18 de agosto de 2017

Notas históricas

VOCÊ TALVEZ ACHE QUE PESQUISAR para um livro ambientado na mesma ilha onde moro seria mais fácil do que pesquisar para uma história ambientada, digamos, na América ou na Rússia. Com certeza era o que eu achava antes de começar a escrever este livro. O estranho é que a história acabou sendo bem diferente.
Comecei a pensar em ambientar um livro em Edimburgo quando passei alguns dias na cidade. Eu ia dar uma palestra no Edinburgh Festival e depois visitar algumas escolas e conversar com alunos sobre Sherlock Holmes, sobre mim e sobre por que eu queria escrever essa série de livros. Estava hospedado em um hotel pequeno no centro da cidade – bem perto da Princes Street, para falar a verdade – e todos os dias, quando saía do hotel, olhava para a direita e via a cúpula vulcânica imensa de Castle Rock e o Castelo de Edimburgo empoleirado como uma nuvem cinzenta sólida acima da cidade. Era uma visão tão impressionante que não pude deixar de imaginar Sherlock Holmes escalando Castle Rock, arriscando a vida para salvar alguém. Esse alguém provavelmente seria Virginia.
O que eu devia ter feito, é claro, era ir à livraria mais próxima e comprar o máximo possível de livros sobre a história de Edimburgo. Mas minha mala já estava muito cheia, e na ocasião eu estava ocupado escrevendo o mistério anterior do jovem Sherlock Holmes, Gelo negro, então não tinha tempo para pensar no livro seguinte. Guardei as imagens e paisagens em uma caixinha com cadeado dentro da cabeça para ver depois. Bem depois.
Esse “bem depois” chegou mais rápido do que você poderia imaginar. Quando comecei a escrever Tempestade de fogo, eu já havia voltado a Dorset, que é praticamente o lugar mais longe possível de Edimburgo sem sair da ilha. Ao procurar inspiração nos arredores, encontrei apenas o livro Edinburgh  A History of the City, de Michael Fry (publicado em 2009 pela Macmillan – que também publicou a série O jovem Sherlock Holmes na Inglaterra, o que significa que eu provavelmente podia ter pedido para me mandarem um exemplar de graça em vez de comprar um).
Contudo, esse livro me ofereceu uma boa noção de como a cidade tinha se desenvolvido e que tipo de gente morava lá.
A história sobre os ladrões de cadáveres Burke e Hare que Matty conta a Sherlock quando os dois estão na taverna em Princes Street é cem por cento verdadeira. Edimburgo era uma cidade famosa por sua escola de medicina, e de fato havia uma escassez de corpos. Burke e Hare encontraram a solução perfeita para esse problema: matar pessoas e fornecer cadáveres sob encomenda para os estudantes de medicina. Burke realmente foi enforcado, e seu corpo foi dissecado no mesmo lugar onde tantas de suas vítimas haviam acabado, e Hare de fato desapareceu e nunca mais foi visto.
A outra história que Matty conta a Sherlock – depois, quando eles estão saindo dos cortiços onde foram interrogados por Bryce Scobell – não é verdadeira, embora seja uma crença difundida.
Quando eu vim aqui antes, ouvi um boato de que as autoridades estavam tentando tirar as pessoas dos cortiços. Parece que queriam vender o terreno para construir fábricas, mansões ricas ou algo do tipo. As pessoas com quem eu falei me disseram que as autoridades espalhavam um boato de que uma doença, como tuberculose ou a peste, tinha se espalhado pelo cortiço. Eles levavam todo mundo para um abrigo, e então demoliam o cortiço e construíam outra coisa no terreno. E nisso eles ganhavam muito dinheiro. Ouvi que, às vezes, se não tinha vaga nos abrigos, eles levantavam um muro para fechar os acessos dos cortiços e deixavam as pessoas lá dentro morrerem de fome, mas não acredito nisso.
O cortiço em questão é chamado Beco de Mary King. Construíram tantas coisas em cima dele ao longo dos anos que os becos se tornaram túneis subterrâneos. É possível visitar o lugar hoje e ouvir histórias sobre as pessoas que foram presas ali para morrer de fome, e sobre os fantasmas que ainda aparecem à noite nos cômodos, mas a verdade é mais prosaica. Muitas vezes, pessoas que contraíam a peste se isolavam voluntariamente na própria casa para não passar a doença para mais ninguém, e indicavam sua condição colocando bandeiras brancas nas janelas. Amigos e vizinhos lhes entregavam comida e suprimentos até que elas melhorassem (improvável) ou morressem (muito mais provável). Havia até mesmo lugares especiais fora da cidade onde vítimas da peste podiam se isolar de todo mundo.
Curiosamente (ou não), Arthur Conan Doyle nasceu em Edimburgo em 1859 e estudou medicina lá entre 1876 e 1881. Um de seus professores era um homem chamado Joseph Bell, e é muito difundida a teoria de que Doyle se baseou em Bell para criar o personagem Sherlock Holmes (diziam que, só de olhar, o professor era capaz de diagnosticar não apenas a doença de seus pacientes, mas também sua profissão). Por um breve instante, considerei incluir uma aparição de Joseph Bell neste livro, mas decidi não fazê-lo. Teria permanecido como uma piada interna, e não havia qualquer motivo sólido para incluí-lo.
A propósito, seria errado de minha parte não mencionar O secretário italiano (Record, 2008), romance do escritor americano Caleb Carr sobre Sherlock Holmes. A história é ambientada em grande parte nos arredores de Edimburgo. Carr é um escritor excelente, e é possível que sua versão de Sherlock Holmes seja a mais próxima da original desde a morte de Arthur Conan Doyle, em 1931.
A história que Amyus Crowe conta sobre o coronel John Chivington e o ataque pavoroso que ele realizou contra a tribo indígena liderada pelo cacique Chaleira Preta é, lamentavelmente, verdadeira. Cresci assistindo a filmes de faroeste em que os índios americanos (ou peles-vermelhas, como eram conhecidos na época) eram os bandidos e os nobres soldados brancos, os mocinhos. Esses filmes eram mentirosos, e ainda me sinto traído pelo fato de que Hollywood convenceu tanta gente do contrário. Claro, não existe qualquer registro de que Chivington tivesse um subcomandante chamado Bryce Scobell, mas também não existe registro de que não tenha tido.
A primeira vez que li sobre o fato bizarro de que coelhos são imunes ao veneno do caule e das folhas da dedaleira foi no livro The Wordsworth Guide to Poisons and Antidotes , de Carol Turkington (Wordsworth Editions, 1997). Desde então, pesquisei um pouco mais e descobri que as opiniões sobre o assunto divergem. Talvez sejam corretas, talvez não. De qualquer forma, Sherlock Holmes acredita que isso seja verdade.
Durante séculos as lutas com ursos foram um “esporte” conhecido na Inglaterra, até se tornarem ilegais em 1835. Normalmente era um urso preso a uma estaca sendo atacado por cachorros. Ou o urso matava os cachorros, ou os cachorros matavam o urso. Lutas entre um urso e uma pessoa eram raras, mas aconteciam. Por algum motivo (talvez uma abundância de ursos), a Rússia era mais conhecida pelas disputas entre homens e ursos. Minha intenção original era fazer Amyus Crowe encarar um urso em Gelo negro, mas não achei nenhuma forma de incluir essa cena de modo que fizesse sentido. Por algum motivo, fez mais sentido neste – provavelmente porque Crowe não teve muito a fazer em Gelo negro, mas em Tempestade de fogo ele acaba sendo praticamente levado ao limite.
As informações em relação à crença da Igreja de Mórmon de que a palavra de Deus foi entregue ao profeta Joseph Smith Jr. em 1823 na forma de placas douradas também são verdadeiras (isto é, a história que descrevo é mais ou menos o que a Igreja de Mórmon afirma – não estou dizendo que a história é de fato verdadeira. Isso não cabe a mim).
Então, Sherlock finalmente enfrentou a maligna Sra. Eglantine e a expulsou da residência dos Holmes. Ele também cresceu a ponto de caminhar com as próprias pernas e resgatar seu irmão e os pais substitutos (Amyus Crowe e Rufus Stone), e não depender de que eles o resgatem. Qual é a próxima aventura de Sherlock? Bom, de acordo com Arthur Conan Doyle, que escreveu os cinquenta e seis contos e quatro romances sobre um Sherlock Holmes adulto, o personagem era especialista em artes marciais. Fiquei pensando: onde ele aprenderia essas artes marciais? Na China, talvez; ou no Japão. O tempo, e ventos e correntes favoráveis, dirão.

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