22 de setembro de 2017

3. Florescimento

— Baniti, por que não me chamou antes? — censurou Ísis ao pegar o bebê no colo. O pobrezinho estava tão doente que parecia prestes a chorar, mas não conseguia reunir energia para tanto.
— A senhora estava fora — respondeu a serva preferida de Ísis. — Achei que pudesse esperar até a sua volta, mas ele piorou muito rápido.
Ísis assentiu.
— Já vi este tipo de doença. É rápida. E mortal — acrescentou. — Temos que nos apressar se quisermos salvá-lo.
Aconchegando o bebê junto ao seu corpo, Ísis instruiu Baniti a alimentar o fogo enquanto ela cantava baixinho para acalmar a criança. Suas asas abanaram o ar na casinha e o calor se irradiou ao redor delas. O suor brotou no rosto de Baniti. O dia já estava muito quente. Estar em casa com o fogo aceso, ainda mais quente por causa do poder da deusa, era horrível. O calor estava desconfortável até para a própria Ísis. Mas Baniti confiava em sua deusa. Ela a tinha visto usar sua magia antes, e com muita eficiência. Se Ísis pudesse salvar o seu netinho, então Baniti toleraria de bom grado um pouco de desconforto.
Quando as brasas do fogo ficaram brancas, Ísis começou a tecer seu feitiço. Baniti fechou os olhos e começou a sussurrar, repetindo o feitiço apesar de não possuir nenhuma magia própria. Baniti estava tão convencida do poder da deusa que nem piscou quando Ísis deitou seu neto precioso diretamente sobre as brasas brancas de tão quentes.
O bebê berrou, seus gritos perfurando o ar. E, apesar de Baniti se encolher, a expressão de Ísis era de calma e determinação. A pele dos bracinhos e das perninhas do menino adquiriu um tom vermelho vivo enquanto ele chutava e se agitava, mas Ísis permaneceu firme e continuou a entoar as palavras do feitiço. O corpinho exalava vapor e, quando Baniti piscou, os fiapos de fumaça pareciam quase negros ao se retorcerem no ar. Pareciam demônios vivos deixando o corpo do bebê. Talvez fossem. Baniti fechou os olhos e renovou o fervor com que cantava.
Finalmente o bebê começou a se aquietar. A pele incandescente foi clareando até voltar à cor normal. O suor escorria das têmporas de Baniti até suas bochechas e ela o enxugou, distraída, com a barra da manga. Seus dedos coçavam para tirar o bebê do fogo, mas Ísis ergueu a mão para impedi-la, como se tivesse lido seus pensamentos.
— Deixe que eu faça isso — disse a deusa. — As chamas vão machucá-la. E ele ainda está quente demais por causa do feitiço.
Estendendo as mãos por entre o fogo que crepitava, Isis pegou o bebê e limpou com ternura as cinzas de seu corpo. Baniti trouxe outras roupas, porque as do bebê tinham sido consumidas pelas chamas. Quando ele estava vestido, depois de a própria Ísis trocá-lo, ela se sentou com ele no colo e sorriu quando a criança levou o polegar à boca.
— Ele está inteiro novamente — disse Ísis. — A doença foi purgada de seu corpo. Minha magia vai protegê-lo de seu efeito pelo resto da vida.
Com lágrimas nos olhos, Baniti se ajoelhou aos pés da deusa e colocou a palma da mão na testa do neto.
— Obrigada — disse ela.
Ísis segurou o bebê com um braço apenas e acariciou o rosto da mulher de idade.
— Sou eu quem deve agradecer. Você foi um grande conforto para mim ao longo de todos esses anos. Fico feliz por eu também ter sido capaz de confortá-la um pouco.
Ísis sussurrou uma palavra para apagar o fogo, então ergueu as asas e fez o ar se agitar ao redor da criança, esfriando-a com gentileza. As duas mulheres passaram um momento em silêncio enquanto escutavam o bebê chupar o dedo.
— A senhora tem jeito com ele — disse Baniti, erguendo-se com um gemido. — Se ao menos...
— Não é para ser — Ísis apressou-se em interrompê-la, pois já sabia o que Baniti diria. Ela franziu a testa ao ver a dificuldade de Baniti para se levantar. Ver tão enfraquecida uma pessoa a quem amava a entristecia. — Já tivemos essa conversa — concluiu Ísis, distraída.
— Mas, com certeza, Amon-Rá pode...
— Mesmo que pudesse, ele não o faria. — Ísis acariciava a cabeça do bebê. — Além do mais, para que uma criança fosse ao menos uma possibilidade, primeiro seria necessário haver um homem na minha vida. E aquele em quem estou interessada está mais preocupado com obrigações do que com amor.
— Então existe alguém. Tenho de admitir que venho me perguntando sobre isso. Vai me dizer quem é?
Ísis suspirou.
— Não faz diferença. Não é recíproco.
— Então ele é um tolo.
— Seja como for, Amon-Rá sempre nos disse para nos contentarmos com o que somos e que o estado em que nascemos é o único a que devemos aspirar. Mesmo que aquele que eu quero correspondesse ao meu desejo, é firme o respeito que ele tem pelas leis. Parece que devo me conformar em viver sozinha.
— Tsc... — reagiu Baniti com um gesto de desprezo e saiu pela casinha arrumando as coisas do bebê enquanto esperava a mãe dele voltar da plantação. — Ninguém merece ficar sozinha. Principalmente alguém como a senhora. Não acredito que Amon-Rá esteja certo.
— Não?
— Absolutamente não. Se nós, mortais, não tivéssemos nada a que aspirar, desistiríamos e ficaríamos deitados na cama. Não há razão para não ir atrás de sonhos. Todo mundo tem o direito de sonhar com algo mais.
— Talvez você tenha razão. — Ísis beijou a bochechinha do bebê adormecido e o entregou a Baniti, que o acomodou em seu cesto e ajeitou o cobertor em volta dele. — Preciso retornar ao conselho.
Baniti pegou a mão de Ísis entre as suas. Muito poucos mortais ousavam tocar a deusa, mas Baniti tinha pertencido a ela desde que Ísis a encontrara abandonada quando criança. A deusa era como uma mãe para ela, apesar de agora Baniti parecer sua bisavó.
— Ísis, se um amor só seu e um filho desse homem forem o desejo secreto do seu coração, então você vai fazer isso acontecer. Acredite em si mesma e no seu poder. Eu sempre acreditei.
Ísis abraçou a mulher de idade e ficou chocada ao perceber como seu corpo estava magro e frágil. Baniti estremeceu e tossiu, aparentemente incapaz de recuperar o fôlego. Um bom tempo se passou até que Baniti voltasse a respirar normalmente. Ísis, que ficara segurando seus ombros durante o acesso, perguntou:
— É a mesma doença da criança?
Baniti sacudiu a cabeça e tossiu mais uma vez antes de responder:
— Não, deusa. A irritação nos meus pulmões é diferente.
— Por que não me disse?
Ela deu de ombros.
— Estou velha. Acha que vou viver tanto quanto a senhora?
— Você não é velha. — Ísis a sacudiu de leve e então parou ao se lembrar de como a mulher agora estava frágil. — Ainda é jovem — disse, negando o óbvio. — Não faz muito tempo que corríamos e brincávamos juntas.
— Isso foi há décadas.
Ísis deu um beijo na testa enrugada de Baniti e a repreendeu:
— Shhh. Fique quieta.
Ísis se colocou atrás de sua querida serva e apertou as mãos contra as costas da mulher. Sentiu o fluido encher seus pulmões, dificultando-lhe a respiração. A deusa tentou usar um feitiço para curá-la, mas o corpo envelhecido de Baniti rejeitou sua magia. A vida é assim. Cada ser no universo recebe o seu quinhão de tempo, um período para permanecer no mundo. Quando esse tempo terminava, não havia nada que ninguém, nem mesmo os deuses, pudesse fazer para impedir o seu fim. Ela sabia disso, mas era cedo demais. Ísis recuou, cambaleando, os olhos cheios de lágrimas.
— Não — sussurrou ela. — Não estou pronta para deixar que você se vá.
— Talvez a senhora não esteja pronta, mas eu estou. Este corpo já não tem mais força. Quando estou desperta, tudo dói. Quando me deito, tudo dói. Não há descanso para mim.
— Eu conserto — prometeu Ísis. — Você não vai morrer antes da próxima lua. Isso eu posso afirmar. Mas essa doença vai enfraquecê-la. Vai levá-la até a porta da morte se eu não encontrar um jeito de fazer alguma coisa em relação a isso.
— Então talvez esteja na hora de me apresentar àquele bonitão do Anúbis. Não consigo imaginar maneira melhor de partir do que acompanhada à vida após a morte pelo braço de alguém como ele.
— Acho que não. Vou mantê-la bem longe de Anúbis.
— Que pena — disse Baniti e, quando viu que Ísis ainda hesitava, agitou os braços. — Está bem, está bem. Agora vá. Volte lá para a sua reunião. Estarei aqui quando terminar.
— Sim, estará — disse Ísis com determinação.
Acariciando o braço de Baniti em despedida, Ísis saltou no ar, as asas se abrindo para levá-la de volta à barreira entre o domínio dos mortais e Heliópolis.


— Não — disse Amon-Rá depois de Ísis perguntar mais uma vez, implorando com toda a sinceridade de sua alma e até oferecendo uma parte de si mesma. — Você sabe que isso não é permitido, simplesmente não há energia de vida suficiente nas Águas do Caos. Além do mais, os mortais são o que os criamos para ser. Infelizmente, a própria definição de mortal é que a morte é inevitável.
— Mas você não percebe? Não precisa ser. Essas regras são criadas por nós mesmos. Certamente pode haver exceções.
— Então quando paramos, Ísis? De que deus você vai tirar energia para fazer com que Baniti seja imortal? Nut? Geb? Porque é isso que teria de acontecer. E, se eu permitisse que você usasse uma parte de seu poder, logo não ia sobrar nada de você. Seu problema é amar muito seus mortais. Não posso arriscar algo assim. Você certamente compreende as consequências. Todo o cosmos poderia implodir!
— Mas não sabemos se isso é verdade, não é mesmo?
Ele suspirou e se recostou na poltrona.
— É melhor ser precavido, sabe, Ísis. Precisamos manter nossas criações em segurança, assim como nossa família. Quando brincamos com questões perigosas, garantimos nossa destruição.
— Mas e se houver outra maneira?
Ela não tinha pensado nisso antes, mas a ideia lhe ocorreu quando viu pela janela um pássaro voando lá no alto.
— E que maneira seria essa? — indagou ele.
— E se eu tirasse a energia vital de outra criação? Não de um deus, mas talvez de uma árvore antiga ou de um animal… — sugeriu ela. Enquanto falava, as palavras de um feitiço muito poderoso encheram sua mente. Ela era capaz de fazer isso. Sabia que era.
Amon-Rá interrompeu seus pensamentos:
— E por que o animal ou a árvore merece abrir mão de sua existência para prolongar a vida de outro ser?
— Podíamos pedir voluntários.
— Não — retorquiu ele, fechando os lábios em torno da palavra de tal modo que ela percebeu que ele não aceitaria mais nenhum argumento.
Ísis jogou as mãos para o alto e se irritou.
— Sua mente é fechada demais.
— E eu diria que a sua é aberta demais. O que você está sugerindo é um abuso dos nossos poderes.
— Amon-Rá tem razão, Ísis — uma voz familiar os interrompeu.
Ísis se retesou e deu as costas para o homem que tinha entrado na câmara.
— Esta é uma conversa particular, Osíris.
— Sinto muito se cheguei em momento inoportuno, mas ouvi o que você disse e achei que deveria avisar que os outros vão chegar em breve. Não seria melhor ter esta conversa em outro lugar? Um lugar que não seja de fácil acesso para o Ennead?
Ísis cruzou os braços, franziu a testa e finalmente olhou para Osíris. Ver no rosto dele a expressão de pena tolerante típica de irmão mais velho, do tipo “Eu sou muito mais sábio do que você”, foi a gota d’água. Ela estava prestes a atacá-lo quando Amon-Rá ergueu a mão.
— Obrigado pela interrupção em boa hora, Osíris. Você tem razão. Precisamos voltar nossa atenção para outras coisas no momento. Receio que esta seja minha decisão final, Ísis. Estou avisando que não adianta implorar nem se rebaixar que eu não vou mudar de ideia. Sinto muito. Agora, por favor, me dê licença porque devo verificar se o banquete está pronto.
Quando Amon-Rá saiu da sala, todo o espírito de luta a abandonou, deixando Ísis e seu coração partido ali sozinhos com Osíris.
— Acho que não ajuda, mas eu lamento — disse ele.
Ela fungou.
— Você nem sabe por que está lamentando.
— Eu lamento muitas coisas em relação a você, na verdade. Apesar disso, ele tem razão. Temos leis por alguma razão.
— Não gosto do jeito como você fala sobre as leis.
— Bom, azar o seu.
Ísis ficou surpresa com o tom dele. Osíris sempre tinha sido educado e paciente com ela. Ele passou a mão pelos cabelos escuros.
— Olhe, eu entendo o que é ter um vínculo, mesmo um que seja... profundo, mas há algo a se dizer sobre o autocontrole. É preciso haver moderação. Aderir aos estatutos que Amon-Rá determinou não é uma coisa ruim.
— Mas e se houver algo além disso? — ela desafiou.
— O quê? Como assim?
— Se os limites são as nossas leis, então talvez, ao desrespeitá-las, passemos a ser ilimitados — respondeu Ísis.
— O que você diz não faz o menor sentido.
— O que eu quero dizer é que justamente as coisas que nos enfraquecem, que nos fazem sentir... vulneráveis — Osíris ergueu uma sobrancelha —, na verdade, talvez possam nos deixar mais poderosos do que jamais poderíamos imaginar — concluiu ela.
Ele suspirou.
— Ísis... — começou a dizer, mas ela o interrompeu com um gesto da mão.
Olhando-o bem nos olhos, desafiou:
— E se houvesse uma maneira de realizarmos nossos sonhos? De termos o que desejamos simplesmente abraçando as coisas que por fora aparentam ser inadequadas?
Ela deu um passo à frente e os galhos das árvores do átrio lançaram suas sombras azul-acinzentadas sobre seu rosto. Osíris recuou, nervoso. Ísis continuou tentando explicar:
— Por que deveríamos nos satisfazer com uma simples colheita, uma produção aceitável, quando temos a capacidade de produzir mais?
Osíris sabia muito bem que Ísis já não estava mais falando de salvar sua mortal. Pelo menos, não era essa a única coisa a que ela aludia. O fato de suas palavras ecoarem a voz em sua mente, aquela que ele estava tentando ignorar, não ajudava em nada. Ele não podia, não iria levar em consideração o que ela pedia. Aquilo destruiria tudo. Um medo frio se espalhou por suas veias.
Ficou olhando fixo para ela como se Ísis tivesse perdido a cabeça. Irritada, ela prosseguiu:
— Se você tivesse a possibilidade de conquistar, alcançar algo pelo qual anseia acima de tudo, não daria qualquer coisa para ter essa oportunidade? Por que temos todo esse poder, Osíris, se não o usamos?
Palmas ecoaram na sala.
— Ora, ora. Concordo completamente com você, Ísis.
Osíris franziu a testa para o recém-chegado.
— Seth, estamos no meio de uma conversa particular.
— Que ironia você dizer isso, Osíris — disse Ísis, sua irritação se transformando em ira. — Seja como for, não tem importância. Estou vendo que sua mente está fixada no caminho que você escolheu. Esta discussão está terminada.
Ísis passou por Osíris, que ficou parado no mesmo lugar, suas costas se retesando ao ouvir Seth perguntando se podia acompanhá-la ao banquete. Ele mesmo tivera a intenção de acompanhá-la, como uma espécie de tentativa de acordo de paz entre os dois. Com isso, ele esperava compensar o tratamento descortês que lhe dispensara antes. Na verdade, Osíris não tinha conseguido pensar em outra coisa além dela durante o tempo que passara fora. Usou qualquer desculpa para voltar para casa. Ele queria consertar o que estava errado entre eles e agora Seth o estava atrapalhando.
Quando Ísis aceitou sentar-se ao lado de Seth no banquete, Osíris cerrou os punhos e os seguiu, sem nunca tirar os olhos das asas reluzentes de Ísis a não ser para fuzilar com o olhar a mão de Seth enlaçando a cintura dela.
Seu humor não melhorou durante o jantar. Seth havia se posicionado perto da cabeceira da mesa, no lugar geralmente reservado a Osíris. E, de algum modo, conseguiu ter Ísis sentada de um lado e Néftis do outro. Também pegou Seth lançando olhares furtivos para Ísis sempre que a atenção dela estava voltada para alguma outra coisa. Seria possível que Seth estivesse interessado nela de um jeito romântico?
Osíris não descartaria a hipótese. Seth nunca tinha sido de levar as regras muito a sério. Ísis estava se sentindo solitária. Ela queria alguém que a amasse, que lhe oferecesse mais do que apenas amizade. Depois, havia o fato inegável de que Ísis era a criatura mais adorável que Osíris já tinha visto. Claro que ele não era o único homem que tinha reparado nela.
Nenhum deles, nem mesmo Ísis, jamais havia levado Seth a sério. Ele sempre os seguia, tentando acompanhar os outros deuses. Osíris coçou o queixo enquanto observava Seth. O menino tinha ganhado um pouco de corpo, mas ainda não estava plenamente desenvolvido. Seth fora sempre rebelde, irritado. Tratava mal os mortais, exigia sua adoração. Osíris não queria aquilo para Ísis. Ela merecia algo muito melhor.
Quando Seth ofereceu uma fruta pequena e suculenta a Ísis e ele mesmo a colocou entre os lábios dela, Osíris não conseguiu controlar seus tremores. Tentou falar sobre outro assunto qualquer para se distrair da cena que se desdobrava diante de seus olhos. Mas seus relatos sobre vegetação, plantações e as maravilhas da natureza não foram suficientes para tirar sua atenção do flerte óbvio de Seth. Como era possível que ninguém estivesse reparando no comportamento de Seth? Será que agora ele sempre agia assim?
Seth começou a jogar charme até para Néftis. O sujeito não tinha vergonha. Durante o jantar, enquanto se gabava de seus feitos mais recentes – cada conquista assombrosa no mínimo questionável –, todos prestavam muita atenção. Como podiam acreditar que Seth salvara um vilarejo inteiro de um incêndio? Ele nunca tinha erguido um só dedo para ajudar ninguém, principalmente mortais. Nem Osíris conseguiu deixar de escutar boquiaberto ante a audácia do sujeito enquanto discorria sobre devolver crianças roubadas aos pais, incentivar jovens mal encaminhados e até salvar um ninho cheio de filhotes de passarinhos da boca de uma víbora faminta.
Seth deu um beijo na mão de Néftis em um gesto exageradamente amigável e prometeu que ela poderia jogar contra o vencedor do desafio dele a Ísis no novo jogo que ele tinha inventado. Um jogo. Osíris bufou de desgosto. Certamente havia jeito melhor de aproveitar o tempo de um deus do que ficar inventando jogos.
Querendo se distrair da repugnante exibição que Seth orquestrava, Osíris tentou tirar a expressão sombria de seu rosto. Então limpou a garganta e disse:
— Tenho uma história interessante para compartilhar.
Apesar de todos os olhares se voltarem para ele, Ísis ergueu sua taça e fez questão de olhar para outro lado, ignorando-o. Seth reparou e curvou os lábios em um sorriso zombeteiro.
— Conte, então — disse Seth. — Porque eu, pessoalmente, considero ferramentas de cultivo e os méritos dos diversos tipos de esterco muitíssimo interessantes.
E arrematou a fala com um gesto abrangente do braço.
Osíris tentou ignorá-lo e disse:
— Um agricultor me contou que um inimigo foi ao seu campo e semeou joio no meio da plantação de trigo. No entanto, não tinha como saber o que havia acontecido até que o grão começou a crescer e a presença do joio tornou-se óbvia.
— Fascinante — comentou Seth com os lábios contraídos. Então entrelaçou os dedos e descansou o queixo sobre eles. — Conte mais.
— Ele me perguntou se devia remover o joio imediatamente, mas eu o alertei para que não fizesse isso, porque, se o removesse cedo demais, poderia prejudicar o trigo. E o instruí a esperar até estar tudo crescido, colher o trigo e queimar o joio. — Osíris se inclinou para a frente, pressionando as mãos contra a mesa. — O engraçado do joio é que suas mudas jovens são iguaizinhas às do trigo. Mas não têm nada a ver com a planta que imitam.
Osíris correu os olhos pela sala.
— O joio não tem razão de ser. Também não tem valor. Ele ocupa um espaço precioso em um campo fértil e produtivo. Não tem serventia para a humanidade. Na verdade — voltou os olhos para Seth e os estreitou —, não passa de uma praga que deve ser arrancada do solo e queimada.
Seth recostou-se bruscamente na cadeira, uma expressão incerta no rosto.
— Então talvez o melhor a fazer fosse queimar todo o campo — disse, com desprezo.
— Seria um desperdício, não acha? — rebateu Osíris, cruzando os braços sobre o peito largo.
— Bom, acho que essa é a diferença entre mim e você — replicou Seth. — Eu não perderia tempo tentando salvar alguns talos finos de trigo quando poderia simplesmente acabar com a plantação e começar de novo.
— Talvez você tenha razão — concedeu Osíris. — Seria mais fácil. Mas o caminho mais fácil nem sempre é o melhor. A luta costuma fortalecer.
— Este com certeza é um debate interessante — disse Amon-Rá, lançando um rápido olhar para Néftis. — Mas, no momento, estou mais interessado em música. — O líder diplomático e firmemente neutro dos deuses prosseguiu, insistindo para que mudassem de assunto a seu modo: — Osíris, que músicos trouxe para nós desta vez?
Com relutância, Osíris desviou os olhos de Seth.
— Ah, sim, quase esqueci. Na minha última jornada, deparei com dois homens que criaram um instrumento que chamaram de sistro.
A mesa foi tirada enquanto os músicos se preparavam. Osíris não pôde deixar de se sentir satisfeito quando viu Seth tentar levar Ísis para o jogo prometido e ela fazer um gesto com a mão, sinalizando que iria ao seu encontro depois que os músicos tivessem terminado. Então sua segurança em ascensão sofreu um baque quando ela completou dizendo que a música era o que ela mais gostava nas visitas de Osíris. Quando Seth lamuriou-se, tentando manipulá-la para fazer o que ele queria, Néftis se ofereceu para jogar com ele primeiro.
Foi evidente a indecisão de Seth. Então, para ajudá-lo a ir em frente, Osíris se aproximou e fez uma pequena mesura para Ísis.
— Eu estava aqui pensando se conseguiria convencer minha... minha querida amiga a dançar.
Ísis fuzilou Osíris com o olhar, obviamente ainda aborrecida por ele ter ficado do lado de Amon-Rá. Ela respondeu com um pouco de frieza:
— Como vou saber? Por acaso você tem alguma amiga aqui?
Seth deu uma risadinha de deleite.
— Venha, Néftis, minha querida. Voltaremos para chamar Ísis mais tarde. — Em um gesto ousado, ele acariciou a asa sedosa de Ísis. — Não demore muito. Estou ansioso para ganhar de você nesse jogo.
Osíris cerrou os punhos e franziu a testa.
— Eu me ofereceria para jogar com você — disse Seth a Osíris —, mas acho que talvez seja um pouco de mais para sua cabeça — provocou, fazendo um gesto com os dedos polegar e indicador bem próximos, tentando indicar o tamanho do intelecto de Osíris.
A vontade de Osíris era de bater a cabeça de Seth contra a parede, mas conseguiu se conter.
— Ande logo e vá brincar com seus joguinhos, Seth. Alguns de nós têm coisas mais importantes a fazer.
Os olhos calculistas de Seth tornaram-se aguçados, perigosos, mas Néftis se apressou em sussurrar algo em seu ouvido. Deve ter sido uma distração eficiente, porque os dois logo se retiraram. Como Ísis o estava ignorando, Osíris voltou sua atenção para os músicos e a melodia foi crescendo, preenchendo os corredores de Heliópolis.
Quando terminaram uma série de canções animadas, um dos músicos ergueu a sobrancelha na direção de Osíris. Ele assentiu, reconhecendo o pedido, e, quando a música começou, sua voz se ergueu para acompanhar. Ísis fechou os olhos e balançou o corpo de leve, as asas tremendo e todos os nervos do corpo parecendo vibrar em resposta à canção. A voz dela era poderosa quando o assunto era tecer feitiços, mas ninguém superava Osíris ao tecer canções. Ele cantou sobre montanhas cobertas de neve e vales de solo negro recém-arado, pronto para ser semeado. Sobre colinas cobertas por um doce capim e cachoeiras que mergulhavam tão fundo que a água se dissipava em nuvens no trajeto até o solo.
Ísis viu-se arrebatada pela melodia e a letra, e percebeu que poderia deslizar para sempre na corrente da música dele. Permitiu que a voz de Osíris a elevasse até o fim, quando ele pousou os pés dela no chão com delicadeza, antes de arrebatá-la com a canção seguinte. A música dele a enchia de paz e, ao mesmo tempo, de inquietude. De uma satisfação profunda e de um anseio terrível. O desejo nunca era tão forte como quando ele cantava.
Quando ele a puxou para seus braços, isso lhe pareceu natural. Tinham dançado juntos mil vezes, mas agora era diferente. Era novo. Ela sentiu a música fluir através dele para ela. As palavras que ele cantava agora eram tranquilas e gentis, mas profundas. Ele cantou sobre desejos não ditos e corações partidos. Sobre lugares que ainda não tinha visto e coisas imaginadas, tão lindas que ele não era capaz de descrevê-las em palavras, pois, de algum modo, isso reduziria o valor do sonho.
Ísis manteve os olhos fechados enquanto os dois se moviam juntos e foi só no fim da música que ela percebeu como suas pernas tremiam; Osíris estava sustentando a maior parte do seu peso. Mas ele não parecia se incomodar e, quando uma música nova começou, dessa vez sem o acompanhamento vocal dele, a puxou para mais perto.
— Quer dar um passeio no jardim comigo? — perguntou ele baixinho.
Em silêncio, ela assentiu e ele colocou a mão dela na dobra de seu braço.
Caminharam em silêncio e Ísis de repente adquiriu uma consciência aguda de tudo: o farfalhar de suas asas; o contato com o braço dele; a mão de Osíris segurando a dela de modo quase possessivo, como se estivesse tentando impedir que ela fugisse; a expressão preocupada, quase determinada no rosto dele; e depois, quando se aproximaram, o cheiro das flores que emanava do jardim dele.
Osíris tinha um orgulho enorme de seu jardim encantado. Mesmo quando estava fora, plantas de todos os tipos eram trazidas por mensageiros com instruções explícitas sobre seus cuidados. Ele empregava uma equipe completa de jardineiros que cultivavam e rotulavam cada espécie, colocando-as no lugar adequado para que se desenvolvessem bem. Por causa disso, a ampla área tinha sido dividida em várias zonas.
Uma, quase desértica, abrigava as várias plantas que cresciam devagar e que ele chamava de suculentas. Outra era dedicada unicamente a ervas, verduras e legumes, a maior parte dos quais era compartilhada com os cidadãos de Heliópolis. Havia um pomar onde cresciam centenas de variedades de frutas. Áreas extensas eram reservadas aos vinhedos.
Arbustos da altura de casas produziam frutinhas vermelhas de todos os tipos. Uma seção era dedicada a plantas que cresciam em climas frios, e Amon-Rá generosamente havia fornecido meios para manter a área fresca  durante séculos. As plantas tropicais eram mantidas do lado oposto do jardim. Havia estufas de vidro, estufas sombreadas e um arboreto gigantesco com todo tipo de árvore que crescia na Terra e nos outros mundos que eles tinham semeado.
Ísis adorava o jardim e com frequência o visitava quando Osíris estava fora. Ela se sentia próxima a ele quando estava ali, mas, como ele, também se sentia atraída pelos mortais. Havia muita gente para cuidar das necessidades das plantas, mas poucos eram capazes de viajar ao domínio dos mortais e cuidar das pessoas de lá.
Ela ficou surpresa e feliz quando ele a levou até um bosque de nogueiras. No meio dele, escondia-se um gazebo aconchegante que ele havia construído para ela ainda na infância. Osíris fez um gesto para que ela se sentasse e se assegurou de que estivesse confortável antes de se afastar. Ela ficou olhando fixo para as costas dele e imaginou o que o estaria incomodando. Que ele estava aborrecido era óbvio; no entanto, da perspectiva dela, era ela quem devia estar irritada com ele, não o contrário.
— O que foi, Osíris?
Ele entrelaçou as mãos às costas e virou a cabeça, de modo que ela via seu rosto bonito de perfil. O sol já tinha se posto e agora a lua se erguia, enquadrando-o em sua silhueta redonda e fazendo com que as pontas de seu cabelo refletissem um brilho prateado. Finalmente ele se moveu e se apoiou em um poste. Cruzando os braços sobre o peito, examinou-a das sombras. Ele moveu o maxilar como se fosse começar a falar, mas então se deteve, como se não confiasse na própria voz.
— Está bravo comigo? — perguntou ela.
— Bravo? — ecoou Osíris. A palavra o deixou confuso. Parecia espessa e tinha o gosto errado em sua língua. — Não. Não estou bravo com você.
O que ele sentia por Ísis não tinha nada a ver com raiva, apesar de o calor daquela emoção queimar dentro dele. Ao olhar para ela, estonteante ao luar, ele a examinou como fazia quando deparava com uma flor das mais raras e belas.
O deleite que experimentava ao encontrar algo assim era quase inebriante e o enchia de euforia. Ele pegava o botão com cuidado entre as mãos e inalava seu perfume delicado. Então examinava a flor e seu ambiente. Cuidadosa e meticulosamente, ele a observava durante um ciclo completo e fazia extensas anotações, e então, quando finalmente estava pronto para se apoderar dela, levava-a para casa, para o local ideal, e dedicava sua atenção até que ela mostrasse todo o seu potencial sob seus cuidados.
Era isso que ele ansiava fazer quando olhava para Ísis. Queria tomar o seu rosto lindíssimo entre as mãos e descobrir do que ela precisava, como poderia fazer com que ela florescesse. Claro que Osíris não podia dizer isso a ela. Não sem consequências. Ele a conhecia bem o suficiente para saber que ela não receberia uma confissão assim e simplesmente a deixaria passar. Não. Ela ia querer tomar uma atitude, e ele não podia deixar que isso acontecesse.
Enquanto ele se afligia com essas coisas, Ísis se ergueu de onde estava sentada e se aproximou dele. Nos olhos dela, ele enxergava a eternidade do cosmos, o nascimento das estrelas, o movimento das nebulosas. Eles o transfixavam, lançavam um feitiço sobre ele, e ele se sentiu embriagado pelo luar refletido neles. Mas isso não importava. Ele precisava dizer a ela o que tinha a intenção de dizer.
— Seth... está passando dos limites — ele finalmente falou.
— Seth? — ela questionou com expressão confusa. — Por que está falando de Seth?
— Ele quer algo de você.
Ela ergueu um ombro, como se não desse importância à questão.
— Seth sempre buscou a nossa aprovação.
— Não. Nesse caso é diferente. Ele... deseja você.
Ísis franziu a testa.
— Acho que está enganado.
— Não estou. Acha que eu não sei discernir quando um homem deseja uma mulher?
— Não pensei que você se desse ao trabalho de notar tais coisas.
— No seu caso, eu noto.
Inclinando a cabeça de lado, Ísis refletiu sobre as palavras dele.
— Entendo. — Então ela assentiu com a cabeça. — Obrigada por me informar.
Ela fez menção de se retirar, mas Osíris segurou seu braço para puxá-la de volta.
— Eu... eu preciso saber. O que você pretende fazer a respeito disso?
— De Seth?
Osíris inclinou a cabeça e prendeu a respiração, esperando a resposta dela. Foram três batidas do coração até ela falar.
— Acho que vou precisar conversar com ele a respeito disso.
— Ah... — Osíris soltou o braço dela e sugou o ar. — Mas... mas o que você planeja dizer a ele?
Ela mudou de posição, pouco à vontade.
— Não sei. Vou primeiro refletir sobre as palavras dele e depois decidir. Não há muito que eu possa fazer, a menos que ele declare suas intenções.
— Certo.
Dessa vez ela de fato se virou para ir embora. Osíris rapidamente bloqueou o caminho antes que ela se retirasse e segurou-a pelos ombros.
— Não — disse ele. — Simplesmente... não.
— Não o quê? Ir embora? Falar com Seth? Voltar para casa a pé? O que você não quer que eu faça?
— Não leve Seth em consideração.
— E por que não?
— Você sabe por que não.
— As suas razões não são as mesmas que as minhas.
— Deveriam ser.
— Mas não são — ela rebateu com o queixo erguido, desafiadora. — Você não pode tomar as minhas decisões.
— Talvez não, mas eu sou afetado por elas.
— Como assim?
— Se você escolhê-lo, eu vou... sofrer.
— Ainda assim você me recusa, não é mesmo?
— Correto.
— Então você quer que eu sofra.
— Não. Não é... — Ele suspirou. — Eu não quero que você sofra, Ísis. É só que... Seth não é o homem certo para você.
— Então, quem é?
Osíris preferiu não responder. Em vez disso, deu um passo à frente, aproximando-se dela, pousou a mão em seu rosto e acariciou a pele macia com o polegar. Com um tom reconfortante, murmurou:
— Você é tão delicada e adorável quanto um raio de luar. — Ele levou a outra mão ao rosto dela e traçou o contorno de seu maxilar. Entregando-se à tentação, Osíris a puxou para mais perto, deliciando-se com a sensação da palma das mãos dela em seu peito. Então inclinou-se e sussurrou em seu ouvido: — Eu não permitiria que Seth maculasse a sua luz.
Ísis deslizou as mãos para cima e enlaçou seu pescoço antes de dizer:
— Então me dê outra opção.
Antes que ele pudesse falar algo, Ísis ergueu a boca até a dele e todos os pensamentos a respeito do que ia dizer fugiram da mente de Osíris. Quando ela inclinou a cabeça e se apertou ainda mais contra ele, Osíris gemeu e a abraçou tão forte pela cintura que chegou a erguê-la do chão. As asas dela se agitaram, e uma parte dele tomou consciência de que já não estava sustentando o peso dela. Então Ísis recolheu as asas e se deixou cair de encontro ao corpo dele mais uma vez, fazendo-o pensar que nada em sua vida tinha sido tão bom, tão certo, quanto tê-la em seus braços.
Ísis era a estrela mais brilhante do cosmos. E seria sua se ele quisesse. Ele estava preso em sua órbita e iria se consumir em sua presença. Mas não se importava. Ele queria aquilo. Ele queriaMais do que já tinha desejado qualquer coisa na vida. E, no entanto, sabia que não podia tê-la.
Com suavidade, ele a colocou no chão e deu um passo para trás. A distância cruel que separava os dois era como uma coisa viva que o atiçava logo depois de terem sido arrancados um do outro. Os olhos dela eram meigos, brilhantes. Carregados de promessas.
Os lábios que ele tinha acabado de beijar eram cheios, voluptuosos e tentadores e seria fácil demais baixar a cabeça e voltar a saboreá-los. O sorriso lento que foi se abrindo quando ela ergueu a mão para acariciar o cabelo dele foi de partir o coração, e ele sabia que o rubor no rosto dela era algo que iria guardar com carinho pelo resto de seus dias.
Ele pegou a mão dela, levou-a aos lábios e depositou um beijo cheio de ternura em sua palma.
— Sinto muito — disse ele.
Era um eco patético do que tinha acontecido entre eles antes. Mas naquela ocasião ele estava fugindo das consequências do que ela havia proposto. Dessa vez, estava fugindo dos próprios sentimentos. E agora não tinha mais como negá-los. Os sentimentos que tinha por Ísis eram muito reais. A questão era o que faria a respeito deles.
— O que foi? — perguntou ela, piscando, confusa.
— Eu disse que sinto muito, mas preciso ir embora.
— Ir embora?
— É. Preciso pensar.
Ele desceu os degraus do gazebo com rapidez e passou para a grama iluminada pelo luar.
— Pensar?! — gritou ela, obviamente aborrecida. — Faça isso, então: fuja e pense, Osíris! Mas esteja avisado de que eu também planejo pensar muito!
Com isso, Ísis saltou do gazebo, abriu as asas com um estalo e desapareceu na noite estrelada.
Seth observava das sombras de uma árvore, seus olhos brilhando enquanto Ísis ganhava os céus e Osíris saía pisando duro. As coisas não estavam progredindo como planejado, mas Seth achou que ainda podia fazê-las virar a seu favor.

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