18 de agosto de 2017

Prólogo

O CHINESINHO SEGUROU A AGULHA com dedos firmes e mergulhou a ponta no frasco de tinta na mesa à sua frente. Próximo ao frasco estava o antebraço de um marinheiro, que ocupava a cadeira do outro lado da mesa. Era um antebraço imenso – parecia um presunto na bancada de um açougueiro.
— Você ter certeza de querer âncora azul? — perguntou o chinês.
Ele se chamava Kai Lung. Seu rosto era enrugado, e o cabelo trançado que pendia por suas costas tinha cor de fuligem.
— Já falei — respondeu o marinheiro —, quero uma âncora! Porque eu moro e trabalho num barco, entendeu?
— Eu poder fazer um peixe — argumentou Kai Lung, em voz baixa.
Âncoras eram fáceis. E também sem graça. Kai Lung tinha a impressão de que passava metade de seu tempo tatuando âncoras azuis em antebraços musculosos de marinheiros, às vezes com o nome de uma mulher embaixo, dentro de um lindo pergaminho. O problema era que a outra metade do tempo ele passava transformando tatuagens com nomes de antigas paixões em outras coisas: arame farpado, flores, qualquer imagem que pudesse disfarçar as letras. Ele insistiu:
— Eu poder fazer peixe bonito, talvez peixe-japonês, com escamas das cores do arco-íris. Você gostar da ideia? Tatuagem de peixe boa para marinheiro, não?
— Quero a âncora — disse o homem, teimoso.
— Certo. Tudo bem. Âncora, então. — Ele deu um suspiro. — Você pensar em algum tipo especial de âncora, ou uma comum mesmo?
O marinheiro franziu o cenho.
— Quantos tipos de âncora existem?
— Âncora comum, então.
Ele se preparou para fazer a primeira marca com a agulha. A tinta entraria no pequeno furo no braço do marinheiro e tingiria o tecido inferior. Ao longo dos anos, a camada externa da pele se desgastaria, mudaria e se bronzearia, mas a tinta ficaria ali, sob a pele, para sempre. Se usasse a quantidade suficiente de furos e de cores, Kai Lung podia desenhar qualquer coisa – um peixe, um dragão, um coração... ou uma âncora azul. Mais uma âncora azul.
A porta se abriu de repente, empurrada com força pelo lado de fora, e bateu na parede. A maçaneta de dentro deixou uma marca na parede de tijolos expostos. Havia um homem sob o batente. Ele era tão alto e largo que não sobrava muito espaço no vão da porta ou acima de sua cabeça raspada. Suas roupas estavam amarrotadas e sujas. Parecia que ele tinha passado algum tempo viajando vestido com elas, e talvez também dormindo com elas.
— Você — rosnou ele com sotaque americano, olhando para o marinheiro. — Fora!
O sujeito apontou o polegar para trás por cima do ombro, caso a instrução não tivesse sido clara.
— Ei! Eu marquei hora!
O marinheiro se levantou, cerrando os punhos e se preparando para brigar. Avançou em direção à porta. O recém-chegado deu um passo à frente. O topo da cabeça do marinheiro mal chegava ao queixo dele. Sem tirar os olhos do marinheiro, o homem estendeu a mão esquerda e agarrou a maçaneta. Apertou. Por um instante, nada aconteceu, e então, com tristeza no coração, Kai Lung viu a maçaneta ficar amassada e retorcida sob a pressão. Em poucos segundos, mais parecia uma bola de papel que de metal.
— Tudo bem — disse o marinheiro. — Tem outros tatuadores por aí.
O recém-chegado deu um passo para o lado, e o marinheiro passou por ele sem olhar para trás.
— Você me fez perder cliente — disse Kai Lung. Ele não tinha medo do recém-chegado. Era tão idoso e havia visto tanto em sua longa vida que poucas coisas o assustavam. Àquela altura, a morte era uma velha amiga. — Espero que traga outro para compensar.
O homem recuou, abrindo caminho, e outro sujeito entrou na saleta minúscula da residência de Kai Lung. Era mais baixo e mais bem-vestido que seu arauto, e segurava uma bengala. Uma onda gélida pareceu acompanhá-lo para dentro do cômodo. Kai Lung sentiu algo se espalhar por seu corpo, e levou algum tempo para entender o que era.
Medo. Era medo.
— Você querer tatuagem? — perguntou, tentando manter um tom de voz calmo.
— Eu gostaria de fazer uma tatuagem na testa — respondeu o homem. Seu sotaque também era americano. — É um nome, o nome de uma mulher.
A voz era tranquila e firme. A luz atrás dele deixava seu rosto na penumbra, mas a iluminação fraca da lamparina a óleo de Kai Lung fez brilhar o topo da bengala. Por um momento o chinês achou que fosse um pedaço grande e grosseiro de ouro maciço; arquejou, impressionado, mas de repente percebeu o que realmente era. O topo da bengala estava esculpido na forma de uma caveira humana.
— Você querer nome da mulher na testa? — perguntou Kai Lung. — A maioria querer nome de namorada no braço, ou talvez no peito... perto do coração.
— A mulher não é minha “namorada” — disse o homem. Sua voz continuava tranquila, mas em algum lugar lá no fundo havia um tom que fez Kai Lung estremecer. — E, sim, quero o nome dela tatuado na testa, perto do cérebro, para que eu me lembre. É melhor que seu trabalho seja bom. Não tolero erros.
— Sou o melhor tatuador da cidade! — respondeu Kai Lung, orgulhoso.
— Foi o que me disseram. É por isso que estou aqui.
Kai Lung suspirou.
— Qual é nome da mulher?
— Eu o escrevi. Você sabe ler?
— Eu ler muito bem.
O homem estendeu a mão esquerda. Segurava um pedaço de papel. Kai Lung o pegou com cuidado, evitando tocar na pele do sujeito. Olhou o nome no papel. Estava escrito com uma letra esmerada, e o chinês não teve dificuldade para entender.
— Virginia Crowe — disse ele. — É isso?
— É exatamente isso.
— Qual cor você querer? — perguntou Kai Lung.
Ele esperava que o homem dissesse “azul”, mas se surpreendeu: — Vermelho. Quero em vermelho. Da cor do sangue.

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