30 de agosto de 2017

Capítulo treze

SHERLOCK OLHOU PARA A MENINA em perplexidade. Ela olhou para trás, os olhos cheios de alguma emoção fervente que Sherlock não conseguia identificar – fúria, talvez? Ou talvez violenta frustração por ser descoberta?
Sua pele era acinzentada. Sherlock não sabia por que. Seus cabelos e seus olhos eram cinza também. Seus braços e pernas eram finos como varas, e seu corpo não tinha um centímetro de gordura sequer sobrando. Suas roupas eram da mesma cor que a carne, de um cinza empoeirado. Parecia uma pequena estátua, ali de pé, preparada para correr. Apenas o movimento de seus olhos enquanto ela buscava ao redor dava alguma indicação de sua humanidade essencial.
A atenção de Sherlock deslocou-se para o objeto que a garota segurava. Era feito de metal, mas parecia um pouco com um conjunto de dentaduras – dentes e gengivas brilhando à luz da lua, assim como a pele da garota. Havia um mecanismo de relógio em algum lugar ali, e uma mola, segurando os dois lados do dispositivo separadamente. Sherlock podia ver também algo vermelho e emborrachado oculto atrás dos dentes. Que diabos era aquilo?
Os olhos da menina moveram-se para o lado, para Cameron, e Sherlock percebeu o que ela ia fazer.
— Para trás! — ele gritou, e Cameron se jogou para trás quando a menina fechou os dentes de metal em sua garganta.
Os dentes passaram por um fio pela sua artéria carótida, estalando como castanholas quando a menina os fechou com a força da mola.
Por trás da garota, Wu Fung-Yi surgiu. Ele pareceu confuso, como se tivesse acordado e ainda se encontrasse no meio de um pesadelo. Ele a segurou pelo braço. Ela se virou e sibilou para ele. Surpreso, Wu Fung-Yi cambaleou para trás e a soltou. Ela voltou sua atenção para Cameron e saltou para ele, os braços estendidos, os dentes do dispositivo direcionados diretamente para sua garganta. Cameron se jogou para o outro lado no convés do barco, apavorado.
Sherlock quebrou a paralisia. Ele correu pelo convés e pegou a menina pela cintura, puxando-a para trás no momento em que ela alcançara Cameron. Ela atacou com um pé, acertando Sherlock na cabeça. Os pés dela estavam descalços, mas suas unhas eram impressionantemente duras e afiadas. Sherlock sentiu sua pele ser arrancada, rasgada de sua testa em uma tira crua de agonia. Foi como se alguém tivesse lhe acertado com uma forquilha de jardinagem. Ele a soltou e ela caiu para frente, rolando pelo convés. Sua mão bateu na madeira e a coisa que ela segurava escorregou para as sombras. Ela sibilou outra vez, balançando a cabeça de um lado para o outro. Sua língua lambia os lábios, e Sherlock ficou chocado em ver que ela era negra em vez de rosada. Parecia uma lesma hedionda tentando rastejar para fora da boca dela.
Sherlock estendeu a mão para a coisa que a menina tinha derrubado. Seus dedos se fecharam em algo com arestas sólidas e metálicas. Rapidamente ele a pegou. A menina olhou para a própria mão, depois para a dele, e então saltou para Sherlock.
Sherlock jogou o objeto metálico para Wu Fung-Yi e gritou:
— Tire isso daqui!
Ao mesmo tempo em que menina chegou até ele com os braços estendidos. Sherlock a segurou pelos pulsos, parando os dedos dela a uma fração de centímetros antes que eles tocassem seu rosto. As unhas eram como as dos pés, duras e afiadas. Elas pairavam na frente dos olhos de Sherlock, brilhando feito agulhas. Ela se forçou contra ele, tentando fazer com que as garras – e eram garras, Sherlock decidira – furassem sua pele. Ele sabia o que aconteceria em seguida. Ela o cortaria em pedaços.
Ele olhou profundamente em seus olhos enquanto os dois estavam ali, focados em seu combate congelado. Ele procurou por algum fragmento de humanidade, por algum pequeno traço de emoção. Mas não havia nada. Além de seu porte e a maneira como seu cabelo se enrolava, não havia nada de humano sobre ela.
Rosnando, de repente ela jogou seu peso para trás em vez de avançar. Pego de surpresa, Sherlock encontrou-se sendo puxado para frente. Ela trouxe um pé contra o estômago dele. Ele pôde sentir as garras duras que eram as unhas dela arranhando sua pele. Ela caiu no convés, ainda indo para trás, e Sherlock sentiu seus pés sendo erguidos do chão. Ela o puxou por sobre a cabeça, rolando de costas, e, em seguida, soltou seus pulsos. Sherlock girou pelo ar, vendo o convés abaixo dele sendo substituído por juncos. Atingiu a superfície do Yangtzé, levantando uma enorme explosão de respingos de água. O impacto tirou o fôlego de seu corpo. A água fechou-se sobre sua cabeça. Ele podia sentir o gosto da lama, e sentir os grãos entre seus lábios e seus dentes. Desesperado, Sherlock se debateu tentando emergir, mas havia perdido seu senso de direção na queda e não sabia em que direção estava indo. Seus braços balançavam freneticamente. Havia ervas daninhas sob a superfície do rio; coisas longas e viscosa que se enrolavam nele e o impediam de flutuar de volta à superfície. Ele queria desesperadamente tomar um fôlego.
Apesar do fogo que ardia em seus pulmões, ele golpeava com seus braços e pernas, tentando quebrar o aperto insidioso das plantas. Mais por sorte do que por bom julgamento, seu pé bateu em uma pedra no leito do rio, e ele a usou para tomar impulso o mais forte que pôde. As ervas que o seguravam se rasgaram, libertando-o do leito do rio. Seu pé escorregou da pedra, mas não importava – ele tinha dado impulso suficiente para cima até que sua cabeça rompeu a superfície e ele inspirou grandes golfadas de ar.
Por alguns momentos, ele não conseguia ouvir nada além da água correndo em seus ouvidos e o esforço de seus pulmões enquanto tentava respirar, mas aos poucos ele se tornou consciente de vozes que chamavam por ele – “Sherlock! Sherlock!” – e as vozes vindo de outros barcos pedindo um pouco de paz e tranquilidade.
Algo bateu na água perto de sua cabeça. Ele se afastou, pensando que a garota tivesse mergulhado atrás dele, mas era um remo do barco. Wu Fung-Yi o segurava para Sherlock.
Sherlock agarrou o remo e deixou que Wu o puxasse para o barco. Seus braços estavam fracos demais para subir, e ele teve que deixar Cameron e Wu o puxarem desajeitadamente para fora da água. Quando ele caiu para o convés, os três estavam encharcados e exaustos.
— O que diabos era aquilo? — Cameron perguntou.
— Uma menina — Sherlock arquejou.
Cameron ergueu as sobrancelhas.
— Nunca me dei muito bem com as meninas — disse ele secamente. — Elas são todas assim?
Wu e Sherlock apenas olharam para ele, e então todos riram.
— O que aconteceu com ela? — perguntou Sherlock.
Foi Wu quem respondeu.
— Depois que ela o jogou na água, ficou no convés olhando para nós. Ela olhava de Cameron para mim e depois de volta para Cameron. Acho que tentava decidir quem atacar primeiro. Então você rompeu a superfície e começou a espirrar água. Ela percebeu que havia coisa demais acontecendo, então pulou para a lateral do barco e correu para a margem. Eu a vi correndo entre as canas, depois a perdi de vista.
— Acho — Sherlock falou em certo momento — que finalmente encontramos a coisa que invadiu sua casa, Wu – e a sua, Cameron. A mesma coisa que matou seus pais.
— Mas... é uma menina! — disse Wu, incrédulo. — Por que ela faria isso?
— Duvido que tenha sido ideia dela — Sherlock respondeu. — Suponho que ela estava seguindo instruções.
— Eu só a vi brevemente — disse Cameron — mas a pele dela... ela me lembrou de algo. De alguém.
O mesmo pensamento ocorrera a Sherlock.
— Ela se parece com o Sr. Arrhenius — ele falou severamente.
— Quem? — perguntou Wu, franzindo o cenho.
— Sr. Arrhenius. Ele era um dos passageiros do Gloria Scott. A pele dele tem essa mesma cor cinza prateada. Ele disse que é assim por que bebeu algum tipo de líquido à base de prata para evitar contrair doenças. Que a prata funciona como uma barreira natural contra as doenças. — Sherlock franziu o cenho, pensando. — Talvez essa seja a filha dele. As chances de duas pessoas que têm a pele assim não estarem ligadas são bastante pequenas. E eu achava que havia algo, ou alguém, em sua cabine, lá no navio. Ele a trouxe a bordo em sua bagagem – havia uma caixa com buracos para entrada de ar. Mas... sua filha?
— Havia algo desumano nela — disse Cameron, tremendo. — Você viu os olhos dela?
Sherlock assentiu.
— Eu podia ver inteligência lá, mas não era como olhar nos olhos de uma pessoa.
— Você acha que ela nasceu assim? — perguntou Wu.
— Se ou pai dela bebia prata líquida antes de ela ter nascido, então pode ter tido esse efeito — Sherlock meditou. — Talvez isso a tenha modificado antes de ela nascer. Ouvi dizer que as mulheres que bebem muito gim dão à luz a bebês que têm... problemas. Talvez seja um caso semelhante.
— Eu me pergunto o que aconteceu com a mãe dela — Cameron disse em voz baixa. — Será que ela ainda está viva?
O pensamento foi suficiente para encerrar a conversa dos três pelos próximos minutos.
— O que era aquela coisa na mão dela? — Wu perguntou eventualmente.
— Eu não sei. — Sherlock olhou para o menino chinês. — Você foi o último a tê-lo. O que fez com ele?
— Penso tê-lo jogado em um local seguro — disse Wu. Ele se levantou e foi até o barracão no meio do convés. — Por aqui, eu acho. — Ele desapareceu por um momento, depois voltou com algo de metal na mão. — Aqui! — exclamou ele, entregando-o a Sherlock.
Ele segurou o objeto na frente de seu rosto e o examinou enquanto Cameron e Wu se aproximavam. Era como ele tinha pensado, uma boca falsa feita de metal, com um maxilar superior e inferior articulados – mas não uma boca humana. Era muito pequena, pontuda demais, e os dentes eram longos e afiados. Os dois da frente, em particular, eram do comprimento de seu dedo mindinho. A presa direita era uma ponta afiada, enquanto a esquerda parecia estar um pouco quebrada na ponta.
Era uma mandíbula de cobra feita de metal, e supridas de molas para que as partes inferior e superior pudessem se fechar com uma certa pressão.
Ele teve a sensação de que tinha visto a ponta perdida da presa antes. Achava que a tinha pego no Gloria Scott certa vez, quando estava do lado de fora da cabine do Sr. Arrhenius.
Olhando para as presas, Sherlock percebeu que havia buracos estreitos nelas, percorrendo todo o caminho da ponta até a base. Por trás dos dentes, no céu da boca, havia um bulbo feito de algum material emborrachado. Sherlock apertou experimentalmente, e assistiu em choque quando duas pequenas gotas do líquido se formaram uma em cada presa.
— Isso é o que eu penso que é? — perguntou Cameron.
— É veneno — disse Sherlock, fascinado. — Não toquem! — ele olhou para as gotas, espantado. — Vejam, isto é um crânio falso de uma cobra, forjado por alguém com metal, e tem um sistema que injeta o veneno. Com isso você pode efetuar uma mordida em alguém e injetar veneno suficiente para matá-lo. Não há necessidade de ter uma cobra de verdade.
De repente, ele percebeu o que tinha dito. Ele olhou para cima e encontrou Cameron e Wu encarando-os.
— Isso foi o que matou seus pais. Meu Deus, eu sinto muito.
Foi Cameron quem fez a pergunta óbvia.
— Meu pai foi morto por uma garota? Uma menina mais nova do que eu?
Wu Fung-Yi balançou a cabeça.
— Não posso acreditar nisso — ele sussurrou. — Por que uma menina tão pequena faria algo assim?
— Você a viu — Sherlock apontou. — Há algo sobre ela que não está certo. Assumindo-se que ela seja a filha de Arrhenius, acho que toda aquela prata no corpo de seu pai a fez nascer... diferente... das demais pessoas. Ela parece diferente. Acho que seu pai a usa, como você usaria uma ferramenta, ou uma arma.
— Então o que vai acontecer agora? — perguntou Wu. — Você acha que ela virá atrás de nós?
Sherlock deu de ombros.
— Quem sabe? — Uma ideia surgiu em sua mente, e ele a examinou por alguns momentos. — Lembro-me que quando chegamos à beira do rio mais cedo, vi outro barco. Ou, pelo menos, eu vi as luzes. Estava atrás de nós no rio. Eu o vi seguir para a margem mais para frente. Talvez seja de onde ela veio. Se ela é filha do Sr. Arrhenius, então ele pode estar navegando nesse barco, seja para nos seguir pelo rio ou para tentar chegar ao USS Monocacy antes de nós. — Ele olhou para Cameron e Wu. — Acho que preciso ir dar uma olhada.
— As chances são de que é uma coincidência. Havia um monte de barcos no rio. Não há nenhuma garantia de que ele realmente estava nos seguindo.
— Talvez não — Sherlock concordou — mas a menina teve que vir de algum lugar. Está quase amanhecendo. Vocês fiquem com o barco pronto para sair. Farei o reconhecimento.
Os dois garotos se entreolharam, então assentiram.
— Tudo bem — Cameron falou. — Volte em meia hora. Temos que chegar ao Monocacy e avisar o capitão sobre a bomba. Se não estiver de volta, então teremos que partir sem você. Não temos escolha.
— Eu sei.
Ele olhou para as presas metálicas de cobra em sua mão. Ali deveria haver uma trava de segurança em algum lugar, um meio de garantir que as mandíbulas permanecessem abertas de modo que não fosse perigoso carregá-las. Olhando mais de perto, ele podia ver que as mandíbulas eram cuidadosamente próximas, de modo que as presas estivessem protegidas em seu encaixe, e havia uma pequena trava que podia ser movimentada de modo a segurar os maxilares fechados. Deixando-os seguros, ele escorregou o objeto para seu bolso.
— Voltarei em breve — disse ele, com mais confiança do que realmente sentia. Ele pulou para a lateral do barco e sentiu seus pés afundarem na lama macia da margem do rio. Uma linha tênue de plantas partidas conduzia até a margem. Era provavelmente o caminho que a menina havia tomado. Ele seguiu a trilha e logo estava em terra seca.
Um caminho levava ao longo da margem do rio, ladeado pelo mato alto. Sherlock movia-se em um passo rápido, agachando-se para não deixar sua silhueta contra o céu. Ele seguiu para o lugar onde tinha visto o barco com as lanternas verde e amarela ir. Assumindo que não haveria quinze barcos ancorados todos no mesmo lugar, ele deveria ser capaz de encontrar aquele que buscava.
Algo se moveu no mato na frente dele. Seu coração de repente parecia bater várias vezes em rápida sucessão, martelando em seu peito. Ele fez uma pausa, mal ousando respirar, esperando para ver o que se movia e o que a coisa faria. Era a menina, preparando-se para atacá-lo de novo?
A poucos metros de distância dele a vegetação se separou e uma cabeça surgiu. Era verrugosa e coberta de pelos, com um focinho longo e duas presas que apontavam para cima a partir do maxilar inferior. Era  alguma espécie de porco, ele percebeu com alívio. Na verdade, era mais um javali do que um porco. O animal olhou para ele com olhos negros e redondos, bufando em desafio, mas quando não obteve resposta, recuou e afastou-se através do mato alto. Estava, provavelmente, apenas defendendo sua toca, ele decidiu. Talvez tivesse filhotes.
Sherlock supôs que, se o javali o tivesse atacado, ele teria se envolvido em muitos problemas, mas o bicho partira por causa de seu tamanho e sua aparente falta de medo. Uma lição útil para o futuro, ele decidiu; se você parecesse não ter medo, então os animais, e talvez até mesmo as pessoas o tratariam como se você realmente não tivesse medo.
Ele deu ao javali alguns segundos de vantagem, em seguida, seguiu em frente. Poucos minutos depois, ele se achou de frente para um barco semelhante ao que ele e os outros meninos usavam. Estava amarrado a um toco de árvore na margem do rio. Duas lanternas estavam anexadas ao mastro, mas elas não estavam acesas e Sherlock não saberia dizer de que cores eram. Era o barco certo? Estaria ele perdendo seu tempo?
Algo se moveu no convés e ele se abaixou atrás de uma moita de juncos para não ser visto. Cautelosamente, ele separou as canas e olhou através da abertura.
Um homem surgiu a partir da cabana na parte traseira do convés. Era o Sr. Arrhenius. Ele usava seu terno de linho claro e um chapéu panamá. Sua pele prateada parecia brilhar sob a lua minguante, e seus olhos brilhavam como joias individuais. Ele ficou ali por um momento, olhando em volta, e depois assobiou uma única nota baixa.
Um pouco distante de onde Sherlock estava escondido, os juncos se separaram e uma pequena figura saiu da lama à beira do rio para o barco. Rapidamente ela correu até a corda que prendia o barco na margem. Como o Sr. Arrhenius, a pele dela parecia brilhar na luz escassa.
A menina fez uma pausa quando chegou ao convés. Sua cabeça se movia para frente e para trás, ligeiramente elevada, como se farejasse o ar.
O Sr. Arrhenius caminhou em sua direção, parando a poucos metros de distância.
— Você teve sucesso? — ele perguntou suavemente, sua voz sendo levada pelo vento até onde Sherlock estava escondido. — Aqueles moleques intrometidos estão realmente mortos?
A menina olhou para ele sem dar nenhuma indicação de ter entendido suas palavras. Ou talvez entendesse, mas não se importava o suficiente para responder.
— O que há de errado? — perguntou Arrhenius. Sherlock não sabia como, mas de alguma forma ele captara algo no comportamento dela, algum desconforto ou hesitação. — Eles não estavam lá? Era o barco errado?
Ela continuou voltada para ele por alguns instantes e, em seguida desviou o olhar sem expressão, fitando o rio escuro.
— Você falhou — disse ele, de alguma forma entendendo a verdade do que tinha acontecido. — Três meninos, três crianças, e você falhou! — Sua voz ficou mais alta e mais áspera. — E ainda tem coragem de voltar aqui?
Ele deu um passo a frente. Antes que ela pudesse se mover, ele deu um tapa com força. A cabeça dela girou e ela tropeçou, caindo de joelhos. Ficou ali, no convés do barco, de cabeça baixa.
Sherlock estava atordoado. Sua experiência com a menina não era grande, mas até agora ele a tinha visto tão rápida, forte, implacável e perigosa, porém agora ela nem sequer tentava se defender. Era como se ela não pudesse usar os punhos contra seu próprio pai.
Arrhenius olhou para as mãos da menina, que engatinhava no convés.
—E quanto ao injetor? Onde está? Você o perdeu? Deixou-o para trás, onde eles podem encontrar?
Sherlock pensou poder ver algo brilhando nos olhos da menina, mas sem aquele aspecto prateado. Pareciam lágrimas.
— Você o perdeu, não foi?
Ela aparentemente não queria encontrar o olhar de Arrhenius. Ele aproximou-se dela e agarrou-lhe o queixo, erguendo sua cabeça, de modo que ela foi forçada a olhar para ele.
— Patético — ele sibilou. — Tudo o que fiz por você desde que sua mãe morreu, e você me trata dessa maneira. Patético! Nós já estamos correndo contra o tempo por causa do seu fracasso. Se você tivesse matado Malcom Mackenzie quando deveria, então não seria necessário segui-lo até a residência do prefeito para roubar seu aviso, e eu já estaria no local da explosão, para dar o sinal. Por sua causa agora terei que chegar lá... desta maneira indigna. — Ele cerrou sua mandíbula fortemente. Sherlock podia ver os recortes de seus dedos sob a pele. — Você é uma decepção para mim, menina. Uma grande decepção.
Sherlock de repente percebeu que o terreno onde se agachara estava se movendo. Aquilo empinou-se, abrindo-se para revelar uma úmida e vermelha garganta com fileiras de dentes irregulares. Pele escamosa pendurava-se abaixo da boca, balançando conforme a criatura se lançava contra ele, as mandíbulas escancaradas.

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