27 de setembro de 2017

Capítulo 15

ADRIAN DORMIU DURANTE BOA PARTE do caminho de volta a Palm Springs. Parece que a balada tarde da noite com Carla e Krissy tinha resultado em muito pouco descanso. Pensar nisso me deixou pouco à vontade. Pensar que Jill tinha passado por isso através dele me deixava enjoada.
Havia muito pouco que pudéssemos fazer por Carla e Krissy, a não ser oferecer nossas condolências. Ataques de Strigoi aconteciam. Era trágico e terrível, mas a única maneira que a maior parte dos Moroi tinha para se proteger era exercer cautela, manter os arredores seguros e sempre que possível ter guardiões por perto. Para os Moroi que não pertenciam à realeza e que estudavam pelo mundo, como Carla e Krissy, guardiões não eram uma opção. Muitos Moroi se viravam assim; só precisavam ter cuidado.
As duas consideraram as circunstâncias relativas à morte da amiga terríveis. Era verdade. Eram mesmo. Mas nenhuma das duas pensou muito além disso nem achou que houvesse algo estranho no fato de a garganta ter sido cortada. Eu também teria agido da mesma maneira se não tivesse ouvido o relato de Clarence a respeito da morte da sobrinha.
Levei Adrian até Amberwood comigo e o coloquei na lista de visitantes, achando que Jill iria se sentir melhor se o visse pessoalmente. E, é claro, ela estava à nossa espera no alojamento quando chegamos. Ela o abraçou e lançou um olhar agradecido para mim. Eddie estava com ela e, apesar de não dizer nada, havia uma expressão exasperada em seu rosto que demonstrava que eu não era a única a achar que o comportamento de Adrian era ridículo.
— Eu estava tão preocupada — Jill disse.
Adrian bagunçou o cabelo dela, gesto que a fez se afastar.
— Nada com que se preocupar, Belezinha. Desde que essa camisa possa ser passada para desamassar, não aconteceu nada de ruim.
Não aconteceu nada de ruim, pensei, sentindo a raiva esquentar dentro de mim. Nada de ruim, tirando o fato de que Jill teve que assistir Adrian ficando com outras garotas além de aguentar seu consumo excessivo de álcool. Não fazia diferença se a queda dela por Lee havia superado sua antiga queda por Adrian. Ela simplesmente era nova demais para testemunhar uma coisa daquelas. Adrian tinha sido egoísta.
— Agora — Adrian prosseguiu —, se Sage puder fazer a gentileza de continuar como chofer, convido todo mundo para almoçar.
— Achei que você não tivesse dinheiro nenhum — observei.
— Eu disse que não tenho muito dinheiro.
Jill e Eddie se entreolharam.
— Nós, hum, íamos nos encontrar com Micah para almoçar — Jill disse.
— Tragam ele também — Adrian falou. — Assim ele pode conhecer a família.
Micah chegou um pouco depois e ficou contente em conhecer o nosso outro “irmão”. Ele apertou a mão de Adrian e sorriu.
— Agora estou vendo uma certa semelhança na família. Estava começando a imaginar se Jill era adotada, mas vocês dois são parecidos.
— O nosso carteiro na Dakota do Norte também — Adrian disse.
— Do Sul — corrigi. Felizmente, Micah não pareceu achar que houvesse algo de estranho no deslize.
— Certo — Adrian disse. Ele examinou Micah, pensativo. — Há algo familiar em você. Nós já nos conhecemos?
Micah sacudiu a cabeça.
— Eu nunca estive na Dakota do Sul.
Tive quase certeza de ouvir Adrian murmurar “então somos dois”.
— Nós devíamos ir andando — Eddie se apressou em dizer e se dirigiu para a porta do alojamento. — Preciso tirar o atraso da lição de casa mais tarde.
Eu franzi a testa, confusa com a mudança de atitude. Eddie não era mau aluno, de jeito nenhum, mas tinha ficado óbvio para mim, desde que tínhamos chegado a Amberwood, que ele não tinha o mesmo interesse pela escola que eu. Aquele era um ano repetido para ele, e ele se contentava em representar seu papel e só fazer o que fosse realmente necessário para manter as aparências.
Se alguém mais considerou o comportamento dele estranho, não demonstrou. Micah já estava falando com Jill sobre alguma coisa e Adrian ainda parecia estar tentando descobrir de onde conhecia Micah. A oferta generosa de Adrian de pagar o almoço só se estendia a fast-food; por isso, a nossa refeição foi rápida. Mas, depois de uma semana de comida do refeitório, a mudança foi bem-vinda, e já fazia tempo que Adrian tinha deixado claras suas opiniões a respeito da comida “saudável” de Dorothy.
— Você devia ter pedido uma refeição infantil — Adrian me disse apontando para o meu hambúrguer meio comido e o resto das minhas batatas fritas. — Você me teria feito economizar muito dinheiro. E ainda teria ganhado um brinquedo.
— “Muito” é meio exagerado — eu disse. — Além do mais, você agora tem sobras para ajudar com a sua sobrevivência.
Ele revirou os olhos e roubou uma batatinha do meu prato.
— É você que devia levar os restos para casa. Como é que consegue funcionar com tão pouca comida? — ele questionou. — Um dia desses, vai sair voando com o vento.
— Pare com isso — eu disse.
— Só estou constatando um fato — ele disse e deu de ombros. — Você podia engordar uns bons cinco quilos.
Fiquei encarando-o, incrédula, chocada demais para dar qualquer resposta. O que um Moroi podia falar sobre ganho de peso? Eles tinham a silhueta perfeita. Não sabiam o que era se olhar no espelho e ver algo inadequado, nunca se sentir boa o suficiente. Para eles, isso não exigia nenhum esforço; já para mim, por mais que eu me esforçasse, parecia que eu nunca conseguiria me equiparar a sua perfeição inumana.
Os olhos de Adrian se voltaram para onde Jill, Eddie e Micah conversavam bem animados sobre treinar mais autodefesa juntos.
— Eles são meio fofos — Adrian disse com um tom de voz apenas para os meus ouvidos. Ele ficou brincando com o canudo enquanto examinava o grupo. — Talvez Castile tivesse certa razão em permitir que ela namorasse na escola.
— Adrian — resmunguei.
— Brincadeirinha — ele disse. — Lee provavelmente iria desafiá-lo para um duelo. Ele não consegue parar de falar sobre ela, sabe? Quando nós voltamos do minigolfe, Lee só ficou repetindo: “Quando nós podemos sair de novo?”. E, no entanto, ele sumiu da face da terra quando estava em Los Angeles e eu precisava dele.
— Vocês tinham combinado de se encontrar? — perguntei. — Ele tinha dito que levaria você de volta para casa?
— Não — Adrian reconheceu. — Mas que outra coisa ele realmente estava fazendo?
Naquele momento um homem de cabelo grisalho passou e esbarrou na cadeira de Jill enquanto equilibrava uma bandeja de hambúrgueres e refrigerantes. Nada derramou, mas Eddie se levantou de um pulo com a velocidade da luz, pronto para saltar para o outro lado da mesa e defendê-la. O homem recuou e balbuciou um pedido de desculpas.
Adrian sacudiu a cabeça, surpreso.
— É só fazer com que ele seja o acompanhante sempre que ela sair com qualquer um, e nós nunca vamos ter que nos preocupar.
Sabendo sobre o laço entre Adrian e Jill, pude observar o senso de proteção de Eddie sob uma luz diferente. Ah, claro, eu sabia que seu treinamento de guardião tinha instaurado nele essa natureza, mas sempre parecia haver algo um pouco mais forte ali. Algo quase... pessoal. No começo, fiquei imaginando se talvez fosse porque Jill simplesmente fazia parte de seu círculo mais amplo de amizades, como Rose. Agora, eu ficava pensando que talvez fosse mais do que isso. Jill tinha dito que Eddie era o único que tinha tentado protegê-la na noite do ataque. Ele falhou, provavelmente mais por falta de tempo do que de habilidade.
Mas que tipo de marca isso devia ter deixado nele? Ele era alguém cuja única razão na vida era defender outras pessoas — e teve que assistir alguém morrer sob sua guarda. Agora que Adrian a tinha trazido de volta à vida, será que era quase como uma segunda chance para Eddie? Uma oportunidade de se redimir? Talvez fosse essa a sua razão de ser tão vigilante.
— Você parece confusa — Adrian disse.
Eu sacudi a cabeça e suspirei.
— Acho que só estou pensando demais em tudo.
Ele assentiu, solene.
— É por isso que nunca tento fazer isso.
Uma questão anterior surgiu na minha mente.
— Ei, por que você disse para aquelas garotas que o seu nome era Jet?
— É uma prática padrão quando você não quer que uma garota encontre você depois, Sage. Além do mais, achei que estivesse protegendo esta nossa operação.
— É, mas por que Jet? Por que não... sei lá... Travis ou John?
Adrian me lançou um olhar para dizer que eu estava desperdiçando o tempo dele.
— Porque Jet é um nome de cara durão.
Depois do almoço, devolvemos Adrian à casa de Clarence e o restante de nós voltou a Amberwood. Jill e Micah foram fazer o que tinham para fazer, e eu convenci Eddie a ir comigo para a biblioteca. Lá, nós ocupamos uma mesa e eu peguei meu laptop.
— Então, nós descobrimos uma coisa interessante quando fui buscar Adrian hoje — disse a Eddie, usando minha voz baixa de biblioteca.
Eddie me olhou feio.
— Aposto que a experiência toda de buscar Adrian foi interessante... pelo menos de acordo com o que Jill me contou.
— Poderia ter sido pior — especulei. — Pelo menos ele estava vestido quando eu cheguei. E só havia duas outras Moroi lá. Eu não me deparei com uma casa cheia delas nem nada assim.
Isso o fez rir.
— Provavelmente você teria tido mais dificuldade em tirar Adrian de lá se esse fosse o caso.
A tela do meu laptop se acendeu e ganhou vida, e eu dei início ao processo complicado de entrar no banco de dados superseguro dos alquimistas.
— Bom, quando nós estávamos saindo, a garota com quem ele estava descobriu que uma amiga delas tinha sido morta pelos Strigoi na noite anterior.
Todo o humor sumiu do rosto de Eddie. Seus olhos endureceram.
— Onde?
— Em Los Angeles, não aqui — completei. Eu devia ter sido mais esperta e não começar a conversa sem afirmar antes com clareza que ele não precisava sair correndo para procurar Strigoi pelo campus. — Até onde sabemos, todo mundo tem razão... os Strigoi não estão a fim de circular por Palm Springs.
Eddie ficou cerca de um por cento menos tenso.
— Mas o negócio é o seguinte... — prossegui. — Essa garota Moroi... a amiga delas... supostamente foi morta do mesmo modo que a sobrinha de Clarence.
As sobrancelhas de Eddie se ergueram.
— Com a garganta cortada?
Assenti.
— Isso é estranho. Tem certeza de que foi isso mesmo que aconteceu... com as duas? Quer dizer, nós só estamos confiando no relato de Clarence, certo?
Eddie ficou batendo com um lápis na mesa enquanto refletia sobre a questão.
— Clarence é bem legal, mas por favor... Todos sabemos que ele não bate bem da cabeça.
— É por isso que eu trouxe você aqui. E é por isso que eu queria consultar este banco de dados. Nós acompanhamos a maior parte das mortes relacionadas a Strigoi.
Eddie olhou por cima do meu ombro quando eu puxei um texto sobre Tamara Donahue de cinco anos antes. E lá estava a informação: ela tinha sido encontrada com a garganta cortada. Outra busca sobre Melody Croft — a amiga de Krissy e Carla — também revelou um relatório da noite anterior. Meu pessoal tinha chegado rapidamente ao local e enviado as informações com rapidez. A garganta de Melody também tinha sido cortada. Havia outros relatos sobre assassinatos ligados aos Strigoi em Los Angeles — afinal de contas, aquela era uma cidade grande —, mas só dois se encaixavam no perfil.
— Você ainda está pensando sobre o que Clarence disse... sobre os caçadores de vampiros? — Eddie me perguntou.
— Não sei. Só achei que valia a pena conferir.
— Os guardiões deram sua opinião em ambos os casos — Eddie disse e apontou para a tela. — Eles também declararam que foram ataques dos Strigoi... sangue foi tirado das duas garotas. É isso que os Strigoi fazem. Não sei o que os caçadores de vampiros fazem, mas não acho que beber sangue seja parte de seus objetivos.
— Eu também não. Mas nenhuma das garotas perdeu todo o sangue.
— Os Strigoi nem sempre bebem todo o sangue das vítimas. Principalmente se forem interrompidos. Esta garota, Melody, foi morta perto de um clube, certo? Quer dizer, se o assassino dela ouviu alguém se aproximar, simplesmente fugiu.
— Acho que sim. Mas e esse negócio de cortar a garganta?
Eddie deu de ombros.
— Temos toneladas de relatos sobre Strigoi que fazem coisas malucas. É só olhar para Keith e o olho dele. Eles são maldosos. Não dá para entender logicamente suas ações.
— Hum, vamos deixar o olho dele fora disso. — Keith não era um caso que eu desejasse discutir. Eu me recostei na cadeira e suspirei. — É só que tem algo me incomodando nesses assassinatos. O sangue meio bebido. A garganta cortada. São duas coisas estranhas que aconteceram juntas. E eu não gosto de coisas estranhas.
— Então você está na profissão errada — Eddie disse, mais uma vez sorridente.
Eu retribuí o sorriso, ainda revirando tudo na cabeça.
— Acho que sim.
Como eu não disse mais nada, ele me lançou um olhar curioso.
— Você não pensa realmente... não acha que caçadores de vampiros existam, acha?
— Não, na verdade não. Não temos evidências para pensar que eles existam.
— Mas... — Eddie ofereceu.
— Mas — eu disse. — Por acaso a ideia não deixa você um pouco apavorado? Quer dizer, agora você sabe no que deve prestar atenção. Outros Moroi. Strigoi. Eles se destacam. Mas você imagina um caçador de vampiros humano? — Fiz um gesto indicando os alunos reunidos na biblioteca. — Você não iria saber distinguir uma ameaça.
Eddie sacudiu a cabeça.
— Na verdade, é bem fácil. Basta tratar todos como ameaça.
Eu não sabia dizer se isso fazia eu me sentir melhor ou não. Quando voltei ao alojamento, mais tarde, a sra. Weathers me chamou.
— A sra. Terwilliger deixou uma coisa aqui para você.
— Ela trouxe algo para mim? — perguntei, surpresa. — Não é dinheiro, é? — Até
agora, nenhum dos cafés que eu comprara tinha sido reembolsado.
Como resposta, a sra. Weathers me entregou um livro encadernado em couro. No começo, achei que era o mesmo que eu tinha acabado de terminar. Então examinei a capa mais de perto e li “Volume 2”. Um post-it amarelo preso ao livro trazia a caligrafia fina da sra. Terwilliger: “Próximo”. Suspirei e agradeci à sra. Weathers. Eu faria qualquer coisa que a minha professora pedisse, mas estava torcendo um pouco para ela me dar um livro que fosse mais relato histórico e menos receitas de feitiços.
Enquanto caminhava pelo corredor, ouvi algumas exclamações assustadas na outra ponta. Vi uma porta aberta e algumas pessoas aglomeradas ao redor dela. Passei apressada pelo meu próprio quarto e fui ver qual era o problema. Era o quarto de Julia e de Kristin. Apesar de eu não ter certeza se realmente tinha o direito, forcei minha passagem entre algumas meninas. Ninguém me deteve.
Vi Kristin deitada na cama, contorcendo-se com violência. Ela suava muito e suas pupilas estavam tão dilatadas que mal dava para ver a íris. Julia estava sentada ao lado dela na cama, junto com mais duas meninas que eu não conhecia bem. Ela ergueu os olhos quando eu me aproximei, com o olhar cheio de medo.
— Kristin? — exclamei. — Kristin, está tudo bem com você? — Como não houve resposta, eu me virei para as outras. — O que aconteceu com ela?
Ansiosa, Julia voltou a dobrar uma toalhinha úmida e a colocou na testa de Kristin.
— Não sabemos. Ela está assim desde hoje de manhã.
Eu fiquei encarando, incrédula.
— Então ela precisa ir ao médico! Precisamos chamar alguém agora. Vou chamar a sra. Weathers...
— Não! — Julia se levantou em um pulo e pegou o meu braço. — Não pode fazer isso. O motivo por que ela está assim... bom, nós achamos que é por causa da tatuagem.
— Tatuagem?
Uma das outras meninas pegou o pulso de Kristin e o virou para que eu pudesse ver a parte de dentro. Ali, tatuada em tinta cor de cobre reluzente, havia uma margarida. Eu me lembrei de que Kristin queria fazer uma tatuagem celestial, mas, pelo que eu sabia, ela não tinha dinheiro para isso.
— Quando foi que ela fez?
— Hoje, mais cedo — Julia disse. Ela parecia envergonhada. — Eu emprestei o dinheiro para ela.
Fiquei olhando para aquela flor faiscante, tão linda e de aparência inofensiva. Eu não tinha dúvidas de que ela era a causa da crise. A substância misturada à tinta para dar barato não estava reagindo da maneira correta com o sistema dela.
— Ela precisa de um médico — eu disse com firmeza.
— Não pode fazer isso. Vamos ter que contar a eles sobre as tatuagens — a garota que segurava a mão de Kristin disse. — Ninguém acreditou em Trey, mas se vissem algo assim... bom, podem acabar com tudo na Nevermore.
Que bom! Eu pensei. Mas, para a minha surpresa, as palavras dela foram recebidas com acenos de cabeça afirmativos das outras meninas reunidas. Será que elas estavam loucas? Quantas delas tinham aquelas tatuagens ridículas? E será que protegê-las era mais importante do que proteger a vida de Kristin?
Julia engoliu em seco e se sentou na beirada da cama.
— Nós estávamos esperando que fosse passar. Talvez ela precise de um tempinho para se acostumar.
Kristin gemeu. Uma das pernas dela tremia como se estivesse sofrendo um espasmo muscular e então parou. Seus olhos com suas pupilas dilatadas olhavam para o nada e sua respiração era superficial.
— Já passou um dia inteiro! — observei. — Gente, ela pode morrer.
— Como é que você sabe? — Julia perguntou, surpresa.
Eu não sabia, não com certeza. Mas, de vez em quando, as tatuagens dos alquimistas também não davam certo. Em noventa e nove por cento dos casos, o corpo humano aceitava o sangue de vampiro usado em uma tatuagem de alquimista, permitindo que suas propriedades se infundissem nas nossas, mais ou menos como um dampiro de baixo grau. Nós obtínhamos vigor e vida longa, apesar de não adquirirmos as habilidades físicas incríveis que os dampiros possuíam. O sangue era diluído demais para isso. Mesmo assim, sempre havia uma pessoa que ocasionalmente passava mal por causa de uma tatuagem de alquimista. O sangue as envenenava. Era pior ainda porque o ouro e outras substâncias químicas funcionavam para fazer com que o sangue se infundisse à pele, de modo que nunca tivesse como sair. Quem não recebia tratamento, morria.
Sangue de vampiro não causava barato eufórico, por isso eu não achava que houvesse algum naquela tatuagem. Mas o tratamento que nós usávamos para as tatuagens dos alquimistas consistia em dissociar os componentes metálicos das tatuagens para liberar o sangue, permitindo então que o corpo o limpasse naturalmente. Eu precisava acreditar que o mesmo princípio se aplicava ali. Só que eu não conhecia a fórmula exata do composto dos alquimistas e nem tinha certeza se conseguiria dissociar o cobre como acontecia com o ouro.
Mordi o lábio, pensando, e finalmente tomei uma decisão.
— Já volto — disse a elas e disparei para o meu quarto. Durante o tempo todo, uma voz interna me repreendia pela minha tolice. Eu não tinha nada que tentar fazer o que estava prestes a fazer. Devia ir direto falar com a sra. Weathers.
Em vez disso, abri a porta do meu quarto e encontrei Jill com seu laptop.
— Oi, Sydney — ela disse e sorriu. — Estou conversando por mensagem instantânea com Lee e... — Ela olhou para mim com mais atenção. — Qual é o problema?
Eu liguei o meu próprio laptop e coloquei na cama. Enquanto ele ia começando a carregar, peguei uma maleta de metal que preparei com todo cuidado, mas que não achava que iria usar.
— Você pode pegar um pouco de água para mim? Rápido?
Jill hesitou só por um instante antes de assentir.
— Já volto — ela disse e saiu da cama em um pulo.
Quando ela saiu do quarto, abri a maleta com uma chave que sempre carregava comigo. Dentro dela havia pequenas quantidades de vários compostos dos alquimistas, os tipos de substâncias que misturávamos e usávamos como parte do nosso trabalho. Havia uma grande quantidade de alguns ingredientes — como os que eu usava para dissolver corpos de Strigoi. De outros, eu só tinha amostras. Meu laptop terminou de ligar e eu entrei no banco de dados dos alquimistas. Depois de algumas buscas, encontrei a fórmula do tratamento antitatuagem.
Foi aí que Jill voltou, trazendo uma caneca cheia de água.
— Será que isto é o suficiente? Se nós estivéssemos em outro clima, eu poderia ter puxado do ar.
— Está ótimo — eu disse, contente pelo clima mantê-la afastada da magia.
Dei uma olhada na fórmula, analisando quais ingredientes faziam o quê. Mentalmente, descartei aqueles que tinha certeza que eram específicos para o ouro. Também não tinha alguns deles, mas tinha quase certeza de que só tratavam o desconforto da pele e não eram fundamentais. Comecei a tirar ingredientes do meu kit, medindo com cuidado — apesar de continuar fazendo tudo com a maior rapidez possível — em outra caneca. Fiz as substituições necessárias e adicionei um ingrediente que eu tinha certeza que iria desmembrar o cobre, mas cuja quantidade necessária tive que supor. Quando terminei, peguei a água de Jill e adicionei a mesma quantidade das instruções originais. O resultado final era um líquido que parecia solução de iodo.
Ergui a caneca e me senti um pouco como se fosse uma cientista maluca. Jill tinha me observado sem fazer comentários, sentindo a urgência. Seu rosto estava cheio de preocupação, mas ela estava engolindo todas as perguntas que eu sabia que queria fazer.
Ela me seguiu quando eu saí do quarto e voltei para o de Kristin. Havia mais meninas lá do que antes, e sinceramente era um milagre a sra. Weathers não estar escutando toda aquela algazarra. Para um grupo tão dedicado a proteger suas preciosas tatuagens, elas não estavam agindo com muita discrição.
Retornei à cabeceira de Kristin e a encontrei no mesmo estado.
— Mostre o pulso dela de novo e segure o braço o mais imóvel possível para mim. — Não dirigi a ordem para ninguém específico, mas falei com força suficiente para saber que alguém iria obedecer. Estava certa. — Se não funcionar, vamos chamar um médico — meu tom de voz não deixava espaço para discussão.
Julia parecia mais pálida do que Jill, mas me deu um aceno fraco com a cabeça para concordar. Peguei a toalhinha que ela estava usando e molhei na minha caneca. Na verdade, eu nunca tinha visto ninguém fazer isso, e precisei tirar minhas próprias conclusões a respeito de como aplicar. Fiz uma oração silenciosa e pressionei a toalhinha contra a tatuagem no pulso de Kristin.
Ela soltou um grito estrangulado e seu corpo todo corcoveou. Duas garotas que estavam perto ajudaram a segurá-la por instinto. Fios de fumaça saíam de onde eu estava segurando a toalhinha contra a pele dela, e senti um cheiro pungente e acre. Esperei uma quantidade de tempo que julguei adequada e finalmente removi a toalhinha.
A margarida bonitinha se transformava perante os nossos olhos. Suas linhas definidas começaram a escorrer e ficar borradas. A cor de cobre começou a mudar, foi escurecendo para um verde azulado. Em pouco tempo, o desenho estava irreconhecível.
Era uma mancha amorfa. Ao redor dela, vergões apareceram na pele, mas pareciam ser uma irritação superficial, e não algo perigoso.
Ainda assim, a coisa toda parecia terrível, e eu fiquei encarando, horrorizada. O que eu tinha feito?
Todas as outras garotas estavam em silêncio, sem saber o que fazer. Alguns minutos se passaram, mas pareceram horas. De repente, Kristin parou de se contorcer. A respiração dela ainda parecia difícil, mas ela piscou e seus olhos entraram em foco, como se ela estivesse vendo o mundo pela primeira vez. Suas pupilas continuavam enormes, mas ela conseguiu olhar ao redor e finalmente focar em mim.
— Sydney — ela disse sem fôlego. — Obrigada.

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