27 de setembro de 2017

Capítulo 10

Capítulo 10
FOI BEM AÍ QUE O MEU TELEFONE TOCOU e me salvou do incômodo de não saber o que fazer com Jill. Eu atendi sem nem conferir o identificador de chamadas.
— Srta. Melbourne? Preciso dos seus serviços imediatamente.
— Professora? — perguntei, surpresa. A voz frenética da sra. Terwilliger não era o que eu esperava. — Qual é o problema?
— Preciso que você vá buscar um cappuccino com calda de caramelo do Spencer’s para mim. Não tem como eu acabar de traduzir este documento se você não for.
Havia um milhão de respostas que eu podia dar a isso, sendo que nenhuma delas era muito educada, por isso eu usei a lógica mais óbvia.
— Acho que não posso — eu disse.
— Mas você tem permissão para sair do campus, não tem?
— Bom, tenho, professora, mas está quase na hora do toque de recolher. Não sei onde fica o Spencer’s, mas acho que não consigo voltar a tempo.
— Bobagem. Quem é a responsável pelo seu dormitório? A tal da Weathers? Vou ligar para ela e pedir uma exceção para você. Estou trabalhando em uma das salas da biblioteca. Venha me encontrar aqui.
Apesar da minha devoção pessoal ao café, pedir uma “exceção” ao toque de recolher da escola me parecia um tanto excessivo para uma coisa dessas. Eu não gostava de desrespeitar as regras. Por outro lado, eu era a assistente da sra. Terwilliger. Por acaso isso não fazia parte das minhas funções? Os velhos instintos de alquimista de obedecer às ordens se instalaram.
— Bom, acho que sim, professora...
Ela desligou e eu fiquei olhando para o telefone, chocada.
— Preciso sair — disse a Jill. — Espero voltar logo. Talvez volte bem logo mesmo, porque eu ficaria surpresa se ela se lembrasse de ligar para a sra. Weathers.
Ela nem ergueu os olhos. Dei de ombros, peguei meu laptop e um pouco de lição de casa, para o caso de a sra. Terwilliger se lembrar de mais alguma coisa que eu precisasse fazer.
Com café em jogo, a memória da minha professora funcionou, e descobri que de fato tinha permissão para sair quando desci. A sra. Weathers até me explicou como chegar ao Spencer’s, um café a alguns quilômetros de distância. Eu comprei o cappuccino, imaginando se ela ia me reembolsar, e também comprei algo para mim. Os atendentes da biblioteca de Amberwood pegaram no meu pé quando eu entrei com bebidas, mas quando expliquei minha tarefa, eles me deixaram entrar e ir para as salas dos fundos. Parece que o vício da sra. Terwilliger era famoso.
A biblioteca estava surpreendentemente agitada, e logo deduzi por quê. Depois de uma certa hora, todas as noites, meninos e meninas eram expulsos do dormitório uns dos outros. A biblioteca ficava aberta até mais tarde, por isso era o lugar certo para interagir com o sexo oposto. Também havia muita gente que estava lá para estudar, incluindo Julia e Kristin.
— Sydney! Aqui! — Kristin chamou em um sussurro.
— Livre-se da professora Terwilliger — Julia completou. — Você consegue.
Ergui o café quando passei por elas.
— Estão de brincadeira? Se ela não consumir sua cafeína logo, não vou ter como escapar dela. Eu volto, se puder.
Ao seguir o meu caminho, vi um grupinho de alunos que se aglomerava ao redor de alguém — e ouvi uma voz conhecida e irritante. A de Greg Slade.
Curiosa a contragosto, caminhei até a beirada do grupo. Slade exibia algo no antebraço: uma tatuagem.
O desenho em si não era nada de mais. Era uma águia voando, o tipo de arte que qualquer estúdio de tatuagem tinha em estoque e copiava em massa. O que chamou a minha atenção foi a cor. Era toda feita em um tom prata metálico chamativo. Um tom metálico daqueles não era fácil de conseguir, não com aquele brilho e aquela intensidade. Eu conhecia as substâncias químicas que faziam parte da minha tatuagem dourada, e a fórmula era complexa e composta de vários ingredientes raros.
Slade fazia uma tentativa nada convincente de manter a voz baixa — afinal de contas, tatuagens eram proibidas por lá —, mas era óbvio que ele estava adorando toda aquela atenção. Eu observei em silêncio, feliz por outras pessoas fazerem algumas das minhas perguntas no meu lugar. Claro que essas perguntas só me deixaram com mais dúvidas.
— Esta é mais brilhante do que as que eles costumavam fazer — um dos amigos dele observou.
Slade virou o braço para fazer a luz refletir.
— É uma coisa nova. Dizem que estas são melhores do que as do ano passado. Não sei bem se é verdade, mas não foi barata, isso eu posso dizer.
O amigo que tinha comentado sorriu.
— Você vai descobrir nos testes.
Laurel — a garota ruiva que tinha demonstrado interesse por Micah — esticou a perna ao lado de Slade e revelou um tornozelo fino enfeitado com uma borboleta desbotada. Não havia nada metálico ali.
— Talvez eu retoque a minha, quem sabe para o baile de volta às aulas, se conseguir o dinheiro com os meus pais. Você sabe se as celestiais também melhoraram este ano? — Ela jogava o cabelo de um lado para o outro enquanto falava. Pelo que eu tinha observado no pouco tempo que tinha passado em Amberwood, Laurel era muito vaidosa com o cabelo e se assegurava de jogá-lo por cima do ombro no mínimo a cada dez minutos.
Slade deu de ombros.
— Não perguntei.
Laurel reparou que eu estava olhando.
— Ah, oi. Você não é a irmã da Garota Vampira?
Meu coração parou.
— Vampira?
— Vampira? — Slade repetiu.
Como é que ela descobriu? O que eu iria fazer? Eu tinha acabado de começar a fazer uma lista mental de todos alquimistas para quem precisava ligar quando uma das amigas de Laurel soltou uma risada.
Laurel olhou na direção delas e soltou uma gargalhada, então se virou de novo para mim:
— É o apelido que nós demos para ela. Nenhum ser humano poderia ter a pele tão pálida assim.
Eu quase desabei de tanto alívio. Era uma piada — que se aproximava dolorosamente da verdade, mas ainda assim uma piada. No entanto, Laurel não parecia ser alguém que eu devia confrontar, e seria melhor para todos nós se a piada logo fosse esquecida. Reconheço que soltei o primeiro comentário distraído que me veio à mente.
— Olhe, tem coisa pior. Quando eu vi você pela primeira vez, não achei que alguém pudesse ter o cabelo tão comprido ou tão ruivo. Mas não é por isso que eu fico falando sobre apliques ou tintura.
Slade quase se dobrou ao meio de tanto rir.
— Eu sabia! Sabia que era falso!
Laurel ficou quase tão vermelha quanto seu cabelo.
— Não é! É de verdade!
— Srta. Melbourne?
Eu me sobressaltei com a voz atrás de mim e vi a sra. Terwilliger ali, olhando para mim, surpresa.
— Você não ganha crédito para bater papo, principalmente quando o meu café está em jogo. Venha.
Eu me afastei, cabisbaixa, apesar de quase ninguém ter notado. Os amigos de Laurel estavam se divertindo demais tirando sarro dela. Eu esperava ter acabado com as piadas de vampiro. Mesmo assim, não conseguia tirar a imagem da tatuagem de Greg da cabeça. Deixei meus pensamentos voarem para o mistério de quais componentes seriam necessários para aquela cor prateada. Eu achava que tinha descoberto — pelo menos, tinha pensado em uma possibilidade —, e queria ter acesso aos ingredientes dos alquimistas para fazer algumas experiências. A sra. Terwilliger pegou o café, agradecida, quando chegamos a uma pequena sala de trabalho.
— Graças a Deus — ela disse depois de tomar um gole comprido. Ela apontou com a cabeça para o meu. — Esse aí é de reserva? Excelente ideia.
— Não, professora — eu disse. — É meu. Quer que eu comece a trabalhar nisto? — Uma pilha de livros conhecidos estava na mesa; eu já os tinha visto na sala de aula. Eram partes centrais da pesquisa dela, e ela tinha me dito que uma hora eu teria que fazer resumos e documentá-los para ela. Peguei o que estava no alto da pilha, mas ela me deteve.
— Não — ela disse, e se dirigiu para uma pasta grande. Ela folheou papéis e remexeu materiais de escritório variados até pegar um livro com a capa velha de couro. — Faça este aqui.
Peguei o livro.
— Posso trabalhar lá fora?
Minha esperança era voltar para a área principal de estudo e poder falar com Kristin e Julia.
A sra. Terwilliger refletiu.
— Não vão deixar você tomar café lá fora. É melhor deixar ele aqui.
Vacilei, pensando se o meu desejo de conversar com Kristin e Julia se sobrepunha ao fato de que a sra. Terwilliger iria tomar o meu café antes de eu voltar. Resolvi correr o risco e me despedi do meu café com pesar ao levar os meus livros e apetrechos para a biblioteca.
Julia olhou para o livro surrado da sra. Terwilliger com desdém.
— Isso aqui não está em algum lugar na internet?
— Provavelmente não. Acho que ninguém nem sequer olha para este aqui desde antes de a internet ter sido inventada. — Abri a capa. Um monte de poeira se espalhou pelo ar. — Muito antes.
Kristin tinha uma lição de matemática aberta a sua frente, mas não parecia muito interessada nela. Ela batucou com uma caneta na capa do livro, sem prestar muita atenção.
— Então, você viu a tatuagem do Slade?
— É difícil não ver — disse e peguei meu laptop. Olhei por cima do computador. — Ele ainda está lá se exibindo.
— Fazia um tempão que ele queria fazer uma, mas nunca teve dinheiro — Julia explicou. — No ano passado, todos os grandes atletas se tatuaram. Bom, todos menos Trey Juarez.
— Trey quase não precisa de uma — Kristin observou. — Ele é bom de verdade.
— Agora ele vai precisar... se quiser se equiparar a Slade — Julia disse.
Kristin sacudiu a cabeça.
— Mesmo assim, ele não vai fazer. Ele é contra. Tentou dedurar quem fez para o sr. Green no ano passado, mas ninguém acreditou nele.
Eu olhei de uma para a outra, mais perdida do que nunca.
— Ainda estamos falando de tatuagens? Sobre Trey “precisar” de uma ou não?
— Você realmente ainda não descobriu? — Julia perguntou.
— É o meu segundo dia — observei, frustrada. Lembrei que estava em uma biblioteca e falei mais baixo. — As únicas pessoas que realmente conversaram comigo foram Trey e vocês duas... e vocês não falaram muita coisa.
Pelo menos elas foram graciosas o bastante para parecerem acanhadas com isso. Kristin abriu a boca, fez uma pausa e então pareceu mudar o que ia dizer.
— Tem certeza que a sua não faz nada?
— Positivo — menti. — Como é que uma coisa dessas é possível?
Julia deu uma olhada na biblioteca e se contorceu na cadeira. Ela ergueu a camisa um pouco para mostrar a parte de baixo das costas — e a tatuagem desbotada de uma andorinha voando. Satisfeita por eu ter visto aquilo, ela se virou para a frente mais uma vez.
— Eu fiz essa na semana de férias de primavera... e foi a melhor semana sem aulas da minha vida.
— Por causa da tatuagem? — perguntei, descrente.
— Quando eu fiz, não era assim. Era metálica... não igual à sua. Nem à de Slade. Era mais parecida com...
— Cobre — Kristin ajudou.
Julia pensou a respeito e assentiu.
— É, tipo dourado-avermelhado. A cor só durou uma semana e, enquanto durou, foi fantástico. Tipo, eu nunca me senti tão bem. Foi a melhor coisa da minha vida.
— Juro, tem algum tipo de droga naqueles celestiais — Kristin disse. Ela tentava falar como se não aprovasse, mas detectei um tom de inveja.
— Se você fizesse uma, iria entender — Julia disse a ela.
— Celestiais... eu ouvi aquela menina ali falar disso — eu disse.
— Laurel? — Julia perguntou. — É, é como as cor de cobre são chamadas. Porque elas fazem com que você se sinta do outro mundo — ela parecia quase envergonhada pelo próprio entusiasmo. — Que nome idiota, hein?
— É essa que Slade fez? — perguntei, atordoada com o que se desenrolava à minha frente.
— Não, a dele é de aço — Kristin respondeu. — Essas dão tipo uma força atlética. Tipo, você fica mais forte, mais rápido. Coisas assim. Elas duram mais do que as celestiais... tipo duas semanas. Às vezes, três, mas o efeito diminui. Chamam de aço porque são fortes, acho. E talvez porque elas contenham aço.
Não é aço, eu pensei. É um composto de prata. A arte de usar metal para inserir certas propriedades na pele era algo que os alquimistas haviam aperfeiçoado havia muito tempo. O ouro era absolutamente o melhor, e por isso nós o usávamos. Outros metais — quando formulados da maneira adequada — atingiam efeitos parecidos, mas nem prata nem cobre eram tão eficientes na inserção quanto o ouro. A tatuagem de cobre era fácil de entender. Um grande número de substâncias para elevar o humor ou drogas podiam ser combinadas com esse metal para efeito de curto prazo. A prata era mais difícil de entender — ou, melhor, os efeitos da prata. O que elas descreviam parecia um tipo de esteroide atlético. Será que prata era capaz de fazer isso? Eu precisava conferir.
— Quantas pessoas têm essas tatuagens? — perguntei a elas, maravilhada. Não dava para acreditar que tatuagens tão complicadas faziam tanto sucesso ali. Eu também estava começando a entender como os alunos daquela escola realmente eram ricos. Só os materiais deviam custar uma fortuna, isso sem mencionar os supostos efeitos colaterais.
— Todo mundo — Julia respondeu.
Kristin corrigiu.
— Nem todo mundo. Mas eu já economizei quase todo o dinheiro.
— Eu diria que pelo menos metade da escola já experimentou pelo menos uma celestial — Julia disse, e lançou um olhar de consolo para a amiga. — Depois dá para mandar retocar... mas, mesmo assim, custa caro.
— Metade da escola? — repeti, incrédula. Olhei ao redor, imaginando quantas camisas e calças escondiam tatuagens. — Isso é uma loucura. Não acredito que uma tatuagem possa fazer coisas assim — eu esperava estar sendo convincente em esconder o quanto de fato eu sabia.
— Faça uma celestial — Julia disse com um sorriso. — Daí você vai acreditar.
— Onde vocês fazem?
— É um estúdio chamado Nevermore — Kristin disse. — Mas eles são seletivos, e não é fácil fazer uma. — Não tão seletivos assim, pensei, se metade da escola já tinha feito. — Ficaram bem mais cautelosos depois que Trey tentou denunciar.
Lá estava o nome de Trey mais uma vez. Agora fazia sentido ele desdenhar tanto da minha tatuagem quando nós nos conhecemos. Mas fiquei me perguntando por que ele se importava tanto — o suficiente para tentar fechar a loja. Essa não era apenas uma discordância casual.
— Será que ele acha injusto? — levantei a hipótese, diplomática.
— Acho que ele só tem inveja porque não tem dinheiro para fazer uma — Julia disse. — Ele tem uma tatuagem, sabe? É um sol nas costas. Mas é só uma tatuagem preta, normal... não é dourada como a sua. Eu nunca vi nada parecido com a sua.
— Então foi por isso que vocês acharam que a minha me deixava inteligente — eu disse.
— Isso poderia ter sido muito útil nas provas finais — Julia disse, esperançosa. — Tem certeza de que não é por isso que você sabe tanta coisa?
Eu sorri, apesar de estar pasma com o que tinha acabado de descobrir.
— Bem que eu queria. Podia fazer com que fosse mais fácil ler este livro. Coisa que eu, aliás, devia estar fazendo — completei e olhei para o relógio.
Era sobre sacerdotes e magos greco-romanos, uma espécie de apanhado detalhando vários tipos de encantos e rituais com os quais eles trabalhavam. Não era um material de leitura terrível, mas era longo. Eu achava que a pesquisa da sra. Terwilliger era mais concentrada em religiões de massa daquela época, por isso o livro parecia ser uma escolha estranha. Talvez ela estivesse querendo incluir uma seção sobre práticas de magia alternativas. Independente disso, quem era eu para questionar? Se ela pedisse, eu faria.
Permaneci mais tempo do que Kristin e Julia na biblioteca, porque tinha que ficar até a sra. Terwilliger decidir ir embora, o que aconteceu só quando a biblioteca fechou. Ela pareceu contente por eu ter avançado tanto nas anotações e disse que queria o livro todo pronto em três dias.
— Sim, professora — disse de modo automático, como se eu não tivesse mais nenhuma outra aula naquela escola. Por que eu sempre concordava sem pensar?
Voltei para o campus leste com os olhos vermelhos de tanto trabalhar e exausta com a ideia da lição de casa que ainda faltava fazer. Jill estava dormindo pesado, coisa que tomei como uma pequena bênção. Eu não ia precisar enfrentar seu olhar de acusação nem descobrir como lidar com o silêncio constrangedor. Eu me preparei para ir para a cama rápido e sem fazer barulho, e caí no sono quase assim que encostei no travesseiro.
Acordei por volta das três com um som de choro. Eu me sacudi para afastar a sonolência e consegui distinguir Jill sentada na cama, com o rosto enterrado nas mãos. Enormes soluços trêmulos acometiam seu corpo.
— Jill? — eu perguntei, incerta. — Qual é o problema?
Com a luz fraca que vinha de fora, vi Jill erguer a cabeça e olhar para mim. Incapaz de responder, ela só sacudiu a cabeça e voltou a chorar mais uma vez, agora mais alto.
Eu me levantei e fui me sentar na beirada da cama dela. Eu não conseguia abraçá-la ou tocá-la para reconfortar. Ainda assim, me senti péssima. Eu sabia que aquilo devia ser culpa minha.
— Jill, eu sinto muito. Jamais devia ter ido falar com Adrian. Quando Lee mencionou você, eu devia ter feito com que ele parasse e dito que falasse com você se estivesse interessado, em primeiro lugar... — as palavras saíram todas confusas.
Quando olhei para ela, só pude pensar em Zoe e em suas acusações terríveis na noite em que eu parti.
De algum jeito, minha ajuda sempre surtia o efeito contrário.
Jill fungou e conseguiu soltar algumas palavras antes de desabar no choro mais uma vez.
— Não... não é isso...
Fiquei olhando para as lágrimas dela impotente, frustrada comigo mesma. Kristin e Julia me consideravam inteligente de maneira sobre-humana. No entanto, garanto que qualquer uma delas teria sido capaz de reconfortar Jill cem vezes melhor do que eu.
Estendi a mão e quase dei tapinhas no braço dela — mas recuei no último momento.
Não, eu não podia fazer isso. A voz de alquimista dentro de mim, aquela que sempre me alertava para manter distância dos vampiros, não permitia que eu tocasse em uma vampira de maneira tão pessoal.
— Então, o que foi? — eu finalmente perguntei.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não é... Não posso contar... Você não iria entender.
Com Jill, eu pensei, várias coisas podiam estar erradas. A incerteza de sua posição real. As ameaças contra ela. Ser mandada para longe da família e dos amigos, presa entre humanos sob o sol perpétuo. Eu realmente não sabia por onde começar. Na noite passada, havia um terror congelante e desesperado em seu olhar quando ela acordara.
Mas aquilo era diferente. Era pesar. Vinha do coração.
— O que posso fazer para ajudar? — perguntei, finalmente.
Ela demorou alguns momentos para se recompor.
— Você já está fazendo demais — ela conseguiu dizer. — Nós todos apreciamos... de verdade. Principalmente depois do que Keith disse para você. — Será que não havia nada que Adrian não tinha contado para ela? — E sinto muito... sinto muito por ter sido tão maldosa com você antes. Você não merecia aquilo. Só estava tentando ajudar.
— Não... não peça desculpas. Eu causei a maior confusão.
— Não precisa se preocupar, sabe? — ela completou. — Com Micah. Eu compreendo. Só quero ser amiga dele.
Eu sabia que ainda não estava conseguindo ajudá-la a se sentir melhor. Mas eu tinha que reconhecer que me pedir desculpas pelo menos parecia distraí-la daquilo que a tivesse feito acordar com tanta dor.
— Eu sei — respondi. — Não devia ter me preocupado com você.
Ela me garantiu mais uma vez que estava bem, sem mais explicações a respeito do motivo pelo qual tinha acordado chorando. Eu sentia que devia ter me esforçado mais para ajudar, mas, em vez disso, voltei para a minha própria cama. Não ouvi mais soluços pelo resto da noite, mas, quando acordei algumas horas depois, dei uma olhadinha nela. Mal dava para enxergar suas feições à luz do amanhecer. Ela estava lá deitada, com os olhos arregalados, olhando para o nada, com uma expressão assombrada no rosto.

Capítulo 11
ANTES DAS AULAS NO DIA SEGUINTE, deixei um recado com alguém na sede dos alquimistas, dizendo que precisava que “o sr. e a sra. Melrose” mandassem um recado para que Jill não precisasse fazer educação física — ou, pelo menos, as atividades ao ar livre. Eu esperava que eles fossem fazer isso rápido. Os alquimistas eram rápidos quando queriam, mas às vezes tinham ideias estranhas a respeito do que era prioridade. Eu esperava que eles não tivessem a mesma atitude de Keith em relação às dificuldades de Jill.
Mas eu sabia que nada iria acontecer naquele mesmo dia, por isso Jill teve que sofrer em mais uma aula de educação física — e eu tive que sofrer assistindo ao seu sofrimento. O mais terrível foi que Jill não choramingou nem tentou escapar de nada. Ela nem demonstrou qualquer sinal do episódio da noite anterior. Chegou com otimismo e determinação, como se talvez naquele dia o sol não fosse afetá-la. Mas não demorou muito para ela começar a ficar mole. Ela parecia enjoada e cansada, e o meu próprio desempenho foi um pouco falho porque ficava sempre de olho nela, com medo que desmaiasse.
Micah foi a salvação. Mais uma vez, ele trocou de time, destemido — desta vez, desde o começo da aula. Ele cobriu a posição dela como tinha feito da outra vez, permitindo que nem a professora nem os colegas reparassem nela — bom, tirando Laurel, que pareceu notar e ficar irritada com tudo que ele fez. Os olhos dela passavam bravos dele para Jill, e ela ficava jogando o cabelo por cima do ombro para chamar a atenção dele. Eu me diverti um pouco ao ver que a atenção de Micah permaneceu unicamente em manter a bola longe de Jill.
Micah também foi imediatamente para o lado dela quando a aula terminou, levando uma garrafa d’água, que ela aceitou com gratidão. Eu também fiquei agradecida, mas ver como ele cuidava dela trouxe todas as minhas preocupações de volta. Ela cumpriu sua palavra, no entanto. Retribuiu a atenção dele com simpatia, mas definitivamente não dava para chamar aquilo de paquera. Mas ele não fez segredo de suas intenções, e eu fiquei preocupada, achando que seria melhor se ela não precisasse lidar com aquilo. Eu falei sério quando disse que confiava nela, mas não podia deixar de pensar que seria muito mais fácil para todo mundo se ele parasse de dar em cima dela. Isso exigiria “a conversa”.
Nada feliz com o que eu tinha que fazer, alcancei Micah na frente dos vestiários. Nós dois estávamos esperando Jill terminar, e eu aproveitei o tempo que tinha sozinha com ele.
— Oi, Micah — eu disse. — Preciso falar com você...
— Oi — ele respondeu todo alegre. Seus olhos azuis estavam arregalados e animados. — Eu tive uma ideia e queria falar com você. Se vocês não conseguirem uma dispensa para ela, quem sabe conseguem mudar o horário das aulas dela? Se ela fizesse educação física no primeiro horário do dia, não seria assim tão quente. Talvez não seja tão difícil para ela. Quer dizer, acho que ela gostaria de participar de algumas dessas atividades.
— Ela iria gostar, sim — eu disse devagar. — E essa é uma ótima ideia.
— Eu conheço algumas pessoas que trabalham na secretaria e vou pedir a elas que encontrem algumas opções para ver se é possível reencaixar as outras aulas dela. — Ele fez um bico fingido. — Vou ficar triste por não estar na mesma aula que ela, mas vai valer a pena por saber que ela não está sofrendo tanto.
— É — concordei sem muito entusiasmo, de repente me sentindo perdida. Ele realmente tinha dado uma boa ideia. Ele era até altruísta o suficiente para abrir mão da oportunidade de ficar perto dela em nome de um bem maior. Como é que podia ter “a conversa” com ele agora? Como é que eu de repente ia dizer: “Deixe a minha irmã em paz”, se ele estava tendo tanto trabalho para ser legal? Eu era tão ruim quanto Eddie, ao evitar o confronto com Micah. Aquele sujeito era adorável demais para seu próprio bem.
Antes que conseguisse dar uma resposta, Micah tomou uma direção inesperada.
— Mas você realmente devia levá-la ao médico. Não acho que ela tenha alergia ao sol.
— Ah, é? — perguntei, surpresa. — Mas você não viu como ela sofre durante a aula todos os dias?
— Não, não, pode acreditar, ela com toda a certeza tem um problema com o sol — ele se apressou em me garantir. — Mas pode ser que o diagnóstico esteja errado. Eu fiz uma pesquisa sobre alergia ao sol, e as pessoas costumam ter urticária junto. Essa fraqueza generalizada que ela tem... não sei. Acho que pode ser outra coisa.
Ai não.
— Tipo o quê?
— Não sei — ele refletiu. — Mas vou continuar pesquisando teorias e depois te digo o que descobri.
Que maravilha.
A educação física também me deixou ver pela primeira vez uma das tatuagens metálicas de Amberwood em ação. Era impossível não observar Greg Slade durante a aula, e eu não fui a única que me distraí com ele. Assim como Kristin e Julia tinham dito, ele realmente estava mais rápido e mais forte. Ele deu mergulhos que ninguém mais tinha reflexos rápidos o suficiente para dar. Quando ele acertava a bola, era uma surpresa não escutarmos um estrondo sônico logo depois. Isso lhe valeu elogios no começo, mas logo reparei uma coisa. Havia algo de descontrolado no jogo dele. Ele estava cheio de habilidade, sim, mas às vezes não se concentrava. Os golpes poderosos nem sempre ajudavam porque ele mandava a bola para fora. E quando corria para fazer uma jogada, era raro levar em conta quem estava ao seu redor. Quando um garoto da minha sala de inglês foi derrubado e caiu de costas no chão, simplesmente por estar no caminho entre Slade e a bola, a srta. Carson parou o jogo e vociferou sua insatisfação com a agressão de Slade. Ele engoliu tudo com um sorriso sacana meio desanimado.
— Pena que Eddie não está nessa aula — Jill disse depois. — Ele iria fazer frente ao Slade.
— Talvez seja melhor se ninguém reparar — observei. Eddie, pelo que eu tinha ouvido dizer, já era o astro de sua aula de educação física. Isso fazia parte do tipo físico naturalmente atlético dos dampiros, e eu sabia que na verdade ele estava se esforçando para não ser bom demais em tudo.
Fui falar com a sra. Terwilliger depois da educação física, feliz por ver que ela já estava bem provida com seu próprio café. Passei a maior parte do período lendo o livro e fazendo anotações no meu laptop. Depois que tinha feito uma parte, ela veio conferir o meu trabalho.
— Você é muito organizada — ela disse, olhando por cima do meu ombro. — Títulos e intertítulos e mais intertítulos.
— Obrigada — eu disse. Jared Sage tinha sido muito específico ao ensinar habilidades de pesquisa a suas filhas.
A sra. Terwilliger deu um gole no café e continuou a ler a tela.
— Você não listou os passos dos rituais e dos encantos — ela observou alguns momentos depois. — Só fez um resumo em poucas linhas.
Bom, era verdade, aquele era o objetivo de fazer anotações.
— Eu citei todos os números das páginas — eu disse. — Se precisar checar os componentes específicos, tem uma referência fácil.
— Não... retorne e coloque todos os passos e os ingredientes nas anotações. Quero ter tudo no mesmo lugar.
A minha vontade era dizer: está tudo no mesmo lugar. No livro. As anotações eram uma condensação do material, não a repetição do texto original, palavra por palavra.
Mas a sra. Terwilliger já tinha se afastado e olhava para o seu arquivo sem prestar muita atenção enquanto balbuciava a si mesma que uma pasta estava no lugar errado. Com um suspiro, voltei para o começo do livro, tentando não pensar em como aquilo iria me atrasar. Pelo menos eu só estava fazendo aquilo para ganhar crédito, não nota.
Fiquei lá até depois do toque do último sinal, tentando recuperar um pouco do tempo perdido. Quando voltei ao quarto, precisei acordar Jill, que dormia pesado depois de um dia exaustivo.
— Boa notícia — disse a ela quando piscou para mim com olhos sonolentos. — Hoje é dia de fornecimento.
Definitivamente, aquelas eram palavras que eu nunca achei que fosse dizer. Também não achei que ficaria animada com aquilo. E, com certeza, não estava nada animada com a ideia de Jill morder o pescoço de Dorothy. Mas eu estava me sentindo mal por Jill, e então ficava contente em saber que ela iria se alimentar. Estar sujeita a um fornecimento de sangue tão limitado devia tornar as coisas duplamente difíceis para ela.
Nós nos encontramos com Eddie no andar de baixo quando chegou a hora de partir. Ele olhou para Jill com preocupação.
— Está tudo bem com você?
— Estou bem — ela disse com um sorriso. Ela não parecia nem de longe tão mal quanto antes. Estremeci de pensar o que Eddie teria feito se estivesse mesmo na nossa aula e a tivesse visto em sua pior forma.
— Por que isso ainda está acontecendo? — ele me perguntou. —Você não ia falar com Keith?
— Vai demorar um pouco — eu disse, sem dar maiores detalhes, e os levei até onde o Pingado estava no estacionamento dos alunos. — Vamos providenciar.
Se os alquimistas não mandassem o bilhete, eu iria tentar a sugestão de Micah e transferi-la para a aula de educação física mais cedo pela manhã.
— Sabemos que sim — Jill disse. Eu só senti a simpatia na voz dela de leve, lembrando a mim mesma que ela sabia sobre a minha briga de ontem com Keith. Eu torcia para que ela não a mencionasse na frente de Eddie e fui salva quando ela passou para um tema mais aleatório, até surpreendente. — Acha que podemos pegar uma pizza no caminho? Adrian não quer mais comer a comida de Dorothy.
— Que péssimo para ele — Eddie observou ao entrar no banco de trás, deixando o assento da frente para Jill. — Ter uma chef particular à mão para preparar qualquer coisa que ele precisar. Não sei como ele sobrevive.
Eu dei risada, mas Jill pareceu ultrajada em nome de Adrian.
— Não é a mesma coisa! Ela só prepara coisas super-refinadas.
— Ainda estou esperando para saber qual é o problema — Eddie disse.
— Ela também tenta fazer tudo bem saudável. Diz que é melhor para Clarence. Então, nunca tem sal nem pimenta nem manteiga. — Caramba, com que frequência Jill e Adrian se falam? — Não tem nenhum sabor nem nada. Ele está ficando louco.
— Tudo parece estar deixando ele louco — observei, me lembrando de sua súplica por novas acomodações. — E não pode estar tão ruim assim. Por acaso ele não foi para Los Angeles ontem à noite?
A única resposta de Jill foi franzir a testa.
Ainda assim, eu tinha a sensação de que iríamos passar um bom tempo na casa de Clarence, e eu particularmente não queria comer nada preparado ali. Então, foi mais por motivos egoístas que eu concordei em passar em um lugar que tinha comida para viagem e comprar algumas pizzas. O rosto de Adrian ficou radiante quando entramos na sala de estar, onde — tirando as partidas de sinuca — parecia ser o lugar em que ele mais passava tempo na casa de Clarence.
— Belezinha — ele declarou e se levantou em um salto. — Você é uma santa. Talvez até uma deusa.
— Opa — eu disse. — Quem pagou fui eu.
Adrian levou uma das caixas até o sofá, para tristeza de Dorothy. Ela saiu apressada, falando alguma coisa sobre pratos e guardanapos. Adrian me lançou um aceno de cabeça conciliador.
— Você também não é nada mau, Sage — ele disse.
— Ora, ora, o que temos aqui? — Clarence entrou cambaleante na sala. Eu não tinha reparado, mas ele usava bengala para se locomover. Tinha uma cobra de cristal no alto, que era ao mesmo tempo impressionante e assustadora. Era bem o tipo de coisa que seria de se esperar de um vampiro idoso. — Parece que temos uma festa.
Lee estava com ele e nos cumprimentou com sorrisos e acenos de cabeça. Os olhos dele se demoraram brevemente em Jill e ele fez questão de se sentar perto dela — mas não perto demais. Jill se animou como não se animava havia dias. Todo mundo estava começando a atacar as pizzas quando Dorothy apareceu à porta com um novo visitante.
Senti meus olhos se arregalarem. Era Keith.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, mantendo um tom de voz neutro.
Ele deu uma piscadela.
— Vim conferir se todo mundo estava bem. Essa é a minha função... tomar conta de todo mundo.
Keith estava mais animado e mais simpático quando se serviu de pizza, sem indicações da briga que havia ocorrido da última vez. Ele sorriu e conversou com todos como se fossem seus melhores amigos, coisa que me deixou totalmente chocada. Ninguém mais parecia achar que havia algo de estranho no comportamento dele — mas, bom, por que achariam? Nenhum deles tinha o mesmo histórico que eu tinha com Keith.
Não — isso não era bem verdade. Apesar de estar envolvido em uma conversa profunda com Eddie, Adrian fez uma pausa para me lançar um olhar curioso, perguntando em silêncio sobre a briga do dia anterior. Ele deu uma olhada em Keith e depois voltou a olhar para mim. Dei de ombros, mostrando a ele que também estava confusa em relação à mudança de humor. Talvez Keith estivesse arrependido da explosão do dia anterior. Claro que seria bem mais fácil de aceitar se tivesse vindo acompanhado de uma desculpa.
Mordisquei um pedaço de pizza de queijo, mas a maior parte do tempo fiquei observando os outros. Jill contava para Adrian, toda animada, como tinham sido seus primeiro dias, e reparei que ela tinha deixado de fora todas as partes negativas. Ele a escutou com indulgência, assentindo e fazendo interjeições com comentários espirituosos ocasionalmente. Algumas das coisas que ela disse a ele eram bem básicas, e fiquei impressionada por não terem sido mencionadas em suas conversas telefônicas. Talvez ele simplesmente tivesse tanta coisa a dizer nessas ocasiões que não sobrava oportunidade para ela. Assim, ele não mencionou seu tédio nem suas outras reclamações.
Clarence conversava de vez em quando com Eddie e Lee, mas seus olhos sempre se desviavam para Jill. Havia uma expressão de melancolia em seu olhar, e eu me lembrei de que a sobrinha dele só era um pouco mais velha do que Jill. Fiquei imaginando se talvez parte da razão pela qual ele se mostrou tão disposto a nos acolher foi alguma espécie de tentativa de recuperar uma parte da vida em família que tinha se perdido.
Keith tinha se sentado perto de mim, coisa que no começo me deixou pouco à vontade, mas que depois me deu oportunidade de entender o pensamento dele. Ao ver que os outros estavam envolvidos em conversas, perguntei, baixinho:
— Você já ouviu falar em imitações de tatuagens dos alquimistas que chegaram à população em geral?
Ele me olhou assustado em resposta.
— Nem sei o que isso significa.
— Em Amberwood está na moda. Parece que existe um lugar na cidade que faz tatuagens metálicas, e elas têm propriedades especiais... mais ou menos como as nossas. Algumas só deixam a pessoa alegre. Outras meio que têm efeito de esteroide.
Ele franziu a testa.
— Elas não são feitas com ouro, são?
— Não. Prata e cobre. Por isso não duram. Provavelmente para que os tatuadores possam ganhar mais dinheiro.
— Mas então não podem ser nossas — ele argumentou. — Há séculos não usamos esses metais em tatuagens.
— É, mas alguém pode estar usando a tecnologia dos alquimistas para criar essas tatuagens.
— Só para deixar as pessoas chapadas? — ele perguntou. — Eu nem saberia como chegar a isso com agentes metálicos.
— Eu tenho algumas ideias — respondi.
— Deixe-me adivinhar. Elas incluem misturas com narcóticos. — Quando eu assenti, ele suspirou e me olhou como se eu tivesse dez anos de idade. — Sydney, o mais provável é que alguém tenha descoberto algum método grosseiro de tatuar que é parecido com o nosso, mas que não tem nenhuma relação com a gente. Se for isso, não podemos fazer nada a respeito. Drogas existem. Coisas ruins acontecem. Se não tiver relação com os assuntos dos alquimistas, não é da nossa conta.
— Mas e se tiver conexão com os assuntos dos alquimistas? — perguntei.
Ele resmungou.
— Está vendo? É por isso que eu estava preocupado com a sua vinda para cá, com essa sua tendência de aparecer com teorias paralelas malucas.
— Eu não...
— Por favor, não me envergonhe — ele sibilou e lançou um olhar para os outros. — Nem com eles, nem com nossos superiores.
A bronca dele me silenciou, principalmente pela surpresa. O que ele quis dizer com essa minha “tendência”? Será que ele realmente estava sugerindo que tinha feito algum tipo de análise psicológica profunda de mim anos antes? A ideia de que eu iria envergonhá-lo era ridícula... e, no entanto, suas palavras plantaram uma dúvida na minha cabeça. Talvez as tatuagens em Amberwood fossem apenas uma modinha sem relação com nada.
— Como está a educação física? — As palavras de Adrian me arrastaram para longe dos meus próprios pensamentos. Ele ainda estava ouvindo o resumo da escola de Jill. Ela fez uma careta frente à pergunta.
— Não muito bem — ela reconheceu e fez uma retrospectiva de alguns dos piores momentos.
Eddie me lançou um olhar significativo, parecido com o de antes.
— Você não pode continuar desse jeito — Lee exclamou. — O sol aqui é brutal.
— Concordo — disse Keith, ninguém menos. — Sydney, por que você não me disse como estava difícil?
Acho que o meu queixo bateu no chão.
— Eu disse! Foi por isso que tentei fazer você entrar em contato com a escola.
— Na verdade, você não me contou a história toda. — Ele lançou um de seus sorrisos melosos para Jill. — Não se preocupe, vou resolver isso para você. Vou entrar em contato com os responsáveis da escola... e com os alquimistas.
— Eu já falei com eles — argumentei.
Mas eu não precisava ter dito nada. Keith já tinha mudado de assunto e conversava com Clarence a respeito de algo irrelevante. De onde tinha vindo essa mudança radical de atitude? Ontem, o desconforto de Jill tinha sido de baixa prioridade. Hoje, Keith era o cavaleiro de armadura brilhante que saía em sua defesa. E, com isso, ele sugeria que quem estava pisando na bola era eu. Esse é o plano dele, percebi. Ele não me quer aqui.
Nunca quis. E então, uma coisa ainda pior me ocorreu.
Ele vai usar isso para começar a montar um caso contra mim.
Do outro lado da sala, Adrian chamou a minha atenção. Ele sabia. Ele tinha escutado quando eu discuti com Keith na entrada da casa. Adrian começou a falar, e eu sabia que ele ia pegar Keith em sua mentira. Foi um gesto galante, mas não era o que eu queria.
Eu daria conta de Keith sozinha.
— Como estava Los Angeles? — perguntei logo, antes que Adrian tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa. Ele olhou para mim com um ar curioso, sem dúvida imaginando por que eu não queria permitir que ele testemunhasse a meu favor. — Você foi para lá ontem à noite com Lee, não foi?
Adrian parecia confuso, mas um sorriso se abriu em seu rosto.
— Fui — ele finalmente disse. — Foi ótimo. Lee me mostrou como é a vida na faculdade.
Lee deu risada.
— Eu não iria assim tão longe. Não sei onde você se meteu metade da noite.
Adrian ficou com uma expressão no rosto que de algum modo era encantadora, mas que me deu vontade de dar um tapa nele ao mesmo tempo.
— Nós nos separamos. Eu quis conhecer alguns dos outros Moroi da área.
Nem Eddie conseguiu ficar em silêncio com isso.
— Ah, é assim que você descreve?
Jill se levantou de maneira abrupta.
— Vou tomar o meu sangue agora. Tudo bem?
Houve um momento de silêncio constrangedor, principalmente porque acho que ninguém realmente sabia a quem ela estava pedindo licença.
— Claro que sim, querida — Clarence disse e assumiu seu papel de anfitrião. — Acredito que Dorothy esteja na cozinha.
Jill assentiu de leve e saiu apressada da sala. Nós, que sobramos, trocamos olhares confusos.
— Há algum problema? — Lee perguntou, parecendo preocupado. — Será que eu... será que devo ir falar com ela?
— Ela só está estressada — eu disse, sem coragem de mencionar os episódios de grito e de choro.
— Pensei em uma coisa que pode ser divertida para ela... para todos nós fazermos — ele disse, e ficou esperando pelas reações. Ele olhou ao redor e então voltou os olhos para mim. Acho que eu tinha sido escolhida para fazer o papel de mãe. — Se você achar que tudo bem. Quer dizer... é meio bobo, mas achei que podíamos ir jogar minigolfe qualquer noite dessas. Tem um monte de fontes e laguinhos no campo. Ela tem domínio sobre a água, certo? Deve estar sentindo falta disso aqui.
— Está mesmo — Eddie respondeu com a testa franzida. — Ela mencionou isso ontem.
Eu estremeci. Keith estava mandando uma mensagem de texto pelo telefone e ficou paralisado.
Por mais que tivéssemos nossas diferenças, continuávamos compartilhando o grosso do treinamento que tínhamos recebido, e nós dois ficamos pouco à vontade de pensar na magia dos Moroi.
— Acho que ela vai gostar muito — Adrian falou. Ele parecia relutante em admitir. Acho que ainda estava pouco à vontade com a ideia de Lee estar interessado por Jill, por mais que os dois se dessem bem. A sugestão de Lee era ao mesmo tempo inocente e demonstrava preocupação. Era difícil encontrar algum problema nela.
Lee deixou a cabeça pender para o lado, pensativo.
— O toque de recolher é mais tarde nos fins de semana, não é? Querem ir hoje à noite?
Era sexta-feira, e isso nos garantia uma hora extra no toque de recolher do alojamento.
— Eu estou dentro — Adrian disse. — Literal e figurativamente.
— Se Jill for, eu vou — Eddie falou.
Eles olharam para mim. Eu estava encurralada. Queria voltar e tirar o atraso da lição de casa. Mas se eu dissesse isso ia parecer ridículo, e achava que tinha de estar presente como a única acompanhante mulher de Jill. Além do mais, lembrei a mim mesma, aquela missão não era a respeito de mim e da minha vida acadêmica, por mais que eu fingisse que fosse. O mais importante era Jill.
— Eu posso ir — disse devagar. Pensei que isso talvez se parecesse demais com confraternização com vampiros, por isso eu olhei sem jeito para Keith. Ele tinha voltado a mandar a mensagem de texto, agora que a magia não estava mais em discussão. — Keith? — perguntei, como se estivesse pedindo permissão.
Ele ergueu os olhos.
— Hã? Ah, eu não posso ir. Tenho um compromisso.
Tentei não fazer careta. Ele tinha me entendido mal, e achava que eu estava fazendo um convite. Por outro lado, ele também não mostrou objeção em relação ao resto de nós irmos.
— Ah, que bacana — disse Clarence. — Um passeio para os jovens. Quem sabe não dividem uma taça de vinho comigo antes? — Dorothy ia entrando com uma garrafa de vinho tinto, com Jill atrás dela. Clarence sorriu para Adrian. — Eu sei que você apreciaria uma taça.
A expressão de Adrian dizia que sim, com toda a certeza. Em vez disso, ele respirou fundo e sacudiu a cabeça.
— É melhor não.
— Você devia beber — Jill disse com gentileza. Mesmo depois de beber apenas um pouco de sangue, ela parecia cheia de vida e de energia.
— Não posso — ele disse.
— É fim de semana — ela disse a ele. — Não tem assim tanto problema. Principalmente se você tomar cuidado.
Os dois ficaram se encarando e então, finalmente, ele disse:
— Tudo bem. Pode servir uma taça para mim.
— Sirva uma para mim também — Keith disse.
— É mesmo? — perguntei a ele. — Não sabia que você bebia.
— Tenho vinte e um anos — ele contra-atacou.
Adrian aceitou a taça que Dorothy lhe ofereceu.
— Por algum motivo, acho que a preocupação de Sage não é essa. Achei que os alquimistas evitassem o álcool da mesma maneira que evitam cores primárias.
Eu olhei para baixo. Estava vestida de cinza. Keith usava marrom.
— Uma taça não vai fazer mal — Keith disse.
Não discuti com ele. Não era minha função ser babá de Keith. E os alquimistas não tinham nenhuma regra específica contra beber. Nós tínhamos crenças religiosas fortes em relação ao que significava levar uma vida boa e pura, e a bebida costumava ser desprezada. Mas se era proibida? Não. Era um hábito que eu considerava significante. Se ele não considerava, a escolha era dele.
Keith estava levando a taça aos lábios quando Adrian disse:
— Humm. O+, o meu preferido.
Keith cuspiu o vinho que tinha acabado de beber e começou a tossir. Fiquei aliviada por não ter respingado em mim. Jill começou a dar risada e Clarence ficou olhando para a taça, cheio de dúvidas.
— É mesmo? Eu achei que fosse um cabernet sauvignon.
— E é mesmo — Adrian disse, com o rosto impassível. — Me enganei.
Keith lançou um sorriso contido para Adrian, como se também achasse que a piada era engraçada, mas eu não me deixei enganar. Keith estava louco da vida por terem tirado sarro dele, e por mais que ele fingisse ser simpático com todo mundo, suas opiniões contra vampiros e dampiros continuavam mais duras do que nunca. Claro que Adrian provavelmente não estava ajudando em nada. Eu achei bem engraçado, sinceramente, e me esforcei muito para esconder o meu sorriso, para Keith não ficar bravo comigo de novo. Foi difícil fazer isso porque, logo depois, Adrian me lançou um sorriso secreto, cheio de segundas intenções, que parecia dizer: Isso foi o troco pelo que ele fez antes.
Eddie deu uma olhada em Jill.
— Ainda bem que você tomou seu sangue hoje. Sei que queria aprender alguns golpes de defesa, mas queria esperar até você recuperar sua força.
Jill se alegrou.
— Podemos fazer isso amanhã?
— Claro que sim — ele respondeu, parecendo quase tão feliz quanto ela.
Keith franziu a testa.
— Por que ela precisa aprender a lutar se tem você por perto?
Eddie deu de ombros.
— Porque ela quer, e deve ter toda vantagem sempre que possível.
Ele não mencionou especificamente os atentados contra a vida dela — não na frente de Lee e Clarence —, mas o resto de nós entendeu.
— Mas eu achei que os Moroi não fossem bons de briga — Keith disse.
— Isso ocorre mais porque nunca são ensinados. Não são tão fortes quanto nós, claro, mas os reflexos deles são melhores do que os seus — Eddie explicou. — É apenas uma questão de aprender as habilidades e ter um bom professor.
— Como você? — caçoei.
— Eu não sou ruim — ele disse com modéstia. — Sou capaz de ensinar a qualquer um que queira aprender. — Ele deu uma cotovelada em Adrian, que esticava a mão para pegar o vinho e encher o copo mais uma vez. — Até este sujeito aqui.
— Não, obrigado — Adrian disse. — Estas mãos não se sujam com brigas.
— Nem com trabalho pesado — observei, ao lembrar seus comentários anteriores.
— Exatamente — ele disse. — Mas talvez você devesse pedir a Castile que lhe mostre como dar uns socos, Sage. Pode ser útil. Parece ser uma habilidade que uma moça assim tão corajosa como você deve possuir.
— Bom, agradeço o voto de confiança, mas não sei quando iria precisar disso — eu falei.
— Claro que ela precisa aprender!
A exclamação de Clarence nos pegou de surpresa. Eu na verdade achava que ele estava tirando um cochilo, já que seus olhos tinham se fechado momentos antes. Mas agora ele se inclinava para a frente com uma expressão zelosa. Eu me encolhi sob a intensidade de seu olhar.
— Você precisa aprender a se proteger! — ele apontou para mim, depois passou para Jill. — E você também. Jure que você vai aprender a se defender. Jure para mim.
Os olhos verde-claros de Jill se arregalaram de choque. Ela tentou lançar um sorriso reconfortante para ele, mas o gesto saiu de mau jeito.
— Claro, sr. Donahue. Estou tentando. E, até lá, tenho Eddie para me proteger dos Strigoi.
— Não dos Strigoi! — A voz dele passou para um sussurro. — Dos caçadores de vampiros.
Nenhum de nós disse nada. Lee parecia estar morrendo de vergonha.
Clarence apertou a taça de vinho com tanta força que eu fiquei preocupada que fosse quebrar.
— Ninguém falava disso naquela época... de se defender. Talvez, se Tamara tivesse aprendido algo, não teria sido morta. Não é tarde demais para você... para nenhuma de vocês duas.
— Pai, nós já conversamos sobre isso — Lee disse.
Clarence o ignorou. O olhar daquele senhor de idade passava de mim para Jill, e eu fiquei imaginando se ele por acaso sabia que eu era humana. Ou talvez não fizesse diferença. Talvez ele só tivesse um instinto de proteção distorcido por todas as garotas com a idade próxima à de Tamara. Eu meio que esperava que Keith observasse, sem nenhum tato, que não existiam coisas como caçadores de vampiros, mas ele ficou quieto, algo incomum para ele. Foi Eddie quem finalmente falou, com palavras reconfortantes e gentis. Ele sempre passava a impressão de ser um guerreiro do tipo matar ou morrer; foi surpreendente perceber que, na verdade, ele era cheio de compaixão.
— Não se preocupe — Eddie disse. — Eu vou ajudar as duas. Vou mantê-las em segurança e garantir que nada aconteça a elas, certo?
Clarence ainda parecia agitado, mas focado em Eddie com esperanças.
— Você jura? Não vai permitir que voltem a matar Tamara?
— Juro — Eddie disse, sem deixar transparecer, de jeito nenhum, como aquele pedido era bizarro.
Clarence observou Eddie com atenção por alguns segundos e então assentiu.
— Você é um bom garoto — ele pegou a garrafa de vinho e encheu a taça. — Mais? — perguntou a Adrian, como se nada tivesse acontecido.
— Sim, por favor — Adrian disse e pegou a garrafa.

Nós demos prosseguimento à conversa como se nada tivesse acontecido, mas a sombra das palavras de Clarence continuou pairando sobre mim.

Um comentário:

  1. Oi Karina! O capitulo 11 está junto com o 10!!! Eu acho que é por aqui que se fala sobre essas coisas, mas se não for desculpe!!!

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Boa leitura :)