27 de setembro de 2017

Capítulo 1

EU NÃO CONSEGUIA RESPIRAR.
Uma mão cobria minha boca e outra sacudia meu ombro para me despertar do sono pesado. Mil pensamentos frenéticos foram disparados pela minha mente em um piscar de olhos. Estava acontecendo. Meu pior pesadelo estava se tornando realidade.
Estão aqui! Vieram me pegar!
Meus olhos piscaram, enlouquecidos, examinando o quarto escuro até focarem o rosto do meu pai. Parei de me debater, totalmente confusa. Ele me soltou e recuou um passo para me olhar com frieza. Eu me sentei ereta na cama, com o coração ainda batendo acelerado.
— Pai?
— Sydney. Você não acordava.
Claro que essa foi a única desculpa que ele deu por quase me matar de susto.
— Precisa se vestir e ficar mais apresentável — ele prosseguiu. — Rápido e em silêncio. Me encontre lá embaixo, no escritório.
Arregalei os olhos, mas não hesitei em responder. Só havia uma resposta aceitável.
— Sim, senhor. Claro que sim.
— Vou acordar sua irmã — ele se virou em direção à porta, e eu dei um pulo da cama.
— Zoe? — exclamei. — Para que precisa dela?
— Shh — ele me repreendeu. — Ande logo e se apronte. E lembre-se: não faça barulho. Não acorde a sua mãe.
Ele fechou a porta sem dizer mais nenhuma palavra e me deixou lá, sem entender nada. O pânico que tinha começado a se acalmar voltou a crescer dentro de mim. Para que ele precisava de Zoe? Se estava me acordando no meio da noite, era assunto de alquimista — e ela não tinha nada a ver com isso. Tecnicamente, eu também não estava mais envolvida, já que havia sido suspensa por tempo indeterminado por mau comportamento durante o verão. E se a questão fosse essa? E se finalmente eu estivesse sendo mandada para um centro de reeducação e Zoe iria me substituir?
Por um momento senti o mundo girar, e me segurei na cama para manter o equilíbrio. Centros de reeducação. Eles eram o pesadelo de jovens alquimistas como eu, lugares misteriosos para onde levavam aqueles que se aproximavam muito dos vampiros, para que aprendessem sobre seus erros de conduta. O que realmente acontecia lá era um mistério que eu nunca quis descobrir. Tinha quase certeza de que “reeducação” era um jeito bonito de dizer “lavagem cerebral”. Eu só tinha visto uma pessoa voltar de um lugar desses e, sinceramente, ela parecia ser apenas metade do que fora antes. Era como se fosse quase um zumbi, e eu nem quis pensar no que poderiam ter feito para que ficasse daquele jeito.
O pedido do meu pai para que me apressasse ecoou pela minha mente e tentei deixar os medos de lado. Ao me lembrar de seu outro aviso, também tratei de não fazer barulho. Minha mãe tinha sono leve. Normalmente ela não iria se importar se nos visse saindo para atender ao chamado dos alquimistas, mas ultimamente ela não andava demonstrando muita boa vontade com os empregadores do marido (e da filha). Desde que alquimistas irritados me deixaram na porta da casa dos meus pais no mês passado, o lugar esteve tão acolhedor quanto um presídio. Meus pais tiveram discussões terríveis, e não raro eu e a minha irmã, Zoe, acabávamos saindo de fininho.
Zoe.
Para que ele precisa da Zoe?
A pergunta ardia dentro de mim enquanto eu me apressava para me arrumar. Eu sabia o que ele queria dizer com “apresentável”. Vestir um jeans e uma camiseta qualquer estava fora de questão. Em vez disso, coloquei uma calça social cinza e uma camisa branca bem passada. Vesti um casaquinho mais escuro, cinza carvão, por cima dela e coloquei um cinto preto bem ajustado na cintura. Uma cruz de ouro pequena (que eu sempre usava no pescoço) foi o único enfeite que me dei ao trabalho de colocar.
Já o meu cabelo era um problema um pouco maior. Mesmo depois de apenas duas horas de sono, estava espetado para todos os lados. Abaixei os fios da melhor maneira que consegui e passei uma camada grossa de spray, torcendo para que ficassem no lugar durante o que estava por vir. A única maquiagem que usei foi uma camada de pó. Não tive tempo para mais nada.
O processo todo demorou seis minutos no total, e talvez fosse o meu novo recorde. Disparei escada abaixo em silêncio completo, novamente com cuidado para não acordar a minha mãe. A sala estava escura, mas saía luz da porta entreaberta do escritório do meu pai. Tomei aquilo como um convite, empurrei a porta e me esgueirei para dentro. Uma conversa abafada cessou com a minha chegada. Meu pai me examinou da cabeça aos pés e demonstrou sua aprovação à minha aparência em seu melhor estilo: apenas sem fazer nenhuma crítica.
— Sydney — ele disse de um jeito brusco. — Acredito que já conheça Donna Stanton.
A extraordinária alquimista estava parada à janela, de braços cruzados, com a aparência tão rígida e esbelta quanto eu me lembrava. Eu tinha passado muito tempo com Stanton recentemente, apesar de não poder dizer que éramos exatamente amigas — principalmente depois que certas ações minhas acabaram nos colocando em uma espécie de “prisão domiciliar vampiresca”. Mas, se ela nutria algum ressentimento em relação a mim, não deixou transparecer. Ela me cumprimentou com um aceno educado da cabeça, com uma expressão de quem veio tratar de negócios.
Havia mais três outros alquimistas ali, todos homens. Foram apresentados como Barnes, Michaelson e Horowitz. Barnes e Michaelson tinham a idade do meu pai e de Stanton. Horowitz era mais novo, devia ter uns vinte e poucos anos, e estava arrumando instrumentos de tatuador. Todos estavam vestidos como eu, com roupas de trabalho comuns, de cores discretas. Nosso objetivo era sempre ter boa aparência, mas sem chamar atenção. Havia séculos que os alquimistas faziam o papel dos Homens de Preto, muito antes de os seres humanos sonharem com a existência de vida em outros mundos.
Quando a luz batia no rosto deles da maneira correta, cada alquimista exibia uma tatuagem de lírio idêntica à minha.
Eu me senti ainda mais desconfortável. Será que aquilo era algum tipo de interrogatório? Uma avaliação para ver se a minha decisão de ajudar uma meio-vampira renegada significava que as minhas lealdades haviam mudado? Cruzei os braços sobre o peito e assumi uma expressão neutra, torcendo para parecer tranquila e confiante. Se eu ainda tivesse oportunidade de me defender, minha intenção era apresentar um argumento sólido.
Antes que alguém pudesse proferir qualquer palavra, Zoe chegou. Ela fechou a porta atrás de si e olhou ao redor, aterrorizada, com os olhos arregalados. O escritório do nosso pai era enorme (ele tinha construído um anexo à casa para ele), e abrigava os ocupantes com folga. Mas, observando a minha irmã absorver a cena, percebi que ela se sentia sufocada e encurralada. Olhei nos olhos dela e tentei enviar uma mensagem silenciosa de solidariedade. Deve ter funcionado, porque ela se apressou para ir até onde eu estava, com a aparência um pouquinho menos amedrontada.
— Zoe — meu pai disse. Deixou o nome dela pairar no ar daquele jeito dele, mostrando com muita clareza para nós duas que estava decepcionado. Eu adivinhei imediatamente por quê. Ela estava usando jeans e um casaco de moletom velho, com o cabelo preso em duas tranças fofas, mas malfeitas. Ela estaria “apresentável” de acordo com os padrões de qualquer pessoa... mas não os dele. Eu senti ela se encolher contra mim e tentei parecer mais alta e mais protetora. Depois de se assegurar de que sua reprovação tinha sido entendida, nosso pai apresentou Zoe aos outros. Stanton dirigiu a ela o mesmo aceno educado que tinha dado para mim e se voltou para o meu pai.
— Não estou entendendo, Jared — Stanton disse. — Qual das duas você vai usar?
— Bom, este é o problema — ele respondeu. — Zoe foi solicitada... mas não tenho certeza se ela está pronta. Aliás, sei que não está. Ela só recebeu o treinamento mais básico. Mas, à luz das... experiências... recentes de Sydney...
Imediatamente, a minha cabeça começou a juntar as peças. Em primeiro lugar, e o mais importante, aparentemente eu não seria mandada para um centro de reeducação. Não por enquanto, pelo menos. A reunião era para tratar de outro assunto. Minha desconfiança anterior estava correta. Havia alguma missão ou tarefa em andamento, e queriam convocar Zoe porque ela, diferentemente de uma outra integrante daquela família, não tinha histórico de traição aos alquimistas. O meu pai estava certo em dizer que ela só tinha recebido o treinamento básico. Nosso trabalho era hereditário, e eu tinha sido escolhida, anos antes, para ser a próxima alquimista da família Sage. Minha irmã mais velha, Carly, tinha sido preterida; agora já estava na faculdade e era velha demais. Em vez dela, meu pai treinou Zoe como reserva, para o caso de algo acontecer comigo, como um acidente de carro ou um massacre de vampiros.
Dei um passo à frente, sem saber o que ia dizer até abrir a boca. A única coisa que eu sabia com certeza era que não podia deixar Zoe ser sugada pelas tramoias dos alquimistas. Eu tinha mais medo de colocar a segurança dela em risco do que de ser mandada a um centro de reeducação — e eu tinha bastante medo disso.
— Conversei com um comitê sobre as minhas ações depois do que aconteceu — eu disse. — Fiquei com a impressão de que entenderam por que eu fiz as coisas que fiz. Estou totalmente qualificada para servir da maneira que for necessária... bem mais do que a minha irmã. Eu tenho experiência no mundo real. Conheço este trabalho de trás para a frente.
— Um pouco de experiência demais no mundo real, se me lembro bem — Stanton disse, seca.
— Eu, pelo menos, gostaria de escutar essas “razões” mais uma vez — Barnes disse, traçando aspas no ar com os dedos. — Não acho nada bom atirar uma menina sem treinamento completo em ação, mas também acho difícil acreditar que uma pessoa que ajudou uma vampira criminosa está “totalmente qualificada para servir” — mais aspas pretensiosas no ar.
Respondi com um sorriso agradável para mascarar minha irritação. Se eu mostrasse minhas verdadeiras emoções, não iria me ajudar em nada.
— Compreendo, senhor. Mas Rose Hathaway acabou sendo inocentada do crime de que foi acusada. Portanto, tecnicamente, eu não ajudei uma criminosa. As minhas ações, no final, ajudaram a encontrar o verdadeiro assassino.
— Pode ser, mas nós, incluindo você, não sabíamos que ela era “inocente” na época — ele disse.
— Eu sei — respondi. — Mas eu acreditava que ela fosse.
Barnes soltou uma gargalhada de desdém.
— E este é o problema. Você deveria ter acreditado no que os alquimistas lhe disseram, e não sair por aí aplicando as suas próprias teorias mirabolantes. No mínimo, deveria ter apresentado as provas que reuniu a seus superiores.
Provas? Como eu poderia explicar que não foram provas que me levaram a ajudar Rose, mas sim uma sensação profunda de que ela dizia a verdade? Mas isso eu sabia que eles nunca iriam entender. Todos nós fomos treinados para acreditar no pior em relação a criaturas como ela. Dizer a eles que eu tinha visto verdade e honestidade nela não ajudaria em nada a minha causa ali. Dizer a eles que eu tinha sido chantageada por outro vampiro para ajudá-la seria uma explicação ainda pior. Só havia um argumento que os alquimistas talvez fossem capazes de compreender.
— Eu... eu não contei para ninguém porque queria ficar com todo o crédito para mim. Eu tinha esperanças de que, se descobrisse tudo, poderia conseguir uma promoção e uma tarefa melhor.
Precisei usar todo o meu autocontrole para contar essa mentira com o rosto impassível. Eu me sentia humilhada fazendo tal confissão. Até parece que a ambição realmente iria me levar a comportamentos tão extremos! Aquilo fazia com que eu me sentisse desprezível e superficial. Mas, como eu desconfiava, era algo que os alquimistas entenderiam.
Michaelson soltou uma gargalhada de desdém.
— Ela é mal orientada, mas isso não é totalmente inesperado para sua idade.
Os outros homens trocaram olhares igualmente condescendentes, até o meu pai. Apenas Stanton pareceu em dúvida, mas ela tinha presenciado mais do desastre do que eles.
Meu pai deu uma olhada nos outros, à espera de mais comentários. Como ninguém disse nada, ele deu de ombros.
— Se ninguém tiver objeções, então eu prefiro usar Sydney. Não que eu entenda completamente por que precisam dela. — Havia um leve tom de acusação em sua voz, por ainda não ter sido colocado a par da situação. Jared Sage não gostava de ser deixado de fora.
— Eu não vejo problema em usar a garota mais velha — Barnes disse. — Mas mantenha a mais nova por perto até os outros chegarem, para o caso de alguém fazer objeção.
Fiquei imaginando quantos “outros” iriam se juntar a nós. O escritório do meu pai não era nenhum estádio. Além do mais, quanto mais gente chegasse, mais provável era que o caso fosse importante. Comecei a sentir arrepios enquanto pensava em que missão deveria ser aquela. Eu já tinha visto os alquimistas darem conta de desastres enormes com apenas uma ou duas pessoas. Que tamanho o problema deveria ter para exigir tantas pessoas assim?
Horowitz falou pela primeira vez.
— O que vocês querem que eu faça?
— Reforce a tatuagem de Sydney — Stanton disse em tom decisivo. — Mesmo que ela não vá, não vai fazer mal reforçar os feitiços. Não vai adiantar nada tatuar Zoe até sabermos o que vamos fazer com ela.
Meus olhos se voltaram para as bochechas visivelmente nuas — e pálidas — da minha irmã. Sim. Desde que não houvesse nenhum lírio ali, ela estaria livre. Uma vez gravada a tatuagem na sua pele, não havia como voltar atrás. Você pertencia aos alquimistas.
A realidade disso só tinha me atingido mais ou menos um ano antes. Era algo que eu não havia percebido quando criança. Desde muito pequena, meu pai me levara a acreditar piamente no caráter correto da nossa obrigação. Eu ainda acreditava que era algo correto, mas gostaria que ele também tivesse mencionado quanto da minha vida isso iria consumir.
Horowitz tinha armado uma mesa dobrável na outra ponta do escritório. Ele deu um tapinha nela e lançou um sorriso simpático para mim.
— Suba aqui — ele disse. — Venha validar a sua passagem para a missão.
Barnes lançou um olhar de desaprovação para ele.
— Por favor. Você podia mostrar um pouco de respeito por este ritual, David.
Horowitz só deu de ombros. Ele me ajudou a deitar e, apesar de estar com medo demais dos outros para sorrir abertamente, fiquei torcendo para que a minha gratidão aparecesse nos meus olhos. Ele sorriu de novo, comunicando que tinha entendido. Virei a cabeça e vi quando Barnes colocou reverentemente uma pasta preta em uma mesa de canto. Os outros alquimistas se reuniram ao redor e deram as mãos na frente dele.
Percebi que ele devia ser o hierofante. A maior parte do que os alquimistas faziam se baseava na ciência, mas algumas tarefas exigiam assistência divina. Afinal de contas, a nossa missão principal de proteger a humanidade partia da crença de que os vampiros eram antinaturais e contrários ao plano de Deus. É por isso que os hierofantes — os nossos sacerdotes — trabalhavam lado a lado com nossos cientistas.
— Ó Senhor — ele entoou de olhos fechados. — Abençoe estes elixires. Remova a mácula do mal que carregam, para que seu poder doador de vida brilhe através deles com pureza para nós, os seus servos.
Ele abriu a pasta e tirou quatro ampolas pequenas, cheias de um líquido vermelho-escuro. Rótulos que eu não consegui ler marcavam cada recipiente. Com a mão firme e olho clínico, Barnes derramou quantidades precisas de cada ampola em um frasco maior. Depois de usar as quatro, pegou um pacotinho de pó e esvaziou sobre a mistura. Senti um formigamento no ar e o conteúdo do frasco ficou dourado. Ele entregou o frasco a Horowitz, que já estava com uma agulha em punho. Quando a parte cerimonial acabou, todos relaxaram.
Obediente, virei para o lado, deixando a bochecha exposta. Um momento depois, a sombra de Horowitz caiu sobre mim.
— Vai arder um pouco, mas não vai ser nada em comparação com a tatuagem original. É só um retoque — ele explicou com delicadeza.
— Eu sei — respondi. Já tinha sido retatuada antes. — Obrigada.
A agulha perfurou minha pele e eu tentei não me contorcer. Ardeu mesmo, mas, como Horowitz tinha dito, não estava criando uma nova tatuagem. Simplesmente injetava quantidades pequenas de tinta na minha tatuagem existente, para recarregar seu poder. Considerei aquilo como um bom sinal. Zoe talvez ainda não estivesse fora de perigo, mas eles certamente não se dariam ao trabalho de retocar minha tatuagem se fossem me enviar apenas para um centro de reeducação.
— Enquanto esperamos, será que podem nos dizer o que está acontecendo? — meu pai pediu. — Só me disseram que vocês precisavam de uma adolescente.
Pela maneira como ele falou, parecia um papel dispensável. Eu segurei uma onda de raiva. Para ele, nós não passávamos disso.
— Estamos com um problema — ouvi Stanton dizer. Finalmente, eu teria algumas respostas. — Com os Moroi.
Soltei um pequeno suspiro de alívio. Melhor eles do que os Strigoi. Qualquer “problema” que os alquimistas enfrentavam sempre envolvia uma das raças de vampiro, e eu sempre preferia os vivos, que não matam. Às vezes, eles quase pareciam humanos (mas eu nunca diria isso a ninguém presente ali), e viviam e morriam como nós. Os Strigoi, no entanto, eram aberrações da natureza. Vampiros assassinos, que nunca morrem, criados ou quando um Strigoi forçava uma vítima a beber seu sangue ou quando um Moroi tirava a vida de outro de propósito, ao beber seu sangue. Problemas com os Strigoi costumavam terminar com alguém morto.
Todos os tipos de situações possíveis se desenrolavam em minha mente enquanto eu imaginava qual problema tinha exigido ação dos alquimistas naquela noite: um humano que tinha reparado em alguém com caninos compridos, um fornecedor que fugiu e tornou pública sua condição, um Moroi tratado por médicos humanos... Esses eram os tipos de problemas que nós, os alquimistas, mais enfrentávamos, e eu tinha sido treinada para dar conta deles e encobri-los com facilidade. No entanto, por que precisariam de “uma adolescente” para qualquer uma dessas coisas era um mistério para mim.
— Vocês sabem que eles elegeram sua jovem rainha no mês passado — Barnes disse.
Praticamente dava para vê-lo revirando os olhos. Todos os presentes soltaram murmúrios de afirmação. Claro que sabiam. Os alquimistas prestavam muita atenção aos trâmites políticos dos Moroi. Saber o que os vampiros estavam fazendo era fundamental para mantê-los em segredo do resto da humanidade — e o resto da humanidade a salvo deles. Essa era a nossa razão de ser: proteger nossos semelhantes. Conheça bem seu inimigo era um ditado que nós levávamos muito a sério. A garota que os Moroi tinham escolhido como rainha, Vasilisa Dragomir, tinha dezoito anos, assim como eu.
— Não fique tensa — Horowitz disse com gentileza.
Eu não tinha percebido a minha tensão. Tentei relaxar, mas pensar em Vasilisa Dragomir me fez lembrar de Rose Hathaway. Pouco à vontade, pensei que talvez não devesse ter me apressado tanto em concluir que estava fora de perigo. Felizmente, Barnes só continuou com a história, sem mencionar a minha conexão indireta com a jovem rainha e seus associados.
— Por mais chocante que isso seja para nós, é chocante na mesma medida para alguns membros do povo deles. Houve muitas manifestações contrárias e dissidências. Ninguém tentou atacar a menina Dragomir, mas isso provavelmente se deve ao fato de ela ser muito bem protegida. Parece que os inimigos dela encontraram um jeito de atingi-la: por intermédio de sua irmã.
— Jill — deixei escapar. Horowitz me repreendeu por ter me mexido, e no mesmo instante me arrependi de ter chamado a atenção para mim e o meu conhecimento dos Moroi. Ainda assim, uma imagem de Jillian Mastrano surgiu na minha mente, alta e irritantemente magra, como todos os Moroi, com grandes olhos verdes que sempre pareciam nervosos. E ela tinha bons motivos para isso. Quando tinha quinze anos, Jill havia descoberto ser irmã ilegítima de Vasilisa, o que fazia dela a única outra integrante da linhagem real de sua família. Ela também estava envolvida na confusão em que me meti no verão.
— Vocês conhecem as leis deles — Stanton prosseguiu, após um momento de silêncio constrangedor. O tom dela transmitia tudo que nós pensávamos das leis dos Moroi. Uma monarquia eletiva? Não fazia sentido, mas que outra coisa podia ser esperada de seres tão antinaturais quanto os vampiros? — E Vasilisa precisa ter um familiar para poder manter o trono. Portanto, seus inimigos resolveram que, se não podem removê-la diretamente, vão remover sua família.
Um calafrio percorreu minha espinha devido ao significado subentendido daquela afirmação, e mais uma vez fiz um comentário sem pensar.
— Aconteceu alguma coisa com Jill? — Dessa vez, pelo menos, escolhi um momento em que Horowitz estava recarregando a agulha, sem perigo de estragar a tatuagem.
Mordi o lábio para me impedir de falar mais, imaginando a bronca nos olhos do meu pai. Mostrar preocupação por um Moroi era a última coisa que eu devia fazer, levando em conta minha situação incerta. Eu não era apegada a Jill, mas a ideia de que havia alguém tentando matar uma garota de quinze anos — a mesma idade de Zoe — era apavorante, independentemente da raça à qual ela pertencesse.
— É isso que não está claro — Stanton refletiu. — Ela foi atacada, disso sabemos com certeza, mas não temos informação se foi realmente ferida. De todo modo, ela está bem agora, mas a tentativa ocorreu na própria corte deles, indício de que há traidores no alto escalão.
Barnes soltou uma gargalhada de desdém:
— Mas o que se pode esperar? Não sei como a raça deles conseguiu sobreviver por tanto tempo sem que se voltassem uns contra os outros.
Ouviram-se murmúrios de concordância.
— Seja ridículo ou não, não podemos permitir de jeito nenhum que entrem em uma guerra civil — Stanton disse. — Alguns Moroi fizeram protestos, tanto que chamaram a atenção da mídia humana. Não podemos permitir isso. Precisamos que o governo deles tenha estabilidade, e isso significa garantir a segurança dessa menina. Talvez não possam confiar em si mesmos, mas podem confiar em nós.
Não adiantaria nada eu observar que os Moroi, na verdade, não confiavam nos alquimistas. Mas, como nós não tínhamos interesse em matar a monarca dos Moroi ou sua família, suponho que isso nos tornava mais confiáveis do que muita gente.
— Precisamos fazer a menina desaparecer — Michaelson disse. — Pelo menos até que os Moroi desfaçam a lei que deixa o trono de Vasilisa tão vulnerável. Esconder Mastrano no meio de seu próprio povo não é seguro no momento, então precisamos escondê-la entre os humanos. — Pingava desprezo das palavras dele. — Mas é imperativo que ela também permaneça escondida dos humanos. A nossa raça não pode saber da existência deles.
— Depois de nos consultarmos com os guardiões, encontramos um local que todos acreditamos ser seguro para ela, protegido tanto dos Moroi quanto dos Strigoi — disse Stanton. — No entanto, para garantir que ela e seus acompanhantes permaneçam despercebidos, vamos precisar ter alquimistas a postos, dedicados exclusivamente às necessidades dela, para o caso de qualquer complicação surgir.
Meu pai desdenhou.
— Isso é um desperdício dos nossos recursos. Além disso, vai ser uma tarefa insuportável para quem precisar ficar com ela.
Tive um mau pressentimento a respeito do que estava por vir.
— É aí que Sydney entra — Stanton falou. — Gostaríamos que ela fosse um dos alquimistas a acompanhar Jillian no esconderijo.
— O quê? — meu pai exclamou. — Não pode estar falando sério.
— Por que não? — O tom de Stanton era calmo e firme. — Elas têm idade próxima; por isso, se estiverem juntas, não vão despertar suspeitas. E Sydney já conhece a menina. E certamente conviver com ela não será tão “insuportável” quanto seria para outros alquimistas.
A mensagem subentendida era alta e clara. Eu não estava livre do meu passado, pelo menos por enquanto. Horowitz fez uma pausa e ergueu a agulha, para me dar chance de falar. A minha mente estava em disparada. Eu precisava dar alguma resposta. Não queria parecer muito incomodada com o plano. Eu precisava restaurar minha reputação entre os alquimistas e demonstrar a minha disposição de seguir ordens. Dito isso, eu também não queria passar a impressão de que me sentia à vontade demais na companhia de vampiros, nem de seus correspondentes meio-humanos, os dampiros.
— Passar tempo com um deles nunca é divertido — eu disse com cuidado, mantendo a voz despreocupada e insolente. — Por mais que você faça isso várias vezes. Mas farei o que for necessário para manter a nós... e a todos os demais... em segurança — não precisava explicar que “os demais” eram os humanos.
— Pronto, está vendo só, Jared? — Barnes parecia satisfeito com a resposta. — A menina sabe qual é sua obrigação. Já tomamos várias providências para que tudo corra bem, e certamente não vamos mandá-la para lá sozinha... principalmente porque a menina Moroi também não estará sozinha.
— Como assim? — O meu pai ainda não parecia contente com nada daquilo, e eu fiquei imaginando o que estaria incomodando-o mais. Ele achava mesmo que eu estaria em perigo? Ou a sua preocupação era apenas com a possibilidade de que, se eu passasse mais tempo com os Moroi, minha lealdade mudaria ainda mais de lado? — Quantos deles virão?
— Vão mandar um dampiro — Michaelson disse. — Um dos guardiões deles, e eu realmente não vejo problema nisso. O local que escolhemos deve estar livre de Strigoi, mas, se não estiver, é melhor que eles lutem contra aqueles monstros no nosso lugar.
Os guardiões eram dampiros com treinamento especial, que serviam de guarda-costas.
— Pronto — Horowitz disse para mim e se afastou. — Pode se sentar.
Obedeci e resisti à vontade de tocar na bochecha. A única coisa que senti do trabalho dele foi a picada da agulha, mas eu sabia que uma magia poderosa estava agindo sobre mim, uma magia que me daria um sistema imunológico sobre-humano e me impediria de falar sobre assuntos dos vampiros com humanos comuns. Tentei não pensar na outra parte, a respeito da origem da magia. As tatuagens eram um mal necessário.
Os outros continuavam em pé, sem prestar atenção em mim — bom, à exceção de Zoe. Ela continuava com uma expressão de confusão e medo, e olhava ansiosa para a minha direção.
— Talvez haja mais um Moroi como acompanhante — Stanton prosseguiu. — Sinceramente, não sei bem por que, mas insistiram muito para que ele ficasse com Mastrano. Dissemos que, quanto menos Moroi precisássemos esconder, melhor seria, mas... bom. Eles pareceram considerar necessário, e disseram que tomariam as providências para acomodá-lo lá. Acho que é algum Ivashkov. Irrelevante.
— Onde é “lá”? — meu pai perguntou. — Para onde querem mandá-la?
Excelente questão. Eu estava me fazendo a mesma pergunta. Meu primeiro trabalho em tempo integral com os alquimistas havia me mandado para o outro lado do mundo, até a Rússia. Se os alquimistas estavam determinados a esconder Jill, não havia como saber qual seria o local remoto que escolheriam para colocá-la. Por um momento, ousei sonhar que poderíamos ir parar na cidade dos meus sonhos: Roma. Obras de arte lendárias e comida italiana pareciam uma boa maneira de recompensar o trabalho burocrático e os vampiros.
— Palm Springs — Barnes respondeu.
Palm Springs? — repeti. Não era isso que eu estava esperando. Quando eu pensava em Palm Springs, enxergava astros de cinema e campos de golfe. Não eram exatamente férias em Roma, mas também não era o Ártico.
Um sorrisinho torto repuxou os lábios de Stanton.
— Fica no deserto e recebe muito sol. Totalmente indesejável para os Strigoi.
— Não seria indesejável para os Moroi também? — perguntei, pensando mais à frente. Os Moroi não eram incinerados debaixo do sol como os Strigoi, mas a exposição excessiva a ele, ainda assim, deixava os Moroi fracos e doentes.
— Bom, seria — Stanton reconheceu. — Mas um pouco de desconforto vale a segurança que o local nos proporciona. Desde que os Moroi passem a maior parte do tempo em ambientes fechados, não será um problema. Além disso, vai desestimular outros Moroi a irem até lá e...
O som da porta de um carro se abrindo e batendo do lado de fora chamou a atenção de todos.
— Ah — disse Michaelson. — Os outros chegaram. Vou abrir a porta.
Ele saiu do escritório e provavelmente se dirigiu à porta de entrada, para receber quem havia chegado. Momentos depois, ouvi uma voz nova falando, enquanto Michaelson voltava até onde nós estávamos.
— Bom, meu pai não pôde vir, por isso mandou que eu viesse sozinho — o recém-chegado vinha dizendo.
A porta do escritório se abriu e o meu coração parou.
Não, eu pensei. Qualquer um menos ele.
— Jared — o recém-chegado disse ao avistar o meu pai. — É bom vê-lo de novo.
Meu pai, que mal tinha olhado para mim a noite toda, chegou a sorrir.
— Keith! Estive me perguntando como você estava.
Os dois se apertaram as mãos e uma onda de desgosto tomou conta de mim.
— Este aqui é Keith Darnell — Michaelson disse ao apresentá-lo aos outros.
— Filho de Tom Darnell? — Barnes perguntou, impressionado. Tom Darnell era um líder famoso entre os alquimistas.
— O próprio — Keith respondeu, alegre. Ele era uns cinco anos mais velho, e seu cabelo tinha um tom de loiro mais claro do que o meu. Eu conhecia muitas garotas que o achavam bonito. Mas, eu? Achava que ele era péssimo. Era praticamente a última pessoa que eu esperava ver ali.
— E acredito que você conheça as irmãs Sage — Michaelson completou.
Keith voltou seus olhos azuis primeiro para Zoe. Havia uma diferença mínima de um para o outro na cor: um olho, feito de vidro, olhava para o nada adiante e nunca se movia; o outro piscava para ela, enquanto seu sorriso se alargava.
Ele ainda consegue piscar, eu pensei, furiosa. Aquela piscadela irritante, idiota e arrogante! Mas, bom, por que não conseguiria? Nós todos ficamos sabendo do acidente que ele sofrera naquele ano, acidente que tinha lhe custado um olho. Ele havia sobrevivido com um olho intacto, mas, de algum modo, na minha cabeça, achava que a perda do outro acabaria com aquela piscadela insuportável.
— Pequena Zoe! Olhe só para você, tão crescida — ele disse, cheio de carinho. Eu não sou uma pessoa violenta, de jeito nenhum, mas senti uma vontade repentina de bater nele por olhar para a minha irmã daquela maneira.
Ela conseguiu dar um sorriso, obviamente aliviada por ver um rosto conhecido. Mas, quando Keith se voltou para mim, todo o charme e a simpatia desapareceram. O sentimento era mútuo.
A fúria cega e ardente que ia crescendo dentro de mim era tão avassaladora que eu demorei para formular qualquer tipo de reação.
— Olá, Keith — eu disse, rígida.
Keith nem tentou se equiparar à minha civilidade forçada. Ele se virou imediatamente para os alquimistas.
— O que ela está fazendo aqui?
— Sabemos que você requisitou Zoe — Stanton disse com a voz firme —, mas, depois de considerarmos, resolvemos que é melhor Sydney fazer esse papel. A experiência que ela tem se sobrepõe a qualquer preocupação que tenhamos em relação a suas ações.
— Não — Keith logo respondeu e voltou seu olhar azul de aço mais uma vez para mim. — Ela não vai me acompanhar de jeito nenhum. Não posso deixar que uma adoradora de vampiros degenerada estrague a missão para todos nós. Vamos ficar com a irmã dela.

4 comentários:

  1. AAAAAAAA <3 Karinaaaaa te amo!! Finalmente os bloodlines *_*
    ~Isa

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  2. Esse Keith é um filho da p... e o pai da Sydney? Fala sério? Machista é pouco!!!! E, esses alquimistas é que são do demônio... que é isso? São propriedades deles a Sydney e a Zoe!

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  3. jhueheuhe Só eu que não sei quem é esse Keith?

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    1. A história acabou de começar, ninguém sabe quem é Keith heauheah

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Boa leitura :)