ficou andando de um lado para o outro da sala. Dei uma olhada ao redor, imaginando onde Adrian estaria.
— Todo mundo fica repetindo isso! — Clarence falou. — Como se eu já não soubesse. Não sei explicar por que eles fazem o que fazem. É uma turma estranha. Eles louvam o sol e têm crenças esquisitas a respeito do mal e da honra... são até mais fora do comum do que as crenças de vocês. — Bom, isso já era algo. Pelo menos ele sabia que eu era humana. Às vezes, eu não tinha certeza se ele sabia. — Também têm pontos de vista estranhos, e de acordo com eles os vampiros devem morrer. Eles matam Strigoi sem restrições. Com Moroi e dampiros, são mais seletivos.
— O senhor certamente sabe muito sobre eles — eu disse.
— Foi o que me propus a fazer desde Tamara — ele suspirou e de repente pareceu muito, muito velho. — Pelo menos Keith acredita em mim.
Fiquei com o rosto impassível.
— Ah, é?
Clarence assentiu.
— Ele é um bom rapaz. Você deveria dar uma chance a ele.
Meu autocontrole escapou, e percebi que estava fazendo careta.
— Vou tentar.
Naquele momento Adrian chegou, para o meu alívio. Estar sozinha com Clarence já era apavorante o suficiente sem que ele ficasse elogiando Keith Darnell.
— Está pronto? — perguntei.
— Pode apostar que sim — Adrian respondeu. — Mal posso esperar para me transformar em um integrante produtivo da sociedade.
Dei uma examinada na roupa dele e tive que engolir meus comentários. Era legal, mas, claro, ele sempre se vestia bem. Jill tinha dito que as minhas roupas eram caras, mas as de Adrian deixavam as minhas no chinelo. Hoje ele estava de jeans preto e uma camisa social cor de vinho. A camisa parecia ser de algum tipo de mescla de seda, e ele a usava solta, com alguns botões abertos. Seu cabelo tinha sido penteado cuidadosamente para parecer que ele tinha acabado de sair da cama. Pena que o cabelo dele não tinha a mesma textura do meu. O meu ficava daquele jeito sem eu precisar fazer absolutamente nada.
Tinha que admitir que ele estava lindo — mas não parecia preparado para uma entrevista de emprego. Parecia que estava pronto para cair na noite. Isso me causou um certo conflito. Ainda assim, me peguei admirando-o, e mais uma vez me lembrei da impressão que tinha de vez em quando, de que ele era uma espécie de obra de arte. Era um pouco desconcertante, principalmente porque eu tinha que ficar relembrando a mim mesma que vampiros não eram bonitos do mesmo jeito que humanos. Felizmente, a parte pragmática em mim logo assumiu o controle e me deu uma bronca, dizendo que não fazia diferença se ele estava bonito ou não. O que importava é que ele não estava apropriado para uma entrevista de emprego. Mas eu não devia ter ficado surpresa. Aquele era Adrian Ivashkov.
— Então, qual é a programação? — ele perguntou quando pegamos a estrada. — Eu realmente acho que “diretor Ivashkov” soa bem.
— Tem uma pasta no banco de trás com o nosso itinerário, diretor.
Adrian se virou para trás e pegou a pasta. Depois de dar uma olhada rápida, ele declarou:
— Você ganhou pontos por variedade, Sage. Mas não acho que nenhum destes vá conseguir me manter com o estilo de vida a que estou acostumado.
— O seu currículo está atrás. Eu fiz o que pude, mas estamos operando com parâmetros limitados aqui.
Ele folheou os papéis e encontrou o currículo.
— Uau. Eu fui assistente educacional na Escola São Vladimir?
Dei de ombros.
— Foi a coisa mais próxima de um emprego que você já fez.
— E Lissa era minha supervisora? Espero que ela dê boas referências minhas.
Quando Vasilisa e Rose ainda estavam na escola, Adrian morava lá e trabalhava com Vasilisa para aprender o domínio sobre o espírito. “Assistente educacional” era um certo exagero, mas fazia parecer que ele era capaz de cumprir várias tarefas ao mesmo tempo e chegar ao trabalho na hora.
Ele fechou a pasta, recostou-se no assento e fechou os olhos.
— Como vai a Belezinha? Ela parecia pra baixo na última vez que a vi.
Pensei em mentir, mas achei que ele provavelmente descobriria a verdade mais cedo ou mais tarde, ou diretamente por ela ou por meio de suas próprias deduções. Adrian podia não tomar as melhores decisões, mas eu tinha descoberto que ele era ótimo para decifrar as pessoas. Eddie alegava que isso advinha do poder que ele tinha sobre o espírito, e havia mencionado algo a respeito de auras, mas não tinha muita certeza se acreditava naquilo. Os alquimistas não tinham evidências concretas de que elas eram reais.
— Ela não está muito bem — eu disse, e fiz o relatório completo no caminho.
— Aquela coisa do chuveiro foi hilária — ele disse quando eu terminei.
— Foi uma irresponsabilidade! Por que ninguém enxerga isso?
— Aquela vaca mereceu.
Suspirei.
— Vocês esqueceram por que estão aqui? Você, principalmente! Você a viu morrer. Não entende como é importante para ela ficar em segurança e não chamar a atenção?
Adrian ficou em silêncio durante vários instantes, e quando olhei para ele, seu rosto estava sério, algo pouco comum.
— Eu sei. Mas também não quero que ela fique arrasada. Ela... ela não merece. Não é como o resto de nós.
— Acho que nós também não merecemos.
— Talvez você não mereça — ele disse com um sorrisinho. — Afinal, você tem esse estilo de vida tão puro e tudo o mais. Não sei. É só que Jill é tão... inocente. Foi por isso que a salvei, sabe? Quer dizer, em parte.
Estremeci.
— Quando ela morreu?
Ele assentiu, com uma expressão melancólica nos olhos.
— Quando eu vi que ela estava lá, toda ensanguentada e sem se mexer... não pensei nas consequências do que estava fazendo. Eu só sabia que precisava salvá-la. Ela tinha que viver. Eu agi sem parar para pensar, sem nem saber com certeza se eu era capaz de fazer aquilo.
— Foi corajoso da sua parte.
— Talvez. Não sei. Sei que ela passou por muitas dificuldades. Não quero que ela passe por isso de novo.
— Eu também não. — Fiquei comovida com a preocupação dele. Ele continuava me surpreendendo de maneiras bizarras. Às vezes era difícil imaginar que Adrian realmente se importava com qualquer coisa, mas um lado mais suave dele vinha à tona quando ele falava de Jill. — Vou fazer o que puder. Sei que devia conversar mais com ela... ser mais amiga, ou até mais uma irmã falsa. É só que...
Ele olhou feio para mim.
— Realmente é assim tão terrível ficar perto de nós?
Corei.
— Não — respondi. — Mas... é complicado. Me ensinaram certas coisas a vida toda. É difícil me livrar delas.
— As maiores mudanças na história aconteceram porque as pessoas foram capazes de se livrar do que os outros lhes diziam para fazer.
Ele desviou o olhar e ficou olhando pela janela.
Aquela afirmação me incomodou. Parecia algo bom, claro. Era o tipo de coisa que as pessoas diziam o tempo todo sem entender as implicações. Seja você mesmo, lute contra o sistema! Mas as pessoas que falavam essas coisas — gente como Adrian — não tinham vivido a minha vida. Não tinham crescido com um sistema de crenças tão rígido quanto o meu; era como ser prisioneira. Elas não tinham sido forçadas a abrir mão de sua capacidade de pensar por si mesmas ou de fazer suas próprias escolhas. As palavras dele não só me incomodaram, percebi. Elas me deixaram irritada. Elas me deixaram com inveja.
Desdenhei e lancei um comentário digno dele.
— Será que devo adicionar “palestrante motivacional” ao seu currículo?
— Se o pagamento for adequado, estou dentro. Ah — ele endireitou o corpo. — Finalmente descobri de onde o conheço. Aquele tal de Micah com quem você se preocupa tanto.
— Descobriu de onde o conhece?
— É. Por que ele me parece tão familiar. Micah é igualzinho a Mason Ashford.
— Quem?
— Um dampiro que estudou na São Vladimir. Ele namorou Rose por um tempo. — Adrian bufou e encostou a bochecha na janela. — Bom, tanto quanto qualquer outro namorou Rose. Ela era louca por Belikov, já naquela época. Igual a quando nós namoramos. Não sei se Ashford chegou a perceber ou se ela conseguiu enganá-lo o tempo todo. Espero que sim. Pobre coitado.
Franzi a testa.
— Por que está dizendo isso?
— Ele morreu. Quer dizer, foi assassinado. Você sabia disso? Um bando deles foi capturado por Strigoi no ano passado. Rose e Castile escaparam. Ashford, não.
— Não — respondi, e fiz uma anotação mental para dar uma olhada naquilo. — Eu não sabia. Eddie também estava presente?
— Estava. Fisicamente, pelo menos. Os Strigoi ficaram se alimentando dele, por isso ficou inútil a maior parte do tempo. Quer saber sobre danos emocionais? É só falar com ele.
— Coitado do Eddie — eu disse. De repente, muita coisa sobre o dampiro começou a fazer sentido para mim.
Chegamos à primeira parada, um escritório de advocacia que precisava de um assistente de escritório. O título parecia mais glamoroso do que era na verdade, e provavelmente iria envolver muitas das mesmas tarefas que Trey e eu fazíamos para a sra. Terwilliger. Mas, das três vagas que eu tinha encontrado, esta também tinha o maior potencial para avanços futuros.
O escritório obviamente ia bem, a julgar pela recepção em que ficamos esperando. Orquídeas cresciam em vasos gigantescos, bem colocados, e havia até uma fonte no meio da sala. Três outras pessoas esperavam na recepção conosco. Uma era uma mulher muito bem-vestida, na casa dos quarenta anos. Na frente dela havia um homem mais ou menos da mesma idade, sentado com uma mulher bem mais nova cuja blusa decotada faria com que fosse expulsa de Amberwood.
Cada vez que eu olhava para ela, tinha vontade de ir lá cobrir o decote com um cardigã. Mas era óbvio que os três se conheciam, porque ficavam se entreolhando. Adrian examinou-os, um por um, e então se voltou para mim.
— Este escritório de advocacia — disse em voz baixa — é especializado em divórcio, não é?
— É, sim — respondi.
Ele assentiu e levou alguns momentos para processar a informação. Então, para o meu horror, ele se inclinou por cima de mim e disse para a mulher mais velha:
— Ele foi um idiota, obviamente. Você é uma mulher estonteante, cheia de classe. É só esperar. Ele vai se arrepender.
— Adrian! — exclamei.
A mulher se contorceu de surpresa, mas não pareceu inteiramente ofendida. Enquanto isso, do outro lado da sala, a mulher mais nova se aprumou e parou de se aninhar no homem.
— Desculpe? — ela inquiriu. — O que você quer dizer com isso?
Desejei que a terra me engolisse e me salvasse. Felizmente, a segunda melhor opção aconteceu, quando a recepcionista chamou o trio para uma reunião com um advogado.
— Sério? — perguntei quando eles saíram. — Você tinha mesmo que dizer aquilo?
— Eu falo o que penso, Sage. Você não acredita que devemos dizer a verdade?
— Claro que sim. Mas tem hora e lugar! Não com completos desconhecidos que obviamente estão em uma situação difícil.
— Tanto faz — ele disse, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo. — Sem dúvida eu fiz o dia daquela mulher.
Naquele instante, uma mulher de tailleur preto e saltos altíssimos saiu de uma sala interna.
— Meu nome é Janet McCade, sou a gerente do escritório — ela disse. Olhou para nós dois, em dúvida, e então apostou em mim. — Você deve ser Adrian.
A confusão do nome era compreensível, mas não caiu bem para ele. A minha avaliação de sua roupa pronta para a balada estava correta. Minha saia marrom e minha blusa marfim pareciam mais apropriadas para uma entrevista.
— Este é Adrian — disse e apontei. — Sou apenas a irmã dele, estou aqui para dar apoio moral.
— É muita gentileza da sua parte — Janet disse com a expressão um pouco perplexa. — Então pronto. Vamos conversar, Adrian?
— Pode apostar — ele disse e se levantou para ir atrás dela, e eu saltei do meu lugar.
— Adrian — sussurrei, puxando a manga dele. — Você quer dizer a verdade? Diga agora. Não comece a inventar detalhes rebuscados nem alegue que já foi procurador da Justiça.
— Entendi — ele disse. — Isso aqui vai ser moleza.
Se com “moleza” ele quis dizer rápido, então estava certo. Ele saiu pela porta da sala depois de cinco minutos.
Quando chegamos no carro, eu disse:
— Não imagino que ela tenha dado o emprego a você com base só no seu visual, certo?
Adrian estava olhando para o outro lado, mas então me lançou um sorriso reluzente.
— Nossa, Sage, como você diz palavras doces.
— Não foi o que eu quis dizer! O que aconteceu?
Ele deu de ombros.
— Eu contei a verdade.
— Adrian!
— Estou falando sério. Ela me perguntou qual era a minha maior força. Eu disse que era lidar bem com as pessoas.
— Isso não foi ruim — reconheci.
— Daí ela perguntou qual era a minha maior fraqueza. E eu disse: “Por onde devo começar?”.
— Adrian!
— Pare de falar meu nome sem parar. Eu contei a verdade. Quando estava no quarto item, ela me disse que eu podia ir embora.
Eu soltei um grunhido e resisti à vontade de bater com a cabeça na direção.
— Eu devia ter orientado você. Essa é uma pegadinha padrão. Você tem que responder com coisas como “me dedico demais ao trabalho” ou “sou perfeccionista”.
Ele soltou uma gargalhada de desdém e cruzou os braços.
— Isso é uma besteira completa. Quem iria dizer uma coisa dessas?
— Pessoas que conseguem empregos.
Como agora nós tínhamos um tempo extra, dei o melhor de mim para prepará-lo para as perguntas antes da próxima entrevista. Na verdade, era no café Spencer’s, e consegui fazer com que Trey ajudasse. Enquanto Adrian fazia a entrevista no fundo, eu me sentei em uma mesa para tomar um café. Trey veio me fazer uma visita depois de uns quinze minutos.
— Ele é mesmo seu irmão? — ele quis saber.
— É, sim — eu disse, com esperança de parecer convincente.
— Quando você disse que ele estava procurando emprego, imaginei uma versão masculina de você. Achei que ele iria querer organizar as xícaras por cores ou algo assim.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei.
Trey sacudiu a cabeça.
— Quero dizer que é melhor vocês continuarem a procurar. Acabei de sair lá de trás e ouvi ele conversando com a gerente. Ela estava explicando como é a limpeza que ele teria que fazer toda noite. Daí ele falou algo sobre as mãos dele e trabalho pesado.
Eu não era do tipo de falar palavrão, mas, naquele momento, desejei ser.
A última entrevista era em um bar da moda do centro. Eu tinha partido do princípio de que Adrian provavelmente conhecia todos os drinques do mundo e tinha inventado uma credencial falsa para o currículo, afirmando que ele já tinha feito curso de barman. Chegando lá, fiquei no carro e o mandei ir sozinho, achando que sua melhor chance era ali. No mínimo, a roupa dele seria apropriada. Quando ele saiu depois de dez minutos, fiquei boquiaberta.
— Como? — exigi saber. — Como você conseguiu ferrar essa?
— Quando cheguei, disseram que o gerente estava ao telefone e que iria demorar alguns minutos. Então eu me sentei e pedi uma bebida.
Dessa vez, eu realmente apoiei a cabeça na direção.
— O que você pediu?
— Um martíni.
— Um martíni. — Ergui a cabeça. — Você pediu um martíni antes de uma entrevista de emprego.
— É um bar, Sage. Achei que não teria problema.
— Não, não achou! — exclamei. O volume da minha voz surpreendeu a nós dois e ele se encolheu um pouco. — Você não é burro, por mais que finja ser! Você sabe que não pode fazer isso. Você só fez isso para sacanear com eles. Você fez isso para sacanear comigo! Foi isso. Você não levou nada a sério. Desperdiçou o tempo dessa gente e o meu, só porque não tinha nada melhor para fazer!
— Não é verdade — ele disse, mas parecia não ter certeza. — Eu quero, sim, um trabalho... mas não estes.
— Você não está em posição de ser exigente. Quer sair da casa de Clarence? Estas eram as suas chances. Poderia ter conseguido qualquer um desses empregos se você se esforçasse só um pouquinho. Você consegue ser encantador quando quer. Poderia ter conseguido um emprego só pelo papo. — Dei a partida no carro. — Para mim, chega.
— Você não entende — ele disse.
— Entendo que você esteja passando por um período difícil. Entendo que esteja magoado. — Eu me recusei a olhar para ele e coloquei toda a minha atenção na rua. — Mas isso não lhe dá o direito de ficar brincando com a vida das outras pessoas. Tente cuidar de si mesmo sozinho para variar.
Ele não respondeu até estarmos de volta à casa de Clarence e, mesmo naquele momento, eu não quis escutar.
— Sage... — ele começou.
— Saia daqui — eu disse.
Ele hesitou como se fosse discordar, mas finalmente assentiu com a cabeça. Saiu do carro em direção à casa e aproveitou para acender um cigarro no caminho. Fúria e frustração queimavam dentro de mim. Como é que uma pessoa era capaz de me fazer passar por tantos altos e baixos? Sempre que eu começava a gostar dele e sentia que nós estávamos nos conectando, ele fazia uma coisa dessas. Eu era uma idiota por me permitir começar a ter simpatia por ele. Será que eu tinha realmente pensado que ele se parecia com uma obra de arte antes?
Meus sentimentos ainda estavam agitados quando cheguei a Amberwood. Eu não estava nem um pouco a fim de encontrar Jill no nosso quarto. Não tinha dúvida de que ela já sabia tudo que havia acontecido com Adrian, e não tinha o menor desejo de escutar as defesas que ela teria para ele.
Mas, quando entrei no meu dormitório, nem passei da recepção. A sra. Weathers estava no lobby com Eddie e um segurança do campus. Micah estava ali por perto, com o rosto pálido. Meu coração parou. Eddie disparou na minha direção, com o pânico estampado no rosto.
— Você finalmente apareceu! Não conseguia falar com você nem com Keith.
— M-meu telefone estava desligado. — Olhei para a sra. Weathers e para o segurança e vi no rosto deles a mesma preocupação. — O que aconteceu?
— É Jill — Eddie disse, sombrio. — Ela sumiu.

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