22 de setembro de 2017

6. Debulha

De repente, a grande estrela do céu, o sol que tudo vê, lançou sua luz sobre a montanha, e o impacto do que eles tinham feito foi sentido de imediato. O topo da montanha se sacudiu quando Geb tremeu de medo, causando um terremoto que quase partiu ao meio os monólitos que avultavam sobre a imensa pedra sagrada na qual se encontravam.
O sussurro das estrelas se transformou em gritos. E a deusa Nut recolheu as saias de suas nuvens e as levou ao rosto, encobrindo-se enquanto suas lágrimas gigantescas caíam sobre todo o Duat. Árvores enormes agitaram os galhos e se esconderam nas sombras umas das outras, como se tivessem vergonha de terem sido pegas acobertando o casal.
De onde estavam, agarrados um ao outro e olhando para os céus, Ísis e Osíris podiam ver a alteração que tinham causado na lei celestial escrita entre as estrelas. Os globos brilhantes lá em cima, ocultos pela luz do sol de todos menos dos próprios deuses, moveram-se e se reorganizaram, formando novas constelações e novos agrupamentos para dar espaço ao feitiço que Ísis tinha lançado.
Os dois ouviram as convocações que soaram por todo o céu como o grito de uma ave de rapina. Estava na hora de arcar com as consequências, porque Amon-Rá agora sabia o que tinha acontecido. Osíris apertou a mão de sua esposa.
— Precisamos ir.
Segurando os dedos dela, ele se virou para ir, mas se deteve quando ela recolheu a mão e não o seguiu.
— Elas estão perturbadas — disse, referindo-se às estrelas.
— Sabíamos que seria assim.
Os dois ergueram os olhos quando as estrelas se realinharam. Algumas se extinguiram, enquanto outras se acenderam, explodindo em uma existência gloriosa, sua luz ardendo, reluzente, como se anunciassem o que Ísis e Osíris tinham feito a qualquer um que olhasse para o céu.
Ísis voltou o olhar para o marido e ficou perturbada ao ver a expressão preocupada no rosto dele.
— Está arrependido? — perguntou, levemente temerosa da resposta dele.
Osíris encostou sua testa na dela.
— Não, Pequenina. Só estou triste porque agora precisamos encarar os outros deuses em vez de comemorar os votos que trocamos esta noite.
Ísis concordou com a cabeça, aliviada com o que ouvira, e todo o amor que sentia por ele se revelou na suavidade de seu sorriso.
Quando Osíris começou a descer a montanha, Ísis pegou a mão dele.
— Agora somos um só. Venha. Voe comigo.
Ísis estendeu as asas e colocou a mão no coração dele.
— Sinta a força das minhas asas no escaravelho do coração que você carrega — disse ela.
Então, com um impulso forte, Ísis se ergueu no ar.
Osíris fechou os olhos e tentou sentir o segundo coração que batia dentro dele, a pequena ametista que pertencia àquela que ele tinha tomado para si, e abraçou o arroubo de poder que encontrou ali. As asas douradas se agitavam em seu peito. Quando ele abriu os olhos, para seu deleite, estava no ar, flutuando muito acima da montanha onde Ísis estava à sua espera.
— Apenas pense em mim — gritou ela na enormidade do céu —, e o seu coração vai chegar até o meu.
A conexão entre eles era surpreendente, diferente de qualquer coisa que Osíris já tinha sentido na vida. Agora ele não só compartilhava o poder dela como também podia ler seus pensamentos. Ísis temia confrontar Amon-Rá, mas não estava com vergonha da união. Na verdade, estava orgulhosa de pertencer a ele. O fato de ela ter sido capaz de realizar um feitiço de tamanha magnitude era assustador, mas também a deixava satisfeita. Uma parte de Ísis ansiava por lançar outros feitiços que ela teria tentado executar no passado, mas se sentiu apreensiva demais para tanto.
Ao explorar os pensamentos dela mais a fundo, percebeu como uma união como a deles tinha sido perigosa. Ela não havia compartilhado tudo com ele. Se não tivesse dado certo, ambos teriam sido destruídos. Se ele soubesse que ela corria esse risco, provavelmente teria, no mínimo, parado para analisar as consequências. Osíris não se importava com os riscos para si mesmo e se deu conta de que não tinha nenhum ressentimento por ela ter ficado em silêncio.
No final, ele teria feito tudo do mesmo jeito.
Ísis o censurou em pensamento: Meu amorvocê está pensando demais. Tente aproveitar o voo.
Maravilhado com a nova habilidade de poder falar com ela sem usar a voz, Osíris lhe enviou uma enxurrada de pensamentos: sua leve censura por ela ter mantido o perigo do feitiço escondido dele, a maravilha de sentir as emoções dela, o anseio de tomá-la em seus braços e levá-la embora para um jardim secreto que nunca tinha dividido com ninguém e, por fim, sua gratidão por ela ter tido paciência para esperar até que ele viesse a ela.
Ele se aproximou dela e olhou para cima no instante em que ela olhava para baixo. O sorriso que ela lhe dirigiu estava cheio de promessas e segredos que apenas os dois compartilhariam. Eu não fui assim tão paciente, disse ela, e ele percebeu que seus pensamentos a tinham agradado. Isso era bom. Iria ajudar a distraí-la dos aborrecimentos que os aguardavam em Heliópolis.
Infelizmente, os aborrecimentos se revelaram rapidamente quando Seth irrompeu na sala do conselho menos de um minuto depois da chegada dos dois. Amon-Rá, cujos lábios apertados estavam parecendo uma linha fina quando eles entraram, ainda nem tinha falado. Apenas os olhava fixamente.
Néftis estava a seu lado, e Ísis reparou no chá servido para dois que tinha sido deixado na mesinha lateral. Ela ergueu a sobrancelha e ficou imaginando por que a irmã estaria tomando chá com Amon-Rá.
As primeiras palavras que saíram da boca de Amon-Rá foram direcionadas a Seth:
— Você não foi convocado.
— Vai tentar minimizar e perdoar o que eles fizeram? — contra-atacou Seth imediatamente. — Nós todos vimos as estrelas. Elas mudaram. Um novo padrão surgiu, e isso é inconcebível. Inaceitável. Vai contra todos os estatutos que você decretou! — gritou ele. — Os dois precisam ser castigados!
— Vou examinar os atos de ambos — disse Amon-Rá com gravidade. — Se serão castigados ou não, não é da sua conta.
— É da conta de todos nós! — Seth berrou em resposta.
Uma voz dócil soou na câmara.
— Talvez Seth precise testemunhar isto — disse Néftis, e Ísis se virou para avaliar a irmã.
Néftis sabia de algo. Algo que estava ocultando.
Amon-Rá também ergueu o olhar para Néftis e a examinou em silêncio. Depois de um momento, ele assentiu.
— Muito bem. Pode ficar — disse ele a Seth. Em seguida, mudou de posição no trono e voltou toda a atenção aos dois que se encontravam diante dele, as mãos unidas diante do corpo. Amon-Rá franziu a testa. — Quem vai falar primeiro?
Ísis estava prestes a falar quando Osíris deu um passo à frente.
— Eu amo Ísis — declarou ele com coragem, e o coração de Ísis se enterneceu com as palavras, sentindo a verdade delas ecoar por seu corpo. — Nós fizemos um feitiço para ficarmos juntos.
Amon-Rá se inclinou para a frente.
— E foi um feitiço muito poderoso. — Ele inclinou a cabeça de lado. — De onde veio esse feitiço?
— Eu o criei — disse Ísis.
— Pode ser desmanchado?
Um calafrio percorreu o corpo de Ísis, que abriu a boca, mas descobriu que não conseguia falar. A simples ideia de dissolver a conexão entre ela e Osíris lhe parecia tão repulsiva quanto a de decepar o próprio braço.
Néftis ofereceu a resposta.
— Não pode. O padrão das estrelas foi reescrito, as leis foram alteradas.
Ísis engoliu em seco e lançou um olhar de gratidão à irmã, mas então Néftis completou:
— Não há como... desfazer o que foi feito.
Engolindo em seco, assustada, Isís olhou furtivamente para Seth, e seu maxilar se retesou quando ela viu o sorrisinho dele e a maneira ousada como a examinava. Ele que tente, pensou ela.
— Entendo — disse Amon-Rá, recostando-se no trono e coçando o queixo enquanto analisava suas opções. Fez-se uma longa pausa em que todos os olhos se voltaram para o deus grandioso. Finalmente, ele suspirou. — Vocês prometem não ter filhos? — indagou.
— Para... para que continuemos sendo deuses? — perguntou Osíris, incrédulo.
— O que você achou que eu ia fazer? — perguntou Amon-Rá.
— Nos transformar em mortais — respondeu Osíris.
Amon-Rá deu uma risada de leve.
— Nem sei se eu seria capaz de fazer isso, mesmo que quisesse. Além do mais, ainda precisamos de suas várias habilidades — disse ele com um aceno da mão, indicando os dois. — Não responderam à minha pergunta. Vocês têm a intenção de ter filhos?
Osíris estava prestes a responder quando Ísis o interrompeu com um aperto no braço.
— Nós prometemos que não traremos nova vida a este mundo sem o seu conhecimento.
Amon-Rá refletiu sobre as palavras de Ísis e então assentiu com a cabeça em um gesto final.
— Então parece que temos um banquete de casamento a planejar.
A alegria que Ísis e Osíris sentiram com o anúncio foi refreada pela explosão de Seth.
— O quê?! — esbravejou ele. — Agora é este o protocolo? Os deuses podem se casar entre si como bem entenderem desde que prometam não procriar?
Amon-Rá resmungou.
— A lei foi reescrita. O que eles fizeram se aplica a todos nós — disse, com um olhar gélido.
Néftis deu um passo adiante e perguntou baixinho:
— Será que você não pode tentar entender o que há de bom nisto, Seth?
Seth fez uma pausa e sua raiva começou a passar quando notou a expressão de súplica no rosto dela. Ele pareceu chegar a algum tipo de decisão, porque colocou as mãos nas costas, assentiu brevemente para Néftis, cuspiu um “Parabéns” sarcástico para o casal e se retirou.
— Pronto — disse Amon-Rá. — Agora que já resolvemos a parte desagradável, vou anunciar à cidade que haverá uma festa de casamento hoje à noite. Néftis?
— Pois não?
— Pode cuidar dos detalhes?
— Claro que sim — respondeu ela com um aceno recatado da cabeça.
— Espere — pediu Ísis quando Amon-Rá se levantou para sair. — Preciso falar com você a respeito de Seth.
Néftis agarrou o braço de Ísis bem forte.
— Este não é o momento de incomodar Amon-Rá com notícias banais. É o seu casamento!
— Mas ele precisa saber...
— Pode acreditar quando eu digo que, independentemente do que você queira contar, Amon-Rá já sabe. Além do mais, isso pode esperar até amanhã, não pode?
Ísis mordeu o lábio.
— Será que pode, irmã?
Néftis sabia que Ísis na verdade estava pedindo a ela que usasse sua segunda visão. Tentando parecer segura, Néftis respondeu:
— Tenho certeza de que sim. As estrelas se reacenderam. Elas queimam de uma maneira nova agora, diferente de antes, mas continuam sussurrando para mim, e a mensagem delas é que tudo vai ficar bem.
Néftis sabia que talvez a irmã nunca a perdoasse por ter escondido o que ia acontecer, mas também sabia que os fatos deviam tomar seu curso. Tudo dependia disso. Néftis não estava ciente de todos os detalhes do que aconteceria, não exatamente, mas sabia do enorme pesar que cairia sobre os ombros da irmã aquela noite.
Mesmo assim, ela faria com que tudo fosse o mais lindo possível para Ísis. Néftis não queria que a irmã perdesse nem um momento da felicidade que buscava. Por essa razão, recomendou que Ísis e Osíris fossem descansar enquanto ela preparava tudo não só para o banquete de casamento, mas para o que mais estivesse à espera deles.
Servos chegaram, inclusive Baniti, que foi levada a Heliópolis especificamente para distrair Ísis. Osíris insistiu que sua linda esposa precisava passar o dia todo se recuperando do feitiço e, exausta como estava, Ísis não protestou. Ela deixou que Baniti a levasse e a ajudasse a entrar em uma banheira perfumada com óleo egípcio. Ísis se consolava com o fato de saber exatamente o que seu noivo estava fazendo e onde estava o tempo todo. Mesmo quando dormia, seus pensamentos se entrelaçavam com os de Osíris e os dois se sentiam reconfortados, apesar da separação física.


Nesse ínterim, Seth tinha viajado até o mundo mortal e se postara à margem de uma floresta antiga e extensa: a maior e mais densa entre todas no planeta. Era uma de que Osíris se orgulhava especialmente e que visitava com frequência para pegar amostras de plantas, além de várias criaturas para criar.
Flexionando os dedos, Seth fervilhava e andava de um lado para outro.
Como isso pode ter acontecido sem o meu conhecimento?, ele se perguntava, irado. Seus pensamentos furiosos se revertiam em uma chuva de granizo martelando a Terra, uma ideia de vingança ricocheteando com força na outra. O ar tinha cheiro de coisas vivas – seiva de árvore, abeto e pinho – e uma névoa branca e fina cobria o solo, dando à floresta um ar misterioso. Aves e pequenos animais saltavam de um galho coberto de musgo a outro, enchendo o ar com sua música alegre que celebrava a união.
Seth detestava tudo naquela floresta. As altas árvores zombavam dele, erguendo-se ali com seus troncos grossos. Orgulhosas e impassíveis.
Exatamente como Osíris. Enquanto olhava fixo para a sombra das árvores, Seth sentiu algo escuro serpentear dentro dele. A coisa envolveu seu coração e o apertou, escancarando as mandíbulas para engoli-lo. Cada batida de seu coração o sobressaltava, como se ele estivesse em uma sala cheia de portas e cada uma delas se fechasse com estrondo e definitivamente, impedindo sua saída. Seth cerrou os punhos, enquanto o pretume frio ia se espalhando por suas veias, desafiando-o a lutar contra ele.
No entanto, em vez de resistir ao leviatã que tinha tomado conta de sua mente e de seu coração, ele ficou paralisado e permitiu que se enraizasse. À medida que ia dando voltas e se espalhando em seu corpo, ele permaneceu imóvel. Ficou lá parado, feito um espantalho, oco e com os braços e pernas rígidos, o sol privando-o de qualquer vestígio de solidariedade ou bondade.
Quando a escuridão finalmente se acomodou nele feito um dragão adormecido, Seth se moveu. Seu coração agora era uma pedra de moinho fria e negra: inflexível, inabalável e insensível. Se ele não ia ser honrado, então seria temido. A determinação queimava em seu corpo, derretendo qualquer dúvida que restasse como se fosse sebo.
Ele ergueu as mãos e canalizou seu vasto poder, expandindo-se como nunca antes. Não tinha orgulho do ato de desfazer, tampouco tinha medo das consequências, só uma sensação de vingança. Raízes grossas de árvores emergiram do solo, criando uma densa confusão de madeira que se partia e forçava até as árvores caírem e em seguida desaparecerem, afundando nos buracos gigantescos que estavam lhes servindo de leito. Logo sobraram apenas as feridas abertas onde os grandes soldados da floresta antes se erguiam. A vegetação restante deslizava para os bolsões vazios, meio desenraizada e mole feito os lábios de um velho banguela. Seth continuou avançando com seu trabalho. As samambaias se enrolaram sobre si mesmas até se transformarem em pó e se espalharem ao vento. Os aglomerados de delicados líquens e musgos se ressecaram como se tivessem pegado fogo. Enegreceram e desapareceram até que não restasse sequer o cheiro de fungo, seiva ou madeira. Quando deu cabo de toda a flora, Seth voltou sua atenção para a fauna.
Os animais maiores berravam, cambaleando sem rumo pelo terreno agora irreconhecível, completamente alheios a predadores ou presas em sua busca pelo lar perdido. Ele fechou os olhos e desfez todos eles. Alguns, rápido. Outros, devagar. As criaturas menores que tinham se escondido nos restos das plantas corriam de qualquer jeito para os buracos e se ocultavam na terra. Bandos de pássaros disparavam para lá e para cá em formações caóticas, muitas vezes esbarrando uns nos outros, como se estivessem confusos.
O grande número de criaturas deixou Seth atordoado, no entanto ele não sentia nenhum remorso por seu desaparecimento. O poder ia preenchendo seu corpo à medida que ele os erradicava, primeiro os grupos pequenos e depois manadas e enxames, até que não sobrou nem a menor das formigas. O sangue e a carnificina que tinham manchado a terra com aqueles que ele desfizera mais lentamente agora tinham desaparecido. A gravidade já não tinha mais efeito sobre ele quando canalizou seus pensamentos e se ergueu no ar, examinando a ampla planície à sua frente, em busca de qualquer organismo que tivesse sobrado, mas não encontrou nada além de um rio desprovido de vida.
Riachos de água branca escorriam pelas pedras, espalhando-se como os cabelos de uma mulher por cima do braço de seu amado. A ideia fez com que uma certa melancolia tomasse conta de Seth. Irritado, foi para a lagoa funda que a cachoeira alimentava, sentou-se em uma pedra e ficou olhando o próprio reflexo. Ele deve ter ficado orgulhoso de sua aparência. Conquistar o próprio poder adicionara um bronzeado saudável à sua pele e enchera seus cabelos, além de tornar seu corpo mais robusto. Mas o rosto bonito que o olhava de volta parecia zombar dele. Não fazia diferença se sua imagem tinha mudado.
Ele continuava detestando o que via.
Seth soltou um suspiro fundo, deixou de lado seu fracasso recente e se concentrou em como poderia alcançar seus objetivos, assim como no que devia fazer a respeito do abandono de Ísis. Sua mente foi se aquietando até os pensamentos ficarem tão serenos e imóveis quanto a superfície da água. Então, com apenas o ruído da correnteza por companhia, ele tramou seu próximo passo.
Quando ficou satisfeito com suas maquinações, levantou-se e, para seu deleite, descobriu que também era capaz de desfazer o rio. Sua mãe imediatamente começou a chorar por causa do que ele tinha feito e suas nuvens se reuniram lá em cima. Ele inclinou a cabeça ao perceber que a água tinha sido parte dela e que o que ele fizera, em essência, fora como cortar essa parte.
A ideia de que ele poderia de fato causar dano a uma deusa, mesmo uma tão poderosa quanto sua mãe, encheu-o de felicidade. Como se as gotas grossas da chuva dela o irritassem, ele agitou a mão e ficou grato ao vê-la se retirar para bem longe dele. O solo tremeu com a reação de Geb ao ferimento que ele tinha causado à mãe, mas Seth ignorou o pai.
O sol da manhã estava apenas um palmo acima do horizonte quando Seth se virou em um círculo lento para avaliar seu trabalho. A extensa floresta de Osíris era agora um deserto árido que se estendia até onde a vista alcançava. Nem uma gota d’água existia entre seus limites e agora até a mãe dele ia pensar duas vezes antes de chover ali. Erguendo-se no ar, ele seguiu de volta a Heliópolis. Havia muito a fazer antes que ele comparecesse à recepção naquela noite; a primeira tarefa exigiria que ele mostrasse seu lado mais encantador para distrair aquela que estava organizando a festa.


Foi mais fácil do que ele pensou. Com a lua brilhando como pano de fundo, Seth entrou na casa de Amon-Rá de braços dados com Néftis, linda porém discreta – algo que ele considerou bem apropriado. Seth e Néftis se juntaram à festa e ele ficou contente por todos os olhos terem se voltado para ele, até os da deusa que ele tinha perdido para aquele que desprezava acima de todos os outros.
— Seth, fico feliz por você se juntar a nós — disse Amon-Rá com um sorriso que não alcançou os olhos.
— Vejo que o banquete começou sem a nossa presença — observou Seth.
Ísis se levantou.
— Não sabíamos se você viria. — O tom da deusa foi de cautela, mas também de confusão, principalmente ao notar que a irmã estava de braços dados com Seth. — O banquete já terminou — disse ela. — Sinto muito por você tê-lo perdido — completou, olhando para a irmã que tinha providenciado tudo.
— Eu estava... ocupada — explicou Néftis sem revelar nada.
Amon-Rá franziu a testa e deu um passo adiante para oferecer o braço a Néftis.
— Ainda assim, estamos felizes por ver vocês aqui — falou, mais para ela do que para Seth. — Quem sabe possa me ajudar a começar as danças, Néftis?
— Que ideia maravilhosa! — opinou Seth com desdém. — Já que nós perdemos o banquete, o mínimo que minha esposa e eu podemos fazer é celebrar o casamento dos deuses com uma dança. Vamos, minha querida?
Néftis mordeu o lábio quando Amon-Rá ergueu a mão e a música cessou de repente.
— O que foi que você disse? — perguntou Amon-Rá. — Receio que eu tenha escutado mal.
Seth inclinou-se para a frente.
— Não escutou mal, não. Néftis e eu acabamos de nos casar.
— Vocês o quê? — Ísis se aproximou, agarrou a irmã pelo braço e puxou-a para longe. — Ele está dizendo a verdade? — exigiu saber.
— Está, sim — Néftis respondeu. — Nós nos casamos há uma hora.
O choque deixou Ísis boquiaberta. Ela deu um passo para trás e largou Néftis, como se tivesse sido infectada pela coisa que tinha acometido a irmã. Amon-Rá tomou o lugar dela e não hesitou em tocar em Néftis. Quase com ternura, pegou em seu ombro.
— Você foi forçada? — perguntou baixinho.
Os olhos de Néftis brilharam com lágrimas não derramadas quando ela fitou Amon-Rá.
— Não — respondeu. — Quando ele me fez o pedido, eu aceitei. — Ela se aproximou um passo e sussurrou para que apenas Amon-Rá pudesse escutar: — Minha luz dará equilíbrio a ele.
Amon-Rá examinou-a com atenção.
— Você o ama, então? — questionou ele, e todos prenderam a respiração à espera da resposta dela.
No entanto, antes que ela pudesse responder, Seth se meteu entre os dois.
— Claro que ela me ama. E, se estiver pensando em dissolver nossa união, primeiro vai ter que desfazer o que estes dois fizeram — disse ele, apontando para Ísis e Osíris. — Mas vou lembrá-lo de que, hoje de manhã mesmo, você disse que, se não houvesse... — ele acenou com a mão em um gesto distraído — ... procriação, uma união assim seria aceitável.
Amon-Rá deu um passo para trás.
— Sim... — concordou lentamente. — Eu disse mesmo.
— Então não há nenhum motivo que nos impeça de casar?
Amon-Rá cruzou os braços sobre o peito largo e respondeu:
— Se Néftis concordou com esse... arranjo por vontade e escolha próprias, então não vou discordar.
— Muito bem — falou Seth com um sorrisinho desafiador. — Então digo que devemos prosseguir com a festa. Vamos dançar, esposa?
Néftis lançou um olhar muito discreto a Amon-Rá, então assentiu e seguiu o marido até a pista de dança. Os músicos, atordoados, se apressaram em retomar a canção interrompida. Apesar de Néftis ter planejado a comemoração com atenção máxima a cada detalhe, nenhum dos envolvidos estava agora com muita vontade de comemorar. Osíris puxou Ísis de lado e cochichou no ouvido dela enquanto Seth fazia Néftis rodopiar ao ritmo da música que agora parecia irritante e estridente a Ísis, apesar de aquele ser o grupo musical mais talentoso que Osíris conhecia. Amon-Rá logo pediu licença e se retirou com uma brasa de arrependimento nos olhos.
A festa continuou, mas o único que parecia feliz era Seth, que aceitou com alegria os parabéns nada animados dos presentes.
Quando alguns dos cidadãos de Heliópolis se desculparam exageradamente por terem trazido presentes apenas a Ísis e Osíris e não para ele e sua noiva, ele dispensou as preocupações com risadas, como se aquilo não tivesse a menor importância. Néftis assentiu com a cabeça em um gesto automático e se juntou à irmã enquanto Ísis abria os presentes, tentando compensar o fato de que tinha feito algo impensável no dia do casamento da irmã.
Em pé ao lado da irmã, ela ia lendo os cartões de quem lhe desejava tudo de bom e exclamava com cada presente como se nada fora do comum estivesse acontecendo. Seth desapareceu durante um tempo e Ísis tentou sorrir, mas os olhos dela continuamente se voltavam para a irmã. Onde ela estava com a cabeça? Como pôde ter se casado com Seth? Ela estava à espera de uma chance de puxar a irmã de lado e contar a ela o que sabia sobre seu marido, mas, antes que conseguisse fazer isso, Seth voltou a entrar no salão. Dessa vez, estava acompanhado por uma dúzia de servos que carregavam uma linda caixa de ouro.
— O que é isso? — Néftis perguntou a Seth quando seu noivo se aproximou.
— É o meu presente para o feliz casal. Uma lembrancinha para mostrar a eles exatamente o que significam para mim.
— Que... gentil! — disse Néftis, forjando um sorriso no rosto.
Ísis não tinha deixado passar a ruga que aparecera entre as sobrancelhas arqueadas da irmã. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas, se havia uma pessoa no mundo em quem ela confiava tanto quanto no noivo, era sua irmã.
Pelo menos, achava que ainda podia confiar nela.
— Néftis? — chamou Ísis.
A pergunta em sua mente não precisava ser dita em voz alta.
Néftis assentiu de leve, então Ísis soltou um suspiro e pegou no braço do marido.
— Obrigada por pensar em nós — ela agradeceu a Seth, rígida.
— Não há de quê — respondeu ele com um ar de crocodilo. — Eu queria dar um presente a vocês que mostrasse meu apreço absoluto.
A caixa pesada foi colocada diante de Osíris e Seth fez um gesto para indicar que ele deveria abri-la. A tampa rangeu quando Osíris a ergueu e Seth não conseguiu esconder o prazer que sentia enquanto observava a reação dos dois.
Osíris franziu a testa.
— O que é isto? — perguntou ele e se inclinou para examinar o conteúdo.
Seth praticamente gargalhou de tanto deleite.
— Você não reconhece?
— Areia? — questionou Ísis.
— Em absoluto — respondeu Seth. — Vejam bem, eu trouxe a vocês seu lugar preferido no cosmos. Além do mais, deixei bem embrulhado. — Em um falso sussurro, murmurou: — Vejam como se fosse uma lembrança do lugar em que planejavam passar a lua de mel. — Seth soltou um suspiro e sacudiu a cabeça. — Estou vendo que vocês dois precisam que eu explique com todas as letras. Isto — ele indicou deixando os grãos escoarem por entre os dedos — é a sua adorada floresta.
— O quê? — Osíris reagiu, incrédulo. — Como pode ser?
— Ísis sabe. Não é, Ísis?
O rosto da deusa empalideceu e ela engoliu em seco antes de falar:
— Você desfez uma floresta inteira?
— Não apenas uma floresta, mas floresta. Aquela em que ele passa o tempo todo — disse ele, indicando Osíris com o polegar. — Obviamente vocês dois deviam ter conversado mais antes de se casarem. Considero verdadeiramente chocante que você não saiba quais são os lugares mais caros a ele.
— Você desfez a floresta? — Osíris perguntou de novo, enquanto a compreensão e o horror o preenchiam.
O amor que ele nutria por aquele lugar era semelhante ao amor de Ísis por Baniti; ela sentia a dor da perda reverberando pelo corpo dele. Quando se virou para o marido para lhe oferecer conforto, ouviu Seth dizer:
— Essa não é a única coisa que vou desfazer.
Osíris caiu de joelhos e lentamente enfiou os dedos na caixa, pegando um punhado de areia na palma da mão e deixando os grânulos escorrerem por entre os dedos. Levou vários segundos para perceber que as pontas de seus dedos também estavam se dissolvendo. Ele ergueu os olhos para Seth.
— O que você fez? — exigiu saber.
Seth se agachou, os olhos queimando com intensidade enquanto ele canalizava a energia roubada de milhares de criaturas vivas que se agitava em seu corpo.
— Seu imortal idiota e teimoso! Talvez, se soubesse que eu viria a ter mais poder do que todos vocês juntos, tivesse me tratado melhor. Finalmente está tendo o que merece.
Inclinando-se mais para perto, para que Osíris pudesse escutá-lo, Seth sussurrou:
— Ísis vai ser minha. Eu vou levá-la até o deserto onde antes ficava a sua floresta. Lá ela vai jurar pertencer a mim e a mais ninguém. Para ela, você não vai ser nada além desses grãos de areia para serem jogados sob os pés dela.
— Não! — exclamou Ísis. — Néftis, me ajude!
— Eu não posso fazer nada! — disse Néftis enquanto lágrimas pesadas escorriam por seu rosto.
O braço de Osíris começou a se dissolver, então seu peito afundou à medida que mais grãos de areia se desprendiam de seu corpo e caíam na caixa de ouro. Rapidamente, Osíris virou-se para a esposa.
— Ísis — implorou ele —, lembre-se: eu amo você.
— Osíris! — Ísis se ajoelhou e envolveu o marido com os braços, como se pudesse recompô-lo apenas com sua força de vontade. Ele pressionou seus lábios contra os dela em um último beijo, mas a única coisa que ela sentiu foi a aspereza da areia enquanto ele se dissolvia diante de seus olhos. Os restos de seu ser flutuaram para dentro da caixa e se assentaram.
Aos prantos, Ísis pegou a caixa e começou a entoar um feitiço, mas, por mais que ela tentasse tecer as palavras, seu poder parecia lhe escapar. Ela precisava de tempo. Pegou um punhado de areia e se levantou, cambaleando.
Néftis pegou seu braço para lhe dar apoio.
— Você é um monstro — cuspiu Ísis para o homem presunçoso à sua frente.
Seth deu um sorriso frio.
— Um monstro que você mesma criou, minha cara. Devia ter dito sim quando pedi a você que me escolhesse. Agora vai acabar sem nada, a menos que faça exatamente o que eu disser.
Ísis teceu um feitiço para incapacitá-lo, canalizando o máximo de poder possível, mas Seth limitou-se a rir e a puxar a camisa para mostrar a ela uma pedra vermelha reluzente pendurada em seu pescoço.
— Os seus feitiços, por mais que eu os aprecie, não me afetam quanto estou usando a pedra de sangue celestial.
— Onde você conseguiu isso? — Ísis exigiu saber.
Só havia uma pessoa viva em todo o cosmos que sabia como anular o poder de Ísis. Ela rezou para estar enganada.
— Ora, a sua adorada irmã, é claro — respondeu ele, e Ísis fechou os olhos, desejando não ter escutado a resposta dele. Seth prosseguiu: — Ela sabia que você buscaria vingança pela perda de Osíris. É justo que ela quisesse proteger o marido.
Ísis se soltou de Néftis, os olhos ardendo pela traição e a perda. Como era possível perder o meu amado e a minha irmã em um só dia?
Néftis tentou dizer algo, mas Ísis ergueu a mão.
— Não. Não se atreva a dizer uma só palavra.
Seth estalou a língua.
— Pobre Ísis. Parece que, apesar de sua natureza imortal, seu noivo foi visitado pela morte. Que coisa perturbadora. Que coisa... impossível. E, no entanto, aqui estou eu, recentemente revigorado pelos restos da energia vital do seu falecido noivo e, felizmente para você, ainda ansioso para tomá-la como minha esposa. Claro que agora você vai ficar relegada à posição de segunda esposa, mas prometo lhe dar a mesma atenção.
— Você é doente — Ísis sibilou entre os dentes. — Eu nunca vou aceitar você!
O sorriso de Seth desapareceu e ele deu um passo ameaçador à frente, toda a escuridão que havia dentro dele visível em sua expressão.
— E é uma tola se acha que vai me contrariar de novo. — Seth agarrou o pulso de Ísis, puxando-a com brutalidade, e sussurrou em seu ouvido: — Pense no que mais você tem a perder — ameaçou, ardiloso.
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, Ísis olhou para a irmã e depois para Baniti, que estava no canto do salão, os olhos arregalados de pavor e as mãos cobrindo a boca. Ísis pensou, sim, no que mais tinha a perder, mas naquele momento nada era mais importante do que os grãos de areia que escorriam entre seus dedos apertados. Com os olhos brilhando de determinação, ela respirou fundo e sussurrou um feitiço. Seus feitiços podiam não ter efeito sobre Seth, mas ainda funcionavam nela.
Um raio de luar penetrou pela janela e a luz se curvou até alcançar Ísis. Ela estendeu a mão, pegou a luz e usou seu poder para se transformar até que seu corpo parecesse quase fantasmagórico e ela pudesse escapar do aperto de Seth.
Assustado, ele tentou agarrá-la mais uma vez, mas as mãos dele a atravessaram como se ela já não fosse mais uma forma corpórea.
Agarrada à areia que tinha sido seu marido, Ísis saltou para o raio de luar, que a levou para muito, muito longe de Heliópolis. Mas, apesar do luar que a levou até as estrelas, o peso de sua dor a lembrava de que a distância entre ela e seu amado agora era algo que nem as estrelas poderiam atravessar.

4 comentários:

  1. Fico feliz que nessa história Osíris não caiu na armadilha feito bobo... ok que ele foi enganado mas ao menos foi cauteloso, porque em outras histórias acho que ele não foi tão esperto assim.
    De qualquer forma, é muito bonito a forma como Ísis e Osíris se amam, eu acho, e estou curiosa sobre Néftis...

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    1. Né! Pensei que fosse seguir a mitologia e o deus fosse simplesmente acreditar e se deitar lá

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  2. Quero muito entender por que a Neftis se casou com o Seth, porque se ela conseguia intrepertar a mensagem das estrelas e pelo que eu entendi as estrelas sabem tudo, por que ela se casou com o Seth sabendo que ele faria isso?
    Achei bonita a história do Osiris e da Isis, mas no segundo livro da Triologia não dizia que ele não contava o seu verdadeiro nome pra Isis mesmo a amando?
    E não sei por que mas acho que o Amon-Rá sente algo pela Neftis

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    1. Talvez ela tenha visto um futuro em que, se estivesse casada com ele, Seth se tornaria muito pior, o mundo teria um destino pior.
      E pois é, Néftis e Amon-Ra parece que tem ou teriam alguma coisa... Se não fosse pelo o que ela viu nas estrelas.
      Quanto ao nome verdadeiro, não me lembro :/ talvez o que eles contem seja a da mitologia, e a que está nesse livro seja a história "verdadeira"

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Boa leitura :)