22 de setembro de 2017

4. Enxerto

O jeito mais fácil de frustrar a relação que brotava entre eles seria falar com Amon-Rá. Seth esfregou o queixo. Não. Delatar as atividades deles só serviria para prejudicar os próprios planos. Se ele quisesse se unir a Ísis, precisava manter Amon-Rá na maior ignorância possível a respeito dos sentimentos atuais de Ísis, que desejava ter mais do que lhe era concedido.
Na verdade, isso era algo que Seth admirava nela. De certo modo, era um alívio saber que ela estava tão descontente quanto ele com o que a vida tinha a lhe oferecer. Espioná-la era útil em mais de um aspecto. Ele poderia usar isso em vantagem própria. Seth passou a noite toda ensaiando o que iria fazer e dizer a Ísis. Para fazer com que ela o visse como uma escolha mais viável do que Osíris. Então, quando o sol se ergueu acima da montanha, lançando seu brilho dourado sobre toda Heliópolis, ele chamou pela mãe e perguntou se ela podia lhe emprestar seu cometa para mandar uma mensagem.
O céu trovejou em resposta e o sussurro do vento fez cócegas em sua bochecha.
— Eu emprestaria, mas Osíris acabou de pedir o mesmo — disse Nut ao filho. — Quando o cometa voltar, ficarei feliz em mandar a sua mensagem.
Seth cerrou os punhos e retesou o maxilar.
— Não vai ser necessário, mãe — retrucou, ríspido. Então logo se desculpou, explicou que estava exausto e acrescentou: — Você por acaso escutou a mensagem dele?
— Você sabe muito bem que não fico bisbilhotando meus filhos.
— Então não sabe o que ele disse a ela? — insistiu Seth.
O vento parou de soprar e então se agitou a seus pés com tanta sutileza que ele nem teria notado se não fosse um deus.
— Não era para você, filho — ele ouviu quando ela afirmou baixinho.
O corpo de Seth estremeceu de frustração.
— Será que, pelo menos desta vez, você não poderia... — ele começou a dizer, esforçando-se para demonstrar à mãe o respeito que a posição dela merecia. Nut o interrompeu com um movimento repentino das nuvens lá no alto. Elas rolaram e se agitaram, mas, com a mesma rapidez com que tinha se juntado, a massa espessa se desfez. E então estendeu dedos finos que foram se dissipando com o calor da manhã até desaparecerem por completo.
— Eu não costumo fazer isto — disse ela, por fim. — Mas sei que você anda tendo dificuldades ultimamente, e os outros deuses não têm sido tão pacientes com você como eu gostaria que fossem. — Ela suspirou. O sopro dela no rosto dele era tão frio quanto o espaço no qual ela havia feito sua casa. — Osíris pediu a Ísis que o encontrasse no estábulo de Amon-Rá. Não sei se ela tem a intenção de ir, só que a mensagem foi entregue.
Seth inclinou a cabeça.
— Obrigado, mãe.
A caminho do estábulo, Seth foi parado duas vezes. Primeiro por Anúbis.
— Seth — disse Anúbis. — Era você mesmo, garoto, que eu estava procurando.
Seth desvencilhou o braço da mão de Anúbis e fuzilou o deus com um olhar de desprezo escancarado.
— Não estou vendo nenhum garoto aqui. É melhor continuar procurando. — Ele se virou para ir embora, mas o cão negro de Anúbis saltou em seu caminho e rosnou. Seth quase, quase desfez o cachorro ali mesmo, naquele momento. Desfazer uma criatura tão antiga quanto o primeiro cão daria a ele uma enorme dose de poder, mas ele não podia se arriscar a algo assim. Não por enquanto. Sem se virar para Anúbis, Seth perguntou: — O que você quer?
— Parece que houve algumas mortes estranhas ultimamente: animais, árvores, mortais e até alguns imortais de menor importância. Eu tive de acompanhar várias pessoas à vida após à morte, várias pessoas jovens — enfatizou. — Jovens que não estavam nem perto da morte. E as histórias que contam, bom... — Anúbis tinha se reposicionado ao lado do cão e encarava Seth com acusações nada sutis no semblante. — Vamos dizer que não foram inteiramente... naturais.
— Isso deve ser bem fascinante para você. Agora, se me der licença, tenho negócios urgentes a tratar.
Anúbis ergueu uma sobrancelha.
— Negócios? É mesmo? Que negócios você poderia ter?
Seth ergueu o queixo e semicerrou os olhos.
— Devo informá-lo de que Amon-Rá me enviou em uma missão de grande importância.
Anúbis cruzou os braços sobre o peito.
— Entendo. Bom, sorte dele ter um homem tão dedicado para fazer o serviço.
— É.
— Então é melhor ir andando, Seth. — O deus da vida após a morte sorriu com desdém. — Eu vou lá falar com Amon-Rá sobre minhas preocupações relativas ao repentino aumento do fluxo de almas para a vida após a morte e sobre as minhas suspeitas da causa desse fenômeno.
— Faça isso — disse Seth, cheio de confiança, apesar do turbilhão interior provocado pelo temor de que seu segredo tivesse sido descoberto. Então ele se acalmou. Mesmo que Anúbis desconfiasse que era ele o responsável pelas mortes, Amon-Rá não iria necessariamente atribuí-las ao sobrenatural. Ele já tinha sido a causa do óbito de mortais antes; de muitos, na verdade.
Anúbis podia acreditar que essas mortes eram diferentes, mas não tinha como saber por quê. A transição entre vida e morte era uma coisa terrível, capaz de fazer a mente encapsular a dor. A maior parte das almas nem se lembrava de como tinha morrido. Era como lembrar-se da dor de um joelho ralado quando criancinha. Mesmo que conseguissem, essa não seria uma preocupação imediata. Seth tinha tomado cuidado para garantir que os mortais em quem tinha testado seu poder não vissem seu rosto. Além do mais, estavam mais preocupados com a próxima fase de sua existência e com o julgamento iminente. No máximo, a mente estaria anuviada, confusa com a experiência da morte, e era por isso que Anúbis era enviado como guia.
Seu segredo estava seguro por enquanto. Ninguém ia acreditar que o único deus sem poderes, aquele que ninguém, nem mesmo os pais, achava que seria alguma coisa, poderia possuir uma habilidade tão importante. Ele ainda tinha tempo. Tempo para revelar sua novidade à sua maneira e para aqueles que ele escolhesse. Mas, primeiro, precisava falar com Ísis.
Anúbis se inclinou para a frente, quase encostando o nariz no de Seth.
— Ah, vou fazer mesmo — disse antes de passar por Seth, esbarrando em seu ombro com tanta força que o deus mais baixo quase caiu. A fúria que tomou conta de Seth foi rápida e escaldante. Sua ira devia-se mais à maneira como Anúbis tinha falado com ele, mas também estava aborrecido com a própria reação ao deus. Durante a conversa, Seth tinha se sentido... intimidado, assustado, diminuído.
Detestava o fato de os antigos desajustes de sua juventude ainda atormentarem sua mente, apesar de ele agora ter alcançado a plenitude. Como desejava sua justa vingança! Ele ia mostrar a eles. Ia mostrar a todos eles exatamente o que ele era. O que poderia ser. Era mais poderoso do que todos. Nunca mais ousariam falar assim com ele depois que vissem o que era capaz de fazer.
Seth saiu pisando duro, mais uma vez a caminho do estábulo, até que deparou com Néftis, que claramente também desejava sua atenção. De início, ele pensou em ignorá-la, mas os olhos suaves e o sorriso recatado dela o encantavam. Apesar de Néftis ter sempre ficado do lado dos outros, deixando-o de fora, nunca tinha sido maldosa com ele. Reprimindo sua impaciência, ele fingiu que estava interessado no que quer que fosse que ela quisesse lhe falar.
— Em que posso ajudar, minha querida?
Ela retorceu as mãos.
— Eu... eu andei falando com as estrelas.
— E...? — Os outros achavam Néftis um tanto louca quando falava de suas visões, mas Seth sempre levava a sério o que ela dizia. Ele sabia como era ser mal compreendido e, pensando bem, os dois tinham muito em comum. As habilidades dela assustavam os outros. Quando ele revelasse as dele, ficariam igualmente preocupados, se não ainda mais. — O que as estrelas lhe disseram? — perguntou ele.
— Eu preciso prevenir você.
— Me prevenir de quê?
— De que o caminho que você está tomando é perigoso.
Seth riu.
— Meu caminho até o estábulo?
— Não. Seu caminho na vida.
— Entendo. E qual seria o caminho correto?
A princípio, sua intenção era de que a pergunta tivesse tom jocoso, mas o tom da voz dela combinado à expressão em seu rosto desviou seu propósito; agora ele queria mesmo saber.
Néftis tirou uma pedra transparente do bolso e esfregou os dedos nela. Então segurou a pedra na concha formada por suas mãos e a levou até o ouvido.
— Há vários caminhos que você poderia tomar — disse ela. — O seu caminho tem muitas reviravoltas. Muitas possibilidades. E logo você terá que fazer uma escolha importante.
— O que é isso? — perguntou ele, apontando a pedra.
O canto da boca de Néftis moveu-se para cima.
— Se eu dissesse, você não acreditaria.
Seth inclinou-se, aproximando-se dela, segurou seu ombro e o apertou de leve, tentando criar um clima de confiança entre os dois. Piscando para ela, disse:
— Experimente.
Néftis umedeceu os lábios e respondeu:
— Eu o chamo de Olho da Profecia. Quando as mensagens das estrelas não são claras, eu mando a pedra vagar por aí. Ela acaba de voltar, e as coisas que me mostrou são ao mesmo tempo maravilhosas e assustadoras.
— Será que ela fala comigo? — perguntou Seth, abrindo a mão.
Como se Néftis hesitasse, ele tirou a pedra dos dedos dela e a levou até seu ouvido. O fato de ela parecer não se incomodar que ele pegasse sua pedra o encheu de uma sensação inebriante de poder. Foi exatamente o oposto do que ele tinha sentido durante seu encontro com Anúbis.
Seth não sabia se ela estava encantada por ele, se tinha medo dele ou se só estava sendo educada. Na verdade, não importava qual era a motivação. O fato de Néftis saber qual era seu lugar fazia com que ele a apreciasse ainda mais.
Por um breve momento, ficou imaginando quanto ela permitiria que ele a pressionasse.
— Não. — Néftis sacudiu a cabeça com tristeza. — Bem que eu queria que falasse. Tem muita coisa para contar a você. Muita coisa que você precisa saber. Mas... este não é o momento.
— Que conveniente! — disse Seth, e permitiu que um vislumbre de sua crueldade se revelasse. Ao ver a expressão arrasada no rosto dela, ficou com raiva. Não gostava quando as pessoas se decepcionavam com ele. — Não me incomode com essas coisas se não tiver nada concreto a dizer.
— Mas eu tenho algo concreto a dizer, sim.
— Então diga, Néftis — exigiu ele, impaciente.
— É sobre o seu caminho. — Ela baixou os olhos. — Quer dizer, o nosso caminho. — Ela engoliu em seco e olhou para ele através dos cílios.
— Nosso caminho? — perguntou Seth, sobressaltado. — Está querendo me dizer que nós...?
Néftis assentiu de leve.
— É uma das possibilidades. Uma das mais felizes. — Ela franziu a testa. — Mas também uma das mais terríveis.
Seth ficou ali, paralisado, as mãos agora apertando os ombros dela com força. Ele nunca tinha pensado em tomar nenhuma outra mulher que não fosse Ísis como sua companheira, mas estar ali parado, com Néftis olhando para ele com uma mistura de confiança e medo, de algum modo parecia correto. Não havia dúvida na cabeça dele de que o poder de Néftis era real. Ela sabia coisas demais.
De certa forma, ela o fazia lembrar-se da mãe. Mas, diferentemente de Nut, Néftis pelo menos confiava nele o suficiente para lhe contar as coisas que tinha visto. Néftis não lhe escondia coisas. Mesmo se o que ela tinha a dizer fosse recebido com raiva. Ele parou um instante para refletir sobre o que ela tinha dito. O fato de ele ter potencial para muitos caminhos era algo bom.
Significava que tinha escolhas. Que o destino não havia decidido quem ou o que ele seria. Ele gostava disso.
Talvez as visões dela até significassem que ele poderia ficar com as duas mulheres – uma para lançar seus feitiços e outra para ver o futuro. Um homem podia ter um destino bem pior. E os outros deuses não ficariam com ciúme ao vê-lo brincar com os afetos das duas deusas enquanto eles continuavam absolutamente sozinhos? Velhos solteirões, fadados a uma vida de inveja... Ele imaginou o belo Osíris ajoelhado diante de seu trono, olhando enciumado para ele com suas duas poderosas rainhas, uma sentada de cada lado, competindo por sua atenção. Era um sonho tão vívido que Seth quase conseguia encostar nele.
Se ia escolher Néftis agora ou mais tarde não fazia a menor diferença para ele. Não podia fazer mal deixar a deusa em compasso de espera durante alguns séculos. No mínimo, ele queria manter aberto o canal de comunicação entre os dois. Finalmente, ele disse:
— Ainda bem que você me falou disso.
— Sério? — perguntou ela, acanhada. — Os deuses não gostam quando eu falo demais. Eles ficam nervosos.
— Esse nunca vai ser o caso em relação a mim, minha querida. Quero que me conte tudo.
— Tudo?
— Absolutamente tudo. Mas, primeiro, tenho um assunto a tratar. Pode se encontrar comigo mais tarde?
— Posso.
— Ótimo! Vou procurá-la hoje à tarde. Até lá, será que isso pode ficar só entre nós?
Néftis assentiu.
— Pode, claro.
Seth olhou radiante para ela, e em seu sorriso Néftis enxergou um vislumbre do que poderiam ser juntos. Ela sabia que o momento era errado, mas também sabia como ele estava infeliz. Ao contar-lhe o que tinha descoberto, quis oferecer-lhe algo por que esperar e em que se concentrar. Se desse certo, talvez fosse possível desviá-lo para o caminho que ela esperava que ele tomasse.
Enquanto Néftis se afastava, as estrelas sussurraram que ela não tinha controle sobre as escolhas de Seth e que ele faria o que quisesse, de qualquer modo. Ela só podia torcer para que ele não agisse errado. Se ele ao menos pudesse enxergar as coisas que ela enxergava... Mas nenhum deles podia. Nem mesmo Ísis, sua amada irmã.
Néftis saiu cantarolando pelos corredores que levavam a Amon-Rá, que era tão cabeça-dura quanto Seth. Era um desafio fazer com que ele tratasse de qualquer outra coisa além de obrigações. Os sonhos dele estavam tão bem trancados que nem ela era capaz de trazê-los à superfície, por mais que falasse docemente e fosse perspicaz. Mas isso não a impedia de tentar. Ele se sentia muito solitário em suas responsabilidades e ela sabia que sua presença lhe trazia paz e uma distração agradável.
Ela fez um sinal para que um servo lhe trouxesse chá e se acomodou na poltrona onde se reuniam todas as manhãs. Amon-Rá a cumprimentou com um aceno de cabeça quando entrou e ela sorriu com os lábios escondidos atrás da xícara de chá fumegante enquanto ele se acomodava ao lado dela. As estrelas sussurraram mais uma vez, mas ela sabia que não havia como manipular Amon-Rá. Diferentemente de Seth, não tinha como influenciá-lo a tomar um ou outro caminho. Ele precisaria tomar a decisão sozinho, e no momento que lhe parecesse certo. Néftis suspirou. A espera seria longa e cansativa, mas valeria a pena. Ela precisava acreditar nisso.
Enquanto Néftis e Amon-Rá conversavam sobre coisas divinas, tomando chá acomodados sob os feixes de luz do sol que entravam pelas janelas de treliça do palácio, Ísis se encontrava no estábulo escuro espiando o curioso animal que mastigava aveia preguiçosamente enquanto a observava. Ísis tinha certeza de que a estranha criatura era a razão por que Osíris a tinha chamado ao estábulo e soltou um suspiro de irritação.
Não ia dar certo. Ele provavelmente estava tentando distraí-la mais uma vez. Fizera isso várias vezes ao longo dos séculos. Quando ela se irritava com ele por causa de qualquer coisa, ele lhe trazia uma flor que ela nunca tinha visto, um coelho fofinho ou um gatinho. Logo ela esquecia todas as razões por que estava irritada e o enchia de perguntas a respeito de suas aventuras.
Ela não fazia ideia de como chamar aquele animal nem de onde ele o teria encontrado, mas tinha de reconhecer que era interessante. Sua cabeça se parecia com a de um cachorro ou um chacal, mas com orelhas compridas, peludas e com pontas quadradas que ficavam eriçadas. As patas também eram longas e esguias como as de uma gazela, mas aquela criatura não era um cachorro.
Pelo comportamento, mais parecia um cavalo. Era mansa e engolia aveia com mais rapidez do que qualquer animal que ela já tivesse visto.
— Acho que você está com fome — disse ela rindo quando estendeu a mão.
Ísis tocou o pescoço comprido da criatura, que se aproximou, contente com o carinho. Quando a deusa começou a fazer um cafuné, a criatura soltou um gemidinho e ajeitou a cabeça para que ela pudesse alcançar os melhores pontos.
Olhos castanhos com cílios compridos piscaram quando o animal se virou, abanando o rabo peludo para voltar a enfiar a cabeça no balde de aveia e mastigar mais um bocado. Ao mesmo tempo, ajeitou o corpo de modo que Ísis pudesse continuar o cafuné. Ela fez a vontade do animal com tapinhas carinhosos.
— Você é uma doçura, não é mesmo?
— Gosto de pensar que sou, sim — disse uma voz atrás dela.
Ísis se virou.
— Seth? O que está fazendo aqui? — perguntou ela.
— Estou procurando você — disse ele com um sorriso que pareceu um pouco intenso demais.
— Estou esperando Osíris, mas pode ficar até ele chegar.
O sorriso se esvaiu do rosto de Seth.
— Como quiser. — Ele inclinou a cabeça e, ao fazer isso, acenou com os dedos e desfez uma parte importante do jardim de Osíris, uma de que o deus das ervas daninhas sentiria muita falta. Talvez aquilo distraísse Osíris tempo suficiente para lhe dar uma chance de conversar com Ísis.
Dando um passo à frente, ele se debruçou na baia onde ela observava o animal e franziu o nariz por causa do cheiro. Ele preferiria levá-la para outro lugar, mas sabia que Ísis não sairia dali, não quando o Sr. Bonitão-Demais-Para-o-Próprio-Bem estava a caminho. Mas talvez, se ele revelasse seu segredo, ela ficasse chocada o bastante para concordar em ver uma demonstração em outro lugar depois que ele se declarasse.
— Ele não é lindo? — perguntou Ísis, apontando para o animal.
Seth não viu nada de mais na criatura. Na verdade, até onde ele conseguia perceber, o bicho não servia para nada. Era pequeno demais para ser montado. Não parecia inteligente o bastante para ser um animal de estimação. Comia grãos, o que significava que precisava ser alimentado. E, sendo herbívoro, era essencialmente inútil para manter a população de roedores sob controle.
— Adorável — disse ele em tom seco, sem olhar para a criatura. — Ísis? — começou ele.
— O que foi?
— Eu queria conversar com você.
A boca de Seth de repente ficou seca e, por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar de nenhuma das frases que tinha ensaiado. Não com os olhos tempestuosos da deusa pousados nele.
— Pode falar — ela o incentivou, levantando-se.
O corpo dela se retesou, como se estivesse se preparando para o que viria a seguir.
Seth também se levantou, irritado por precisar erguer a cabeça ao olhar para ela. Ele não era baixo, pelo menos não quando comparado a mortais, mas Ísis era vários centímetros mais alta que ele. Quando a tomasse como noiva, ele se certificaria de que o trono dela fosse mais baixo que o seu. Não daria certo ter uma esposa que chamasse mais atenção do que ele.
— Eu... eu queria contar para você que o meu poder se manifestou.
Não fora sua intenção fazer a afirmação assim de modo tão direto e com a insegurança transparecendo na voz, mas era o melhor que ele parecia ser capaz de fazer. Tranquilizou-se um pouco quando o rosto de Ísis iluminou-se com entusiasmo.
— É mesmo? Isso é maravilhoso!
— É mesmo. — Ele deu um sorriso um pouco acanhado. — Eu queria que você fosse a primeira a saber.
— Fico honrada. E então? — Ísis pegou a mão dele. — O que é?
— É... bom... — Seth olhou ao redor do estábulo em busca de algo sem importância. Encontrou uma banqueta de ordenha e a colocou entre eles. — Observe. É melhor eu demonstrar.
Seth ergueu a mão e a banqueta tremeluziu, desaparecendo em seguida. Na verdade, era fácil demais desfazer um objeto inanimado. Mas ele não colhia nenhum poder adicional com algo assim, então considerava um desperdício de energia. Qualquer que fosse a força vital que a banqueta pudesse ter tido algum dia, essa já havia desaparecido fazia muito tempo. Mesmo assim, Ísis ficou impressionada e bateu palmas.
— Que coisa maravilhosa! — Ela se virou para trás. — Para onde foi a banqueta? Você é capaz de mover qualquer coisa? — perguntou ela. — Gente também?
— Eu não movi a banqueta — disse Seth, um pouco apreensivo. — Eu... a desfiz.
— Desfez? O que isso significa?
— Significa que ela agora deixou de existir.
— Então você a destruiu?
Seth negou com a cabeça.
— Destruir é quebrar algo. Nesse caso, a matéria continua existindo. Eu apaguei a coisa do cosmos. E a resposta para a sua pergunta anterior é, sim, eu posso fazer isso com qualquer coisa.
— Mas o que acontece quando...
Ele ergueu a mão em um floreio.
— Como eu disse, a coisa deixa de existir. Se for uma coisa viva, como uma árvore ou um animal, parte de sua essência vital é transferida para mim e o resto retorna às Águas do Caos.
— Às Águas do... Tem certeza?
— Muita certeza. Eu fui até lá pessoalmente e testei.
— Mas isso significa que você matou...
Seth a interrompeu com o dedo em riste:
— Desfiz.
Ísis agitou as asas e uma ruga reveladora em sua testa mostrou que ela não estava nada satisfeita com ele.
— Matar, desfazer, qual é a diferença? — questionou ela.
Seth franziu a testa. A conversa não estava indo na direção que ele queria.
— Acho que você não está enxergando o panorama mais amplo.
— E que panorama é esse?
— As Águas do Caos estão sendo reabastecidas. — Ele pôs as mãos nos ombros dela e cerrou os dentes quando ela recuou. — Reabastecidas, Ísis. Você sabe o que isso quer dizer?
Ele fez uma pausa e foi recompensado quando os olhos dela se arregalaram.
— Significa que mais seres podem ser criados — respondeu ela, séria.
— Isso mesmo! — Ele meneou a cabeça com entusiasmo exagerado.
As possibilidades atravessaram a mente de Ísis. Com as Águas do Caos reabastecidas, ela poderia ter um filho. Talvez até mais do que um. Ela poderia ser mãe.
— É possível abastecer as Águas desfazendo coisas sem vida? — perguntou ela. — Coisas como a banqueta?
— Não. As Águas só são reabastecidas quando desfaço seres vivos. Quanto mais poderosa a vida, mais as águas sobem.
— Mas destruir os vivos é errado — afirmou ela.
Ele suspirou, impaciente.
— Não é destruir. É desfazer. Será que não percebe a diferença? Você pode me ajudar.
— Ajudar você? Como?
— Pode me ajudar a escolher o que desfazer. Com você ao meu lado, vamos obter o equilíbrio perfeito. Opostos mas iguais, o meu caos e a sua criação. Sua sabedoria e sua bondade vão me manter sob controle. Eu vou ser o deus flamejante da vingança, enquanto você será minha contraparte de gelo, a deusa que contém as chamas e oferece alívio e cura.
Como ela se limitou a ficar olhando fixo para ele, os olhos cheios de dúvidas, ele insistiu:
— Ísis, eu sei que as regras desagradam você tanto quanto a mim. Pense no que nós poderíamos fazer. Juntos. Eu posso lhe dar aquilo por que você anseia. Vou deixar passar os mortais e as criações que você decidir salvar. Aqueles que você ama podem viver por toda a eternidade. Certamente isso vale o preço de algumas árvores e flores.
Ele a enganou deliberadamente. Seria necessário muito mais do que árvores e flores para tornar alguém imortal, principalmente porque ele absorvia parte da energia vital dos seres que eram desfeitos. Mas Ísis não estava pronta para saber disso. Não ainda.
Ela respirou fundo quando uma ideia lhe ocorreu. Poderia salvar Baniti. Isso era possível. Se ficasse do lado de Seth, ele permitiria que ela fizesse isso.
— O que exatamente você quer de mim? — perguntou ela.
Seth inclinou a cabeça e dirigiu-lhe uma risadinha zombeteira. Ela estava começando a entender o jeito dele de ver as coisas, ele sabia. Observá-la tinha valido a pena. Ele a tinha ganhado. Nem mesmo a grande Ísis seria capaz de negar o poder dele.
— Eu quero você — afirmou ele simplesmente.
— Eu?
— Sim. Isso é assim tão chocante? Você é uma mulher linda. Não só isso: você tem o poder dos feitiços e da cura. O meu desejo é nos unirmos, criarmos uma ligação entre nós.
— Mas ligações entre os deuses são proibidas. Além do mais, mesmo que não fossem, eu não amo você.
Seth deu de ombros, como se isso não fizesse a menor diferença para ele. Mas, na verdade, a ideia de que ela nutria sentimentos por outra pessoa o deixava furioso.
— Nós vamos mudar as regras. E... o amor virá com o tempo — disse ele.
— E se não vier?
Ele deu as costas para Ísis, para que ela não visse como suas palavras o irritavam.
— Se não vier, vamos lidar com a questão juntos, só nós dois — disse ele em voz alta enquanto, por dentro, se perguntava se seria possível desfazer os sentimentos de uma pessoa.
Será que isso prejudicaria a mente ou o coração dela? Seria arriscado experimentar algo assim em sua noiva. Ele testaria em outros antes de usar seus poderes nela. Precisava que a mente dela se mantivesse intacta para que pudesse criar feitiços.
Assim que Seth se afastou dela, Ísis segurou com força a mureta da baia e olhou fixamente para o animal, que se aproximou e esfregou a cabeça na mão dela. A aveia tinha acabado e era provável que estivesse pedindo mais. Sem prestar atenção, ela ficou acariciando o animal enquanto pensava na proposta de Seth. A possibilidade de salvar Baniti e de ter filhos era o desejo mais profundo de seu coração. Mas será que ela poderia sacrificar outras criações para que eles pudessem viver? Isso levava à resposta que Amon-Rá tinha dado antes. Quem ou o que abriria mão da própria vida para salvar aqueles que ela amava?
Além disso, havia o fato de que Seth a desejava da maneira que um homem deseja uma mulher. Osíris estava certo a respeito disso. Osíris. Ísis não podia negar que tinha pensado muito em se conectar a outro deus, apesar do édito que proibia isso, mas nunca tinha pensado que seria Seth.
Seria ela capaz de abandonar seus sentimentos por Osíris e se dedicar a Seth? Ela não sentia nenhum amor por ele. Não tinha nenhuma vontade de estar perto dele. Ela nunca sentia falta dele quando ele se ausentava. Na verdade, mal pensava nele quando não estava em sua presença.
Mas, quando Osíris não estava ao seu lado, ela se afligia por ele. Queria que a abraçasse. Ansiava ser beijada por ele novamente do jeito que a tinha beijado na noite anterior. Ísis não era capaz de imaginar a eternidade sem ele.
Um pensamento frio entrou em seu coração: se Seth descobrisse, ele iria desfazer Osíris para que o amor dela não tivesse outro objeto? Ela não podia permitir que uma coisa assim acontecesse. Por mais que quisesse um filho, por mais importante que fosse salvar Baniti, ela sabia que o que Seth propunha era errado.
Ísis se virou para Seth e lhe dirigiu um sorriso fraterno cheio de pena.
O corpo todo dele se retesou. Seth já sabia qual ia ser a resposta dela antes mesmo que ela falasse.
— Seth, quero que você saiba que pensei a sério na sua proposta — ela começou —, mas...
Seth agarrou o braço dela com força. Qualquer suavidade que houvesse no rosto dele tinha sido substituída por frieza. Como ela ousa sentir pena dele?
Nem pense em me rejeitar, Ísis — sibilou ele. — Eu sei que isto vai surpreender você, mas vou lhe dar um tempo para pensar na minha proposta. E esteja avisada: o meu desejo é que você pertença a mim, de corpo e alma. Não vou aceitar nada menos do que isso. Eu não mereço menos do que isso! — disse ele com fúria. — E só para você entender a natureza do meu poder...
Virando-a na direção da mureta de madeira, Seth forçou-a a assistir enquanto ele desfazia a criatura pela qual ela havia acabado de se encantar.
— Não! Por favor! — exclamou ela, estendendo a mão no momento em que o animal desaparecia.
Quando ela desabou aos pés dele, soluçando, uma onda de prazer o percorreu. Seth se agachou ao lado dela e levou a ponta do indicador à sua face molhada. Esfregou uma lágrima entre os dedos e o canto de sua boca se ergueu. Ele se deleitou ao ver a deusa gloriosa reduzida a uma mulher suplicante e chorosa.
— Talvez você só precise de mais uns poucos argumentos — disse ele.
Então fechou os olhos e estendeu seu poder, mais do que já tinha feito em qualquer ocasião, testando os limites de sua habilidade, e desfez cada uma das estranhas criaturinhas de que Ísis tanto gostara. Elas desapareceram de todos os cantos escuros do cosmos.
Então algo interessante aconteceu. A energia vital de centenas de milhares de criaturas penetrou em seu ser de uma só vez. A sensação foi tão esmagadora, tão absolutamente chocante, que ele não pôde absorvê-la de imediato. Em sua mente, os berros de incontáveis criaturas inocentes desabavam sobre ele à medida que ele lhes roubava a essência vital. Sua cabeça latejava como nunca.
O desfazer que ele tinha executado no passado havia sido perturbador, mas o sofrimento costumava ser tão breve que era fácil ignorar a pontada de culpa que o acompanhava. Dessa vez, porém, ele teve que olhar para o que estava fazendo com um olho onisciente, e o que viu o fez estremecer. Ele agarrou os próprios cabelos e os puxou.
Então, apesar de ter parecido uma eternidade, as pontadas da morte passaram por ele. A dor diminuiu e ele percebeu que os efeitos só tinham durado alguns segundos. Quando tudo passou, o poder de todas as vidas que ele tinha arrancado o encheu, efetivamente extinguindo as ondas de culpa que ameaçavam fazer com que caísse de joelhos. Aquele poder bruto era diferente de qualquer coisa que ele já tivesse sentido.
Seth estava mais forte. Maior. Sua visão tinha melhorado cem vezes. E ele estava com fome. Seu corpo se sacudia com uma nova energia, e então ele começou a se transformar. Em um momento era ele mesmo e, no seguinte, seu corpo tinha assumido a forma de uma das criaturas que ele apagara da existência.
O efeito foi desconcertante, mas também muito, muito interessante. Depois de um momento apavorante em que ficou preso no corpo de uma das criaturas que tinha desfeito, imaginando se aquele era um castigo cósmico por causa de suas ações, ele retornou a seu estado normal. Tinha acontecido tão rápido que Ísis nem percebera.
As asas dela tinham se enrolado ao redor do próprio corpo, protegendo-a da visão dele. Seth flexionou os dedos e passou a mão pelas próprias orelhas.
Na mente, ainda enxergava as orelhas compridas da criatura e sentiu o ar roçando os pelos sensíveis no interior delas. Imaginou que o fedor da criatura ainda estava impregnado nele e ficou com vontade de mergulhar o corpo em uma banheira quente e esfregar até a memória abandonar sua pele.
Mas quase imediatamente se perguntou se seria capaz de se transformar na criatura outra vez. Se ele retivesse essa habilidade por ter extinguido aquela espécie, será que não poderia fazer de novo, com outra? Impaciente para treinar seu poder recém-descoberto e fazer uma lista de animais em potencial para testes, Seth se levantou.
— O que você fez? — sussurrou Ísis da sombra de suas asas, ainda fixada naquele animal quando tantas outras coisas tinham acontecido em um período tão curto.
Na pausa que Seth fez antes de responder, Ísis ergueu o rosto manchado de lágrimas para ele, rezando para que não tivesse feito algo horrível com Osíris ou com a irmã dela.
— Ah, isso. — Seth já deixara esse assunto para trás e estava pronto para acabar com aquela conversa exaustiva. — Eu desfiz cada uma dessas criaturas. Nunca mais você vai topar com uma delas. Agora estão extintas.
Ísis ficou boquiaberta, em meio a um choque silencioso. O corpo dela estremeceu. Suas asas se agitaram e Seth ergueu uma sobrancelha, se perguntando se aquele era o momento em que ela revidaria. Mas então o queixo da deusa tremeu e ela voltou a enfiar a cabeça sob as asas. Que delícia era esmagar as emoções da grande Ísis!
Cheio de ousadia, Seth agarrou uma das asas macias dela e puxou, expondo seu rosto com brutalidade.
— Vou deixar você sozinha agora para refletir sobre suas escolhas, Ísis. Assegure-se de tomar a decisão correta. Espero que acabe chegando a ela.
Deixando o estábulo, Seth atravessou a barreira do domínio mortal e saiu à procura da próxima espécie em que poderia experimentar seus poderes. Talvez, da próxima vez que visse Ísis, fosse capaz de se transformar em um felino, um urso ou até um dragão. Imaginar a infinidade de maneiras como poderia torturar Osíris e dobrar Ísis à sua vontade trouxe um sorriso zombeteiro a seu rosto.
Osíris encontrou a deusa chorando pouco depois.
— Ísis? — Ele se ajoelhou ao lado dela. — Você está bem? O que aconteceu?
— É Seth.
Ísis estendeu a mão e segurou o braço de Osíris enquanto contava a ele o que tinha acontecido.
Uma fúria nada característica tomou conta do gentil deus da natureza. Quando ela contou a Osíris que Seth tinha destruído não apenas a doce criatura, mas todas as outras iguais que existiam no cosmos, as mãos de Osíris tremeram. Para fazer com que parassem, ele ergueu Ísis e a abraçou.
— Era um tifão — murmurou Osíris enquanto acariciava o cabelo dela.
— E agora não existe mais — disse Ísis. — Você tinha razão — ela reconheceu enquanto tentava conter as lágrimas. — Ele me deseja. Seth acha que pode arrancar meu coração do peito e ficar com ele, do mesmo jeito que se arrancou do útero da mãe.
Osíris segurou o rosto dela entre as mãos.
— Ele não pode levar embora aquilo que você não oferecer.
— O poder dele é enorme e terrível — contou Ísis. — Você não viu. E temo que ele...
— O que foi? — Osíris perguntou quando ela se afastou dele.
Querendo reconfortá-la, mas sem saber como, ele simplesmente se aproximou dela, que mudou a asa de posição atrás de si, abraçando-o pela cintura e pousando a cabeça em seu ombro.
— Estou com medo de que ele tente desfazer você.
Osíris retesou o corpo e perguntou:
— Você acha que ele seria capaz de fazer algo assim? Desfazer um deus?
— Não sei. Só sei que a possibilidade existe e que ele tem a intenção de fazer com que eu seja dele. Se ele ameaçar prejudicar quem eu amo, não vou ter escolha senão aceitar os seus termos.
— Vai, sim! — afirmou Osíris de modo abrupto, e, quando os olhos de Ísis dispararam para os seus, ele tentou se acalmar. — Vai, sim — repetiu com mais gentileza. — Não vou permitir que ele a force a um arranjo desses. Vamos falar com Amon-Rá.
— Não. — Ela sacudiu a cabeça e escapou do abraço dele. — Você conhece Amon-Rá. Ele vai sugerir uma estratégia de “esperar para ver”. Ou isso, ou só vai adicionar mais regras à sua longa lista. Mesmo que Amon-Rá queira fazer algo a respeito de Seth, talvez não seja capaz. Nesse ínterim, vamos ficar aqui repousando em nossos louros enquanto Seth prejudica criaturas vivas: plantas, animais, até mortais. Você quer que ele destrua as suas grandiosas florestas tropicais? As suas plantações e os seus pomares?
Osíris controlou-se.
— Deve ter sido isso que aconteceu com as nogueiras.
— Está falando do lugar em que estivemos juntos ontem à noite?
Um calafrio lançou gelo em suas veias. Será que Seth andara espionando os dois?
Osíris assentiu.
— Desapareceu de repente. Nada mais brota em toda aquela área. Não há um só mato, uma noz ou uma minhoca à vista no lugar todo. E mais: agora o solo está infértil. Árido. Nada mais vai brotar ali. Um poder desses... é... é inimaginável. Precisamos encontrar uma maneira de detê-lo.
— Sim — concordou Ísis. — Não vou permitir que ele apague da existência as pessoas que eu amo. — A deusa mordeu o lábio, respirou fundo e se voltou para Osíris. — Por que você me chamou?
— Como assim?
— Por que você me chamou aqui? Foi para mostrar o animal, o tifão?
— Foi — respondeu Osíris automaticamente. Então, ao ver a expressão desolada dela, ele levou a mão à nuca e esfregou. — Não.
Os olhos dela se ergueram.
— Então, por quê? Diga, Osíris.
— Eu... eu queria, sim, mostrar o animal para você, mas era só uma desculpa para podermos conversar. — Ele fitou o rosto dela, mas não conseguiu decifrar os pensamentos por trás de seus olhos tempestuosos.
— Sobre o que você queria conversar? — perguntou ela, direta.
— Sobre nós. — Ele suspirou.
— Sobre nós?
Osíris pousou as mãos nos ombros dela. A faísca de uma lágrima esquecida se demorou nos cílios negros dela. Ele torceu para que o próprio nunca fosse a causa de suas lágrimas. Nunca mais. Osíris então se encheu de coragem e disse:
— Você revelou seus sentimentos para mim e eu não fui tão sincero. Mas agora vejo que seria errado se eu negasse a você a chance de conhecer os meus.
Ela respirou fundo.
— Então me diga, Osíris. Quais são os seus sentimentos?
A maneira como ela olhava para ele era inebriante. Ela era a mistura perfeita de poder e vulnerabilidade. Ele percebeu que não conseguia resistir ao desejo de tocá-la e tomou seu rosto nas mãos, roçando o polegar sobre a trilha ainda brilhante de lágrimas.
— Eu disse a você que precisava pensar, e pensei. A noite toda. Quando você me falou sobre os seus sentimentos antes, fiquei abalado. Nunca tinha imaginado algo assim. Mas, apesar de eu ter tentado colocar os pensamentos sobre você de lado, percebi que não conseguia. O seu rosto não saía da minha cabeça. E, ontem à noite, quando nos beijamos...
Ísis se aproximou, Osíris pegou as mãos dela e as levou ao peito.
— Fale — incentivou ela.
— Ontem à noite eu percebi que, ao negar os meus sentimentos por você, eu estava negando a felicidade a mim mesmo.
— Então você está dizendo...?
Ele apertou as mãos dela contra o próprio peito.
— Estou dizendo que amo você, Ísis. Que o meu coração não bate por ninguém além de você.
Por um momento, Ísis achou difícil respirar. Osíris estava ali diante dela se declarando e ela não conseguia pensar em nada para dizer.
Ele apertou as mãos dela.
— Ísis? Você escutou?
— Escutei — sussurrou ela.
— Então... é isso? Você não tem nada a dizer? — perguntou Osíris, um pouco nervoso.
Ela sorriu. O fato de ela ser capaz de fazer o belo deus ficar tão apreensivo lhe trouxe um pequeno rompante de alegria. Ísis passou os braços pelo pescoço dele e lhe deu um beijo leve, deliciando-se com o pequeno tremor que percorreu o corpo dele.
— Eu também amo você — murmurou ela junto aos lábios dele.
Ísis sentiu o sorriso dele e logo se perdeu em seu abraço apaixonado. Cada toque era uma descoberta nova; ela guardava cada beijo na memória. Quando as mãos dele acariciaram as penas sensíveis da parte interna de suas asas, o corpo dela tremeu de prazer. Ela tinha desejado muito estar nos braços daquele homem. Agora que finalmente estava, Ísis admitia que sua imaginação tinha sido profundamente limitada.
Ser capaz de expressar seu amor por Osíris e sentir o amor dele em resposta a cada toque, cada beijo, e a ternura com que ele a olhava eram, por si sós, pura magia. Era isso que ela sempre tinha desejado: alguém que venerasse seu coração da mesma forma que ela venerava o dele. Essa coisa frágil, nova e gloriosa que estavam descobrindo juntos era tão preciosa para ela, tão perfeita, que só havia um elemento que poderia estragá-la: Seth.
Pressionando levemente o corpo contra o peito dele, Ísis interrompeu o beijo.
— Então, você promete amar a mim e a mais ninguém? — perguntou ela.
A expressão dela estava intensa, as cores em seus olhos se agitavam. Doía em Osíris o fato de ela ainda duvidar dele.
— Prometo — respondeu baixinho. — Sejam lá quais forem as consequências, e enquanto o cosmos permitir que o nosso amor exista, eu sou seu, Ísis, do mesmo jeito que você é minha.
Ísis tomou o rosto dele em suas mãos.
— Então, Osíris, façamos um voto que não possa ser rompido.

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