7 de agosto de 2017

Capítulo um

A LUZ DO SOL BRILHAVA na superfície da água, e os reflexos atingiam os olhos de Sherlock como adagas afiadas. Ele não parava de piscar, e tentou manter as pálpebras semicerradas para diminuir o desconforto.
O pequeno barco a remo balançava suavemente no meio do lago. Ao redor, logo além da margem, o gramado se elevava em todas as direções, coberto por arbustos e árvores esparsos. Era como se o lago estivesse no meio de uma tigela verde, com o céu azul sem nuvens formando uma tampa.
Sherlock estava sentado na proa do barco, virado para a popa. Amyus Crowe também, e seu peso fazia seu lado da embarcação afundar um pouco, deixando o lado de Sherlock mais alto. Crowe segurava uma vara de pesca de bambu sobre o lago. Uma linha fina ligava a ponta da vara a um pequeno tufo de penas que flutuava na água: uma isca que, para um peixe faminto, podia parecer uma mosca.
Entre os dois, no fundo do barco, havia um cesto de vime vazio.
— Por que só trouxe uma vara? — perguntou Sherlock aborrecido.
— Porque este não é um dia de pescaria — respondeu Crowe, paciente, os olhos fixos na isca flutuante —, por mais que possa dar essa impressão. Não, isto é uma aula sobre habilidades para a vida.
— Eu devia ter imaginado — resmungou Sherlock.
— Embora também seja uma forma de conseguir o jantar desta noite para mim e para Virginia — reconheceu Crowe. — Sempre que possível, tento fazer com que as lições sirvam a diversos propósitos.
— Então eu só fico aqui sentado? — perguntou Sherlock. — Vendo você pescar o jantar?
— É mais ou menos isso — respondeu Crowe, sorrindo.
— E isso vai demorar?
— Bem, depende.
— Do quê?
— De eu ser ou não um bom pescador.
— E o que faria de você um bom pescador? — quis saber Sherlock, consciente de que fazia o jogo de Crowe, mas incapaz de se conter.
Em vez de responder, Crowe girou a manivela de osso da carretilha, recolhendo a linha com tranquilidade. A isca de penas saiu da água e ficou balançando no ar, pingando gotas brilhantes de volta no lago. Ele jogou a vara para trás, e a linha passou sobre sua cabeça, a isca parecendo apenas um borrão com o movimento. Crowe fez o arremesso, a isca voou, desenhando um arco no ar, e atingiu outro ponto da superfície do lago, respingando um pouco de água ao redor. Ele sorriu enquanto observava a isca afundar.
— Todo bom pescador — disse Crowe — sabe que os peixes reagem de maneira diferente dependendo da temperatura e da época do ano. No início de uma manhã de primavera, por exemplo, o peixe não morde a isca. A água está fria e aquece pouco porque o sol está baixo e seus raios são refletidos pela superfície da água. Os peixes ficam mais lentos pois seu sangue, que é frio e sofre a influência do ambiente em que está, circula lentamente. Mas é só esperar até o final da manhã ou o início da tarde que tudo começa a mudar. O peixe morde intermitentemente, porque o sol está brilhando na água, aquecendo-a e deixando os peixes mais atentos. É claro, o vento faz tremular a superfície da água e empurra as pequenas migalhas de que os peixes se alimentam, e o pescador tem de seguir esse movimento. Não tem por que você pescar onde a água ainda está fria ou onde não há comida. E tudo isso pode mudar, dependendo da época do ano.
— Eu deveria estar anotando? — perguntou Sherlock.
— Você tem uma cabeça sobre os ombros: use-a. Memorize as informações. — Ele bufou e continuou: — No inverno, por exemplo, a água está fria, talvez até congelada, e os peixes não se movem tão depressa. Eles sobrevivem das reservas que acumularam no outono. Uma boa pescaria é impossível no inverno. Então, o que aprendeu até agora?
— Muito bem. — Sherlock reviu rapidamente os fatos que acabara de registrar na memória. — Na primavera, o ideal é pescar no começo da manhã ou no fim da tarde, e no inverno é melhor ir direto à peixaria.
Crowe riu.
— Um bom resumo dos fatos, mas pense no que está por trás deles. Qual é a regra que explica os fatos?
Sherlock refletiu por um momento.
— O mais importante é a temperatura da água, e o que altera a temperatura é o ângulo de incidência dos raios do sol na superfície e quão quente eles estão. Pense em onde está o sol, calcule onde a água estará morna, mas não quente, e é lá que você vai encontrar os peixes.
— Exatamente.
A isca se moveu, e Crowe se inclinou para frente, os olhos azuis fixos sob as sobrancelhas grossas e cinzentas.
— Cada peixe prefere uma temperatura diferente — continuou ele, falando baixo. — Um bom pescador combina seu conhecimento sobre a preferência do peixe em relação à temperatura da água ao conhecimento da época do ano, da hora do dia e do movimento da água para deduzir qual peixe pode ser encontrado naquela parte específica do lago em determinada época do ano.
— Isso tudo é muito interessante — disse Sherlock, cauteloso —, mas não pretendo adotar a pescaria como hobby. Parece consistir de muito tempo sentado, esperando alguma coisa acontecer. Se tenho de ficar um período tão longo de tempo sentado, prefiro ter nas mãos um bom livro a uma vara de pescar.
— O que estou tentando demonstrar — insistiu Crowe com paciência —, de um jeito muito simples e prático, é que, se você está tentando capturar alguma coisa, precisa fazer isso de uma forma estruturada. Precisa conhecer os hábitos de sua presa e precisa saber como esses hábitos mudam dependendo do ambiente e das circunstâncias. A lição aplica-se tanto aos homens quanto aos peixes. Os homens têm suas preferências, lugares favoritos em diferentes horários do dia, e isso pode mudar se estiver sol ou se estiver chovendo, se o homem estiver com fome ou se estiver satisfeito. Você precisa conhecer sua presa para poder antecipar onde ela vai estar. Depois pode usar uma isca, algo como essas belas penas que amarrei, alguma coisa que a presa ache irresistível.
— Entendi a lição — falou Sherlock. — Podemos voltar agora?
— Ainda não. Eu ainda não pesquei meu jantar. — Os olhos de Crowe moviam-se pela superfície do lago à procura de alguma coisa. — Quando conhecer bem a presa e seus hábitos, vai precisar identificar os sinais de sua presença. Ela não vai pular e se apresentar. Não, ela vai se esconder, vai ser cuidadosa, e você precisará procurar os sinais sutis que indicam que ela está ali. — Seu olhar parou em um trecho do lago a cerca de três metros do barco. — Por exemplo, olhe — disse, esticando o pescoço naquela direção. — O que você vê?
Sherlock olhou com atenção.
— Água?
— O que mais?
Ele apertou os olhos por causa da claridade, tentando enxergar o que Crowe via. Por um momento, uma pequena área da superfície do lago afundou ligeiramente, como uma onda ao contrário. Foi só por um momento; depois voltou ao normal. Mas agora que sabia o que estava procurando, Sherlock viu mais depressões, mais pontos nos quais a superfície do lago parecia afundar por instantes.
— O que é isso?
— O nome é “rebojo” — respondeu Crowe. — Acontece quando o peixe, a truta, neste caso, fica logo abaixo da superfície da água, esperando pegar algum alimento de passagem. Quando enxerga alguma coisa, ele engole uma porção de água, sugando junto o alimento. Tudo que você vê na superfície é uma leve depressão quando a água é puxada para baixo e o inseto é sugado. E isso, meu amigo, revela onde está a truta.
Ele puxou a vara de pescar para mover a isca pelo lago, puxando-a pela linha até fazê-la passar pelo local em que Sherlock vira a truta tentando engolir o alimento. Por um momento, nada aconteceu; depois a isca foi repentinamente puxada para baixo. Crowe recolheu a linha, girando a carretilha tão depressa quanto podia. A água explodiu para o alto em gotas prateadas, e no centro da explosão se debatia um peixe. A boca estava presa ao anzol escondido na isca, e as escamas tinham vários tons de marrom. Crowe ergueu a vara com habilidade, e o peixe quase voou para dentro do barco, onde ficou se debatendo freneticamente. Segurando a vara com uma das mãos para impedir que caísse na água, Crowe usou a outra para pegar um bastão de madeira embaixo do banco. Com um golpe rápido, o peixe ficou imóvel.
— Então, o que aprendemos hoje? — perguntou ele, tranquilo, removendo o anzol da boca da truta. — Conhecer os hábitos de sua presa, saber a isca que ela vai preferir e identificar os sinais de que ela está por perto. Faça tudo isso e terá aumentado muito sua chance de uma caçada bem-sucedida.
— Mas quando vou poder caçar alguém ou alguma coisa? — perguntou Sherlock, compreendendo a essência da lição, mas não como algo que se aplicasse a ele. — Sei que você foi caçador de recompensas na América, mas duvido que um dia eu vá seguir essa profissão. É mais provável que me torne banqueiro ou algo assim.
Só por dizer as palavras, seu coração apertou. A última coisa que queria para sua vida era um trabalho tedioso e burocrático, mas não sabia o que mais poderia fazer.
— Ah, a vida é cheia de coisas que você pode querer capturar — disse Crowe, jogando o peixe no cesto e cobrindo-o com a tampa de vime. — Talvez queira convencer investidores a participar de um esquema lucrativo que criou. É possível que em algum momento da vida você queira uma esposa. Pode precisar encontrar um homem que lhe deve dinheiro. Todos são motivos pelos quais uma pessoa poderia caçar alguém. Os princípios básicos permanecem os mesmos. — Olhando para Sherlock por baixo das sobrancelhas grossas, acrescentou: — Com base em experiências prévias, há sempre assassinos e criminosos com os quais você pode cruzar ao longo da vida. — Ele segurou a vara de pesca e jogou novamente a isca na água. — E, no fim das contas, também sempre há um cervo, um porco ou um peixe para capturar.
Então ele relaxou o corpo e, com os olhos semicerrados, dedicou-se à pescaria por mais uma hora, enquanto Sherlock observava.
Quando havia mais dois peixes no cesto, Amyus Crowe deixou a vara no fundo do barco e se espreguiçou.
— Acho que é hora de voltar — anunciou. — A menos que você queira tentar.
— O que eu faria com um peixe? — perguntou Sherlock. — Meus tios têm cozinheira em casa. Café da manhã, almoço e jantar são servidos sem que eu tenha de me preocupar.
— Alguém tem de pegar os animais para fazer a comida — argumentou Crowe. — E um dia você talvez tenha de se preocupar com a próxima refeição. — Ele sorriu. — Ou poderá querer surpreender a adorável Sra. Eglantine com uma bela truta para o jantar.
— Eu poderia deixar o peixe na cama dela — murmurou Sherlock. — O que acha da ideia?
— Tentadora. — Crowe riu. — Mas, não, acho melhor não.
Crowe pegou os remos e levou o barco até a margem. Depois de amarrá-lo a uma estaca no chão, ele e Sherlock se puseram a caminho do chalé.
A trilha seguia pela encosta inclinada da depressão em que ficava o lago. Crowe carregava o cesto de vime e andava com firmeza; fazia pouco barulho ao se mover, o que era surpreendente, considerando seu tamanho. Sherlock o seguia, agora cansado, além de entediado.
Eles chegaram ao topo da encosta, onde o terreno tornava-se plano. Crowe parou para esperar Sherlock.
— Um comentário — disse, apontando para a superfície azul do lago lá embaixo. — Se algum dia sair para caçar, não ceda à tentação de parar em um lugar como este, seja para apreciar a paisagem, seja para ter uma visão melhor do terreno. Imagine como somos vistos agora por um animal na floresta, recortados como estamos contra a luz. Dá para nos ver a quilômetros.
Antes que Sherlock tivesse tempo de dizer alguma coisa, Crowe retomou a caminhada, forçando a passagem pela vegetação alta. Por um instante, Sherlock perguntou-se como o homem sabia aonde ir sem uma bússola. Quase chegou a fazer a pergunta, mas, em vez disso, decidiu descobrir sozinho.
Tudo o que Crowe tinha para se orientar era a natureza. O sol nasce no leste e se põe no oeste, mas isso não ajuda muito ao meio-dia, quando o sol está a pino. Ou estava enganado? Após um instante de reflexão, Sherlock percebeu que o sol só estaria realmente a pino ao meio-dia em lugares na linha do equador. Para um país no hemisfério norte, como a Inglaterra, o equador se localizava ao sul, e assim, mesmo ao meio-dia, o sol estaria mais baixo no céu. Devia ser desse modo que Crowe se orientava.
— E o musgo costuma crescer mais no lado norte das árvores — falou Crowe por cima do ombro. — Onde há mais sombra e mais umidade.
— Como você faz isso? — gritou Sherlock.
— Isso o quê?
— Como você descobre o que as pessoas estão pensando e as interrompe no momento certo.
— Ah. — Crowe riu. — É um truque que eu explico outra hora.
Sherlock perdeu a noção do tempo enquanto caminhavam pela floresta, e, de repente, Crowe parou e se abaixou, colocando o cesto no chão.
— O que você deduz? — perguntou.
O garoto abaixou-se ao lado dele. No solo macio à sombra de uma árvore, viu a marca de uma pata, uma pegada pequena e em forma de coração.
— Um cervo passou por aqui? — arriscou, tentando conectar o que via com o que podia deduzir.
— Sim, mas para onde foi e que idade tem?
Sherlock examinou a pegada com mais atenção, tentando imaginar a pata de um cervo, mas sem sucesso.
— Por ali? — perguntou ele, apontando na direção da parte mais arredondada da pegada.
— Para o outro lado — corrigiu Crowe. — Você está pensando nas patas de um cavalo, que têm a parte arredondada na frente. A parte mais pontiaguda dos cascos de um cervo sempre aponta na direção em que ele se movimenta. E esse animal é jovem. Você pode perceber pelas pequenas formas ovais atrás da pegada. São deixadas pelos dedos residuais. — Ele olhou em volta. — Olhe aquilo ali — disse, inclinando a cabeça para o lado. — Você consegue ver o rastro passando por entre os arbustos e a relva?
Sherlock olhou na direção indicada, e Crowe estava certo: havia uma trilha muito sutil marcada pela vegetação rasteira e pelos arbustos afastados para os lados. O caminho não tinha mais do que dez ou doze centímetros de largura, calculou.
— Os cervos se movem durante o dia entre a área onde dormem e sua fonte de água favorita, à procura de comida — continuou Crowe, sem se levantar. — Quando encontram uma rota segura, usam-na até se assustarem com alguma coisa. E que conclusão você tira disso?
— A presa mantém os mesmos hábitos, a menos que seja incomodada? — respondeu Sherlock, cauteloso.
— Exatamente. Lembre-se disso. Se está procurando por um homem que gosta de bebida, visite os bares. Se está atrás de um homem que gosta de apostas, vá ao jóquei-clube. E além disso, todo mundo tem de se locomover de algum jeito, então converse com condutores e fiscais, verifique se eles se lembram do homem que está procurando.
Ele se levantou, pegou o cesto e continuou andando pelo bosque. Sherlock o seguiu, olhando em volta com atenção. Agora que Crowe havia indicado o que procurar, conseguia ver diferentes marcas no chão: pegadas de cervos de tamanhos variados e outras que evidentemente haviam sido deixadas por animais diferentes, talvez porcos-do-mato, raposas ou texugos. Ele também conseguia ver trilhas no meio da vegetação rasteira, onde os arbustos haviam sido afastados por animais que passavam. O que antes era invisível agora se tornava evidente. A mesma cena ganhara muito mais componentes a serem observados.
Eles levaram mais meia hora para chegar ao portão da mansão Holmes.
— Aqui eu me despeço — disse Crowe. — Amanhã continuamos. Tenho mais coisas para ensinar sobre rastreamento e caçada.
— Não quer entrar um pouco? — perguntou Sherlock. — Posso pedir para prepararem um bule de chá e uma das criadas pode limpar os peixes para você.
— Muita gentileza — disse Crowe. — Acho que vou aceitar sua oferta.
Juntos, eles subiram a alameda de cascalhos que se estendia até a mansão Holmes. Desta vez Sherlock seguia à frente.
Sem bater, ele abriu a porta da frente.
— Sra. Eglantine! — chamou em voz alta.
Uma silhueta negra surgiu das sombras sob a escada e se aproximou.
— Jovem senhor Sherlock — respondeu a governanta, com sua voz seca como folhas de outono. — O senhor parece tratar esta casa mais como um hotel do que como a residência de sua família.
— E você age como se fosse membro da família, e não uma serviçal — retrucou ele com frieza, embora seu coração palpitasse. — O Sr. Crowe vai tomar o chá da tarde comigo. Por favor, providencie.
Ele ficou onde estava, sem saber se a governanta cumpriria as ordens ou se faria um comentário cortante de recusa. Tinha a sensação de que ela também não estava certa de como reagir, mas, depois de um momento, a governanta se virou e caminhou para a cozinha sem dizer nada.
Sherlock sentiu uma vontade repentina e irresistível de ousar um pouco mais, de provocar a mulher que tanto se esforçara para tornar sua vida desconfortável no último ano.
— Ah — acrescentou o garoto, apontando para o cesto de vime aos pés de Amyus —, o Sr. Crowe pescou alguns peixes. Tenha a bondade de mandar alguém limpá-los para ele.
A Sra. Eglantine olhou para trás, e a expressão em seu rosto seria capaz de azedar o leite. Seus lábios se apertaram no esforço para conter uma resposta.
— É claro — disse a mulher finalmente, por entre os dentes. — Vou mandar alguém vir buscar o cesto. Tenham a bondade de deixá-lo aqui e dirijam-se à sala de visitas.
Ela desapareceu nas sombras como se fizesse parte delas.
— É bom ficar atento a essa mulher — aconselhou Amyus Crowe em voz baixa. — Vejo violência em seus olhos quando ela o encara.
— Não entendo por que meus tios toleram a presença dela — observou Sherlock. — Nem ao menos é uma governanta particularmente eficiente. Os outros empregados têm tanto medo dela que quase não conseguem cuidar de suas tarefas direito. As ajudantes de cozinha derrubam os pratos quando ela está por perto, de tanto que suas mãos tremem.
— Esse assunto merece ser investigado — murmurou Crowe. — Se, como você diz, ela não é uma governanta eficiente, deve haver algum outro motivo para que continue trabalhando na casa, apesar de sua personalidade amarga. Talvez seus tios tenham algum tipo de dívida com ela ou com a família dela e a mantenham aqui como forma de pagamento. Ou talvez ela conheça algum segredo de sua família e faça chantagem para garantir sua permanência em um trabalho fácil.
— Acho que Mycroft sabe — disse Sherlock, lembrando-se da carta que recebera do irmão quando chegou à mansão Holmes. — Creio que ele tenha me prevenido sobre ela.
— Seu irmão sabe muitas coisas — concordou Crowe, sorrindo. — E o que ele não sabe geralmente é o que não vale a pena.
— Você foi tutor dele também, não é? — perguntou Sherlock.
Crowe assentiu.
— Também o levou para pescar?
Uma gargalhada alterou a expressão em geral calma de Crowe.
— Só uma vez — admitiu, rindo. — Seu irmão não se dá muito bem com a natureza. Aquela foi a primeira e a última vez que vi um homem tentar pegar um peixe perseguindo-o em seu ambiente natural.
— Mycroft mergulhou atrás do peixe? — perguntou Sherlock, tentando imaginar a cena.
— Ele caiu quando tentava puxar o peixe para o barco. E, quando o peguei de volta, ele jurou que nunca mais deixaria a segurança da terra firme, e que seria ainda melhor se essa terra firme fosse a rua pavimentada de uma grande cidade. — Crowe fez uma pausa. — Mas, se perguntar a ele, seu irmão saberá dizer quais são os hábitos alimentares e os hábitats de todos os peixes da Europa. Ele pode ter pouco jeito com exercícios físicos, mas seu raciocínio é afiado como a tesoura de uma costureira.
Sherlock riu.
— Venha, vamos para a sala — disse. — O chá será servido em um momento.
A sala de visitas ficava logo depois do saguão, na frente da casa. Sherlock se jogou em uma poltrona confortável, enquanto Crowe instalou-se em um sofá grande o bastante para acomodar seu corpo avantajado. O assento rangeu com o peso. Amyus Crowe provavelmente era, calculou Sherlock, tão pesado quanto Mycroft Holmes, mas, no caso de Crowe, o volume era constituído por puro músculo.
Batidas suaves à porta anunciaram a chegada da criada, que carregava uma bandeja de prata na qual havia um bule de chá, duas xícaras com pires, uma pequena jarra de leite e um prato com fatias de bolo. Ou a Sra. Eglantine fora de uma generosidade incomum ou um dos empregados decidira tratar o visitante com cortesia.
Havia também um envelope branco e estreito na bandeja.
— Uma carta para o senhor — avisou a criada sem fazer contato visual com Sherlock. Ela deixou a bandeja na mesa. — Precisam de mais alguma coisa?
— Não, obrigado.
Assim que a criada saiu, Sherlock estendeu a mão para o envelope com evidente ansiedade. Não recebia muitas cartas na mansão Holmes, e quando elas chegavam quase sempre eram de...
— Mycroft!
— Isso é um fato ou uma dedução? — perguntou Crowe.
Sherlock brandiu o envelope.
— Reconheço a caligrafia e o selo postal é de Westminster, onde ficam o escritório, a casa e o clube que Mycroft frequenta.
Sherlock abriu o envelope, puxando a aba para romper a cera que o mantinha lacrado.
— Veja! — disse ele, já com a folha de papel na mão. — A carta foi escrita no papel timbrado do Diogenes Club.
— Verifique o selo no envelope — murmurou Crowe. — Qual foi a hora da postagem?
— Ontem, às três e meia da tarde — respondeu Sherlock, confuso. — Por quê?
Crowe o encarou imperturbável.
— No meio da tarde de um dia de semana e ele estava no clube escrevendo cartas, e não no escritório trabalhando? Acha que essa é uma atitude habitual de seu irmão?
Sherlock pensou por um momento.
— Certa vez ele me disse que costuma almoçar no clube — respondeu o menino depois de uma pausa. — Mycroft deve ter escrito a carta enquanto almoçava, e pediu ao criado do clube para postá-la. A correspondência deve ter sido recolhida no início da tarde, a carta deve ter chegado ao posto do correio por volta das três da tarde e foi selada meia hora depois. Não há nada de suspeito nisso, certo?
Crowe sorriu.
— Absolutamente nada. Eu só estava tentando demonstrar que muitos fatos podem ser deduzidos a partir de uma simples carta. Se o selo postal fosse de Salisbury, em vez de Westminster, teríamos muitas questões e dúvidas por se tratar de uma ocorrência incomum. Se soubéssemos que seu irmão nunca sai do escritório durante o dia, nem mesmo para almoçar, o que seria uma ocorrência improvável, devo admitir, e ainda assim a carta tivesse sido redigida no papel timbrado do clube que ele frequenta, isso também seria incomum. Poderíamos ter deduzido que seu irmão perdeu o emprego ou que estava suficientemente perturbado para faltar ao trabalho, ou sair dele mais cedo.
— Ou ele simplesmente estava no escritório usando as folhas de papel que pegara no Diogenes Club — sugeriu Sherlock.
Crowe pareceu desconcertado.
— Acho que sempre existe uma explicação alternativa — resmungou.
Sherlock leu a carta rapidamente, sentindo-se mais animado a cada parágrafo. Quando terminou, estava quase eufórico.

Meu querido Sherlock,
Escrevo apressado porque espero a chegada de uma torta de bife e rins, e desejo apreciá-la com toda a justiça merecida antes de voltar ao escritório.
Espero que esteja bem, e que os diversos ferimentos de suas recentes aventuras tenham cicatrizado. Espero também que nossos tios estejam bem e que a Sra. Eglantine não esteja se mostrando excessivamente desagradável.
Você ficará satisfeito em saber, tenho certeza, que providências foram tomadas para que continue estudando na mansão Holmes. A notícia de que nunca mais terá de voltar à Escola Deepdene não será exatamente um grande choque, presumo.
Amyus Crowe seguirá sendo seu tutor para os aspectos mais práticos e experimentais da vida, e tio Sherrinford aceitou assumir a responsabilidade por sua educação religiosa e literária, ficando de fora apenas a matemática. Ainda vou pensar sobre isso, e mandarei notícias quando tomar uma decisão. O objetivo, é claro, será preparar você para ir à universidade em alguns anos. Podemos discutir posteriormente se prefere Oxford ou Cambridge.
A propósito, hoje de manhã recebi uma carta de nosso pai. Ele deve tê-la postado na Índia no momento em que chegou, já que a missiva resume tudo o que lhe aconteceu durante a viagem. Tenho certeza de que você prefere ler a carta a me ouvir relatá-la, por isso o convido para almoçar comigo (no clube, naturalmente) amanhã. Por favor, estenda o convite ao Sr. Crowe: tenho alguns detalhes que gostaria de discutir com ele sobre sua educação. O trem que parte de Farnham pela manhã, às nove e meia, os deixará em Waterloo em tempo de me encontrarem ao meio-dia em ponto.
Aguardo ansiosamente para vê-lo amanhã e ouvir tudo o que tem para me contar sobre os ocorridos desde nosso último encontro.
Seu querido irmão,
Mycroft.

— Alguma coisa interessante? — perguntou Amyus Crowe.
— Nós vamos a Londres — respondeu Sherlock, sorridente.

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