18 de agosto de 2017

Capítulo um

— PARE! — GRITOU RUFUS Stone. — Você está me matando!
Sherlock afastou o arco das cordas do violino.
— Não faça tanto drama.
— Não estou fazendo drama. Mais alguns segundos e meu coração teria saltado pela garganta e me estrangulado só para não precisar suportar mais essa coisa. Parecia um gato sendo torturado!
Sherlock sentiu sua autoconfiança murchar como uma folha seca no outono.
— Não achei que estivesse tão ruim — protestou ele.
— Esse é o problema — respondeu Stone. — Você não sabe qual é o problema. Se não souber qual é o problema, não pode consertá-lo.
Ele massageou a nuca e se afastou alguns passos, e era evidente que se esforçava para encontrar uma maneira de explicar a Sherlock o que exatamente havia de errado. Vestia uma camisa listrada larga, as mangas enroladas displicentemente, e um colete que parecia fazer parte de um terno fino, mas a calça era de cotelê e o couro das botas estava gasto. Ele se virou e olhou para Sherlock por um momento. Seu rosto tinha uma expressão de absoluta perplexidade e – como o menino percebeu, com um aperto angustiante no peito – de decepção.
Sherlock virou-se para não ver aquela expressão no rosto de alguém que ele considerava um amigo e também uma espécie de irmão mais velho.
Deixou o olhar passear pelo cômodo em que os dois se encontravam – por qualquer lugar que não fosse Stone. Eles estavam no sótão de um edifício antigo de Farnham. Stone alugava um quarto no segundo andar, e, como a senhoria gostava dele, deixava-o ensaiar e praticar com o violino – e ensinar ao único aluno de música que ele já aceitara – no amplo espaço do sótão.
O cômodo era grande e empoeirado, os feixes de luz do sol que vazavam pelas brechas no telhado formavam escoras diagonais que pareciam ajudar os esteios de madeira a sustentar o teto triangular. De acordo com Stone, a acústica era ligeiramente pior que a de um celeiro, mas consideravelmente melhor que a de seu quarto. Havia caixas e baús empilhados ao longo das paredes baixas, e um alçapão em um canto abria-se para uma escada que dava no cômodo em que Sherlock e Stone se encontravam. Subir e descer aquela escada segurando o violino e o arco com uma das mãos era complicado, mas Sherlock gostava do isolamento do sótão e da sensação de espaço.
Um dia, pensou ele, vou ter meu próprio lugar para morar – algum lugar para onde eu possa me retirar do mundo e não ser incomodado. E não vou deixar ninguém entrar.
Lá fora, pombos voejavam e pousavam, bloqueando a luz por instantes. O frio da rua penetrava no sótão, dedos de ar gelado abrindo caminho pelo espaço entre as telhas.
Sherlock suspirou. O violino parecia pesado em sua mão, e também um pouco desajeitado, como se o menino nunca tivesse segurado um instrumento assim antes. No suporte à sua frente estava a partitura de uma peça de Mozart – de acordo com Stone, era a transcrição para violino de uma ária famosa chamada “A rainha da noite”, da ópera A flauta mágica. Pelo que Sherlock entendera, as notas pretas presas entre as linhas da pauta eram como um código, mas o menino logo o decifrara: uma criptografia simples de substituição. Uma bolinha preta naquela linha sempre significava uma nota que soava assim – a menos que estivesse acompanhada de uma cerquilha, o que a fazia subir ligeiramente para um “sustenido”, ou de um “b” angular pequeno, que baixava a nota ligeiramente, para um “bemol”. Sustenido e bemol eram meio caminho para a nota seguinte ou a anterior à que ele estava tocando. Era um código simples e fácil de aprender – mas então por que Sherlock não conseguia transformar a música escrita em algo que Rufus Stone pudesse ouvir sem fazer careta?
O menino sabia que seu progresso não estava sendo tão rápido quanto Rufus gostaria, o que o deixava com raiva. Queria ter sido capaz de pegar o instrumento e tocar com perfeição já na primeira vez e em todas as outras, mas infelizmente a vida não era assim. Deveria ser, pensou Sherlock, com rebeldia. Ele se lembrava de ter sentido o mesmo em relação ao piano na casa de sua família. Passara horas sentado ao instrumento, tentando descobrir por que não conseguia tocá-lo logo de início. Afinal, a questão do piano era sua lógica invariável: quando se apertava uma tecla, uma nota saía. A mesma tecla sempre produzia a mesma nota. Com certeza, era preciso apenas lembrar qual tecla gerava qual nota para que se pudesse tocar. O problema era que, por mais que tivesse pensado no assunto, Sherlock nunca conseguira se sentar ao piano e tocar como sua irmã fazia – um som fluido e belo, como as águas de um riacho.
Quatro cordas! O violino só tinha quatro cordas! Seria assim tão difícil?
— O problema — disse Stone de repente, virando-se e encarando Sherlock — é que você está tocando as notas, mas não a melodia.
— Isso não faz o menor sentido — retrucou Sherlock, na defensiva.
— Faz todo o sentido. — Stone suspirou. — As árvores não são a floresta. A floresta é formada por todas as árvores, em conjunto, e mais os arbustos, os animais, os pássaros e até mesmo o ar. Sem tudo isso, resta apenas um monte de madeira... nenhum sentimento, nenhuma atmosfera.
— Então de onde vem o sentimento na música? — perguntou Sherlock, frustrado.
— Não das notas.
— Mas no papel só tem as notas! — protestou Sherlock.
— Então acrescente algo seu. Acrescente alguma emoção.
— Mas como?
Stone balançou a cabeça.
— São as pequenas lacunas que você inclui... as hesitações, as ênfases sutis, as ligeiras variações de velocidade. É aí que mora o sentimento.
Sherlock fez um gesto na direção da partitura no suporte.
— Mas isso não está escrito! Se o compositor quisesse que eu fosse mais rápido ou mais devagar, teria escrito isso na música.
— Ele escreveu — retrucou Stone. — Em italiano. Mas isso é só uma orientação. Você precisa decidir como quer tocar a música. — Ele suspirou. — O problema é que você está tratando isso como um exercício de matemática ou de gramática. Quer ter todas as peças diante de si e acha que seu trabalho é montar o conjunto. A música não é assim. Ela demanda interpretação. Demanda que você acrescente algo seu. — Ele hesitou, tentando achar as palavras certas. — Qualquer execução, na verdade, é um dueto entre você e o compositor. Ele dá as linhas gerais, mas você acrescenta os detalhes. É a diferença entre ler e representar uma história. — Percebendo a expressão desolada no rosto de Sherlock, ele continuou: — Olhe, você já viu Charles Dickens lendo um de seus próprios contos diante de uma plateia? Experimente algum dia, vale o preço do ingresso. Ele faz uma voz diferente para cada personagem, anda de um lado para o outro no palco, fala mais rápido nas partes empolgantes e lê como se nunca tivesse visto aquilo antes e estivesse tão ansioso quanto a plateia para descobrir o que vai acontecer. É assim que você deve tocar: como se nunca tivesse ouvido a música antes. — Ele hesitou e fez uma careta. — Quer dizer, de um jeito bom. Seu problema é que você toca a música como se nunca a tivesse ouvido antes e a estivesse descobrindo ao longo do caminho.
Sherlock pensou que era mais ou menos isso mesmo.
— Será que devo desistir? — perguntou ele.
— Nunca desista — replicou Stone energicamente. — Nunca. De nada. — Ele passou a mão pelo cabelo mais uma vez. — Talvez eu tenha abordado a questão do jeito errado. Vamos tentar um caminho diferente. Certo, você encara a música como se fosse um problema matemático... bom, vejamos quais músicos escreviam matemática em suas composições.
— Existe algum? — perguntou Sherlock, desconfiado.
Stone refletiu por um instante.
— Vamos pensar. Johann Sebastian Bach era famoso por colocar códigos e brincadeiras matemáticas em suas melodias. Se você olhar a Oferenda musical, algumas das peças são um espelho de si mesmas. A primeira nota e a última são iguais; a segunda e a penúltima são iguais; e por aí vai, até o meio da peça.
— Uau. — Sherlock estava impressionado com a audácia da ideia. — E ainda assim funciona como música?
— Ah, sim. Bach era um compositor excepcional. Suas brincadeiras matemáticas não prejudicam a música, pelo contrário: a incrementam. — Stone sorriu, percebendo que finalmente prendera a atenção do menino. — Não sou especialista em Bach, mas acredito que exista outra peça dele estruturada de acordo com uma espécie de sequência matemática, em que um número leva ao seguinte de acordo com alguma regra. É uma peça com nome italiano. Agora, tentemos com Mozart de novo, mas desta vez, enquanto estiver tocando, quero que recupere aqueles sentimentos. Lembre-se deles e deixe-os orientar seus dedos.
Sherlock voltou a erguer o violino até o ombro, acomodando-o entre o queixo e o pescoço. Deixou que os dedos da mão esquerda encontrassem as cordas na extremidade do braço. Dava para sentir o quanto a pele da ponta de seus dedos havia engrossado sob a tutela incansável de Stone. O menino ergueu o arco e o manteve firme acima das cordas.
— Comece! — ordenou Stone.
Sherlock observou as notas na folha, mas, em vez de tentar entendê-las, deixou que seu olhar deslizasse por elas, encarando a folha como um conjunto inteiro, e não enxergando cada nota individualmente. Olhando a floresta, não as árvores. Ele se lembrou das notas que estava tocando antes, e então respirou fundo e começou.
Nos minutos seguintes, o tempo pareceu um borrão. Os dedos de Sherlock iam de uma corda a outra, apertando-as para emitir as notas certas uma fração de segundo antes que seu cérebro pudesse enviar qualquer sinal para dizer aos dedos quais eram. Era como se o seu corpo já soubesse como agir, deixando a mente livre para flutuar além da música e procurar seu significado. Ele tentou pensar na peça como se alguém a estivesse cantando, e deixou que o violino se tornasse a voz, hesitando em algumas notas, reforçando outras para enfatizar sua importância.
A página chegou ao fim sem que ele sequer se desse conta.
— Bravo! — gritou Stone. — Não está perfeito, mas melhorou. Você até me convenceu de que estava sentindo a música, não só a tocando. — Ele fitou os raios inclinados de luz solar que penetravam no cômodo. — Vamos parar por aí: em harmonia, por assim dizer. Continue treinando as escalas, mas também quero que você treine notas individuais. Sustente uma nota de maneiras diferentes... com tristeza, com felicidade, com raiva. Deixe que a emoção entre na música e veja como ela muda a nota.
— Eu... não sou bom com emoções — confessou Sherlock, com a voz contida.
— Eu sou — respondeu Stone, baixinho. — O que significa que posso ajudar. — Ele pôs a mão no ombro de Sherlock por um instante e apertou, então a recolheu. — Agora vá embora. Vá ver aquela menina americana, passe um tempo com ela.
— Virginia? — Sherlock sentiu o coração se acelerar, mas não sabia se era de felicidade ou pavor. — Mas...
— Sem “mas”. Vá vê-la.
— Tudo bem — disse Sherlock. — À mesma hora amanhã?
— À mesma hora amanhã.
O menino enfiou o violino no estojo e desceu a escada, meio deslizando, até o segundo andar da casa, depois correu pelos degraus até o térreo. A senhoria de Stone – uma mulher mais ou menos da mesma idade do músico, com cabelo escuro e olhos verdes – saiu da cozinha para dizer algo quando Sherlock passou rápido, mas ele não ouviu. Em segundos o menino estava sob a fria e insensível luz do sol.
Farnham estava movimentada como sempre: as ruas de paralelepípedos ou de lama estavam cheias de gente indo para todos os lados, cuidando de seus afazeres. Sherlock ficou parado por um instante, observando a cena – as roupas, as posturas, a variedade de embrulhos, caixas e bolsas que as pessoas carregavam – e tentou entender aquilo tudo. Aquele homem ali – o que tinha uma erupção vermelha na testa – estava segurando um pedaço de papel como se sua vida dependesse daquilo. Sherlock sabia que havia uma clínica a alguns minutos de caminhada atrás do sujeito e uma farmácia logo adiante. Com certeza quase absoluta, ele estava indo buscar os remédios receitados em sua consulta. O homem do outro lado da rua – tinha roupas boas, mas estava com a barba por fazer e os olhos vermelhos, e seus sapatos estavam gastos e sujos de lama. Talvez um vagabundo usando um paletó doado por algum paroquiano? E quanto àquela mulher que passou bem na frente de Sherlock, erguendo a mão para afastar o cabelo dos olhos? As mãos pareciam mais velhas que a mulher em si: brancas e enrugadas, como se tivessem ficado muito tempo dentro d’água. Uma lavadeira, obviamente.
Será que era isso o que Rufus Stone queria dizer quanto a ver a floresta em vez das árvores? O menino não estava olhando para as pessoas como se fossem pessoas e sim vendo suas histórias e possíveis futuros, tudo de uma só tacada.
Por um momento Sherlock ficou tonto diante da dimensão de tudo o que estava observando, e então o momento passou e a cena se desfez em uma multidão de gente indo para todos os lados.
— Você tá bem? — perguntou uma voz. — Por um instante achei que fosse desmaiar.
Sherlock se virou e deu de cara com Matthew Arnatt – Matty – a seu lado. O garoto era menor que Sherlock, e um ou dois anos mais novo; por um segundo, porém, Sherlock não viu um menino, seu amigo, mas um conjunto de sinais e indícios. No entanto, foi só por um segundo, e depois ele voltou a ver Matty – o firme e confiável Matty.
— Quer dizer que Albert não está se sentindo bem — disse Sherlock, referindo-se ao cavalo que puxava o barco de Matty, onde o menino morava, sempre que ele queria se mudar de cidade.
— De onde você tirou isso? — perguntou Matty.
— Tem feno na manga da sua roupa — indicou Sherlock. — Você tem dado de comer com a mão para ele. Normalmente você o deixa pastar onde quer que ele esteja amarrado. Só alimentaria um cavalo com a mão se estivesse preocupado, achando que ele não está comendo direito.
Matty ergueu uma sobrancelha.
— Você não precisa me jogar na cara que às vezes gosto de dar o rango para ele — respondeu o menino. — Albert é o mais próximo de uma família que eu tenho. — Ele encolheu os ombros, constrangido. — Então gosto de dar alguma coisa especial para ele de vez em quando.
— Ah. — Sherlock guardou a informação para análise posterior. — Como você sabia que eu estava aqui? — perguntou ele depois de um tempo.
— Dava para ouvir você tocando — respondeu Matty, sucinto. — A cidade inteira ouviu você tocando. Deve ser por isso que Albert não tava conseguindo comer.
— Engraçadinho.
— Não quer ir comer alguma coisa? Tem muita comida sobrando no mercado.
Sherlock pensou por um instante. Ele deveria ficar com Matty ou ir encontrar Virginia?
— Não posso — disse ele, lembrando-se de repente. — Meu tio falou que eu deveria estar de volta para o almoço. Ele quer que eu catalogue e organize uma coleção de sermões antigos que ele adquiriu recentemente em um leilão.
— Que alegria — respondeu Matty. — Divirta-se com isso. — Ele sorriu. — Talvez eu possa ir encontrar Virginia no seu lugar.
— E talvez eu possa pendurar você em uma ponte, de cabeça para baixo e mergulhado até o nariz na água — retrucou Sherlock.
Matty apenas o encarou.
— Eu só tava brincando — disse ele.
— Mas eu não.
Sherlock percebeu que o olhar de Matty insistia em se desviar para a rua, na direção do mercado.
— Pode ir — acrescentou ele. — Vá pegar algumas frutas machucadas e pães velhos. Talvez eu o veja mais tarde. Ou amanhã.
Matty deu um breve sorriso de agradecimento e saiu correndo, esquivando-se e enfiando-se pela multidão até sumir de vista.

Sherlock andou um pouco pela estrada que saía de Farnham, rumo à casa dos tios. Sempre que uma carroça passava ele se virava para encarar o condutor, mas a maioria evitava seu olhar. O menino não levava isso a mal – vinha fazendo isso havia tempo suficiente para saber que o índice de sucesso era de aproximadamente uma em cada vinte carroças. Depois de um tempo, um dos condutores olhou para ele e gritou:
— Aonde você vai, garoto?
— Mansão Holmes — respondeu ele, também gritando.
— Eles não oferecem trabalho de bico.
— Eu sei. Vou... visitar uma pessoa.
— Pode subir, então. Vou passar pelos portões principais.
Enquanto jogava seu violino para cima da carroça em movimento e a escalava, caindo no meio de um monte de feno, Sherlock se perguntou por que ainda não gostava de admitir que morava lá. Talvez achasse que as pessoas fossem tratá-lo de forma diferente se soubessem que a família dele fazia parte da burguesia local proprietária de terras. Ele achava uma idiotice imensa que algo simples como herdar um terreno e uma casa pudesse separar alguém de outras pessoas. Quando crescesse, Sherlock faria questão de nunca distinguir ninguém por esse aspecto social.
A carroça avançou barulhenta pela rua durante uns vinte minutos, e então Sherlock pulou para fora, gritando um “Obrigado!” alegre por cima do ombro. Olhou o relógio. Faltava meia hora para a refeição: tempo suficiente para que ele se lavasse e talvez trocasse de camisa.
Como sempre, o almoço era uma ocasião silenciosa. O tio de Sherlock – Sherrinford Holmes – ocupava o tempo alternando-se entre comer, ler um livro e tentar afastar a barba da comida e do texto, enquanto a tia – Anna – falava em um monólogo contínuo sobre seus planos para o jardim, sua satisfação em ver que os dois lados da família Holmes pareciam estar se falando de novo, fofocas diversas sobre outros donos de terras da região, e sobre sua esperança de que no ano seguinte o clima fosse melhor do que o que acabara de passar. Vez ou outra, perguntava a Sherlock o que ele vinha fazendo ou como estava se sentindo, mas, ao tentar responder, o menino percebia que a tia continuara falando sem lhe dar atenção. Como sempre.
Mas ele reparou que a Sra. Eglantine – a ameaçadora e severa governanta da mansão – destacava-se por sua ausência. As criadas serviram a comida com a habitual deferência silenciosa, mas a presença trajada de preto que ficava à janela, parcialmente oculta pela luz que vinha de fora, não estava lá. Ele se perguntou por um instante onde estaria a governanta, e então, com um toque de prazer, percebeu que não se importava nem um pouco.
Sherlock terminou de comer antes dos tios e perguntou se poderia se retirar.
— Sim, pode — respondeu o tio, sem tirar os olhos do livro. — Deixei uma pilha de sermões antigos na escrivaninha da minha biblioteca. Eu ficaria grato, meu rapaz, se você pudesse organizá-los de acordo com o autor, e depois ordenar cada pilha pela data. Estou tentando — disse ele, levantando por um momento o olhar sob as sobrancelhas cheias e encarando Sherlock — catalogar o crescimento e o desenvolvimento das cisões na cristandade, com referência particular à criação recente da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias na América. Esses sermões deverão se mostrar muito úteis para esse propósito.
— Obrigado — respondeu Sherlock, retirando-se.
A biblioteca de tio Sherrinford cheirava a livros velhos e secos, mofo, encadernações de couro e fumo de cachimbo. Quando as portas se fecharam às suas costas, Sherlock sentiu o silêncio como algo quase físico: uma verdadeira pressão nos ouvidos.
A escrivaninha de Sherrinford estava coberta por pilhas altas de papéis soltos de todos os tamanhos e espessuras. Alguns eram datilografados, outros escritos à mão em diversos estilos; a maioria estava presa com laços ou barbante. Ao se sentar, um pouco trêmulo, na cadeira de couro barulhenta do tio, Sherlock se deu conta, com um aperto no coração, de que as pilhas de papel eram mais altas que ele e o impediam de ver o restante da biblioteca. A tarefa seria longa e tediosa.
Ele começou a trabalhar. O processo parecia simples – pegar um texto da pilha mais próxima, descobrir quem era o autor e o ano em que fora escrito para depois colocá-lo em uma das várias pilhas no chão atrás de si –, mas é claro que não foi tão corriqueiro assim. Alguns sermões não tinham o nome do autor escrito em lugar algum, outros não tinham data e outros ainda não eram datados nem assinados. Sherlock logo percebeu que precisaria tirar suas conclusões com base em outras pistas. Uma delas era a caligrafia. Analisando a escrita irregular e fina, era óbvio que alguns sermões tinham sido redigidos pela mesma pessoa, e o menino ficou feliz de colocá-los todos na mesma pilha. Outros textos mencionavam lugares específicos – em geral, igrejas –, o que significava que ele poderia situá-los ao menos na mesma região geográfica e, portanto, provavelmente atribuí-los ao mesmo autor ou grupo de autores. Com o tempo, Sherlock percebeu que alguns dos textos datilografados apresentavam as mesmas características – um apagado, um particularmente alto –, o que indicava que talvez tivessem sido redigidos na mesma máquina de escrever. Assim, também colocou-os em uma mesma pilha. O menino não chegou a ler atentamente nenhum dos sermões – isso teria sido uma perda de tempo a que ele não podia se permitir –, mas, enquanto os folheava à procura de indicações de autoria e data, ainda assim conseguiu registrar um ou outro detalhe: os altos e baixos da vida no campo, o desejo insatisfeito do amor de Deus, a análise cuidadosa de assuntos, afinal, imperscrutáveis. Também achou ter compreendido a personalidade dos homens que haviam escrito os sermões: um era sério e sisudo, apavorado pelo fogo eterno do inferno; outro se deslumbrava com a beleza da criação divina; um terceiro se concentrava em detalhes e pormenores, ignorando completamente o contexto mais amplo. Pelo menos um, pensou Sherlock, era de uma mulher que escrevia os sermões a serem apresentados pelo marido.
No fim das contas, o trabalho o manteve ocupado por umas boas duas horas, durante as quais ele não foi perturbado.
Depois de algum tempo, ele decidiu fazer um intervalo e esticar as costas doloridas. Levantou-se e se afastou da escrivaninha, impressionado com o fato de que as pilhas de papel não pareciam nada menores, apesar de outras catorze ou quinze pilhas terem surgido no chão.
O menino passou a circular pelas estantes repletas de livros de seu tio, deslizando os olhos pelos títulos sem se concentrar em nenhum. Por algum tempo, ele não sabia bem o que estava procurando, ou mesmo se estava realmente procurando algo, mas então lhe ocorreu conferir se o tio tinha algum livro sobre Bach, ou sobre música em geral. Talvez Sherlock pudesse descobrir alguns detalhes sobre a maneira como os compositores usavam a matemática em suas obras. Embora Sherrinford Holmes passasse seu tempo escrevendo sermões e outros textos religiosos para vigários e bispos de todo o país, sua biblioteca não era apenas um repertório de livros sobre cristianismo. Havia uma boa seleção de títulos sobre praticamente todos os assuntos do mundo. E, pensou Sherlock consigo mesmo, Johann Sebastian Bach era um notório compositor de músicas religiosas. Ele com certeza criara muito material para órgãos de igrejas, e Sherlock tinha uma forte impressão de haver visto o nome do compositor junto a diversas peças nos hinários da capela na Escola Deepdene para Meninos, e também nos da igreja local. Faria sentido que um escritor religioso tivesse livros sobre Bach em sua coleção.
Sherlock embrenhou-se mais nas penumbras das estantes, procurando qualquer coisa relacionada a música. A porta não estava visível quando ele a ouviu se abrir. Imaginou que fosse o tio, então voltou-se em direção à luz para lhe dizer como o trabalho avançava, mas saiu do corredor entre duas estantes bem a tempo de ver as anquinhas pretas de uma saia de crinolina desaparecerem atrás de uma estante do outro lado da biblioteca.
Sra. Eglantine? O que ela estava fazendo ali?
Ela parecia saber exatamente aonde ia. Confuso, Sherlock se aproximou devagar, fazendo o máximo de silêncio possível. Ele não sabia por quê, mas tinha a sensação de que a governanta fazia algo secreto, clandestino, algo que ela desejava que permanecesse em segredo. Com certeza não iria espanar as estantes – essa tarefa estava abaixo dela, e era reservada a uma das criadas.
Sherlock olhou pelo canto da estante, mantendo o corpo e a maior parte do rosto escondidos. Era a Sra. Eglantine. Ela estava ajoelhada mais ou menos no meio do corredor entre as estantes, a saia de crinolina espalhada à sua volta, tirando blocos inteiros de livros e largando-os no tapete. Parte da mente de Sherlock sofreu ao ver os livros serem tratados com tanto descaso, alguns caíram abertos, com as páginas dobradas ou a lombada amassada. Depois de ter retirado todos, ela se abaixou ainda mais, com a cabeça perto do tapete, e observou o espaço recém-liberado. O que quer que estivesse procurando não estava lá. Bufando de decepção, a governanta enfiou de volta os livros às pressas, aparentemente sem se importar com a ordem em que estavam antes ou se os enfiava de cabeça para baixo ou na orientação certa.
Ela olhou para a esquerda, na direção contrária à de Sherlock. Alerta, ele recuou logo antes de ela virar a cabeça para a direita e olhar em sua direção. O menino sabia que era um exagero da imaginação, mas ele quase conseguia ver a intensidade do olhar da governanta queimar o tapete e levantar a poeira.
Sherlock contou até vinte e voltou a espionar na mesma hora em que começou a ouvir o barulho de batidas irregulares. Convencida de que não estava sendo observada, a Sra. Eglantine vasculhava outra prateleira, mais alta, jogando os livros no chão. De novo examinou atentamente o espaço vazio, fez uma careta de frustração e enfiou os livros de volta de qualquer jeito.
— Como você ousa entrar na minha biblioteca! — gritou uma voz. — Saia daqui agora!
Sherlock ergueu a vista, em choque. Na outra extremidade da fileira de estantes estava Sherrinford Holmes. Ele devia ter entrado em silêncio, sem que Sherlock nem a Sra. Eglantine percebessem.
A governanta se endireitou devagar.
— Você é um idiota — disse ela, lentamente e com clareza. — Não possui autoridade nesta casa... não mais. Eu sou a responsável aqui.

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