27 de setembro de 2017

Capítulo 13

MEU CELULAR TOCOU AO NASCER DO SOL no dia seguinte. Eu já estava em pé, por estar acostumada a acordar cedo, mas Jill rolou para o lado na cama e colocou o travesseiro em cima da cabeça.
— Faça isso parar — ela resmungou.
Eu atendi e descobri que Eddie estava do outro lado da linha.
— Eu estou aqui embaixo — ele disse. — Pronto para treinar um pouco de autodefesa antes que fique quente demais.
— Vocês vão ter que fazer isso sem mim — eu disse. Estava com a sensação de que Eddie estava levando muito a sério a promessa feita a Clarence de nos treinar. Eu não sentia aquele tipo de obrigação. — Tenho uma tonelada de lição de casa para fazer. Além disso, tenho certeza de que a sra. Terwilliger vai me fazer sair para buscar café para ela hoje.
— Bom, então mande Jill descer — Eddie disse.
Eu dei uma olhada para o casulo de cobertores na cama dela.
— Acho que isso é mais fácil falar do que fazer.
Surpreendentemente, ela conseguiu acordar o suficiente para escovar os dentes, tomar uma aspirina para dor de cabeça e vestir uma roupa de ginástica. Ela me deu tchau, e eu prometi ir ver como eles estavam se saindo mais tarde. Não demorou muito para a sra. Terwilliger ligar com seu pedido de café, e eu me preparei para mais um dia de tentar conciliar meu próprio trabalho com o dela.
Fui até o café Spencer’s e nem reparei que Trey estava lá até parar bem na frente dele.
— É para a sra. Terwilliger? — ele perguntou, e apontou para o cappuccino com calda de caramelo.
— Hã? — ergui os olhos. Trey era o meu atendente do caixa. — Você trabalha aqui?
Ele assentiu.
— Preciso ganhar dinheiro de algum jeito para pagar as minhas despesas.
Entreguei algum dinheiro para ele e reparei que tinha me cobrado a metade do preço.
— Não leve a mal, mas você não parece estar muito bem — eu lhe disse. Parecia cansado e meio desgastado. Um exame mais próximo mostrou que ele também tinha hematomas e cortes.
— É, bom, o meu dia ontem foi meio difícil.
Hesitei. Aquele era um comentário que convidava para mais conversa, e não havia ninguém na fila atrás de mim.
— O que aconteceu? — perguntei, ciente de que era aquilo que ele esperava.
Trey franziu a testa.
— Aquele imbecil do Greg Slade causou a maior confusão nos testes para o time de futebol americano ontem. Quer dizer, os resultados ainda não saíram, mas é bem óbvio que ele vai ficar com a posição de lançador. Ele parecia uma máquina, passava por cima de todo mundo — ele estendeu a mão esquerda e mostrou alguns dedos enfaixados. — Ele também pisou na minha mão.
Eu me encolhi ao me lembrar da exibição atlética descontrolada de Slade na educação física. A política do ensino médio e a posição de lançador no time de futebol americano não eram coisas muito relevantes para mim. A verdade é que fiquei com pena de Trey, mas o que me intrigava era a fonte por trás das tatuagens. Os avisos de Keith a respeito de não criar confusão retornaram, mas eu não consegui me segurar.
— Eu sei das tatuagens — disse. — Julia e Kristin me contaram sobre elas. E agora eu sei por que você ficou desconfiado da minha... mas não é o que você pensa, de verdade.
— Não foi o que eu ouvi dizer. A maioria das pessoas diz que você está falando isso porque não quer contar onde fez.
Fiquei um pouco surpresa com aquilo. Eu tinha quase certeza de que Julia e Kristin tinham acreditado em mim. Será que elas realmente estavam espalhando o oposto?
— Eu não fazia ideia disso.
Ele deu de ombros com um sorrisinho nos lábios.
— Não se preocupe. Eu acredito em você. Há algo meio ingênuo e encantador em você. Não parece ser do tipo que trapaceia.
— Ei — dei uma bronca. — Eu não sou ingênua.
— Foi um elogio.
— Há quanto tempo as pessoas estão fazendo essas tatuagens? — perguntei, achando melhor esclarecer logo. — Ouvi dizer que começou no ano passado.
Ele entregou o meu café, pensativo.
— É, mas foi no fim do ano passado. Do ano letivo, quero dizer.
— E elas vêm de um lugar chamado Nevermore?
— Pelo que sei, sim. — Trey me olhou desconfiado. — Por quê?
— Só estou curiosa — respondi com doçura.
Dois universitários vestidos como mendigos ricos entraram na fila atrás de mim e ficaram nos olhando com impaciência.
— Será que podemos ser atendidos?
Trey lhes lançou um sorriso forçado e então virou os olhos para mim enquanto eu me afastava.
— A gente se vê por aí, Melbourne.
Voltei para Amberwood e entreguei o café da sra. Terwilliger. Eu não estava a fim de ficar acorrentada a ela o dia todo, por isso perguntei se podia ir para outro lugar se ficasse com o celular ligado. Ela concordou. A biblioteca tinha muita atividade e — ironicamente — muito barulho para o meu gosto. Eu queria a solidão do meu quarto.
Enquanto atravessava o gramado para pegar o ônibus, avistei algumas silhuetas conhecidas atrás de um aglomerado de árvores. Mudei de direção e encontrei Jill e Eddie treinando em uma pequena clareira. Micah estava sentado no chão de pernas cruzadas, assistindo a tudo com avidez. Ele acenou para mim quando me aproximei.
— Eu não sabia que o irmão de vocês era mestre de kung fu — ele observou.
— Não é kung fu — Eddie disse, mal-humorado, sem nunca tirar os olhos de Jill.
— Não faz diferença — Micah falou. — É incrível do mesmo jeito.
Eddie deu um golpe como se fosse atingir a lateral do corpo de Jill. Ela reagiu com bastante rapidez com um bloqueio, apesar de não tão ter sido tão rápida a ponto de impedir o ataque dele. Se o golpe fosse pra valer, ele teria acertado. Mesmo assim, ele pareceu satisfeito com os reflexos dela.
— Muito bem. Isso teria bloqueado parte de um golpe, mas você ainda iria sentir. O melhor é conseguir se abaixar e desviar completamente, mas isso exige um pouco mais de treino.
Jill assentiu, obediente.
— Quando vamos poder trabalhar isso?
Eddie olhou para ela com orgulho. A expressão se suavizou depois de alguns momentos de exame.
— Hoje, não. Tem sol demais.
Jill começou a reclamar e então se deteve. Ela estava de novo com aquela aparência exausta por causa do sol, e suava muito. Ela olhou para o céu por um momento, como se estivesse implorando para que nos desse um pouco de nuvens. Como ele permaneceu inalterado, ela concordou com Eddie.
— Tudo bem. Mas vamos fazer de novo amanhã no mesmo horário? Ou quem sabe mais cedo. Ou talvez hoje à noite! Será que podemos fazer os dois? Treinar hoje à noite quando o sol estiver baixando e de novo pela manhã? Você se incomoda?
Eddie sorriu, surpreso com o entusiasmo dela.
— Como você quiser.
Jill retribuiu o sorriso e se sentou ao meu lado, colocando-se o máximo possível embaixo da sombra. Eddie ficou me olhando, cheio de expectativa.
— O que foi? — perguntei.
— Você não tinha que aprender a dar uns socos?
Eu revirei os olhos.
— Não. Quando é que eu vou precisar disso?
Jill me cutucou com o cotovelo.
— Vai lá, Sydney!
Com relutância, permiti que Eddie me desse uma aula rápida sobre como dar socos sem machucar a mão. Eu mal prestei atenção e achei que só estava divertindo os outros.
Quando Eddie terminou minha lição, Micah perguntou:
— Ei, você poderia mostrar alguns golpes de ninja para mim também?
— Isso não tem nada a ver com ninjas — Eddie reclamou, sem parar de sorrir. — Venha.
Micah se levantou em um pulo e Eddie o conduziu por alguns golpes rudimentares. Parecia que Eddie estava sobretudo avaliando Micah e suas capacidades. Depois de um tempo, Eddie ficou à vontade e permitiu que Micah treinasse alguns golpes ofensivos para se livrar de algum ataque.
— Ei — Jill reclamou quando Eddie acertou um chute em Micah. Ele nem se incomodou, dando de ombros como os meninos fazem. — Não é justo. Você não me acertou quando nós estávamos treinando.
Eddie foi pego de surpresa o suficiente para que Micah conseguisse acertar um golpe nele. Eddie lançou um olhar de respeito a contragosto para ele, e então disse a Jill:
— Aquilo foi diferente.
— Porque eu sou menina? — ela questionou. — Você nunca se segurava com Rose.
— Quem é Rose? — Micah perguntou.
— Outra amiga — Eddie explicou. Para Jill, ele disse: — E Rose tem vários anos de experiência a mais do que você.
— Ela também tem mais do que Micah. Você estava facilitando para mim.
Eddie ficou corado e manteve os olhos em Micah.
— Não estava, não — ele disse.
— Estava, sim — ela balbuciou. Quando os rapazes retomaram seu embate, ela disse baixinho para mim: — Como eu vou aprender se ele tem medo de me machucar?
Observei os dois e analisei o que sabia sobre Eddie até então.
— Acho que é mais complicado do que isso. Acho que ele também acredita que você precisa se arriscar... pois se ele estiver fazendo um trabalho bom o bastante você não precisará se defender.
— Ele está fazendo um ótimo trabalho. Você tinha que ter visto o desempenho dele durante o ataque — o rosto dela assumiu aquele ar assombrado que sempre aparecia quando o ataque que a obrigara a se esconder era mencionado. — Mas, mesmo assim, eu preciso aprender — ela baixou a voz ainda mais. — Eu realmente quero aprender a usar a minha magia para lutar também, não que eu vá poder treinar muito nesse deserto.
Estremeci ao me lembrar de sua exibição na noite anterior.
— Vai haver ocasião — eu disse de maneira vaga.
Eu me levantei e disse que precisava fazer lição de casa. Micah perguntou a Eddie e Jill se eles queriam almoçar. Eddie disse sim imediatamente. Jill olhou para mim em busca de ajuda.
— É só um almoço — Eddie disse com uma mensagem nas entrelinhas. Eu sabia que ele continuava achando Micah inofensivo. Eu não tinha certeza, mas depois de ver como Jill estava apaixonada por Lee, passei a achar que Micah teria de fazer alguns movimentos bem agressivos para chegar a algum lugar.
— Tenho certeza de que vai ficar tudo bem — eu disse.
Jill pareceu aliviada, e o grupo se afastou. Passei o dia todo terminando aquele livro miserável para a sra. Terwilliger. Eu continuava achando que ter de copiar os feitiços e rituais arcaicos palavra por palavra era um desperdício de tempo. O único propósito que eu via naquilo era que, se em algum momento ela precisasse fazer referência a eles para sua pesquisa, ela teria um arquivo digital fácil para checar sem arriscar estragar o livro antigo.
Estava anoitecendo quando terminei o livro mais o resto da minha lição de casa. Jill ainda não tinha voltado, e eu resolvi aproveitar a oportunidade para verificar uma coisa que estava me incomodando.
Mais cedo, Jill tinha mencionado que Eddie a defendera no ataque. Eu achava, desde o começo, que havia algo de estranho naquele ataque inicial, algo que não estavam me dizendo. Assim, entrei na rede dos alquimistas e separei tudo que tínhamos sobre os rebeldes Moroi.
Naturalmente, estava tudo documentado. Nós precisávamos estar a par dos acontecimentos principais entre os Moroi, e aquele assunto era um dos mais importantes. De algum modo, os alquimistas tinham conseguido imagens da corte Moroi, com manifestantes enfileirados na frente de um dos prédios administrativos. Os guardiões dampiros eram fáceis de identificar, já que se misturavam e mantinham a ordem. Para a minha surpresa, reconheci Dimitri Belikov — o namorado de Rose — entre os que estavam controlando a multidão. Ele era fácil de identificar porque quase sempre era mais alto do que todo mundo ao seu redor. Os dampiros parecem muito humanos, e até eu tinha de reconhecer que ele era bem bonito. Ele tinha uma beleza rústica e, até mesmo em uma fotografia, dava para ver sua ferocidade enquanto observava a multidão.
Outras fotografias da manifestação confirmaram o que eu já sabia. Sem dúvida, a maior parte das pessoas apoiava a jovem rainha. As pessoas contrárias a ela eram a minoria — mas eram ruidosas e perigosas. Um vídeo de um noticiário humano de Denver mostrava dois Moroi quase se metendo em uma briga de bar. Eles gritavam sobre rainhas e justiça, sendo que a maior parte daquilo não faria sentido para um observador humano. O que fazia aquele vídeo ser especial era o sujeito que o tinha filmado — algum humano aleatório com uma câmera de celular — afirmar ter visto caninos em ambos os homens que discutiam. O dono do vídeo tinha apresentado sua gravação afirmando que tinha presenciado uma briga de vampiros, mas ninguém lhe deu muita credibilidade. A imagem estava granulada demais para qualquer coisa aparecer. Mesmo assim, era um lembrete sobre o que poderia acontecer se a situação dos Moroi ficasse fora de controle.
Fui conferir a situação atual e vi que a rainha Vasilisa de fato estava tentando fazer aprovar uma lei para que seu governo não dependesse da existência de pelo menos mais uma pessoa em sua família real. Especialistas alquimistas avaliavam que demoraria três meses, que era mais ou menos o que Rose tinha dito. O número pairava na minha cabeça como uma bomba-relógio tiquetaqueando. Nós precisávamos manter Jill em segurança durante três meses. E, durante três meses, os inimigos de Vasilisa tentariam, mais do que nunca, pegar Jill. Se ela morresse, o governo de Vasilisa iria terminar — junto com suas tentativas de consertar o sistema.
No entanto, não tinha sido nada daquilo o motivo da minha pesquisa. Eu queria saber sobre o ataque inicial a Jill, aquele sobre o qual ninguém falava. O que eu encontrei não ajudou muito. Na época, não havia nenhum alquimista por lá, claro, de modo que as nossas informações tinham como base o que as fontes Moroi haviam informado. A única coisa que sabíamos era que “a irmã da rainha tinha sido atacada com maldade e severidade — mas tinha se recuperado completamente”. Pelo que eu tinha observado, aquilo certamente era verdade. Jill não apresentava sinais de ferimentos e o ataque tinha ocorrido uma semana antes de ela ir para Palm Springs. Será que isso era tempo suficiente para se recuperar de um ataque com “maldade e severidade”? E será que um ataque como aquele era suficiente para fazer com que ela acordasse aos berros?
Eu não sabia, mas não conseguia me livrar das minhas desconfianças. Quando Jill voltou para o quarto, mais tarde, estava de tão bom humor que não tive coragem de interrogá-la. Também me lembrei, tarde demais, de que tinha a intenção de pesquisar sobre o caso da sobrinha de Clarence e sua morte bizarra com a garganta cortada. O caso de Jill tinha me distraído. Deixei a questão de lado e fui dormir cedo.
Amanhã, pensei sonolenta. Faço isso amanhã.
O dia seguinte chegou bem mais rápido do que eu esperava. Acordei de um sono profundo por alguém que me sacudia e, por uma fração de segundo, o antigo pesadelo estava ali, aquele em que os alquimistas me levavam embora no meio da noite. Ao reconhecer Jill, consegui segurar meu berro, mas foi por pouco.
— Ei, ei — dei uma bronca. Havia luz do lado de fora, mas era arroxeada. O sol mal tinha nascido. — O que está acontecendo? Qual é o problema?
Jill olhou para mim com o rosto sombrio e os olhos arregalados de medo.
— É Adrian. Você precisa salvá-lo.

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