18 de agosto de 2017

Capítulo treze

— VAMOS! — GRITOU MATTY. — A gente precisa sair daqui!
Sherlock se preparou para pegar a mão de Virginia e garantir que ela chegasse à porta a salvo, mas Crowe o pegou pelo ombro.
— Scobell vai estar lá fora, garoto! — berrou ele. — Deve estar com rifles. Vai nos matar um a um, como coelhos!
Por uma fração de segundo, Sherlock pensou no coelho decapitado no chalé de Amyus Crowe em Farnham. Ele não queria acabar do mesmo jeito.
— Não temos escolha — disse Rufus Stone. — Se ficarmos aqui dentro, vamos morrer queimados.
Já era possível escutar o fogo se espalhando pela palha – um som estalado, como gravetos sendo partidos por mãos gigantescas.
A fumaça entrava pela porta aberta. Já estava difícil respirar, e até enxergar.
— Não acho que ele queira nos matar com fogo — disse Sherlock, de repente.
Crowe o encarou, intrigado.
— Ele quer se vingar de você. Um incêndio não basta, ainda mais se, ao vir os destroços, ele não tiver como confirmar se você sequer estava aqui.
— Então o que ele está tentando fazer? — perguntou Rufus Stone, tentando não tossir.
— Ele quer nos obrigar a sair do chalé. Deve ter homens esperando mais abaixo. Eles estarão armados e nos capturarão quando sairmos.
— Mas é a nossa única saída! — gritou Matty.
Crowe balançou a cabeça.
— Não exatamente. Um pouco abaixo, se conseguirmos chegar lá, existe uma trilha que sobe o penhasco e se afasta da casa. É difícil de ver, mas sei onde fica.
Stone cobriu a boca e tossiu.
— O problema vai ser alcançar essa trilha — disse ele. — Os homens de Scobell não vão deixar que cheguemos muito longe.
— Acho que tenho uma ideia.
Sherlock correu até a porta da frente do chalé. Crowe e Rufus estavam logo atrás, seguidos por Matty e Virginia. Sherlock abriu a porta de repente. O sopro súbito de ar fresco sugou a fumaça e formou uma nuvem enorme que alertaria imediatamente qualquer observador no topo do penhasco rochoso acima – e Sherlock tinha certeza de que haveria alguém lá.
Havia pedras de todos os tamanhos espalhadas pelo chão por onde eles tinham passado antes de entrar no chalé. A uns seis metros de distância, o terreno ficava íngreme e descia por uns três metros – o trecho que eles haviam escalado com as mãos e os pés. Os homens de Scobell se escondiam em algum lugar depois disso, ocultos pelo declive súbito.
— Ei, me ajudem! — gritou Sherlock, começando a deslocar uma das pedras maiores.
Quando perceberam o que ele estava fazendo, Rufus e Crowe também correram para outras duas pedras ainda maiores. Matty e Virginia se juntaram a Sherlock, tentando fazer a rocha se mexer.
Sherlock apoiou o ombro no pedregulho e fez força. Sentiu a garganta e os tornozelos pulsarem por causa das feridas provocadas pelas cordas, mas ignorou a dor e continuou empurrando. O pedregulho se mexeu sob seu peso, levantando-se ligeiramente e inclinando-se para a frente.
— Conseguimos! — gritou ele.
Sherlock ouviu algo passar chiando junto à orelha e se cravar no chão a seu lado. Com o susto, soltou a pedra, que voltou a cair no buraco onde estava, com um baque que deu para sentir na sola dos pés. Ele olhou para o objeto novo, surpreso. Por um instante achou que fosse um graveto, mas havia penas na ponta traseira. Arrancou-o do chão. A extremidade da frente era pontuda, como uma flecha.
O menino olhou para cima. No alto do penhasco em forma de V que cercava o chalé, ele viu a silhueta de homens segurando objetos no formato de cruzes. Estavam mirando em Sherlock tal como fariam com um rifle.
As armas eram bestas. Sherlock nunca havia visto uma, mas conhecia por imagens. Parecia um arco pequeno, mas deitado de lado e feito de metal em vez de madeira. Disparava setas – que eram uma espécie de flechas pequenas – muito rápidas e com força para atravessar uma armadura de metal.
— Saiam da frente! — gritou Matty, puxando Sherlock na direção do chalé.
— Ele não está tentando atirar em nós. Está tentando nos assustar para fugirmos! — berrou Sherlock, livrando-se de Matty e usando todo o peso do corpo para empurrar a pedra. — Lembre-se, eles não querem nos matar!
A pedra se deslocou outra vez, inclinando-se para a frente até quase rolar colina abaixo. O que era exatamente o que Sherlock queria.
Mais setas de besta atingiram o chão à sua volta, mas ele as ignorou. Deu um último empurrão no pedregulho, com todas as suas forças. A rocha rolou pela grama – e continuou rolando declive abaixo, ganhando velocidade, quicando ligeiramente pelo solo irregular. Amyus Crowe também fez uma pedra descer – uma ainda maior, que rolava pesadamente em vez de quicar, criando uma vala de mato e terra pelo caminho. Mas descia – cada vez mais veloz.
O pedregulho de Rufus Stone começou a sair do lugar, mas, em vez de seguir as outras duas na direção da abertura da garganta, desviou-se para o paredão rochoso do penhasco em forma de V. Por um momento Sherlock achou que a rocha fosse parar, mas apenas bateu no paredão e quicou, acertando duas pedras menores no caminho e fazendo-as rolar também.
As pedras grandes e pequenas desapareceram no final do barranco. Passaram-se alguns segundos de silêncio – e então Sherlock ouviu uma gritaria vindo lá de baixo. Imaginou os pedregulhos derrubando a fileira de homens de Bryce Scobell como uma bola de boliche acertando os pinos, quebrando pernas e esmagando pessoas. O menino abriu um sorriso sombrio.
— Mais! — gritou ele, na mesma hora firmando as mãos embaixo de outra pedra e pegando-a do chão.
A pedra saiu do lugar com facilidade. Ele a ergueu até o ombro e a arremessou. Ela bateu no chão e desceu a colina, rolando até sumir de vista. Matty e Virginia também arremessaram pedras menores, enquanto Amyus Crowe e Rufus conseguiram deslocar outros dois imensos pedregulhos.
Mais duas setas se cravaram no chão à sua volta, espalhando terra para todos os lados, mas os atiradores haviam percebido que a tática não estava funcionando. Por um momento Sherlock temeu que eles começassem a atirar diretamente neles, em vez de acertar o chão, mas pelo visto os homens não haviam recebido essa ordem. Os disparos continuaram de forma esporádica, mas já não pareciam perigosos.
A essa altura, a gritaria mais abaixo estava histérica. Sherlock não sabia quantos homens Scobell havia deixado lá, mas, pelo barulho, estavam todos incapacitados ou no mínimo distraídos com a confusão e a dor. Eles provavelmente haviam imaginado um punhado de fugitivos desesperados, que seriam capturados com facilidade, mas em vez disso receberam uma avalanche de pedras.
— Vamos! — gritou Sherlock.
Seguido de Crowe, Virginia, Matty e Rufus, o menino disparou ladeira abaixo, na mesma direção das pedras. O declive parecia mais íngreme do que quando eles haviam subido, e Sherlock sentia que sua velocidade estava ficando descontrolada. Quase escorregou no mato molhado. Tentou desacelerar, mas Amyus Crowe veio por trás, sem querer empurrando-o para a frente.
Enquanto eles desciam resvalando pelo barranco, Sherlock viu as outras partes da emboscada de Bryce Scobell. Havia cinco homens em uma depressão mais adiante. Quatro estavam feridos e ensanguentados. Era impossível saber a gravidade dos ferimentos, mas dois deles estavam prensados pelos pedregulhos que Crowe e Stone haviam lançado colina abaixo. O quinto tentava ajudar os companheiros, mas parecia não saber para que lado correr. Havia bestas espalhadas pelo chão ao redor deles.
Sherlock passou correndo pelos homens antes mesmo de eles perceberem sua presença. Ao olhar para trás, viu Crowe e Rufus diminuindo a velocidade, esperando Matty e Virginia passarem e então voltando a correr, assumindo a retaguarda. Um dos homens de Scobell tateou o chão, tentando pegar uma besta, mas Crowe chutou a arma para longe ao passar.
Eles continuaram correndo, deixando a emboscada para trás.
De vez em quando uma seta disparada dos penhascos se cravava no chão ou ricocheteava nas pedras, mas a distância era grande demais e o ângulo, ruim, e Sherlock sabia, simplesmente sabia, que os atiradores não eram uma ameaça.
Enquanto corria, o menino se sentia eufórico. Ele havia resgatado Amyus Crowe!
— Ginnie! Sherlock! Aqui!
Sem parar, Sherlock olhou por cima do ombro. Amyus Crowe estava na base de uns degraus praticamente imperceptíveis no paredão do penhasco a pouco menos de cinquenta metros de distância do menino. Nem ele nem Virginia perceberam aquilo ao passar correndo, mas Rufus Stone e Matty já haviam começado a escalar. Aquela devia ser a trilha oculta que Crowe mencionara!
Sherlock e Virginia pararam de repente, preparados para se virar e voltar até Crowe, mas, quando estavam prestes a dar o primeiro passo, três homens de Scobell vieram correndo ladeira abaixo atrás do americano. Suas roupas e rostos estavam ensanguentados – os três tinham feito parte da emboscada arruinada – e eles pareciam dispostos a matar, quaisquer que tivessem sido as ordens de Scobell. Queriam se vingar do ataque de avalanche.
Crowe viu o olhar de Sherlock e se virou. O menino percebeu os ombros dele ficarem tensos no mesmo instante. Crowe virou a cabeça de repente para Sherlock e Virginia, e seus olhos estavam arregalados, uma expressão de fúria e terror. Era óbvio que ele havia feito o mesmo cálculo mental do menino. Os homens corriam colina abaixo. Se Sherlock e Virginia tentassem voltar até Crowe, teriam que subir a encosta. De forma alguma eles o alcançariam antes dos homens de Scobell. Apesar da admiração e confiança que Sherlock tinha pelo amigo e mentor, o menino duvidava de que ele sozinho desse conta de três homens furiosos. Ainda mais se esses homens estivessem armados.
— Vá! — gritou Sherlock. — Cuide de Rufus e Matty! Eu cuido de Virginia!
— Não posso! — berrou Crowe.
Seu rosto estava pálido de pavor.
— Você precisa! — respondeu Sherlock. Ele se virou para Virginia, que alternava o olhar entre o menino e o pai. — Confie em mim... precisamos continuar descendo.
Virginia olhou para o pai. Ele estava com uma expressão desesperada. Depois de um tempo que pareceu várias horas, mas que não deve ter durado mais de um segundo, ele assentiu.
Virginia se virou e correu para Sherlock. Crowe escalou a trilha oculta, com uma velocidade extraordinária para um homem daquele tamanho.
A menina agarrou a mão de Sherlock e correu com ele, disparando colina abaixo, para longe dos perseguidores.
Enquanto corriam, Sherlock olhou para trás. Amyus Crowe, Rufus e Matty estavam fora de vista, ocultos pelas pedras. Os perseguidores haviam visto Crowe subir. Dois foram atrás dele, e o terceiro continuara descendo.
A colina começou a ficar menos íngreme à frente de Sherlock e Virginia. À esquerda, o menino viu a capela por onde haviam passado ao subir. Logo estariam na cidade. Conseguiriam despistar o perseguidor lá, ou será que já havia homens de Scobell esperando por eles?
Ainda apertando a mão de Sherlock, Virginia puxou-o na direção da capela.
— Talvez possamos nos esconder ali — falou ela, ofegante.
Eles se agacharam atrás de uma lápide coberta de limo e inclinada em um ângulo perigoso. Mal havia espaço para os dois. Sherlock teve que ficar bem perto de Virginia para que eles pudessem caber sem ser vistos. Ele sentiu o hálito dela no pescoço, sua respiração quente e rápida.
Ouviram o som de botas pisando nas pedras rapidamente desaparecer.
— E agora? — perguntou Sherlock depois de alguns minutos de silêncio.
— Acho que precisamos reencontrar meu pai, Rufus e Matty. De algum jeito.
Sherlock assentiu.
— Certo.
Ele virou a cabeça. Os olhos dela estavam a apenas um centímetro dos seus. Sherlock queria beijá-la, mas apenas disse:
— Vamos.
A vegetação de urze e tojo dificultava a caminhada. Os pés de Sherlock se prendiam nos caules o tempo todo à medida que eles avançavam pelo mato. Os sapatos de Virginia eram muito mais práticos, de forma que ele precisou se esforçar para acompanhar o ritmo dela.
Os dois olhavam os arredores ao avançar, para ver se alguém os alcançara; observavam as construções atrás e o muro baixo do qual se aproximavam aos poucos, mas não havia mais ninguém. Todo o entorno parecia curiosamente deserto. Sherlock tinha medo de que um vulto surgisse de algum lugar de repente, apontasse para eles e gritasse, mas nada aconteceu.
O pôr do sol projetava as sombras dos dois pela urze, roxo sobre roxo. O ar estava frio e com cheiro de flores. Apesar de ser quase inverno, havia algumas abelhas voando morosas, procurando pólen de flor em flor.
— Em que você está pensando?
Sherlock virou a cabeça. Virginia olhava para ele com uma expressão intrigada. Ela havia percebido o ar preocupado do menino.
— Só estava pensando nas abelhas — explicou ele.
— Abelhas? — Virginia balançou a cabeça, sem acreditar. — Fomos separados dos nossos amigos, estamos fugindo de um bando de assassinos, e você pensa em abelhas?
Sherlock deu de ombros, de repente na defensiva.
— Eu entendo as abelhas — disse ele. — Elas não são complicadas. Fazem o que fazem por motivos óbvios. São como pequenas máquinas. Fazem sentido.
— E você não entende as pessoas?
Ele continuou andando, demorou um pouco a responder.
— Por que isso tudo está acontecendo? — perguntou ele de repente. — Foi porque Bryce Scobell decidiu que não gostava dos índios americanos e resolveu matá-los em vez de se mudar para algum lugar onde não houvesse nenhum? Foi porque mandaram seu pai prendê-lo e ele ficou obcecado em encontrá-lo, sem ligar para quantas pessoas acabassem morrendo no processo? Foi porque Scobell, por sua vez, ficou obcecado em se vingar do seu pai e o seguiu até a Inglaterra em vez de se esconder em qualquer outro lugar do mundo? Não entendo! Se as pessoas agissem de forma lógica, nada disso estaria acontecendo agora!
— Scobell é louco, de acordo com meu pai — disse ela, baixinho. — Ele não tem nenhuma moral, nenhum escrúpulo. Faz o que for necessário para conseguir o que quer.
— Deixando a loucura de lado — ponderou Sherlock, contido e pensando no próprio pai —, essa é a única parte que eu entendo em toda essa história. É um comportamento muito lógico.
— Só é lógico se você for a única pessoa a agir assim — comentou ela, ainda baixinho. — Se todo mundo agisse da mesma forma lógica, todos lutariam entre si, a civilização ruiria, o caos se instalaria e só os fortes sobreviveriam.
Caminharam em silêncio por algum tempo. Sherlock sentia que ela o observava, mas não tinha nada a dizer.
De repente, os dois se assustaram quando algo se mexeu subitamente e fez um barulho apressado, mas era apenas um pássaro saindo de algum abrigo e voando.
A essa altura, estavam quase diante do muro de pedra que haviam visto antes. Sherlock olhou para trás de novo, acreditando que veria o mesmo cenário deserto de todas as outras vezes, mas agora havia gente perto da capela. Daquela distância, ele não tinha como saber se eram pessoas do povoado ou homens de Scobell, mas não estava disposto a arriscar. Antes que ele fizesse qualquer coisa, Virginia pegou seu braço e o puxou para o muro. Era da altura da cintura deles; ela pulou por cima com agilidade e sumiu de vista. Sherlock saltou também, indo cair a seu lado.
O menino se ajoelhou e espiou por cima do muro, olhando mais abaixo na colina. Ainda havia gente perto da capela.
— Vamos — instou Virginia. — Precisamos continuar em frente. Precisamos encontrar meu pai.
— Tudo bem — disse ele —, mas com cuidado. Vamos ficar fora de vista.
Os dois seguiram ao longo da sombra do muro, permanecendo abaixados atrás das pedras caso alguém olhasse naquela direção.
Sherlock tentou enxergar mais adiante. Viu um bosque ao longe, após um trecho de terreno irregular.
— Vamos até lá — disse ele. — Precisamos encontrar abrigo antes do anoitecer.
Apesar de toda a tensão, a caminhada até as árvores foi tranquila, até mesmo entediante. Sherlock estava exausto depois de tudo o que havia acontecido aquele dia; a mera ação de pôr um pé na frente do outro sem parar era uma das coisas mais aborrecidas que ele já precisara fazer. De vez em quando o menino tropeçava em uma pedra ou enfiava o pé em um buraco e quase caía – e Virginia achava graça.
Ele ficou atento para o caso de qualquer movimento que indicasse que os dois haviam sido vistos, mas, fora um ou outro coelho e os pássaros voando, Sherlock viu apenas um veado majestoso parado em uma elevação do terreno. Sua galhada parecia duas pequenas árvores sem folhas. O animal os encarou, impassível, com a cabeça inclinada para um lado. Quando teve certeza de que os dois não representavam ameaça, abaixou a cabeça até o chão e começou a comer a urze.
Enquanto Sherlock e Virginia andavam, a cor do céu passou do azul ao anil e do anil ao preto. As estrelas começaram a brilhar: primeiro uma ou duas, mas depois de alguns minutos era impossível contar todas.
Pensando no veado e na maneira casual como o animal os ignorara e começara a mastigar a vegetação, Sherlock se deu conta de que estava com fome. Não, estava faminto. Tirando as panquecas no chalé de Amyus Crowe, ele não comia desde o café da manhã.
Virginia mordia o lábio. Ela também parecia ter fome.
Quais eram as opções? Tentar perseguir um coelho assim que algum aparecesse? O menino tinha poucas chances de sucesso. Jogar a faca de Matty – que ainda estava em seu bolso – e torcer para acertar algum? Sherlock não sabia muito bem como arremessar facas, embora tivesse visto pessoas fazerem isso em feiras. No entanto, ele desconfiava de que as facas precisavam ser cuidadosamente balanceadas para que pudessem girar com leveza sem se desviar do caminho. A de Matty tinha um cabo muito volumoso em relação à lâmina. Sherlock não conseguiria mirar direito.
Ele então se lembrou da primeira lição que Amyus Crowe lhe dera, no bosque que ficava em torno da mansão Holmes em Hampshire. Crowe lhe ensinara quais cogumelos eram comestíveis e quais eram venenosos. Se encontrassem alguns bons, eles poderiam se alimentar. Sherlock olhou em volta. Provavelmente não encontraria nenhum em campo aberto, mas talvez mais perto das árvores achasse alguns fungos crescendo em troncos podres caídos em montes de folhas em decomposição.
Ele ergueu a vista para ver quanto faltava até o bosque. As árvores estavam a pouco menos de um quilômetro de distância.
— Veja — disse Virginia. — Podemos passar a noite ali.
Sherlock olhou na direção em que ela apontava. A princípio não viu nada, mas então percebeu uma pequena construção de pedra em meio às árvores. Por um segundo, pensou que fosse a casa de alguém, mas então notou que era pequena demais, sem janelas nem porta. Era uma cabana, construída para abrigar pastores durante tempestades.
— Você tem um ótimo olho — disse ele.
— Alguma chance de conseguirmos algo para comer? — perguntou Virginia. — Estou morrendo de fome depois de andar tanto.
Sherlock pensou por um instante. Calculou que seria seguro deixá-la sozinha por algum tempo enquanto ia em busca de cogumelos.
Ele lhe contou seu plano. Virginia o encarou, cética.
— Cogumelos? Está tentando me envenenar?
— Confie em mim... seu pai é um bom professor.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Pode até ser, mas você tem certeza de que ele sabe do que está falando?
— Só tem um jeito de descobrirmos.
— Olhe, que tal eu juntar um pouco de lenha e acender uma fogueira enquanto você busca os cogumelos? Assim ganhamos tempo.
— Tem certeza de que vai ficar bem? Tem gente atrás de nós.
Ela o encarou, erguendo uma sobrancelha.
— Sei tomar conta de mim.
Deram uma olhada no interior do abrigo de pedra. Tinha apenas um cômodo, e o vento havia jogado folhas nos cantos, mas parecia razoavelmente seguro. Havia até um pequeno braseiro de lenha, além de umas frigideiras amassadas e alguns pratos de metal.
— Você vai demorar? — perguntou Virginia.
Sherlock deu de ombros.
— O tempo que for necessário. Você quer jantar, não quer?
Ela sorriu.
— Nunca aconteceu de um homem realmente sair para caçar o jantar para mim, tirando meu pai. Até que eu gosto da ideia.
Sherlock não conseguiu se conter.
— E quanto a convidá-la para jantar? Alguém já fez isso? Quer dizer, sem contar o Sr. Crowe.
Ela balançou a cabeça.
— Não.
— E preparar o jantar para você?
— Não.
Ele sorriu.
— Volto assim que der.
O bosque o envolveu em poucos instantes: troncos largos como o corpo dele brotavam de raízes emaranhadas e subiam em direção ao céu, formando com os galhos um teto que parecia rendado. Sherlock caminhou sob o luar débil que atravessava essa cobertura. Pequenos gravetos pareciam tatear seu rosto. Filamentos pendurados de musgo – ou talvez finíssimas teias de aranha – roçavam suas faces e sua testa, e ele os afastava constantemente. Uma coruja piou, e de vez em quando Sherlock ouvia um som vago de algo maior – texugos, furões, talvez um ou outro cervo – mexendo-se pela vegetação rasteira.
Em algum ponto distante, um graveto se partiu como se tivesse sido pisado. Folhas se agitaram. Teria sido o vento ou uma pessoa?
Sherlock ficou tenso, com medo de que os homens de Scobell os tivessem encontrado, mas, depois de pensar um pouco, convenceu-se de que não era isso. Ainda ouvia as corujas e os outros animais. Se os homens de Scobell estivessem por perto, a vida selvagem do local estaria muito mais cautelosa.
Ao se lembrar do cortiço em Edimburgo e dos rostos de homens mortos que ele havia visto encarando-o de dentro de portas escuras, Sherlock começou a sentir um sinal de pânico no peito. Será que eram mortos perseguindo-o pela floresta? Estariam eles se aglomerando em torno da entrada do abrigo de pastores naquele instante, prestes a invadir a construção e atacar Virginia? Seu coração se acelerou. Ele começou a se virar, preparado para voltar correndo para salvá-la, mas se conteve e respirou fundo. Mas que bobagem. Com mãos mentais firmes, ele segurou o pânico no peito e o forçou para baixo. Mortos não andavam. Não existiam fantasmas. Isso não era lógico. Era apenas superstição. Amyus Crowe lhe ensinara muito ao longo daquele ano, mas tudo o que o menino aprendera estivera fundamentado pelo ceticismo elementar que fazia parte de sua personalidade.
Tudo precisava de um motivo para acontecer. Precisava haver uma causa. O que estava morto, estava morto – não continuava se mexendo. A morte era a ausência de vida. O que quer que ele tivesse visto no cortiço, o que quer que ele e Matty tivessem visto em Edimburgo, não se tratava de gente morta.
Sentindo-se melhor, Sherlock voltou a andar. Qualquer que fosse o barulho no bosque, era o vento ou animais correndo. O restante era apenas sua imaginação chegando a conclusões erradas a partir de indícios insuficientes. Ele decidiu que especular sem informações corretas era uma atividade infrutífera. No futuro, se precisasse chegar a conclusões, faria questão de baseá-las em evidências.
Chegou a uma pequena clareira. Sob o luar, o menino viu um punhado de cogumelos que se espalhava pelo material em decomposição no chão da floresta. Aproximou-se e se ajoelhou diante dos fungos. Tinham uma cor alaranjada viva, e as beiradas eram onduladas como folhas de alface.
Sherlock os reconheceu como cantharellus. Arrancou do chão o máximo possível e os enfiou no bolso do casaco.
A alguns metros, achou alguns morchella, com a inconfundível cor marrom e a estrutura interna semelhante a um favo de mel. Do outro lado da clareira, alguns metros para dentro do bosque, encontrou uma massa dos filamentos brancos distintos dos cogumelos hericium, crescendo em um tronco caído.
Com os bolsos e os braços cheios, Sherlock começou a voltar para o abrigo. Tinha cogumelos suficientes para mantê-los alimentados até de manhã. Se encontrasse um pouco de água, poderia cozinhá-los nas frigideiras. E então pensou – haveria algumas ervas ali por perto para usar como tempero?
Ele chegou à cabana pensando em como impressionar Virginia com suas habilidades culinárias.
— Voltei! — avisou em voz baixa, para o caso de ela estar dormindo. — E trouxe o jantar!
Sherlock entrou no abrigo, onde Virginia havia acendido uma fogueira no braseiro. Com a luz das chamas, viu que a menina estava encolhida no chão, dormindo. Ela havia encontrado alguns juncos do lado de fora do abrigo e improvisado um travesseiro. Juntara alguns também para Sherlock e os deixara por perto.
Sherlock não sabia bem o que fazer. Talvez pudesse preparar a comida e depois despertá-la, mas a caminhada pela colina tinha sido longa, e eles ainda precisariam andar mais quando amanhecesse.
Seria melhor a menina dormir agora.
Ele deixou os cogumelos no chão e se sentou ao lado de Virginia. Algo no ar fresco e na longa travessia pelo bosque também abatera seu apetite. Eles não morreriam de fome se pulassem uma refeição. Poderiam cozinhar os cogumelos ao amanhecer.
Sherlock observou o rosto dela. Adormecida, Virginia parecia muito relaxada. Seus lábios formavam um ligeiro sorriso, e Sherlock nunca a vira com uma expressão tão tranquila. Ela costumava parecer muito atenta, especialmente quando olhava para Sherlock, mas agora era como se todo o resto tivesse sido removido e ele pudesse ver a verdadeira Virginia. A menina que ele desesperadamente queria conhecer melhor.
Sherlock estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo dos olhos dela. Virginia se mexeu de leve e fez um barulho, mas não acordou.
Ele a observou por algum tempo, hipnotizado por sua incrível beleza. Era difícil olhar para ela quando os dois estavam juntos à luz do dia, porque ela o veria encarando-a e o encararia também, ou então perguntaria o que ele estava olhando, mas agora Sherlock podia admirá-la o quanto quisesse.
Por fim, ele se deitou ao lado de Virginia, apoiando a cabeça nos juncos que ela havia preparado.
Sentiu o sono envolvê-lo aos poucos. Apesar do perigo, apesar de toda aquela situação, Sherlock estava feliz. Era como se tivesse encontrado o lugar a que pertencia.
O sono chegou de forma tão gradual que ele nem percebeu quando dormiu, mas acordou de repente.
A luz do sol entrava pela abertura do abrigo. Sherlock devia ter se virado durante a noite, porque agora estava voltado para o outro lado, de costas para Virginia.
Ele se virou, e seu coração congelou.
Não havia sinal dela. Três figuras esqueléticas brancas estavam de pé no meio do cômodo, encarando-o com olhos fundos, enormes e sem pálpebras. Suas mãos seguravam lâminas curvas como as foices que fazendeiros usavam para colher trigo.
Sherlock se arrastou na direção da porta, desesperado, mas braços magros o agarraram por trás.
Os dedos que seguravam as mangas de seu casaco pareciam gravetos, mas eram duros feito osso e machucavam ao apertar seus braços.

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