22 de setembro de 2017

5. Lavoura

— Um voto que não possa ser rompido? — repetiu ele.
— Sim. Pensei muito nessa ideia. — Pegando-o pela mão, Ísis puxou Osíris mais para o fundo do estábulo e lançou um feitiço para ter certeza de que estavam completamente sozinhos. Quando ficou satisfeita, explicou: — Você sabe que Amon-Rá mandou Shu para separar Geb e Nut?
Osíris assentiu com a cabeça.
— Eles tinham se casado em segredo, mas as estrelas expuseram a relação e Amon-Rá usou o deus do vento para mantê-los separados.
— Não vou permitir que algo assim aconteça conosco.
— Como podemos impedir? — perguntou ele. — As estrelas estão em toda parte.
— Não é bem assim. Existe uma fenda no céu quando a noite sucumbe ao dia. Se você se posiciona no lugar certo, as estrelas ficam cegas.
— Onde? E por que eu nunca ouvi falar disso?
— Fica no topo do monte Babel. Foi minha irmã quem me contou. Néftis me disse que lá é o único lugar onde ela encontra paz, fugindo de suas visões.
— Mas Babel é um lugar proibido. Os deuses não devem ir até lá. Fica em uma área muito conturbada. A harmonia do cosmos é fragmentada naquele lugar. Como ela consegue permanecer sã?
Ísis franziu a testa.
— Talvez não tenha permanecido. Pelo menos, não completamente. Néftis foi afetada por aquele lugar, acho, mas ela sofre com as visões mais do que demonstra, e eu não tiraria dela algo que lhe traz conforto. Eu com toda a certeza não vou traí-la e contar a Amon-Rá. Além do mais, consigo curar a mente dela quando ela volta. Quase completamente. — Ísis parou de pensar na irmã e voltou a se concentrar em seu problema. — Babel tem seus perigos, com certeza, mas é exatamente por isso que serve ao nosso propósito.
Osíris tocou no rosto dela.
— Eu não vou perder você para a loucura da montanha — disse ele baixinho.
— Não vai. Mesmo que nós nos percamos, vamos encontrar um ao outro.
— Como você pode ter tanta certeza?
Ísis fez um gesto com a mão e dois vasos pequenos apareceram. Um era de faiança azul esmaltada com tampa prateada no formato da cabeça de um felino, o outro era de alabastro entalhado com uma naja dourada como tampa. Com cuidado, Ísis removeu a tampa dos vasos e fez um círculo com os braços acima deles enquanto murmurava um feitiço.
— Cada um de nós vai ficar com um pedaço do coração do outro. Eles vão guiar nossos passos até nos encontrarmos.
Ela pousou a mão sobre o próprio coração e fechou os olhos. Quando a retirou, um escaravelho do coração, feito de ametista, estava na palma de sua mão, com asas de ouro tão finas que eram quase transparentes. Ela o entregou a Osíris, que o pegou. Maravilhado com a pedra luminosa, ele passou os dedos de leve sobre as facetas.
Ao fazer isso, sentiu o coração dela batendo. Sentiu-se reconfortado e ao mesmo tempo temeroso. A ideia de que poderia perdê-la – e mais: perder a si mesmo – assustava-o até as profundezas de seu ser. Mais do que tudo, porém, ele queria provar que era digno do amor e da confiança dela. O mínimo que podia fazer era confiar nela em troca.
Com muito cuidado, Osíris colocou o escaravelho do coração dela no vaso de alabastro e fechou a tampa. Então murmurou um feitiço próprio para selá-lo com a seiva de uma árvore, tão grudenta que ele nunca tinha encontrado nada na natureza capaz de dissolvê-la. Quando ficou satisfeito, evocou o próprio escaravelho do coração: um diamante dourado e reluzente, emoldurado por ramos de trigo maduro da cor do brilho do sol no lugar de asas.
— Ficou lindo — disse Ísis quando ele o entregou a ela.
Era uma sensação muito estranha ter o coração de outra pessoa confiscado. Sitiado seria uma palavra melhor, porque Ísis o tinha cercado. Ela o tinha capturado, corpo e alma. Ali, sob a sombra de suas asas, ele percebeu que era seu prisioneiro voluntário, tinha oferecido seus pulsos para serem algemados e, no entanto, sabia que não havia nenhum outro lugar no cosmos que pudesse lhe oferecer tanta felicidade.
Aquilo que estavam fazendo era algo louco, impulsivo. Mas por acaso o amor não era uma forma de loucura? Durante uma fração de segundo, ele se perguntou se o amor que sentia não seria um feitiço que ela lançara sobre ele e que fazia com que se atirasse em situações em que normalmente seria cauteloso. Então deixou a ideia de lado. Ainda era dono dos próprios desejos.
Além do mais, mesmo que Ísis o tivesse enfeitiçado, já não fazia mais diferença para ele. Ele tinha visto a doença do amor em outras pessoas, mas não a compreendera, não plenamente. Agora reconhecia a condição em si mesmo.
Ísis era uma flor intoxicante e ele era uma abelha indefesa, hipnotizada por ela. Agora que ele a tinha experimentado, estava marcado. Cheio do pólen doce dela. Se o peso daquilo o arrastasse para baixo até que ele se afogasse nos braços dela, então consideraria sua vida bem vivida.
Ísis era sua razão de ser.
Ísis era tudo para ele.
A vida toda ele passara à procura dela, sem nem se dar conta.
Osíris observou Ísis colocar o escaravelho do coração dele no vaso azul dela e selá-lo antes de se voltar para ele.
— Vamos precisar tomar cuidado com Seth — disse ela, tirando-o de seus pensamentos. Ísis se afastou alguns passos e então se virou para ele mais uma vez. — Está chegando a hora da cheia do Nilo. Estou certa?
— Sim. Eu controlo o volume das águas para que as plantações possam crescer. Ainda é um pouco cedo, mas o momento está chegando.
— Então eis o que você vai fazer: vá até lá hoje e faça as águas do Nilo subirem, mesmo que ainda seja um pouco cedo. A água desfaz e depois refaz. Serei capaz de canalizar esse poder para o meu feitiço. Além do mais, vai ser um bom presságio.
Quando Osíris concordou em fazer isso, ela prosseguiu:
— Quando o sol baixar além do horizonte, siga para o monte Babel. Mantenha meu coração com você o tempo todo. Vou usar as próximas horas para atravessar os céus, varrer os nossos feitos para cantos escondidos e preparar o meu feitiço. Depois que o sol se puser, eu vou para Babel procurar você. Quando nos encontrarmos na montanha, vamos nos esconder nas sombras escuras até o espaço entre a noite e o amanhecer, e depois disso nada será capaz de nos separar.
Ísis sabia que estava pedindo muito dele, mas não havia outro jeito de os dois ficarem juntos. Na verdade, ela não tinha certeza se seria capaz de canalizar o poder de que precisava para conseguir lançar um feitiço tão potente. Se Osíris vacilasse de alguma maneira, não ia funcionar e ela o perderia em mais de um aspecto.
— Tem certeza de que é isso que você quer, Osíris? Depois que tivermos nos unido, nada poderá se interpor entre nós. Nem a morte. Estou lhe pedindo algo gigantesco. Se tiver alguma dúvida...
Osíris deslizou a mão até a nuca dela e se abaixou para beijar seus lábios carnudos, interrompendo-a no meio da frase e torcendo para que estivesse transmitindo a profundidade de sua emoção naquele beijo. Ele a puxou contra seu corpo e, quando ela relaxou junto a ele, a tensão finalmente deixando seus ombros, ele murmurou:
— Vou deixá-la agora, como combinamos, mas, até que eu volte a vê-la, saiba que este beijo é o meu juramento secreto. Deixe que Seth aja contra nós. Deixe que as estrelas tentem nos impedir. Deixe que Amon-Rá nos proíba. Nós vamos nos unir pela força da nossa determinação e pela força do nosso desejo, e vamos saciar nossas almas solitárias na luz do amor que sentimos um pelo outro.
— E se eu falhar? — perguntou ela baixinho.
— Não vai fazer diferença — respondeu Osíris enquanto acariciava o cabelo dela. — Esta noite meu coração será atravessado ou por uma alegria terrível, ou por uma dor maravilhosa. De todo modo, ele pertence a você.
Com isso, Osíris a beijou, os lábios selando sua fervorosa promessa.
Ísis ergueu as asas e envolveu os dois. Eles se abraçaram com desespero, ambos cientes do risco que corriam. E então, depois de um último e ardente beijo, separaram-se com relutância. Osíris observou Ísis se afastar primeiro, levando embaixo do braço o vaso azul com o escaravelho do coração dele.
— Tome cuidado, minha amada — sussurrou ele enquanto seus olhos acompanhavam o trajeto dela pelo céu.
Quando ela desapareceu, ele pegou o vaso de alabastro e o colocou na bolsa a tiracolo que sempre levava em suas viagens. Então Osíris ergueu os braços e afundou no solo, atravessando a divisa escura entre o domínio dos deuses e a Terra.
As longas horas do dia passaram devagar para Osíris e seus pensamentos o tempo todo se voltavam para Ísis e para o feitiço que ela teceria. Ambos tinham muito em jogo. Talvez Amon-Rá lhes tirasse as habilidades depois que descobrisse o que tinham feito. Talvez ele os banisse para a Terra e os transformasse em mortais. A ideia não o incomodava tanto quanto deveria. Com o conhecimento que ele tinha sobre agricultura e com o dela sobre curas, poderiam levar uma vida muito boa juntos, mesmo que fosse apenas no período da vida de um mortal. Ele coçou o queixo e ajeitou a bolsa enquanto avançava pela cidade na direção do campo e das plantas verdes que cresciam às margens do Nilo.
Ísis poderia se ressentir da perda das asas caso se tornasse mortal. Se fosse honesto consigo mesmo, ele também. As asas dela eram uma visão gloriosa e tocá-las era uma experiência sensorial que ele não conseguia nem começar a descrever. Mas as asas, embora fossem uma parte dela, não eram ela toda. Ele ainda teria a mulher, mesmo se ela não fosse mais uma deusa. E uma mulher como Ísis era tudo que um homem poderia querer. Mesmo como mortais, eles seriam felizes. Osíris parou de súbito ao perceber que, com a mortalidade, havia a possibilidade de mais do que apenas ficar com a mulher que ele amava.
Osíris nunca tinha pensado em ter filhos. Mas agora a ideia se enraizara na mente dele. Um filho? Uma filha? Uma casa cheia de crianças? Ele pensou em todas as coisas que tinha aprendido como deus. Todas as coisas que poderia compartilhar com seus filhos e ensinar a eles. Seu coração disparou quando percebeu como era enorme seu desejo de ter uma família.
Da mesma maneira que ele não tinha reconhecido seu desejo por Ísis até ela propor a ideia de um relacionamento, ele nunca tinha se permitido considerar a ideia de ser pai. Ísis tinha razão. A vulnerabilidade, nesse caso ser destituído de seus poderes e se tornar mortal, era libertadora.
Todos os instintos dentro dele lhe diziam que havia mais. Que ele podia fazer mais, ser mais do que era. Será que era errado tentar realizar esse desejo? Talvez. Mas ele tentaria do mesmo modo. Não estava preocupado com as consequências. Se o pior que podia lhe acontecer era ficar com Ísis como mortal, Osíris achava que poderia viver com isso.
Quando chegou ao Nilo, ele ergueu os braços e recitou o feitiço que faria o rio encher e transbordar de seu leito. Não pôde conter o sorriso ao olhar para o sol. Quando a água lamacenta chegou aos seus pés e bateu em seus tornozelos, riu e pensou, feliz, que ele também estava indo além de seus limites. Se o caminho que percorreria com Ísis ia lançá-lo aos domínios celestiais ou levá-lo a labutar no lodo da mortalidade, não fazia diferença, desde que estivessem juntos.
A água do Nilo beijou o solo ressecado. Quando desparecesse, o húmus rico que deixava para trás nutriria as plantações que cresciam às margens do rio. Milhares seriam alimentados. A cheia do Nilo não era algo pequeno. As coisas em decomposição que o rio carregava iriam trazer vida nova. Era um processo completamente natural. Ele poderia ter que tirar uma parte de si mesmo para ficar com Ísis, mas, ao fazer isso, alimentaria o sentimento novo que se desenvolvia entre eles.
Amon-Rá sempre lhes fizera sermões a respeito de sacrifícios, Osíris pensou enquanto avançava pela água em seu caminho de volta às plantações. Ele tinha ensinado que às vezes uma coisa precisava ser perdida antes que outras pudessem ser conquistadas. Talvez, se explicasse suas crenças a Amon-Rá, o grande deus compreendesse. Mas talvez não.
Depois de sacudir a lama dos pés calçados com sandálias, ele atravessou as plantações a passos de mortal. Os grãos estavam densos e dourados e o ar carregava o cheiro doce do feno aquecido pelo sol da manhã. O dia estava lindo e ele passou horas pensando em seu amor e nas provações que estavam por vir e que eles teriam de enfrentar para que pudessem se tornar um só.


As horas passaram rápido para Ísis. Ela escreveu seu feitiço repetidamente, murmurando-o para si mesma e então eliminando palavras, testando a força de cada termo. Quando ficou satisfeita, comeu com apetite, ciente de que precisaria de toda a sua energia para pôr em prática o feitiço. Então voou na direção do sol poente e permitiu que a luz enchesse seu corpo. Ela reuniu sua força nas asas e, à medida que o sol iluminava cada pena, sentiu o calor restaurador invadir suas veias.
Nem os deuses sabiam que seu poder de cura estava nas penas. Se uma pena se perdia, uma ocorrência muito rara que em geral só acontecia quando estava dormindo, ela a procurava no quarto até encontrar. Mesmo soltas de seu corpo, suas penas carregavam enorme poder e, algumas vezes, ela dera uma para um mortal que precisava desesperadamente.
Baniti nunca soube que, quando Ísis a encontrou em sua infância, ela estava morrendo. Ísis então lhe dera de presente uma pena que foi absorvida pelas costas da mortal. Mas, mesmo assim, Ísis só tinha sido capaz de manter a doença a distância durante sua vida mortal. Ela havia tentado canalizar todo o poder que possuía através de cada pena quando tentou curá-la, mas a magia permaneceu com ela, e Ísis não conseguiu erradicar a doença do corpo frágil e idoso de Baniti.
Agora ela pairava no céu absorvendo o máximo possível de luz do sol a fim de pôr em prática o feitiço mais difícil que já tinha criado. Ísis queria poder contar para a irmã, mas as estrelas saberiam de qualquer coisa que Néftis soubesse. Ela não podia arriscar. Não até que tudo tivesse sido feito.
Quando a noite caiu, ela voou para a montanha escura que marcava os limites do Duat. Voar até o topo seria o caminho mais fácil, mas também o mais perigoso. A proximidade do monte Babel distorcia as percepções. Ela poderia facilmente se chocar contra a montanha ou se desviar e acabar caindo no mar. Algo assim talvez não a matasse, mas faria soar um alarme em Heliópolis, e ela não podia permitir que isso acontecesse. A melhor maneira de chegar ao topo era escalar, e a escalada demoraria horas.
Ísis pousou na base da montanha, agarrada ao vaso que continha o escaravelho do coração de Osíris, e procurou uma trilha. No começo, a subida foi fácil, até prazerosa. O cheiro de seiva permeava o ar e o crepitar das folhas de pinheiro sob seus pés a manteve equilibrada mesmo quando os sussurros começaram.
Néftis tinha explicado várias vezes sobre os sussurros, de modo que Ísis compreendia, pelo menos em teoria, como aquilo funcionava. As estrelas observavam tudo, sabiam tudo, mas só compartilhavam o que era importante. Isso não significava que o que elas compartilhavam era importante para algum indivíduo, mas que era importante da perspectiva delas.
Néftis lhe dissera que os sussurros faziam mais sentido durante os sonhos, mas ver as coisas que iam acontecer no futuro era enlouquecedor por si só.
Ísis não invejava o dom da irmã. Nem um pouco. E estar na montanha era ainda pior, porque as estrelas ficavam confusas. Até chegar ao topo, que funcionava como uma pedra ovo de serpente gigantesca, estaria à sua mercê.
Ela não podia confiar em nada que ouvisse ou visse na montanha. A única coisa de que podia ter certeza era do coração que trazia nas mãos. Através dele, podia ver que Osíris também estava na montanha, apesar de ela não saber onde. Não por enquanto. O coração bateria mais rápido quando ele estivesse mais próximo. Independentemente de qualquer coisa, o feitiço não poderia ser concretizado até que estivessem juntos no topo da montanha, e só no momento certo.
À medida que ela ia subindo, seguindo a trilha íngreme e tortuosa de cervos, os sussurros se tornavam mais insistentes. Uma vez, fizeram com que fosse até o tronco oco de uma árvore e lhe disseram que se escondesse. A mente dela insistia que estava em perigo, então ela fez o que as estrelas lhe ordenaram. Ficou lá tremendo dentro do tronco da árvore com a mente em erupção por causa das visões que as estrelas ficaram enviando.
Em seus sonhos agitados, Ísis se viu sentada e desconsolada em um túmulo que cheirava a mofo e a incenso, com lágrimas pesadas escorrendo-lhe pelo rosto. Ela berrou ao som de um machado que dilacerava alguma coisa, apesar de não saber o que era. Sua irmã estava por perto, mas algo estava muito errado com ela. O inimaginável tinha acontecido.
Em outra visão, Ísis se viu casada com Seth e o observou destruir todos os deuses. Como as Águas do Caos agora estavam abastecidas com a essência vital de sua família, ela pôde dar à luz gêmeos: um menino e uma menina, que Seth chamou de Aurora e Crepúsculo. Ele exibia as crianças com orgulho à comitiva de asseclas que o serviam com total devoção. Todos eles se curvavam, bajulavam e se jogavam a seus pés enquanto Seth proferia maravilhas sobre seus descendentes e sobre como atrairiam os olhares de todos que estivessem na presença deles.
Mas, quando Ísis olhou para os filhos, não havia nada atrás dos olhos deles, porque ela só enxergava aqueles que tinham sido destruídos para que seus filhos pudessem viver. Por mais que ela ansiasse ser mãe, não conseguia superar sua tristeza, pois cada nascer e pôr do sol era manchado de sangue. Ela não encontrava nenhuma beleza neles.
Forçando-se a sair do tronco da árvore, Ísis tentou esquecer a terrível visão e se obrigou a seguir em frente. Enquanto avançava aos tropeções, a voz de Amon-Rá a castigava por suas escolhas erradas e insistia para que abandonasse suas ideias de salvar Baniti. Isso era algo que já tinha acontecido.
Pelo menos, ela achava que sim. Agora já não tinha certeza.
Depois de horas vagando, o coração no vaso deu um salto, e isso significava que Osíris estava ainda mais perto. Ísis acelerou o passo. Ela sabia que tinha perdido tempo demais na árvore e torcia para que já não fosse tarde demais. Se eles se encontrassem, poderiam navegar pela insanidade da montanha com mais facilidade.
Osíris estava bem mais alto do que Ísis na montanha. Ele tinha sido capaz de usar seu poder de fazer as coisas crescerem para estabilizar a mente, mas agora havia muitas estrelas rodopiantes e nem as maiores árvores da floresta conseguiam ajudar. Enquanto subia, Osíris escutava a voz de uma mulher lhe dizendo que o afeto de Ísis por ele iria arrefecer e que a chama de seu amor iria se apagar e morrer. Ele não acreditou. Não podia acreditar. As estrelas deviam estar espalhando falsidades.
Apoiando o braço no galho grosso de uma árvore, ele arfou, com a cabeça cheia. Em uma visão, reconheceu Ísis com a pele tão radiante quanto as águas reluzentes do Nilo ao entardecer, e precisou erguer a mão para proteger os olhos quando ela olhou para ele. A beleza de seu rosto não era nada se comparada à beleza que irradiava de dentro dela. Era como olhar diretamente para o sol.
Osíris estava tonto e cego por ela. Ísis era um ser tão poderoso, tão resplandecente, que ele arquejou em assombro e ficou maravilhado com a ideia de que uma criatura assim pudesse desejar alguém como ele. Então seus olhos se arregalaram quando ele viu que ela se ajoelhava ao lado de um corpo sem vida e erguia suas asas em volta dele. Ela estava tentando ressuscitar a pessoa, e ele sabia que fazer isso iria matá-la.
— Não! — exclamou ele, sua voz ecoando pela montanha. — Não, Ísis, eu a proíbo!
As estrelas levaram a visão embora e mostraram a ele um homem – não, um deus. Tinha o corpo ereto, era alto e parecia familiar, embora Osíris soubesse que nunca o tinha visto. O deus tinha sido banido para o deserto, onde era atormentado com todo tipo de dificuldade. Foi picado por escorpiões e serpentes venenosas, e atacado por animais selvagens. Osíris queria ajudar, mas algo o deteve e, quando ele deu um passo adiante, tropeçou e suas pernas tremeram, como se fosse um potro recém-nascido.
A mente dele girava de um jeito aterrador e, quando parou, ele se encontrava em outro lugar, um local que reconhecia. Era a Terra. Pirâmides nuas se erguiam da areia. Três rapazes estavam no topo delas. Dali eles extraíam poderes, tantos que ele sabia que seus corpos não aguentariam. Conforme a energia vinha até eles de todas as partes do cosmos, as pirâmides agiam como condutores, engolindo a luz em sua base e canalizando-a até os homens que estavam no topo.
Então os homens fizeram algo que ele nunca tinha visto. Convocaram a luz para dentro de si mesmos e ela explodiu de seus braços abertos, criando um triângulo inacreditável no céu noturno. Por que fizeram isso, ele não sabia. A identidade deles era um mistério para ele. Ele não conhecia aqueles deuses, mas não podia negar que tinham o poder do cosmos nas mãos. Apesar dessa habilidade, os três cambalearam e caíram mortos, e ele observou Anúbis guiá-los para a vida após a morte.
Um dos desencarnados olhou para Osíris como se ele também pudesse enxergá-lo na visão. Aquilo deixou Osíris sobressaltado, mas ele não percebeu nenhuma malícia no observador. O rapaz o cumprimentou com a cabeça e então se virou para seguir os outros. Estendeu a mão para tocar o ombro do homem mais alto, mas, nesse momento, Osíris sentiu o toque no próprio ombro. Aquilo o despertou de sua visão e ele se virou para trás.
— Ísis — disse ele, soltando um suspiro de alívio. — Eu estava...
— Perdido em um sonho?
— Sim.
— Não pense nisso agora — murmurou ela. — Vamos conversar sobre o assunto amanhã.
— Amanhã — repetiu ele e assentiu com a cabeça.
Haveria um amanhã para eles. Tinha que haver. Ele pegou a mão dela e juntos conseguiram terminar a escalada sem se perder. Estar ao lado um do outro os ajudou a se manterem equilibrados, como as árvores tinham feito com ele mais abaixo.
— Por que não pudemos subir a montanha juntos?
— As estrelas não podiam nos ver juntos. Não até estarmos alto o bastante para que a loucura nos acobertasse da vista delas.
— Mas elas não vão desconfiar do que estamos fazendo aqui? Nós estamos escalando o monte Babel na mesma noite!
Ísis sacudiu a cabeça.
— Néftis me explicou que as estrelas não veem as coisas de maneira linear. Elas só sabem que eu escalei a montanha e que você escalou a montanha. Para elas, essas duas coisas poderiam ter acontecido com séculos de intervalo. E, agora que estamos próximos do ovo da serpente, nossa forma ficará obscurecida. Além do mais, as estrelas agem por reação. Elas não vão se mover contra nós até termos selado nossa união. Quando for um fato, elas vão reagir.
Ísis e Osíris avançaram com esforço, juntos, até se aproximarem do topo e se agacharem embaixo dos galhos de uma árvore que, Osíris percebeu, tinha mais de mil anos de idade. Ele se sentou na base de seu tronco e puxou Ísis para seu colo, abraçando-a e murmurando palavras de conforto enquanto as visões a atormentavam.
Então ela retribuiu o favor, acariciando a testa dele e beijando sua têmpora para ajudá-lo a discernir o que era verdade e o que não era. Com Ísis em seus braços, as visões idílicas que ele enxergava na mente e o que era real de vez em quando se confundiam de maneira agradável; no entanto, geralmente a experiência era um tormento profundo e ele desejava poder fugir dela.
Em uma ocasião, ele acreditou ter visto um rapaz, um sonhador, observando-o. Quando se virou para olhar, não havia ninguém ali, apesar de ele continuar sentindo os olhos do sonhador fixos em sua nuca. Quando Ísis disse que estava na hora, ele soltou um suspiro de alívio. Os dois se levantaram e deram os passos finais até o topo.
No momento em que os dois atravessaram os limites da floresta e passaram para o cume de pedra no topo do monte Babel, a mente de ambos se aquietou. Foi um contraste enorme com o ruído mental que os vinha atormentando havia horas. Ísis ao mesmo tempo riu e soluçou de alívio, e então desabou em cima dele. A paisagem era sobrenatural, as pedras pareciam quase polidas e enormes monólitos se projetavam em direção ao céu. Era como se estivessem em cima de uma coroa na cabeça de um gigante.
O céu negro era escuro e fino, como o espaço, mas nem uma única estrela brilhava. Era como estar no... nada. Era como se ele não tivesse mais forma nem substância, e a gravidade tirasse seus pés do lugar. Osíris vacilou meio tonto e arfou, ficando sem ar.
Então ele tomou consciência da mulher que tremia em seus braços e, quando olhou para ela, sentiu-se centrado e inteiro mais uma vez. Ele a sacudiu.
— Ísis... Ísis... olhe para mim. — Ela ergueu o rosto com trilhas de lágrimas para ele, que as enxugou com o polegar. — Estamos aqui, minha amada. Concentre-se apenas em mim.
Ísis respirou fundo algumas vezes, vacilante, e assentiu.
— Eu sabia que este lugar seria diferente, mas nunca imaginei... — Sua voz foi enfraquecendo ao pensar na irmã e em como a vida dela devia ser insuportável. Osíris apertou suas mãos e ela olhou para o rosto sério dele. — Está pronto? — perguntou ela.
— Estou.
O coração dela comoveu-se com a confiança e o amor que ela viu.
— Feche os olhos — disse Ísis, e, quando ele obedeceu, ela lançou um pequeno feitiço.
Era para limpeza e preparação para o que estava por vir. O calor escoava da raiz dos cabelos dela por seu corpo, até a ponta dos dedos das mãos e dos pés. Quando terminou, ela pediu a ele que abrisse os olhos.
Ao abri-los, Osíris viu que os dois estavam renovados, como se tivessem se banhado em uma cachoeira de ouro. Ísis estava de tirar o fôlego, com um vestido rendado de estrelas e luar. Suas asas estavam recolhidas nas costas e os cabelos cascateavam em ondas espessas que terminavam na cintura.
— Você está linda — disse ele, de forma calorosa.
— Você também.
Ele não tinha reparado nas próprias roupas. Olhou para baixo e viu que vestia túnica e calça de um branco reluzente. Ambos estavam descalços, e ele percebeu, sobressaltado, que a pedra sagrada gigantesca sobre a qual se encontravam reverberava com uma energia que ele sentia nas solas dos pés.
— E agora? — perguntou.
— Precisamos ser rápidos — disse Ísis. — O tempo entre a noite e o dia é curto. Tome o meu coração nas mãos do mesmo jeito que eu tomo o seu. — Osíris quebrou o vaso que guardava o coração de Ísis e descartou os cacos de cerâmica, ficando com o escaravelho do coração de ametista. Quando os dois estavam prontos, ela disse: — Isto aqui é uma debulha. O que há de melhor dentro de nós vai se erguer, se entremear e se transformar em algo novo. Algo que não poderá ser desenredado.
Ela fitou os olhos dele como se estivesse perguntando mais uma vez se era isso que ele desejava de verdade. Osíris assentiu, muito certo de si, oferecendo um sorriso de incentivo a ela, e Ísis começou a entoar um cântico. Era um feitiço complexo, que falava de desejos secretos, uniões e corações compartilhados. Então ela invocou o poder de uma verdadeira sizígia. Ele nunca tinha ouvido falar de tal coisa ser usada em um feitiço antes.
Uma sizígia era uma ocorrência celestial bastante comum. Acontecia quando três corpos celestes no mesmo sistema gravitacional, como a Terra, a Lua e o Sol, se alinhavam. Mas Ísis estava falando de uma verdadeira sizígia.
Isso nunca tinha acontecido antes. Pelo menos, não no decorrer de sua vida. Uma verdadeira sizígia também envolvia três corpos celestes, mas o alinhamento era de natureza permanente. Uma vez que o alinhamento ocorresse, os três elementos seriam fixados juntos para nunca mais se separar.
Se Ísis pudesse invocar o poder de uma verdadeira sizígia, então seus feitiços poderiam de fato rivalizar com as habilidades de Seth. Agora a visão que ele havia tido de Ísis fazia mais sentido. O corpo inteiro dela estava cheio de luz. Ao concluir seu feitiço, Ísis sorriu e Osíris pensou que ela nunca lhe parecera tão adorável nem tão radiante.
— Então, está feito? — perguntou ele.
— Quase. Só falta mais uma peça e então estaremos unidos eternamente, ligados de tal maneira que nem mesmo as estrelas serão capazes de nos separar.
— O que devo fazer? — Osíris perguntou baixinho.
— Precisa aceitar o meu coração no seu e então eu vou revelar o meu nome secreto.
— Você vai fazer a mesma coisa? — perguntou ele.
Ísis assentiu com os olhos brilhando. O que ela estava pedindo a Osíris invocava a magia mais primordial. Conhecer o nome verdadeiro de alguém era ter poder completo sobre essa pessoa. Exigia um nível inabalável de confiança no outro e era diferente de qualquer outro compromisso nos céus ou abaixo deles. Qualquer abandono da honra, qualquer rompimento na lealdade, até um momento minúsculo de vacilação na coragem ou de egoísmo causaria enorme sofrimento aos dois. Depois de executado o feitiço, os dois seriam capazes de enxergar o coração um do outro e de entender um ao outro completamente, tanto o lado bom quanto o ruim.
Osíris não hesitou. Aninhou o coração dela na mão e a colocou sobre o próprio peito. A luz explodiu da ametista quando ela se afundou em sua pele e desapareceu, suas asas se agitando de leve na medida em que ia se enterrando nele e se alojando em seu coração. Ísis repetiu o processo com o escaravelho de ouro. Enquanto ia se acomodando em sua nova posição, Ísis sentia os ricos perfumes da floresta e das distantes plantações de cereais.
Ela estendeu as mãos e Osíris as tomou nas suas, puxando-a para perto. No momento em que o céu escuro começava a clarear, eles sussurraram seu nome secreto um para o outro e o mundo se inclinou em seu eixo.
Os dois eram um só.
Eram inseparáveis.
Estavam unidos em um laço que duraria toda a eternidade.
Ficaram ali, no círculo dos braços um do outro, durante minutos, horas ou milênios. Não sabiam quanto tempo tinham permanecido parados, olhos nos olhos. Não fazia diferença, porque à sombra das asas de Ísis tudo era imóvel e silencioso.
Então Osíris a beijou e o mundo em torno deles explodiu.

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