22 de setembro de 2017

7. Arrancado

Ísis não sabia quanto tempo tinha passado pranteando o amor que acabara de conquistar. Suas lágrimas corriam livremente, seu grande pesar levando as estrelas a chorar também. As gotas caíram no domínio mortal e fizeram as águas do Nilo, já altas, elevarem-se ainda mais, inundando os campos, de modo que todos que viviam às margens do rio sabiam que algo terrível devia ter acontecido para impedir que Osíris os protegesse como sempre fazia.
Ela ouviu um ruído de asas batendo e sentiu o ar roçando em sua pele. Era Néftis. O pesar de Ísis se transformou em fúria.
— Saia daqui! — ordenou. — Volte para o seu marido. Vocês dois se merecem.
— Eu não vou abandonar você — respondeu Néftis calmamente.
Boquiaberta e incrédula, Ísis ficou olhando para ela.
— Não vai me abandonar? Você já me abandonou. Você me traiu por alguém que fez o impensável! Como pôde apoiar uma coisa dessas? Diga que não foi informada disso por uma visão. Diga que estou errada. Diga que não poderia ter feito nada para impedir.
Até aquele momento, Ísis não tinha entendido a profundidade da falsidade de Néftis. Estava tudo escrito no rosto dela. Arrependimento e pena nadavam nos olhos de Néftis, confirmando suas suspeitas. A irmã tinha visto esses acontecimentos se desenrolarem em uma visão. Tinha visto e não fizera nada para impedir.
— Não suporto nem olhar para você — disse Ísis, virando-se para outro lado.
— Ísis, pare! — Néftis pôs a mão no ombro da irmã. — Sei que há muitos danos que eu preciso reparar entre nós, mas há muito a fazer e não temos tempo para que eu explique. Apenas saiba que tudo isso, inclusive a morte do seu marido, tinha que acontecer para que o cosmos encontrasse seu equilíbrio.
Apesar de sua necessidade de se afastar, Ísis parou para fazer uma última pergunta.
— Como é que qualquer coisa pode reencontrar o equilíbrio se Osíris se foi?
— Ele não se foi, irmã.
— O quê? — Ísis se virou para ela. — Como assim?
Néftis soltou um suspiro.
— Ele ainda está aqui. Você não o sente?
— Sentir Osíris? Como?
— Foi o seu feitiço. Vocês ainda estão conectados. Mesmo agora. Se você quer trazê-lo de volta, precisamos nos apressar.
— Mas Seth...
— Esqueça Seth por enquanto. Quer seu marido de volta ou não?
Ísis piscou e o ar agitado pelas asas de Néftis secou as lágrimas que aferroavam seus olhos.
— Claro que eu o quero de volta — murmurou ela, a confusão evidente em seu rosto.
— Então venha comigo — ordenou Néftis, enigmática, sem deixar espaço para mais perguntas.
Ísis ganhou o céu, seguindo a irmã enquanto um milhão de perguntas lhe vinham à mente. Será que é verdade? Será possível que Osíris ainda esteja ao meu alcance? Néftis voava com rapidez e Ísis ficou surpresa quando o monte Babel surgiu no horizonte. Quando Ísis se dirigiu para a base da montanha, Néftis se redirecionou e aproximou-se da irmã. Pegando a mão dela, disse:
— As estrelas me permitem passar agora. Se você ficar comigo, o caminho estará livre.
As irmãs foram até o cume da montanha no local exato onde Ísis tinha tecido seu feitiço: o lugar que agora era sagrado para ela, onde ela tinha se unido a Osíris havia menos de um dia.
Néftis se ajoelhou na superfície da enorme pedra sagrada e fechou as asas atrás de si, indicando a Ísis que a seguisse. Com suavidade, ela abriu a mão da irmã e fez um pequeno monte com a areia entre as duas, moldando para que tivesse quatro lados e se erguesse em um pico no meio, formando uma pirâmide.
— Você sabe o nome verdadeiro dele? — perguntou Néftis.
Ísis assentiu com a cabeça.
— Então vamos usá-lo para chamá-lo de volta das Águas do Caos. Lance um feitiço, irmã — pediu ela. — Crie um corpo para ele a partir do pó de seus restos. O poder do cosmos vai iluminar a pirâmide de dentro e, quando isso acontecer, use a sua lembrança dele para moldar sua nova forma. Então, quando estivermos prontas, vamos usar o nome verdadeiro dele para guiá-lo até aqui, e os corações compartilhados entre vocês vão voltar a se encontrar.
Ísis começou a tecer o feitiço. Ela nunca tinha feito nada assim antes e precisou tentar várias vezes, mas finalmente o cosmos respondeu. A luz brotou dentro da areia enquanto ela entoava seu cântico, e seu feitiço se transformou em uma canção. Era rica e cheia do amor que ela sentia por Osíris. A música era uma parte tão importante dele que cantar o feitiço pareceu correto.
Néftis juntou sua voz à da irmã e, para deleite de Ísis, ela ouviu o eco do coração de Osíris batendo. Era bem fraco, difícil até mesmo para ela escutar, mas lhe deu esperança. Horas se passaram enquanto as mulheres cantavam, e, em resposta, a areia foi se transformando. Esticou-se e pulsou, formando o contorno vago de um homem, e então a canção dela entalhou a superfície de seu peito, seus braços fortes e, finalmente, os ângulos de seu rosto bonito.
Quando os grãos se assentaram e a luz se dissipou, ela viu que o corpo de seu marido estava perfeito até nos mínimos detalhes, mas ele não respirava. Em vez de carne e osso, a areia tinha se enrijecido na forma de pedra polida e ela não estava sentindo o coração dele mais perto do que quando tudo tinha começado.
Ísis desabou, arfando.
— O que fiz de errado?
— Nada. Só vamos precisar de um pouco de ajuda para o próximo passo.
Ao ver Ísis se entregando à derrota, Néftis apertou as mãos da irmã, então soltou-as e se levantou.
— Descanse um pouco. Vou chamar Anúbis. Ele vai assar a pedra com os fogos da imortalidade e então o molde vai ganhar carne.
Quando Ísis estendeu a mão para a irmã, desesperada, e agarrou seu braço, Néftis compreendeu o motivo.
— Só vou trazer Anúbis, prometo.
Ísis assentiu, agora sozinha com a réplica reluzente do marido. As mãos de Osíris estavam cruzadas sobre o peito e seus olhos estavam fechados. Ela curvou seu corpo sobre o dele, tirou alguns grãos de areia que restavam em seu rosto e traçou o contorno do maxilar com as pontas dos dedos. Ela queria que ele acordasse, que a envolvesse com seus braços e lhe assegurasse que nunca mais a abandonaria.
Ísis.
Ela teve um sobressalto e percebeu que devia ter dormido por um tempo, apoiada em sua imagem. Será que ele tinha tentado entrar em contato com ela?
Ela apertou a mãos contra o rosto cor de bronze.
— Você está me escutando, marido? — perguntou com os olhos arregalados, ansiosa e desesperada. — Osíris? — chamou ela.
Não recebeu resposta.
Uma lágrima solitária caiu no peito dele e Ísis enxugou os olhos. Quando ela olhou para o lugar onde a lágrima havia caído, engoliu em seco. Os pontos molhados no peito e nos ombros nus dele tinham ficado quentes e a cor tinha mudado para o tom bronzeado de Osíris. Mas, para sua decepção, viu o ponto macio que traçou com o polegar voltar a ser pedra polida. Por mais que tentasse, não conseguia repetir o milagre.
Quando Néftis voltou, com Anúbis logo atrás de si, Ísis contou sua descoberta, cheia de animação.
— Suas lágrimas têm poder, irmã. Sua conexão com Osíris permitiu que uma lágrima se formasse das Águas do Caos. — Néftis se afastou e indicou a Anúbis que tomasse seu lugar. — Infelizmente, nem você seria capaz de produzir lágrimas suficientes para dar carne ao corpo dele. — Néftis colocou a mão no ombro de Anúbis. — Você sabe o que fazer — disse a ele.
— Nunca fiz isso — confessou ele. — Não há precedentes.
— Só porque nunca foi feito não significa que seja impossível — retrucou ela. — Permita que as estrelas o guiem.
Néftis permaneceu firme apesar de ele olhar para ela cheio de dúvidas.
Anúbis se agachou e tocou o braço de Ísis.
— Vou fazer o que for possível, deusa.
— Obrigada — Ísis sussurrou e se moveu para lhe dar espaço.
Anúbis começou a entoar um cântico. Suas palavras ressoavam com poder enquanto ele repelia a seca e a escuridão, as tempestades e o caos – todas as coisas de que Osíris era a antítese. Enquanto ele fazia isso, Ísis, inquieta, torcia as mãos, mordia os lábios e agitava as asas em padrão ritmado, como que para aplacar a angústia que sentia. Quando o fogo tomou conta da forma de Osíris, ela recuou. O calor de mil sóis queimou, assando-o, e, através das chamas, Ísis viu a pedra polida se derreter e transformar-se em carne macia.
— Deu certo — disse Anúbis, admirado.
Quando baixou as mãos, as chamas diminuíram e se apagaram, mas a carne começou a se transformar mais uma vez em pedra, do mesmo jeito que acontecera quando a lágrima de Ísis secou. Anúbis voltou a erguer os braços para reavivar as chamas. No momento em que o fogo se dissipou, seus braços tremeram. E continuou:
— Vão ter que se apressar. O poder de Seth continua a desfazê-lo.
— Só quando o sopro da vida retornar e ele estiver no comando do próprio corpo de novo é que a chama imortal poderá se apagar — Néftis explicou. Então pediu, em tom de urgência: — Chame Osíris, irmã. Agora que ele é carne, o caminho está aberto. Faça com que retorne e enxerte seu verdadeiro eu neste novo corpo.
— Osíris, meu amor! — exclamou Ísis. — Meu coração o chama. Volte para mim. Eu estou chamando. Atravesse o cosmos. Venha ao meu encontro!
Ísis se ajoelhou, ignorando o calor do corpo dele em chamas, e colocou as palmas das mãos no peito de Osíris. Ela fechou os olhos e se inclinou para a frente, sentindo o cabelo macio dele contra sua bochecha, e sussurrou seu verdadeiro nome em seu ouvido. Imediatamente sentiu um sobressalto no coração e o pedaço dele que residia em seu peito reagiu.
— Ele está vindo! — gritou Néftis.
Ísis ergueu os olhos e viu um pontinho de luz se aproximar deles. Diminuiu a velocidade quando chegou perto, hesitante, e então finalmente afundou no peito de Osíris, bem onde ficaria seu coração. O corpo brilhou como se tivesse sido iluminado por dentro com uma luz celestial, mas, diferentemente da chama de Anúbis, essa luz não carregava calor. O esqueleto e os músculos do deus se delinearam com clareza através da pele. Plantas minúsculas brotaram ao redor do corpo, um sinal certeiro de que o deus das coisas que cresciam voltara.
Então, no momento em que Ísis permitia que a chama da esperança a preenchesse também, a luz dentro do corpo de Osíris diminuiu e foi apagando nos braços e nas pernas, começando pelos dedos. As plantinhas se encolheram e ressecaram, ficando marrons e morrendo diante dos olhos dela.
— Rápido! — exclamou Néftis. — Não permita que a essência vital dele escape!
Ela se ajoelhou ao lado da cabeça de Osíris e pediu a Ísis que se ajoelhasse a seus pés. Juntas elas ergueram as asas e impediram que o globo de luz que tinha se erguido do corpo fosse embora. Ele ricocheteou entre as penas macias, tentando retornar às Águas do Caos.
— Cante para fazer com que ele retorne ao corpo outra vez, Ísis!
A deusa ergueu a voz e o globo minúsculo aproximou-se, pairando perto dela antes de entrar no corpo inerte mais uma vez.
— Continue cantando e agite o ar com suas asas. Isso traz vida — instruiu Néftis, voltando-se então para o deus em pé ao seu lado. — Anúbis, preciso da sua ajuda. Temos que conectar a essência da vida ao novo corpo dele.
— O que eu preciso fazer?
— Não posso sair daqui. Use sua foice para cortar nosso cabelo.
— Quer que eu corte o cabelo de vocês? — Ele franziu a testa, confuso.
— Quero. Em seguida você precisa enrolar os fios no corpo dele. Todas as partes dele precisam estar amarradas. Vai ter que cortar tudo.
Anúbis hesitou apenas por um momento. Então ergueu a foice e cortou todo o cabelo de Ísis, depois foi para trás de Néftis e fez a mesma coisa.
Usando punhados dos longos cabelos delas, ele envolveu o corpo de Osíris com os cachos macios, amarrando-os com nós. Quando todas as partes do novo corpo de Osíris estavam envolvidas pelos cabelos, Néftis instruiu:
— Agora, sussurre o nome verdadeiro dele mais uma vez, irmã.
Ísis obedeceu. A luz se espalhou e preencheu o corpo recém-formado novamente, mas dessa vez foi brilhando cada vez mais forte até que seus raios explodiram por entre os fios de cabelo e os dissolveram. Quando a luz se apagou, Néftis disse:
— Está feito. Venha, Anúbis, vamos deixar os dois sozinhos.
— Mas ele continua sem respirar! — exclamou Ísis enquanto Anúbis ajudava Néftis a se levantar.
— O resto é com você — disse Néftis em tom suave. — Quando você tocar os lábios dele com os seus, o sopro da vida vai penetrar no novo corpo.
Néftis cambaleou ao avançar, apoiada em Anúbis.
Ísis soltou um suspiro fundo, ficou olhando para a irmã e resolveu decidir o que fazer a respeito da traição dela mais tarde. Quando eles se retiraram, o corpo de Ísis se sacudiu com espasmos de exaustão profunda. Ela se sentiu esgotada como nunca antes. Ter feito dois feitiços tão poderosos no espaço de um dia poderia matar um ser inferior, mas Ísis estava determinada. Só faltava um beijo. Claro que ela conseguiria reunir energia suficiente para algo tão pequeno.
Ajoelhada ao lado do marido, ela acariciou o cabelo macio dele. Suas mãos tremiam quando as levou ao rosto dele. Inclinando a cabeça dele, pressionou delicadamente os lábios contra os dele. Sentiu o gosto salgado das próprias lágrimas e o calor residual dos fogos em que ele tinha ardido. Então uma rajada de vento soprou. O peito embaixo dela subiu e desceu.
A mão dele enlaçou a cintura dela e a puxou para mais perto quando os lábios dele se moveram de encontro aos dela, primeiro um pouco hesitantes, depois, famintos. Osíris sentou-se ereto, levando-a junto com ele. Segurou-a pelos ombros e a afastou um pouco para poder olhá-la. Enxugou suas lágrimas com os polegares e passou a mão no cabelo cortado com uma expressão pensativa e triste enquanto os fios curtos deslizavam entre seus dedos.
Ísis não conseguia deixar de tocá-lo. Ela acariciou-lhe o pescoço e os ombros fortes e tirou o cabelo que caía em seus olhos. Osíris fez a mesma coisa com ela, até que finalmente entrelaçou seus dedos nos dela e os levou aos lábios para um leve beijo.
— Estou aqui, Pequenina — disse ele. — E não vou mais abandoná-la.
— Como podemos saber? — indagou ela com um soluço. — Como vamos impedir a próxima tentativa de Seth?
— Amon-Rá vai impedi-lo. Temos de ir agora. Vamos precisar da ajuda dele se quisermos deter Seth.
Ela assentiu e ele a ajudou a se levantar. Osíris se moveu de um lado para outro, mexendo os braços e as pernas, testando seu novo corpo pela primeira vez. Quando estava pronto para partir, Ísis disse:
— Espere.
— O que foi? — perguntou ele.
Ela passou a mão pelo peito dele e uma corrente de ouro com uma pedra preciosa vermelha apareceu.
— O que é isto? — perguntou Osíris ao examinar o objeto.
— Ela contém a minha força vital. A pedra nos une. Se ele desfizer um de nós, vai desfazer os dois. — Ela pegou a mão dele. — Não vou ser separada de você novamente — disse. — Mesmo que isso signifique a minha morte.
Ele assentiu com ar grave. Então a beijou e deslizou a mão por seu pescoço. Quando ele ergueu a cabeça, ela sentiu o peso de uma corrente. Ele também tinha criado um colar para ela. Ísis o ergueu e viu que era um amuleto no formato da cruz egípcia ankh, mas as laterais se voltavam para baixo.
Quando Ísis ergueu os olhos, ele explicou:
— É um tyet, um nó que une e traz vida. Estes são os seus braços e as suas asas quando me envolvem. Isto — mostrou o centro — é o beijo que me deu fôlego. Estou ligado a você, meu amor, minha Ísis. A minha vida é sua. Independentemente do que o futuro trouxer.
Ísis assentiu e seus olhos se fecharam, fazendo-a tropeçar. Osíris a segurou, beijou de leve seus lábios e disse:
— Descanse agora, Pequenina. É a minha vez de voar.
Erguendo a esposa nos braços e aninhando-a junto de si, Osíris clamou aos escaravelhos do coração que os uniam e se deliciou com a palpitação do coração dela trancado em seu peito. Ganhou os céus, ciente de que teria de confrontar o deus mais poderoso que já tinha encarado e de que isso poderia resultar na morte de ambos.

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