22 de setembro de 2017

2. Cultivo

Osíris se virou para ela. O papiro que estava lendo estalou em sua mão com a pressão dos dedos que o apertaram.
— Ísis — disse ele simplesmente.
Ela deu um passo em sua direção, mas ele recuou.
As longas pernas do deus bateram na mesa, fazendo com que esta se deslocasse ruidosamente, o som áspero agindo como reflexo da expressão levemente dolorosa que cruzou o seu rosto.
O brilho de alegria que tinha surgido naturalmente quando ela o vira derreteu-se devagar, junto com a esperança. Ísis limpou a garganta e disse:
— Você voltou. Vai ficar muito tempo em casa?
— Não — respondeu ele, afastando-se dela e alisando os papiros amassados na mesa. — Minha intenção é partir assim que Amon-Rá aprovar os novos planos que tracei.
— Posso ver? — pediu Ísis, interessada, apesar de ele parecer pouco à vontade na sua presença.
— Tenho certeza de que a grande deusa Ísis tem coisa melhor a fazer do que se meter nos assuntos dos mortais.
Ísis se retesou e suas asas farfalharam em reação à sua irritação.
— E o que exatamente você acha que eu faço com o meu tempo?
Osíris inclinou a cabeça, analisando-a, e então respondeu com expressão impassível:
— Não sei. Deixa o cabelo crescer só para ficar cortando? Encera as asas, quem sabe? Voa até as nuvens e faz um arco-íris?
Ela ficou boquiaberta, mas então reparou no brilho divertido nos olhos dele, e a tensão que sentira um momento antes amenizou. Ele estava só provocando. Do mesmo jeito que fazia quando eram crianças. Era bom saber que ela não tinha perdido aquela parte dele. Se não podia ter Osíris da maneira que ansiava, pelo menos existia a chance de poder mantê-lo como amigo próximo.
Ísis socou o braço dele. Era um gesto que tinha feito milhares de vezes quando eram mais jovens.
— Moleque — disse ela, a expressão de carinho ainda marcada pela tristeza. — Você me conhece muito bem.
— Ai! — respondeu ele, esfregando o bíceps com exagero, ambos sabendo que seria necessário bem mais do que um soco daqueles para machucá-lo.
— Além do mais — acrescentou Ísis, querendo manter o clima ameno entre os dois —, o meu cabelo está perfeito assim.
Osíris deu uma risada fugaz e segurou uma mecha do cabelo dela entre os dedos.
— Está mesmo — concordou, a voz grave e cheia de ternura quando seus olhos pousaram no rosto dela. Por um brevíssimo instante, ela se refestelou no calor daquele olhar, mas a sensação logo se desfez quando ele limpou a  garganta. — Bom, se você tem mesmo certeza de que quer olhar, fique à vontade.
Depois de estender os documentos na mesa, ele se afastou para que ela tivesse acesso a eles e tentou ignorar quando a asa dela roçou seu braço. Osíris sabia que teria sido mais inteligente dar um passo para trás, manter a tentação fora de alcance, mas ele gostava demais de sentir o toque das asas dela para se forçar a se afastar. Quando ela reagiu, empolgada, ao ver seus desenhos, ele se aproximou mais, apesar de suas reservas, espiando por cima do ombro de Ísis de modo a ver para o que ela estava apontando.
— Como isso se chama? — perguntou ela.
— Estou pensando em chamá-lo de aqueduto. É uma maneira de os mortais levarem água dos lagos e dos rios para os vilarejos. Se usarem um desses, os aldeões poderão construir mais longe dos rios para não correrem o risco de ter suas casas destruídas durante a estação das cheias. Também vão poder irrigar plantações distantes. Está vendo aqui?
Ele se inclinou sobre a mesa, apreciando a sensação do corpo quente dela ao lado do seu, e apontou uma seção do diagrama.
— Isto aqui abre e fecha para que eles possam usar a água quando quiserem, e deste lado — Osíris pegou mais um desenho no topo da pilha — podem adicionar mais seções ou mudá-las de lugar dependendo do uso que precisem fazer da água. O que você acha? — perguntou ele, aprumando-se.
— O que eu acho? Acho que é brilhante, Osíris. — Ela inclinou a cabeça de lado para olhar o rosto bonito dele e provocou: — Tem certeza de que a ideia foi sua?
Ele riu enquanto ela se virava mais uma vez para os desenhos dele e corria o dedo sobre as linhas.
— E se você adicionasse um sifão? — perguntou ela, tamborilando os dedos no documento. — Se a água ganhasse velocidade suficiente, poderia subir colinas, quem sabe até montanhas.
— Um sifão? Eu não tinha pensado nisso.
Osíris fez algumas anotações rápidas. A ideia tinha potencial. Muito potencial.
— Os seus mortais vão ficar contentes — disse Ísis ao endireitar o corpo e pousar a mão no braço dele.
Osíris voltou-se para ela e todos os pensamentos sobre sua nova invenção desapareceram de sua mente. Ele sentiu algo quase tangível passar entre eles, algo que não sabia nomear. Subia e descia no espaço que os separava, empurrando-o com gentileza, mas também com insistência, para a frente. Ele recuou, afastando-se dela, tentando assumir o controle sobre seus sentidos mais uma vez, e a mão dela escorregou para longe. Apesar de ter sido um momento fugidio, ele reconheceu uma sugestão de dúvida e pesar nos olhos dela. Uma emoção assim não tinha lugar no rosto de alguém tão adorável e poderosa quanto Ísis. Ele pousou as mãos nos ombros dela.
— Obrigado pela sugestão. Até a reunião do conselho.
Com isso, Osíris apertou levemente os ombros dela, recolheu os desenhos e saiu tão rápido quanto sua dignidade lhe permitia.


Seth ficou parado à sombra da parede de treliça de onde estivera espiando e viu Osíris sair, as mãos grandes demais do irmão segurando com firmeza os desenhos para seu mais recente projeto. Parando agora para pensar, tudo em Osíris era grande. O corpo. Os músculos exageradamente desenvolvidos. O ego. Seu sorriso insípido e cheio de dentes. Na verdade, a única coisa pequena em Osíris era o intelecto. Bom, isso e talvez a ambição. Seth bufou. Sim, o tolo não aspirava a nada na vida além de ajudar os mortais. Que absoluta perda de tempo!
Se o irmão mais velho de Seth possuísse um grama de astúcia, teria reparado como Ísis estava, em todos os sentidos, atirando-se em cima dele. Idiota. Ele não era capaz de enxergar uma coisa boa que praticamente derrubava sua porta e se jogava em seus braços. Ainda assim, a incapacidade de Osíris de ver o que estava bem na frente do nariz dele funcionaria a favor de Seth. A quase rejeição dele a Ísis a deixaria bem mais vulnerável. Sim. Estava na hora de Seth tomar a iniciativa em relação à estonteante deusa.
Seth ergueu as mãos e comparou-as – longas e esguias, quase delicadas – às de Osíris enquanto refletia sobre seu poder recém-descoberto. Fazia semanas que ele estava treinando, mas não tinha compartilhado seu dom com ninguém. Queria exibir a habilidade ao conselho segundo seus termos. Deliciava-se em imaginar os elogios que receberia de Amon-Rá e a adoração de todos os imortais, principalmente das mulheres.
Mas havia uma em particular com quem estava ansioso para compartilhar seus poderes. Ele tinha certeza de que, quando Ísis visse o que ele era capaz de fazer, ela não mediria esforços para tentar chamar sua atenção. Ia querer passar todos os momentos livres com ele, não com os mortais bobos por quem ela se derretia. Ísis então daria espaço para seus avanços românticos. O sorriso sem jeito e contido que ela havia lhe dirigido antes, seguido por um rápido desaparecimento, assim como a maneira de os olhos dela sempre passarem dele para qualquer outra pessoa, seriam coisa do passado.
As narinas de Seth se dilataram quando se lembrou da maneira como ela havia corrido para Osíris havia pouco. Ele a estava seguindo. Observando. Esperando o momento perfeito para se revelar, assim como para revelar seu poder e suas intenções de tomá-la como sua amada. Infelizmente, parecia que Osíris agora era outro obstáculo que ele teria de superar. Mas o deus da agricultura não era páreo para ele, desdenhou. Com um simples pensamento, Seth era capaz de desfazer, anular qualquer invenção idiota que Osíris tivesse criado com seu cérebro do tamanho de um amendoim. Quem sabe um dia ele até se arriscasse a desfazer o próprio amendoim.
Seth nem tinha certeza se algo assim era possível. No entanto, a ideia de desfazer um deus o intrigava. O choque elétrico, a infusão de elementos cósmicos que o energizavam cada vez que ele desfazia um ser não era algo que ele tivesse deixado passar despercebido. Quanto mais poderosa a criatura, mais energia ele era capaz de extrair para si próprio. Seth logo se viciou na sensação estonteante que acompanhava o desfazer. Ainda não ousara experimentar o novo poder em alguém cuja falta fosse ser sentida, muito menos em um imortal, mas seus dedos coçavam com o desejo de tentar. E não conseguia pensar em ninguém melhor para praticar do que Osíris.
Nesse momento, Ísis deixou a sala e Seth foi atrás dela, sempre escondido nas sombras. Se ela tivesse usado suas habilidades, poderia tê-lo descoberto ali com facilidade, mas os deuses eram complacentes. Não acreditavam que alguém fosse capaz de pensar mal deles, muito menos de lhes fazer mal. Ísis não desconfiava de nada, como um passarinho recém-saído do ovo, protegido no ninho, totalmente alheio à cobra que o observava, contemplando sua refeição.
Ela foi traçando seu caminho pelo palácio reluzente que Amon-Rá tinha criado até finalmente sair e se sentar em um banco de mármore com vista para um parque. Imortais jovens e de menos importância brincavam na fonte, soltando gritinhos ao correr entre os jorros de água multicolorida. Ele franziu o nariz, desgostoso.
Seth considerava o riso das crianças uma coisa horrorosa. Fazia com que ele se lembrasse de sua infância, quando os outros riam dele e de suas tentativas patéticas de invocar algo, qualquer coisa. Estar próximo de crianças deixava seu pescoço tenso. Cerrando o maxilar, por um momento ele entregou-se à fantasia de cometer uma violência, mas então refreou o desejo muito forte de desfazer todas as criaturas nas proximidades. Quando recuperou o controle, aproximou-se de Ísis e conseguiu ignorar o lampejo de desconforto que viu em seu rosto.
— Ah, aqui está você — disse ele com displicência, como se tivesse topado com ela por acaso e não a estivesse seguindo desde a chegada.
— Olá, Seth. Como vai? — perguntou ela, distraída.
Sob as dobras da túnica, ele cerrou os punhos. Um dia ele ensinaria a ela que nada neste mundo ou em qualquer outro era mais importante do que ele.
Por fora, ele era só charme e deferência.
— Muito bem — respondeu ele e então copiou a atitude de Osíris: — Tive uma ideia e queria saber o que você acha. Isto é, se tiver um momento livre.
Os dentes de Seth quase doeram com o sorriso sugestivo que lançou a ela. Não era uma expressão natural para ele.
— Claro que tenho. O que é? — indagou ela.
— Eu... — Seth forçou a mente para pensar em alguma coisa, uma nova invenção que fosse atrair e impressionar Ísis.
Como ele não respondeu de imediato, ela voltou os olhos de nuvens tempestuosas para ele. Seth não estava acostumado a ser encarado daquele jeito. A maior parte das pessoas não se sentia à vontade e desviava o olhar quando ficava de frente para ele mais do que alguns segundos.
Seth sabia que não havia muita coisa para admirar nele. Não quando comparado aos outros deuses. Ele sempre fora alto, mas seus braços e suas pernas eram finos, desajeitados. Apenas recentemente, quando descobrira seu poder, havia notado que seu corpo começava a se fortalecer. Achava o azul de seus olhos muito aguado. O cabelo, sem graça demais e ainda por cima amaldiçoado não com um, mas com dois redemoinhos que o faziam ficar em pé, por mais que o ajeitasse com as mãos.
Diferentemente dos outros deuses, cuja pele reluzia de luz e energia, a dele era manchada e irregular. Quase tão ruim quanto a de um mortal. E era provavelmente o que lembrava a todos. Um mortal. Até sua mãe, aquela que deveria amá-lo incondicionalmente, chorava quase todas as vezes que conversavam. As lágrimas dela choviam sobre a Terra até ele se encontrar no meio da lama do pesar dela, que, ele tinha certeza, indicava sua decepção por ter um homem-criança daqueles, sem poderes, como filho.
Isso sem falar no fato de que as roupas nunca lhe caíam bem. Até os animais saíam correndo quando o avistavam, ou pior, urinavam no caminho dele ou rosnavam enquanto o espiavam com olhos brilhantes na escuridão.
Claro que isso não acontecia mais. Estranhamente, os animais pareciam ter um sexto sentido. Eles o evitavam ou se esgueiravam para longe da forma mais silenciosa e veloz possível. Ele gostava do respeito que demonstravam por ele agora. Em sua opinião, isso os tornava espécies superiores na Terra.
Com os olhos de Ísis nele, Seth não conseguia pensar e, por um momento, ficou tão sem palavras quanto acontecia quando era criança. Ela sempre fora mais rápida. Com a língua mais afiada. Sempre competitiva, e sempre o superava em tudo. Uma ideia de repente lhe surgiu.
— Inventei um jogo novo e queria saber se você poderia jogar comigo hoje à noite.
— Um jogo? — perguntou ela, o deleite evidente em seu rosto. Como era de se prever, os olhos dela se iluminaram diante da ideia de uma competição. — Qual o nome? Como se joga?
— O nome... o nome é senet — disse ele, deixando a palavra inventada escorrer suavemente de sua língua.
— É um jogo de força, de corrida ou de arco e flecha?
— Nenhum desses — respondeu Seth.
Claro que a mente dela iria se voltar para o físico (seria bem mais fácil superá-lo nesse quesito). Ou isso, ou ela estava em busca de uma maneira de admirar Osíris flexionando os músculos. Com esse pensamento, Seth precisou se esforçar para controlar o tremor de fúria que tomou conta dele.
— Senet é um jogo de astúcia com um toque de sorte.
Ísis ficou radiante e, para Seth, sua expressão quase pareceu genuína. Isso ajudou a acalmar o orgulho ferido dele.
— Parece a distração perfeita. Quando podemos jogar?
— Que tal depois que a reunião do conselho terminar?
— Ah... — Ísis suspirou. Era óbvio que ela estava pensando em outra coisa ou talvez em outra pessoa que poderia encontrar depois do conselho.
— Ah, vejo que já tem planos. Claro, deve estar muito ocupada.
Seth se levantou e ajeitou a túnica, puxando o pano com firmeza sobre os ombros estreitos.
— Não — disse Ísis, erguendo a mão para detê-lo. — Depois da reunião do conselho me parece perfeito.
Seth fez uma pequena mesura para ela e então se retirou, fugindo bem rápido. Não havia muito tempo até o banquete começar. Ele teria de usar todos os momentos livres para criar o jogo de que tinha se gabado.
O problema era que ele não era criativo o bastante para inventar sozinho algo capaz de impressionar Ísis. Ele sabia que criatividade não era seu forte, mas desperdiçou algumas horas tentando, mesmo assim.
Por fim, quando chegou à cabana do homem que fazia brinquedos, suava muito e, apesar de sua posição de deus, sentia o início de uma dor de cabeça. Passou a mão pelo rosto e fez uma careta ao tocar as moitas desalinhadas da barba. Ele teria que se barbear se quisesse parecer apresentável a Ísis. Então piscou e tentou desfazer os irritantes pelos eriçados no queixo e embaixo do nariz. Em um segundo, todos haviam desaparecido. Seth sorriu e chamou o homem que fazia brinquedos.
Esperou demais. Quando o velho apareceu na loja arrastando os pés, Seth saltou na direção dele. Não havia tempo para ser educado. Seth retorceu os lábios, pegou o homem pelo pescoço e fez suas exigências da maneira mais sucinta e clara possível, acautelando-o de que haveria sérias consequências caso chegasse atrasado ao banquete.
Então Seth encontrou um canto na cabana quente e ficou observando o progresso do artesão, que continuava vagaroso demais. Quando meia hora se passou, Seth desfez o gato do homem. Depois de mais trinta minutos, desfez um monte de maçãs, não sem antes pegar uma para si e começar a comê-la. Então fez uma ferramenta desaparecer, depois outra. Não havia muito na loja para ele desfazer. Mas Seth pensou melhor e achou que não seria bom fazer as ferramentas do homem desaparecerem. Isso não ia ajudar em nada sua causa.
Depois disso, a dor de cabeça veio com tudo e Seth desfez a bolsa de moedas do homem, além de seu guarda-roupas, só porque estava com dor.
Quando ouviu o sopro da trombeta anunciando que estava na hora da reunião, o homem felizmente só tinha mais uma peça para terminar. Seth esperou, impaciente, enquanto as mãos trêmulas do artesão aplicavam a última camada de tinta.
As peças do jogo foram colocadas dentro de uma caixa de madeira e Seth a tomou com um gesto rude, enfiou-a embaixo do braço e se preparou para sair. Mas, antes de partir, o homem falou, um erro que ele não teria o privilégio de cometer outra vez.
— Mande lembranças minhas à deusa Ísis. Ela ajudou minha esposa a aprender a tecer.
Seth se virou e mostrou os dentes em uma careta perigosa.
— Ah, claro, vou mandar suas... lembranças a Ísis. E, como talvez você tenha motivos para cruzar o caminho dela, é melhor eu garantir que não vá distraí-la com suas lembranças.
Com isso, desfez a língua e as mãos do homem que fabricava brinquedos.
Foi uma pena, porque o homem obviamente tinha talento, mas não podia existir o risco de ele falar com Ísis antes que Seth estivesse pronto. Com uma saudação debochada, Seth saiu da casa do homem que fazia brinquedos e seguiu para o banquete com seu prêmio.

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