30 de agosto de 2017

Prólogo

OS CORREDORES E SALAS DO DIOGENES Club são, possivelmente, os lugares mais silenciosos em toda a Londres. A ninguém lá dentro é permitido falar – exceto na sala dos visitantes, e somente com a porta bem fechada. Os funcionários que trabalham lá – os criados e os garçons – usam sapatos com solas acolchoadas a fim de mover-se sempre em silêncio, e os jornais que os membros do clube leem são impressos especialmente para o Diogenes em um papel que não produz ruído quando é folheado. Qualquer membro que limpar a garganta ou assuar o nariz mais de três vezes ao mês recebe uma advertência por escrito. Três advertências resultam em sua expulsão do clube.
Os membros do Diogenes Club valorizam o seu silêncio.
Quando Amyus Crowe empurrou o criado no hall de entrada e atravessou o labirinto de corredores e salas de leitura até onde Mycroft Holmes o esperava, ele não falou uma palavra, mas havia algo em seu modo de agir que fazia com que todos os que olhavam pra cima em desaprovação desviassem o olhar rapidamente quando ele os encarava. Embora estivesse em silêncio, embora suas roupas mal fizessem ruído quando andava, embora o roçar da sola dos seus sapatos de couro fosse pouco mais que um sussurro contra os ladrilhos, ele parecia irradiar uma energia que crepitava feroz e estrondosamente. Ele parecia transmitir uma fúria audível em cada poro de seu corpo.
Ele bateu a porta da sala dos visitantes atrás de si com tanta força que nem mesmo as dobradiças pneumáticas especiais puderam impedir o alto estalo!
— O que você descobriu? — ele exigiu.
Mycroft Holmes estava de pé ao lado da escrivaninha. Ele estremeceu.
— Meus agentes confirmaram que Sherlock foi raptado em Farnham e transportado para Londres sob o efeito de drogas. Ele foi levado a bordo de um navio chamado Gloria Scott.
— E o que está fazendo a respeito para resgatar seu irmão e meu aluno?
— Estou fazendo tudo o que posso — Mycroft respondeu. — O que não é muito, temo. O navio partiu rumo à China. Estou tentando rastrear um manifesto com o qual conseguirei antecipar quando e onde o navio atracará para obter suprimentos ao longo da rota. Mas isto está se mostrando problemático. As viagens deste navio são organizados sob as ordens de seu capitão, o qual é notoriamente excêntrico, de acordo com meus agentes. Seus pontos de partida e chegada são fixos – Londres e Xangai – mas ele pode parar em qualquer local nesse meio tempo.
— E — Crowe fez uma pausa — e você tem certeza de que Sherlock está vivo?
— Por que o drogariam e raptariam se a intenção fosse matá-lo? Por que ter o aborrecimento de transportá-lo até um navio quando poderiam simplesmente sepultá-lo em uma floresta qualquer? Não, a lógica me diz que ele permanece vivo.
— Então qual o motivo de levá-lo?
Mycroft pausou por um momento. Seu rosto se tornou, pelo o que se poderia ver, mais grave.
— A resposta a esta pergunta depende de quem o levou.
— Acredito que nós dois sabemos a resposta — Crowe rosnou.
Mycroft assentiu.
— Relutante como sou em tirar conclusões com a ausência de evidências, não consigo pensar em nenhuma outra possibilidade. A Câmara Paradol o levou.
— Há uma evidência — Crowe ressaltou. — Em seu caminho para Edimburgo ele disse ter visto o Sr. Kyte, que se revelou por ser um agente da Câmara Paradol, na plataforma da estação em Newcastle. Ele mencionou isso a Rufus Stone, e Stone mencionou a mim. Nós dois suspeitamos que a Câmara Paradol mantivesse um olho nele, mas não imaginamos que eles tomariam qualquer ação.
Mycroft assentiu novamente.
— E isso explica a sua irritação, que não é dirigida a mim mas a si mesmo. Você está furioso por não ter antecipado o perigo que Sherlock corria.
Crowe desviou o olhar de Mycroft, seus olhos começaram a brilhar por baixo de suas espessas sobrancelhas brancas.
— Você disse que se soubéssemos quem o levou, saberíamos o motivo. Então nós sabemos que foi a Câmara Paradol. O que eles querem?
— A Câmara Paradol é... perdoe-me, você gostaria de uma pequena dose de xerez seco? Não? Bem, então se importaria se eu me servisse? Sim, como você já sabe, a Câmara Paradol é um grupo de agitadores com motivação política que deseja alterar os governos a fim de atingir seus objetivos, que presumo ser principalmente adquirir grandes quantidades de dinheiro a partir da negociação de ações e venda de armas, entre outras coisas. Tenho ouvido descrições deles como uma pequena nação sem fronteiras, território ou capital, o que parece uma descrição tão boa quanto qualquer outra. Em minha limitada experiência, eles raramente têm apenas uma razão para fazer qualquer coisa. Qualquer atividade é baseada em ações que contribuam para o progresso em uma série de frentes. Se eu me atrevesse a arriscar um palpite... — ele se interrompeu e meneou sua grande cabeça — um passatempo que acho repugnante, a propósito. Mas sim, se eu me atrevesse a arriscar um palpite, então diria que suas razões para sequestrar Sherlock são, primeiramente, para puni-lo por seu envolvimento na interrupção de vários de seus golpes. Em segundo, para evitar que ele venha a interferir em mais desses golpes, e em terceiro para deixar a você e a mim em um estado de confusão que dificultaria nossos esforços para descobrir quais realmente são seus outros golpes.
— Mas não irão matá-lo — Crowe ressaltou. — Por que não?
— Matar Sherlock seria uma punição por alguns segundos, após isso não importaria para ele o que fizessem. Estar preso em um navio, separado de seus amigos, família e de qualquer possibilidade de uma refeição decente – esse é o tipo de tortura que dura por um bom tempo, sem nenhum custo para eles. E em vez de dificultar nossos esforços de descobrir seus planos, eles devem saber o suficiente sobre você e sobre mim para entender que se Sherlock morresse, gastaríamos cada momento e cada guinéu para rastreá-los e trazê-los à justiça.
— Ou fazer nossa própria justiça — Crowe grunhiu. — O tipo de justiça que vem no cano de uma arma.
— Por uma vez — Mycroft admitiu calmamente — eu apenas posso concordar com você nesse caso.
— Você não pode enviar um navio da Marinha Real para interceptar esse Gloria Scott?
Mycroft meneou a cabeça.
— Eu não tenho autoridade para despachar uma embarcação por causa de um garoto, mesmo que este garoto seja meu irmão. Mesmo que eu pudesse, eu não o faria. Estes navios têm deveres mais importantes, guardar nossas costas contra ataques e cumprir a vontade da rainha no exterior. Contra isso, a vida de uma criança não pesa muito. — Ele suspirou, e cerrou o punho, impotente. — Toda essa discussão nos deixou melhores informados, mas não em melhor posição. Não podemos ajudar Sherlock. Ele está por conta própria.
— Sherlock por conta própria tem melhores recursos à sua disposição do que a maioria das pessoas rodeadas de amigos e familiares — o tom de Crowe era mais calmo agora, e a energia feroz que parecia irradiar de seu corpo tinha diminuído um pouco.
— Ele é corajoso, forte e tem conhecimento de si mesmo. Oh, e ele é habilidoso com os punhos também. Acredito que ele perceberá que terá de dar o melhor de si. Ele sabe que eventualmente o navio voltará a Londres, o que lhe dá uma garantia de retorno que ele não conseguirá se tentar pular do navio no meio da viagem para encontrar outro que venha na direção oposta. O capitão será mão de ferro, porque os capitães sempre são, e por isso colocará o rapaz pra trabalhar. E será trabalho árduo, mas ele vai passar por isso. E provavelmente voltará mais forte e autossuficiente também.
— Dificilmente o tipo de tortura que a Câmara Paradol imaginava — Mycroft ressaltou secamente.
Crowe sorriu.
— As pessoas encarregadas da Câmara Paradol, tanto quanto posso dizer, vivem uma vida confortável, com empregados para cuidar de cada capricho seu. Para essas pessoas, amarrar um mastro ou puxar uma âncora seria tortura. Para o jovem Sherlock, essa será uma aventura – se ele optar por enfrentá-la desse modo.
— Eu espero que sim. Realmente espero que sim.
— Acho que tirarei proveito deste xerez agora — Crowe disse. — Deus sabe que não consigo ver como isso ajuda, mas sinto a necessidade de algum licor forte.
Mycroft ocupou-se enchendo um copo para Crowe da garrafa sobre o aparador.
— Escreverei algumas cartas — ele disse enquanto lhe entregava o copo – o qual quase sumiu na mão enorme e castigada pelo tempo de Crowe. — Elas podem ser transmitidas por telégrafo para vários portos ao longo da rota. Posso garantir que equipes diplomáticas estarão à procura do Gloria Scott. Eles transmitirão nossas mensagens e nos informarão sobre como ele está. Ele pode nos escrever. Haverá navios em cada porto que ele descer que virão na direção da Inglaterra. Eles poderão trazer as cartas.
— Ele só ficará fora por um ano ou mais — Crowe ressaltou. — Talvez menos, com a cooperação do tempo e do vento. Você o verá novamente.
Mycroft assentiu.
— Eu sei. Eu só... me sinto responsável. Tão indefeso. — Ele tomou um longo suspiro, firmando-se contra alguma repentina tempestade de emoções. — Não contarei à minha mãe, claro. Sua saúde não suportaria isso. E não escreverei para o nosso pai até que eu tenha mais notícias – e talvez nem mesmo depois disso. Enviarei uma nota para os nossos tios em Farnham dizendo-lhes que está tudo bem. Eles estão preocupados.
— E encontrarei alguma maneira de contar a Virgínia o que aconteceu — Crowe falou. — E, francamente, essa conversa me assusta mais do que qualquer outra coisa. Ela realmente desenvolveu uma afeição por seu irmão.
— E ele por ela — Mycroft refletiu. — Vamos esperar que as memórias que ambos têm um do outro sejam suficientes para mantê-los...

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Boa leitura :)