27 de setembro de 2017

Capítulo 11

ANTES DAS AULAS NO DIA SEGUINTE, deixei um recado com alguém na sede dos alquimistas, dizendo que precisava que “o sr. e a sra. Melrose” mandassem um recado para que Jill não precisasse fazer educação física — ou, pelo menos, as atividades ao ar livre. Eu esperava que eles fossem fazer isso rápido. Os alquimistas eram rápidos quando queriam, mas às vezes tinham ideias estranhas a respeito do que era prioridade. Eu esperava que eles não tivessem a mesma atitude de Keith em relação às dificuldades de Jill.
Mas eu sabia que nada iria acontecer naquele mesmo dia, por isso Jill teve que sofrer em mais uma aula de educação física — e eu tive que sofrer assistindo ao seu sofrimento. O mais terrível foi que Jill não choramingou nem tentou escapar de nada. Ela nem demonstrou qualquer sinal do episódio da noite anterior. Chegou com otimismo e determinação, como se talvez naquele dia o sol não fosse afetá-la. Mas não demorou muito para ela começar a ficar mole. Ela parecia enjoada e cansada, e o meu próprio desempenho foi um pouco falho porque ficava sempre de olho nela, com medo que desmaiasse.
Micah foi a salvação. Mais uma vez, ele trocou de time, destemido — desta vez, desde o começo da aula. Ele cobriu a posição dela como tinha feito da outra vez, permitindo que nem a professora nem os colegas reparassem nela — bom, tirando Laurel, que pareceu notar e ficar irritada com tudo que ele fez. Os olhos dela passavam bravos dele para Jill, e ela ficava jogando o cabelo por cima do ombro para chamar a atenção dele. Eu me diverti um pouco ao ver que a atenção de Micah permaneceu unicamente em manter a bola longe de Jill.
Micah também foi imediatamente para o lado dela quando a aula terminou, levando uma garrafa d’água, que ela aceitou com gratidão. Eu também fiquei agradecida, mas ver como ele cuidava dela trouxe todas as minhas preocupações de volta. Ela cumpriu sua palavra, no entanto. Retribuiu a atenção dele com simpatia, mas definitivamente não dava para chamar aquilo de paquera. Mas ele não fez segredo de suas intenções, e eu fiquei preocupada, achando que seria melhor se ela não precisasse lidar com aquilo. Eu falei sério quando disse que confiava nela, mas não podia deixar de pensar que seria muito mais fácil para todo mundo se ele parasse de dar em cima dela. Isso exigiria “a conversa”.
Nada feliz com o que eu tinha que fazer, alcancei Micah na frente dos vestiários. Nós dois estávamos esperando Jill terminar, e eu aproveitei o tempo que tinha sozinha com ele.
— Oi, Micah — eu disse. — Preciso falar com você...
— Oi — ele respondeu todo alegre. Seus olhos azuis estavam arregalados e animados. — Eu tive uma ideia e queria falar com você. Se vocês não conseguirem uma dispensa para ela, quem sabe conseguem mudar o horário das aulas dela? Se ela fizesse educação física no primeiro horário do dia, não seria assim tão quente. Talvez não seja tão difícil para ela. Quer dizer, acho que ela gostaria de participar de algumas dessas atividades.
— Ela iria gostar, sim — eu disse devagar. — E essa é uma ótima ideia.
— Eu conheço algumas pessoas que trabalham na secretaria e vou pedir a elas que encontrem algumas opções para ver se é possível reencaixar as outras aulas dela. — Ele fez um bico fingido. — Vou ficar triste por não estar na mesma aula que ela, mas vai valer a pena por saber que ela não está sofrendo tanto.
— É — concordei sem muito entusiasmo, de repente me sentindo perdida. Ele realmente tinha dado uma boa ideia. Ele era até altruísta o suficiente para abrir mão da oportunidade de ficar perto dela em nome de um bem maior. Como é que podia ter “a conversa” com ele agora? Como é que eu de repente ia dizer: “Deixe a minha irmã em paz”, se ele estava tendo tanto trabalho para ser legal? Eu era tão ruim quanto Eddie, ao evitar o confronto com Micah. Aquele sujeito era adorável demais para seu próprio bem.
Antes que conseguisse dar uma resposta, Micah tomou uma direção inesperada.
— Mas você realmente devia levá-la ao médico. Não acho que ela tenha alergia ao sol.
— Ah, é? — perguntei, surpresa. — Mas você não viu como ela sofre durante a aula todos os dias?
— Não, não, pode acreditar, ela com toda a certeza tem um problema com o sol — ele se apressou em me garantir. — Mas pode ser que o diagnóstico esteja errado. Eu fiz uma pesquisa sobre alergia ao sol, e as pessoas costumam ter urticária junto. Essa fraqueza generalizada que ela tem... não sei. Acho que pode ser outra coisa.
Ai não.
— Tipo o quê?
— Não sei — ele refletiu. — Mas vou continuar pesquisando teorias e depois te digo o que descobri.
Que maravilha.
A educação física também me deixou ver pela primeira vez uma das tatuagens metálicas de Amberwood em ação. Era impossível não observar Greg Slade durante a aula, e eu não fui a única que me distraí com ele. Assim como Kristin e Julia tinham dito, ele realmente estava mais rápido e mais forte. Ele deu mergulhos que ninguém mais tinha reflexos rápidos o suficiente para dar. Quando ele acertava a bola, era uma surpresa não escutarmos um estrondo sônico logo depois. Isso lhe valeu elogios no começo, mas logo reparei uma coisa. Havia algo de descontrolado no jogo dele. Ele estava cheio de habilidade, sim, mas às vezes não se concentrava. Os golpes poderosos nem sempre ajudavam porque ele mandava a bola para fora. E quando corria para fazer uma jogada, era raro levar em conta quem estava ao seu redor. Quando um garoto da minha sala de inglês foi derrubado e caiu de costas no chão, simplesmente por estar no caminho entre Slade e a bola, a srta. Carson parou o jogo e vociferou sua insatisfação com a agressão de Slade. Ele engoliu tudo com um sorriso sacana meio desanimado.
— Pena que Eddie não está nessa aula — Jill disse depois. — Ele iria fazer frente ao Slade.
— Talvez seja melhor se ninguém reparar — observei. Eddie, pelo que eu tinha ouvido dizer, já era o astro de sua aula de educação física. Isso fazia parte do tipo físico naturalmente atlético dos dampiros, e eu sabia que na verdade ele estava se esforçando para não ser bom demais em tudo.
Fui falar com a sra. Terwilliger depois da educação física, feliz por ver que ela já estava bem provida com seu próprio café. Passei a maior parte do período lendo o livro e fazendo anotações no meu laptop. Depois que tinha feito uma parte, ela veio conferir o meu trabalho.
— Você é muito organizada — ela disse, olhando por cima do meu ombro. — Títulos e intertítulos e mais intertítulos.
— Obrigada — eu disse. Jared Sage tinha sido muito específico ao ensinar habilidades de pesquisa a suas filhas.
A sra. Terwilliger deu um gole no café e continuou a ler a tela.
— Você não listou os passos dos rituais e dos encantos — ela observou alguns momentos depois. — Só fez um resumo em poucas linhas.
Bom, era verdade, aquele era o objetivo de fazer anotações.
— Eu citei todos os números das páginas — eu disse. — Se precisar checar os componentes específicos, tem uma referência fácil.
— Não... retorne e coloque todos os passos e os ingredientes nas anotações. Quero ter tudo no mesmo lugar.
A minha vontade era dizer: está tudo no mesmo lugar. No livro. As anotações eram uma condensação do material, não a repetição do texto original, palavra por palavra.
Mas a sra. Terwilliger já tinha se afastado e olhava para o seu arquivo sem prestar muita atenção enquanto balbuciava a si mesma que uma pasta estava no lugar errado. Com um suspiro, voltei para o começo do livro, tentando não pensar em como aquilo iria me atrasar. Pelo menos eu só estava fazendo aquilo para ganhar crédito, não nota.
Fiquei lá até depois do toque do último sinal, tentando recuperar um pouco do tempo perdido. Quando voltei ao quarto, precisei acordar Jill, que dormia pesado depois de um dia exaustivo.
— Boa notícia — disse a ela quando piscou para mim com olhos sonolentos. — Hoje é dia de fornecimento.
Definitivamente, aquelas eram palavras que eu nunca achei que fosse dizer. Também não achei que ficaria animada com aquilo. E, com certeza, não estava nada animada com a ideia de Jill morder o pescoço de Dorothy. Mas eu estava me sentindo mal por Jill, e então ficava contente em saber que ela iria se alimentar. Estar sujeita a um fornecimento de sangue tão limitado devia tornar as coisas duplamente difíceis para ela.
Nós nos encontramos com Eddie no andar de baixo quando chegou a hora de partir. Ele olhou para Jill com preocupação.
— Está tudo bem com você?
— Estou bem — ela disse com um sorriso. Ela não parecia nem de longe tão mal quanto antes. Estremeci de pensar o que Eddie teria feito se estivesse mesmo na nossa aula e a tivesse visto em sua pior forma.
— Por que isso ainda está acontecendo? — ele me perguntou. —Você não ia falar com Keith?
— Vai demorar um pouco — eu disse, sem dar maiores detalhes, e os levei até onde o Pingado estava no estacionamento dos alunos. — Vamos providenciar.
Se os alquimistas não mandassem o bilhete, eu iria tentar a sugestão de Micah e transferi-la para a aula de educação física mais cedo pela manhã.
— Sabemos que sim — Jill disse. Eu só senti a simpatia na voz dela de leve, lembrando a mim mesma que ela sabia sobre a minha briga de ontem com Keith. Eu torcia para que ela não a mencionasse na frente de Eddie e fui salva quando ela passou para um tema mais aleatório, até surpreendente. — Acha que podemos pegar uma pizza no caminho? Adrian não quer mais comer a comida de Dorothy.
— Que péssimo para ele — Eddie observou ao entrar no banco de trás, deixando o assento da frente para Jill. — Ter uma chef particular à mão para preparar qualquer coisa que ele precisar. Não sei como ele sobrevive.
Eu dei risada, mas Jill pareceu ultrajada em nome de Adrian.
— Não é a mesma coisa! Ela só prepara coisas super-refinadas.
— Ainda estou esperando para saber qual é o problema — Eddie disse.
— Ela também tenta fazer tudo bem saudável. Diz que é melhor para Clarence. Então, nunca tem sal nem pimenta nem manteiga. — Caramba, com que frequência Jill e Adrian se falam? — Não tem nenhum sabor nem nada. Ele está ficando louco.
— Tudo parece estar deixando ele louco — observei, me lembrando de sua súplica por novas acomodações. — E não pode estar tão ruim assim. Por acaso ele não foi para Los Angeles ontem à noite?
A única resposta de Jill foi franzir a testa.
Ainda assim, eu tinha a sensação de que iríamos passar um bom tempo na casa de Clarence, e eu particularmente não queria comer nada preparado ali. Então, foi mais por motivos egoístas que eu concordei em passar em um lugar que tinha comida para viagem e comprar algumas pizzas. O rosto de Adrian ficou radiante quando entramos na sala de estar, onde — tirando as partidas de sinuca — parecia ser o lugar em que ele mais passava tempo na casa de Clarence.
— Belezinha — ele declarou e se levantou em um salto. — Você é uma santa. Talvez até uma deusa.
— Opa — eu disse. — Quem pagou fui eu.
Adrian levou uma das caixas até o sofá, para tristeza de Dorothy. Ela saiu apressada, falando alguma coisa sobre pratos e guardanapos. Adrian me lançou um aceno de cabeça conciliador.
— Você também não é nada mau, Sage — ele disse.
— Ora, ora, o que temos aqui? — Clarence entrou cambaleante na sala. Eu não tinha reparado, mas ele usava bengala para se locomover. Tinha uma cobra de cristal no alto, que era ao mesmo tempo impressionante e assustadora. Era bem o tipo de coisa que seria de se esperar de um vampiro idoso. — Parece que temos uma festa.
Lee estava com ele e nos cumprimentou com sorrisos e acenos de cabeça. Os olhos dele se demoraram brevemente em Jill e ele fez questão de se sentar perto dela — mas não perto demais. Jill se animou como não se animava havia dias. Todo mundo estava começando a atacar as pizzas quando Dorothy apareceu à porta com um novo visitante.
Senti meus olhos se arregalarem. Era Keith.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, mantendo um tom de voz neutro.
Ele deu uma piscadela.
— Vim conferir se todo mundo estava bem. Essa é a minha função... tomar conta de todo mundo.
Keith estava mais animado e mais simpático quando se serviu de pizza, sem indicações da briga que havia ocorrido da última vez. Ele sorriu e conversou com todos como se fossem seus melhores amigos, coisa que me deixou totalmente chocada. Ninguém mais parecia achar que havia algo de estranho no comportamento dele — mas, bom, por que achariam? Nenhum deles tinha o mesmo histórico que eu tinha com Keith.
Não — isso não era bem verdade. Apesar de estar envolvido em uma conversa profunda com Eddie, Adrian fez uma pausa para me lançar um olhar curioso, perguntando em silêncio sobre a briga do dia anterior. Ele deu uma olhada em Keith e depois voltou a olhar para mim. Dei de ombros, mostrando a ele que também estava confusa em relação à mudança de humor. Talvez Keith estivesse arrependido da explosão do dia anterior. Claro que seria bem mais fácil de aceitar se tivesse vindo acompanhado de uma desculpa.
Mordisquei um pedaço de pizza de queijo, mas a maior parte do tempo fiquei observando os outros. Jill contava para Adrian, toda animada, como tinham sido seus primeiro dias, e reparei que ela tinha deixado de fora todas as partes negativas. Ele a escutou com indulgência, assentindo e fazendo interjeições com comentários espirituosos ocasionalmente. Algumas das coisas que ela disse a ele eram bem básicas, e fiquei impressionada por não terem sido mencionadas em suas conversas telefônicas. Talvez ele simplesmente tivesse tanta coisa a dizer nessas ocasiões que não sobrava oportunidade para ela. Assim, ele não mencionou seu tédio nem suas outras reclamações.
Clarence conversava de vez em quando com Eddie e Lee, mas seus olhos sempre se desviavam para Jill. Havia uma expressão de melancolia em seu olhar, e eu me lembrei de que a sobrinha dele só era um pouco mais velha do que Jill. Fiquei imaginando se talvez parte da razão pela qual ele se mostrou tão disposto a nos acolher foi alguma espécie de tentativa de recuperar uma parte da vida em família que tinha se perdido.
Keith tinha se sentado perto de mim, coisa que no começo me deixou pouco à vontade, mas que depois me deu oportunidade de entender o pensamento dele. Ao ver que os outros estavam envolvidos em conversas, perguntei, baixinho:
— Você já ouviu falar em imitações de tatuagens dos alquimistas que chegaram à população em geral?
Ele me olhou assustado em resposta.
— Nem sei o que isso significa.
— Em Amberwood está na moda. Parece que existe um lugar na cidade que faz tatuagens metálicas, e elas têm propriedades especiais... mais ou menos como as nossas. Algumas só deixam a pessoa alegre. Outras meio que têm efeito de esteroide.
Ele franziu a testa.
— Elas não são feitas com ouro, são?
— Não. Prata e cobre. Por isso não duram. Provavelmente para que os tatuadores possam ganhar mais dinheiro.
— Mas então não podem ser nossas — ele argumentou. — Há séculos não usamos esses metais em tatuagens.
— É, mas alguém pode estar usando a tecnologia dos alquimistas para criar essas tatuagens.
— Só para deixar as pessoas chapadas? — ele perguntou. — Eu nem saberia como chegar a isso com agentes metálicos.
— Eu tenho algumas ideias — respondi.
— Deixe-me adivinhar. Elas incluem misturas com narcóticos. — Quando eu assenti, ele suspirou e me olhou como se eu tivesse dez anos de idade. — Sydney, o mais provável é que alguém tenha descoberto algum método grosseiro de tatuar que é parecido com o nosso, mas que não tem nenhuma relação com a gente. Se for isso, não podemos fazer nada a respeito. Drogas existem. Coisas ruins acontecem. Se não tiver relação com os assuntos dos alquimistas, não é da nossa conta.
— Mas e se tiver conexão com os assuntos dos alquimistas? — perguntei.
Ele resmungou.
— Está vendo? É por isso que eu estava preocupado com a sua vinda para cá, com essa sua tendência de aparecer com teorias paralelas malucas.
— Eu não...
— Por favor, não me envergonhe — ele sibilou e lançou um olhar para os outros. — Nem com eles, nem com nossos superiores.
A bronca dele me silenciou, principalmente pela surpresa. O que ele quis dizer com essa minha “tendência”? Será que ele realmente estava sugerindo que tinha feito algum tipo de análise psicológica profunda de mim anos antes? A ideia de que eu iria envergonhá-lo era ridícula... e, no entanto, suas palavras plantaram uma dúvida na minha cabeça. Talvez as tatuagens em Amberwood fossem apenas uma modinha sem relação com nada.
— Como está a educação física? — As palavras de Adrian me arrastaram para longe dos meus próprios pensamentos. Ele ainda estava ouvindo o resumo da escola de Jill. Ela fez uma careta frente à pergunta.
— Não muito bem — ela reconheceu e fez uma retrospectiva de alguns dos piores momentos.
Eddie me lançou um olhar significativo, parecido com o de antes.
— Você não pode continuar desse jeito — Lee exclamou. — O sol aqui é brutal.
— Concordo — disse Keith, ninguém menos. — Sydney, por que você não me disse como estava difícil?
Acho que o meu queixo bateu no chão.
— Eu disse! Foi por isso que tentei fazer você entrar em contato com a escola.
— Na verdade, você não me contou a história toda. — Ele lançou um de seus sorrisos melosos para Jill. — Não se preocupe, vou resolver isso para você. Vou entrar em contato com os responsáveis da escola... e com os alquimistas.
— Eu já falei com eles — argumentei.
Mas eu não precisava ter dito nada. Keith já tinha mudado de assunto e conversava com Clarence a respeito de algo irrelevante. De onde tinha vindo essa mudança radical de atitude? Ontem, o desconforto de Jill tinha sido de baixa prioridade. Hoje, Keith era o cavaleiro de armadura brilhante que saía em sua defesa. E, com isso, ele sugeria que quem estava pisando na bola era eu. Esse é o plano dele, percebi. Ele não me quer aqui.
Nunca quis. E então, uma coisa ainda pior me ocorreu.
Ele vai usar isso para começar a montar um caso contra mim.
Do outro lado da sala, Adrian chamou a minha atenção. Ele sabia. Ele tinha escutado quando eu discuti com Keith na entrada da casa. Adrian começou a falar, e eu sabia que ele ia pegar Keith em sua mentira. Foi um gesto galante, mas não era o que eu queria.
Eu daria conta de Keith sozinha.
— Como estava Los Angeles? — perguntei logo, antes que Adrian tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa. Ele olhou para mim com um ar curioso, sem dúvida imaginando por que eu não queria permitir que ele testemunhasse a meu favor. — Você foi para lá ontem à noite com Lee, não foi?
Adrian parecia confuso, mas um sorriso se abriu em seu rosto.
— Fui — ele finalmente disse. — Foi ótimo. Lee me mostrou como é a vida na faculdade.
Lee deu risada.
— Eu não iria assim tão longe. Não sei onde você se meteu metade da noite.
Adrian ficou com uma expressão no rosto que de algum modo era encantadora, mas que me deu vontade de dar um tapa nele ao mesmo tempo.
— Nós nos separamos. Eu quis conhecer alguns dos outros Moroi da área.
Nem Eddie conseguiu ficar em silêncio com isso.
— Ah, é assim que você descreve?
Jill se levantou de maneira abrupta.
— Vou tomar o meu sangue agora. Tudo bem?
Houve um momento de silêncio constrangedor, principalmente porque acho que ninguém realmente sabia a quem ela estava pedindo licença.
— Claro que sim, querida — Clarence disse e assumiu seu papel de anfitrião. — Acredito que Dorothy esteja na cozinha.
Jill assentiu de leve e saiu apressada da sala. Nós, que sobramos, trocamos olhares confusos.
— Há algum problema? — Lee perguntou, parecendo preocupado. — Será que eu... será que devo ir falar com ela?
— Ela só está estressada — eu disse, sem coragem de mencionar os episódios de grito e de choro.
— Pensei em uma coisa que pode ser divertida para ela... para todos nós fazermos — ele disse, e ficou esperando pelas reações. Ele olhou ao redor e então voltou os olhos para mim. Acho que eu tinha sido escolhida para fazer o papel de mãe. — Se você achar que tudo bem. Quer dizer... é meio bobo, mas achei que podíamos ir jogar minigolfe qualquer noite dessas. Tem um monte de fontes e laguinhos no campo. Ela tem domínio sobre a água, certo? Deve estar sentindo falta disso aqui.
— Está mesmo — Eddie respondeu com a testa franzida. — Ela mencionou isso ontem.
Eu estremeci. Keith estava mandando uma mensagem de texto pelo telefone e ficou paralisado.
Por mais que tivéssemos nossas diferenças, continuávamos compartilhando o grosso do treinamento que tínhamos recebido, e nós dois ficamos pouco à vontade de pensar na magia dos Moroi.
— Acho que ela vai gostar muito — Adrian falou. Ele parecia relutante em admitir. Acho que ainda estava pouco à vontade com a ideia de Lee estar interessado por Jill, por mais que os dois se dessem bem. A sugestão de Lee era ao mesmo tempo inocente e demonstrava preocupação. Era difícil encontrar algum problema nela.
Lee deixou a cabeça pender para o lado, pensativo.
— O toque de recolher é mais tarde nos fins de semana, não é? Querem ir hoje à noite?
Era sexta-feira, e isso nos garantia uma hora extra no toque de recolher do alojamento.
— Eu estou dentro — Adrian disse. — Literal e figurativamente.
— Se Jill for, eu vou — Eddie falou.
Eles olharam para mim. Eu estava encurralada. Queria voltar e tirar o atraso da lição de casa. Mas se eu dissesse isso ia parecer ridículo, e achava que tinha de estar presente como a única acompanhante mulher de Jill. Além do mais, lembrei a mim mesma, aquela missão não era a respeito de mim e da minha vida acadêmica, por mais que eu fingisse que fosse. O mais importante era Jill.
— Eu posso ir — disse devagar. Pensei que isso talvez se parecesse demais com confraternização com vampiros, por isso eu olhei sem jeito para Keith. Ele tinha voltado a mandar a mensagem de texto, agora que a magia não estava mais em discussão. — Keith? — perguntei, como se estivesse pedindo permissão.
Ele ergueu os olhos.
— Hã? Ah, eu não posso ir. Tenho um compromisso.
Tentei não fazer careta. Ele tinha me entendido mal, e achava que eu estava fazendo um convite. Por outro lado, ele também não mostrou objeção em relação ao resto de nós irmos.
— Ah, que bacana — disse Clarence. — Um passeio para os jovens. Quem sabe não dividem uma taça de vinho comigo antes? — Dorothy ia entrando com uma garrafa de vinho tinto, com Jill atrás dela. Clarence sorriu para Adrian. — Eu sei que você apreciaria uma taça.
A expressão de Adrian dizia que sim, com toda a certeza. Em vez disso, ele respirou fundo e sacudiu a cabeça.
— É melhor não.
— Você devia beber — Jill disse com gentileza. Mesmo depois de beber apenas um pouco de sangue, ela parecia cheia de vida e de energia.
— Não posso — ele disse.
— É fim de semana — ela disse a ele. — Não tem assim tanto problema. Principalmente se você tomar cuidado.
Os dois ficaram se encarando e então, finalmente, ele disse:
— Tudo bem. Pode servir uma taça para mim.
— Sirva uma para mim também — Keith disse.
— É mesmo? — perguntei a ele. — Não sabia que você bebia.
— Tenho vinte e um anos — ele contra-atacou.
Adrian aceitou a taça que Dorothy lhe ofereceu.
— Por algum motivo, acho que a preocupação de Sage não é essa. Achei que os alquimistas evitassem o álcool da mesma maneira que evitam cores primárias.
Eu olhei para baixo. Estava vestida de cinza. Keith usava marrom.
— Uma taça não vai fazer mal — Keith disse.
Não discuti com ele. Não era minha função ser babá de Keith. E os alquimistas não tinham nenhuma regra específica contra beber. Nós tínhamos crenças religiosas fortes em relação ao que significava levar uma vida boa e pura, e a bebida costumava ser desprezada. Mas se era proibida? Não. Era um hábito que eu considerava significante. Se ele não considerava, a escolha era dele.
Keith estava levando a taça aos lábios quando Adrian disse:
— Humm. O+, o meu preferido.
Keith cuspiu o vinho que tinha acabado de beber e começou a tossir. Fiquei aliviada por não ter respingado em mim. Jill começou a dar risada e Clarence ficou olhando para a taça, cheio de dúvidas.
— É mesmo? Eu achei que fosse um cabernet sauvignon.
— E é mesmo — Adrian disse, com o rosto impassível. — Me enganei.
Keith lançou um sorriso contido para Adrian, como se também achasse que a piada era engraçada, mas eu não me deixei enganar. Keith estava louco da vida por terem tirado sarro dele, e por mais que ele fingisse ser simpático com todo mundo, suas opiniões contra vampiros e dampiros continuavam mais duras do que nunca. Claro que Adrian provavelmente não estava ajudando em nada. Eu achei bem engraçado, sinceramente, e me esforcei muito para esconder o meu sorriso, para Keith não ficar bravo comigo de novo. Foi difícil fazer isso porque, logo depois, Adrian me lançou um sorriso secreto, cheio de segundas intenções, que parecia dizer: Isso foi o troco pelo que ele fez antes.
Eddie deu uma olhada em Jill.
— Ainda bem que você tomou seu sangue hoje. Sei que queria aprender alguns golpes de defesa, mas queria esperar até você recuperar sua força.
Jill se alegrou.
— Podemos fazer isso amanhã?
— Claro que sim — ele respondeu, parecendo quase tão feliz quanto ela.
Keith franziu a testa.
— Por que ela precisa aprender a lutar se tem você por perto?
Eddie deu de ombros.
— Porque ela quer, e deve ter toda vantagem sempre que possível.
Ele não mencionou especificamente os atentados contra a vida dela — não na frente de Lee e Clarence —, mas o resto de nós entendeu.
— Mas eu achei que os Moroi não fossem bons de briga — Keith disse.
— Isso ocorre mais porque nunca são ensinados. Não são tão fortes quanto nós, claro, mas os reflexos deles são melhores do que os seus — Eddie explicou. — É apenas uma questão de aprender as habilidades e ter um bom professor.
— Como você? — caçoei.
— Eu não sou ruim — ele disse com modéstia. — Sou capaz de ensinar a qualquer um que queira aprender. — Ele deu uma cotovelada em Adrian, que esticava a mão para pegar o vinho e encher o copo mais uma vez. — Até este sujeito aqui.
— Não, obrigado — Adrian disse. — Estas mãos não se sujam com brigas.
— Nem com trabalho pesado — observei, ao lembrar seus comentários anteriores.
— Exatamente — ele disse. — Mas talvez você devesse pedir a Castile que lhe mostre como dar uns socos, Sage. Pode ser útil. Parece ser uma habilidade que uma moça assim tão corajosa como você deve possuir.
— Bom, agradeço o voto de confiança, mas não sei quando iria precisar disso — eu falei.
— Claro que ela precisa aprender!
A exclamação de Clarence nos pegou de surpresa. Eu na verdade achava que ele estava tirando um cochilo, já que seus olhos tinham se fechado momentos antes. Mas agora ele se inclinava para a frente com uma expressão zelosa. Eu me encolhi sob a intensidade de seu olhar.
— Você precisa aprender a se proteger! — ele apontou para mim, depois passou para Jill. — E você também. Jure que você vai aprender a se defender. Jure para mim.
Os olhos verde-claros de Jill se arregalaram de choque. Ela tentou lançar um sorriso reconfortante para ele, mas o gesto saiu de mau jeito.
— Claro, sr. Donahue. Estou tentando. E, até lá, tenho Eddie para me proteger dos Strigoi.
— Não dos Strigoi! — A voz dele passou para um sussurro. — Dos caçadores de vampiros.
Nenhum de nós disse nada. Lee parecia estar morrendo de vergonha.
Clarence apertou a taça de vinho com tanta força que eu fiquei preocupada que fosse quebrar.
— Ninguém falava disso naquela época... de se defender. Talvez, se Tamara tivesse aprendido algo, não teria sido morta. Não é tarde demais para você... para nenhuma de vocês duas.
— Pai, nós já conversamos sobre isso — Lee disse.
Clarence o ignorou. O olhar daquele senhor de idade passava de mim para Jill, e eu fiquei imaginando se ele por acaso sabia que eu era humana. Ou talvez não fizesse diferença. Talvez ele só tivesse um instinto de proteção distorcido por todas as garotas com a idade próxima à de Tamara. Eu meio que esperava que Keith observasse, sem nenhum tato, que não existiam coisas como caçadores de vampiros, mas ele ficou quieto, algo incomum para ele. Foi Eddie quem finalmente falou, com palavras reconfortantes e gentis. Ele sempre passava a impressão de ser um guerreiro do tipo matar ou morrer; foi surpreendente perceber que, na verdade, ele era cheio de compaixão.
— Não se preocupe — Eddie disse. — Eu vou ajudar as duas. Vou mantê-las em segurança e garantir que nada aconteça a elas, certo?
Clarence ainda parecia agitado, mas focado em Eddie com esperanças.
— Você jura? Não vai permitir que voltem a matar Tamara?
— Juro — Eddie disse, sem deixar transparecer, de jeito nenhum, como aquele pedido era bizarro.
Clarence observou Eddie com atenção por alguns segundos e então assentiu.
— Você é um bom garoto — ele pegou a garrafa de vinho e encheu a taça. — Mais? — perguntou a Adrian, como se nada tivesse acontecido.
— Sim, por favor — Adrian disse e pegou a garrafa.
Nós demos prosseguimento à conversa como se nada tivesse acontecido, mas a sombra das palavras de Clarence continuou pairando sobre mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)