30 de agosto de 2017

Capítulo um

HAVIA UMA LINHA ESCURA no horizonte. Sherlock podia vê-la enquanto contemplava todo o oceano. A maior parte do céu era azul-clara, mas ao longe ia escurecendo até um roxo insalubre, como uma contusão antiga. Ele teria assumido que aquilo fosse terra se não fosse por um fato: ela estava a oeste do navio. A única terra nas proximidades ficava a leste – o extremo sul da África.
Ele se perguntou se deveria contar ao primeiro imediato – o Sr. Larchmont – sobre isso. O Sr. Larchmont colocara Sherlock sob sua proteção e lhe dado um lugar na tripulação depois que o garoto acordara e se encontrara a bordo do navio, já navegando para longe da Inglaterra. Talvez ele devesse comunicar ao próprio capitão Tollaway, mas o capitão era uma figura afastada, raramente vista no convés. Talvez devesse apenas contar a um dos outros marinheiros. Sherlock procurou ao redor, mas estavam todos se dirigindo para os seus deveres despreocupadamente – como ele próprio deveria estar. Lhe deram a tarefa de limpar o convés: eliminar os pedaços de madeira e cordas velhas acumuladas ao longo dos dias, assim como a fina camada de sal que cobria tudo graças aos jorros de água do oceano e sua evaporação pela ação do sol.
Ele meneou a cabeça e voltou para o seu esfregar. Ele era o marinheiro menos experiente a bordo. Não era trabalho seu apontar as coisas para os outros. Eles não gostavam disso.
Ele molhou o esfregão em seu balde e limpou uma mancha do convés onde um dos marinheiros tinha sangrado mais cedo naquela manhã. O homem teve seu dedo mindinho apanhado por um rolo de corda que fora arrastado, de repente, por um movimento das velas, levando o dedo junto. O médico do navio – na verdade um dos assistentes do Sr. Larchmont, que tinha certo conhecimento de medicina – limpou o ferimento e enfaixou-o, e o marinheiro estava agora descansando em sua rede com uma dose dupla de rum para anestesiar a dor. Isto deixou uma lacuna na escala de serviço que Sherlock sabia quem deveria preencher: ele próprio.
Pelo o que parecia ser a milésima vez, ele se perguntou como deixou de ser um menino vivendo em Hampshire e se tornou marinheiro em um navio com destino à China. Havia uma lacuna em sua memória entre o adormecimento súbito, de volta à biblioteca de seu tio em Farnham, e o acordar no Gloria Scott. A melhor conclusão a que podia chegar era que ele tinha sido drogado, sequestrado e abandonado no navio antes de levantarem âncora, mas quem teria feito isso com ele, e por quê?
A única resposta a que ele poderia chegar era na organização criminosa chamada Câmara Paradol. Ele havia cruzado o caminho deles muitas vezes. Talvez esta fosse sua vingança?
Por um tempo Sherlock planejara abandonar o navio na primeira oportunidade e tentar encontrar o caminho de volta para casa, mas a lógica finalmente superou a saudade de casa. O Gloria Scott era uma variável conhecida – ele fizera amizade com a tripulação, tinha uma rede de descanso e comida, e sabia que o navio retornaria para a Inglaterra eventualmente. Se ele abandonasse o navio na primeira vez que este atracasse para obter suprimentos, ele estaria sozinho – e em um país estrangeiro. Ele poderia ser vítima de qualquer número de criminosos, e não havia nenhuma garantia de que qualquer navio que encontrasse a caminho de casa seria tão confortável quanto o Gloria Scott – e o Gloria Scott estava longe de ser confortável o suficiente.
Suspirando, ele empurrou os detritos do convés para o lado. Havia espaços nas grades através da qual podia empurrá-los e vê-los cair na água. As aves marinhas – albatrozes e gaivotas – que seguiam o navio mergulharam para investigar, para o caso de haver comida entre a madeira e os feixes de corda.
Muito abaixo, os detritos bateram na água formando um esguicho branco.
Sherlock levantou o olhar para o horizonte novamente, para verificar aquela linha escura, mas seus olhos foram atraídos para um movimento debaixo da água. Enquanto ele assistia, uma forma cinza cintilante rompeu a superfície. Era um peixe, mas um que parecia ser maior do que ele próprio – tão grande quanto seu tutor, Amyus Crowe. Ele engasgou de surpresa com os outros cinco – não, dez ou mais formas romperam a superfície após o seu líder. Eles eram compridos, com focinho alongado e cauda achatada, e seus olhos eram grandes e escuros.
— Cortejando as bonequinhas? — alguém falou detrás dele.
Sherlock virou a cabeça e gritou de volta:
— Uma delas diz que é sua esposa! Falou que você prometeu enviar metade do seu salário, que não chegou até hoje. Ela veio buscar!
Houve risadas dos marinheiros no convés. Sherlock descobriu depressa que eles estavam sempre sondando uns aos outros com piadas pessoais. Isso o fazia lembrar de cães – sempre mordendo uns aos outros, dando dentadas para estabelecer quem estava no comando. Você poderia se ofender, e neste caso as piadas ficariam mais duras e afiadas, ou poderia entrar no jogo e com isso elevar o seu status.
Sherlock escolhera a segunda opção desde que se juntara à tripulação, e aparentemente estava funcionando. Eles o aceitaram, e ele não ficara na parte mais inferior da hierarquia. Havia um longo caminho até o topo, mas, pelo menos, ele era tratado como um deles, não como um intruso.
Alguém da tripulação – Jackson, era como se chamava – estava perto de Sherlock. Ele indicou as coisas na água com um movimento do polegar.
— Nunca viu um desses antes, presumo.
— Isso é verdade — Sherlock admitiu. — O que são? Nós podemos comê-los?
Jackson se benzeu.
— São botos — ele respondeu — e traz má sorte matar um, quanto mais comê-lo. Eles acompanham o navio. Alguns dizem que se um marinheiro cair ao mar, os bichos circulam ao seu redor e o mantêm na superfície, e lutam com qualquer tubarão que tente chegar até ele.
— Tubarão? — Sherlock perguntou.
— Os lobos dos oceanos — Jackson explicou. — Com dentes iguais a uma serra de fita. Eles arrancam seu braço apenas para escovar os dentes com ele.
— Certo. Tentarei não cair então. Ou, se cair, tentarei fazer isso só quando houver botos por perto — ele aproveitou a oportunidade para apontar na direção do horizonte. —O que é aquilo? Aquela cor de aparência... estranha.
Jackson levantou seu olhar para o horizonte e franziu o cenho.
— Você tem uma boa visão — ele admitiu. — Aquilo me parece uma tempestade tropical. O Sr. Larchmont vai querer saber sobre isso. Quer ir lá contar?
Sherlock balançou a cabeça.
— Você conta — ele disse. Ele sabia que o Sr. Larchmont mantinha uma lista mental de todos os marinheiros, com uma pequena marcação em cada nome para denotar o quão bem ou quão mal ele pensava de cada um deles. Essas marcações deslizavam para cima ou para baixo dependendo se os marinheiros estavam trabalhando duro ou não, quão subordinados eles pareciam, como prestavam deferência a ele e ao capitão e em quantas brigas eles se envolviam a bordo do navio. Por ser o primeiro marinheiro a trazer a atenção do Sr. Larchmont para a tempestade, Sherlock poderia obter alguns pontos adicionais – se aquilo fosse uma tempestade. Mas por passar a oportunidade para Jackson, Sherlock poderia fazer do marinheiro um amigo mais achegado, o que poderia se provar útil no futuro.
— Obrigado — Jackson falou, olhando para Sherlock curiosamente. — Eu não me esquecerei disso.
Ele deu meia-volta e caminhou em direção à seção elevada na parte de trás da embarcação, onde se localizava a sala do leme, e onde o Sr. Larchmont geralmente poderia ser encontrado.
Sherlock olhou para o horizonte novamente. A linha escura estava agora ainda mais pronunciada. Aquilo se estendia até acima do horizonte como um par dedos de um braço comprido, e as bordas estavam se alongando para os lados, como braços buscando cercar o navio. Havia algo sobre a cor roxa não natural da tempestade que o fez sentir um frio na boca do estômago. Ele podia sentir uma brisa quente em sua face soprando da direção da tempestade. Notou que o convés estava balançando sob os seus pés com mais força do que momentos antes. Quando olhou a grande massa verde acinzentada do oceano, Sherlock pôde ver que as ondas estavam ficando maiores, e a espuma branca em seus topos balançava como a espuma de um copo de cerveja flutuando na superfície das águas.
— Marujos! Todos no convés! — uma voz rouca chamou.
Sherlock virou-se para ver o Sr. Larchmont de pé na elevação nos fundos do navio. Jackson estava ao seu lado.
— Levantem tantas velas quanto possível, e apertem todas as cordas! — Larchmont gritou, sua voz ecoando claramente de uma extremidade a outra do Gloria Scott. — Uma tempestade se aproxima, rapazes! É a mãe de todas as tempestades que está vindo, e nós vamos tentar superá-la — ele segurou Jackson pelo ombro. — Vá e avise o capitão — ele ordenou em tom mais baixo. Sherlock podia dizer quais eram as palavras pela forma como suas bocas se moviam. — Conte-lhe o que está acontecendo.
— Sim, senhor — Jackson respondeu, e deu meia-volta.
O convés do navio estava de repente em um turbilhão de atividade, com os marinheiros correndo ou subindo em todas as direções.
O olhar de Larchmont caiu sobre Sherlock, que estava parado em meio aquele caos.
— Vamos, jovem clandestino! Suba por este cordame e cheque os cabos de vela do mastro de proa ou eu o deixarei para trás com um bote a remo para enfrentar a tempestade sozinho!
— Sim, sim senhor! — Sherlock correu para a rede de cordas mais próxima. Ela era como uma teia de aranha que levava até as inúmeras velas. A corda era áspera contra sua pele, e ele sentiu seus recém-desenvolvidos músculos retesando-se ao puxar-se para cima. O navio rangia e sacudia quando empurrado contra as fortes ondas: por um momento, ele inclinou-se tanto que, quando Sherlock olhou para baixo, viu o mar diretamente abaixo dele. As ondas quase pareciam alcançá-lo – eram como centenas de mãos pálidas arranhando seu caminho a partir da água. Ele sacudiu essa imagem para longe e continuou escalando.
Ele chegou à vela mais baixa e se arrastou ao longo da verga, pressionando os dedos contra a madeira áspera, verificando cada uma das cordas que prendiam o topo da vela. Estavam todas apertadas – nenhuma chance de escaparem com a tempestade a menos que fossem particularmente danificadas.
Ele manteve um firme aperto sobre as cordas para evitar de cair, e manteve um olho nas lascas sobre a madeira da verga. Tinha visto o que acontecia com os marinheiros que tinham uma lasca enfiada sob suas peles: a ferida poderia infeccionar e inchar duas vezes o seu tamanho normal, e então ficaria insensível ao toque e a área lesada teria que ser removida.
Havia mil e uma maneiras de ficar gravemente ferido em um navio. Por uma vez, Sherlock pôde ver do ponto de vista Mycroft – a maneira mais segura de se continuar a viver era ficar em casa todo o tempo. Mas se você fizesse isso, ficaria de fora de toda a aventura. Ele sorriu para si mesmo. Talvez a melhor coisa a se fazer fosse travar uma amizade com um médico – dessa forma você sempre teria tratamento ao alcance da mão.
Distraído com esses pensamentos, sua mão deslizou em um pedaço de alga que de alguma forma tinha se enroscado na corda e Sherlock se encontrou caindo. Ele apertou as pernas em torno da verga, mas o peso de seu corpo o girou até que ele estivesse pendurado de cabeça para baixo. A lona molhada da vela batia em seu rosto conforme o vento a inflava. Ele não conseguia se orientar. Qual era o lado de cima? Ele arqueou as costas e estendeu a mão para onde imaginou que a verga estaria, mas suas mãos só agarravam o ar. Ele podia sentir suas pernas escorregando. A qualquer segundo agora ele despencaria todo caminho até o convés – de cabeça para baixo.
Sua mão direita segurou em alguma coisa quente. Ele se agarrou freneticamente àquilo, e sentiu-se sendo puxado na vertical. Sua mão esquerda tocou uma corda e ele segurou-a desesperadamente. De repente ele estava na posição correta novamente. Ele olhou para o rosto da pessoa que o salvara. Era um marinheiro jovem chamado Gittens. Ele encarava Sherlock de onde ele havia se agachado, agarrando-se ao mastro com o braço esquerdo.
— Obrigado — Sherlock ofegava.
— Marinheiro de primeira viagem! — ele largou abruptamente a mão de Sherlock e escalou o mastro para a vela seguinte sem olhar para trás.
Sherlock manobrou até o mastro e puxou-se para cima, arrastando-se por uma corda. Era como ficar no topo de um tronco de árvore no meio de um terremoto. O mastro chicoteava de um lado para o outro como se o navio estivesse sendo jogado pelas ondas. Ele tomou um momento para olhar para o distante horizonte, e em seguida desejou não tê-lo feito. A tempestade agora ocupava completamente um quarto do céu.
Estava se avultando eles.
Os outros marinheiros corriam para fazer suas obrigações, e Sherlock sabia que deveria fazer as suas. Apesar da palpitação de seu coração e do terror que ele podia sentir escorrendo como gelo ao longo de seus nervos, ele se mexeu passando pelo mastro para o outro lado da verga para checar as cordas de lá. Elas estavam todas vibrando. Na hora em que voltou ao mastro principal, estava encharcado com uma mistura de água do mar e suor, e seus músculos doíam como se ele tivesse corrido uma maratona. Aliviado, mas com bastante cuidado, Sherlock desceu desajeitadamente pela teia de cordame até o convés.
Ele nunca se sentira tão feliz em ter algo firme sob seus pés como naquele momento.
O Sr. Larchmont estava perto.
— O cordame está bem preso no mastro, senhor — Sherlock reportou.
— Bom trabalho, rapaz. — O primeiro imediato virou-se para olhar para ele. — Você tem o que é necessário para ser um bom marinheiro. Se passarmos por essa tempestade e chegarmos a Xangai inteiros, você poderá ficar. Se quiser.
— Eu gostaria disso, senhor — Sherlock respondeu. Apenas se for voltar para a Inglaterra, e meus amigos, pensou ele.
Larchmont se afastou, repreendendo um pobre marinheiro que tinha deixado um comprimento de corda correr rápido demais por entre os seus dedos e agora encarava as palmas das mãos sangrentas em estado de choque.
— Saia do caminho, seu idiota desajeitado! — Larchmont gritou. — Deixe isso para alguém que saiba o que está fazendo! — Quando pegou a ponta corda e empurrou o homem para longe, Larchmont se virou para ver o que acontecia através do convés. — Lacrem todas as escotilhas! Prendam tudo o que possa se mover. Ah, e levem essas cabras e ovelhas para debaixo do convés antes que elas virem comida de tubarão!
Um rangido de madeira atraiu a atenção de Sherlock. Ele olhou para cima, para onde os mastros balançavam e as velas se agitavam. As velas esticaram-se sendo empurradas pelo vento, e os mastros pareciam quase se dobrar para frente sob a imensa pressão. Um imenso movimento de espuma em forma de V se lançava para trás do navio a partir da proa, e Sherlock podia ouvir um som de assobio enquanto o navio cortava as ondas. Ele olhou para cima de novo. O azul puro do céu equatorial transformara-se em uma estranha sombra metálica. Algo faltava, e ele levou um momento para descobrir o que era. Pássaros. As sempre presentes aves haviam desaparecido. Sabendo que uma tempestade se aproximava, elas provavelmente aproveitaram sua chance de sair do caminho, cavalgando os ventos precursores para uma área mais calma. Bastante sensíveis também, Sherlock pensou.
Parecia de repente, muito mais frio no convés, e a iluminação assumiu um tom ameaçador. Olhando para trás, em direção à popa do navio, Sherlock viu que nuvens roxas haviam obscurecido metade do céu agora. Um punhado de gotas de chuva espirrou em seu rosto – não frias e finas como agulhas, como ele teria esperado na Inglaterra, mas gordas e quentes. Sherlock apoiou-se enrolando o braço com o cordame e olhou ao redor, tentando descobrir se havia alguma coisa que ele poderia fazer para ajudar. Ele viu algo que fez seu coração apertar com um súbito medo. À medida que a frente do barco se torcia para um lado, a parte traseira virava para outro. Toda a estrutura do navio estava flexionando nas garras do vento e das ondas. Para Sherlock, que vinha pensando no navio como algo sólido, aquilo era uma revelação, e não uma muito boa. De repente ele percebeu quão frágil era esta pequena estrutura de madeira e lona que havia se tornado o seu mundo.
— Sherlock! — uma voz chamou. — Sherlock! Por aqui!
Ele olhou na direção de onde a voz vinha. Uma das escotilhas ainda não estava lacrada, e uma figura saía dela, o cabelo preto emplastrado no rosto e nos olhos. Era Wu Chung, o cozinheiro do navio. Ele era um homem grande e alegre que usava um rabo de cavalo preto e um longo bigode que pendia de cada lado da boca, e tinha a pele cheia de marcas por causa de alguma doença. Se tornara a coisa mais próxima de um amigo que Sherlock tinha no Gloria Scott, e ele estava até mesmo pacientemente ensinando Sherlock a falar cantonês – a língua que era falada em Xangai, para onde estavam indo.
Sherlock soltou o cordame e cambaleou até a escotilha, tentando antecipar o balanço do convés conforme andava. O cozinheiro o segurou pelo braço para impedir que ele passasse direto com o vento.
— Preciso de você na cozinha — ele gritou contra o rugido do vento. — Minhas panelas e frigideiras, elas estão espalhadas para todo lado. Preciso deixá-las protegidas.
— Tudo bem! — Sherlock gritou, e seguiu Wu descendo as escadas da escotilha para o interior do navio.
Os corredores eram uma massa tremulante de sombras. O balanço e a vibração do Gloria Scott faziam com que as lanternas, que eram fixadas em ganchos ao longo das paredes, fossem de um lado para o outro. A luz das velas dentro delas fazia tudo parecer amarelo e doentio. Sem a visão de um horizonte para manter o senso de equilíbrio intacto, Sherlock estava começando a sentir-se exatamente assim. O cheiro ali era a combinação usual de gente sem tomar banho e velas de sebo. Água espirrava em todos os conveses enquanto o navio se movia. Normalmente era só nas profundezas negras do porão que a água penetrava, mas agora ela parecia estar presente em todos os lugares.
Sherlock seguiu Wu até a cozinha, que era um cômodo estreito no final de um dos corredores. O fogão já estava apagado, Sherlock notara, caso contrário uma faísca poderia voar e atear fogo a alguma coisa. As panelas de cobre que Wu utilizava deveriam estar penduradas em ganchos no teto, mas a maioria delas tinha caído e agora rolava pelo chão. As poucas que restavam balançavam perigosamente. Um golpe de uma delas poderia deixar um homem inconsciente. Armários e gavetas foram construídos em todos os cantos disponíveis, e enquanto o navio balançava, as portas se abriam e fechavam, e as gavetas deslizavam para frente e para trás. Era como se um fantasma malévolo estivesse tentando causar o caos. O som era ensurdecedor.
Wu estendeu a mão para Sherlock.
— Tome!
Sherlock ergueu as mãos em concha, e Wu deixou cair dez ou mais pequenas peças de madeira.
— Prenda as gavetas e portas rápido — ele ordenou. — Faça isso agora!
Sherlock pegou a ideia. Rapidamente, evitando os obstáculos de panelas balançando, ele fechou e prendeu todas as portas dos armários e gavetas ao empurrar os triângulos de madeira em qualquer brecha que encontrasse, martelando a parte mais larga com a palma de sua mão. Wu, por sua vez, fez o seu melhor para descer o resto das panelas sem deixá-las acertar sua cabeça e jogou-as em um grande armário.
Ao redor deles, Sherlock podia ouvir as vigas de madeira do navio rangerem devido à compressão a que estavam sendo submetidas. Certa vez em Londres, ele tinha visto uma carruagem de madeira se partir inteira ao tentar fazer uma curva rápido demais. Agora ali estava ele, dentro de uma grandiosa caixa de madeira feita de tábuas presas com nada além de pregos e alcatrão, muito longe da costa para nadar em segurança caso o navio se partisse. Era isso que a Câmara Paradol tinha em mente para ele? Este era o castigo?
Quando todas as gavetas e portas estavam seguras, ele virou-se para Wu. O rangido e gemido das vigas do navio eram altos demais pra que alguém pudesse ouvir qualquer coisa, então ele fez um gesto em volta e deu de ombros quando gritou:
— Eu voltarei para o convés!
Na verdade, ele não queria voltar – ele simplesmente não queria ficar preso dentro do navio caso a tempestade o afundasse, mas Wu não era um marinheiro. Wu concordou. Seu rosto em forma de lua repleto de cicatrizes de varíola estava sério. Ele meio que empurrou Sherlock para a porta, dirigindo-se à esquerda, para longe da escotilha que levava ao convés. Sherlock resistiu. Quando Wu tentou empurrá-lo novamente, Sherlock agarrou seu pulso e balançou a cabeça violentamente.
Wu obviamente queria estar tão longe quanto possível da tempestade, e se isso significava se aprofundar nas entranhas do navio, então estava tudo bem para ele.
Wu tentou empurrar Sherlock novamente, mas Sherlock meneou a cabeça.
— Não! — ele gritou.
Wu parecia ler em seus lábios o que ele estava dizendo, porque soltou o ombro de Sherlock e lhe deu batidinhas tristemente. Aquilo era um adeus, uma separação. Wu obviamente, não esperava ver Sherlock novamente.
Sherlock deslizou passando pelo cozinheiro chinês e meio que correu, meio que tropeçou, em direção à escada que levava a escotilha.
Ele se virou quando colocou o pé no primeiro degrau, e viu o cozinheiro de costas largas desaparecer ao contornar uma curva.
Ele arremeteu até a escada, esperando que Wu estivesse errado, e que ambos sobrevivessem. Que todos eles sobrevivessem.
Três marinheiros estavam presentes a prender a tampa de madeira da escotilha quando ele colocou a cabeça por sobre a borda. Eles estavam encharcados da cabeça aos pés, e os seus rostos estavam abatidos com a tensão e o medo. Um deles o puxou para cima, enquanto os outros desceram a tampa no lugar e a pregaram.
As coisas estavam piores do que antes ali no convés. O céu estava roxo de horizonte a horizonte – ou, pelo menos, seria assim, se o horizonte fosse visível. Do jeito como estava, a visibilidade caíra para zero a apenas algumas centenas de metros do navio. Sherlock ficou um segundo ou dois absorvendo tudo isso – as ondas que subiam mais alto do que o navio, a espuma que cobria tudo, o forte cheiro de sal no ar – e, em seguida, correu para o cordame mais próximo, onde ele poderia enrolar seu braço em uma corda e prender ali sua preciosa vida.
Quando estava a meio caminho de seu objetivo, o navio de repente deu uma guinada para um lado e o convés tornou-se uma rampa inclinada onde ele derrapou, lascas prendendo-se em suas roupas. Ele bateu na grade ao redor da borda do navio, quase quebrando as pernas, e teria passado por entre as lacunas e desaparecido nas águas turbulentas abaixo se não tivesse conseguido se agarrar a um ressalto de bronze firmemente aparafusado na grade de madeira. Ele se perguntara muitas vezes para que aquele botão servia – aparentemente nenhum dos marinheiros amarrava qualquer coisa ali – mas fosse qual fosse o motivo de ele estar ali, Sherlock estava grato por sua presença quando ele precisou. Cuidadosamente ele se puxou de volta ao convés girando um braço, em seguida o outro, em torno da grade, seguido de perto por suas pernas.
Seu coração batia forte em seu peito, e ele podia sentir a garganta se fechando com o terror. A tempestade os tinha alcançado com uma velocidade assustadora.
Os outros marinheiros estavam espalhados em torno das plataformas, cada um com os braços enrolados no cordame de modo que uma onda não os levasse para o mar irritadiço.
Um clarão de luz de repente o cegou. Automaticamente ele contou os segundos – um... dois... e, em seguida, um estrondo fez tudo tremer. Sherlock pôde senti-lo por meio da madeira do convés e das grades, tanto quanto ouvi-lo. Duas milhas. A tempestade continuava a duas milhas de distância. Ele sabia disso porque Mycroft lhe dissera uma vez que a diferença de cada segundo entre trovões e relâmpagos significava que a tempestade estava a mais uma milha de distância.
E se era assim a duas milhas do centro da tempestade, como seria no centro dela?
Através da chuva e da água do mar que espirrava ao redor, ele conseguiu ver o Sr. Larchmont de pé na sala do leme. Suas pernas estavam plantadas no convés e suas mãos, firmemente agarradas a uma grade que Sherlock podia jurar que estavam embutidas na madeira. Seu cabelo chicoteava ao redor do rosto. Ele não parecia assustado, nem aflito. Parecia apenas determinado. Ele olhou diretamente para baixo ao centro do navio, como se desafiando a tempestade a fazer o seu pior. Sherlock viu seus lábios se moverem e, inacreditavelmente, ouviu o tom de comando de sua voz, até mesmo acima da tempestade.
— Arrear as velas! — ele gritou. — Soltem as velas se quiserem ver suas mães e suas mulheres de novo!
Sherlock olhou para as velas, e compreendeu imediatamente. Elas estavam bem esticadas sob a força do vento – tão esticadas que poderiam rasgar de cima a baixo se a tempestade piorasse – e se o Gloria Scott estava a duas milhas do centro dela, poderia muito bem piorar. As cordas que seguravam as velas também estavam tão tensionadas quanto cordas de violino. Elas poderiam se romper, deixando a lona oscilar de forma destrutiva. O vento também poderia vir forte o suficiente para tombar o navio, caso não rasgasse as lonas. Se as velas fossem arreadas logo, a tripulação teria uma chance. Eles estariam à deriva e à mercê da tempestade, sem saber onde parariam, mas suas chances de passar por ela aumentariam.
Inacreditavelmente, alguns marinheiros começaram a se mexer de seus lugares seguros em todo o convés, convergindo ao ponto em que as velas eram presas. Sherlock não tinha certeza se eles estavam mais assustados com o Sr. Larchmont do que com a tempestade, ou se eles simplesmente sabiam que teriam que arriscar suas vidas para salvar o navio. Fosse qual fosse a razão, eles chegaram aonde as cordas estavam enroladas em ganchos e estacas e, dois ou três homens de cada vez aplicavam sua força sobre elas e aliviavam a tensão das cordas, deixando-as livres. De imediato o vento atingiu as velas e esticou as cordas, mas então ele mudou de direção, deixando as velas soltas e as cordas caídas, apenas para serem tensionadas novamente momentos depois.
Sherlock olhou para além das grades, e prendeu a respiração.
Certa vez, um ano atrás ou mais, ele acordara em um quarto num castelo da França pertencente ao barão Maupertuis. Pensando que estava em Farnham, ele abriu as cortinas, e ficou chocado pela visão das montanhas fora da janela. Agora ali estava ele novamente, olhando para as montanhas em perplexidade, mas estas montanhas eram feitas de água, e estavam muito mais próximas. Tão próximas que ele quase podia estender a mão para tocá-las.
De repente a imensidão e a grandeza do mundo o comoveram. Um sentimento de exultação pareceu inundar-lhe o corpo, lavando todo o medo e substituindo-o por um deslumbrante espanto. Farnham era pequena. Londres era pequena. Havia tanta coisa lá fora para ver. Como Mycroft podia ficar em seu apartamento, em seu clube e em seu escritório, passando de um para o outro em uma carruagem fechada, quando havia todo esse espetáculo do mundo?
A verdadeira tempestade estourou mais de uma hora depois, mas até lá Sherlock já tinha perdido o controle sobre suas emoções. A partir daquele momento ele era apenas um espectador, impressionado com tudo o que via. Toda a sensação física – o medo, o cansaço, a dor, a fome – tudo desaparecera em face das incríveis imagens e sons da natureza atuando. Não importava que o Gloria Scott estivesse girando como uma folha na beira da cachoeira, não importava que um raio tivesse atingido o mastro principal duas vezes, deixando profundos cortes na madeira seca e um cheiro de queimado em seu rastro; não importava que tanta água inundasse o convés de modo que as pranchas estavam invisíveis sob ela e as escotilhas lacradas fossem visíveis somente porque a água se chocava contra elas e espirravam para cima. Nada disso importava. O navio e os marinheiros eram como formigas em face algo tão enorme e imparável e belo.
No estágio em que ele havia imergido entre o sono e o estado hipnótico, ele permanecia com os olhos abertos, mas não via nada. Ele voltou gradualmente aos seus sentidos para descobrir que a tempestade havia diminuído. Os marinheiros estavam no convés, apertando as cordas, destampando as escotilhas e varrendo a água do convés de volta para o mar tanto quanto possível. O céu estava azul novamente, azul e claro.
Havia, mais uma vez, pássaros seguindo o navio à espera de alimentos a serem jogados no mar.
O Sr. Larchmont estava a poucos metros de distância. Ele olhou para Sherlock.
— Aproveitou o seu cochilo? — perguntou ele.
Sherlock sabia o que se esperava que ele dissesse.
— Pronto para o serviço, senhor! — ele retrucou, levantando-se.
— Fico feliz em ouvir isso — disse Larchmont. Ele olhou para o mastro. — Vejo algumas cordas soltas por ali. Eu ficaria muito grato se você as apertasse para mim.
— Sim, senhor! — Sherlock dirigiu-se para lá, mas voltou-se e olhou para Larchmont por um momento. — Quantos marinheiros perdemos, senhor?
Larchmont balançou a cabeça.
— Muitos — respondeu ele calmamente. — E bons homens, todos eles.

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