27 de setembro de 2017

Capítulo 16

EXPLIQUEI A MINHA EXPERIÊNCIA QUÍMICA dizendo que era apenas uma substância que eu tinha guardada da época em que fizera a minha tatuagem, para o caso de ter uma reação alérgica. Certamente não revelei que eu mesma a tinha preparado. Acho que elas teriam acreditado nessa história se não fosse pelo fato de que, alguns dias depois, eu consegui colocar as mãos em uma fórmula para ajudar a tratar as queimaduras químicas na pele de Kristin. A mistura não ajudou em nada com a mancha de tinta — parecia ser permanente, a não ser que fosse removida com o uso de laser —, mas os vergões melhoraram um pouco.
Depois disso, começou a correr o boato de que Sydney Melrose era a nova farmacêutica de plantão. Como tinha sobrado creme depois de usar em Kristin, dei o resto para uma menina que tinha um problema sério de acne, porque também servia para isso. Aquilo provavelmente não me ajudou em nada. As pessoas começaram a me procurar para tratar todo tipo de coisa e até se ofereceram para pagar. Alguns pedidos eram inúteis, como cura para dor de cabeça. Para essas pessoas, eu simplesmente dizia que comprassem aspirina. Outros pedidos estavam fora do meu alcance e não eram coisas que eu quisesse tratar, como evitar gravidez.
Tirando os pedidos estranhos, eu na verdade não me incomodava com o aumento das minhas interações sociais diárias. Estava acostumada às pessoas precisando de mim, então aquele era um território conhecido. Algumas pessoas simplesmente queriam saber mais sobre mim como pessoa, o que era uma novidade mais agradável do que eu achei que seria. E, ainda assim, outras pessoas queriam... coisas diferentes de mim.
— Sydney.
Eu estava esperando a minha aula de inglês começar e fiquei assustada ao ver um dos amigos de Greg Slade de pé na frente da minha carteira. O nome dele era Bryan, e apesar de eu não ter muitas informações sobre ele, não me parecia ser tão insuportável quanto Slade, o que era um ponto a favor de Bryan.
— Pois não? — perguntei, imaginando se ele queria pegar as minhas anotações de aula emprestadas.
Ele tinha cabelo castanho despenteado que parecia ter sido cortado daquele jeito de propósito, e na verdade era bem bonitinho. Passou a mão no cabelo enquanto escolhia suas palavras.
— Você sabe alguma coisa sobre filmes mudos?
— Claro — respondi. — Os primeiros foram feitos no final do século XIX e às vezes eram acompanhados por música ao vivo, mas o som só foi realmente incorporado aos filmes na década de 1920, e isso tornou os filmes mudos obsoletos.
Bryan ficou de queixo caído, como se aquilo fosse mais do que estava esperando.
— Ah. Certo. Bom, hum, tem um festival de cinema mudo no centro da cidade na semana que vem. O que você acha de ir?
Balancei a cabeça.
— Não, acho que não. Eu respeito o cinema mudo como forma de arte, mas realmente não gosto muito de assistir.
— Hum. Tudo bem — ele voltou a colocar o cabelo para trás e deu para ver que ele estava tentando ter alguma ideia. Por que diabos ele estava me perguntando sobre filmes mudos? — Que tal Starship 30? Estreia na sexta. Quer assistir?
— Na verdade, também não gosto de ficção científica — respondi. Era verdade, eu achava aquilo completamente implausível.
Bryan parecia pronto para arrancar todo aquele cabelo desgrenhado.
— Tem algum filme em cartaz que você quer ver?
Repassei na cabeça uma lista dos filmes que estavam passando.
— Não. Na verdade, não.
O sinal tocou, Bryan sacudiu a cabeça e voltou a se afundar em sua carteira.
— Que coisa estranha — balbuciei. — Ele tem mau gosto para filmes.
Olhei para o lado e fiquei surpresa de ver Julia com a cabeça abaixada sobre a mesa, tremendo de tanto rir sem fazer barulho.
— O que foi?
— Aquilo — ela respondeu, sem fôlego. — Foi hilário.
— O quê? — perguntei de novo. — Por quê?
— Sydney, ele estava convidando você para sair!
Eu repassei a conversa.
— Não, não estava. Estava fazendo perguntas sobre cinema.
Ela dava tanta risada que precisou enxugar uma lágrima.
— Para poder descobrir do que você gostava e levar você para sair!
— Bom, então por que ele simplesmente não falou?
— Você é tão ingênua e adorável — ela disse. — Espero estar por perto no dia em que você de fato reparar que tem alguém interessado em você.
Continuei sem entender nada e ela passou o resto da aula tendo ataques espontâneos de riso.
Enquanto me transformava em objeto de fascínio, a popularidade de Jill ia caindo.
Parte disso se devia à própria timidez dela. Ela continuava tão acanhada e preocupada com o fato de ser diferente que partia do princípio de que todos reparavam em sua estranheza também. Ela continuou não se conectando às pessoas por medo, e isso fazia com que parecesse arredia. A “licença médica” de Jill finalmente tinha sido enviada pelos alquimistas, e isso, surpreendentemente, fez as coisas piorarem. A escola não quis colocá-la em uma optativa diferente cujas aulas já tivessem começado. Alunos do primeiro ano não podiam ser monitores, como Trey. Depois de uma consulta com a srta. Carson, finalmente ficou decidido que Jill iria participar de atividades internas de educação física e fazer “tarefas alternativas” quando as atividades fossem externas. Isso geralmente significava fazer relatórios sobre coisas como a história do beisebol.
Infelizmente, o fato de ela ficar separada do resto da turma só serviu para isolar Jill ainda mais.
Micah continuava a dar em cima dela, mesmo diante das adversidades.
— Lee me mandou uma mensagem de texto hoje de manhã — ela me disse no almoço um dia. — Ele quer me levar para jantar no fim de semana. Você acha... quer dizer, eu sei que vocês também teriam que ir... — ela deu uma olhada incerta entre mim e Eddie.
— Quem é Lee? — Micah perguntou. Ele tinha acabado de se sentar com o nosso grupo.
Alguns momentos de silêncio constrangedor se instalaram.
— Ah — Jill disse e desviou os olhos. — Ele é, hum, um cara que a gente conhece. Ele não estuda aqui. Está na faculdade. Em Los Angeles.
Micah processou a informação.
— Ele convidou você para sair?
— Convidou... na verdade, nós já saímos juntos antes. Acho que nós estamos meio que namorando.
— Não é nada sério — Eddie se intrometeu. Eu não tinha certeza se ele estava dizendo isso para poupar os sentimentos de Micah ou se havia alguma noção de proteção ali, para impedir que Jill se aproximasse demais de qualquer pessoa.
Micah era bom em esconder seus sentimentos, admito. Depois de pensar mais um pouco, ele finalmente lançou um sorriso a Jill que só parecia um pouco forçado.
— Bom, isso é ótimo. Espero que eu possa conhecer esse Lee.
Depois disso, a conversa se voltou para o jogo de futebol americano que estava se aproximando, e ninguém mais voltou a mencionar o nome de Lee.
Ficar sabendo da existência de Lee fez Micah passar a agir de maneira diferente perto de Jill, mas ele continuava andando conosco o tempo todo. Talvez tivesse a esperança de que Lee e Jill terminassem. Ou poderia ser simplesmente porque Micah e Eddie passavam muito tempo juntos, e Eddie era um dos poucos amigos de Jill. Mas o problema não era Micah. Era Laurel.
Eu achava que Micah não iria se interessar por ela, mesmo que Jill não estivesse no meio, mas ela continuava vendo Jill como ameaça — e fazia de tudo para acabar com ela. Espalhou boatos sobre ela e fazia comentários específicos pelos corredores e durante a aula sobre a pele pálida da menina, sua altura e sua magreza — as maiores inseguranças de Jill.
Uma ou duas vezes ouvi o nome Garota Vampira sussurrado pelos corredores. Isso fazia meu sangue gelar, por mais que eu lembrasse a mim mesma que era piada.
— Não é Jill quem mantém Laurel e Micah separados — observei para Julia e Kristin um dia. Elas ficavam surpresas com os meus esforços contínuos para aplicar lógica e racionalidade aos comportamentos sociais na escola. — Eu não entendo. Ele simplesmente não gosta de Laurel.
— É, só que fica mais fácil para ela pensar que o problema é Jill, quando, na verdade, o negócio é que Laurel é uma vaca e Micah sabe disso — Julia explicou. Desde a minha interação sem jeito com Bryan, ela e Kristin tinham assumido a tarefa de tentar me educar em relação às maneiras como os humanos “normais” se comportavam.
— Além do mais, Laurel simplesmente gosta de ter alguém com  quem implicar — Kristin disse. Ela raramente falava sobre a tatuagem, mas tinha ficado mais séria e sóbria desde o acontecimento.
— Certo — respondi, tentando acompanhar a lógica —, mas fui eu quem disse que ela tingia o cabelo. Ela mal dirigiu uma única palavra para mim.
Kristin sorriu.
— Não tem a menor graça implicar com você. Você responde. Jill não se defende muito e também não tem muita gente para defendê-la. Ela é um alvo fácil.
Pelo menos uma coisa positiva aconteceu. Adrian estava se comportando bem depois do deslize de Los Angeles, mas eu ficava me perguntando quanto tempo aquilo ia durar. Com base no que eu tinha apreendido com Jill, ele continuava entediado e infeliz. O horário de Lee era irregular e, de todo modo, não era função dele cuidar de Adrian. Parecia não haver nenhuma boa solução para isso, de verdade. Se Adrian cedia aos seus vícios, ela sofria o efeito de suas ressacas e de seus “interlúdios românticos”. Se não cedia, então ele ficava arrasado, e essa atitude também ia tomando conta dela aos poucos. A única esperança que eles tinham era que Jill no fim aprendesse a controlar a situação e fosse capaz de bloqueá-lo de sua mente, mas pelo que Rose tinha dito, isso podia demorar muito tempo.
Quando chegou a hora do fornecimento seguinte, fiquei decepcionada ao ver o carro de Keith estacionado na frente da casa de Clarence. Se ele realmente não fosse fazer nada para ajudar naquela missão, preferia que ele ficasse longe de uma vez. Aparentemente, ele achava que essas visitas de “supervisão” contavam como trabalho e continuavam a justificar sua presença. Só que, na hora em que nos encontramos com Adrian na sala, Keith não estava à vista. Nem Clarence.
— Onde eles estão? — perguntei a Adrian.
Ele estava estirado no sofá e largou um livro que estava lendo. Tive a sensação de que ler era uma atividade rara para ele e quase me senti mal pela interrupção. Ele segurou um bocejo. Não havia álcool à vista, mas eu vi o que pareciam ser três latas vazias de bebida energética.
Ele deu de ombros.
— Não sei. Devem estar conversando por aí. O seu amigo tem um senso de humor doentio. Acho que ele está alimentando a paranoia de Clarence relativa aos caçadores de vampiros.
Eu olhei sem jeito para Lee, que imediatamente começou a conversar com Jill. Os dois estavam tão envolvidos um com o outro que nem perceberam sobre o que o resto de nós estava conversando. Eu sabia o quanto a conversa sobre caçadores de vampiros incomodava Lee. Ele não gostaria de saber que Keith estava incentivando o tema.
— Clarence está sabendo do assassinato em Los Angeles? — Eddie perguntou. Não havia razão para que Keith não soubesse, já que era informação aberta aos alquimistas, mas eu não sabia dizer se ele faria a conexão para Clarence ou não.
— Ele não mencionou se sabia — Adrian respondeu. — Juro que Keith só está fazendo isso por tédio ou algo do tipo. Nem eu afundei tanto assim.
— É isso que você tem feito em vez de se embebedar? — perguntei ao me sentar na frente dele, apontando para as bebidas energéticas.
— Ei, não é vodca nem conhaque nem... bom, qualquer coisa que seja boa — Adrian suspirou e virou uma lata para beber as últimas gotas. — Então, me dê algum crédito.
Eddie deu uma olhada nas latas.
— Jill por acaso não disse que tinha tido dificuldade para dormir ontem à noite?
— Adrian — eu disse com um gemido.
Eddie tinha razão. Eu tinha reparado que Jill tinha ficado se agitando na cama o tempo todo. Uma enorme quantidade de cafeína explicaria isso.
— Ei, eu estou tentando — Adrian disse. — Se você conseguir me tirar daqui, Sage, daí não vou ser forçado a afogar as mágoas na taurina e no ginseng.
— Ela não pode fazer isso, Adrian, e você sabe muito bem — Eddie falou. — Será que não dá para você... sei lá. Encontrar um passatempo ou algo assim?
— Ser encantador é o meu passatempo — Adrian respondeu, obstinado. — Eu sou a vida de qualquer festa... mesmo sem beber. Não fui feito para ficar sozinho.
— Você podia arrumar um emprego — Eddie disse e se acomodou em uma cadeira de canto. Ele sorriu, surpreso com a própria esperteza. — Vai resolver ambos os seus problemas... pode ganhar algum dinheiro e estar perto de outras pessoas.
Adrian revirou os olhos.
— Cuidado, Castile. Só há um comediante nesta família.
Eu me endireitei.
— Na verdade, não é má ideia.
— É uma péssima ideia — Adrian disse e olhou de mim para Eddie.
— Por quê? — perguntei. — É esta a parte em que você nos diz que as suas mãos não foram feitas para executar trabalhos pesados?
— É mais a parte em que eu digo que não tenho nenhuma contribuição a oferecer para a sociedade — ele retrucou.
— Eu posso ajudar — ofereci.
— Você vai trabalhar e me dar o pagamento? — Adrian perguntou, cheio de esperança. — Porque isso realmente poderia ajudar.
— Eu posso dar uma carona para as entrevistas — respondi. — E posso fazer um currículo para que você consiga qualquer emprego. — Olhei para ele e reconsiderei. — Bom, dentro dos limites.
Adrian voltou a se recostar.
— Desculpe, Sage. Simplesmente não estou sentido firmeza.
Clarence e Keith entraram bem naquele momento. O rosto de Clarence estava exuberante.
— Obrigado, obrigado — ele ia dizendo. — É tão bom conversar com alguém que compreende as minhas preocupações a respeito dos caçadores...
Eu não tinha me dado conta de que Keith não compreendia nada além de sua própria natureza egoísta. O rosto de Lee se fechou quando ele percebeu que Keith estava alimentando a irracionalidade daquele senhor de idade. Ainda assim, o Moroi segurou os comentários que sem dúvida tinha vontade de fazer. Era a primeira vez que eu via qualquer tipo de emoção sombria no rosto de Lee. Parecia que Keith era capaz de desanimar até a pessoa mais alegre.
Clarence ficou feliz em nos ver, assim como Dorothy. Os humanos que davam sangue para vampiros não eram nojentos apenas por causa do ato em si. O que era mais apavorante era o vício que resultava disso. Os vampiros soltavam endorfinas para aqueles de quem se alimentavam, endorfinas que criavam uma espécie de barato agradável. Os fornecedores humanos que viviam entre os Moroi passavam dias inteiros nessa viagem e acabavam se tornando muito dependentes. Alguém como Dorothy, que vivia apenas com Clarence havia anos, não tinha experimentado mordidas suficientes para realmente se viciar. Agora, com Jill e Adrian por perto, Dorothy estava recebendo uma quantidade maior de endorfinas no dia a dia. Seus olhos se iluminaram quando ela viu Jill, mostrando que estava ansiosa por mais.
— Ei, Sage — Adrian disse. — Eu não quero entrevista nenhuma, mas será que você pode me dar uma carona para eu comprar cigarro?
Comecei a dizer a ele que não iria contribuir com um vício tão imundo, mas então reparei que ele olhava de modo significativo para Dorothy. Será que ele estava tentando me tirar dali? Fiquei me perguntando. Queria me dar uma desculpa para não estar por perto na hora do fornecimento? Pelo que eu entendia, os Moroi normalmente não escondiam seus fornecimentos uns dos outros. Jill e Dorothy costumavam simplesmente sair da sala para me deixar mais à vontade. Eu sabia que elas provavelmente fariam isso mais uma vez, mas resolvi aproveitar a oportunidade de cair fora. Claro que dei uma olhada em Keith para confirmar, achando que ele iria reclamar. Ele só deu de ombros. Parecia que eu era a última coisa que ele tinha na cabeça.
— Tudo bem — eu disse e me levantei. — Vamos.
No carro, Adrian se virou para mim.
— Mudei de ideia — ele disse. — Aceito a sua ajuda para arrumar um emprego.
Quase perdi o controle da direção e bati o carro. Poucas coisas vindas dele poderiam ter me surpreendido mais — e ele dizia coisas bem surpreendentes com bastante regularidade.
— Isso foi rápido. Está falando sério?
— Como nunca falei antes. Ainda quer me ajudar?
— Acho que sim, mas não posso fazer muita coisa. Não posso de fato arrumar o emprego para você. — Repassei minha lista mental do que eu sabia sobre Adrian. — Acredito que você não tenha ideia do que realmente gostaria de fazer, tem?
— Quero algo divertido — ele respondeu. Ele pensou mais um pouco. — E quero ganhar muito dinheiro... mas trabalhando o mínimo possível.
— Que adorável — balbuciei. — Isso limita as opções.
Nós chegamos ao centro e eu consegui fazer uma baliza perfeita para estacionar que não o impressionou nem de longe o tanto que deveria ter impressionado. Estávamos bem na frente de uma loja de conveniência e eu fiquei esperando enquanto ele entrou. As sombras da noite estavam caindo. Eu saía do campus o tempo todo, mas até agora as minhas viagens tinham sido até a casa de Clarence, campos de minigolfe ou restaurantes de fast-food. Acontece que a cidade de Palm Springs era muito bonita. Lojas e restaurantes enchiam as ruas e eu podia passar horas só observando as pessoas.
Aposentados com roupa de jogar golfe caminhavam ao lado de socialites cheias de glamour. Eu sabia que muitas celebridades também frequentavam o local, mas eu não era ligada o suficiente no mundo do entretenimento para saber quem era quem.
— Cara — Adrian disse ao sair da loja. — Subiram o preço da minha marca de sempre. Tive que comprar uma vagabunda.
— Sabe — eu disse. — Parar de fumar também seria uma maneira ótima de economizar um pouco...
Fiquei paralisada quando avistei algo rua abaixo. A três quarteirões de distância, através das folhas de algumas palmeiras, eu mal enxerguei uma placa que dizia Nevermore em letras góticas rebuscadas. Era o tal lugar. A fonte das tatuagens que corriam à solta em Amberwood. Desde o incidente de Kristin, eu queria ir mais fundo naquela questão, mas não sabia muito bem como. Agora eu tinha a minha chance. Por um momento, lembrei de Keith me dizendo para não me envolver em nada que pudesse chamar a atenção ou causar problemas. Então pensei sobre o jeito que Kristin ficara durante sua overdose. Era a minha oportunidade de realmente descobrir alguma coisa. Tomei uma decisão.
— Adrian — eu disse. — Preciso da sua ajuda.
Eu o puxei na direção do estúdio de tatuagem enquanto explicava a situação. Por um momento, ele pareceu tão interessado em tatuagens que davam barato que eu achei que ia querer fazer uma. Mas quando contei a ele sobre Kristin, seu entusiasmo arrefeceu.
— Mesmo que não seja tecnologia dos alquimistas, estão fazendo algo perigoso — expliquei. — Não só a Kristin. Aquilo que Slade e os outros garotos fazem... usando esteroides para se dar bem no futebol... também é muito ruim. Tem gente que acaba se machucando — eu pensei, de repente, nos cortes e hematomas de Trey.
Um pequeno beco separava o estúdio de tatuagem de um restaurante, e nós paramos diante dele. Uma porta se abriu dentro do beco, do lado do estúdio, e um homem saiu e acendeu um cigarro. Ele só tinha dado dois passos quando outro homem enfiou a cabeça para fora da porta lateral e chamou:
— Quanto tempo você vai demorar?
Vi prateleiras e mesas atrás dele.
— Só vou até o mercado — disse o homem com o cigarro. — Volto em dez minutos.
O outro sujeito voltou para dentro e fechou a porta. Alguns momentos depois, nós o vimos pela vitrine da loja, arrumando algo no balcão.
— Preciso entrar ali atrás — eu disse a Adrian. — Por aquela porta.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Como assim? Você vai invadir? Mas que coisa mais sorrateira da sua parte. E, ah, sabe como é... perigosa e tola.
— Eu sei — respondi, surpresa por parecer tão calma ao admitir isso. — Mas preciso descobrir alguma coisa, e esta pode ser a minha única chance.
— Então eu vou com você, para o caso de aquele sujeito voltar — ele disse com um suspiro. — Que nunca ninguém possa dizer que Adrian Ivashkov não ajuda donzelas em perigo. Além do mais, você viu a cara dele? Parecia um motoqueiro insano. Os dois pareciam.
— Não quero que você... espere — tive uma ideia. — Vá você conversar com o sujeito que está lá dentro.
— Hã?
— Entre pela frente. Faça com que ele fique distraído para eu poder dar uma olhada. Fale com ele sobre... sei lá. Você vai pensar em algo.
Nós logo traçamos um plano. Mandei Adrian entrar enquanto me esgueirava pelo beco e me aproximava da porta. Puxei a maçaneta e vi que estava... trancada.
— Claro que sim — resmunguei. Que estabelecimento comercial iria deixar aberta uma porta tão isolada e exposta? Meu plano brilhante começou a se desfazer até eu me lembrar de que tinha minhas ferramentas “essenciais” de alquimista na bolsa.
Era raro eu precisar do kit completo, a não ser quando ocorriam crises de acne na escola, por isso costumava deixá-lo em casa. Os alquimistas estavam sempre prontos, independentemente do lugar, para encobrir qualquer aparição de vampiro. Por isso, sempre levávamos algumas coisas conosco. Uma delas era a substância capaz de derreter o corpo de um Strigoi em menos de um minuto. A outra tinha quase a mesma eficiência para derreter metal.
Era um tipo de ácido que eu guardava em uma ampola protegida na bolsa. Bem rápido, eu a encontrei e tirei a tampa. Um cheiro amargo saiu dela e me fez torcer o nariz. Com o conta-gotas de vidro da garrafinha, me abaixei com muito cuidado e coloquei algumas gotas bem no meio da fechadura. Imediatamente dei um passo para trás quando uma névoa branca se ergueu com o contato. Em trinta segundos, tudo tinha se dissipado e havia um buraco no meio da maçaneta da porta. Uma das vantagens daquela substância, chamada fogo-rápido, era que sua reação ocorria com extrema rapidez. Agora já estava inerte e não representava perigo para a minha pele. Empurrei a maçaneta para baixo e ela cedeu.
Abri uma fresta da porta só para conferir se não havia ninguém por ali. Não. Estava vazio. Eu me esgueirei para dentro, fechei a porta atrás de mim sem fazer barulho e prendi uma tranca interna para garantir que permaneceria fechada. Como eu tinha visto do lado de fora, o lugar era uma despensa onde todos os tipos de instrumentos para fazer tatuagens ficavam guardados. Havia três portas ao meu redor. Uma levava a um banheiro, outra para uma sala escura e a última para a frente da loja e o balcão principal.
Vinha luz dessa porta, e eu conseguia escutar a voz de Adrian.
— Um amigo meu fez uma — ele ia dizendo. — Eu vi, e ele disse que foi aqui. Vamos lá, não me enrole.
— Desculpe — foi a resposta mal-humorada. — Não faço ideia do que você está falando.
Lentamente, comecei a examinar os armários e as gavetas, lendo rótulos e procurando algo suspeito. Havia muitas substâncias e pouco tempo.
— O problema é dinheiro? — Adrian perguntou. — Porque eu tenho bastante. Só me diga quanto custa.
Houve uma longa pausa, e fiquei torcendo para que o homem não pedisse a Adrian para mostrar o dinheiro, já que o que sobrara ele havia doado para sua campanha a favor do câncer.
— Não sei — o sujeito finalmente disse. — Se eu pudesse fazer essa tatuagem de cobre de que você está falando... e não estou dizendo que posso... você provavelmente não teria dinheiro para pagar.
— Estou dizendo que tenho — Adrian respondeu. — É só dizer o preço.
— No que exatamente você está interessado? — o homem perguntou devagar. — Só na cor?
— Acho que nós dois sabemos a resposta — Adrian disse, ardiloso. — Eu quero a cor. Eu quero os efeitos-bônus. E eu quero que fique incrível. Você provavelmente nem iria conseguir fazer o desenho que eu quero.
— Essa é a menor das suas preocupações — o sujeito garantiu. — Faço isso há anos. Consigo desenhar qualquer coisa que você quiser.
— Ah é? Você consegue desenhar um esqueleto andando de moto com fogo saindo dela? E quero um chapéu de pirata no esqueleto. E um papagaio no ombro dele. Um papagaio-esqueleto. Ou quem sabe um papagaio-esqueleto ninja? Não, isso seria exagero. Mas seria legal se o motoqueiro-esqueleto pudesse atirar alguns shurikens. Que estivessem pegando fogo.
Nesse meio-tempo, eu ainda não tinha encontrado sinal daquilo que eu precisava, e havia mais um milhão de cantinhos e reentrâncias para serem examinados. O pânico começou a crescer dentro de mim. Não daria tempo. Então avistei o quarto escuro e me apressei até ele. Dei uma olhada rápida para a frente da loja, acendi a luz e prendi a respiração. Ninguém devia ter reparado em nada, porque a conversa continuou de onde tinha parado.
— Essa é a coisa mais ridícula que eu já ouvi — o tatuador disse.
— Não é o que as moças vão dizer — Adrian respondeu.
— Olhe, garoto — o sujeito disse. — O problema nem é dinheiro. É disponibilidade. Isso que você descreveu exige muita tinta, e não tenho tanta assim em estoque.
— Bom, e quando é a próxima entrega do seu fornecedor? — Adrian perguntou.
Fiquei olhando fixamente, aturdida com o que havia encontrado: eu estava na sala em que as tatuagens eram feitas. Havia uma espreguiçadeira — bem mais confortável do que a mesa em que eu tinha recebido a minha tatuagem — e uma mesinha lateral coberta com instrumentos que pareciam recém-utilizados.
— Já tenho algumas pessoas na lista de espera. Não sei quando vai chegar mais.
— Será que você poderia me avisar quando souber? — Adrian pediu. — Vou deixar o meu contato com você. Meu nome é Jet Steele.
Se não fosse pela situação tensa, teria soltado um grunhido. Jet Steele? Sério mesmo?
Antes que eu pudesse pensar muito a respeito, finalmente encontrei o que estava procurando. A pistola de tatuagem na mesa tinha seu próprio recipiente de tinta, mas ao lado havia várias ampolas menores. Todas estavam vazias, mas algumas ainda tinham um resíduo metálico dos ingredientes suficiente para me ajudar a descobrir o que era.
Sem nem pensar duas vezes, comecei a tampá-los e colocar na bolsa. Ali perto, reparei em algumas ampolas lacradas cheias de um líquido escuro. Fiquei paralisada por um instante. Com cuidado, peguei uma, abri e cheirei.
Era o que eu temia. Voltei a fechar a tampa e coloquei as ampolas na bolsa.
Naquele instante ouvi um barulho atrás de mim. Alguém estava tentando abrir a porta dos fundos. Mas eu tinha fechado a tranca, e ela não cedeu. Ainda assim, significava que a minha espionagem tinha chegado ao fim. Eu estava fechando o zíper da bolsa quando ouvi a porta da frente se abrir.
— Joey, por que a porta dos fundos está trancada? — uma voz irritada indagou.
— Sempre fica trancada.
— Não, a tranca estava fechada. Por dentro. Não estava quando eu saí.
Era a deixa para eu ir embora. Apaguei a luz e me apressei pela despensa.
— Espere! — Adrian exclamou. Havia um tom de ansiedade na voz dele, como se estivesse tentando chamar a atenção de alguém. Fiquei com a sensação desagradável de que os dois sujeitos que trabalhavam ali estavam se dirigindo para os fundos para ver o que tinha acontecido. — Preciso saber mais uma coisa sobre a tatuagem. Será que o papagaio também pode usar chapéu de pirata? Tipo em miniatura?
— Aguarde um momento. Precisamos conferir uma coisa. — A voz estava mais alta do que antes. Mais próxima.
As minhas mãos se atrapalharam para soltar a tranca. Consegui destrancar e abri a porta, disparando para fora no exato momento em que ouvi vozes atrás de mim. Sem fazer nenhuma pausa ou olhar para trás, fechei a porta e saí correndo pelo beco até a rua, de volta ao lugar onde tinha estacionado. Eu tinha quase certeza de que os sujeitos não tinham me visto direito. Acho que eu era só uma silhueta disparando porta afora. Ainda assim, fiquei contente com a multidão pelas ruas. Pude me misturar às pessoas enquanto voltava a atenção para o carro e abria a porta. As minhas mãos estavam suadas e tremiam enquanto eu remexia nas chaves.
Eu queria muito olhar para trás, mas tinha medo de atrair a atenção dos dois homens, se estivessem à minha procura na rua. Enquanto não tivessem razão para desconfiar de mim...
Uma mão agarrou o meu braço de repente e me puxou. Engoli em seco.
— Sou eu — disse uma voz.
Adrian. Soltei um suspiro de alívio.
— Não olhe para trás — ele disse com calma. — Apenas entre no carro.
Obedeci. Quando nós dois estávamos em segurança lá dentro, respirei fundo, atordoada com as batidas fortes do meu coração. A adrenalina liberada pelo medo encheu o meu peito, com tanta força que doeu. Fechei os olhos e me inclinei para trás.
— Foi por muito pouco — eu disse. — E você se saiu muito bem, aliás.
— Eu sei — ele respondeu, todo orgulhoso. — E, na verdade, acho que quero fazer essa tatuagem agora. Você encontrou o que estava procurando?
Abri os olhos e suspirei.
— Encontrei. E muito mais.
— Então, o que é? Estão colocando drogas nas tatuagens?
— Pior — respondi. — Estão usando sangue de vampiro.

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