27 de setembro de 2017

Capítulo 14

— DELE MESMO?
Não consegui me segurar. A piada já tinha saído antes que eu me desse conta.
— Não — ela se empoleirou na ponta da cama e mordeu o lábio inferior. — Talvez “salvar” não seja a palavra certa. Mas precisamos buscá-lo. Ele está preso em Los Angeles.
Esfreguei os olhos, sentei-me ereta e esperei alguns segundos, só para o caso de aquilo ser só um sonho. Não. Nada mudou. Peguei meu celular da mesinha de cabeceira e resmunguei ao ver a tela.
— Jill, ainda não são nem seis horas.
Comecei a questionar se Adrian estaria acordado àquela hora, mas então me lembrei de que ele provavelmente estava funcionando em horário noturno. Se fizessem as coisas do seu jeito, os Moroi iriam para a cama mais ou menos no horário que é o fim da manhã para o resto de nós.
— Eu sei — ela disse com a voz baixinha. — Sinto muito, eu não iria pedir se não fosse importante. Ele pegou uma carona para lá ontem à noite porque queria ver aquelas... aquelas garotas Moroi de novo. Lee devia estar em Los Angeles também, por isso Adrian achou que teria carona para voltar. Só que ele não consegue falar com Lee, então agora ele não pode voltar. Adrian, quero dizer. Ele está preso lá, e de ressaca.
Comecei a voltar a deitar.
— Não tenho muita compaixão por isso. Talvez ele aprenda uma lição.
— Sydney, por favor.
Coloquei um braço por cima dos olhos. Talvez se eu parecesse estar dormindo, ela me deixaria em paz. Uma pergunta de repente surgiu na minha cabeça e eu afastei o braço.
— Como você sabe disso? Ele ligou? — eu não tinha o sono superleve, mas teria escutado o celular dela tocar.
Jill desviou os olhos de mim. Com a testa franzida, eu me sentei ereta.
— Jill? Como é que você sabe dessas coisas?
— Por favor — ela suspirou. — Nós não podemos simplesmente ir lá buscá-lo?
— Não até você me dizer o que está acontecendo.
Uma sensação estranha se espalhava pela minha pele. Já fazia um tempo que eu estava me sentindo excluída de algo importante e, naquele momento, de repente percebi que estava prestes a descobrir o que os Moroi estavam escondendo de mim.
— Você não pode contar para ninguém — ela disse, e finalmente me olhou nos olhos mais uma vez.
Bati com o dedo na tatuagem do meu rosto.
— Dificilmente eu poderia contar algo assim para qualquer um.
— Não, para ninguém. Não para os alquimistas. Não para Keith. Não para qualquer um dos outros Moroi ou dampiros que ainda não saibam.
Não contar para os alquimistas? Isso seria um problema. Entre todas as outras loucuras da minha vida, por mais que as minhas missões me enfurecessem e independente do tempo que eu passasse com os vampiros, eu nunca tinha questionado a quem devia ser leal. Eu tinha que contar aos alquimistas se estivesse acontecendo alguma coisa com Jill e com os outros. Era a minha obrigação para com eles, para com a humanidade.
Claro que parte da minha obrigação para com os alquimistas era cuidar de Jill, e o que quer que a estivesse incomodando agora estava ligado a seu bem-estar. Por meio segundo, pensei em mentir para ela, mas imediatamente mandei a ideia para longe. Eu não podia fazer isso. Se eu fosse guardar o segredo dela, eu guardaria. Se não fosse guardar, então precisava dizer a ela de antemão.
— Eu não vou contar — eu disse. Acho que as palavras surpreenderam tanto a mim quanto a ela. Jill me examinou sob a luz fraca e deve ter finalmente chegado à conclusão de que eu estava dizendo a verdade. Ela assentiu devagar.
— Adrian e eu estamos conectados. Tipo, com uma conexão espiritual.
Senti meus olhos se arregalarem de descrença.
— Como é que isso... — tudo de repente se encaixou, com as peças que estavam faltando. — Durante o ataque. Você... você...
— Eu morri — Jill disse sem rodeios. — Foi a maior confusão quando os assassinos Moroi chegaram. Todo mundo achou que eles estavam atrás de Lissa, por isso a maior parte dos guardiões foi rodeá-la. Eddie foi o único a me defender, mas não foi rápido o suficiente. Aquele homem, ele... — Jill colocou a mão no centro do peito e estremeceu. — Ele me apunhalou. Ele... ele me matou. Foi aí que Adrian entrou na história. Ele usou o espírito para me curar e me trazer de volta, e agora nós temos um laço. Tudo aconteceu tão rápido... As pessoas que estavam lá nem se deram conta do que ele tinha feito.
A minha mente girava. Um laço espiritual. O espírito era um elemento problemático para os alquimistas, principalmente por termos tão poucos registros dele. O nosso mundo era feito de documentos e conhecimento, de modo que qualquer lacuna fazia com que nos sentíssemos fracos. Sinais do uso de espírito tinham sido registrados ao longo dos séculos, mas ninguém tinha percebido que era um elemento por si só.
Aqueles acontecimentos tinham sido registrados como fenômenos mágicos aleatórios. Apenas recentemente, quando Vasilisa Dragomir tinha se exposto, o espírito havia sido descoberto, junto com seus numerosos efeitos psíquicos. Ela e Rose haviam tido um laço de espírito, o único registrado na modernidade. A cura era um dos atributos mais notáveis do espírito, e Vasilisa tinha trazido Rose de volta de um acidente de carro. Aquilo tinha criado uma conexão psíquica entre elas, que só se desfez quando Rose teve uma segunda experiência quase mortal.
— Você consegue enxergar dentro da cabeça dele — eu disse, sem fôlego. — Os pensamentos dele. Os sentimentos dele.
Tantas coisas começaram a fazer sentido. Como por exemplo a maneira como Jill sempre sabia tudo sobre Adrian, mesmo quando ele afirmava não ter contado nada para ela.
Ela assentiu.
— Eu não quero enxergar. Acredite em mim. Mas não posso fazer nada. Rose disse que, com o tempo, eu vou aprender a me controlar para deixar os sentimentos dele de fora, mas não consigo fazer isso ainda. E ele tem tantos, Sydney. Tantos sentimentos. Ele sente tudo com tanta força... amor, pesar, raiva. As emoções dele sobem e descem, disparam por todos os lados. O que aconteceu entre ele e Rose... faz com que ele se dilacere. Às vezes é difícil se concentrar em mim com tudo isso que está acontecendo com ele. Pelo menos é só durante uma parte do tempo. Eu realmente não consigo controlar quando acontece.
Eu não disse nada, mas fiquei pensando se alguns daqueles sentimentos voláteis não eram parte da tendência do elemento espírito de levar as pessoas que o possuíam à loucura. Ou talvez só fosse parte da personalidade inata de Adrian. Tudo isso era irrelevante, por enquanto.
— Mas ele não pode sentir você, certo? Só funciona em um sentido? — eu perguntei.
Rose era capaz de ler os pensamentos de Vasilisa e ver suas experiências no dia a dia — mas não funcionava na outra direção. Fiquei achando que fosse a mesma coisa agora, mas com o espírito não se podia partir de ideias pré-concebidas.
— Certo — ela concordou.
— É por isso que você... é por isso que você sempre sabe coisas sobre ele. Como as minhas visitas. E quando ele teve vontade de pizza. É por isso que ele está aqui, por isso que Abe queria que ele estivesse aqui.
Jill franziu a testa.
— Abe? Não, foi mais uma escolha do grupo o fato de Adrian ter vindo para cá. Rose e Lissa acharam que seria melhor se nós dois estivéssemos juntos enquanto nos acostumávamos com o laço, e eu também queria que ele estivesse por perto. Por que você achou que Abe estivesse envolvido?
— Hum, por nada — eu disse. Jill não devia ter visto a instrução que Abe dera a Adrian para que ficasse na casa de Clarence. — Eu só estava confusa a respeito de uma coisa.
— Podemos ir agora? — ela implorou. — Eu respondi às suas perguntas.
— Primeiro, deixe-me ter certeza de que entendi uma coisa — eu disse. — Explique como ele foi parar em Los Angeles e por que não tem como ir embora.
Jill juntou as mãos e desviou o olhar mais uma vez, um hábito que eu estava começando a associar às ocasiões em que ela sabia que suas informações não seriam bem recebidas.
— Ele, hum, saiu da casa de Clarence ontem à noite. Porque estava entediado. Pegou carona até a cidade... até Palm Springs... e acabou caindo na balada com algumas pessoas que estavam indo para Los Angeles. Então, ele foi com eles. E quando estava em um clube, encontrou umas garotas... umas garotas Moroi... e foi para casa com elas. E daí ele passou a noite lá e meio que desmaiou. Até agora. Agora ele acordou. E quer ir para casa. Para a casa de Clarence.
Com toda essa conversa de cair na balada e garotas, uma ideia desconcertante estava se formando na minha mente.
— Jill, exatamente quanto disso tudo você realmente experienciou?
Ela ainda evitava o meu olhar.
— Isso não é importante.
— Para mim, é — eu disse. Na noite em que Jill tinha acordado chorando... Adrian também estava com aquelas garotas. Será que ela estava vivendo as experiências sexuais dele? — Onde ele estava com a cabeça? Ele sabe que você está aqui, que você vive tudo que ele faz, mas nunca para pra... ai meu Deus. O primeiro dia de aula. A sra. Chang estava certa, não é? Você estava de ressaca. Por tabela, pelo menos.
E ela acordava enjoada quase todas as outras manhãs — porque Adrian também estava de ressaca.
Jill assentiu.
— Não havia nada físico que eles pudessem testar... como sangue ou algo assim... para provar que era isso. Mas era. Era como se eu mesma tivesse bebido. Eu com toda a certeza me sentia assim. Foi horrível.
Estendi o braço e virei o rosto dela na minha direção, para que ela fosse obrigada a me encarar.
— E está agora de novo.
Havia mais luz no quarto, já que o sol tinha se erguido mais alto, e eu enxergava os sinais mais uma vez. A palidez doentia e os olhos vermelhos. Eu não ficaria surpresa em saber que ela também estava com dor de estômago. Abaixei a mão e sacudi a cabeça, aborrecida.
— Ele pode ficar lá.
— Sydney!
— Ele merece. Eu sei que você sente... algo... por ele. — Se era afeto fraternal ou romântico, realmente não fazia diferença. — Mas você não pode ficar cuidando dele como se fosse um bebê e atender a todo pedido que ele envia.
— Ele não está pedindo, não exatamente — ela disse. — Eu só sinto que é o que ele quer.
— Bom, ele devia ter pensado nisso antes de se meter nessa confusão. Ele é capaz de descobrir um jeito de voltar.
— Acabou a bateria do celular dele.
— Ele pode pedir um telefone emprestado para alguma das “amigas” novas dele.
— Ele está em agonia — ela disse.
— A vida é assim — eu disse.
— Eu estou em agonia.
Suspirei.
— Jill...
— Não, estou falando sério. E não é só a ressaca. Quer dizer, sim, parte disso é a ressaca. E como ele está passando mal sem tomar nada, a mesma coisa está acontecendo comigo! Além do mais... os pensamentos dele... Credo. — Jill apoiou a testa na mão. — Não consigo me livrar da infelicidade dele. Parece... parece que tem uma marreta batendo na minha cabeça. Não consigo evitar isso. Não consigo fazer nada além de pensar em como ele está se sentindo péssimo! E isso me deixa péssima. Ou eu acho que estou péssima. Não sei — ela suspirou. — Por favor, Sydney. Podemos ir?
— Você sabe onde ele está? — perguntei.
— Sei.
— Tudo bem, então. Eu vou — deslizei pela beirada da cama. Ela se levantou comigo.
— Eu também vou.
— Não — eu disse. — Você volta para a cama. Tome algumas aspirinas e veja se consegue ficar melhor. — Também havia algumas coisas que eu queria dizer em particular a Adrian. Sabia que se ela estava constantemente conectada a ele acabaria “ouvindo” a nossa conversa, mas seria bem mais fácil dizer a ele o que eu queria se ela não estivesse presente em carne e osso, olhando para mim com aqueles olhões.
— Mas como é que você...
— Não quero que você fique enjoada no carro. Só me ligue se algo mudar ou se ele for embora ou algo assim.
As reclamações seguintes de Jill não foram assim tão impositivas, ou porque ela não estava a fim ou só porque estava disposta a se sentir agradecida por qualquer pessoa que fosse “salvar” Adrian. Ela não tinha o endereço exato, mas tinha uma descrição muito detalhada do apartamento em que ele estava, que era vizinho a um hotel muito famoso.
Quando fui ver onde ficava, descobri que o hotel na verdade se localizava em Long Beach, e isso significava que eu teria de atravessar toda a Los Angeles. Eu tinha uma viagem de duas horas pela frente. O café seria indispensável.
O dia pelo menos estava bonito, e quase não tinha congestionamento assim tão cedo no domingo. Olhando para o sol e para o céu azul, fiquei pensando em como seria legal se eu estivesse fazendo a viagem a bordo de um conversível, com a capota abaixada. Também teria sido legal se eu estivesse viajando por outro motivo que não fosse resgatar um vampiro baladeiro que não tinha como voltar para casa.
Eu ainda estava com dificuldade para aceitar a ideia de Jill e Adrian unidos por um laço de espírito. A noção de que alguém podia trazer outra pessoa de volta dos mortos não era algo que se conciliava bem com as minhas crenças religiosas. Era tão desagradável quanto outra proeza do espírito: restaurar um Strigoi. Nós também tínhamos dois casos documentados de isso ter acontecido — dois Strigoi transformados por magia do espírito de volta a sua forma original. Um deles era uma mulher chamada Sonya Karp. O outro era Dimitri Belikov. Entre aquilo e toda essa ressurreição, o espírito realmente estava começando a me apavorar. Tanto poder assim não parecia correto.
Cheguei a Long Beach bem dentro da minha previsão e não tive problemas para encontrar o condomínio em que ele estava. Ficava bem na frente de um hotel à beira-mar chamado Cascadia. Como Jill não tinha ligado para informar nenhuma mudança de local, supus que Adrian continuava enfurnado ali. Foi fácil encontrar lugar para estacionar na rua àquela hora do dia, e eu fiz uma pausa do lado de fora para apreciar a extensão azul acinzentada do Pacífico no horizonte a oeste. Foi de tirar o fôlego, principalmente depois da minha primeira semana no deserto de Palm Springs. Quase desejei que Jill tivesse vindo. Talvez ficar próxima de tanta água a fizesse se sentir melhor.
Os apartamentos ficavam em um prédio de estuque cor de pêssego com três andares, duas unidades em cada andar. Pelas lembranças de Adrian, Jill se recordava de ele ter ido até o alto do prédio e virar à direita. Retracei esses passos e cheguei a uma porta azul com uma aldrava pesada de latão. Bati.
Ninguém respondeu durante quase um minuto, então tentei de novo, com mais força. Estava prestes a fazer a terceira tentativa quando ouvi a porta ser destrancada. Uma fresta se abriu e uma garota espiou para fora.
Ela era obviamente Moroi, com o corpo magérrimo de modelo de passarela, a pele pálida e perfeita que me pareceu especialmente irritante, levando em conta que eu tinha certeza de que uma espinha iria sair na minha testa muito em breve. Ela tinha a minha idade, talvez fosse um pouco mais velha, com cabelo preto liso e olhos de um azul profundo. Ela parecia uma espécie de boneca de outro planeta. Também estava meio sonolenta.
— O que foi? — ela me olhou de cima a baixo. — Está vendendo alguma coisa?
Perto daquela Moroi alta e perfeita, eu de repente me senti acanhada e desarrumada com minha saia de linho e camisa de abotoar.
— Adrian está aqui?
— Quem?
— Adrian. Alto. Cabelo castanho. Olhos verdes.
Ela franziu a testa.
— Você quer dizer Jet?
— Eu... eu não sei bem. Por acaso ele fuma feito uma chaminé?
A garota assentiu, compreensiva.
— Fuma. Você deve estar falando de Jet — ela olhou para trás e gritou: — Ei, Jet! Tem uma vendedora aqui que quer falar com você.
— Mande embora — respondeu uma voz conhecida.
A Moroi abriu mais a porta e fez um sinal para eu entrar.
— Ele está na sacada.
Atravessei uma sala de estar que servia como alerta do que iria acontecer caso Jill perdesse toda a noção de organização e respeito próprio. O lugar era um desastre. Um desastre feminino. Pilhas de roupa suja cobriam o chão e louças usadas cobriam cada centímetro quadrado que não estava ocupado por garrafas de cerveja vazias. Um vidrinho de esmalte caído tinha criado uma mancha rosa-chiclete no tapete. No sofá, enrolada em cobertores, uma garota Moroi loira deu uma olhada sonolenta em mim e em seguida voltou a dormir.
Fui desviando de tudo e cheguei até onde Adrian estava, passando por uma porta envidraçada de correr. Ele estava em pé na sacada, debruçado sobre o parapeito, de costas para mim. O ar da manhã era quente e limpo, de modo que, naturalmente, ele tentava estragar tudo com seu cigarro.
— Me diga uma coisa, Sage — ele disse sem se virar para mim. — Por que diabos alguém coloca um prédio perto do mar e não faz as sacadas viradas para a água? Elas foram feitas para dar vista para as montanhas atrás de nós. A menos que os vizinhos comecem a fazer algo interessante, estou pronto para declarar que esta estrutura é um desperdício total.
Cruzei os braços e olhei cheia de raiva para as costas dele.
— Fico muito contente de ter a sua opinião tão valiosa a esse respeito. Vou me assegurar de fazer essa observação quando entrar com a minha queixa sobre a insuficiência de vistas para o mar para o conselho municipal.
Ele se virou para trás com uma espécie de sorriso se contorcendo em seus lábios.
— O que você está fazendo aqui? Achei que ia estar na igreja ou algo do tipo.
— O que você acha? Estou aqui por causa das súplicas de uma garota de quinze anos que não merece o que você faz ela passar.
Qualquer vestígio de sorriso desapareceu.
— Ah. Ela contou para você — ele se virou de costas.
— Contou, e vocês todos deviam ter me contado antes! Isso é sério... é descomunal.
— E sem dúvida é algo que os alquimistas adorariam estudar — dava para imaginar o sorrisinho cínico dele perfeitamente.
— Eu prometi a ela que não vou contar. De todo jeito, vocês tinham que ter me contado. É uma informação que eu precisava saber, já que sou eu quem tem de ficar de babá de todos vocês.
— “Ficar de babá” é meio exagerado, Sage.
— Levando em conta a cena atual? Realmente, acho que não.
Adrian não disse nada, e eu fiz uma rápida avaliação dele. Usava uma calça jeans escura de boa qualidade e uma camisa de algodão vermelha com a qual devia ter dormido, a julgar pelo amassado. Seus pés estavam descalços.
— Você trouxe casaco? — perguntei.
— Não.
Voltei para dentro e dei uma busca no meio da bagunça. A garota Moroi loira dormia pesado e a que tinha me deixado entrar estava esparramada em uma cama desfeita em outro quarto. Finalmente encontrei as meias e os sapatos de Adrian jogados em um canto. Eu me apressei em pegar tudo, voltei para fora e joguei no chão da sacada, ao lado dele.
— Coloque isto. Estamos de saída.
— Você não é minha mãe.
— Não, a sua está cumprindo pena por perjúrio e roubo, se me lembro bem.
Foi uma coisa muito, muito maldosa de dizer, mas ao mesmo tempo era a verdade.
E serviu para chamar a atenção dele.
A cabeça de Adrian se virou para trás em um gesto brusco. A raiva brilhava nas profundezas de seus olhos verdes; era a primeira vez que eu via aquilo de verdade nele.
— Nunca mais volte a falar dela. Você não faz ideia do que está dizendo.
A raiva dele era um pouco intimidadora, mas eu fiquei firme.
— Na verdade, fui eu a responsável por encontrar os registros que ela havia roubado.
— Ela teve seus motivos — ele disse entredentes.
— Você tem tanta disposição para defender uma pessoa que foi condenada por um crime e, no entanto, não tem nenhuma consideração por Jill... que não fez nada.
— Tenho muita consideração por ela, sim! — Ele fez uma pausa para acender um cigarro com as mãos trêmulas e desconfiei que também estava tentando controlar suas emoções. — Penso nela o tempo todo. Como é que poderia não pensar? Ela está aqui... Eu não consigo sentir, mas ela está sempre aqui, sempre escutando as coisas na minha cabeça, escutando coisas que eu nem quero que ela escute. Sentindo coisas que eu não quero que ela sinta. — Ele tragou o cigarro e se virou para olhar a vista, apesar de eu duvidar que ele estivesse enxergando alguma coisa.
— Se você tem tanta consciência dela, então por que faz coisas assim? — Fiz um gesto para o entorno. — Como é que você é capaz de beber se sabe que isso a afeta também? Como foi capaz de fazer — eu disse com uma careta — as coisas que fez com essas garotas, sabendo que ela era capaz de “ver”? Ela tem quinze anos.
— Eu sei, eu sei — ele respondeu. — Eu não sabia sobre a bebida... não no começo. Quando ela foi até a casa de Clarence depois da escola e me contou, eu parei. Parei de verdade. Mas daí... quando vocês foram lá na sexta, ela disse para eu beber, porque era fim de semana. Acho que ela não estava muito preocupada em passar mal. Por isso, eu disse a mim mesmo: “Só vou tomar algumas”. Só que, ontem à noite, foi mais do que isso. E daí as coisas ficaram meio loucas, e eu vim parar aqui e... o que eu estou fazendo? Não tenho que justificar as minhas ações para você.
— Não acho que você possa justificá-las para ninguém — eu estava furiosa. Meu sangue fervia.
— Olha só quem fala, Sage — ele apontou um dedo acusatório para mim. — Pelo menos eu faço alguma coisa. Mas e você? Você deixa o mundo seguir em frente sem a sua participação. Fica aí parada enquanto aquele imbecil do Keith trata você feito merda, e só sorri e concorda. Você não tem amor-próprio. Não revida. Até o velho Abe parece ter você na palma da mão. Será que Rose estava certa quando disse que ele tinha algo contra você? Ou será que ele é apenas mais alguém contra quem você não consegue se opor?
Eu me esforcei muito para não deixar transparecer como aquelas palavras tinham me atingido fundo.
— Você não sabe nada sobre mim, Adrian Ivashkov. Eu revido sim, e muito.
— Quase acreditei.
Lancei um sorriso contido para ele.
— Eu só não faço um espetáculo quando demonstro oposição. Isso se chama ser responsável.
— Claro. Qualquer coisa que te ajude a dormir tranquila à noite.
Joguei as mãos para o alto.
— Bom, esta é a questão: eu não durmo mais à noite porque tenho que vir salvar você de sua própria estupidez. Podemos ir embora agora? Por favor?
Como resposta, ele apagou o cigarro e começou a calçar as meias e os sapatos. Ele ergueu os olhos para mim ao fazer isso, já totalmente sem raiva. Os humores dele mudavam com tanta facilidade como se fossem acionados por um interruptor de luz.
— Você precisa me tirar de lá. Da casa de Clarence — a voz dele era firme e séria. — Ele é um sujeito bem bacana, mas vou enlouquecer se tiver que ficar lá.
— Está comparando com o seu comportamento excelente quando não está lá? — Dei uma olhada para o apartamento atrás de mim. — Talvez as suas duas fãs tenham lugar para você.
— Ei, tenha um pouco de respeito. Elas são pessoas de verdade e têm nome. Carla e Krissy — ele franziu a testa. — Ou será que era Missy?
Eu suspirei.
— Eu já disse antes, não tenho controle nenhum sobre as suas acomodações. Por que é tão difícil assim para você arrumar um lugar para morar? Por que precisa de mim?
— Porque eu não tenho quase dinheiro nenhum, Sage. O meu velho me cortou. Ele me dá uma mesada que mal paga os meus cigarros.
Pensei em sugerir que ele parasse de fumar, mas esse não seria um rumo útil para a nossa conversa.
— Sinto muito. De verdade. Se eu pensar em algo, digo para você. Além do mais, por acaso Abe não quer que você fique lá? — resolvi abrir o jogo. — Eu ouvi vocês dois conversando no primeiro dia. Ele pediu para você fazer algo para ele.
Adrian se endireitou com os sapatos calçados.
— É, eu não sei que negócio é esse. Você ouviu como ele foi totalmente vago também? Acho que ele só está tentando sacanear comigo, quer me manter ocupado porque, em algum lugar daquele coração ferrado dele, ele se sente mal pelo que aconteceu com...
Adrian fechou a boca, mas eu pude ouvir o nome que não foi proferido: Rose. Uma tristeza terrível passou pelo seu rosto, e seus olhos pareceram perdidos e melancólicos. Eu me lembrei de quando estava no carro com Jill e ela tinha falado algo sobre Rose, sobre como a lembrança dela atormentava Adrian. Sabendo o que sabia agora a respeito do laço, fiquei com a sensação de que havia muito pouco de Jill naquelas palavras. Aquela tinha sido uma linha direta com Adrian. Olhando pra ele, eu mal conseguia compreender o alcance daquela dor, e também não sabia como ajudar. Eu só sabia que de repente tinha compreendido um pouquinho melhor por que ele queria tanto afogar as mágoas, não que isso ajudasse a tornar o vício mais saudável.
— Adrian — eu disse sem jeito. — Eu...
— Deixe para lá — ele disse. — Você não sabe o que é amar alguém daquele jeito e depois pegarem esse amor e jogarem de volta na sua cara...
Um grito de furar os tímpanos de repente cortou o ar. Adrian se encolheu mais do que eu, comprovando o lado negativo da audição de vampiro: sons irritantes eram ainda mais irritantes.
Em uníssono, corremos para dentro do apartamento. A garota loira estava sentada ereta no sofá, tão sobressaltada quanto nós. A outra garota, que tinha aberto a porta para mim, estava parada na frente do quarto, pálida como a morte, com um celular apertado na mão.
— Qual é o problema? — perguntei.
Ela abriu a boca para falar e então me olhou de cima a baixo duas vezes, parecendo lembrar que eu era humana.
— Tudo bem, Carla — Adrian disse. — Ela sabe sobre nós. Pode confiar nela.
Isso era tudo de que Carla precisava. Ela se jogou nos braços de Adrian e começou a chorar de maneira descontrolada.
— Ah, Jet — ele disse entre soluços. — Não acredito que aconteceu com ela. Como foi que isso aconteceu?
— O que aconteceu? — a outra garota Moroi perguntou e se levantou cambaleante.
Assim como Adrian, parecia que ela tinha dormido com aquela roupa. Ousei ter esperança de que Jill não tivesse sido submetida a tanta indecência quanto eu tinha imaginado originalmente.
— Conte para nós o que aconteceu, Carla — Adrian disse com um tom de voz gentil que eu só o tinha visto usar perto de Jill.
— Eu sou a Krissy — ela fungou. — E a nossa amiga... a nossa amiga... — Ela enxugou os olhos quando mais lágrimas caíram. — Acabei de receber a ligação. A nossa amiga... outra Moroi que estuda na nossa faculdade... ela morreu. — Krissy ergueu os olhos para a outra garota, que agora eu presumi ser Carla. — Foi Melody. Ela foi morta por um Strigoi ontem à noite.
Carla engoliu em seco e começou a chorar, causando mais lágrimas em Krissy. Olhei para Adrian, nós dois estávamos boquiabertos. Mesmo que não soubéssemos quem era essa tal de Melody, um assassinato por Strigoi continuava sendo uma coisa terrível e trágica. Minha mente de alquimista entrou em ação imediatamente. Eu precisava garantir que a cena do crime estivesse protegida e que o assassinato fosse mantido em segredo dos humanos.
— Onde? — eu perguntei. — Onde foi que aconteceu?
— Em West Hollywood — Carla respondeu. — Atrás de um clube qualquer.
Eu relaxei um pouco, apesar de ainda estar abalada por aquela tragédia toda. Era uma região movimentada e cheia de gente, que com toda a certeza estaria no radar dos alquimistas. Se algum humano tivesse descoberto, os alquimistas já teriam dado conta do assunto há muito tempo.
— Pelo menos ela não foi transformada — Carla disse, desamparada. — Ela pode descansar em paz. Claro que os monstros não foram capazes de deixá-la em paz sem mutilar seu corpo.
Fiquei olhando fixamente, sentindo-me gelada.
— Como assim?
Ela esfregou o nariz na camisa de Adrian.
— Melody. Eles não só beberam o sangue dela. Também cortaram sua garganta.

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