22 de setembro de 2017

1. Desabrochar

Uma trombeta soou, seu eco percorrendo as colinas e os vales que circundavam Heliópolis. Ísis, que estava usando a roca de fiar, levantou-se depressa, o que fez com que a banqueta em que estava sentada tombasse para trás. O novelo de lã cinzenta em seu colo caiu no chão. As mortais em volta da deusa riram e estalaram a língua em fingida reprovação ao recolherem o material macio e sacudi-lo para tirar o pó.
— Vá, vá — exortaram elas, apressando-a. — Volte quando puder. Enquanto isso, vamos nos revezar treinando o que nos ensinou.
Ísis lançou-lhes um sorriso gracioso e tentou agir como uma deusa ao deixar o vilarejo, cumprimentando as pessoas na rua com acenos e passando a mão na cabeça das crianças que sempre corriam para ela, mas sua mente estava em outro lugar. O resultado foi que suas respostas saíram mais secas e distraídas do que o normal. No momento em que passou pelo muro de pedra que demarcava os limites da cidade, estendeu as asas poderosas e ganhou o céu.
A energia foi tomando conta do seu corpo à medida que os raios dourados do sol se refletiam em suas asas, aquecendo-a até o ponto de ela conseguir sentir também o rubor nas faces. Tocou o próprio rosto e se admirou com a empolgação que estava sentindo simplesmente porque ele tinha voltado. A sombra dela lá embaixo deslizava pelas montanhas e pelos vales por que passava, subindo e descendo como as emoções tempestuosas que tomavam conta de sua mente.
Ela continuou a se elevar no céu, o azul dando lugar ao negro, e ouviu os sussurros fugidios das estrelas que lhe davam as boas-vindas no regresso ao lar. Ao atravessar a barreira que separava o mundo mortal do domínio dos deuses, disparando pelo espaço feito um cometa ofuscante, a escuridão fechou-se em torno dela, capturando sua forma, transportando-a para outra dimensão.
Tudo era silêncio naquele espaço e, durante a transição, ela se entregou a suas reflexões.
Eram... inadequados os sentimentos que brotavam dentro dela. Ísis sabia disso, mas não podia lutar contra eles. E, no entanto, reprimir a maneira como seu coração batia de alegria só de pensar nele também parecia errado. Ainda assim, ela havia tentado agir como deusa ao ignorar a afeição que desabrochara durante o ano que passaram separados, desde que ele tinha partido para cumprir uma missão em outro lugar. Mas, agora que ele voltara, ela estava sentindo o alvoroço no coração mais uma vez e percebeu que não tinha conseguido arrancá-lo dali completamente.
Apesar de Ísis ter sempre gostado de seu trabalho – ensinar as mortais a tecer, a moer o milho e a usar plantas e ervas para a cura –, aquela outra coisa, aquele outro alguém em sua vida ultimamente vinha ocupando seus pensamentos a ponto de deixá-la distraída. Ela sempre se pegava sonhando acordada ou com o olhar perdido, imaginando onde ele estaria naquele momento e se estava pensando nela do mesmo jeito que ela pensava nele.
À noite, quando ia para a cama, as asas pesadas envolvendo seu corpo, Ísis se pegava desejando que as penas macias fossem na verdade os braços do deus. Ele sempre fazia isso quando eram mais novos. Segurava as asas junto ao corpo dela quando brincavam de pega-pega, sem nunca machucá-la, mas impedindo que fugisse até que ela admitisse que ele a havia capturado.
Ultimamente ela se pegava imaginando aquelas caçadas, mas agora queria que ele a capturasse. A ideia do que poderia acontecer depois sempre a deixava sem fôlego, e com isso o sono ia embora.
Homens mortais costumavam cair a seus pés, implorando por sua atenção e prometendo devoção eterna. Alguns até tinham coragem de estender as mãos para tocar em suas asas sensíveis. Mas bastava um só olhar dela para que baixassem as mãos, com medo.
Apesar de relacionamentos com mortais serem tecnicamente permitidos, Ísis nunca tinha conhecido nenhum homem interessante o bastante para ser considerado. Além do mais, o tempo de vida de um mortal era como um piscar de olhos para uma deusa. Se ela se permitisse gostar de um mortal, iria vê-lo envelhecer e sofrer com doenças ou mesmo com as intempéries.
Ísis achava que seria cruel se apegar a um mortal. Ela tinha visto Seth brincar com as emoções dos humanos, e aquilo nunca acabava bem para eles. Os com sorte ficavam ansiando por ele durante anos enquanto ele ficava desaparecido. E os sem sorte... bom... ela não queria pensar nisso. Seth tinha... pavio curto. Não. Ísis sempre seria o que era – uma deusa. E o amor de uma deusa era suficiente para enlouquecer um homem mortal. Além do mais, havia o fato de que a figura de Ísis era intimidadora, por mais que seu coração fosse bondoso. Mais alta do que qualquer mulher humana que já vira, era também mais alta do que quase todos os homens. Mas seus olhos tempestuosos e sua silhueta eram uma tentação para qualquer mortal. Muitos deles procuravam cair em suas graças com oferendas de bugigangas entalhadas ou joias. Ela aceitava com ares de deusa e em troca prometia cuidar do vilarejo ou dos entes queridos deles.
Mas nunca encorajava seus sutis avanços amorosos. E qualquer homem que se mostrasse ousado a ponto de precisar ser dissuadido era mandado embora. As mulheres que a serviam se asseguravam de que tais homens fossem banidos de sua presença e que nunca mais fizessem propostas. Ísis não dava nenhum sinal de que se sentia solitária e de que estava à procura de um companheiro, mas, mesmo assim, à medida que os longos anos se estendiam à sua frente, foi percebendo que, nos recessos mais secretos de seu coração, era o que de fato desejava.
Certa vez, confessou esse anseio a sua irmã de fala macia, Néftis, a única pessoa que ela sentia que a conhecia de verdade. Néftis não só tinha um comportamento diferente, sendo muito mais acessível do que Ísis, como a aparência das duas também era completamente distinta, apesar de terem os mesmos pais.
Não que Néftis fosse feia. Longe disso. Ela só era pequena e quieta, e tão discreta que geralmente era relegada a segundo plano. Mas Néftis continuava sendo uma deusa em todos os sentidos. Os cabelos louros e compridos sussurravam ao vento como um campo de trigo e caíam em cascata até quase chegar a seus pés. Asas delicadas com pontas sutis de prata se dobravam em suas costas tão perfeitamente que eram quase invisíveis, e os olhos tão azuis quanto ovos de tordo eram lindos.
Era reconfortante estar perto dela, porque ela amava absoluta e completamente. Nunca era invejosa, cruel ou condescendente. A irmã caçula enxergava o bem em tudo e em todos. Ninguém era capaz de escutar e se solidarizar tão bem quanto Néftis. Para Ísis, ela era a deusa perfeita, que nunca permitia que emoções conflituosas a distraíssem de suas obrigações e, portanto, era muito mais competente do que Ísis sentia ser.
Muitos mortais também desprezavam Néftis, achando que ela não tinha poderes, mas Ísis considerava as habilidades invisíveis da irmã as mais poderosas de todas. Quando foi conversar com ela a respeito de seus anseios por um companheiro de verdade, sem mencionar uma pessoa específica, Néftis a escutou. Segurou a mão de Ísis, os olhos azuis bem abertos e compreensivos, a atenção totalmente voltada para a irmã. Néftis confessou que ela também tinha esse desejo. E então disse algo chocante, que desde então Ísis não esquecera.
Néftis se inclinou para a frente e falou, quase em um sussurro:
— As estrelas me dizem que existe alguém destinado a você.
— Será verdade? — Ísis segurou a mão da irmã com força. — Você viu isso?
— Vi — Néftis respondeu com um sorriso terno. — Há muita felicidade no seu futuro. — Então o sorriso empalideceu um pouco.
— E para você? — Ísis perguntou, imaginando o que a irmã teria enxergado para deixá-la triste. — Você vai ser feliz?
Néftis soltou um suspiro fraco.
— Vou, sim. No fim. Infelizmente, há provações pela frente para nós duas.
— Mas, onde há amor, as provações podem ser suportadas.
— Você é sábia, irmã.
— Assim como você — Ísis concluiu.
Néftis assentiu, acanhada, aceitando o elogio ao abraçar a irmã com força, fazendo as asas de ambas se agitarem.
Ísis deu o braço para a irmã, se levantou, e as duas deusas saíram caminhando pelo jardim, com Ísis implorando a Néftis que lhe desse detalhes.
— Então, fale mais a respeito desse homem que vai ser meu amor verdadeiro.
Néftis riu e replicou:
— Você sabe que não funciona assim com as estrelas. Eu não consigo enxergar tudo.
— Ah, mas com certeza pode me dizer algo. Ele é bonito? Tem olhos bondosos? Por favor, diga que não é mais baixo do que eu. Por acaso ele é... mortal?
— Não. Não é mortal — respondeu a irmã em tom evasivo.
As duas dividiram seus desejos e sonhos secretos até que Ísis suspirou e se deteve, a testa se franzindo. Ela segurou o ombro de Néftis.
— Chega de ficar fantasiando, irmã — disse baixinho. — Por mais que eu queira que seja verdade, não é possível que aconteça o que você diz.
— Estou dizendo que vai acontecer.
— Mas há o édito. Como uma coisa dessas pode ser possível? Para nós duas?
Néftis ergueu a cabeça, fechou os olhos e respirou fundo. Ísis sabia que ela estava buscando respostas que ainda não existiam. Quando tornou a abri-los, disse:
— Não sei. Mas as estrelas não mentem. O que eu vi vai acontecer. — Com um sorrisinho maroto, completou: — Confie nas estrelas, minha linda irmã.
E assim Ísis fez. Continuou com seu trabalho, a princípio com fé absoluta nas coisas que a irmã tinha dito. Décadas se passaram, cheias de anseio e esperança. Mas quanto mais homens ela conhecia, mais hesitante ficava. Nenhum deles (mortal ou imortal) chamava sua atenção ou fazia seu coração bater mais forte. Ísis começou a se desesperar, pensando que o presságio da irmã estava errado. Que as estrelas tinham enganado Néftis ou que, no mínimo, ela não havia compreendido bem os sinais.
Então, numa noite de verão, as trombetas soaram anunciando que era chegado o momento de o Ennead se reunir, o tempo de todos os deuses se encontrarem. Fazia mais de uma década que ela não o via, mas algo tinha mudado entre eles durante o período em que ficaram afastados. Quando ele a pegou no colo e beijou-lhe ambas as faces, foi... diferente de antes. O calor do corpo dele pareceu demorar-se nela, apesar de ele a ter soltado para abraçar Néftis.
Ela se viu a buscá-lo com os olhos a noite toda e tentou se sentar ao lado dele. Quando viu que o lugar já estava ocupado, ficou olhando-o de longe, tentando entender o que poderia ter acontecido com ele, que mudanças teriam ocorrido para que ela tivesse a sensação de vê-lo pela primeira vez.
Seria o comprimento de seu cabelo? O brilho de sua pele bronzeada pelo sol? Quando ele sorria, ela se sentia especial, como se ele estivesse lhe contando um segredo, algo destinado somente a ela. Enquanto ele contava histórias sobre suas aventuras, ela ficou imaginando se ele não estaria olhando mais na direção dela do que na dos outros. Quando as festividades da noite terminaram, Ísis já sabia que as estrelas tinham lhe dado o presente prometido, aquele que ela esperava havia tanto tempo.
O conselho foi suspenso por aquela noite e aquele cuja atenção ela buscava alongou o corpo e se levantou para se retirar. Bem rápido, Ísis também se levantou e perguntou se podia acompanhá-lo. Ele assentiu, os olhos brilhando ao lhe oferecer o braço. Juntos, caminharam pelos longos corredores de Heliópolis, ele fazendo apenas perguntas educadas, mas a única coisa em que ela conseguia se concentrar era na maneira como seu coração se acelerava.
Ísis se perguntava se ele estava sentindo sua pulsação no lugar em que o punho dela tocava seu braço musculoso, de tão forte que batia o coração dela.
Ao chegarem à ala que lhe era reservada quando estava hospedada no palácio de Amon-Rá, ele fez uma pausa e tocou a face dela de leve com o dedo.
— O que foi, Pequenina? — perguntou ele.
Ela deu um sorriso nervoso ao ouvi-lo chamá-la pelo apelido que ele tinha lhe dado. Ela fora mais alta do que ele durante toda a adolescência e “Pequenina” tinha sido o jeito dele de provocá-la, mas agora sua altura superava a dela em mais de 10 centímetros, o que não era pouco, até mesmo para um imortal. Ísis sempre se irritava quando ele a chamava assim, mas agora o nome causou uma sensação diferente. Soou mais como um termo afetuoso.
— Eu... — ela começou a dizer enquanto erguia os olhos para os dele. Uma agitação deixou seus nervos à flor da pele e suas asas se ajeitaram em um movimento suave atrás dela. — Senti saudade de você — finalmente conseguiu dizer.
Ele riu, gentil.
— Também senti saudade de você.
Ela assentiu e baixou o olhar.
Ele afastou a cabeça e tentou avaliar a expressão dela.
— Tem algo mais, não tem?
— Tem. — Uma pausa, e então: — Não. — Ísis retorceu as mãos e com a língua umedeceu os lábios, que de repente ficaram secos.
Ele tomou as mãos dela e as sacudiu levemente.
— Algo deve estar perturbando você de verdade. Nunca imaginei que a deusa Ísis pudesse agir de maneira tão confusa.
Ísis abriu a boca, mas não conseguiu falar nada.
Ele estreitou os olhos.
— Alguém magoou você, Pequenina?
— Não. Pelo menos, não exatamente.
— Sei. E quem não exatamente está magoando você?
Os olhos dele ficaram frios e duros; o corpo, rígido. Raiva irradiava dele.
— Não é uma pessoa. — retrucou ela. — É mais uma ideia.
Isso fez com que ele parasse para pensar.
— Como assim?
Ísis soltou um leve suspiro e ficou imaginando como explicaria seus sentimentos. Será que ele iria rejeitá-la ali mesmo? Será que ficaria chocado com sua ousadia? Ou será que ele, talvez, quisesse o mesmo que ela?
— Ando pensando nas leis que nos governam — começou ela. — E considero uma delas especialmente difícil de seguir.
— Qual exatamente?
— A que diz que não temos permissão para nos unir, como Nut e Geb fizeram.
— Ah... — Ele largou as mãos de Ísis e lhe deu as costas. Com a postura ereta e rígida, perguntou: — Então você achou alguém para amar?
— Acho que sim. Na verdade, já faz muitos anos que eu o amo.
Sentindo-se corajosa, Ísis se aproximou dele, abriu as asas e o envolveu com uma delas enquanto ficavam ali lado a lado. Quando eram crianças, ela costumava escondê-lo embaixo das penas reluzentes para que pudessem planejar suas travessuras em segredo. Agora o gesto parecia diferente, novo, como se ela estivesse abrindo outro capítulo em sua vida.
Ele suspirou e se voltou para ela, o rosto oculto na sombra de sua asa.
— Você sabe que a lei só se aplica aos imortais, Ísis. Por isso, não deve se preocupar em relação ao seu amor recém-encontrado. Diga-me, então, a que mortal eu devo dar os parabéns?
— Não estou apaixonada por um mortal — disse Ísis.
Ele deixou a cabeça pender para o lado e buscou esclarecer:
— Então ele é imortal?
— É. Mas é complicado.
— Eu diria que sim, apesar de os limites da lei serem incertos em relação a certos imortais. Seu amor talvez seja possível.
— Tem mais uma coisa. Ele ainda não sabe o que eu sinto por ele...
— Não sabe se ele corresponde ao seu afeto? — Ele correu a mão pelos cabelos e balbuciou: — Essa foi uma pergunta idiota. Claro que ele corresponde ao seu afeto. — Erguendo os olhos até os dela, tocou-lhe o maxilar com a ponta dos dedos. — Como poderia não corresponder? — Ele lhe deu um breve sorriso e baixou a mão. Então suspirou. — Imagino que ele seja bonito.
— Incrivelmente bonito.
— Ele é gentil com você?
— Sempre foi.
— E é digno de você?
— Não consigo pensar em ninguém que seja mais digno.
— Então, por que ele não sabe?
Ísis pousou a palma da mão no ombro dele e a deslizou pelo seu peito até cobrir-lhe o coração.
— Porque ele passou muito tempo longe — falou Ísis baixinho.
A testa dele se franziu e então a perplexidade alisou as rugas de sua confusão.
— Ísis... você não pode estar falando sério.
— E se estiver?
Depois de tomar a mão dela, ele acrescentou, com um sibilo quase desesperado:
— Isso é proibido.
— Achei que já tínhamos conversado sobre esse aspecto.
— É, mas... isto é diferente. Pense nas consequências.
— E quais são as consequências de uma vida sem amor?
Com cuidado, ele tirou a mão dela de seu peito e a apertou entre as suas.
— Não pode estar falando sério, Ísis. Você não compreende.
— Eu compreendo a solidão e o anseio. — Ela fechou a outra asa em torno dos dois, envolvendo-os completamente. — Compreendo agora que sempre foi você. — Ele engoliu em seco, e quando ela viu a expressão de pânico no rosto dele, deu um passo para trás. — Então você... você não sente nem um pouquinho de afeição por mim?
Nas sombras criadas pelas asas dela, ele a segurou pelos ombros e fez com que se afastasse dele.
— Ísis... Ísis, olhe para mim.
Quando ela finalmente o fitou, ele disse:
— A última coisa que quero é magoar você, mas não podemos. Eu não posso. Não importa o que eu sinta. Não importa a força da nossa conexão. Não é permitido.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas.
— Então você... você não sente.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos e usou os polegares para enxugar as lágrimas dela enquanto praguejava entre dentes.
— Sinto muito. Você não sabe como eu queria... Olhe, você não vai ficar sozinha. Eu sempre vou estar com você. Prometo.
— Não vai ser a mesma coisa.
— Não, não vai.
— Eu não sabia como isso doeria.
— Então vou parar de falar sobre o que não pode ser e dizer o que pode, está bem?
Ísis assentiu de leve, as lágrimas ainda escorrendo pelo rosto.
— Posso ser seu amigo — disse ele, correndo os dedos por uma mecha do cabelo dela. — Posso ser seu protetor. — Ele a envolveu em um abraço apertado e sussurrou em seu ouvido: — Vou ser seu confidente e guardar os seus segredos. — Beijou a bochecha molhada dela. — Vou ser seu aliado. — Passando para a outra bochecha, acrescentou: — Vou ser seu defensor.
Ele tocou na testa dela com a sua e estava para dizer mais alguma coisa quando ela interrompeu:
— Mas não vai ser o meu amor.
Ele ficou paralisado e em seguida recuou um passo. Ela ergueu os olhos tempestuosos para ele, imobilizando-o.
— Não vamos compartilhar momentos no seu jardim nem rir juntos de lembranças que apenas nós dois dividimos. Não vamos desabar um nos braços do outro enquanto rolamos colina abaixo. Não vamos descobrir juntos o que realmente significa se dedicar por inteiro ao bem-estar do outro. Nem compreender um amor tão poderoso que faça com que a gente se agarre a ele com as pontas dos dedos, como Geb e Nut. Você não vai me acalmar com beijos nem com carícias reconfortantes quando eu estiver triste ou cansada. Eu não vou saber que você procura o meu rosto entre todos os outros. Nem poderei dizer que você é meu. Mas, pior de tudo, você não vai me tomar nos braços todas as noites quando nos recolhermos depois de um longo dia, uma longa década ou um longo século de trabalho. Está destinando a mim... a nós... uma vida muito longa e de potencial limitado, de não saber, de não descobrir. Então pergunto mais uma vez, meu amor: tem certeza de que essa meia vida é o que você quer?
Ísis fitou os olhos perturbados dele e deslizou as mãos por seus ombros largos até entrelaçar os dedos atrás de sua nuca. Nunca na vida ela havia desejado tanto uma coisa. Estar prestes a consegui-la e saber que a qualquer momento poderia perdê-la para sempre era uma experiência arrebatadora e apavorante – algo que ela nunca tinha vivido antes – e que não trocaria por nada.
Sacudindo a cabeça de leve, ele começou:
— Ísis, eu quero... — mas se interrompeu e só ficou olhando para ela.
O que Ísis viu nas profundezas dos olhos dele fez seu coração se acelerar. Os corpos dos dois estavam unidos, os lábios dele tentadoramente próximos dos seus.
Mantido cativo pela leve pressão das asas dela em suas costas e pela tentação de seus lábios, ele baixou a cabeça na direção da dela e tocou sua orelha com o nariz, tentando desesperadamente convencer-se de que poderia parar a qualquer momento. Que ainda não tinha avançado o suficiente para não conseguir mais parar. Mas, quando sentiu o cheiro dos cabelos dela, acariciou a maciez de sua pele e sentiu a extensão flexível do corpo dela contra o seu, viu que estava perdido.
Seus lábios marcaram uma trilha de fogo da têmpora dela até a curva do maxilar. Ísis gemeu baixinho e colou-se ainda mais a ele enquanto jogava a cabeça para trás a fim de lhe dar acesso ao seu pescoço, fechando os olhos para saborear a sensação dos lábios dele em sua pele. Era isso que ela havia desejado. Era o que ela ansiava. Um homem que a amasse integral e completamente. Que fosse seu companheiro para sempre. Um homem que compartilharia seus pesares, assim como suas alegrias.
Lenta e dolorosamente, ele fez o caminho inverso do pescoço dela até a lateral do rosto, e justamente quando ela antecipava o beijo, se afastou. As mãos que a seguravam tremeram. O maxilar dele estava contraído, a boca traçava uma linha de infelicidade.
Finalmente ele abriu os olhos. Estavam cheios de dor e arrependimento.
— Sinto muito, Pequenina. Você não sabe quanto eu sinto.
Com isso, ele deu meia-volta e desapareceu, deixando um vazio gelado no lugar onde antes estava seu corpo.
Ísis fechou as asas em volta de si mesma, tentando conter o calor daquele momento passional, mas esse foi escapando devagarzinho até não sobrar nada além de uma sensação de perda.
Na manhã seguinte, ele já havia partido.
Um ano se passou sem que ela o visse, um período curto para o padrão dos deuses, mas ela sentira cada dia de separação como um minúsculo machucado entalhado em sua alma. E agora ele tinha voltado e, apesar de tudo que havia acontecido, Ísis tinha mais certeza do que nunca de que o amor que ela sentia era real e verdadeiro. Era um presente das estrelas que não devia ser recusado nem desperdiçado.
Ísis aterrissou de leve no mármore da sacada e fechou as asas atrás de si. Saiu em disparada pelos corredores e pórticos, procurando sem encontrar, até que finalmente o achou. Estava em uma sala, sozinho, as costas voltadas para ela enquanto examinava a lista mais recente de preocupações e deveres de Amon-Rá.
A visão dele a encheu de uma estranha vertigem combinada com ansiedade. Ela havia esperado por ele um ano inteiro – o mais longo em sua memória. E esse momento, esse reencontro, não lhe seria negado. Ísis tinha abafado as chamas de seu amor até que elas ardessem devagar, em silêncio, como brasas. Mas vê-lo outra vez atiçou o fogo, reacendendo-o e fazendo-o voltar a queimar forte em seu peito, ameaçando incinerar qualquer coisa que ousasse se colocar em seu caminho.
Ele não devia tê-la ouvido chegar, porque não se virou, não até que ela dissesse seu nome, o nome que tinha sussurrado em seus sonhos.
Osíris.

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